1

Morcegos e Coronavírus Evoluindo Juntos OU Como Prevenir Novas Epidemias?

Após várias teorias de conspiração para o surgimento do SARS-Cov-2, vírus causador da atual pandemia, em março deste ano um grupo de cientistas publicou um estudo com fortíssimas indicações de que o SARS-Cov-2 não teria sido criado em laboratório e sua origem seria uma mutação do coronavírus presente em algumas espécies de morcegos e/ou pangolins. As duas espécies animais são portadoras de tipos de vírus similares ao que está causando a pandemia atualmente. Uma das possíveis origens da teoria de que SARS-Cov-2 teria sido criado em um laboratório em Wuhan (China) pode ter sido pelo longo histórico de laboratórios de pesquisa dessa cidade que estudam a relação entre coronavírus e morcegos. Esse não é um assunto novo, até porque outras espécies de coronavírus já são conhecidas por causar doenças em seres humanos como o coronavírus causador da MERS ou síndrome respiratória do Oriente Médio, mas nenhum deles tinha tido um impacto tão grande como o SARS-Cov-2. Você pode conferir mais sobre isso nesse texto aqui do blog.

transmissão

Figura 1: Modo de transmissão do coronavírus para seres humanos pode ser através de uma contaminação direta do hospedeiro ou pode envolver um hospedeiro intermediário como o pangolin no caso do SARS-Cov-2. Modificado de Freepik.

Entender a relação entre duas espécies que evoluem juntas pode nos dar indícios de como prevenir ou combater possíveis novas infecções causadas por qualquer agente que tenha origem animal, como ebola (causado pelo vírus Ebola) ou esquistossomose (causada pelo verme Schistosoma mansoni) por exemplo. É essa relação de evolução conjunta, chamada coevolução, que um grupo de cientistas da França, Estados Unidos, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Ilhas Maurício e Seychelles estudaram entre 36 espécies de morcegos e diferentes tipos de coronavírus em uma área do sudeste da África continental (Moçambique) e diversas ilhas a oeste do Oceano Índico. O objetivo dos pesquisadores e pesquisadoras foi, entre outras coisas, avaliar possíveis formas de outros tipos de coronavírus se tornarem transmissíveis a seres humanos.

mapa de coleta

Figura 2: Mapa da região onde foram coletados os morcegos analisados em Joffrin et al. (2020). Crédito: Joffrin et al. (2020).

Em primeiro lugar foi avaliada a taxa de morcegos infectados com coronavírus. No total, 8,7% dos 1.036 indivíduos estavam infectados e a maior taxa de infecção foi encontrada em Moçambique, ou seja, no continente. Outras análises indicaram que a grande maioria dos vírus coletados era específica de uma determinada família de morcegos, ou seja, cada “espécie” de vírus é capaz de infectar somente uma família de morcegos (importante ressaltar aqui que família tem sentido taxonômico). Isso já era esperado, tanto que de acordo com o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV em inglês) coronavírus são estruturados filogeneticamente em subgêneros e, em geral, cada subgênero infecta uma família de morcegos. É por isso que a denominação dos subgêneros virais é feita de acordo com a denominação da família de morcegos infectada por estes (Ex.: vírus do subgênero Rhinacovirus infectam morcegos da família Rhinolophidae por exemplo).

Um dos resultados inesperados encontrados pelos pesquisadores foi o modo de evolução viral. A hipótese era de que os vírus que infectam morcegos na área analisada (Ilhas e continente a oeste do Oceano Índico) evoluíram pela transferência de hospedeiro seguida de adaptação, como acontece com coronavírus que infectam morcegos africanos de acordo com um estudo feito por Anthony e colaboradores (2017). Isso significa que uma espécie de vírus que infecta a espécie X de morcego sofre uma mutação e passa a ser capaz de infectar a espécie Y e, após isso, se adapta ao novo hospedeiro até que seja diferente o suficiente para ser identificado como um tipo diferente de vírus. Os vírus encontrados nos morcegos da região oeste do Oceano Índico, por outro lado, evoluem, em sua maioria, por um processo chamado coevolução. Isso significa que mudanças evolutivas em morcegos geram mudanças evolutivas no vírus que infecta aquela espécie de morcego. Essa forma de evolução é comum em relações de parasita-hospedeiro ou em plantas e polinizadores. Houve um caso, entretanto, em que um grupo de cientistas encontrou o mesmo vírus infectando duas famílias de morcegos em uma área de Moçambique.

Morcego evolução

Figura 3: Filogenia fictícia que ilustra a ideia de que o coronavírus evolui junto com o seu hospedeiro natural, o morcego. Crédito: Richard Borge para Scientific American.

