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Vida e feminismo de Bertha Lutz

Ilustração: Helô D’Angelo

Bióloga, feminista, líder do movimento pelo direito das mulheres ao voto no Brasil, filha de Adolfo Lutz. Essa é a descrição básica de Bertha Maria Júlia Lutz (1894 – 1976), que não exprime as qualidades da grande mulher que foi.

Como cientista, era extremamente dedicada e detentora de pensamento lógico-científico admirável, despertando o reconhecimento de seus professores e colegas durante sua formação em Sciences na faculdade de Sobornne. Durante sua carreira como bióloga, desenvolveu trabalhos importantíssimos em botânica e em herpetologia, e não escondia sua empolgação com a sistemática: “temo que seja a lógica da ciência que exerça maior fascínio sobre mim“, dizia. Em 1919, após concorrer com outros 10 candidatos homens em concurso público, foi admitida como secretária do Museu Nacional, onde trabalhou por 50 anos.

Além dos trabalhos de pesquisa, Bertha se preocupava muito com a educação em ciência no país. Nesse aspecto, acreditava na importância de ambientes de educação não formal, como museus, e se dedicou ao estudo do papel educativo desses nos Estados Unidos, no início da década de 1930, com o desejo de transformar museus brasileiros em instrumentos modernos de educação.

Paralelamente, seu interesse no feminismo teve início durante o período que passou estudando na Europa, quando teve contato com o movimento sufragista que ocorria por lá. Em 1919, criou no Brasil a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que mais tarde se tornaria a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderando a campanha sufragista no país.  Em 1932, por decreto de Getúlio Vargas, foi alcançado o estabelecimento do direito ao voto feminino no Brasil. Bertha Lutz investiu em sua vida política e em 1936 assumiu posição de deputada federal, cargo no qual executou propostas de mudança na legislação referente ao trabalho da mulher, visando, dentre outros direitos, a igualdade salarial, participação em questões públicas e a licença maternidade.

Mais que sua trajetória, o que chama atenção na história de vida de Bertha Lutz, e que me motiva a escrever este texto, é a sobriedade com que ela tratava as questões da mulher e o feminismo. Assim, deixo de lado maiores detalhes de sua vida política e de seu histórico, pois esses podem ser encontrados com facilidade na internet. Pretendo, ao contrário, apresentar pontos de seu pensamento que me cativaram, e que e expressam a grande mulher que era, deixando muitas vezes que Bertha fale por ela mesma.

Diferente das líderes do movimento sufragista inglês, Bertha Lutz não acreditava na luta feminista feita de forma “violenta e demolidora”, mas lutava pelos direitos das mulheres com argumentos e com seu poder de persuasão.

De forma geral, Bertha Lutz via o feminismo, em primeiro lugar, como reforma social e, em segundo, como uma luta das mulheres por direitos iguais à educação e ao trabalho digno e bem remunerado. Confiava na transformação progressiva e no triunfo do feminismo como “a recompensa das que se tornaram esforçadas pioneiras nas artes e nas ciências; das que para ele se preparam. Das que pela educação que dão às suas filhas lhes sugerem as mais nobres aspirações, que pela reverência que inspiram aos seus filhos lhes ensinam a venerar a mulher, finalmente das que com seu amor esclarecido, abrem ao homem novos horizontes, cheios de harmonia e de luz. (…) Verão elas seu esforço coroado, não por um sucesso passageiro e estéril, mas por uma vitória definitiva, profunda e real.”

Bertha apostava no poder da educação, união e organização femininas como as chaves para a emancipação. Na educação, depositava a esperança de que essa deixasse de ser “mera acumulação de conhecimentos”, mas que pudesse “tornar-nos úteis, ensinar-nos a cumprir nossos deveres de modo eficaz, dar-nos meios de subsistência, para não sermos obrigadas a uma dependência humilhante”.  

Já quanto à união das mulheres, Bertha complementa, em uma de suas citações mais bonitas:

“’L’union fait la force’, diz a divisa belga; poderia também dizer: traz paz e torna possível a civilização. Enquanto as nações estiverem divididas, haverá guerra, quando se unirem, virá o reino da paz. Enquanto a mulher estiver só, será sempre o ser frágil que flutua à mercê das circunstâncias. quando se unirem, elas tornar-se-ão uma grande força. Por isso, devem ser fundadas associações de classe”. (Rio Jornal, março de 1919)

Atenta às diferenças sociais, preocupava-se também com a união das mulheres pobres e trabalhadoras, e se incomodava com a falta de apoio das mulheres ricas, destacando que “são mulheres que trabalham, as mulheres que vivem de seu próprio esforço, as mulheres que precisam rodear-se de garantias e amparos na luta pela vida, que compete dar o primeiro passo na vida associativa. (…) As principais vantagens dessas associações seriam a defesa coletiva de interesses, a assistência à maternidade, à enfermidade e à invalidez, a difusão da instrução. Por que nada disso existe? Por falta de iniciativa. Por inconsciente egoísmo das mulheres cultas e ricas, que ainda não pensaram em tornar mais fácil a vida de suas irmã pobres.” (O Jornal, fevereiro de 1919).

Além dessas ideias sóbrias, no texto intitulado “Em que consiste o feminismo?” (Rio Jornal, abril de 1919) Bertha Lutz resume bem seu pensamento, do qual compartilho:

“O feminismo não procura, é claro, negar as diferenças psicológicas e fisiológicas entre o homem e a mulher e reconhece a influência sobre as que, sendo verdadeiramente irredutíveis, devam ter as relações individuais e mesmo sociais. Não acredita, porém, que elas indiquem superioridade, de um lado, inferioridade, de outro, e assim entende que apenas devem ser consideradas nos casos em que de fato tenham importância, podendo ser deixadas de lado em outros casos nos quais seu papel é insignificante, ou mesmo nulo.”

Confesso que, ao me propor a escrever sobre Bertha Lutz, pouco sabia sobre sua história. Entretanto, o contato com seus textos foi uma experiência ótima. Suas contribuições, naquela época, para os direitos que temos hoje são imensuráveis, porém, muitas de suas ideias continuam atuais e merecedoras de nossa atenção para a construção de uma sociedade mais igualitária.

[As mulheres] “Divididas, são fraqueza. Juntas, serão uma força“.

Fonte: Lôbo, Y. 2010. Bertha Lutz.  ISBN 978-85-7019-529-6

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