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Será que os apps de saúde chegaram pra revolucionar nossas vidas?

marathon-2346948_1920Créditos: Composita/Pixabay

Em 2015, uma pesquisa mostrou que mais da metade da população norte-americana que tem um smartphone tem pelo menos um app de saúde instalado no dispositivo. A maior parte desses apps se propõe a incentivar o usuário a praticar mais atividades físicas, ou a melhorar a dieta, ou também pra ajudar na auto-gestão de doenças crônicas como o diabetes ou a hipertensão arterial. Esse artigo de 2012, de uma pesquisa realizada também nos Estados Unidos, mostra que os apps têm potencial de melhorar a aderência ao tratamento dessas doenças, mas mostra também que ainda existem barreiras pro seu uso e ainda é difícil mostrar categoricamente se eles são eficazes ou não.

Pra tentar identificar essas barreiras e avaliar o potencial de mudança de comportamento dessas ferramentas, algumas pesquisas avaliaram a presença das chamadas Técnicas de Mudança de Comportamento (Behaviour Change Techniques, BCT, em inglês), que são as menores partes de uma intervenção em saúde com o objetivo de mudar ou adaptar comportamentos – como sessões de educação terapêutica, por exemplo. Uma taxonomia foi criada em 2013, no Reino Unido, pra propor uma estrutura com nomes e categorizar 93 dessas técnicas em 16 grupos. Exemplos: no primeiro grupo, chamado “Objetivos e planejamento” (Goals and planning, em inglês), tem técnicas como “Definição de objetivo” (Goal setting), “Resolução de problemas” (Problem solving), “Planejamento de ação” (Action planning), entre outras.

Em 2014, um estudo feito também nos Estados Unidos avaliou os apps de atividade física considerados como “TOP”, e os resultados mostraram que um total de apenas 26 BCTs estava presente na amostra de apps, e a mais comum era relacionada a prover instruções sobre como realizar determinados exercícios. Esse outro, da Nova Zelândia, avaliou apps de dieta e de atividade física, mostrando de maneira muito similar que poucas BCTs são implementadas. Esse estudo feito na França e publicado em 2019 mostrou que, em 46 apps de auto-gestão de doenças crônicas (doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, câncer e diabetes) disponíveis na Google Play store e selecionados a partir de 704 apps “TOP” na categoria “Medicina”, mais 5 apps encontrados em uma pesquisa na literatura científica disponível, apenas 20 BCTs foram utilizadas, no total. Pior ainda, numa avaliação de nível de compreensibilidade a média foi de 42% e mais da metade dos apps não tinha nenhuma sugestão de ação em relação a estados de saúde do usuário (indicar a necessidade de procurar serviços de urgência, por exemplo). As duas últimas análises foram feitas usando a Ferramenta de Avaliação de Material de Educação do Paciente para materiais audiovisuais (Patient Education Material Assessment Tool, PEMAT-A/V, em inglês) e os itens avaliados incluem legibilidade, uso de voz ativa, explicação de termos médicos usados, uso de gráficos e tabelas visualmente claros, presença de ações sugeridas ao usuário, etc. Tudo isso significa que não somente poucas técnicas comprovadamente eficazes são implementadas nesses apps, mas também que o conteúdo deles não é compreensível pra maior parte das pessoas.

Fica claro a partir do resultado desses estudos que o cenário é um pouco preocupante. A maior parte dos estudos é feito em países anglófonos e com apps em inglês, mas não há razões pra pensar que os apps em português sejam muito melhores. Os desenvolvedores precisam urgentemente usar teorias existentes e também se concentrar em melhorar a acessibilidade do conteúdo. Os profissionais de saúde também precisam ter cuidado ao indicar o uso de apps aos pacientes, e talvez o poder público precise se responsabilizar por avaliar periodicamente as ferramentas existentes… Um dado super alarmante que essa pesquisa mostra é que pouco mais de 3% dos apps que eles avaliaram, extraídos dos apps “TOP” na categoria “Medicina” na Google Play store, eram falsos testes de glicemia, de gravidez, de HIV e de pressão arterial. Que horror, não?!

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Predisposição genética: destino ou fator modificável?

