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Entrevista com a historiadora Mary del Priore

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Ilustração: @lacunainkk

Mary del Priore é uma historiadora brasileira bastante conhecida por seus livros de divulgação de História do Brasil, tendo mais de trinta títulos publicados.
Doutora em História pela USP, Mary fez pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e foi professora da USP e da PUC/RJ. Atualmente leciona na pós-graduação de História da Universidade Salgado Filho.
No mês passado, ela lançou seu mais novo trabalho, um livro que mistura ficção e história. Nesta entrevista, exclusiva para o #cientistasfeministas, a historiadora conta um pouco sobre sua trajetória, sobre os desafios para historiadoras e historiadores e também sobre o novo livro.

– Nos últimos anos você tem se dedicado a escrever livros de divulgação de História. Como foi essa decisão?
Ela nasceu de uma conjuntura favorável. Ao final dos anos 90, observei que as Ciências Humanas tinham entrado em declínio, com um número de publicações cada vez menor, que as obras de divulgação estavam ganhando terreno e consistência. E, finalmente, que a USP não era mais a minha praia. Lecionar perdia o encanto, frente ao engessamento das disciplinas, a verticalização das pesquisas, a mesmice do ambiente do universitário. De mudança para o Rio, timidamente comecei a procurar as editoras, propondo-lhes coleções e títulos que atendessem a interesses transdiciplinares. A José Olympio me permitiu o lançamento de “Baú de Histórias”, uma coleção de obras voltadas para o grande público, misturando textos autorais e documentos raros pertencentes à coleção Paulo Geyer. A Elsevier amparou a publicação de uma série de dicionários: de personagens da literatura às drogas. Paralelamente, dei início a uma série de biografias históricas. “O Príncipe Maldito”, finalista do prêmio Portugal Telecom, foi o primeiro da série, com grande sucesso. Nunca mais parei! Fui premiada com os livros que se sucederam, mas, ganhei o mais importante: o interesse do grande público.

 – Na sua opinião, há uma carência de obras de História? Como historiadoras e historiadores podem se aproximar mais dos leitores?
Não há, absolutamente, uma carência de obras de história. Aliás, a multiplicação de pós-graduações em história, em todo o Brasil, vem provocando uma massa imensa e de alta qualidade de publicações acadêmicas. Só que elas não servem para o leitor comum, que não se interessa por debates teórico-metodológicos, infindáveis notas de rodapé e conceitos complicados. Para se aproximar do leitor é preciso ter a coragem de abandonar essas regras que foram fixadas pelo Positivismo, no século XIX e gostar – mais importante – muito de escrever.

– Embora o  número de homens e mulheres no campo da História seja mais equilibrado que em outras áreas, percebe-se ainda uma discrepância quando olha-se mais de perto para nossos referenciais teórico-metodológicos. Nossas referências são, na grande maioria, masculinas. Como mudar esse cenário?
Trabalhando, trabalhando e trabalhando! As mulheres que gostarem de Teoria devem se dedicar a pensar conceitos e abordagens que tenham conexões com nosso passado. Isso evitaria a reprodução de teóricos estrangeiros que asfixiam a produção nacional e que não cansamos de citar. Sobre um deles, Carlo Ginzburg, disse com ironia o grande historiador e acadêmico Evaldo Cabral de Mello: “No Brasil usa-se Ginzburg até para estudar escravidão em Conceição do Mato Dentro”!!!!

– Seu mais recente livro é uma obra de ficção baseada em documentos reais. Para você, quais as aproximações e diferenças entre História e Literatura?
O grande historiador Paul Veyne já disse que “a história é um romance verdadeiro”. Desde os anos 90, um grande debate crítico sobre a narrativa histórica vem apaixonando vários autores, alguns deles explicitaram, como o fez Georges Duby, que a história deveria “divertir” também. Alguns mais jovens, como Ivon Jablonka, acusam os textos tradicionais de ter tornado a disciplina ilegível. Mais: que o abandono das salas de formação de historiadores se deve a esse modelo que foi construído com a chegada do “historiador, funcionário”: aquele que trabalha na universidade e que esquece que, fora da torre de marfim, há um mundo de gente interessada em aprender sobre os antepassados. Desde a Antiguidade houve um diálogo estreito entre História e Literatura. Milhares de autores, de Balzac a Marguerite Yourcenar, o comprovam. Entre nós, de Alencar ao imenso Assis Brasil, também. A diferença é que a história não inventa. Ela não é ficção. Mas uma narrativa ficcional, baseada em centenas de documentos pode transportar o leitor ao passado, com igual eficiência. Foi o que fiz. Misturei atores históricos que existiram a vozes ficcionais inspiradas em personagens do passado, que até falam como seus predecessores.