O artigo termina com uma análise de três outros tipos de coronavírus conhecidos por infectar humanos e morcegos (NL63 Human CoVs, 229E Human CoVs e MERS-like Cov). Ainda não se sabe exatamente como esses vírus começaram a ter capacidade de infectar humanos, mas estima-se que tenha sido através de um hospedeiro intermediário (vírus do morcego infecta outro animal e esse animal transmite a seres humanos). Para encerrar, o grupo de cientistas concluiu que, como em outras zoonoses, o surgimento, mutação e infecção de humanos por novos vírus são associadas a mudanças no ecossistema como fragmentação de habitat, práticas intensivas de agropecuária e consumo de carne de origem selvagem. Essa conclusão vem de acordo com os resultados de outro artigo publicado semana passada (4 de Maio) por um grupo de cientistas do Reino Unido que chama a atenção para como as práticas de manejo animal (pecuária intensiva, com o uso indiscriminado de antibióticos, o grande número de animais e baixa diversidade genética destes animais) são um risco enorme para o surgimento de epidemias. Uma reavaliação da nossa relação e o  impacto que causamos no meio ambiente se faz necessária o mais rápido possível ou pandemias, distanciamento social e todo o sofrimento causado por essas doenças vai se tornar o novo normal.

 Referências: 

Joffrin L, Goodman SM, Wilkinson DA, Ramasindrazana B, Lagadec E, Gomard Y, Le Minter G, Santos A, Schoeman MC, Sookhareea R, Tortosa P, Julienne S, Gudo ES, Mavingui P, Lebarbenchon C. (2020). Bat coronavirus phylogeography in the Western Indian Ocean. Scientific Reports, 10 (1) DOI: 10.1038/s41598-020-63799-7

Coronaviruses and bats have been evolving together for millions of years: Different groups of bats have their own unique strains of coronavirus.” ScienceDaily. ScienceDaily, 23 April 2020. <www.sciencedaily.com/releases/2020/04/200423082231.htm>

Mourkas E, Taylor AJ, Méric G, Bayliss SC, Pascoe B, Mageiros L, Calland JK, Hitchings MD, Ridley A, Vidal A, Forbes KJ, Strachan NJC, Parker CT, Parkhill J, Jolley KA, Cody AJ, Maiden MCJ, Kelly DJ, Sheppard SK. (2020) Agricultural intensification and the evolution of host specialism in the enteric pathogen Campylobacter jejuni. Proceedings of the National Academy of Sciences, 201917168 DOI: 10.1073/pnas.1917168117

Anthony SJ, Johnson CK, Greig DJ, Kramer S, Che X, Wells H, Hicks AL, Joly DO, Wolfe ND, Daszak P, Karesh W, Lipkin WI, Morse SS, PREDICT Consortium, Mazet J, Goldstein T (2017). Global patterns in coronavirus diversity. Virus evolution, 3(1), vex012. https://doi.org/10.1093/ve/vex012

2

O que foi a gripe espanhola e o que a covid-19 tem em comum com ela?

Desde a chegada do Covid-19 ao Brasil, além das notícias sobre a doença, tem se falado bastante sobre um outro vírus que já passou por aqui cerca de cem anos atrás e que ficou conhecido como ‘gripe espanhola’. Há matérias jornalísticas que buscam apontar semelhanças entre as pandemias, que analisam o papel da imprensa brasileira durante a epidemia de gripe espanhola e que desmentem boatos, como a de que o presidente eleito em 1918, Rodrigues Alves, teria morrido em decorrência “da espanhola”.

Afinal, o que foi a gripe espanhola, quais as consequências dela no Brasil e no mundo à época, e quais os paralelos com a Covid-19?

A gripe espanhola

Ainda que seja conhecida como gripe espanhola, a provável origem do vírus é norte-americana. De acordo com o historiador Alfred W. Crosby em seu livro “America’s Forgotten Pandemic: The Influenza of 1918”, os Estados Unidos teriam passado por uma primeira onda do vírus no começo de 1918, mas sem atrair atenção pelo número pequeno de casos, confundidos com gripe comum e pneumonia. A hipótese é de que os soldados americanos teriam levado o vírus para a Europa, onde os casos explodiram. Vale lembrar que, naquele momento, a Europa estava mergulhada na Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914 e terminou apenas no final de 1918. A guerra, aliás, foi um dos motivos do vírus ter se espalhado rapidamente e de forma tão letal, conforme o professor Henrique Carneiro (2020):

A pandemia de 1918 é um resultado direto da Primeira Guerra Mundial. Não simplesmente porque as condições de miséria e destruição causadas pelo conflito tivessem ajudado a sua disseminação, mas porque foram as condições das inéditas concentrações humanas provocadas pela guerra que criaram o meio de contágio ideal para a doença.

Assim, ainda que os primeiros casos da gripe tenham começado nos Estados Unidos, ela se transformou em pandemia a partir da Europa, da onde se espalhou para o resto do mundo.

Por conta da guerra, a imprensa dos países envolvidos no conflito sofria censuras e não passava a real dimensão do que estava acontecendo para não alarmar a população. A Espanha, por outro lado, manteve-se neutra em relação à guerra, e seus jornais traziam a gravidade da situação. Assim, parecia que a Espanha estava sofrendo muito mais com a nova gripe do que os outros países, que quase não reportavam a doença. Não demorou para que a gripe passasse a ser conhecida como “espanhola” (BARRY, 2004).

