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A atividade do cérebro de pessoas quando suas opiniões são desafiadas

Você provavelmente já deve ter entrado em uma discussão com outras pessoas sobre alguma questão política. Principalmente nos últimos anos esses debates têm ocorrido cada vez com maior frequência. Pelo lado positivo isso demonstra que vivemos em uma sociedade livre onde podemos colocar e defender nossas opiniões, também isso beneficia a formação de uma sociedade mais crítica e independente. Porém, esses debates geram conflitos e tensões entre pessoas, as quais, no final das contas, só estão tentando defender uma ideia que elas acreditam ser melhor, mais razoável ou mais lógica. Foi pensando nesse nosso contexto atual que esse artigo Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence me chamou a atenção. Confesso que passei por diferentes fases lendo e relendo essa pesquisa. Primeiro achei muito interessante, depois comecei a me incomodar com algumas ideias, métodos utilizados e análise de resultados, por fim, decidi que o estudo tinha que ser divulgado e, assim, mais pessoas poderiam julgar e criticar por si mesmas seus méritos e problemas. Mas gostaria de colocar que esse tipo de estudo é complexo não somente na pergunta inicial e delineamento da metodologia por se tratar de um estudo social relacionado com identificação de correlatos neurais, mas também na interpretação dos resultados. Por isso, espero que leiam com uma atitude crítica, porém, não rígida. Ah, e não esperem encontrar uma descrição de como o cérebro de pessoas intolerantes funciona.

Os autores realizaram esse estudo com o objetivo de investigar regiões neurais que estariam envolvidas com a manutenção de crenças em pessoas com opiniões políticas fortes. Suas predições eram de que circuitos neurais relacionados com a formação de modelos internos da própria pessoa (o “self”)  e aqueles envolvidos com emoções negativas seriam mais ativados quando essas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra suas crenças políticas, mas menos ativados quando essas mesmas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra crenças não políticas. Para isso, 40 participantes foram selecionados a partir de um questionário com uma escala numérica para saber o quanto eles se consideravam politicamente liberais ou conservadores sendo 1 ‘extremamente liberal’ até 7 ‘extremamente conservador, e o quanto concordavam com algumas afirmações que envolviam questões políticas e outras não-políticas em uma escala de 0 a 7, sendo 0 ‘não concordo’ e 7 ‘concordo muito’. Essas pessoas foram selecionadas por responderem que eram muito liberais (entre 1 e 2 na escala) e por responderem que concordavam muito com pelo menos 8 afirmações políticas e 8 não políticas (entre 6 e 7 na escala).

Esses participantes, então, foram colocados em uma máquina de ressonância magnética enquanto eram apresentado, uma de cada vez em uma tela, a essas mesmas 8 afirmações políticas e 8 não políticas, as quais haviam indicado concordar muito anteriormente. A cada afirmação apresentada eram colocados em seguida 5 argumentos desafiando a sua validade. Os argumentos eram exagerados ou distorciam a verdade na maior parte das vezes. Após a apresentação desses argumentos, a afirmação era apresentada novamente e perguntado o quanto eles concordavam com ela na mesma escala numérica anterior (de 0 a 7). Cada pessoa realizou essas etapas do procedimento para cada 16 afirmações individualmente enquanto sua atividade cerebral era registrada pelo método de ressonância magnética funcional. Esse método permite medir o consumo de oxigênio em regiões do cérebro e, assim, acessar indiretamente a atividade cerebral de uma pessoa enquanto esta realiza uma tarefa. Deste modo é possível analisar a atividade neural da pessoa em diferentes momentos e comparar essa atividade quando a pessoa é confrontada com argumentos contra sua crença política ou não política. Da mesma forma é possível avaliar suas respostas na escala numérica e observar se as pessoas mudaram seu grau de concordância sobre a afirmação após terem sido confrontadas com os argumentos. Assim, a atividade neural de pessoas que demonstram mais flexibilidade com suas crenças pode ser comparada com a  de pessoas não tão flexíveis.

