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Eu, tu e os neandertais

Os neandertais eram hominídeos e são nossos relativos mais próximos. 

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À esqeurda o esqueleto de um neandertal e a direita de um Homo sapiens. Crédito:  American Museum of Natural History.

Isso significa que eles eram muito parecidos com o que somos hoje em dia. Esses nossos parentes não apenas coexistiram, como mantiveram relações sexuais com nossos antepassados. Apesar de não sabermos com que frequência essa ou outras relações sociais aconteceram – ou ainda se eram conscienciais, identificar que havia uma interação entre os neandertais e nossos antepassados pode elucidar o que do comportamento deles – ou do nosso – pode ter levado a que nossa espécie se espalhasse pelo mundo enquanto os neandertais se extinguissem há aproximadamente 40 milhões de anos.

 

 

Um dos comportamentos que nos dizem muito sobre as condições de vida (e que é relativamente fácil de se encontrar evidência em materiais preservados) é o comportamento alimentar. Os neandertais viveram na Eurásia, na época conhecida como Pleistoceno. Hum… talvez essa palavra já lhe remeta à famosa “dieta paleolítica”, não?

 

Pois é, saber do que nossos antepassados e nossos parentes mais próximos se alimentavam pode nos dar valiosas pistas de como nosso corpo lida com o alimento e assim ressignificar as opções dos alimentos disponíveis no mundo moderno. Na realidade isso tem importância no nível pessoal, ajudando você a escolher uma dieta saudável, mas também para medidas públicas como fornecer evidência para programas de subsídio à produção de determinados alimentos, incentivos à complementação alimentar, direcionamento para formulação de merendas e métodos protecionistas contra a produção em massa de produtos prejudiciais.

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E como sabemos o que os hominídeos estavam comendo?

Um recente estudo abordou o tema de forma inovadora e trouxe mais luz – ou maiores discussões sobre o que os neandertais estavam comendo.

Até o momento sabíamos por análises arqueológicas e de isótopos, que os hominídeos eram carnívoros e se alimentavam de ursos polares, lobos, renas, mamutes e rinocerontes. Contudo, esse estudo analisou ossadas de neandertais de diversas localidades e concluiu que na Bélgica – como o esperado – os neandertais tinham uma dieta rica em proteína animal e suas presas incluíam animais como rinocerontes e um tipo de carneiro selvagem que eram bastante característicos do ambiente. Já os neandertais que viviam na Espanha, na região da caverna El Sidrón, comiam muitos cogumelos, castanhas, e produtos que coletavam na floresta.

Dessa forma, esse estudo, usando de análises de micro fissuras e de bactérias conservadas no tártaro dos dentes, mostrou uma relação entre dieta e o ambiente em que os neandertais viviam; ou seja, eles comiam o que havia disponível, não dependendo necessariamente de proteína animal.

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Esse trabalho é muito importante tanto para o entendimento da evolução humana quanto para responder questões bastante atuais sobre a importância da proteína animal no dia a dia. Já que indica que o que guiaria a composição da dieta não seria necessidade por um determinado nutriente, mas a disponibilidade dos recursos.

Vale ressaltar que este trabalho também é bastante importante não apenas pelos resultados, mas porque usou uma técnica muito interessante de análise; além de estudar as micro fissuras causadas nos dentes pelo atrito com os alimentos, eles identificaram geneticamente as bactérias presentes nos tártaros. Como as bactérias possuem uma dieta específica elas são um indício confiável sobre o que aquele indivíduo estava comendo. As bactérias vivem na sua boca podendo se alimentar apenas do que você escolheu comer. Logo, se você é um carnívoro, sua boca contará com uma fauna carnívora, porque aquelas bactérias que só comem vegetais morreriam de fome. Elas podem formar e ficar conservadas no que conhecemos como tártaro por milhares de anos, e além de nos dar pistas do que se comia também nos fornece informação como possíveis doenças que abalavam nossos parentes neandertais (e outros hominídeos e animais). Esse estudo abriu portas para que esses delegados “problemas” bucais, tártaros e abscesso, recebam mais atenção, porque também evidenciou que estes neandertais estavam se utilizando de plantas medicinais já que foi encontrado ácido salicílico (componente ativo da aspirina) e Penicillium.

Fácil então, identificar que não há uma pílula mágica – ou nutriente mágico. Avançamos – e muito – nas metodologias, nos instrumentos e nas interpretações para decifrar o material preservado e desvendar nossa dieta, e cada vez mais acumumulamos evidência da nossa adaptação à flexibilidade. Temos uma estratégia flexível, ou seja, somos especialistas em respondermos ao ambiente. Comemos o que está disponível. E isso foi e ainda é bastante importante para nossa sobrevivência. Talvez, o grande desafio para a nossa saúde não sobreviva nos resquícios do passado, mas no perigo das novas tecnologias.

