0

Redução de açúcares dos alimentos industrializados: o que muda com o acordo?

No final de novembro deste ano (26/11), o Ministério da Saúde assinou um acordo com os presidentes de associações do setor produtivo de alimentos, com o objetivo de reduzir o teor de açúcar de cinco categorias de alimentos: 1) bebidas adoçadas (refrigerantes, néctares e refrescos); 2) biscoitos (biscoitos doces sem recheio, exceto, biscoitos maria e maisena, biscoitos doces recheados, biscoitos wafers e rosquinhas; 3) bolos e misturas para bolos; 4) achocolatados em pó e produtos similares; e 5) produtos lácteos. A lista completa de produtos e os itens do acordo podem ser lidos na íntegra aqui

assorted candy lot

Photo by rawpixel.com on Pexels.com

Por meio desse acordo, estima-se reduzir um total 144 mil toneladas de açúcar dos produtos até 2022. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizará o monitoramento da redução do açúcar na formulação dos produtos a cada dois anos, sendo a primeira análise no final de 2020. Fazem parte do acordo a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA), a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (ABIR), a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães e Bolos Industrializados (ABIMAPI) e a Associação Brasileira de Laticínios (Viva Lácteos) {1}.

Segundo dados do Ministério da Saúde, as metas propostas  foram estabelecidas na forma de quantidade de açúcar por porção do alimento, baseadas em critérios que envolvem desde o consumo de açúcar pela população  e distribuição dos teores de açúcar dos alimentos até a necessidade de redução dos níveis máximos de açúcar do alimento; queda dos teores de açúcares livres não resultantes em aumento no valor energético e de adição ou substituição por adoçantes, além do percentual de produtos a serem reformulados para atingirem à meta. Cada tipo de produto possui uma meta individual de redução da quantidade de açúcar por porção, como pode ser lido no acordo. Os biscoitos e produtos lácteos terão os maiores percentuais de meta para redução do alimento até 2022, com a meta de retirar 62,4% e 53,9% de açúcar da composição, respectivamente. Para bolos, a meta é de até 32,4% e para as misturas para bolos, até 46,1% do teor de açúcar. Já os achocolatados, tem a meta de cair até 10,5% e as bebidas açucaradas até 33,8%.

A medida faz parte dos esforços do Brasil para auxiliar no controle das doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade, o diabetes e as doenças cardiovasculares (leia mais sobre o tema nos textos do blog). Segundo o Ministério da Saúde, o país se destaca como um dos primeiros países do mundo a buscar a diminuição do açúcar nos alimentos industrializados. Apesar de números totais robustos, o acordo divide opiniões de especialistas da área de Alimentação e Nutrição, e é considerado fraco. As críticas incluem o caráter voluntário da medida, a falta de punições para quem não cumprir o acordo e metas tímidas, que não atingem alguns dos produtos mais consumidos pelos brasileiros, como refrigerantes e bebidas açucaradas. Ao lermos o rótulo dos refrigerantes mais famosos, por exemplo, observa-se que eles possuem 10,5 gramas de açúcar para cada 100 mililitros, enquanto que a meta para 2022 é de 10,6 gramas por 100 mililitros. Segundo dados da pesquisa do sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL), 26% da população brasileira entrevistada consome refrigerantes pelo menos cinco dias na semana, sendo mais frequente entre os mais jovens{2}. Outro importante estudo brasileiro, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que nos últimos anos houve redução do consumo do açúcar de mesa, mas cresce a ingestão de açúcares adicionados a alimentos e bebidas em produtos industrializados, como refrigerantes, néctares, balas, biscoitos, bolos e chocolates {3}. Ou seja, o aumento do consumo de açúcar em alimentos prontos para consumo representa um cenário muito preocupante.

