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Dá pra usar tecnologia de bitcoin pra compartilhar dados de saúde?

Muita gente deve ter ouvido falar de blockchain depois de todas as histórias envolvendo o bitcoin. Pra resumir, blockchains são uma tecnologia desenvolvida para facilitar transações monetárias e evitar a necessidade de um terceiro confiável que verifique as transações e garanta a segurança dos dados e a privacidade das partes envolvidas (como faz uma operadora de cartão de crédito, por exemplo). Eles são, essencialmente, um registro distribuído de informações de transações, descentralizado e sem uma autoridade central proprietária. Essas informações são dispostas em blocos (block) organizados em cadeia (chain), e cada bloco é armazenado permanentemente e não pode ser alterado. Quando um bloco é concluído, um novo é gerado automaticamente com referência ao bloco anterior. A segurança é garantida pela verificação por milhares de computadores distribuídos na rede, de acordo com parâmetros definidos. Novas estruturas de blockchains começaram a ser desenvolvidas para uso em outras áreas, como turismo, energia ou sistemas de saúde.

Já há alguns anos, as autoridades de saúde de diversos países fazem esforços contínuos para digitalizar informações dos usuários dos sistemas de saúde e também para tornar essas informações acessíveis sem comprometer a segurança dos dados. No entanto, essa tarefa não é tão simples assim. Informações incorretas são a causa principal de erros médicos e a falta de uniformidade no armazenamento dos dados dificulta operações entre os diferentes sistemas e restringe a capacidade dos profissionais em prover tratamentos apropriados. Nos EUA, por exemplo, quase 90% dos médicos usam um sistema digital, mas nem sempre os diferentes sistemas são compatíveis. Essa falta de compatibilidade pode ser fonte de erros graves, como falhas no envio de informações de pedidos ou resultados de exames. No Reino Unido, o plano era digitalizar todos os prontuários até 2018, mas a prazo foi sendo adiado e agora está em 2023. No Brasil, o Ministério da Saúde tornou disponível o e-SUS AB, uma plataforma gratuita, mas as unidades de saúde podem optar por usar sistemas próprios e os dados só ficam disponíveis para as redes municipais.

Uma solução possível para o compartilhamento seguro desses dados seria o uso de estruturas de blockchain para melhorar a operabilidade entre os diversos sistemas implementados nas unidades de saúde, ao juntar informações sobre um mesmo usuário oriundas de sistemas independentes. Essa tecnologia também é flexível o suficiente para permitir que algo conhecido como smart contracts, ou contratos inteligentes, que são linhas de código que são executadas apenas quando determinadas condições são verdadeiras, garantindo a segurança dos dados e impedindo o acesso não autorizado. Além disso, os custos diminuem ao retirar o intermediador (empresa que provê softwares de prontuário eletrônico, por exemplo) e ao facilitar o processo de transferência de dados, que se torna imediato.

Essa revisão sistemática mostra, ao analisar 71 estudos, que a implementação de blockchains em dados de saúde pode ser economicamente viável e reduzir dificuldades de compatibilidade de software, desde que a informação não seja repetida nos computadores que compõem a rede, mas sim na nuvem. Dessa forma, até dados de outros sensores, como o smartwatch, podem ser associados ao mesmo usuário – o que pode tornar os tratamentos ainda mais personalizáveis. Uma limitação citada pelo estudo à implementação dessa tecnologia é o fato de que, da maneira que o blockchain é usado hoje, os usuários se tornam donos dos próprios dados. Isso pode ser considerado um benefício por torná-los agentes da própria saúde, mas pode ser extremamente complicado mudar a propriedade dos dados dos governos e de corporações e entregá-la aos indivíduos. Isso tudo exigiria muito conhecimento por parte dos usuários… mas é claro que pode ser um excelente desafio para a mudança necessária nos sistemas de saúde e na própria medicina como um todo.

Além desses desafios sociais, para que tudo isso se torne realidade as leis e as regulações, assim como a infraestrutura das unidades de saúde, precisam mudar. De todo jeito, o uso dessa tecnologia que transforma tantos paradigmas na informática médica pode ser extremamente promissor.

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O blockchain veio para ficar?

(Imagem: allanlau2000)

A tecnologia blockchain tem sido comentada em diversas notícias na imprensa e na maior parte das vezes atrelada ao uso de moedas digitais como o bitcoin. Porém, ela tem potencial para muitos outros usos, podendo auxiliar no desenvolvimento de estruturas sociais e econômicas mais transparentes e distribuídas. Mas afinal, o que é esse tal de blockchain?

