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Vamos ocupar as redes!

O blog Cientistas Feministas – e as iniciativas de divulgação científica em geral – tem como proposta a democratização da ciência através da disseminação de informação. O conhecimento científico é, na esmagadora maioria dos casos, difundido por meio de periódicos especializados e em eventos acadêmicos inacessíveis à população em geral e que costumam se valer de uma linguagem bastante hermética. A ciência e o conhecimento por ela produzido, no entanto, devem ser socializados, democratizados. As ferramentas de divulgação científica são, assim, uma estratégia possível na democratização da produção científica.

Nessa estratégia, a internet cumpre um papel fundamental. De acordo com dados divulgados pelo Portal Brasil, em 2015, 58% da população brasileira tinha acesso à internet.

 

No caso do conhecimento especificamente produzido na área de ciências humanas e sociais, as iniciativas de Digital Humanities já estão com debates bastante avançados (um exemplo da história do direito). Há também diversos projetos de digitalização de documentos (veja um exemplo aqui no blog) que democratizam consideravelmente o acesso a fontes, facilitando a produção de dados e tornando a produção de conhecimento mais democrática.

Neste post, porém, não tratarei desse tipo de iniciativa que tem uma incidência maior na produção do conhecimento, mas em projetos que visam ampliar a difusão do resultado de pesquisas. O foco será a área de história do direito, mas os exemplos aqui apresentados podem ser facilmente replicados em outras áreas. Se você conhece iniciativas parecidas em outras áreas, por favor, coloque o link nos comentários! 😉

Na blogosfera, há diversas iniciativas dedicadas à história do direito. Uma das mais conhecidas é o Legal History Blog. Aí estão presentes posts sobre eventos na área, resenhas de livros recentemente publicados, chamadas para bolsas, etc. Na página inicial, há também uma lista com outros blogs que tratam da história do direito e links para páginas de instituições da área. O blog pretende abranger todas as áreas do mundo, mas a maioria dos posts ainda está focada na produção científica em língua inglesa.

O Twitter também é uma rede que pode ser utilizada para disseminação de resultados de pesquisas. Um exemplo é o projeto Women Negotiating the Boundaries of Justice. O projeto se foca no acesso das mulheres ao judiciário, na Grã-Bretanha e na Irlanda, entre os séculos XII e XVIII. O Twitter é usado pelo grupo para divulgar resultados de suas pesquisas, informações relacionadas ao tema do acesso das mulheres à justiça e chamadas para eventos.

O YouTube também é uma plataforma muito interessante para a história do direito. Um exemplo é o canal Coloquios de Historia del Derecho. O canal reproduz vídeos de palestras e debates que acontecem, mensalmente, desde 2010, no âmbito dos Coloquios de Historia del Derecho, na Universidad Autónoma de Madrid. Um importante detalhe sobre essa iniciativa: as organizadoras dos Coloquios têm adotado a política de sempre incluir, a cada ciclo do evento, ao menos uma palestra dedicada à história das mulheres. A próxima sessão, por exemplo, que acontecerá no dia 28 de abril, tratará do tema “Profissionalização das primeiras mulheres advogadas na Estónia” e estará a cargo da professora Merike Ristikivi.

Uma outra iniciativa – essa no âmbito do já tradicional e-mail – é a lista H-Law. Cadastrando-se na plataforma, qualquer pessoa pode receber informações periódicas sobre conferências e publicações  na área. Recentemente, também começaram a gravar podcasts sobre história do direito.

O Snapchat é uma rede social ainda não ocupada pelos historiadores do direito. O site Snap4Science reúne iniciativas de difusão científica via Snapchat. No entanto, até hoje, não há nenhum canal das ciências humanas e sociais cadastrado.

Esses exemplos não pretendem esgotar todas as iniciativas que existem na web. Apesar de ser uma área relativamente pequena, a história do direito tem aos poucos ganhado espaço na internet. No entanto, cabe a nós, que temos interesse em produzir uma ciência mais democrática e acessível, ocupar cada vez mais esses espaços, aprimorando a comunicação entre os pesquisadores e com a população de uma maneira mais ampla.

Além do fato de que quanto mais difundirmos o conhecimento científico, mais democratizaremos e beneficiaremos a sociedade, é importante lembrar que esse tipo de ocupação do espaço virtual beneficia grupos tradicionalmente marginalizados. Em primeiro lugar, amplia as possibilidades de fala de grupos que encontram diversos obstáculos para apresentar suas pesquisas no próprio meio acadêmico. Ocupar espaços de fala e debate nas redes pode ser um caminho possível para, posteriormente, forçar uma entrada mais efetiva nos espaços de diálogo acadêmico mais “tradicionais”. Em segundo lugar, considerando o amplo número de pessoas que podem ser alcançadas pela internet, aumentam as chances de estimular que mulheres, negros, etc., interessem-se por carreiras científicas. A restrição do debate acadêmico beneficia os grupos que tradicionalmente já ocupam os espaços de fala e de discussões. Ampliar os locais possíveis de debate significa, portanto, tornar a ciência um pouco mais democrática, representativa e acessível.

Fica o chamado: vamos ocupar as redes!

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Assédio, o teto de vidro da academia

O silêncio institucional brasileiro na contramão do século 21

No ano em que as feministas dominaram e revolucionaram as redes sociais, um assunto continua tabu: o assédio na academia. De consequências devastadoras para as vítimas – de transtornos psiquiátricos ao suicídio – o tema raramente é abordado no ambiente acadêmico ou fora dele. Falar sobre o assunto significa questionar o status quo das posições de poder e colocar o dedo na ferida das sombrias estruturas da universidade.