O “desânimo” de alguns especialistas em relação ao acordo também está pautado no desdobramento de um acordo anterior para redução do sódio dos alimentos, assinado em 2011. Da mesma forma que o atual, o acordo do sódio previa metas já alcançadas pela maioria dos produtos. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) foi constatado que o valor estipulado era muito baixo e ineficiente, exatamente porque a maioria dos produtos já estavam dentro da meta estabelecida {4}. Para a nutricionista do Idec, medidas eficazes são aquelas que realmente apoiam a escolha de alimentos saudáveis pelo consumidor, e que exigem maior controle do Estado. Um exemplo é a mudança dos rótulos dos alimentos, que passariam a conter advertências para o teor de sódio e açúcar, por exemplo, empoderando o consumidor. A inclusão das advertências nos rótulos é um projeto de lei, ainda em votação (link para votar), e precisa muito do apoio de toda a população{5}.

Outra medida interessante é a taxação extra de produtos industrializados.

Medidas similares já foram adotadas por países como Colômbia e México, onde se aumentou a taxação de impostos sobre produtos açucarados. O impacto da medida ainda está sendo avaliadoem pesquisas da área de saúde pública, mas já é considerada estratégia importante com benefícios sociais, econômicos e para a saúde , mostrando redução da probabilidade de compra e ingestão de açúcar especialmente nas populações de menor renda{6,7,8}.

A única certeza que se tem é que para enfrentar as doenças crônicas são necessárias ações em diferentes frentes. A alimentação adequada e saudável constitui um dos principais pilares para a promoção da saúde. Para que essa alimentação saudável seja possível,  é imprescindível a participação da sociedade, compartilhando informações e manifestando posicionamentos – afinal o maior poder é dos consumidores.

Referências

  1. http://portalms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/44777-brasil-assume-meta-para-reduzir-144-mil-toneladas-de-acucar-ate-2022
  2. https://www.ans.gov.br/images/Vigitel_Saude_Suplementar.pdf
  3. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv50063.pdf
  4. https://idec.org.br/em-acao/artigo/acordo-para-reduco-de-sodio-nos-produtos-industrializados-no-e-eficiente-entrevista-especial-com-ana-paula-bortoletto
  5. http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/SAUDE/563665-PROJETO-PREVE-ADVERTENCIA-EM-ROTULOS-DE-ALIMENTOS-PROCESSADOS-E-ULTRAPROCESSADOS.html
  6. Backholer, K., & Martin, J. (2017). Sugar-sweetened beverage tax: The inconvenient truths. Public Health Nutrition, 20(18), 3225-3227. doi:10.1017/S1368980017003330
  7. Nakamura R, Mirelman AJ, Cuadrado C, Silva-Illanes N, Dunstan J, Suhrcke M. Evaluating the 2014 sugar-sweetened beverage tax in Chile: An observational study in urban areas. PLoS Med. 2018 Jul 3;15(7):e1002596. doi: 10.1371/journal.pmed.1002596. eCollection 2018 Jul.
  8. Álvarez-Sánchez C, Contento I, Jiménez-Aguilar A, et al. Does the Mexican sugar-sweetened beverage tax have a signaling effect? ENSANUT 2016. PLoS One. 2018;13(8):e0199337. Published 2018 Aug 22. doi:10.1371/journal.pone.0199337

 

Anúncios
3

Operação “carne fraca”: como evitar o papelão

A operação denominada “Carne Fraca”, investigação da Polícia Federal com a finalidade de desmascarar um esquema de corrupção entre o Ministério da Agricultura e alguns frigoríficos em Goiás, Minas Gerais e Paraná, agitou o país na última semana. Além de mostrar mais um triste episódio de propinas e irresponsabilidade, fez muitas pessoas se perguntarem o que realmente estamos consumindo no nosso dia-a-dia.

