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Fulano, et al. na verdade é mulher: ciência, gênero e produção científica

Pegue um artigo aleatório, qualquer um…

Por exemplo, uma das referências desse texto é Leta, et al., e é assim que somos conhecidos no meio científico, pelos nossos sobrenomes. O uso apenas do sobrenome despersonaliza o autor (ou autora) e nos distancia do público leigo. Isso prejudica as mulheres, especialmente, já que é impossível saber a identidade sexual pelo sobrenome, e dessa forma ficamos escondidas atrás de um nome. Assim como o sonho, o direito e a capacidade de ser uma cientista, a mulher também deseja ser reconhecida e publicar seus artigos. Mas qual a nossa situação nesse ponto?

Como biomédica sempre envolta na área da Saúde – uma das áreas com maior equidade de gêneros, tive a sorte de conhecer muitas mulheres influentes na ciência, a reitora da minha faculdade, minhas professoras prediletas, minha orientadora da iniciação científica, TCC, mestrado, minha nova orientadora de doutorado, chefes e colegas de laboratório. São todas mulheres que vivem nessa batalha que é ser cientista, e sabemos que um dos nossos principais desafios são as publicações. Atualmente, a produção científica é a principal medida de qualidade do pesquisador.

Quantos artigos publicou? Em que revistas? São indexadas? Foi primeiro autor? Quantas citações? Etc, Etc, Etc…

Esse tipo de análise não é de hoje, o primeiro estudo nesse sentido foi em 1917, e essa forma de avaliação foi chamada de bibliometria, ou seja, somos avaliados por aquilo que publicamos. De uma maneira geral, os números dizem que nós mulheres publicamos menos que os homens, e logo seríamos menos produtivas. Mas essa análise não é tão simples assim…

A ciência nasceu como um ramo dos homens. Nos séculos XV, XVI e XVII algumas poucas mulheres bem nascidas, aristocratas, podiam atuar como interlocutoras de pensadores renomados.  Mas, essas mulheres não podiam fazer parte da discussão em si, ignorando que quanto maior a diversidade de um grupo, maior será a riqueza de sua discussão. A mudança dessa realidade começa apenas na segunda metade do século XX, com a grande demanda de recursos humanos na área de ciências e tecnologia e com o fortalecimento da luta pela igualdade entre homens e mulheres. Começa-se a questionar a produção científica feita por mulheres apenas por volta de 1970, e um dos primeiros artigos sobre o tema foi publicado por Alice Rossi, em 1965, que fez um levantamento do número de mulheres que trabalhavam em C&T (Ciências em Tecnologia) nos Estados Unidos, no período de 1950-1960. Muitos tentam, até hoje, justificar a menor participação feminina nas áreas de C&T e nas publicações científicas com estereótipos, dizendo que a mulher tem maior prioridade no casamento e no cuidado dos filhos, o que levaria a menor produtividade. Esse tipo de estereótipo pode desestimular muitas mulheres a investirem em sua formação.

As portas da C&T têm lentamente  sido abertas pelas mulheres, com grande crescimento da nossa representação nas universidades, onde em alguns cursos nos tornamos maioria, como é o caso das áreas biológicas, da saúde e da educação. Avanço que apesar de positivo, demonstra como as mulheres podem ser orientadas a áreas que envolvem o cuidado e que remetem ao estereótipo de esposa que cuida e educa. A área com menor concentração de mulheres continua sendo a Física e Matemática, cerca de 25%, enquanto que na educação chegamos a quase 70%, fenômeno conhecido como gender tracking. E apesar do aumento do número de mulheres que entram na pós-graduação, esse aumento não foi acompanhado com a mesma intensidade na obtenção de títulos, já que a taxa de evasão de mulheres na pós-graduação é maior do que a dos homens, e um dos grandes problemas citados é a relação com o orientador. Alguns professores universitários relatam preferir trabalhar com homens para evitar “distrações”, segundo depoimentos descritos por Léa Velho e Elena León, em seus estudos sobre a produção científica feminina.

