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A importância dos coletivos de mulheres feministas no apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade na Pandemia da Covid-19.

Imagem 1: http://anamontenegro.org/cfcam/2020/03/30/mulheres-e-a-pandemia-de-covid-19/. Acesso em: 23/06/2020.

Julho, 10, 2020|IANYCOSTA

Não é de hoje que as mulheres têm se organizado coletivamente para enfrentar as estruturas em busca de melhores condições de vida, bem como pela conquista de direitos sociais e a viabilidade de políticas públicas que tem o gênero como prisma identitário. Em uma arqueologia da construção social da figura da mulher na sociedade ocidental, a emergência do Movimento Feminista na segunda metade do século XIX, primeiro na Europa, depois em outros lugares do mundo, teve um impacto decisivo na mudança da figura da mulher como sujeito do lar para a mulher que ocupa diferentes esferas sociais. Vale lembrar que na cerne do feminismo clássico estas mulheres eram majoritariamente brancas, heterossexuais e de classe média, e suas demandas e reivindicações passavam longe das lutas das mulheres de cor [1] que passaram a vivenciar uma zona do não-ser dentro deste movimento, legando-as à necessidade urgente da construção de outros lugares de fala que visibilizassem suas pautas.

Por isso, em meio às sucessivas ondas do Movimento Feminista enquanto coletivo, mas também como epistemologia [2], o feminismo negro, seguido do feminismo indígena e do feminismo decolonial [3] durante o século XX e nas primeiras décadas do século XXI, nas Américas e no Caribe, vem construindo um lugar de resistência, ou melhor, r-existência que perpassa a negação do “torna-se mulher” a partir do pensamento de Simone de Beauvoir, visto que nem todas as mulheres tem historicamente sua condição de sujeito reconhecida, que dirá terem direitos. Portanto, ao pautarem suas falas na denúncia da invisibilidade, do abandono e da negação de direitos sociais que violam diretamente os direitos humanos e tem na lógica da política neoliberal orquestrada por um Estado do qual a necropolítica [4] é palavra de ordem, encontram um lugar comum [5] de enfrentamento às diversas formas de violência que grafam seus corpos em um feixe interseccional [6] de gênero, classe e raça.

Enquanto mulheres que compartilham uma cidadania insurgente [7] no Brasil, principalmente, no pós-88, diferentes coletivos de mulheres feministas ligados às universidades e ao movimento social se estruturam para construir lugares de apoio, de fala e de produção de conhecimento no intuito de acolher, empoderar e contribuir para a asseguração de direitos e a transformação das vidas de outras mulheres em situação de vulnerabilidade social. Por isso, em tempos da pandemia da Covid-19 que tem grafado a monstruosa desigualdade social no Brasil [8], estes coletivos tem assumido um lugar vazio da política de assistência social que tem sido desestruturada desde o golpe de 2016 e se evidencia com o recorte interseccional do avanço da doença e suas mazelas.

Com isso, buscando trazer as experiências destes coletivos, sem ter a intenção de resumir suas ações devido às limitações deste texto, citamos exemplos de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil, como no estado da Paraíba o Coletivo de mães Pachamamá [9] que tem através de campanhas solidárias distribuindo cestas básicas, kits de higiene e enxovais para mães de diferentes comunidades periféricas de João Pessoa, o Abayomi – Coletiva de mulheres negras da Paraíba [10] em parceria com o fundo Baobá tem oferecido cursos online no intuito de articular mulheres lideranças comunitárias para o fortalecimento de seus territórios. No estado de Minas Gerais, na capital Belo Horizonte, o Coletivo Mulher eu sou [11] formado por mulheres capoeristas da nação Angola, tem usado da medicina popular para a produção de remédios naturais para aumentar a imunidade e fortalecer o sistema respiratório das mulheres vulneráveis na cidade. No estado do Rio de Janeiro, na cidade de Niterói, o GT “mulheres na ciência” da Universidade Federal Fluminense [12], vem organizado uma campanha coletiva para o apoio a mães estudantes da graduação e da pós-graduação desta universidade com o intuito de garantir segurança alimentar e ajuda financia em tempos de pandemia.

De diferentes modos os coletivos de mulheres feministas vêm atuando em seus territórios no intuito de apoiar outras mulheres vulneráveis. Embora com limitações econômicas e geográficas, suas ações tem impactado diretamente na vida de outras mulheres, para além do apoio alimentar, financeiro, intelectual, etc. A articulação desses coletivos trazem a sonoridade e o conforto de não estar sozinha no enfrentamento ao Covid – 19. Com isso, a importância destes coletivos perpassa a discussão de outras questões estruturantes como o racismo, o machismo e o sexismo e seus efeitos na violação dos direitos das mulheres. Sendo estes coletivos um elo entre a militância, a episteme e a vida prática, pois, ao saírem de suas casas, deixando suas famílias em meio à pandemia para buscar ajudar outras famílias, estas mulheres em marcha nos demonstram que sonoridade e solidariedade são sinônimos, a partir, do momento que o flagelo do outro passa a importar para você. Se “a revolução será feminista ou não será” [13], então, que sejamos nós mulheres que em tempos de ameaças aos direitos e de pandemia, mais uma vez sustentemos a pisada [14] no apoio mútuo a outras mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil.

Se puder fique em casa, se puder ajude a ajudar outras mulheres, cuide de si e da próxima.

Referências.      

[1] Para Lugones (2014) “mulheres de cor” são mulheres latinas dos Estados Unidos, asiáticas, chicanas, afro-americanas ou indígenas norte-americanas que vivenciam a violência e exploração do Estado pós-colonial e tem seus corpos oprimidos pela colonialidade de gênero que as condiciona a categoria de não sujeitos. LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22 (3): 320, Setembro-dezembro, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755>. Acesso em: 15/06/2020.

[2] ALCOFF, L. M. Uma epistemologia pra a próxima revolução. Revista Sociedade e Estado, UNB, v. 1, Jan/Abr, 2016, pp. 129-143.

[3] CARNEIRO, S. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: ASHOKA Emprendimentos Sociais: Takano Cidadania (orgs). Racismos Contemporâneos. RJ: TAKANO, 2003, pp. 49-58. GELEDES, Portal, Conheça um pouco sobre o feminismo indígena no Brasil e sua importância. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/conheca-um-pouco-sobre-feminismo-indigena-no-brasil-e-sua-importancia/>. Acesso em: 20/06/2020. KAXUYANA, ValériaPaye Pereira; SILVA, Suzy Evelyn de Souza. A Lei Maria da Penha e as mulheres indígenas. In: VERDUM, Ricardo (Org.). Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas. Brasília: Inesc, 2008. LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22 (3): 320, Setembro-dezembro, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755>. Acesso em: 15/06/2020.

