4

Somo todos carnívoros? Ou somos todos vegetarianos?

É cada vez mais constante em nossas vida a discussão do que devemos ou não comer. Sugestões de dietas estão por todas as partes, jornal, novela, Twitter, Reddit, na roda do cafezinho do trabalho. Contudo, a motivação que nos leva a essa curiosidade é diferente para cada grupo de pessoas; pode ser a busca por um estilo de vida saudável, pode ser consciência ambiental, solidarização com os animais, guerra contra a indústria alimentícia, moda, intenção de emagrecer ou mesmo a combinação destes e outros fatores.

Uma coisa bastante comum entre os discursos sobre dieta, é afirmar que a “sua” dieta é a correta porque é aquela para qual o nosso corpo é biologicamente preparado para lidar.

Mas o nosso corpo evoluiu para comer o quê?

 

 

woman carrying basket of fruits and vegetables

Foto por rawpixel.com em Pexels.com

A questão pode parecer simples inicialmente. Não possuímos características anatômicas de carnívoros – nossos dentes não são ótimos para rasgar a carne como de onças, nossos intestinos são muito longos; mas também não possuímos os dentes de herbívoros ou um intestino tão longo quanto o deles. Isso parece nos dizer que somos onívoros, que significa que comemos de tudo, seja conteúdo vegetal ou animal. Contudo, muitas vezes essas relações entre anatomia e dieta não são tão claras, por exemplo o panda: ele possui caninos que poderiam te levar a concluir que é um carnívoro, mas ele come exclusivamente bambu.

 

Como anatomicamente somos parecidos com outros macacos poderíamos olhar na dieta deles para termos uma ideia do que seria nossa dieta “natural”. E assim, poderíamos concluir que comemos frutas, folhas, nozes, insetos e ocasionalmente carne. Outra forma de acessar o que evoluímos para comer, seria olhar para as dietas das populações humana que não reproduzem o sistema social das populações contemporânea-ocidentais. E verificaríamos que em sua maioria, não possui carne como base da alimentação

Então, somo predominantemente vegetarianos?

 

Também não. Um recente estudo publicado na Nature (pelos biólogos Katherine Zink e Daniel Lieberman da Universidade de Harvard), traz mais evidências à velha teoria do órgão caro; dois órgãos que são energeticamente muito custosos são o intestino e o cérebro. Herbívoros precisam de longos intestinos – onde vivem bactérias, para conseguir digerir as complexas células vegetais. Como nossos antepassados tinham uma dieta com base em alimentos de origem vegetal, precisamos de um intestino longo (lembra que mencionei que é mais longo que de um carnívoro?), mas ser capaz de acessar essa fonte extra de energia e proteína fornecida pela carne permitiu que nosso cérebro evoluísse. Ao mesmo tempo que economizamos em não ter um intestino maior ainda, também alocamos energia para o cérebro. Isso foi cerca de 2,6 milhões de anos atrás.

Mas não poderíamos apenas comer mais frutas, verduras, raízes (poxa todo mundo sabe que batata tem muita energia!)? Matematicamente falando, sim. Bastaria comer mais das fontes vegetais, contudo precisaríamos de muito tempo comendo para conseguir o necessário para liberar energia usada na evolução do nosso cérebro. Ainda mais se nossos ancestrais estivessem se alimentando de alimentos crus (o processo de cocção, não apenas ajuda na mastigação fazendo com que você consiga comer mais em menos tempo, mas também na digestão dos nutrientes, contudo, apenas dominamos esses processo 500 mil anos atrás). De acordo com Katherine e Daniel, para que nossos antepassados conseguissem energia suficiente apenas de fontes vegetais eles teriam que mastigar até 15 milhões de vezes em um ano. Isso porque no experimento conduzido por eles, foi utilizado raízes que são mais calóricas que outros alimentos vegetais. (Uma mandioca é mais calórica que um alface ou uma maçã). No experimento eles alimentaram um grupo de voluntários com raízes e outro grupo com carne, e utilizando eletrodos mediram quantas vezes cada grupo precisava mastigar e quanta energia gastavam para ingerir a mesma quantidade calórica.

agriculture cows curious pasture

Foto por Pixabay em Pexels.com

Nada disso, claro, significa que o consumo de carne aumentou tanto nos humanos contemporâneos. Clique aqui se você quiser acessar a média do consumo de carne por país. O paladar tem um papel fundamental aqui. Assim como o acesso a carne, mas isso já é assunto para uma próxima conversa.

 

Apenas gostaria de terminar dizendo, que não é porque a proteína da carne foi fundamental para a nossa evolução que nossa dieta não pode mudar. Como dito neste outro texto, não paramos de evoluir e há adaptações recentes a dietas como consumo de leite. Além disso, hoje o acesso a alimentos (infelizmente não para todos) é fácil, permitindo que você tenha acesso a outras recursos calóricos e ricos em proteína que não tenha origem animal, e claro, você também pode cozinhar.

 

Considerando nossa crise ambiental, discutir nossa dieta pensando na nossa saúde e na saúde do nosso planeta é uma questão urgente.