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (em inglês Centers for Disease Control and Prevention – CDC), a gripe espanhola foi a pandemia mais mortal do século XX: estima-se que 50 milhões de pessoas morreram em consequência dela. Para se ter uma ideia, a estimativa de mortos em decorrência da Primeira Guerra Mundial é de 20 milhões.

No Brasil, estima-se que entre 30 e 50 mil pessoas morreram devido à gripe espanhola. Só no Rio de Janeiro, capital federal à época, 15 mil pessoas perderam as vidas em derorrência da pandemia de gripe espanhola. A situação no Rio foi extremamente complicada, como lembra alguém que viveu o drama:

O pior de tudo é que estava morrendo gente aos borbotões, e o governo dizia nas ruas e nas folhas, que a gripe era benigna. Certo dia, as folhas noticiaram mais de quinhentos óbitos, e mesmo assim a gripe era benigna, benigna, benigna. (…) As mortes eram tantas que não se dava conta do sepultamento dos corpos (FREIRE apud GOULART, 2005 s/p).

Imagem: capa do jornal Gazeta de Notícidas de 15 de outubro de 1918

Apenas no final da década de 1990 cientistas conseguiram estudar melhor o vírus da gripe espanhola e descobriram se tratar de uma variante do H1N1. Essas pesquisas só foram possíveis porque pedaços de tecidos de pulmões contaminados foram guardados para estudo posterior. Além disso, cientistas também desenterraram corpos congelados e perfeitamente preservados de uma pequena ilha no Alaska, que teve 72 mortos entre seus 80 habitantes à época.

Gripe espanhola x Covid-19

Embora ainda seja cedo para escrever um texto definitivo sobre as semelhanças entre as pandemias, alguns paralelos já podem ser traçados:

– “É só uma gripezinha”

Assim como Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro tentaram, em um primeiro momento, diminuir a gravidade do novo corona vírus, em 1918 diversos líderes e autoridades afirmaram que “a espanhola é só uma gripe”. Não era em 1918 e não é agora apenas uma gripezinha. As duas doenças tem uma taxa de letalidade muito maior se comparadas com a gripe comum, que gira em torno de 0,1%. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a gripe espanhola teve uma taxa de letalidade de 2 a 3%, enquanto até o momento a taxa de letalidade da Covid-19 está entre 3 e 4%.

– Necessidade de um sistema forte de de saúde no país

A gripe espanhola mostrou a necessidade de um sistema nacional de saúde, e, em 1920, foi criado o “Departamento Nacional de Saúde Pública”, considerado como uma espécie de “semente” do SUS, o Sistema Único de Saúde, previsto na Constituição Federal de 1988.

Hoje, é graças ao SUS que temos uma saúde universalizada, ou seja, toda a população brasileira tem direito ao serviço de saúde. Infelizmente temos assistido a um desmonte desse sistema, com o repasse cada vez menor de verbas necessárias para que as pessoas possam de fato ter esse direito cumprido.

– Tratamentos milagrosos não existem

Aqui no Brasil, muitos (inclusive o Presidente da República) tem defendido o uso da cloroquina em pacientes do novo corona vírus. O medicamento atualmente é utilizado no combate à malária e também no tratamento de algumas doenças auto-imunes, como lúpus.

Em Manaus, uma pesquisa sobre a cloroquina precisou ser interrompida depois que 11 pacientes morreram. Segundo um dos pesquisadores “a alta dosagem que os chineses estavam usando é muito tóxica e mata mais pacientes”.

Todo mundo deseja que uma cura (ou uma vacina) para o novo corona vírus seja descoberta o quanto antes, mas isso precisa ser feito de forma segura, caso contrário o próprio medicamento se torna uma fonte de perigo para os pacientes, como foi o caso da aspirina em 1918. Durante a epidemia de gripe espanhola, médicos do mundo todo receitaram aspirina como uma possível “cura” para a gripe. Altas dosagens eram recomendadas, chegando até a 30g por dia! Na década de 1970, a recomendação passou a ser de que a dose diária máxima de aspirina deveria ser de 4g.
Um estudo de 2019 sugere que muitas das complicações atribuídas à gripe espanhola podem ter sido em decorrência do uso indiscriminado de aspirina.

Por fim, uma curiosidade inusitada. Em São Paulo, uma outra “cura” para a gripe espanhola vinha de uma receita saborosa: cachaça, mel e limão. Daí a afirmação de que a invenção da caipirinha aconteceu em 1918. Ocorre que há registros anteriores da mistura de cachaça e limão feita pelos escravizados no Brasil. Em Paraty, um historiador encontrou um registro de que, em 1856, em meio à epidemia de cólera, se bebia cachaça, limão e açúcar.

Referências:

BARRY, John M. The Great Influenza: The Epic Story of the Deadlist Plague in History. New York: Viking, 2004.

CROSBY, Alfred W. America’s Forgotten Pandemic: The Influenza of 1918. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

GOULART, Adriana da Costa. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. História, Ciência, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro, v. 12, n.1, disponível em: < https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702005000100006&script=sci_arttext&tlng=pt#top5 >. Acesso em 01 abr. 2020.