[4] MBEMBE, A. Necropolítica. Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/ufrj | n. 32 | dezembro 2016. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169>. Acesso em: 12/06/2020.

[5] DARDOT, P; LAVAL. C. Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. Trad. ECHALAR, N. 1ª Ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

[6] CRENSHAW, K. W. Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas. 2017 [1993] Trad. Carol Correia. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/mapeando-as-margens-interseccionalidade-politicas-de-identidade-e-violencia-contra-mulheres-nao-brancas-de-kimberle-crenshaw%E2%80%8A-%E2%80%8Aparte-1-4/>. Acesso em: 10/06/2020.

[7] Segundo Holston (2013, p. 22): possuímos: “uma cidadania que administra as diferenças sociais legalizando-as de maneira que legilitimam e reproduzem as desigualdades”, sendo a articulação dos movimentos sociais frente a uma cidadania desigual caracterizada como uma cidadania insurgente que visa a conquista de direitos negados e a desestabilização desse sistema excludente. HOLSTON, J. Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da modernidade no Brasil. 1 ed. São Paulo Companhia das Letras, 2013.

[8] Instituto Socioambiental, Desigualdade racial é evidenciada na pandemia da Covid – 19 (08/05/2020). Disponível em: < https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-monitoramento/desigualdade-racial-e-evidenciada-na-pandemia-da-covid-19>. Acesso em: 08/06/2020. GOES, E. F; RAMOS, D. de O; FERREIRA, A. J. F. Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19. Trabalho, Educação e Saúde. (versão On-line), vol. 18, no. 3, Rio de Janeiro 2020, (29/05/2020). Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-77462020000300301>. Acesso em: 16/06/2020.

[9] Página em redes sociais do Coletivo de mães Pachamamá Disponível em: <ttps://www.instagram.com/coletivo_pachamama/>. Acesso em: 18/06/2020.

[10] Página em redes sociais do Abayomi – Coletiva de mulheres negras da Paraíba Disponível em: < https://www.facebook.com/abayomi.pb/>. Acesso em: 19/06/2020.

[11] Informação sobre a atuação do Coletivo Mulher eu sou. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2020/03/22/coronavirus-mulheres-capoeiristas-distribuem-remedios-naturais-nas-periferias-de-bh>. Acesso em: 10/05/2020.

[12] Página em redes sociais do Núcleo Interseccional de Estudos da Maternidade do qual faz menção a uma atividade do GT “Mulheres na Ciência” da Universidade Federal Fluminense – UFF. Disponível em:<https://www.facebook.com/nucleoniem/posts/455142188623367>. Acesso em: 15/06/2020.

[13] VILELA, E. A revolução será feminista ou não será. In: Página da Web – O Jornal de Todos os Brasis.  Disponível em: <https://jornalggn.com.br/artigos/a-revolucao-sera-feminista-ou-nao-sera-por-elenira-vilela/>. Acesso em: 16/06/2020.

[14] Usando da licença poética parafraseamos a música de Jacinto Silva “Pisa Madeiro” muito usada em protestos de diversos movimentos sociais na cidade de João Pessoa. Disponível em: https://www.letras.mus.br/jacinto-silva/1841563/. Acesso em: 04/07/2020.

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Drogas Antivirais: O que são e como são descobertas? O que podemos esperar para o tratamento da COVID-19?

Quem diria que 2020 seria um ano de fortes emoções, não é mesmo? Nem nos recuperamos completamente do ano novo e em fevereiro as mídias de informação começaram a falar sobre uma doença causada por um vírus novo que estava se disseminando na China (veja mais sobre o assunto aqui). Ao longo dos meses, essa virose foi tomando proporções imensas, até que no dia 11 de março, a OMS declarou que estávamos vivendo uma pandemia. Diante desse cenário, onde aparentemente estávamos sem saída, foi reunida uma força tarefa entre pesquisadores de vários países a fim de encontrar a saída mais rápida, visando então a menor perda de vidas que fosse possível.

A comunidade científica ficou nos holofotes, os pesquisadores passaram a ter mais espaço na mídia. Pode-se notar que os noticiários mudaram e começaram a reportar em massa sobre as pesquisas que estavam sendo feitas nesse sentido. Isso ocorreu porque a Wellcome Trust (instituição de caridade que concede verba para pesquisas médicas) fez um apelo aos pesquisadores e às revistas científicas para que todos os dados ficassem disponíveis o mais rápido possível (1). Diante dessa situação, várias pesquisas focaram em testar a eficiência de medicamentos que já são usados para tratar outras infecções e sendo reportadas através dos chamados “Preprints”, que basicamente é um artigo, mas que ainda não passou por revisão dos periódicos científicos.

Imagem 1: Ilustração do vírus SARS- COv 2, agente etiológico da Covid-19. Fonte: CDC https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/index.html

Esses artigos falam sobre diferentes aspectos sobre o SARS- COv 2 e/ou COVID-19: biologia do vírus – trata-se de uma zoonose oriunda da recombinação dos coronavírus de morcegos e pangolins (2) , além disso ao sequenciar o genoma, os pesquisadores têm provas concretas de que não é uma arma biológica (caso queira saber mais sobre o sequenciamento, clique aqui); fisiopatologia – as alterações promovidas principalmente nos pulmões e muitas outras que ainda estão sendo estudadas; infecção – já se sabe o que vírus usa a proteína ACE2 (enzima conversora de angiotensina 2) para entrada na célula; e por último mas não menos importante, que será o foco a partir de agora, os tratamentos que estão sendo desenvolvidos (3).

Como são descobertas as drogas antivirais?

