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O aumento da sífilis, mas ela sempre esteve entre nós

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) que vem aumentando no Brasil nos últimos 10 anos, principalmente a sífilis em gestantes e a sífilis congênita, e isso tem chamado a atenção considerando que é um agravo que tem cura com tratamento de baixo custo.

SPN5

Material de Campanha Ministério da Saúde

Já identificando o aumento deste agravo, no ano de 2005, o Ministério da Saúde criou o Plano de Controle à Sífilis Congênita  que visava contribuir para a implementação do diagnóstico e tratamento imediato dos casos de sífilis materna e congênita, e da vigilância epidemiológica,  para que de modo geral o Brasil pudesse , em breve espaço de tempo, reduzir os casos de transmissão vertical da sífilis, como tem feito com outros agravos, principalmente o HIV (Diretrizes para o Controle da Sífilis Congênita, 2005).

No mesmo ano o Ministério da Saúde passou a considerar a sífilis na gestação uma infecção sexualmente transmissível de notificação compulsória justificado por conta da sua elevada taxa de prevalência e elevada taxa de transmissão vertical que varia de 30 a 100% sem o tratamento ou com tratamento inadequado (Informe Técnico Institucional, Cadernos de Saúde Pública, 2008).

O que estaria causando o aumento do agravo? Pela perspectiva da epidemiologia social, a hipótese para o aumento da transmissão e infecção podem ser multicausais, ou seja, vários fatores associados podem estar mutuamente contribuindo para o aumento e permanência da doença.

  1. A falta da implementação em todas as esferas (municípios, estados, federal) da política de atenção integral à saúde da Mulher (PNAISM) criada em 2004;
  2. A baixa adesão do sexo protegido e a diminuição do uso de preservativos. Segundo a pesquisa do IBGE (2013) no Brasil cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva referem utilizar a camisinha em suas relações. Na pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, realizada em 2010, sobre as razões de não ter usado a camisinha nas relações sexuais, a confiança no parceiro foi a mais citada, 32% entre as mulheres e 35% entre os homens;
  3. Falta de acesso ao pré-natal ou um pré-natal inadequado;
  4. Ausência da penicilina nas farmácias básicas de saúde por conta do mercado da indústria farmacêutica (A nova cara da sífilis);
  5. A proibição da aplicação do medicamento (penicilina) em locais que não estivessem equipados para evitar um choque anafilático (até 2015) unidades básicas de saúde, por exemplo;
  6. A falta de adesão dos parceiros ao tratamento e;
  7. A falta de uma agenda mais incisiva e prioritária às populações vulneráveis considerando as iniquidades sociais, raciais e de gênero.

Logo em seguida apresento dados relacionados à sífilis congênita e na gestação

A série histórica (Figura 1) apresenta que a partir de 2007 começa a ser identificado o aumento dos casos em gestantes e em menores de 1 ano, por esse motivo que se torna obrigatório a informação dos casos de sífilis na gestação.

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Quando observamos a raça/cor e a região identificamos que as mulheres pretas do são as tiveram mais casos confirmados do agravo em todas as regiões.  Os atravessamentos regionais e de raça também estão presente no crescimento da sífilis no País (Tabela 1). Os dados evidenciam mais um agravo que atinge mais severamente as mulheres negras.

Sifilis caso confirmado

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, 2017. Elaboração: Emanuelle Góes

 

O que pode ser dito com essa informação sobre realização do pré-natal é que estamos distante de cumprir o que o Sistema Único de Saúde preconiza, da mesma forma a Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher, que todas as gestantes têm direito a atenção integral e equânime na atenção ao pré-natal, parto, aborto e puerpério (Tabela 2).

Sifilis Pré-natal

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, 2017. Elaboração: Emanuelle Góes

Pois, é no momento do pré-natal que oferta-se dentre uma gama de exames obrigatórios, o VDRL (Venereal Disease Research Laboratory) dentro do protocolo de atendimento ao pré-natal o teste deverá ser oferecido na primeira consulta de pré-natal para todas as gestantes, no primeiro trimestre de gravidez e no início do terceiro trimestre.

Sifilis parceiro

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, 2017. Elaboração: Emanuelle Góes

Observa-se a baixa participação dos homens na adesão ao tratamento, menos de 13%, revelam os dados. A participação dos homens no percurso da saúde sexual e reprodutiva do casal ainda parece distante na sociedade, visto que as questões reprodutivas ainda ficam sob a responsabilidade das mulheres, apoiadas pelo imaginário social de que a reprodução é uma atribuição unicamente delas (Tabela 3).

