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Nenhum pedacinho a menos! A importância de manter as florestas “intactas”

Apesar das crescentes taxas de desmatamento na Terra, as florestas ainda estão amplamente distribuídas, cobrindo um total de 40 milhões de km2, aproximadamente 25%, da superfície terrestre. Entretanto, destas florestas restantes, 82% estão atualmente degradadas de alguma forma, como resultado de ações humanas diretas, como exploração industrial, urbanização, agricultura e infraestrutura.

Um estudo publicado com 28 cientistas, em abril de 2018 na revista Nature [1], mostra a necessidade de identificar e preservar os ecossistemas naturais “intactos”, que são aqueles, conforme definição dos autores, livres de degradações significativas feitas pelo homem. Os cientistas mostraram que as florestas “intactas” são indispensáveis não só para conseguirmos frear as mudanças climáticas provocadas pela nossa espécie, mas também para barrar a crise da perda de biodiversidade do planeta, além de fornecerem serviços ecossistêmicos essenciais e permitirem a manutenção da saúde humana.

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Figura 1. Mapas da extensão das regiões de floresta intacta no mundo e graus de pegada humana (intervenção) nos ecossistemas florestais. (FONTE: Watson et al., 2018, traduzido para português).

Desde o ano de 1870, os processos de degradação das florestas foram responsáveis por 26% das emissões de CO2 atmosférico. As florestas intactas armazenam mais carbono que florestas derrubadas, degradadas ou plantadas em locais ecologicamente comparáveis. A explicação para isso é que a extração de madeira e a conversão de florestas em terras agrícolas causam grande erosão e contribuem para a perda de carbono subterrâneo, liberando o gás na atmosfera. Além disso, as florestas intactas contribuem com a complexidade da fauna nos ecossistemas e sequestram carbono ativamente em solos e biomassa viva.

Florestas intactas atuam na regulação do clima local e regional, além de atuarem na geração de chuvas e na prevenção de secas. Os autores demonstram que a degradação e perda de floresta intacta pode aumentar o número de dias secos e quentes, diminuir a intensidade das chuvas diárias e aumentar a duração da seca durante os anos do El Niño. Adicionalmente, a degradação das florestas podem afetar a disponibilidade de escoamento de água e a manutenção dos serviços hidrológicos.

A conservação da biodiversidade é outro fator importante para a preservação das florestas. Estes ambientes possuem maior número de espécies sensíveis, são importantes refúgios de animais e possuem maior diversidade genética e funcional do que os ambientes degradados [1]. Além disso, são ecossistemas com maior quantidade de funções para a sociedade, como a dispersão de sementes e serviços de polinização.

Pelo menos 250 milhões de pessoas no planeta vivem em florestas e, para muitas delas, suas identidades culturais estão profundamente enraizadas nas espécies de plantas e animais encontradas nestes ambientes. A fragmentação e degradação das florestas impede a manutenção dos hábitos e tradições dos povos da floresta, levando essas pessoas a estarem conectadas com os produtos provenientes da cidade para sobreviverem. Além disso, causam diversos impactos na saúde dessas pessoas, que são expostas à doenças e vetores das regiões externas à floresta. Nos dias atuais, existem evidências crescentes que o fortalecimento da posse da terra para os povos da floresta é uma maneira eficaz para proteger esses ambientes.

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Figura 2.  Comunidade indígena que vive isolada na Amazônia que foi fotografada pela primeira vez em setembro de 2016 (Foto: Guilherme Gnipper/Hutukara/Divulgação/G1).

Em relação aos benefícios a saúde humana, os ecossistemas florestais são importantes fontes de muitos compostos medicinais que fornecem medicamentos a milhões de pessoas em todo o mundo. Adicionalmente, florestas intactas reduzem os riscos de doenças infecciosas, como Ebola, dengue, zika vírus, vários hantavírus, febre amarela e malária. Assim, o maior índice de incidência dessas doenças endêmicas está relacionado à invasão e degradação das florestas decorrentes do aumento da presença humana nesses habitats.

Em relação ao Brasil, um grande problema atual é a permissão por parte do governo de classificar e autorizar o uso de áreas de florestas nativas impactadas como áreas que podem ser “exploradas”. Na Amazônia brasileira, 16% das áreas com permissão para utilização são desmatadas para agricultura no primeiro ano após a exploração, com perdas adicionais nessas áreas de mais de 5% ao ano nos próximos quatro anos. A taxa de queimadas nessas regiões é muito maior do que em outras áreas, e, além disso, o risco de invasão de espécies exóticas também é maior do que em florestas não-degradadas. Assim, a definição de uma área como “menos importante”, “degradada” ou “passível de modificação e/ou exploração” torna essas regiões mais propensas a serem desmatadas.