Durante essa crise de saúde pública, existem algumas formas mais rápidas para que antivirais cheguem até o paciente evitando assim a piora do quadro ou até a sua morte precoce. Essa abordagem mais rápida pode ser feita de diversas formas. Uma delas é testar a ação de drogas já utilizadas para outras viroses ou com potencial antiviral (chamado uso off-label, quer saber mais sobre? Clique aqui). São drogas que já se sabe quais os efeitos colaterais, qual a dosagem que pode ser administrada, entre outros aspectos. Então uma vez que seja comprovada a eficácia será “mais fácil e rápida” a sua liberação para uso na clínica, exemplos como hidroxicloroquina, azitromicina, entre muitos outros, estão sendo estudados para esse uso. (4)

Imagem 2: Ilustração  representativa dos medicamentos que estão sendo testados para combater o vírus SARS- COv 2.  Fonte:https://covid19.tabipacademy.com/2020/03/31/coronavirus-treatment-vaccines-drugs-in-the-pipeline-for-covid-19/   

Outra alternativa são as drogas de uso compassivo, essas são drogas que já eram estudadas para outras viroses e que apresentaram resultados positivos em ensaios in vitro (em cultura de células) com SARS-Cov2, mas que precisam de ensaios clínicos para serem utilizadas na clínica, um exemplo é o remdesivir (5). Nessa situação foi testado também o uso de plasma convalescente (mas isso você pode conferir aqui pra saber mais). Uma busca no site Clinical Trials (plataforma que mostra trabalhos científicos que utilizam testes clínicos), mostra que existem mais de 30 trabalhos ativos em vários lugares do mundo, testando essas terapêuticas para o tratamento da COVID-19 (5).

Ufa! Muita coisa, não? Exatamente, isso tudo para tentar salvar o máximo de vidas possível, mas vocês devem estar se perguntando sobre as vacinas. Bom, a vacina seria o nosso sonho nesse momento, porém a triagem para uma vacina segura com os testes necessários e sua produção pode levar de 10 a 15 anos. Novamente, a força tarefa de pesquisadores com investimentos públicos e privados, de vários países, estão testando várias formulações para a vacina e a previsão é que em 2021 ela esteja pronta.

O que podemos notar nesse momento é que estão sendo feitos muitos esforços para nos tirar dessa situação atípica, vamos ter esperança e aguardar que o dia de amanhã seja melhor!

(1)  CARR, D. Sharing research data and findings relevant to the novel coronavirus (COVID-19) outbreak. Wellcome Trust 2020. Disponível em: https://wellcome.ac.uk/press-release/sharing-research-data-and-findings-relevant-novel-coronavirus-covid-19-outbreak

(2)  LI, X. et al. Emergence of SARS-CoV-2 through recombination and strong purifying selection. Science Advances. Maio/2020. Doi: 10.1126/sciadv.abb9153. Disponível em: https://advances.sciencemag.org/content/early/2020/05/28/sciadv.abb9153

(3) DHAMA, K. et al. COVID-19, an emerging coronavirus infection: advances and prospects in designing and developing vaccines, immunotherapeutics, and therapeutics. Hum Vaccin Immunother. Março/2020. Doi: 10.1080/21645515.2020.1735227. Disponível em:https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7103671/.

(4) KALIL, A.C. Treating COVID-19—Off-Label Drug Use, Compassionate Use, and Randomized Clinical Trials During Pandemics. JAMA. Março /2020. Disponível em : https://www.sbn.org.br/fileadmin/diversos/COVID_evidence_Kalil.pdf.

(5) Clinical Trials, pesquisa testes clínicos para COVID 19. Disponível em: https://clinicaltrials.gov/ct2/results?cond=COVID19&recrs=d&age_v=&gndr=&type=Intr&rslt=&Search=Aplicar+

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Aerossóis e detergência: o que o estudo de coloides pode contribuir para o combate da covid-19? – Parte I

Créditos: Orpheus FX/Shutterstock

Em plena pandemia de covid-19 diversos perguntas surgem: quando teremos uma vacina? Quando a cura será encontrada? É possível atingir a imunidade de rebanho? A vida voltará ao normal? Como podemos prevenir o contágio? Até que os cientistas tenham descoberto uma vacina e/ou medicamento de eficácia comprovada, o melhor que todos nós podemos fazer é: diminuir a velocidade de infecção para não causar o colapso do sistema de saúde – e para isso, prevenir a infecção ainda é o melhor remédio!

Desde que a covid-19 foi identificada na virada do ano, cientistas do mundo inteiro se debruçam para tentar solucionar diversas questões importantíssimas relacionadas à doença, e uma delas é exatamente como prevenir ou retardar o contágio em diversos ambientes. A infecção pelo coronavírus pode ocorrer por via direta ou indireta: na via direta, o vírus pode entrar no organismo devido ao contato de uma pessoa com outra infectada, e o indireto devido ao contato de uma pessoa com superfícies contaminadas pelo vírus, ou ainda por aerossóis contendo vírus dispersos no ar e que podem ser inalados, permitindo a entrada do coronavírus [1]. Assim, recomendações como lavar as mãos, evitar tocar o rosto, não apertar mãos e utilizar máscaras ao sair de casa são fundamentais para prevenir a infecção pelo novo coronavírus. Um fato muito interessante é que a pesquisa sobre Ciência dos coloides pode dar contribuições importantes para que cientistas e profissionais da saúde compreendam melhor os mecanismos de transmissão e propagação da covid-19, e assim aumentar a eficácia das medidas de proteção. 

Mas o que são coloides?

Embora pareça um conceito muito distante do cotidiano, temos diversos exemplos de coloides no nosso dia a dia: nuvens, nevoeiros, maionese, espumas, leite, cremes, sorvete, fumaça… Dentre outros. Um coloide então nada mais é que a dispersão de pequenas partículas de uma fase ou sólida, ou líquida ou gasosa em um ou sólido, ou líquido ou gás, e estas duas fases não se dissolvem uma na outra. Estas partículas tem tamanho da ordem de 1 µm de diâmetro (1 milímetro dividido por 1000 vezes) ou menor. Um exemplo é o leite, uma dispersão heterogênea que consiste em partículas de caseína e gordura em água. Também podemos dispersar bolhas de ar em líquidos e sólidos, assim como gotas de líquidos em sólidos e gases, dentre outras misturas. A figura 1 mostra alguns exemplos de diferentes coloides em função das diferentes misturas que encontramos no nosso dia a dia.

Figura 1: Exemplos de coloides que encontramos no nosso dia a dia. Nas ligas e rochas temos pequenas partículas sólidas de metais ou minerais dispersas em outro metal ou mineral. As tintas são compostas por partículas de pigmentos sólidos dispersas em líquidos como água ou óleos, por exemplo. A fumaça que vemos em queimadas são compostas por partículas de fuligem sólidas dispersas no ar (gás). Já a neblina são microgotículas de água dispersas no ar. E os coloides também entram na cozinha: a famosa gelatina da sobremesa é composta por gotículas de água dispersas no sólido que compõe o pó da gelatina. A maionese utilizada em sanduíches é uma dispersão de gotas de óleo nos ovos e vinagre, que contém água, utilizados para prepará-la. O chantilly, assim como as claras em neve, são microbolhas de ar dispersas no creme de leite ou nas claras de ovos, sendo espumas líquidas. Encontramos coloides até na papelaria: o isopor, que é uma espuma sólida, contem bolhas de ar injetadas no sólido branco do qual é feito o isopor, o polímero poliestireno. Créditos: Imagem fornecida pela autora.