A partir das respostas sobre o grau de concordância com as afirmações após os 5 contra argumentos, foi observado que os participantes mudaram suas repostas e diminuíram o grau de concordância em relação às afirmações. Porém, essa mudança foi mais proeminente com afirmações não políticas. Eles observaram, em média, uma diminuição da escala de 0.31 para afirmações políticas e diminuição de 1.28 para não políticas. A comparação da atividade neural enquanto participantes liam os contra argumentos políticos em relação quando liam os contra argumentos não políticos, mostrou um aumento de atividade em  regiões (figura 1) como o córtex pré frontal medial, lobo parietal inferior e lobo temporal anterior, regiões relacionadas a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) apontando a existência de uma relação entre a manutenção de crenças muito fortes (neste caso políticas) com a ativação dessa rede neural. Os pesquisadores defendem que essa rede, por estar relacionada com funções auto-referenciais, se ativa enquanto pessoas são confrontadas com argumentos contrários a suas crenças mais fortes, pois elas estariam realizando uma auto-análise, integrando informações internas a fim de obter um significado coerente daquilo ao qual foram expostas.     fig1-blogFigura 1. Regiões mais ativadas quando comparada a atividade cerebral dos participantes quando eram apresentados argumentos contrários a suas crenças políticas comparada com a atividade para os argumentos contrários às crenças não políticas.

Outro resultado demonstrado por esse estudo foi de que há uma correlação negativa entre ativação do córtex insular dorsal anterior e a amígdala, regiões (figura 2) relacionadas ao processamento de emoções negativas, ameaças e incertezas, e o grau de mudança na concordância de afirmações não políticas após os contra argumentos por sujeito. Isto é, pessoas com maior resistência a mudar sua concordância (menor grau de mudança) às afirmações não políticas tiveram uma maior ativação dessas estruturas quando comparadas com a atividade dessas regiões em pessoas com menor resistência a mudar sua concordância. Note que essa diferença foi observada entre diferentes indivíduos (em contraste com diferente condições mencionado anteriormente) e utilizando as afirmações não políticas. Isso porque houve maior variabilidade de respostas em relação a esse tipo de afirmação e, assim, foi possível realizar essa comparação. A teoria por trás desse resultado é de que pessoas com menos flexibilidade para mudar sua opinião após contra argumentos demonstram maior ativação de regiões envolvidas no processamento de ameaças e emoções negativas e, assim, lidariam com informações contrárias a suas crenças de modo mais rígido e cauteloso.

fig2-blogFigura 2. Áreas mais ativadas nos participantes que mudaram menos sua concordância com afirmações não políticas após os desafios.  

Esses resultados parecem concordar com outros resultados encontrados em outro estudo que também observou diferente atividade em algumas dessas regiões quando comparadas crenças religiosas e não religiosas em pessoas muito religiosas. Porém, os pesquisadores seguem ao final do artigo apontando alguns problemas ou limitações do estudo que colocam seus resultados em cheque (e isso para mim é um mérito e dever de todo estudo). A primeira limitação é a de que há diferenças entre crenças políticas e não políticas além de somente o grau de concordância da pessoa. Seria possível que as pessoas sendo utilizadas no estudo, por terem sido selecionadas por se considerarem muito interessadas por política, tivessem muito conhecimento sobre as afirmações sendo colocadas no teste ou até mesmo fossem expostas muitas vezes a argumentos contrários a suas crenças, o que poderia ter um efeito de hábito ou controle sobre como elas reagiriam a esse teste. Também é apontado o fato de que crenças políticas são mais prescritivas, normativas em comparação com crenças não políticas que podem ser mais diretas e factuais. Outro ponto interessante a ser colocado é a limitação do estudo por se tratar somente de pessoas liberais, mas não de conservadores. Os autores citam outros estudos que apontam haver diferenças de atividade e até de volume de estruturas neurais entre conservadores e liberais (para saber mais, ver Kanai, R., Feilden, T., Firth, C. & Rees, G. Political orientations are correlated with brain structure in young adults. Curr Biol 21, 677–680, doi: 10.1016/j.cub.2011.03.017 (2011)).      

E aí? O que achou do estudo? Espero que eu tenha conseguido passar a ideia geral e principais resultados encontrados de forma coerente. Se ficou alguma dúvida pode me perguntar. E eu gostaria de fazer um pedido também, quase que como uma pesquisa. Se você achou que esse texto ou o próprio artigo te ajudaram a compreender um pouco mais sobre o nosso comportamento e que te adicionou na forma de você se relacionar com essas questões, por favor, comente algo (qualquer coisa, um sinal) lá embaixo na área de comentário! Obrigada!