Apesar de todos esses benefícios indiscutíveis, é possível vislumbrar, ainda no atual século, um mundo com poucas ou nenhuma área de floresta intacta remanescente significativa. Em alguns anos, a humanidade provavelmente irá presenciar apenas florestas degradadas e danificadas, que irão precisar de restaurações caras e algumas vezes inviáveis, abertas a uma série de novas ameaças e sem a capacidade de suportarem as tensões das mudanças climáticas cada vez mais reais. Assim, existe uma necessidade urgente de maiores esforços de conservação das florestas em todo o mundo, e para isso a sociedade precisa entender a importância da conservação da integridade das florestas, bem como os valores sociais e ambientais provenientes destes ecossistemas.

 

Referências:

[1] Watson et al., The exceptional value of intact forest ecosystems. Nature: Ecology & Evolution, v. 2, p. 599–610, 2018.

 

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Malária: novas complicações para velhos problemas

Quando a gente vê um mapa mundi, percebe a extensão continental do Brasil e entende a diversidade sociocultural do país. O que nós não vemos é a diversidade de doenças que pode variar de acordo com a geografia da região e/ou questões socioculturais. A malária, por exemplo, é uma doença que, até o meio do século passado, estava presente em grande parte do território brasileiro. Com a introdução do inseticida DDT nos anos 50, a quantidade de mosquitos transmissores da malária foi reduzida, eliminando assim, a malária na região sudeste.  

A malária é uma doença causada pelo parasita sanguíneo do gênero Plasmodium. No Brasil, existem quatro espécies de Plasmodium que podem causar malária: P. falciparum, P. malariae, P. ovale e P. vivax, mas somente esse último tem importância epidemiológica pois é responsável por mais de 80% dos casos registrados em 2015.vivax

Outras espécies de Plasmodium causam malária em animais, mas a malária humana não é considerada uma zoonose, pois a grande maioria dos casos é derivada da transmissão humano-humano e não animais-humanos. No Brasil, em 1966, foi descrito uma possível infecção de Plasmodium simium, caracterizando a transmissão de macacos para humanos. No entanto, a falta de recursos técnicos da época não permitiu que fosse confirmado que se tratava de infecção por P. simium de forma que, até o momento, não havia registro oficial de malária zoonótica no Brasil. Ainda não existe vacina para evitar a malária (algumas pessoas confundem a vacina anti-amarílica – contra febre amarela – com a vacina anti-malárica), fazendo da prevenção à picada do mosquito Anopheles, também conhecido como mosquito-prego, a melhor forma de proteção. Apesar da alta incidência da doença no Brasil, a taxa de mortalidade é baixa, tanto porque o P. vivax causa um tipo de malária mais branda, quanto porque o tratamento é eficaz. Considerando a área de prevalência, a malária está presente principalmente na região Norte e atinge cerca de 140 mil pessoas por ano (o impacto econômico da malária já foi abordado por aqui antes). No entanto, nos últimos anos, tem-se observado uma mudança no perfil regional de ocorrência de casos.

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Apesar de ainda baixo, o aumento do número de casos registrados no Rio de Janeiro deixou em alerta pesquisadores e agentes de saúde. No entanto, não foi só o aumento de números de casos que assustou os pesquisadores, mas sim o tipo de Plasmodium que causou o tipo de malária que tem sido registrada na região. Os pesquisadores observaram que os casos de malária identificados no Rio de Janeiro foram causados pelo parasita Plasmodium simium, ou seja, pela primeira vez no Brasil, foram identificados casos de malária a partir da transmissão de macacos para humanos.

Algumas hipóteses foram levantadas para o aparecimento destes casos. Uma das questões levantadas foi o aumento do ecoturismo na região de Mata Atlântica numa época de seca. Isso pode ter feito com que os macacos ficassem mais próximos a regiões de rios e cachoeiras, o que os aproximou de seres humanos. Além dos macacos, pode ter havido alteração na biologia dos mosquitos transmissores da malária, que tiveram mais facilidade em acessar humanos e macacos em uma mesma região. Mas tudo isso significa que não é seguro fazer ecoturismo, que devemos eliminar macacos ou acabar com toda a Mata Atlântica? Claro que não! Se durante mais de 6 décadas mantivemos os baixos níveis de transmissão da malária no Rio de Janeiro, provavelmente a intromissão do homem em área de mata, através de desmatamentos e queimadas, resulta no desequilíbrio ambiental (veja aqui outras consequências do desequilíbrio ambiental na saúde pública). De fato, alguns autores também atribuem o surto da febre amarela de 2017 ao desequilíbrio ambiental da região sudeste. A solução do problema da transmissão da malária no sudeste parece ser simples e perpassa outros problemas de saúde além de sociais e econômicos: a preservação do meio ambiente.  

Brasil P, Zalis MG e colaboradores. Outbreak of human malaria caused by Plasmodium simium in the Atlantic Forest in Rio de Janeiro: a molecular epidemiological investigation. Lancet Glob Health. 2017 Oct;5(10):e1038-e1046.

Zoonoses são doenças que podem ser naturalmente transmitidas de animais para o ser humano, como a raiva e a leptospirose.