Os coloides são bem diferentes de uma solução verdadeira: por exemplo, a mistura água e sal (cloreto de sódio) é um exemplo de uma solução verdadeira, ou o que chamamos de solução homogênea. Os íons sódio (Na+) e cloreto (Cl) são envolvidos por moléculas de água na dissolução do sal, e os íons possuem tamanho da ordem de centenas de picômetros (10-12 metro ou 1 milímetro dividido por 1 bilhão), ou seja, os íons dispersos na água tem dimensões da ordem de 1.000 vezes a 1.000.000 de vezes menor que as partículas encontradas em coloides. Ou seja, o que difere uma solução verdadeira de um coloide são dois fatores: se há dissolução ou se são fases que não se misturam, e as dimensões de quem está disperso em outro meio. 

Existem dois pontos estudados em Ciência dos Coloides que são importantes na pesquisa e combate a covid-19: a detergência e o estudo de aerossóis. No texto de hoje vamos dar uma olhada mais de perto no porque lavar as mãos é tão importante em plena pandemia de covid-19 e qual o fenômeno que explica isso: a detergência.

“Lave direito as mãos, meninx!”

Quem nunca ouviu essa frase quando criança, né mesmo? Essa antiga recomendação hoje é uma ferramenta importantíssima para combater a covid-19. O coronavírus pode entrar pelo organismo por meio do seu contato com mucosas oral e nasal e a conjuntiva dos olhos – por este motivo segue a recomendação de evitar tocar o rosto, especialmente olhos, nariz e boca. Um dado interessante é que uma pessoa toca o rosto em média 20 vezes por hora! [3]. Assim, uma ação de prevenção importante é: lavar as mãos com frequência! Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), de acordo com o seu guia suplementar para a prevenção e controle de infecção [4], recomenda a higiene regular das mãos com água e sabão e álcool (em gel) tanto em ambiente hospitalar quanto doméstico. Mas por que lavar as mãos ajuda a prevenir a infecção contra o coronavírus?

Para entender, vamos olhar para a estrutura do SARS-CoV-2, conhecido também por coronavírus, mostrado na figura 2: este vírus é composto uma cápsula que envolve o seu material genético, no caso, RNA [5]. Esta cápsula é composta por uma bicamada de lipídeos, também conhecidos como gorduras. Por uma questão de afinidade química, as moléculas contidas no sabão/sabonete se agrupam junto às gorduras e assim podem “quebrar” a membrana que encapsula o vírus, tornando-o assim inviável para a infecção.

Figura 2: Representação da estrutura do SRAS-CoV-2, o vírus causador da covid-19. A membrana lípidica de bicamada (lipid bilayer membrane) encapsula o material genético do vírus (RNA e proteína nucleocapsídeo). Outros componentes do vírus, localizados na superfície externa, são: glicoproteína coroa (spike protein), proteína envelope (envelope protein); proteína de membrana (membrane protein), e hemaglutinina esterase (hemagglutinin esterase). Créditos: Orpheus FX/Shutterstock.

A detergência é o fenômeno por trás da lavagem efetiva de mãos, louças e roupas com sabões. A detergência está relacionada à mistura de fases imiscíveis, como por exemplo, água e óleo (lipídeos). Você já deve ter verificado que água e óleo não se misturam: pode agitar, mexer com uma colher, chacoalhar dentro de um pote fechado que, mesmo que aparentemente misturadas, é só esperar alguns segundos para ver água e óleo separados, ou seja, o óleo não se dissolve na água, daí o nome imiscível, que não se mistura. Porém, se você adicionar algumas gotas de sabão ou sabonete e agitar, verá uma mudança notável: a mistura ficará turva e você não verá a separação da água do óleo. Sabão, sabonetes, shampoos têm como parte de sua composição moléculas que chamamos de surfactantes: estas moléculas possuem ao mesmo tempo uma parte apolar, composta por uma cadeia de ligações entre átomos de carbono e hidrogênio, e outra polar, como íons sulfato, fosfato, sais de amônio, dentre outros. Um dos surfactantes mais utilizados em sabonetes é o lauril sulfato de sódio, mostrado na figura 3. O lauril sulfato de sódio pode ser representado esquematicamente pelo desenho ao lado: a barra representa a cadeia carbônica (apolar) e o bolinha representa a “cabeça” (polar) do ânion sulfato. Quando estas moléculas de surfactantes estão em um líquido polar como a água – como por exemplo, colocar o sabão para lavar as mãos, louças, etc – a parte polar fica próxima às moléculas de água, ao passo que as cadeias carbônicas, que são apolares, interagem entre si e com gorduras presentes em superfícies por meio da interação hidrofóbica, formando estruturas que chamamos de micelas. Estas micelas funcionam como gaiolas para as gorduras: como são apolares, as gorduras interagem com as cadeias carbônicas, ficando “encapsuladas” dentro de cada uma das micelas, de maneira que as gorduras podem ser removidas no processo de lavagem. A figura 3 sumariza como a detergência ocorre.

Figura 3: (a) A molécula lauril sulfato de sódio contida em sabonetes contém uma cadeia com 12 átomos de carbono ligados a um ânion sulfato (SO4) que pode ser representada por uma estrutura de “cauda e cabeça”: a “cauda” corresponde à cadeia carbônica e a “cabeça” ao ânion sulfato. No desenho, a “cauda” é representada como um retângulo e a “cabeça” como uma bolinha. (b) Representação esquemática do processo de detergência: uma superfície inicialmente suja (sujeira pode conter resíduos de poeira, vírus, gorduras, dentre outros), ao se colocar surfactante na água, as cadeias carbônicas (caudas) do surfactante são atraídas para a sujeira e os ânions do surfactante são atraídos pela água. Como resultado, a sujeira é destacada da superfície por meio da formação de micelas, que são aglomerados de sujeira e moléculas de surfactante, conforme destacado no quadrado laranja. As micelas são suspensas na água na forma de uma dispersão coloidal, podendo ser enxaguada por água corrente aplicada na sequência. Créditos: Imagem fornecida pela autora.