Mesmo com o aumento das infecções sexualmente transmissíveis (IST’s) nos diversos grupos populacionais, questões como essas em uma relação estável, principalmente, são consideradas intocáveis, quase “tabu”, pois é mexer com o campo afetivo-sexual dos casais em torno principalmente da fidelidade, pois é em torno disso que se discute o uso ou não da camisinha, restringindo a autonomia das mulheres na tomada de decisão pelo sexo seguro.

Uma coisa é certa, a sífilis sempre esteve presente na nossa sociedade, desde as grandes navegações e explorações de territórios e povos. Na década de 30 nos Estados Unidos da América a população negra, principalmente os homens negros, eram utilizados como cobaias para experimentos sobre a doença e suas manifestações, no sentido de descobrir a cura. “O tratamento da sífilis, era negado para centenas de homens negros no Alabama para que os médicos pudessem seguir as consequências da doença e, mais tarde, dissecar seus corpos.” (Medical Apartheid, 2007), mas isso dá pano pra manga para outro artigo.

Nos dias atuais o que observamos o ressurgimento das IST’s e de forma mais potente muito provavelmente por conta da reinfecção e do uso sem controle dos antibióticos (Gonorreia, sífilis e clamídia resistentes: não dá pra relaxar). Para além disso, temos populações que estão mais expostas a sífilis e outros tipos de IST’s, pessoas que vivem em total ausência de direitos como as populações em situação de rua, pessoas em uso abusivo de drogas e populações privadas de liberdade, que em sua maioria são negras e pobres.

Referencias

BRASIL. Secretaria de Estado da Saúde SES-SP. Serviço de Vigilância Epidemiológica; Coordenação do Programa Estadual DST/Aids-SP; Coordenadoria de Controle de Doenças CCD. Sífilis congênita e sífilis na gestação. Rev Saúde Pública, v.42, n. 4, p. 768-72, 2008.

DINIZ, S. G. Direitos sexuais, direitos reprodutivos. In: Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado: uma década de mudanças na opinião pública. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2013.

HARRIET A. WASHINGTON. Medical apartheid: The dark history of medical experimentation on black americans from colonial times to the present. 2007.

 

 

 

 

 

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Fístula Obstétrica e a violação de direitos

A fístula obstétrica consiste num orifício entre e a vagina e a bexiga e/ ou reto, resultante da necrose dos tecidos por compressão da cabeça do feto numa circunstância de trabalho de parto demorado (UNFPA, 2013).  Esta complicação ocorre devido ao acesso precário aos serviços de saúde no parto, sendo que mulheres que moram em zona rural, sem serviços e sem transporte são as mais expostas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a fístula obstétrica afeta mais de 2 milhões de mulheres no mundo, principalmente nos países localizados na África e na Ásia. O perfil de mulheres mais afetadas inclui mulheres e meninas em situação de pobreza, com baixa escolaridade e que na maioria das vezes vivenciam o casamento forçado e a gravidez prematura.

Mulheres e o isolamento social

São várias as consequências, desde incontinência urinária e/ou fecal constante através da vagina, causando um odor desagradável e podendo gerar ulcerações ou queimaduras nas pernas, ou até mesmo consequências mais graves como a morte materna, pois a situação pode levar a uma septicemia (infecção generalizada). Após a complicação, as mulheres e meninas com fístula obstétrica vivenciam o isolamento social.

As mulheres também são afetadas psicologicamente por conta dos danos causado pela fístula e da rejeição social e isolamento. Muitas acabam por ser abandonadas pelos maridos, pela família e pela comunidade, que as discriminam por não aguentar o odor constante da urina e das fezes.

Os maridos abandonam as mulheres/meninas para procurar outra mulher “saudável”, e essas não podem retornar à família de origem porque dentro deste contexto cultural as mulheres pertencem ao marido após o casamento, e o destino delas é determinado por ele.

O filme “Dry”

Dry é um filme nigeriano que trata sobre o assunto da fístula obstétrica e tudo que cerca esta complicação: o casamento forçado de meninas, a gravidez precoce, a solidão e a discriminação, assim como o ativismo pelos direitos humanos de mulheres e meninas que estão nesta situação.

O filme narra a história de uma menina de 13 anos de idade, cujos pais pobres, sem escolaridade, a oferecem para casar com um homem de 60 anos, que constantemente a estupra. A garota fica grávida e sofre fístula obstétrica após o parto. Consequentemente, é abandonada pelo marido e discriminada pela sociedade. A médica, outra personagem que também sofreu na adolescência, salva outras mulheres jovens sob as mesmas circunstâncias.