 Mesmo com avanços significativos, o quadro ainda se apresenta como um funil, somos muitas nas graduações, algumas entre os professores, um número ainda menor entre pesquisadores líderes, e raras entre os cargos de direção e chefia. Existe uma tendência à estagnação da carreira da mulher, permanecendo em patamares inferiores. Com o avanço da carreira, a mulher encontra cada vez mais dificuldades em progredir e ascender aos níveis mais altos da academia. Por exemplo, após os anos 2000, na Academia Brasileira de Ciências, dentre os acadêmicos titulares apenas 10% eram mulheres, enquanto que entre os associados, 40% eram do sexo feminino. No Reino Unido, para cada professora universitária que atinge o topo da sua carreira científica, dez homens conseguem o mesmo feito.

Um estudo feito na Canadá por Holly O. Witteman e cols. comparou a taxa de sucesso de obtenção de subsídio financeiro para projetos de pesquisa de pesquisadores principais homens e pesquisadoras principais mulheres. O estudo demonstrou que quando se compara a qualidade dos projetos, os homens têm apenas 0,9% de chance a mais de conseguirem a verba para seus projetos do que as mulheres, no entanto, quando os mesmos projetos são avaliados de acordo com o currículo do investigador principal, os homens têm 4% de chance a mais do que as mulheres de ganharem o edital. Se a qualidade dos projetos não é significativamente diferente, porque homens têm mais chances de terem seus projetos aprovados? Isso demonstra que mesmo com menos títulos e menos publicações, as mulheres possuem tanto potencial quanto os homens, no entanto precisamos abrir espaço nos níveis mais altos da carreira para elas.

 Outra explicação para isso é a existência do Fenômeno Matilda, no qual as mulheres optariam por ceder os cargos de chefia para cientistas mais titulados (homens) para atrair mais recursos para as suas pesquisas e garantir um meio de trabalho mais harmonioso.  Na UNESP, as mulheres representam 49% do corpo docente, mas são responsáveis apenas por 46% das produções científicas. As dificuldades da mulher em crescer na carreira científica refletem na sua produção científica, ao mesmo tempo em que com menos produção, surgem menos oportunidades, em um círculo vicioso.

cristina

Estamos todos com a Cristina Yang (personagem da série Grey’s Anatomy)! E leia também nossos artigos, obrigada.

A Elsevier publicou um grande estudo intitulado “Gender in the Global Research Landscape” que analisa como o gênero afeta a vida do pesquisador, com dados de 20 anos, 12 países, e 27 áreas diferentes. Como podemos ver no texto, Igualdade de gênero na ciência brasileira aqui do blog, o Brasil, e também Portugal, ficaram bem na foto! Os dois países aparecem como os com maior igualdade de gênero dentro da C&T, onde nós mulheres somos 49% dos recursos humanos. Mas esse estudo traz muitos outros dados interessantes.

Esse estudo demonstra que a participação feminina aumentou ao longo do tempo em todos os países avaliados, sendo que na maioria dos locais, as mulheres representam 40% dos cientistas e inventores. Esse número cai bastante quando falamos do registro de patentes, onde somos apenas 15%. Comparativamente, mulheres participam menos do que os homens em projetos internacionais e também viajam menos a trabalho, o que pode ser um reflexo das menores posições que ocupam nos grupos de pesquisa e nos cargos acadêmicos.

Cerca de 70% da produção científica produzida até hoje é de autoria de homens, o que reflete séculos de desigualdades. No entanto, veja algo curioso: as mulheres realmente publicam menos do que os homens, mas não há evidências que isso impacte em suas carreiras científicas ou na qualidade do seu trabalho. Quando analisamos o fator Field-Weighted (reflete o número de citações) dos autores, mulheres e homens alcançam números muito semelhantes, o que reflete o alcance da literatura produzida pelas cientistas mulheres, apesar de terem menos títulos, suas publicações têm impactos semelhantes. Uma publicação científica é contada para avaliação do seu autor, mas existem características que lhe dão diferentes pesos, como o alcance e qualidade da revista onde foi publicada, o número de citações e significância dos resultados. É sempre importante lembrar que qualidade deve vir antes de quantidade! Inclusive o estudo demonstrou que mulheres publicam mais sobre interdisciplinaridade, ou seja, apresentam mais aplicações e correlações dos seus dados com o contexto no qual estão inseridos.