Fatores genéticos e de estilo de vida são fatores chave no processo saúde-doença. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, um dos mais prestigiados da área médica, concluiu que a aderência a um estilo de vida saudável pode reduzir parcialmente os riscos de doença arterial coronariana (DAC), a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo, mesmo quando há maior predisposição genética1.

A conclusão parece óbvia, mas para muitas pessoas a predisposição genética para DAC é determinística e dificilmente o risco pode ser modificado – algo como: minha família toda tem, então não importa como eu viva, ficarei doente. Entretanto, não é novidade que as pessoas que aderem ao estilo de vida saudável, como não fumar, evitar a obesidade e ter a alimentação saudável, apresentam taxas reduzidas de eventos cardiovasculares. Assim, o artigo publicado objetivou avaliar a interação entre estilo de vida e o risco genético.

Com base na hipótese de que tanto os fatores genéticos quanto a aderência ao estilo de vida saudável contribuem independentemente para o risco de eventos coronarianos, os autores avaliaram dados de 60 mil participantes de três estudos populacionais . Os pesquisadores desenvolveram uma escala de alto, intermediário e baixo risco genético com base no sequenciamento genético de mais de 50 polimorfismos de um único nucleotídeo (SNPs – Figura 1)* associados a maior risco coronariano nas pessoas estudadas. Foi elaborada também uma pontuação relacionada ao estilo de vida, classificando-o em favorável, intermediário ou desfavorável. Os fatores de estilo de vida considerados foram adaptados das metas estratégicas propostas pela Associação Americana do Coração (AHA) e incluíram não fumar, ausência de obesidade e ingestão de sódio. A alimentação foi considerada saudável se a pessoa fazia pelo menos metade das seguintes recomendações: várias porções de frutas, vegetais, castanhas, grãos integrais, peixes e porções reduzidas de grãos refinados, carnes processadas, carne vermelha, bebidas açucaradas e gorduras trans. Os novos eventos coronarianos considerados foram infarto do miocárdio, revascularização coronária (conhecida popularmente como ponte de safena) e morte de causa cardiovascular.

SNP

Figura 1. Exemplo de SNPs – uma única base diferente da base usual na mesma posição3.

Os resultados do estudo revelaram que o risco de novos eventos foi 91% maior entre os participantes com maior risco genético em comparação com os de menor risco. Os participantes com estilo de vida desfavorável, por sua vez, apresentaram maiores taxas de pressão alta, diabetes, maior índice de massa corporal (IMC – razão entre o peso e a altura elevada ) e lipídeos circulantes desfavoráveis. A presença dos fatores de estilo de vida saudável se relacionaram com a diminuição dos riscos de problemas no coração. O estilo de vida favorável diminuiu quase pela metade a chance de novos problemas, independente do risco genético ser alto, intermediário ou baixo.

A pesquisa traz três conclusões importantes: 1) a variação do DNA herdado e o estilo de vida contribuem independentemente para a presença da doença; 2) o estilo de vida saudável reduziu o risco de maneira similar em todas as classes de predisposição genética. Os resultados apoiam a adoção de ações de saúde pública para promover o estilo de vida saudável. Ou ainda pode-se considerar uma abordagem mais intensiva nas pessoas com risco genético aumentado, esperando que a divulgação do risco genético motive a mudança comportamental; 3) os fatores de estilo de vida podem sim modificar poderosamente o risco cardiovascular, independentemente do perfil de risco genético do paciente, ao contrário da visão determinística e de falta de controle sobre a capacidade de melhorar os fatores de risco adotada por muitas pessoas.

Para resumir, independente do risco genético, ter um estilo de vida saudável diminui o risco de doença coronariana. Ou seja, somos donos do nosso próprio destino!

 

* Mutação em que, uma única base no DNA difere da base usual na mesma posição. Os SNPs são o marcador de escolha na análise genética e também são úteis na localização de genes associados a doenças2.

 

Referências

1) Khera et al. Genetic Risk, Adherence to a Healthy Lifestyle, and Coronary Disease. N Engl J Med 2016;375:2349-58. doi: 10.1056/NEJMoa1605086

2) Seal et al. Tools, resources and databases for SNPs and indels in sequences: a review. Int J Bioinform Res Appl. 2014;10(3):264-96. doi: 10.1504/IJBRA.2014.060762.

3) The International HapMap Consortium. Nature 426, 789-796 (18 December 2003)