 

PARA LER MAIS:

 

Zink, K. D. & Lieberman, D. E. (2016). Impact of meat and lower Palaelithic food processing techniques on chewing in humans. Nature, 531, 500-503

https://www.nationalgeographic.com/foodfeatures/evolution-of-diet/

Fotos de domínio livre a serem usadas (pizabay):

 

Anúncios
2

Relação alimentos e doença: uma questão de escolha individual ou ambiental?

escolha-melhor-os-alimentos-no-supermercado

Fonte: http://www.reacaosaudavel.com.br/como-escolher-melhor-os-alimentos-no-supermercado/

 

A obesidade e as doenças crônicas são consideradas as principais causas de morbidade e mortes prematuras da população mundial. Por apresentarem causa multifatorial, o combate a essas condições é o principal desafio atual, sendo de extrema importância abordar os múltiplos fatores e níveis envolvidos no desenvolvimento dessas doenças. Recentemente tem se discutido muito a relação causal entre essas condições e a publicidade, e a maior disponibilidade de alimentos considerados menos saudáveis, enquanto muitos setores alegam ser uma questão apenas de escolha individual. Neste sentido, cresce o interesse em se aplicar um tipo de intervenção multinível e multicompartimental para responder a perguntas como: como os mecanismos biológicos são afetados por diferentes características do ambiente construído, social ou econômicamente, para produzir uma determinada distribuição de alimentos no ambiente ? Como essas condições permitem ou restringem a alimentação, e como essas condições  são incorporadas nos sistemas biológicos para afetar esses comportamentos?(1)

Considerando essas questões, pesquisadores americanos avaliaram o impacto de uma intervenção comunitária multinível (operando em diferentes condições do ambiente alimentar) e multicomponente (atuando em diferentes níveis de distribuição de alimentos). A comunidade escolhida foi uma área de baixa renda da cidade de Baltimore, nos Estados Unidos, tendo como público principal as crianças. A intervenção consistiu na promoção e venda de alimentos mais saudáveis , de forma a aumentar o acesso e demanda desses alimentos. Foram incluídos na intervenção os mercados atacadistas, lojas de conveniência e mercados locais, centros de recreação e domicílios. Para selecionar os domicílios avaliados, foram convidados adultos cuidadores de crianças nos centros de recreação e frequentadores dos estabelecimentos comerciais da região selecionada(2).

No nível do atacadista, os gerentes foram convidados a armazenar produtos mais saudáveis, como grãos integrais, frutas e vegetais e lanches e bebidas com baixo teor de gordura e baixo teor de açúcar.  A maioria dos alimentos promovidos e das bebidas selecionadas estavam disponíveis durante todo o ano. Em lojas de conveniência e mercados menores, os proprietários foram incentivados a armazenar e/ou preparar alimentos usando itens mais saudáveis sugeridos pelo estudo. Os produtos foram promovidos nas lojas através de cartazes, etiquetas de prateleiras e sinalização. Além disso, os clientes foram expostos a esses novos produtos durante as sessões educacionais interativas conduzidas pelos pesquisadores nas lojas. Os clientes provaram amostras de alimentos, receberam folhetos educacionais, brindes e informações detalhando os benefícios para a saúde de cada item de comida ou bebida. Paralelamente, nas mídias sociais, materiais educativos e receitas foram disponibilizados e reforçados por meio de postagens e mensagens de texto enviadas para os cuidadores adultos. Nos centros de recreação, líderes juvenis (estudantes da faculdade de Baltimore e do ensino médio) ensinaram lições em tópicos de nutrição e aulas de culinária para crianças com idade entre 10 e 14 anos(2).

Para analisar  os resultados, os pesquisadores compararam os locais com e sem intervenção. Os autores do estudo observaram que houve aumento da venda dos produtos promovidos no comércio atacadista e maior disponibilidade desses produtos nos mercados menores, em especial em relação a bebidas e lanches. As crianças que foram expostas aos alimentos mais saudáveis aumentaram seu consumo significativamente, apesar do mesmo não ter sido observado em seus cuidadores. Assim, concluíram que a intervenção foi bem sucedida para modificar o ambiente alimentar (2).

Apesar de trazer algumas limitações, essa pesquisa merece destaque por ser pioneira no setor de distribuição de alimentos, mostrando o impacto das mudanças no sistema alimentar(2). Mais estudos com foco em outros itens alimentares e outros públicos serão necessários, bem como avaliar a resposta dessas mudanças por maior tempo e também nas variáveis de saúde. O campo é promissor, uma vez que estudos em escolas utilizando o mesmo modelo multinível mostraram haver redução do peso da população estudada(3-5). A mensagem que fica é que é preciso envolver crianças e suas famílias, escolas, líderes empresariais, profissionais de saúde, atores políticos e organizadores da comunidade para garantir melhor qualidade de vida e prevenir os problemas de saúde. Não basta apenas escolher – precisamos ter opções para fazermos melhores escolhas.

 

  1. Huang TT, Drewnowski A, Kumanyika SK, Glass TA. A Systems-Oriented Multilevel Framework for Addressing Obesity in the 21st Century. Preventing Chronic Disease. 2009;6(3):A82.
  2. Gittelsohn J, Trude AC, Poirier L, et al. The Impact of a Multi-Level Multi-Component Childhood Obesity Prevention Intervention on Healthy Food Availability, Sales, and Purchasing in a Low-Income Urban Area. Powell L, ed. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2017;14(11):1371. doi:10.3390/ijerph14111371.
  3. Economos CD., Hyatt RR., Must A, Goldberg JP, Kuder J, Naumova EN, Collins JJ, Nelson ME. Shape up somerville two-year results: A community-based environmental change intervention sustains weight reduction in children. Med. 2013;57:322–327. doi: 10.1016/j.ypmed.2013.06.001.
  4. Shin A., Surkan P.J., Coutinho A.J., Suratkar S.R., Campbell R.K., Rowan M., Sharma S., Dennisuk LA, Karlsen M, Gass A, et al. Impact of baltimore healthy eating zones: An environmental intervention to improve diet among African American youth. Health Educ. 2015;42:97–105. doi: 10.1177/1090198115571362.
  5. Foster GD, Sherman S, Borradaile KE, Grundy KM, vander Veur SS, Nachmani J, Karpyn A, Kumanyika S, Shults J. A policy-based school