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Imagem: Cartaz do Filme Dry

São muitas as questões que merecem ser discutidas no filme, mas duas passagem destaco aqui. Primeira: quando a menina está sozinha, uma das esposas do marido que a abandonou leva comida pra ela, a encontra chorando e pergunta o que ela quer: “quero minha infância de volta, queria sorrir novamente, cantar, sentar com meu pai e minha mãe, você pode me dar isso?” indaga a menina. A segunda passagem que vale a pena ser destacada é quando a medica nigeriana que foi vítima da fístula obstétrica diz, ao denunciar a situação de descaso/violência/violação no parlamento: “antes de ser mulher somos seres humanos, não somos objetos e queremos viver nossa infância de forma plena”.

Destaco estas duas passagens no diálogo com o texto para evidenciar o quanto as violências causadas pelas desigualdades de gênero expõem as mulheres desde sua infância, com o destino traçado por culturas machistas e patriarcais.

Medidas de Erradicação da Fístula Obstétrica

Estima-se que existam pelo menos dois milhões de mulheres afetadas por esta condição, e a cada ano há entre 50 mil e 100 mil novos casos, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas. A fístula obstétrica pode ser considerada um indicador de desigualdade de gênero, de saúde e de pobreza.

São necessários investimentos de diversas ordens para a erradicação da fístula obstétrica, incluem medidas relacionadas aos serviços de saúde, como ampliação de serviços de saúde reprodutiva, serviços especializados e treinamentos de profissionais de saúde e dos médicos para a realização da cirurgia (que tem mais de 90% de sucesso). A cirurgia para tratamento da fístula obstétrica consiste em fechar o orifício criado durante o longo parto, possibilitando que a bexiga volte ao seu funcionamento normal.

A garantia da igualdade de gênero e equidade de direitos para mulheres e meninas, com a erradicação do casamento forçado e do analfabetismo e a eliminação da pobreza. Segundo as Nações Unidas o número de mulheres e meninas casadas durante suas infâncias poderá chegar a 1 bilhão em 2030. Neste sentido, a eliminação do casamento infantil faz parte da meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (2015-2030), juntamente com a eliminação de outras práticas nocivas às mulheres.

Desta forma, é importante relembrar das agendas de Cairo (Conferencia Internacional sobre População e Desenvolvimento, 1994), que asseguram a integridade à saúde sexual e reprodutiva de mulheres e meninas, e de Pequim (Conferência Mundial sobre as Mulheres, 1995) com vistas às correções de injustiças sociais e reprodutivas.

Visibilidade a todo tipo de violência e violação das Mulheres no Mundo. Se a tradição, a cultura, ou qualquer outra coisa neste sentido, viola o direito à vida e a dignidade humana, contradizendo direitos humanos fundamentais de mulheres e meninas, estes devem ser erradicados. E se nós vendamos os olhos para situações como estas estamos extinguindo a humanidade.

Referencia

UNFPA. Estratégia Nacional de Prevenção e Tratamento de Fístula Obstétrica. Moçambique. 2013.

UNFPA. Mensagem por ocasião do Dia Internacional pelo Fim da Fístula Obstétrica. 2015.

Link

Dia Internacional pelo fim da Fístula Obstétrica

 

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As mulheres abortam sozinhas, mas não engravidaram com o dedo

A maioria das mulheres em situação de abortamento inseguro são jovens negras com menor renda e escolaridade e estão sozinhas. De acordo com o de Fusco, Andreoni e Silva (2008) estudo entre aquelas mulheres com aborto provocado, 51% estavam sozinhas (solteiras ou separadas) e 86,4% referiram não contar com apoio do respectivo parceiro na resolução de suas gestações.

aborto

Figura: ARTivismo

A participação do parceiro é importante no processo de decisão das mulheres pela interrupção da gravidez, no entanto as mulheres, principalmente em relações com vínculos não estabelecidos, preferem não revelar a gravidez e o possível aborto, por acreditarem que não receberão apoio emocional e/ou financeiro deles. Muitos parceiros, por outro lado, ao saber da gravidez, sugerem o aborto ou simplesmente somem e deixam as mulheres seguirem sozinhas na decisão (KALCKMANN E PINTO, 2010).

Assim, a situação socioeconômica ou o fato de estarem sozinhas são motivações relevantes para as mulheres recorrerem ao aborto. Segundo a Pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, esses fatores foram citados por 61% das entrevistadas. A pesquisa ainda mostrou como a decisão pelo aborto recai sobre a mulher, pois 65% delas decidiram sozinhas e apenas em 8% dos casos envolveu ambos (mulheres e seus parceiros) (FARIA, 2013).