Para quem não pôde acompanhar o assunto, a investigação mostrou uma série de irregularidades cometidas por frigoríficos brasileiros a fim de burlar a fiscalização e garantir o repasse de produtos “mascarados”, tanto para merenda escolar, como para o consumidor. Entre as práticas, destacou-se o uso de ácido ascórbico e outros aditivos em quantidades acima do permitido e em produtos fora da validade e a presença de papelão no meio da carne. Muitas notícias também circularam ligando o acido ascórbico ao aparecimento de câncer. Mas o que é mito e o que é real?

Aditivos alimentares são “substâncias intencionalmente adicionadas aos alimentos com o objetivo de conservar, intensificar ou modificar suas propriedades, desde que não prejudiquem seu valor nutritivo” (1). O uso de aditivos alimentares é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e tem seu limite de ingestão estabelecido por esse órgão. O ácido ascórbico está na lista de aditivos permitidos e é popularmente conhecido como vitamina C (nos rótulos de alimentos pode estar descrito como INS 300). É usado rotineiramente pela indústria como antioxidante em diversos tipos de alimentos(1). No caso das carnes, a vitamina C tem o papel de preservar a cor vermelha. Quando há consumo excessivo, a vitamina C é excretada pelos rins (2) e o principal risco é a formação de cálculos renais (a famosa pedra nos rins). Entretanto, nenhum estudo comprova seu papel como agente causador de câncer. Aliás, devido a suas propriedades antioxidantes, ela tem sido estudada como parte do tratamento antitumoral – dados ainda preliminares (2, 3). Assim, o consumo de acido ascórbico nos alimentos, desde que usado na quantidade segura, não causa dano a saúde.

Entretanto, não é de hoje que os aditivos alimentares são foco de pesquisas científicas. Existem evidências de que o consumo dessas substâncias pode trazer perigos à saúde, tais como alergias, alterações no comportamento e, em longo prazo, carcinogenicidade, ou seja, se tornar um agente causador de câncer. É importante considerar que o câncer é uma doença multifatorial, que depende de fatores genéticos e de estilo de vida. A presença de efeitos deletérios do consumo de aditivos alimentares dependem da maturidade e individualidade fisiológica (faixa etária e como cada organismo reage a diferentes agentes), da frequência e da quantidade por kg de alimentos consumido (4).

Entre os aditivos considerados potencialmente carcinogênicos encontram-se os nitratos e os nitritos. Um dos mecanismos propostos para o aparecimento de tumores por essas substãncias envolve a formação de N-nitroso, composto que causa danos e mutações no DNA (5). Porém, os resultados dos estudos são contraditórios e a sua adição é considerada segura. Além disso, o N-nitroso é formado durante outros processos térmicos de preparação dos alimentos, principalmente na fritura e grelha de carne vermelha e na produção e defumação de carnes processadas, como linguiça e salsicha. Em uma metanálise incluindo mais de 800 estudos e 22 especialistas de 10 países diferentes publicado em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) – instituição especializada nesta doença da Organização Mundial da Saúde (OMS) – classificou o consumo de carne vermelha como ‘provavelmente carcinogênica para humanos’. Já a carne processada foi classificada como ‘diretamente carcinogênica para humanos’, principalmente relacionada ao câncer colorretal (6). Portanto a recomendação é moderar o consumo de carne vermelha e reduzir o consumo de carne processada.

Em relação ao papelão, as notícias divulgadas se mostraram sensacionalistas e realmente não existe papelão no meio da carne. O papelão é utilizado como material para embalagem, e não pode entrar na chamada área limpa onde os alimentos são preparados. O trecho apresentado pela polícia se refere a entrada do material na área limpa, o que não seria permitido. A seguir, o funcionário menciona que se isso acontecer, irá condenar o produto, ou seja descartá-lo (7). Além disso, não há menção do uso de papelão em alimentos em nenhum artigo científico.