PARA SABER MAIS:

Weyrich, Duchene, Cooper (2017) Neanderthal behaviour, diet, and disease inferred from ancient DNA in dental calculus. Nature. 544: 357-361

Henry A G, Ungar P S, Passey B H et al (2012).. The diet of Australopithecus sediba. Nature. 487: 90–93

Lieberman, D. A história do corpo humano: evolução, saúde e doença. Editora Zahar.

Créditos das fotos: pixabay (fotos livres)

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Alimentos “detox” industrializados são realmente saudáveis?

O hit do momento é a alimentação “detox”. Mas o que é isso? Pra que serve?

Primeiramente vamos definir o que significa alimentação “detox”. Em entrevista ao portal IG, a nutricionista Roberta Frizzo Serena definiu alimentação ou dieta “detox” como “uma técnica da nutrição funcional cujo objetivo é ajudar o organismo a eliminar toxinas e outras substâncias prejudiciais à saúde”.

Procurando mais sobre esse conceito, observei que muitos nutricionistas classificam uma dieta “detox”  como uma alimentação em que deve evitar proteínas de origem animal, milho, soja, grãos, bebidas alcóolicas, produtos industrializados, temperos prontos, shoyo, vinagre, farinha de trigo e derivados, cafeína, açúcar e adoçantes, nozes e castanhas.

Esses dias, eu estava em uma reunião com um grupo de mulheres que se diziam seguir uma dieta rígida no controle de calorias, consumiam produtos naturais e saudáveis. Bom, sem problema nenhum com essa declaração, até elas começarem a dizer os produtos que consumiam.

De início eu achei que elas iam enumerar alimentos que considero saudáveis e naturais, como a ingestão de verduras, legumes e frutas frescos, chás de ervas em geral, sucos naturais feitos em casa, fibras, produtos integrais, etc. Mas para minha surpresa, o consumo dos alimentos ditos “saudáveis” está baseado em shakes prontos, chás instantâneos, suco “detox”  instantâneo; elas optam por esses alimentos pela praticidade, pois não têm tempo de prepará-los diariamente.

Fiquei indignada e fui à procura de rótulos de vários desses sucos “detox”  instantâneos e, em sua maioria, a quantidade de vitaminas presentes não se encontra no rótulo, ou porque não existem, ou porque são insignificativas. Muitos desses sucos também não indicam a quantidade de fibras presentes.

Entre os sucos naturais “detox” mais preparados no momento, os ingredientes mais utilizados para a preparação de um copo são:

  • Abacaxi (1 fatia) contém vitaminas A, B1 e C além de 0,9g de fibras
  • Maçã (1/4 da fruta) contém vitaminas B1 e B2 e aproximadamente 0,5g de fibras
  • Couve manteiga (1 folha) contém vitaminas A e C, Ferro, Fósforo e aproximadamente 1,0 g de fibras
  • Gengibre (pedaço) contém vitaminas A, do complexo B, C, ferro, potássio e fósforo além de 2,4% de sua massa ser constituída de fibras
  • Limão (1/2 unidade) contém vitaminas do complexo B, C e sais minerais

Analisando os principais ingredientes desse suco “detox”, praticamente todos contribuem com quantidades significativas de fibras e vitaminas para serem nem mencionados nos rótulos de sucos instantâneos. Logo, por mais que alguns nutricionistas digam que esses sucos funcionam, e podem ser bons substitutos, está bem claro que isso não é verdade.

Um produto para estar disponível na forma instantânea deve sofre um processamento com maltodextrina, que é vulgarmente definido como “polímero da glicose”, ou seja, como definido pelo nutricionista Bruno Brown em sua página pessoal “a maltodextrina é um carboidrato de alto índice glicêmico, que tem uma função bem parecida e rápida como o açúcar nos nossos níveis de insulina após a ingestão”.

Logo, uma dieta com restrição a carboidratos estaria seriamente comprometida se o paciente consumisse muitos produtos instantâneos como Shakes Comuns ou Detox, Sucos Lights, Diets ou Detox, Sopas Comuns ou Detox e etc.

Esses produtos instantâneos, principalmente os “detox”  estão na contramão da definição da dieta que leva o mesmo nome, quando a mesma diz, entre outras coisas, em que deve evitar alimentos industrializados, açúcar e adoçantes.  Os sucos e chás “detox”  são doces e o sabor adocicado vem de adoçantes adicionados a eles.

Uma dieta realmente saudável deve ser baseada no equilíbrio, consumindo os produtos na forma natural e não industrializada.

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Fontes:

(Imagem retirada do site http://dieta-definitiva.com/dieta-detox-perca-peso-faz-seus-olhos-e-pele-brilharem-e-aparencia-mais-jovem/)

www.saude.ig.com.br

www.facebook.com/BrownNutricionista

www.dieta-definitiva.com.br