Os homens tem baixa participação na trajetória reprodutiva do casal, ficando quase sempre sobre a responsabilidade da mulher o planejamento reprodutivo, como por exemplo na escolha do método contraceptivo, sobretudo o método que não envolva a sua participação (que é o caso da camisinha masculina), pois as questões relacionadas ao planejamento reprodutivo do casal são apoiadas pelo imaginário social que é uma atribuição unicamente das mulheres.

“A compreensão dos processos históricos que em nossa sociedade transformaram a reprodução num atributo quase que exclusivamente feminino, tendo construído as representações sobre o masculino como algo que se opõe, quanto à compreensão dos fatores que nas últimas décadas tem atuado no sentido de modificar o perfil masculino tradicional” (MINELLA, 2005).

As assimetrias de gênero são evidentes ao se analisar as escolhas reprodutivas, pois muitas vezes as mulheres não se sentem donas do seu próprio corpo, assim como as decisões sobre a gravidez podem ser contrárias aos seus próprios desejos. As condições socioeconômicas, juntamente com as desigualdades de gênero, contribuem para a tomada de decisão sobre interrupção da gravidez, pois a falta de recursos financeiros interfere diretamente na própria decisão (KALCKMANN; PINTO, 2010).

O tipo de relação afetivo-sexual influencia a participação do parceiro na decisão do aborto. Quando a gravidez é fruto de uma relação sexual ocasional, um sexo casual, ou com um “ficante”, as mulheres decidem sozinhas pelo aborto, já a decisão consensual pode ser observada em relacionamentos estáveis (HEILBORN et al; 2012).

As relações raciais e o racismo também modelam a decisão pelo aborto. Um estudo realizado em dois bairros de periferia das zonas sul e leste da cidade de São Paulo, que entrevistou homens negros e brancos e mulheres negras e brancas, constatou que os homens brancos:

“Citam dificuldades sociais que relacionamentos com mulheres negras trariam às suas vidas, principalmente quanto à vida familiar, levando-os, muitas vezes, a não assumir a parceira negra, nem mesmo reconhecer um filho com elas” (KALCKMANN; PINTO, 2010).

Neste sentido, entendemos que as são mulheres negras, de baixa escolaridade e jovens que mais passam pelo processo do abortamento sozinhas, sem o auxílio ou apoio de uma amiga, familiar ou profissional da saúde, estando mais expostas ao risco de morbimortalidade materna e à violência obstétrica nos serviços de saúde.

As mulheres negras e em situação de pobreza são as que mais realizam aborto em locais com pouca ou nenhuma higiene, insalubres e sem supervisão médica e ainda utilizam métodos agressivos como sondas para provocar o aborto. O abortamento clandestino é na maioria das vezes inseguro e eleva as taxas de complicações pós-aborto expressas em internações hospitalares e a mortalidade materna por conta do aborto mal sucedido.

“Boa sorte” e uma sentença de morte

Foi o apoio recebido por Caroline de Souza Carneiro, de 28 anos antes de seguir para realização de um aborto inseguro e que teve como conseqüência a morte precoce de Caroline, ela teve sua vida ceifada pela criminalização do aborto, pela sua legalização restrita que desconsidera as mulheres sujeitas de direitos e agenciadoras de suas vidas. A vida de Carolina foi interrompida por conta da ausência do seu companheiro que a sua contribuição foi desejar “boa sorte”.

As mulheres são violadas no livre exercício dos direitos reprodutivos no campo das políticas de saúde e no campo relacional. A participação do parceiro na gravidez e no desfecho do aborto, tanto na decisão quanto na participação na procura do serviço, reduz as violações dos direitos reprodutivos das mulheres e de sua autonomia.

Referências:

BRASIL. Pesquisa nacional de saúde 2013: Ciclos de vida. Rio de Janeiro: Ministério da Saúde, 2015.
FUSCO, C. L. B.; ANDREONI, S.; SILVA, R. DE S. E. Epidemiologia do aborto inseguro em uma população em situação de pobreza Favela Inajar de Souza, São Paulo. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 11, n. 1, p. 78–88, mar. 2008.
KALCKMANN, S.; PINTO, E. A. Aborto: livre escolha? BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso), v. 12, n. 2, p. 185–191, 2010.
HERINGER, R. Desigualdades raciais no Brasil: síntese de indicadores e desafios no campo das políticas públicas. Cadernos de Saúde Pública, v. 18, p. S57–S65, 2002.
FARIA, N. Entre a autonomia e a criminalização: a realidade do aborto no Brasil. In: Mulheres Brasileiras e Gênero Nos Espaços Público e Privado – Uma Década de Mudanças na Op. Pública. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2013.
MINELLA, L. S. Gênero e contracepção: uma perspectiva sociológica. [s.l: s.n.].

