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Mudanças climáticas potencializam a resistência a antibióticos

Que a resistência a antibióticos é uma questão preocupante, muita gente sabe. O tema vem sendo cada vez mais debatido em cúpulas de altas negociações e entre governos. No ano passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) deu atenção especial à questão em sua 72ª Assembleia na sede da Organização, em Nova York. Afinal, um problema que causa a morte de 700 mil pessoas por ano atualmente – e pode matar 10 milhões de pessoas por ano em 2050, superando todos os tipos de câncer e diabetes – é um problema que não pode ser ignorado.

Especialistas e formuladores de políticas públicas estão alarmados e alertam para o uso indiscriminado de antibióticos em pessoas e animais. Em muitos lugares, antibióticos são vendidos sem receita, as pessoas não seguem o tratamento até o fim ou mesmo fazem uso desse tipo de medicamento para tratar infecções de causa viral, como a gripe. Some-se isso ao ritmo lento no desenvolvimento de novos medicamentos de maior eficácia no tratamento de infecções bacterianas, a resistência de bactérias a antibióticos só piora. Há quem tema que a medicina sofra um “retorno à idade das trevas”, quando infecções simples matavam.

O que muita gente não deve saber, no entanto, é que as mudanças climáticas têm um papel importante na disseminação da resistência bacteriana a antibióticos. Um estudo publicado recentemente na revista Nature Climate Change indica que, quanto maior o aumento da temperatura, maior a incidência de infecções resistentes a tratamentos com antibióticos.

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Klebsiella pneumoniae. Imagem: NIAID

Os líderes do estudo, Derek MacFadden e Sarah McGough, pesquisadores da Harvard Chan School of Public Health, constataram, junto com seus colegas, que uma mudança de 10ºC na temperatura aumentaria a resistência da Escerichia coli, causadora de infecções urinárias, em 4,2%; sob as mesmas condições, a resistência da Klebsiella pneumoniae, causadora de pneumonia, aumentaria em 2,2%; e a Staphylococcus aureus, responsável por doenças como a meningite, aumentaria sua resistência a antibióticos em 2,7%.

A pesquisa teve como amostra os Estados Unidos e levou em conta padrões de resistência bacteriana registrados em uma extensa base de dados com índices de resistência por antibiótico e por bactéria entre 2013 e 2015. Os dados foram recolhidos de hospitais, laboratórios e unidades de observação em todo o país e foram cruzados com taxa de prescrição de antibióticos por região e também com a densidade populacional de diferentes regiões dos EUA. Para analisar a relação com o clima, os pesquisadores usaram uma série histórica de variação de temperatura que ia de 1980 a 2010 em todas as regiões dos EUA.

Os pesquisadores perceberam, também, que nos estados do sul do país – com temperatura mais alta que os do norte em razão da latitude onde estão – a prescrição de antibióticos era, em geral, maior que nos estados mais ao norte. Isso faz sentido quando se pensa que temperaturas mais altas facilitam a transferência de genes de resistência a antibióticos, que é uma das hipóteses que o estudo levanta. A questão é que uma maior prescrição de remédios coincidiu com mais resistência a tratamentos para as três bactérias analisadas.

O que acontece nos Estados Unidos possivelmente se repete com uma frequência muito maior em países em desenvolvimento. Na Índia, por exemplo, há uma preocupação muito grande com a prescrição indiscriminada de antibióticos e o uso incorreto deles, que é algo bastante comum por lá.

Se a relação entre mudanças climáticas e resistência bacteriana for confirmada por mais estudos, podemos estar diante de um desafio imenso – que não vai poupar nenhum continente. Além disso, este é um problema que pode possivelmente bater com mais força nos países em desenvolvimento, que estão em sua maioria próximos à linha do Equador e é onde os efeitos das mudanças climáticas vão ser sentidos com mais intensidade.

A questão é que precisamos falar mais sobre a resistência bacteriana a antibióticos. Num mundo em que as mudanças climáticas são uma questão incontornável agora – e mais ainda em um futuro próximo – precisamos ter em mente que tudo vai ser alterado pelo clima. Bactérias de hospitais e nos alimentos que consumimos, inclusive. Para não sermos pegos de surpresa, precisamos começar a conversar mais seriamente sobre este problema – problemão – nas nossas casas e com nossos conhecidos. A comunidade médica precisa ser mais criteriosa em prescrever medicamentos – é preciso parar de receitar antibióticos para qualquer diagnóstico de “virose”. Muita gente toma antibiótico porque o médico diz que é para tomar.

Precisamos exigir menos uso de antibióticos na agricultura e parar de usar esse tipo de medicamento para tratar gripe. Quem sabe uma ação coletiva coordenada pegaria as bactérias de surpresa, mesmo ajudadas pelas mudanças climáticas?

Saiba mais

MacFadden et al. Antibiotic resistance increases with local temperature. Nature Climate Change, 21 de maio de 2018

Antibiotic Resistance. World Health Organization, 5 de fevereiro de 2018

A “epidemia” que matará mais gente do que o câncer (se não for evitada). El País Brasil, 22 de setembro de 2017

Por que o mau uso dos antibióticos é uma ameaça para a saúde de toda a população. Gaúcha ZH, 29 de julho de 2016

Superbactérias avançam no Brasil e levam autoridades de saúde a correr contra o tempo. BBC Brasil, 11 de julho de 2017

Plano de combate à resistência a antibióticos deve ser concluído em 2018. O Globo, 11 de novembro de 2017

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