Dentre os artigos mais citados em 2014, 13% são de autoria de mulheres, se considerarmos apenas as áreas de engenharia, esse número cai para 3,7%, e se olharmos para a área de ciências sociais, sobe para 31%. Entre 2011-2015, em Portugal, cerca de 20% das publicações, e 26% na Dinamarca, em revistas da área de Medicina, foram feitas por mulheres. Em geral, o primeiro autor de um artigo é aquele que possui a maior responsabilidade e contribuição sobre este, e as mulheres representam 35% dos primeiros autores das publicações, com variações em diferentes áreas.

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Produção científica por autor, período de 1996-2000 e 2011-2015, por país e sexo. Em roxo a produção de mulheres e em verde a produção de homens. Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

 

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Medida do impacto das publicações de homens e mulheres.  Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

Mesmo com séculos de desigualdade, sendo minoria entre os pesquisadores e entre as publicações científicas, temos feito grande diferença, através de grande perseverança e luta, mostrando que somos significativas, que somos impactantes, que somos brilhantes! Publicamos menos, mas quando analisamos uma autora individualmente suas publicações são tão relevantes quanto as de qualquer outro homem. Isso deveria ser suficiente para que se pare de falar em improdutividade e inferioridade do trabalho das cientistas mulheres, troque essas palavras por OPORTUNIDADE, e faremos bom uso dela!

Se no século XV a ideia de uma cientista mulher era ridícula, hoje somos 40% desse mundo. Isso mostra, que a luta, mesmo que árdua, vale a pena.

Referências:

JACQUELINE LETA As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso.. ESTUDOS AVANÇADOS 17 (49), 2003

Renan Carvalho Ramos e Samara Pereira Tedeschi A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA DA UNESP, CAMPUS DE RIO CLARO Caderno Espaço Feminino – Uberlândia-MG – v. 28, n. 1 – Jan./Jun. 2015 – ISSN online 1981-3082

LEA VELHO, ELENA LEÓN. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DAPRODUÇÃO CIENTÍFICA POR

MULHERES. Cadernos pagu (10) 1998: pp.309-344.

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

Witteman, H. O., Hendricks, M., Straus, S. & Tannenbaum, C. Female grant applicants are equally successful when peer reviewers assess the science, but not when they assess the scientist. Preprint at bioRxiv http://dx.doi.org/10.1101/232868 (2018).

 

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Uma nova maneira de divulgar descobertas científicas

Você que é pesquisador, pós-doc, doutorando, mestrando ou até mesmo um aluno de Iniciação Científica, provavelmente, já se deparou com as dificuldades inerentes à publicação de um artigo científico. Pra quem não é da área acadêmica, eu explicarei as etapas necessárias para que um artigo seja aceito para publicação em um bom periódico.

Primeiramente, é necessário o desenvolvimento de um projeto que deve ser avaliado quanto a sua justificativa, objetivo e métodos para obtenção de resultados confiáveis e consistentes. Após o desenvolvimento de todo o seu projeto e análise dos seus resultados, nada mais o impede de começar a escrever o seu artigo científico.

A maioria dos artigos da área de ciências biológicas e saúde é dotada de cinco seções: Resumo, Introdução, Material e Métodos, Resultados e, por fim, Discussão. Essa estrutura é a mais comum, porém alguns artigos das áreas de ciências humanas e sociais podem adotar estilos de redação diferentes. Se você quiser o passo-a-passo de como um artigo científico deve ser escrito, acesse o texto: Como escrever um artigo científico do site Pós-graduando.

Em geral, artigos científicos são curtos e não ultrapassam 10 páginas. Por isso, a capacidade de síntese é algo importante, apesar de difícil, na hora de escrever. Depois de conseguir fazer toda a sua pesquisa caber em poucas páginas escritas em inglês formal¹ você estará pronto para submeter seu artigo, juntamente com todas as suas figuras, gráficos e tabelas, em um periódico científico de preferência com alto fator de impacto².

Uma vez submetido, o artigo passará por uma análise de revisão rigorosa que conta, geralmente, com 2 revisores e 1 editor. Eles vão ler seu trabalho, avaliá-lo e decidir se será aceito, negado ou se precisará passar por correções e uma nova análise para poder ser publicado. A maioria dos periódicos são “peer-reviewed”, ou seja, revisado por pares, isso significa que os pesquisadores que revisarão seu manuscrito são, preferencialmente, da mesma área de pesquisa que você.