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Impacto do zika vírus na vida das mulheres

Provavelmente trazido ao Brasil durante a Copa do Mundo de 2014 o zika vírus só teve os seus primeiros casos reportados pelos médicos brasileiros em fevereiro de 2015. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 7.000 pacientes com sintomas característicos de zika vírus foram notificados entre fevereiro e abril de 2015, principalmente, na região Nordeste do país. Mas somente em outubro foi percebido o aumento significativo no número de crianças nascidas com microcefalia, bem como sua possível associação com a infecção por zika vírus. Em 1º de fevereiro de 2016 a OMS reconheceu a associação entre zika vírus e microcefalia como Emergência em Saúde Pública de Interesse Internacional.

As dificuldades presentes no Brasil que permitem que doenças transmitidas por mosquitos vetores continuem se espalhando se deve a falta de ações de controle adequadas e à vigilância epidemiológica deficiente. Além disso, a construção das cidades brasileiras aconteceu de forma acelerada e sem planejamento, levando a uma alta concentração de pessoas em grandes metrópoles, falta de saneamento básico e água tratada, culminando em rios poluídos que, na verdade, são esgotos a céu aberto. Além disso, no Brasil, ainda contamos com falta de informação à população. Todos esses fatores em conjunto são empecilhos para o controle dos mosquitos e inevitavelmente resultam no aumento da transmissão de doenças.

28_November_2015_AFonte: World Health Organization (WHO)

Segundo relatório da OMS publicado em 9 de maio de 2016 com atualizações sobre  zika vírus e sua associação com microcefalia, disponível aqui, são 1.551 casos confirmados de microcefalia associadas ao zika vírus no Brasil, sendo destes, 1.373 ocorridos na região Nordeste do País e os outros 178 distribuídos pelas regiões Sudeste, Norte, Centro-Oeste e Sul.  E é no Nordeste, uma das regiões mais pobres do Brasil, que a microcefalia foi percebida e ganhou destaque como importante epidemia. Doenças infecciosas transmitidas por mosquitos são mais comuns em locais pobres e negligenciados. Então, é provável que a maioria das mães que tiveram filhos com microcefalia sejam pobres ou carentes e não tenham condições de prover os cuidados e tratamentos necessários a essas crianças. O que nos leva a questionar quais serão as consequências dessa doença e qual seu impacto na vida das mulheres pobres.

É importante ressaltar que no Brasil sofremos com uma enorme desigualdade de classes sociais e, portanto, a população mais rica tem mais acesso a recursos de saúde do que a população mais pobre. Mulheres com maior poder aquisitivo realizam procedimentos obstétricos, como exames de pré-natal e fazem o acompanhamento de toda sua gravidez de forma mais prática e efetiva pelo simples fato de poderem pagar por isso. Já as mulheres pobres não conseguem realizar exames com tanta facilidade, pois além da falta de informação, ainda contam com um serviço de saúde pública precário e sucateado.

Desse modo, mulheres com maior poder aquisitivo descobrem precocemente se seus bebês possuem algum problema de saúde ainda nos primeiros meses da gravidez e podem decidir se querem abortar ou não, pois apesar de ser proibido no Brasil, o aborto é rotineiramente realizado em clínicas particulares de forma segura, o que não acontece com as mulheres pobres que acabam realizando o aborto clandestinamente, podendo acarretar sua morte. Segundo esse estudo, 1 em cada 5 mulheres brasileiras com mais de 40 anos já realizaram 1 ou mais abortos e destas 55% ficaram internadas por causa do procedimento.

A grande questão é: as mulheres devem ser obrigadas a terem filhos com microcefalia sem ter o mínimo de condições para dar o suporte que essa criança precisa?

Não obstante a todo sofrimento causado pela microcefalia toda a responsabilidade, inclusive a que cabe ao poder público, foi transferida às mulheres. Em nota oficial o governo divulgou o seguinte comunicado: “A melhor forma de evitar microcefalia é evitar engravidar”.

Se as políticas de saúde pública no Brasil não se tornarem mais efetivas e começarem a visar a real saúde da população mais carente, principalmente das mulheres, veremos um aumento na mortalidade de mulheres que realizam abortos clandestinos devido à epidemia de microcefalia. Pois a zika possui o potencial de se tornar uma doença endêmica no país, assim como a dengue, doença que causou 1,5 milhão de casos no ano de 2015.

Mais textos sobre o assunto:

http://blogs.plos.org/globalhealth/2016/02/zika-reproductive-rights-health/