Assim, ao lavar as mãos e superfícies com sabão, os lipídeos ali presentes, tanto os produzidos pela pele como os do vírus, podem ser removidos. A membrana do vírus é rompida pelos surfactantes contidos no sabão, tornando-o inviável para a infecção. Assim, a melhor alternativa para higienizar as mãos neste período de pandemia de covid-19 ainda é a velha combinação de água e sabão. Com relação a sabonetes bactericidas, lembrem-se que todo sabonete é bactericida, não sendo mais eficaz aquele que anuncia ser bactericida. E vale lembrar que lavar bem as mãos, esfregando as palmas, dorso, dedos, unhas e pontas dos dedos é fundamental! No infográfico abaixo vai um lembrete de como lavar as mãos.

Álcool em gel também é válido para fazer essa higiene por ser prático, porém sempre que possível, lave as mãos com água e sabão. O processo pelo qual o álcool em gel atua sobre o coronavírus é diferente do sabão: o álcool provoca a desnaturação proteica das proteínas localizadas na membrana do vírus, o que provoca modificações na estrutura destas proteínas, como se fosse uma espécie de ataque químico, causando danos ao vírus. Embora pareça mais promissor, a lavagem das mãos com água e sabão é mais eficaz que utilizar álcool gel – lembre-se que a membrana que envolve o vírus é composta por gorduras. Mas isso não significa que você deva abandonar o álcool gel; na verdade, é mais uma alternativa complementar à higienização das mãos, e você pode seguir os critérios a seguir para higienizar suas mãos e se prevenir:

1. Sempre que possível, lave bem as mãos com água e sabão. Se possível, especialmente em banheiros compartilhados, dê preferência aos sabonetes líquidos, pois os em barra pode acumular água e resíduos indesejáveis.

2. Caso você não esteja perto de uma pia no momento, o álcool em gel deve ser utilizado. Passe uma quantidade suficiente para atingir todos os pontos das mãos, e esfregue bem até a completa evaporação do álcool. Ao utilizar álcool em gel, dê atenção aos possíveis acidentes: mãos úmidas de álcool levadas aos olhos e boca podem causar irritações. Além disso, o álcool em gel é inflamável, logo, passe longe do fogo enquanto estiver úmido! 

No próximo texto vamos falar sobre os aerossóis, outra categoria de dispersões coloidais que permite compreender os processos de propagação da covid-19. Até lá! 

Para saber mais:

[1] World Health Organization (WHO), Modes of transmission of virus causing covid-19: implications for IPC precaution recommendations. Scientific brief, 27 de março de 2020. Disponível no sítio: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/331601/WHO-2019-nCoV-Sci_Brief-Transmission_modes-2020.1-eng.pdf

[2] R. J. Hunter, Introduction to Modern Colloid Science. Oxford Science Publications, Oxford, 1998.

[3] Y. L. A. Kwok, J. Gralton, M.-L. McLaws, Face touching: a habit that has implications for hand hygiene. Am. J. Infect. Control. 43(2), 112 – 114, 2015. DOI: 10.1016/j.ajic.2014.10.015

[4] World Health Organization (WHO), Water, sanitation, hygiene and waste management for the COVID-19 virus – Interim guidance. Liberado em 23 de abril de 2020. Pode ser encontrado no sítio: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/331846/WHO-2019-nCoV-IPC_WASH-2020.3-eng.pdf

[5] J. M. Parks e J. C. Smith, “How to discover antiviral drugs quickly?”, em The New England Journal of Medicine. DOI 10.1056/NEJMcibr2007042.

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Explicando um modelo de espalhamento de doenças que tem sido bastante utilizado para descrever a evolução da COVID-19

Quando Newton descreveu a queda de uma maçã usando a lei da gravitação, ele encontrou uma maneira de descrever a queda dos corpos que funciona não só para maçãs, mas para bananas, mangas ou melancias. Funciona não só na Inglaterra, mas em qualquer outro país, ou em qualquer outro planeta. Essa é a beleza de encontrarmos bons modelos. Conhecendo o limite de validade do modelo, podemos fazer generalizações com razoável segurança. Podemos inclusive descrever a queda de uma fruta de que nunca tenhamos ouvido falar antes. 

Quando falamos de espalhamento de doenças, epidemias ou pandemias, existem algumas propriedades que são comuns a este processo independente do tipo da doença: gripe, ebola, rubéola; ou do país onde ela se espalha: China, Inglaterra, Brasil.  No exemplo do Newton, a força que o planeta exerce sobre uma fruta muda dependendo da massa da fruta e do planeta, mas a equação para a força gravitacional com que um corpo atrai o outro continua a mesma. Nos modelos de espalhamento de epidemia cada doença ou cada país pode ter parâmetros diferentes na velocidade do espalhamento ou da recuperação de infectados por exemplo. Mas, em princípio, um modelo epidêmico pode ser útil para estudarmos, inclusive, uma doença nova que descobrimos há apenas alguns meses como a COVID-19.  

Um dos modelos mais utilizados para descrever o espalhamento de doenças é chamado SIR e considera que cada indivíduo de uma população pode estar em 3 estados possíveis: Suscetível  (ainda não foi contaminado e não possui resistência ao vírus), Infectado (doente e transmitindo a doença) ou Removido (indivíduo curado ou morto). Indivíduos Suscetíveis podem tornar-se Infectados quando contaminados e, depois de um certo tempo, se recuperam ou falecem (tornando-se Removidos). Eventualmente todo Infectado se tornará Removido, mas nem todo Suscetível se tornará Infectado. Portanto, consideramos que a quantidade de  pessoas suscetíveis S, infectadas I e removidas R varia no tempo t. A dinâmica da população é exatamente a descrição de como esses números variam no tempo, e pode ser representada por um conjunto de equações diferenciais (equações para taxas de variações no tempo). Essas equações precisam garantir que S diminui cada vez que alguém é infectado (e consequentemente I aumenta) e que I diminui cada vez que alguém se recupera ou morre (o que aumenta R). Assim, numa população com um número fixo de N pessoas, a quantidade total de indivíduos Suscetíveis, mais a de indivíduos Infectados, mais a de pessoas Removidas (S+R+I) é fixa e igual a N.