Digamos que após algumas correções e rigorosa análise, o seu artigo tenha sido aceito em um periódico. Você pensa: “nossa que ótima notícia, agora todos os pesquisadores do mundo inteiro que tenham interesse pelo meu campo de trabalho poderão acessar meu texto e ler minhas contribuições para a área.” Na verdade, não é bem assim que as coisas funcionam…

Os bons periódicos com acesso aberto (Open Access) ao público, geralmente cobram na faixa de U$1,000 para publicar um artigo. Existem revistas que não cobram para publicação, porém o acesso ao seu artigo fica restrito a assinantes daquela revista, como universidades e institutos de pesquisa. Para os não assinantes, existe uma taxa de cerca de U$40  para permitir acesso ao texto.

Por conta dessas dificuldades, surgiram algumas iniciativas, como o sci-hub. O sci-hub é um site fundado em 2011 pela neurocientista Alexandra Elbakyan, no qual são encontrados cerca de 62 milhões de artigos científicos das mais variadas áreas e revistas. Apesar de ser uma nobre iniciativa, que visa derrubar as barreiras da ciência, o sci-hub é ilegal, já foi retirado do ar diversas vezes e enfrenta graves acusações de roubo de direitos autorais.

Scihub

Fonte: Sci-hub. Tradução livre: ..para remover todas as barreiras no caminho da ciência.

Mais um importante projeto criado pela instituição Cold Spring Harbor Laboratory sediada em Nova Iorque, é o BioRxiv (lê-se bio-archive), um site autointitulado de “the preprint server for biology” (em tradução livre: “servidor para artigos pré-publicados de biologia”) que opera como uma revista científica para artigos que ainda não foram formalmente revisados e publicados. O BioRxiv foi lançado no final de 2013 e já conta com cerca de 10 mil manuscritos disponíveis para serem acessados por qualquer pessoa.

A plataforma funciona da seguinte maneira: pesquisadores podem submeter  rascunhos de seus artigos assim que estiverem prontos para serem compartilhados, com semanas, ou meses antes de serem formalmente publicados em uma revista científica.

preprints

Fonte: Nature. doi: 10.1038/503180a. Tradução livre: Os “preprints” ganham vida.

O objetivo do BioRxiv é acelerar o compartilhamento de resultados científicos importantes que ficariam “escondidos” até serem aceitos para publicação em algum periódico. O mais legal desta plataforma é que outros cientistas podem deixar comentários e te ajudar no processo de evolução do seu manuscrito. Uma vez que um artigo é adicionado no BioRxiv ele não pode ser removido, pois o site permite sua citação por outros autores. Depois de ser aceito para publicação, o site atualiza automaticamente a versão “preprint” com um link para a versão publicada.

Em abril deste ano foi divulgado que o servidor recebeu uma grande contribuição de Chan Zuckerberg Initiative (CZI) para a expansão do site e adição de mais ferramentas. “O acesso expandido a esses manuscritos pode acelerar o ritmo de descobertas e, como consequência, nosso entendimento de saúde e doenças”, afirmou o neurocientista Cori Bargmann, presidente do Departamento de Ciências da CZI.

Iniciativas como o BioRxiv já são altamente disseminadas em outras áreas do conhecimento, como no  campo da física, matemática e ciências sociais com o site Rxiv (archive) que aceita “preprints” dessas áreas há 25 anos, mas para os pesquisadores do campo da biologia e de saúde isso tudo é uma grande novidade.

O servidor certamente contribuirá para todas as áreas da biologia,  principalmente para a saúde. Uma das contribuições mais evidentes é reportar rapidamente surtos de doenças infecciosas, como no começo do ano de 2013, quando cientistas submeteram ao Rxiv um relatório a respeito de surtos de gripe aviária (H7N9) que ocorriam na China.

O sistema atual de publicação de artigos científicos é caro, restringe o acesso à ciência aos meios especializados e torna o desenvolvimento científico mais lento, artigos podem levar até um ano para serem publicados.  Diante desse cenário, a comunidade científica deve considerar que uma ação como o BioRxiv pode realmente representar um avanço no jeito de fazer e divulgar ciência.

¹Nem todos os artigos científicos são, obrigatoriamente, escritos em inglês, porém os textos em inglês podem ser lidos por qualquer pessoa ao redor do mundo.

²Fator de impacto: é uma medida que calcula o número médio de citações de artigos científicos publicados em determinado periódico.

 

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BioRxiv

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