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Por que as aves sobreviveram à extinção dos dinossauros?

De todas as espécies que já existiram no planeta, mais de 90% foram extintas. A vida na Terra enfrentou 5 grandes eventos de extinção em massa conhecidos e, após cada um desses eventos, os poucos organismos sobreviventes foram capazes de ocupar e recolonizar o novo ambiente. Mas… por que algumas espécies sobrevivem, enquanto muitas outras desaparecem durante eventos de extinção em massa? O que faz com que as vidas dessas espécies seja viável após eventos tão catastróficos?

Apesar de não ter sido a mais severa, a extinção em massa que marcou o final do Cretáceo e inicio do Terciário (K-T) é a mais estudada e também a mais famosa, pois corresponde ao final da “era dos dinossauros”. Sobre esse evento, uma das questões mais intrigantes para os paleontólogos refere-se à sobrevivência de apenas um grupo de dinossauros – as aves. Muitas hipóteses já foram sugeridas para tentar explicar por que as aves se deram bem naquele momento. Por exemplo, a presença de penas, o voo e o tamanho reduzido poderiam ter proporcionado boas condições de sobrevivência no ambiente pós-catastrófico do final do Cretáceo. Entretanto, são conhecidos fósseis de outros animais, incluindo outros répteis e dinossauros, que também apresentavam essas características e não tiveram a mesma sorte. Uma pesquisa recente, desenvolvida por Derek Larson e seu grupo, sugere que o segredo para a sobrevivência das aves poderia estar na boca, ou melhor, no bico.

Imagine o seguinte cenário: há 66 milhões de anos, asteroides de até 10km atingiram o planeta. O impacto foi tão intenso que causou diversos efeitos globais. Inicialmente, acredita-se que houve aumento de temperatura, terremotos e tsunamis. A colisão fez ainda com que se levantasse muita “poeira”, causando o bloqueio da luz solar e levando o planeta a um inverno prolongado e ao colapso do ecossistema existente até então. Muitas espécies que haviam tido muito sucesso por milhares de anos, de Tyranosaurus a Velociraptors, não conseguiram sobreviver à mudança brusca das condições ambientais.

Para entender a dinâmica de extinção de espécies durante a extinção K-T, a equipe de Larson estudou mais de 3000 dentes de pequenos dinossauros carnívoros. Estudar dentes fossilizados pode parecer estranho, à primeira vista. Entretanto, dentes podem contar histórias muito interessantes por indicarem o tipo de dieta que o animal apresentava. Sabendo a dieta, podemos imaginar que tipo de ambiente aquela espécie ocupava e que comportamentos poderia exibir, por exemplo. O grupo de pesquisadores descobriu que antes da extinção K-T, havia uma grande diversidade de especializações de dietas entre os pequenos dinossauros carnívoros, como peixes, insetos ou caças, por exemplo. Perceberam também que essa diversidade não mudou durante o Cretáceo. Isso significa que não houve uma diminuição gradual da variedade de tipos de dentes. Ao contrário, parece que esses pequenos carnívoros desapareceram de repente ao final do Cretáceo.

Essa extinção em massa também fez desaparecer muitos pequenos dinossauros com penas, que possivelmente se comportavam de forma muito semelhante às aves verdadeiras. Entretanto, apenas um grupo de aves – os Neornithines – tiveram sucesso em sobreviver no novo ambiente. Uma das poucas diferenças entre essas aves e outras que não conseguiram sobreviver era que, enquanto outros animais possuíam dentes, os Neornithines possuíam bicos queratinosos –  o que realmente é um dos traços que apenas as aves modernas apresentam em comum. Ainda, o tipo de bico que essas aves apresentavam era relacionado a uma dieta herbívora, e elas provavelmente comiam sementes.

Então, você se lembra como era o ambiente após o impacto? Não havia luz solar por causa do acúmulo de poeira, o que significa que também não havia fotossíntese. Sem fotossíntese, muitas plantas acabavam morrendo. Com a escassez deste recurso, muitos animais que dependiam de folhas e frutos, por exemplo, acabaram morrendo. Apesar de imaginarmos que o grande número de animais mortos poderia ser uma boa fonte de alimento para dinossauros carnívoros, esse é um recurso que se deteriora muito rapidamente. Entretanto, sementes são alimentos altamente nutritivos, e estoques de sementes dispersadas por plantas podem continuar viáveis por mais de 50 anos, como boas fontes de nutrientes. Assim, não é difícil imaginar que animais capazes de absorver nutrientes desses bancos de sementes, e de sementes encontradas no meio dos detritos, tiveram uma grande vantagem de sobrevivência. Bem, aves com bicos queratinosos podiam fazer isso. Assim, é possível que a especialização da dieta em sementes de algumas linhagens de aves tenha sido um dos fatores fundamentais para sua sobrevivência ao final do Cretáceo.

Como todo avanço em Ciência, esse provavelmente não é o final dessa história. Novas hipóteses devem ser testadas pois há, provavelmente, outras características fisiológicas e morfológicas dos Neornithines que proporcionaram a este grupo melhores condições para sobrevivência após o impacto do asteroide. Entretanto, essa pesquisa demonstra que até mesmo dentes de dinossauros podem nos contar uma história interessante sobre o passado. Ainda, o conhecimento do que acontece durante eventos de extinção em massa pode ser muito relevante para entender nosso planeta atual, já que a Terra está passando por mudanças bruscas, por exemplo no clima e condições atmosféricas, levando ao colapso de ecossistemas e à extinção de muitas espécies.

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 Cladograma de dinossauros e grupos relacionados, mostrando os grupos extintos (em vermelho) e sobreviventes (em verde) na extinção em massa do final do Cretáceo. (Current Biology v.26, 2016, R416)

 
Referências:

Larson, D.W., Brown, C.M., and Evans, D.C. (2016). Dental disparity and ecological stability in bird-like dinosaurs prior to the end-Cretaceous mass extinction. Current Biology 26, 1325–1333.

Brusatte S. L. (2016). Evolution: How Some Birds Survived When All Other Dinosaurs Died. Current Biology 26, R408–R431.

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