Uma variante deste modelo chamada SEIR tem sido utilizada pelo grupo de epidemiologistas do Imperial College para estimar a evolução da epidemia de COVID-19 em vários países [1]. Os estudos desse grupo têm influenciado as decisões políticas do Reino Unido sobre a necessidade de isolamento da população. O modelo SEIR descreve como varia no tempo a quantidade de indivíduos Suscetíveis, Expostos (foram contaminados mas estão em período de incubação e ainda não são contagiosos), Infecciosos (o indivíduo pode transmitir a doença e os indivíduos sintomáticos começam a exibir os primeiros sintomas) e Removidos (pessoas isoladas que podem vir a ser curadas, hospitalizadas ou mortas). 

Figura 1: Esquema do modelo SEIR para descrever a propagação de doenças como a COVID-19. O parâmetro mais importante do modelo é o R0 chamado número de reprodução da doença e indica em média quantos Suscetíveis são infectados por um Infeccioso. Modificada das Refs. [2,5].

 

Na figura 1 podemos ter uma ideia do tempo médio que um indivíduo passa nos estados E e I (tempo de incubação e tempo infeccioso). Esses tempos dependem dos dados clínicos da doença e foram estimados na referência [1]. A taxa com que Suscetíveis viram Expostos depende tanto do tempo infeccioso (Tinf) como do parâmetro epidemiológico R0, chamado de número de reprodução de base. Na prática, este é o nosso parâmetro mais importante: R0 representa o número médio de contágios provocados por um indivíduo Infeccioso. No caso da COVID-19 estima-se R0 entre 2,4 e 3,0 [1]. Ou seja, uma pessoa doente, infecta entre 2 e 3 pessoas durante todo o período em que transmite a doença. Portanto a taxa com que o número S diminui no tempo é proporcional a R0/Tinf (veja Ref. [1,2,3] para saber mais detalhes matemáticos do modelo).

O número de reprodução efetivo Ref é proporcional ao R0 e à mobilidade dos indivíduos e, portanto, varia quando medidas de isolamento são tomadas. Por exemplo, se todos os Expostos fossem perfeitamente isolados antes de passarem a ser Infecciosos, eles não transmitiriam a doença para mais ninguém e Ref seria zero. Quando Ref>1 a doença infecciosa se espalha exponencialmente pela população; quando Ref<1 o número de Infecciosos passa a diminuir e a doença não tem potencial para se propagar na população. Para um R0 de 2,7, típico do coronavirus, é necessária uma redução de cerca de 70% na mobilidade das cidades para garantir Ref<1. Esta redução tão rígida é o que temos chamado lockdown.  

Nos últimos dias, o grupo do Imperial College publicou um novo estudo [4] estimando o Ref de vários países baseados na evolução da doença em cada lugar por diferentes métodos. Nesse artigo o Ref do Brasil foi calculado em 2,8 enquanto o da Alemanha foi de 0,8.  Ou seja, mantendo fixas as medidas de isolamento nos dois países, o número de novos infectados deve seguir diminuindo na Alemanha, e aumentando aqui no Brasil. É importante salientar que qualquer diminuição no Ref gera o tão citado achatamento da curva e pode ajudar a não sobrecarregar os hospitais. Por isso, reduções de mobilidade de cerca de 50%, ainda que não garantam a diminuição exponencial do número de infectados (como ocorreria com o lockdown), estão sendo fundamentais para os estados se preparem para enfrentar o pico da epidemia, por exemplo, comprando testes, EPIs, contratando profissionais de saúde e expandindo o número de leitos.

Utilizando dados específico da COVID-19 como porcentagem de pessoas hospitalizadas e taxa de fatalidade da doença por faixa etária, é possível usar o modelo SEIR para estimar o número de leitos que serão utilizados nos hospitais em cada estado. Por exemplo, um grupo de pesquisadores brasileiros tem empregado o modelo do Imperial College [1] para estimar a evolução da doença no estado de Alagoas e em outros estados do Nordeste [4]. Utilizando a pirâmide etária de Alagoas e as proporções de casos hospitalizados, internados em UTI e fatalidades distribuídas por faixa etária (obtidas a partir de dados de COVID-19 na China [1]) foi encontrado que 96,8% dos Removidos terão sintomas leves ou serão assintomáticos, 2,4% precisarão ser internados em leitos normais de hospital e 0,8% precisarão de leitos de UTI (veja Fig. 2) [4].

Figura 2: Esquema do modelo SEIR incluindo as informações sobre os Removidos para estimar número de leitos necessários nos hospitais da região. Os doentes podem ser separados em três grupos: sintomas leves ou assintomáticos, os que necessitam leitos normais de hospital e os que necessitam UTI. Modificada da Ref. [5].

 

Simulações da evolução do modelo SEIR para o estado de Alagoas indicavam que se, no começo de abril, as medidas de isolamento social fossem suspensas seriam necessários mais de 5000 leitos de UTI em junho. Na Fig. 3a vemos os resultados das estimativas de leitos necessários caso não fossem mantidas as medidas de isolamento social iniciadas em março (usando 𝑅0=2,7). Foram utilizados número diferentes de Infecciosos iniciais I(t=0)) para levar em conta a subnotificação dos casos: as linhas tracejadas indicam I(t=0)=30, enquanto as contínuas mostram os resultados para I(t=0)=300. Visto que o número de leitos de UTI no estado em maio será pouco maior que 250, o estudo mostrou não apenas que o isolamento social deveria ser mantido, mas também que a taxa de mobilidade deveria ser ainda menor para diminuir o Ref no estado e achatar a curva roxa na Fig. 3a. De fato, um segundo relatório comparou a ocupação real das UTIs com as simulações para Ref=1,5 considerando a redução na mobilidade graças às medidas de isolamento (ver Fig. 3b.). Esse tipo de previsão pode auxiliar nas decisões políticas de diferentes regiões sobre a necessidade de lockdown e no esclarecimento das dúvidas da sociedade sobre por que tantos sacrifícios são necessários nesses tempos de pandemia. Para saber mais sobre isto indico o excelente vídeo da Ref. [6] e outros sites confiáveis na Ref [7].

 

Figura 3: Simulação computacional utilizando o modelo SEIR com dados do estado de Alagoas para estimar número de leitos hospitalares necessários durante a epidemia de COVID-19. (a) Estimativa no caso sem isolamento social. (b) Estimativa mantendo o isolamento adotado em março e comparação com os dados reais de internados. Modificada da Ref. [5]

 

Referências 

[1] Neil M Ferguson, Daniel Laydon, Gemma Nedjati-Gilaniet al.Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand.Imperial College London (16-03-2020),doi:https://doi.org/10.25561/77482.