Ciberativismo
O ano de 2015 entrou para a história do movimento feminista brasileiro. Chamada por muitos de “a primavera feminista”, o movimento gerou debates, criou “hashtags”, discutiu polêmicas e permitiu denúncias. As redes sociais foram as ferramentas encontradas pelas feministas para falar sobre a rotina de ser mulher em uma sociedade machista e patriarcal. A primeira campanha de impacto foi a “Chega de fiu-fiu”, da página feminista Think Olga, criada em 2013 para combater o assédio sexual em espaços públicos. Fez tanto sucesso que gerou uma pesquisa online sobre a percepção das mulheres em relação às cantadas de rua. Foram quase 8 mil participantes, das quais 98% relataram já ter sofrido assédio na rua e 33% no trabalho. Dessas, 13% receberam cantadas de um superior, 21% de um colega e 9% de outros funcionários. Em 2015 a página lançou a hashtag “primeiro assédio” após comentários sexualizando uma participante de 12 anos em um programa de televisão. A ideia era relatar a primeira vez em que sofreram assédio e totalizou mais de 82 mil entradas. A surpresa ficou por conta da idade das vítimas quando da primeira agressão, em torno dos 9 anos para muitas delas. Logo em seguida a tag “meu amigo secreto” emplacou, onde mulheres falaram sobre práticas machistas de seus cotidianos, muitas vezes aceitas como comportamentos normais pela sociedade.

A palavra assédio remete, imediatamente, a casos ligados à violência física e sexual. No entanto, outro tipo de assédio também ocorre, o assédio moral. Esse tipo de assédio é aquele que coloca sua vítima em situações vexatórias e humilhantes. Quatro comportamentos bastante comuns, mas limitadores, estão diretamente relacionados a essas situações de assédio: o “manterrupting”, o “bropriating”, o “mansplaining” e o “gaslighting”. A primeira significa “homens que interrompem” e é comum em reuniões e palestras, onde um ou mais homens presentes constantemente impedem que uma mulher conclua sua fala. Já a segunda se refere à apropriação, por homens, de ideias previamente apresentadas por mulheres. A terceira, “homens que explicam”, desmerece o conhecimento da mulher, tira sua confiança e autoridade sobre o que fala. Pode tanto servir para explicar de maneira condescendente coisas óbvias, que já são de conhecimento da mulher, como para afirmar que ela está errada a respeito de algo sobre o qual ela está certa e/ou é de sua área de domínio. Por último, e mais grave, o “gaslighting” é a manipulação psicológica, que leva a mulher a acreditar que está enlouquecendo ou que é mentalmente incapaz.

Um dos primeiros estudos sobre assédio a mulheres no mercado de trabalho foi realizado em 1979 por Peggy Crull, pelo Working Women’s Institute. Ele revelou que 63% das vítimas que sofreram assédio sexual exibiram sintomas físicos e 96% apresentaram sintomas de estresse emocional. Entretanto, há relatos históricos que falam de casos em 1908, mas é possível que os casos sejam tão antigos quanto a inserção da mulher no mercado de trabalho. Os pesquisadores Eros DeSouza e Joseph Solberg, em um levantamento sobre assédio nas universidades em 2003, relatam que há consenso entre os pesquisadores sobre as dificuldades em definir assédio e uma metodologia eficiente para levantamento de dados. Além disso, parte das vítimas falham em reconhecer a experiência vivida como tal, mesmo que seja recorrente. Mas também existe consenso de que sintomas físicos e psicológicos se manifestarão, acarretando em prejuízo sociais e profissionais.

O assédio sexual, ao contrário do senso comum, não se limita apenas a casos de violência física e estupro. Ele pode ocorrer por meio de cantadas, contato físico indesejado, piadas machistas e insinuações de caráter sexualizado. Para a psicóloga e doutoranda em psicologia forense Arielle Sagrillo Scarpati, nos dois tipos de assédio o objetivo do agressor é a limitação do espaço e da atuação de sua vítima, atentando contra sua integridade psíquica e/ou física. “Ambos se manifestam de maneira verbal e podem, ou não, vir a evoluir para uma agressão física. Importante destacar, ainda, que as duas formas de assédio podem acontecer de maneira concomitante”, afirma a psicóloga. Completa dizendo que “as agressões levam as vítimas a um estado de silenciamento, com restrição de suas condutas não apenas no ambiente acadêmico, mas também fora dele. A literatura indica o surgimento de quadros diversos, como anorexia e bulimia, ansiedade, transtornos de pânico e sono, depressão, dores crônicas, distúrbios gastrointestinais, problemas com a própria sexualidade e sentimentos de culpa”. A professora, antropóloga e pesquisadora de violência de gênero Hilda Maria Gaspar Pereira afirma que casos mais graves, como estupro e violência física, podem levar ao Transtorno de estresse pós-traumático e até mesmo a pensamentos suicidas, danando gravemente todos os aspectos da vida das vítimas. A advogada especialista em Direito Digital Gisele Truzzi – colaboradora jurídica do Think Olga e sócia-proprietária de Truzzi Advogados – lembra que conforme a definição legal do crime de assédio sexual (artigo 216-A, do Código Penal), é possível configurar o assédio na relação professor-aluna, pois há certa superioridade no tratamento e as medidas legais são cabíveis nesses casos. Continuar lendo