O blockchain é um tipo de banco de dados descentralizado que guarda um registro de transações de modo permanente e à prova de violação. Ele possui a função de criar um índice global para todas as transações que ocorrem em uma determinada área. Pode-se pensar no funcionamento similar ao dos livros de registro de um cartório, só que de forma pública, compartilhada e universal, que cria confiança na comunicação direta entre duas partes, ou seja, sem o intermédio de terceiros.

Há dois tipos de registros no blockchain: transações individuais e blocos. Um bloco é a parte atual do blockchain na qual são registradaas algumas ou todas as transações mais recentes e, uma vez concluído, é guardado de modo linear e cronológico no blockchain como um banco de dados permanente. Assim que um bloco é concluído um novo é gerado, existindo um número infinito de blocos, que são linkados uns aos outros através de uma referência para o bloco anterior.

Além de ser um banco de dados descentralizado, o blockchain também é uma rede peer-to-peer (P2P). Essa rede consiste em uma série de computadores e servidores que atuam como nós na rede. Quando uma nova transação ocorre na rede, a informação dela é propagada entre todos os nós da rede P2P, normalmente criptografada, não havendo como rastrear quem adicionou a informação na rede e sendo possível apenas verificar sua validade. Cada nó obtém uma cópia do blockchain após o ingresso na rede.

O blockchain tem sido aplicado a situações em que é necessário manter a informação de propriedade e o histórico das interações. Já existem diferentes usos sendo explorados em pesquisas científicas e até algumas soluções já chegaram ao mercado.

O uso mais difundido é o de moedas digitais ou criptomoedas. O bitcoin é considerada a primeira moeda digital descentralizada e permite executar transações financeiras sem intermediários, sendo que estas transações são verificadas por nós da rede P2P e gravadas em um banco de dados distribuídos, usando a tecnologia blockchain. A transferência de bitcoins se dá através do seguinte processo:

  1. O usuário que fará o pagamento precisa saber o endereço destinatário que pode ser informado através de texto, ou através de um código de barras do tipo QR code, que será escaneado pelo dispositivo do usuário pagador;
  2. O programa de carteira do usuário pagador criará a transação, sendo que o usuário precisa apenas informar a quantia de bitcoins que enviará e qual o endereço de destino;
  3. Para transmitir a transação à rede bitcoin, o usuário precisa apenas conectar-se à Internet. Não é possível cancelar ou reverter uma transação após ela ter sido enviada pela rede. Para ter os bitcoins associados ao seu próprio endereço, o destinatário não precisa estar online no momento da transação e não precisa confirmá-la.

Uma carteira bitcoin armazena as informações que são necessárias para se fazer transações com bitcoin, utilizando criptografia de chave pública. A chave privada é responsável pelo acesso aos fundos da carteira, enquanto que a chave pública pode ser espalhada para receber fundos.

Vários países já estão atentos a esse movimento das moedas digitais e estudam a possibilidade de adotá-las, como é o caso da Estônia que pretende ser o primeiro país a criar uma moeda digital estatal, o EstCoin. Nesse mesmo sentido, a empresa R3 lidera um consórcio de mais de 80 instituições financeiras no mundo para a pesquisa e o desenvolvimento usando blockchain para esse mercado. Um dos estudos vai no sentido de facilitar o processo de transferência internacional de valores entre diferentes instituições financeiras, o que hoje é um processo bastante burocrático e demorado.

Porém, há muitos outros exemplos interessantes de aplicações usando blockchain. O MIT desenvolveu uma prova de conceito em que o blockchain é usado para disponibilização de certificados de conclusão de curso, possibilitando a verificação da autenticidade dos mesmos sem a necessidade de cartório. Uma startup inglesa desenvolveu uma solução em que se rastreia a origem, a qualidade e outras várias características dos diamantes encontrados no mercado com o uso de blockchain. Na mesma linha de rastreamento de objetos, a empresa londrina Deloitte, especializada em prestação de serviços financeiros e assessoria de riscos, desenvolveu uma prova de conceito em que o blockchain é usado para o rastreamento de obras de arte e empréstimo entre museus, sendo possível verificar a autenticidade de determinada obra. Na área de benefícios sociais, o blockchain já vem sendo empregado pelo governo da Finlândia na concessão de ajuda financeira para refugiados.

Apesar de já existir alguns usos comerciais do blockchain, ele ainda é um tema quente de pesquisa, pois há várias questões a serem respondidas: será que ele veio para ficar? em quais casos é vantajoso usá-lo em detrimento a soluções já bem estabelecidas? ele irá acabar com a estrutura financeira atual do mundo? e com os cartórios? será que ele irá auxiliar no desenvolvimento de estruturas sociais e econômicas mais transparentes e distribuídas? Essas e tantas outras são perguntas que só o tempo e muita pesquisa poderão responder.