[2] Binti Hamzah FA, Lau C, Nazri H, Ligot DV, Lee G, Tan CL, et al. CoronaTracker: World-wide COVID-19 Outbreak Data Analysis and Prediction. [Submitted]. Bull World Health Organ. E-pub: 19 March 2020. doi: http://dx.doi.org/10.2471/BLT.20.255695

[3] O modelo SEIR é matematicamente descrito pelas 4 equações diferenciais a seguir. (É possível também utilizar um modelo SEIR para cada município e acrescentar ao modelo os efeitos da mobilidade das pessoas entre as cidades.)

[4] https://mrc-ide.github.io/covid19-short-term-forecasts/index.html

[5] Relatórios sobre COVID-19 no estado de Alagoas: https://im.ufal.br/laboratorio/led/iniciativas-covid19/.

[6] Vídeo do Átila Iamarindo sobre a necessidade de Lockdown: https://youtu.be/gs-HlvC5iJc

[7] Outros sites úteis e confiáveis com números e informações sobre a pandemia:

https://www.worldometers.info/coronavirus/

https://covid19br.wcota.me/

https://www.comitecientifico-ne.com.br/

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Aplicação da Biologia Molecular no Diagnóstico da COVID-19

Vamos continuar falando sobre o novo coronavírus responsável pela pandemia que estamos vivendo agora? E se ao invés de falarmos de medidas sociais e políticas de contenção da propagação do vírus, e manifestações clínicas da doença, aprendermos um pouco sobre como funciona uma técnica molecular conhecida por RT-qPCR utilizada para o diagnóstico da doença COVID-19?

Essa técnica é capaz de identificar o material genético do vírus SARS-CoV-2 em amostras coletadas da nasofaringe e orofaringe de pacientes com suspeita de infecção pelo vírus. Ela baseia-se na detecção de regiões presentes em alguns genes que são conservadas no vírus, ou seja, regiões que praticamente não tem mudanças na sua constituição. Essas regiões devem ainda ser diferentes de sequências encontradas em outros organismos para que ao serem detectadas tenhamos garantia que estamos detectando especificamente o vírus SARS-CoV-2 e não outro vírus, como o H1N1, por exemplo.

A técnica utilizada para a detecção dessas regiões gênicas conservadas é conhecida como PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) e baseia-se na reprodução em laboratório de uma reação que ocorre normalmente em nossas células antes delas se dividirem para renovação de tecidos, crescimento, cicatrização ou formação dos gametas sexuais. Sempre antes de uma célula se dividir, seja por mitose ou meiose, ela precisa duplicar o seu material genético, processo conhecido como replicação.

Para entender o processo precisamos lembrar que no núcleo das nossas células encontra-se o DNA que é composto por duas fitas constituídas cada uma por uma sequência de nucleotídeos, as unidades básicas do DNA e RNA. No DNA, os nucleotídeos são formados por 3 moléculas: uma base nitrogenada (guanina, citosina, timina ou adenina), um açúcar desoxirribose e um grupo fosfato (Figura 1). Para que o DNA seja duplicado, é preciso que as suas duas fitas separem-se, função realizada no nosso organismo pela enzima helicase que atua junto a uma outra enzima denominada topoisomerase. Após a separação das fitas, pequenas sequências de nucleotídeos, os primers, irão se ligar nas duas fitas determinando onde uma outra enzima, a DNA polimerase, irá começar a gerar uma nova fita de DNA (Figura 2). Os primers são responsáveis por orientar o local no DNA em que a enzima DNA polimerase deve se ligar e começar a adicionar novos nucleotídeos para dar origem a nova fita em formação. 

Figura 1 – O DNA e suas unidades fundamentais – A. E. B. Andrade et al.

Para realizar a PCR (Figura 3) no laboratório fazemos com que essa reação que ocorre no interior das células ocorra dentro de um tubo onde são adicionados os reagentes necessários: uma enzima DNA polimerase adaptada para resistir a altas temperaturas, os nucleotídeos que irão constituir a nova fita de DNA, os primers que irão determinar o local do gene onde a duplicação deve ser iniciada e um DNA molde que no caso de SARS-CoV-2 é obtido através da coleta de material presente nas vias respiratórias do paciente. A enzima polimerase utilizada na PCR só é capaz de duplicar DNA e já vimos que o vírus SARS-CoV-2 apresenta RNA como material genético. Portanto, precisamos extrair o RNA do vírus e realizar inicialmente uma etapa denominada transcrição reversa que irá produzir um DNA a partir do RNA. Devido a essa etapa a PCR passa a ser então chamada de RT-PCR (Transcrição Reversa seguida de PCR). Uma vez obtido esse DNA pode-se então iniciar a PCR propriamente dita. Após acrescentar todos os reagentes, o tubo é inserido em um equipamento chamado termociclador que é capaz de promover aumentos e reduções de temperatura. Se você prestou bastante atenção reparou que não acrescentamos as enzimas helicase e topoisomerase responsáveis pela separação das duas fitas de DNA. Essa separação é realizada graças ao aumento de temperatura: quando o termociclador atinge uma faixa de temperatura entre 94°C e 96°C, a fitas de DNA se desnaturam e separam-se. Essa etapa é conhecida como etapa de desnaturação. As fitas precisam ser separadas para que os primers se liguem e as novas fitas sejam formadas pela ação da DNA polimerase. Na etapa de anelamento, os primers irão se ligar a suas regiões alvo em temperaturas próximas a 60°C, a depender do seu tamanho e constituição. Na etapa final, conhecida por etapa de extensão, irá ocorrer a formação da nova cadeia de DNA a partir da adição de nucleotídeos pela enzima DNA polimerase que apresenta temperatura ótima de 72°C. Após a adição dos nucleotídeos a nova cadeia é formada e o ciclo se reinicia na etapa de desnaturação, seguida pela de anelamento e por último pela de extensão. Essas etapas irão se repetir por várias vezes até que no final de vários ciclos tenhamos bilhares de novas moléculas que serão então capazes de ser detectadas. Essa é a principal função da PCR, fazer com que uma pequena quantidade de moléculas de DNA incapazes de serem detectadas inicialmente origine bilhões de moléculas ao final do processo que serão capazes de serem detectadas. Dizemos, portanto, que a PCR é uma reação de amplificação pois há um aumento na quantidade de DNA ao final do processo.