Apesar de as notícias divulgadas trazerem informações equivocadas, o consumidor deve sim ficar atento. Existe um programa internacional proposto pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da OMS com o objetivo de estabelecer normas na área de alimentos, incluindo padrões, diretrizes e guias sobre Boas Práticas e de Avaliação de Segurança e Eficácia conhecido como Codex Alimentarius . Sobre os aditivos alimentares, o Codex Alimentarius recomenda que não sejam utilizados aditivos intencionais em alimentos destinados a crianças menores de um ano, uma vez que poderiam ser mais vulneráveis aos possíveis efeitos deletérios, como explicado acima. Apesar dessa orientação, existem vários produtos no mercado, como iogurtes, gelatinas, refrigerantes, biscoitos e balas, que são consumidos tanto por crianças como por adultos, e não estão sujeitos à referida normatização (4). No Brasil, com o objetivo alertar a população sobre o consumo de alimentos industrializados, o Ministério da Saúde lançou uma edição revisada do Guia Alimentar para a População Brasileira e apresenta um conjunto de informações e recomendações sobre alimentação (8).

Nesta nova edição, além dos passos para seguir uma alimentação saudável, o Guia classifica os alimentos de acordo com seu processamento, definindo como: 1) “alimento in natura”: aquele obtido direto da natureza (ex: peixe fresco ou couve fresca); 2) “minimamente processado”: alimento retirado da natureza e submetido a processos simples como cortar, picar ou secar (ex: peixe congelado, couve picada, feijão seco); 3) “alimento processado”: alimento in natura ou minimamente processado essencialmente com a adição de sal ou açúcar (ex: atum em lata, legumes em conserva, frutas em calda, queijos e pães); 4) “alimento ultraprocessado”: aquele que cuja fabricação envolve diversas etapas e técnicas de processamento e vários ingredientes, principalmente os de uso exclusivamente industrial (ex: refrigerantes, biscoitos recheados, “salgadinhos de pacote” e “macarrão instantâneo”). Assim, a recomendação é clara: produtos industrializados podem fazer parte da nossa alimentação, mas não devem ser a base dela (8).

Guia

Tipos de alimento segundo seu grau de processamento (9).

Portanto, apesar do lamentável cenário mostrado pelas investigações, este episódio trouxe à tona importantes reflexões sobre o impacto da alimentação e da industrialização no nosso cotidiano. É preciso continuar o debate e a investigação desses processos para garantir a informação correta e para dar às pessoas o poder de cobrar mais transparência e respeito por parte da indústria alimentícia. E fica a lição: tanto na divulgação de informações, como na escolha alimentar, vale o ditado “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”… mas sem muito processamento….

(1) Consolidado da legislação brasileira de aditivos alimentares organizada por aditivo, disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/documents/33916/388779/Comp%25C3%25AAndio%2B-%2BJUNHO%2B2015_em%2Batualiza%25C3%25A7%25C3%25A3o2.pdf/a87d0498-d814-4378-81e3-9293f79eb4a9

(2) Du J, Cullen JJ, Buettner GR. Ascorbic acid: chemistry, biology and the treatment of cancer. Biochim Biophys Acta. 2012 Dec;1826(2):443-57. doi: 10.1016/j.bbcan.2012.06.003. Epub 2012 Jun 20.

(3) Fritz et al. Intravenous Vitamin C and Cancer: A Systematic Review. Integr Cancer Ther. 2014 Jul;13(4):280-300. doi: 10.1177/1534735414534463.

(4) Polônio ML, Peres F. Food additive intake and health effects: public health challenges in Brazil. Cad Saude Publica. 2009 Aug;25(8):1653-66.

(5) Dellavalle et al. Nitrate and nitrite intake and risk of colorectal cancer in the Shanghai Women’s Health Study. Int J Cancer. 2014 Jun 15;134(12):2917-26. doi: 10.1002/ijc.28612.

(6) http://dx.doi.org/10.1016/S1470-2045(15)00444-1

(7) http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39317738

(8) Guia Alimentar para a População Brasileira, disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/05/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf

(9) Guia Alimentar para a População Brasileira pág. 51, disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/05/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf