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Exoesqueletos Made in Brazil

Observe a natureza e ela te dará respostas. Uma das soluções que a natureza criou para proteger os seres vivos mais geniais é o exoesqueleto, literalmente esqueletos externos, que dão proteção e apoio ao corpo de muitos insetos, crustáceos e outras espécies. Antigamente só ouvíamos falar desta palavra na biologia, pois quando uma pessoa tinha uma lesão séria que precisasse de uma prótese ela deveria ser o mais escondida possível. A semelhança com os membros humanos era fundamental para não haver nenhum tipo de discriminação. Com o avanço da tecnologia veio também a preocupação não só com a estética mas também com a eficiência destes dispositivos de apoio. E as próteses internas, de implantação dolorosa passaram a não ser efetivamente as melhores opções.

Poderíamos dizer que exoesqueleto é a extensão que potencializa nosso corpo, e também nos protege. Então um carro, bicicleta ou mesmo um martelo não deixa de ser um dispositivo que melhora nossos movimentos, ou seja, assim como os caramujos, também utilizamos exoesqueletos diariamente.

Copa do Mundo de 2014 no Brasil, o país paralisado em frente das televisões no dia da abertura. Além da encenação teatral houve show com grandes astros da música mundial, e em meio a tanta festa um feito inédito para quem respira, vive e ama a ciência.

Juliano Pinto, de 29 anos e, paraplégico, deu o primeiro chute da competição com o auxílio de um exoesqueleto comandado pelo seu cérebro através de sensores conectados numa espécie de capacete onde o pensamento ordena o movimento das suas pernas. Um feito maravilhoso para a ciência brasileira que enfim seria reconhecida e aplaudida por um público mundial de aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas. Sim, meio planeta veria o “chute simbólico”. Mas infelizmente em uma chamada urgente para mostrar o ônibus da seleção brasileira, aquela do 7 x 1 (para quem não lembra: gol da Alemanha!), o grande espetáculo científico resumiu-se a um chute de 3 segundos. Somente 3 segundos mostrando o trabalho de mais de 150 pesquisadores de vários países, comandados pelo Professor brasileiro Miguel Nicolelis. Seriam 29 segundos, uma apresentação internacional sobre pesquisa na área de robótica do mundo resumida em pouquíssimo tempo. Foram apenas 3 segundos…

Exoesqueleto brasileiro

Juliano no momento do chute na Copa do Mundo do Brasil. Fonte: G1/Globo.

Esse é o valor agregado à pesquisa na área de robótica no país do futebol. Após todo esse imbróglio as esperanças foram diminuindo sobre investir, estudar e pesquisar neste país.

Até conhecer estas mulheres que sem saber que era impossível elas foram lá e fizeram (Jean Coteau).

Michele de Souza, neuroengenheira, criou um exoesqueleto junto com um grupo multidisciplinar (o Cycor) que montou este equipamento inteiro no Brasil, com usinagem de baixo custo e desenvolvimento de alta tecnologia. A princípio foram pequenos passos que prometem grandes possibilidades. Muitos pesquisadores no mundo realizam o mesmo feito, a diferença é que este grupo está produzindo protótipos que já estão sendo testados e serão comercializados brevemente. O maior objetivo não é apenas promover a tão sonhada independência para estes usuários, mas sim comercializar o exoesqueleto com um valor semelhante ao de uma cadeira de rodas, em torno de mil reais. Antes desse projeto o valor de um exoesqueleto era inacessível e não comercializável.

Geane Poteriko, professora de Letras da rede estadual do Paraná, viu-se diante de um grande desafio quando sua filha, Dara (foto abaixo), teve a Síndrome da Brida Amniótica. Esta síndrome causa formação de faixas e cordões de tecido fibroso que aderem ao feto, podendo comprimir partes do corpo e causando malformações levando a possíveis amputações no bebê no próprio útero. Dara foi afetada na mão direita e Geane procurou soluções que auxiliassem a independência da sua filha. Descobriu um projeto americano que fornece mãos biônicas de baixo custo criadas para impressoras 3D, através de códigos de construção que eles doam para o mundo todo. Já existem alguns voluntários no Brasil, mas antes mesmo de fazer uma mão para Dara, a mãe começou a pensar que poderia ajudar outras pessoas. Assim Geane criou a Associação Dar a Mão com o professor engenheiro Osiris Canciglieri e a professora engenheira Lúcia Miyake da PUC-PR, e começaram a projetar e construir mãos biônicas de baixo custo. No Brasil esses dispositivos são vendidos em torno de mil e quinhentos reais – o que impossibilita muitas famílias de adquiri-los – e a equipe de Geane sabendo que o custo fica em torno de duzentos reais tomou a decisão de fabricar e doá-los para quem precisa e não pode comprar. Ela criou uma rede de fabricantes voluntários e transformou um desafio pessoal em uma missão humanitária. Dara tem um dispositivo protético 3D de “princesas”, cor de rosa e linda como sua dona. Expõe sua mão com orgulho e a usa melhorando a parte muscular e as cognições cerebrais da região. Outras mãozinhas de heróis estão sendo fabricadas e entregues para crianças que melhoram a autoestima e confiança. Parece brinquedo, mas muda uma vida.

Dara

Dara com sua mão biônica. Créditos: Geane Poteriko.

Fazer robótica no Brasil é complicado. Pouco incentivo financeiro para pesquisas e muito menos para desenvolvimento de dispositivos tão importantes. Seria mais fácil simplesmente ignorar e ir para o exterior realizar estas pesquisas. Estas mulheres superaram todos estes problemas e resolveram que sim: elas podiam! Estão fazendo, não só exoesqueletos, mas história.

Sem dúvida, parafraseando Neil Armstrong: é um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a humanidade. Essas mulheres resolveram que era só “Dar a Mão” e mudar o mundo.

Referências

http://g1.globo.com/pr/parana/videos/v/projeto-feito-por-voluntarios-tem-devolvido-o-sorriso-a-quem-precisa-de-proteses/6002353/

http://g1.globo.com/pr/parana/videos/v/exoesqueleto-e-esperanca-de-mobilidade-para-paraplegicos/5867291/

http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2014/06/jovem-paraplegico-usa-exoesqueleto-chuta-bola-na-abertura-da-copa.html

http://aasdap.org.br/projetos/projeto-andar-de-novo/

http://associacaodaramao.blogspot.com.br/

http://www.cycor.com.br/

http://enablingthefuture.org/

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