Figura 3 – Reagentes e Etapas da PCR convencional. Disponível em: https://www.bosterbio.com/protocol-and-troubleshooting/molecular-biology-principle-pcr

Até aqui descrevemos como funciona a PCR convencional e a RT-PCR, mas se você é um ótimo observador reparou que logo no início do texto citei que a técnica molecular utilizada para diagnóstico da doença se chama RT-qPCR. Esse “q” refere-se a “quantitativo”, uma vez que nessa reação o produto da PCR é medido (quantificado)/analisado em tempo real, diferente da reação de PCR convencional em que só ao final da reação podemos visualizar se houve ou não amplificação da sequência de interesse. Para que possamos observar em tempo real essa amplificação precisamos então adicionar no tubo de reação, além de todos os reagentes já citados, um reagente de extrema importância: a sonda. Assim como os primers, as sondas são oligonucleotídeos, ou seja, também são formadas por uma sequência pequena de nucleotídeos que irá se ligar à sequência alvo de interesse na fita de DNA. Mas as sondas possuem uma característica especial, apresentam em sua estrutura um agente fluorescente capaz de emitir cor que é detectada por um sistema acoplado ao termociclador toda vez que ocorre amplificação da região de interesse (Figura 4). Quanto mais DNA amplificado maior será o sinal de fluorescência detectado. Podemos utilizar várias sondas em uma mesma reação de PCR com capacidades de emitir fluorescência em diferentes cores podendo assim detectar várias regiões do DNA diferentes ao mesmo tempo.

Figura 4 – Emissão de fluorescência por uma sonda na PCR em tempo real. Disponível em: https://kasvi.com.br/pcr-em-tempo-real-qpcr-diagnostico-doencas/

Em relação ao SARS-CoV-2, existe atualmente uma série de protocolos disponíveis para sua detecção validados pela Organização Mundial da Saúde e que utilizam como alvos diferentes genes. Os genes virais escolhidos durante o desenvolvimento desses testes foram o N (codifica a proteína do nucleocapsídeo), E (codifica a proteína do envelope), S (codifica a proteína espícula) e RdRp (codifica a enzima RNA polimerase dependente de RNA) (Figura 5). O protocolo inicialmente sugerido pelo Ministério da Saúde foi o Charité que detectava a presença de regiões dos genes “N”, “E” e “RdRp” (Figura 6). Observe que eu escrevi “regiões dos genes”, isso porque são detectadas regiões mais conservadas dentro de cada um desses genes, os genes completos possuem um tamanho muito grande sendo a detecção de apenas parte deles já suficiente para o diagnóstico. Posteriormente, a detecção da região do gene “N” que era utilizada apenas como teste de triagem foi removida do protocolo, mantendo-se a detecção apenas de regiões do gene “E” e “RdRp” utilizadas como teste confirmatório (Figura 7). Os primeiros testes começaram a ser desenvolvidos antes de se ter disponível o sequenciamento do genoma de SARS-CoV-2 baseando-se apenas nos dados que existiam do sequenciamento de SARS-CoV humano e SARS-CoV isolado de morcegos. Portanto, ao detectar a presença do material genético poderia ser tanto devido a infecção por SARS-CoV-2 quanto também poderia ser por SARS-CoV. Como a SARS, Síndrome Respiratória Aguda Grave causada por SARS-CoV, já foi eliminada em humanos, os casos suspeitos que apresentassem resultado positivo no teste de RT-qPCR deveriam ser considerados infectados por SARS-CoV-2. Atualmente acrescentou-se a detecção de uma região específica de SARS-CoV-2 localizada dentro do gene RdRp tornando, portanto, o teste diagnóstico discriminatório, ou seja, capaz de afirmar que a detecção daquela região é devido a contaminação especificamente pelo vírus SARS-CoV-2 e não outro coronavírus relacionado a SARS. Podemos observar na figura 8 que a sonda RdRp_SARSr-P2, representada por pontinhos marcados em verde, é capaz de ligar apenas em SARS-CoV-2 uma vez que a sua sequência é a mesma encontrada nas 6 sequências disponíveis de SARS-CoV-2 (as 6 primeiras sequências) e não é a mesma das sequências de SARS-CoV isolado de humanos ou morcegos (as 3 últimas sequências).  Os pontinhos representam nucleotídeos idênticos comparados a sequência de SARS-CoV-2 “WH_Human_1” enquanto as letras representam os nucleotídeos diferentes encontrados. E aí, gostou de aprender um pouquinho mais de biologia molecular aplicada à detecção do vírus SARS-CoV-2?

Figura 5 – Estrutura do coronavírus responsável pela síndrome respiratória. Adaptado de Shereen et al.
Figura 6 – Posições relativas das regiões detectadas inicialmente pela reação de RT-qPCR no genoma de SARS-CoV e SARS-CoV-2. V. M. Corman et al.
Figura 7 – Posições relativas das regiões detectadas pela reação de RT-qPCR no genoma de SARS-CoV e SARS-CoV-2. V. M. Corman et al.
Figura 8 – Alinhamento parcial das regiões em que os nucleotídeos se ligam em coronavírus relacionados a SARS (n=9). Adaptado de V. M. Corman et al.

Referências:

Biologia Molecular Básica, A. Zaha, H. B. Ferreira, L. M. P Passaglia, Artmed, 5ª edição.

Biologia Molecular da Célula, A. E. B. Andrade, C. V. Bizarro, G. Renard, Artmed, 6ª edição.

Detection of 2019 novel coronavirus (2019-nCoV) in suspected human cases by RT-PCR. Disponível em: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/peiris-protocol-16-1-20.pdf?sfvrsn=af1aac73_4.

Diagnostic detection of 2019-nCoV by real-time RT-PCR using Charité, Berlin Germany protocol. Disponível em: https://www.solisbiodyne.com/images/2020%2003%2025_Charite%20protocol_Solis%20BioDyne.pdf.

M. A. Shereen et al., COVID-19 infection: Origin, transmission, and characteristics of human coronaviruses, Journal of Advanced Research, , https://doi.org/10.1016/j.jare.2020.03.005.

Técnicas Básicas em Biologia Molecular, M. T. De-Souza, M. M. Brigido, A. Q. Maranhão, Editora UnB, 2ª edição.

V. M. Corman et al., Detection of 2019 novel coronavirus (2019-nCoV) by real-time RT-PCR, Euro Surveill, https://doi.org/10.2807/1560-7917.

https://pt.khanacademy.org/science/biology/biotech-dna-technology/dna-sequencing-pcr-electrophoresis/a/polymerase-chain-reaction-pcr.

https://www.bosterbio.com/protocol-and-troubleshooting/molecular-biology-principle-pcr.