Para quem se interessou, é possível ler um trecho de “Beije-me onde o sol não alcança” no blog em que Mary colabora, o História Hoje.

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Academia e crítica feminista: entrevista com professora Estela Aquino

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Colagem: @lacunainkk

As mulheres têm uma série de desafios a enfrentar no campo científico. A discussão de gênero é uma ferramenta fundamental para esse enfrentamento. Como já abordamos anteriormente no blog, ainda há muito que conquistar no que diz respeito à representatividade das mulheres âmbito acadêmico e na discussão sobre feminismo em espaços de produção científica.

Conversamos com a professora Estela Aquino, referência na produção de pesquisas em Saúde Coletiva, com experiência respeitável de participação ativa nos campos científico, político e no movimento feminista. Formada em medicina, com Mestrado em Medicina Social e Doutorado em Epidemiologia, é professora associada do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), onde coordena o MUSA – Programa Integrado em Gênero e Saúde. É também integrante do GT Gênero e Saúde da ABRASCO e bolsista de produtividade em pesquisa (1D) do CNPq.

A cientista nos conta um pouco da sua trajetória, fala sobre a contribuição da crítica feminista à ciência e a complexa relação entre academia e militância. Reflete sobre o papel político e social da universidade e o compromisso para que o conhecimento produzido seja socialmente útil, divulgado e apropriado pela sociedade.

Conte-nos um pouco da sua trajetória como cientista e feminista. Para você, o que significa ser uma cientista feminista?

Estela Aquino: Minha identidade feminista começou a ser forjada na graduação em medicina em resposta às discriminações que nós mulheres estudantes sofríamos em um ambiente profundamente sexista e misógino. Na luta pela democratização do país ao final da década de 70 e início dos 80 comecei a participar mais ativamente do movimento feminista que a esta altura tomava a saúde como uma questão central, especialmente pela crítica à medicalização dos corpos e da vida reprodutiva das mulheres e ao androcentrismo da biomedicina.

Recém-formada fui trabalhar no Instituto Nacional de Câncer (INCa) onde passei a desenvolver estudos sobre prevenção e controle do câncer de mama e o de colo de útero, alimentados pelas minhas inquietações feministas e pelo debate que resultou em 1983 no PAISM – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher. Como médica do INCa, representava a instituição em todas as reuniões e ações para o detalhamento e implementação do PAISM em nível nacional.

Iniciei minha carreira acadêmica na UERJ, onde prossegui articulando a atuação política e profissional como pesquisadora e docente de graduação e pós-graduação. Entretanto, minha atividade científica se intensificou nos anos 90 durante o doutorado que fiz na UFBA, onde acabei permanecendo e criando o MUSA – Programa de Estudos em Gênero e Saúde do Instituto de Saúde Coletiva.  Junto com outras pesquisadoras, tenho atuado para além dos muros da academia, buscando combinar o ensino e a pesquisa em uma perspectiva crítica feminista.

A ciência moderna é um modo de produção de conhecimentos com mecanismos próprios de validação e reconhecimento, que durante muito tempo excluiu as mulheres. Ser uma cientista feminista exige a “reinvenção deste mundo”, o que não é tarefa fácil e impõe antes de tudo questionar os mecanismos de distribuição de poder e de recursos baseados no gênero.

O que você acha da relação entre academia e militância feminista?

Estela Aquino: Não é simples incorporar a reflexão feminista no trabalho acadêmico, já que o modelo hegemônico é marcadamente androcêntrico e muitos fenômenos são obscurecidos, considerados de menor importância ou mesmo sem interesse científico. Isso é ainda mais importante na área de saúde, já que historicamente a biomedicina tem fornecido as bases científicas para a manutenção de desigualdades de gênero.

Mesmo que não pretendam incorporar a reflexão feminista em suas pesquisas, as mulheres enfrentam muitos desafios e dificuldades pelo simples fato de que o androcentrismo influencia a atuação acadêmica em todos os níveis, desde a escolha das áreas do conhecimento aos mecanismos de acesso e progressão na carreira, inclusive com a ocupação de postos em uma estrutura profundamente hierarquizada. O próprio modelo de cientista ideal, que serve de parâmetro para a avaliação do desempenho, pressupõe dedicação integral, sem outros interesses e compromissos, com a finalidade de manter uma performance continuada, o que convenhamos, é pouco compatível com os ciclos reprodutivos e de vida das mulheres.  Por isso, muitas acabam adiando ou abdicando do casamento e da maternidade. Assim, a militância feminista no âmbito acadêmico exige em primeiro lugar visibilizar os mecanismos de exclusão e discriminação das mulheres na própria ciência. A atuação em rede característica do movimento feminista é uma estratégia útil para potencializar esforços no sentido de superar estes desafios.

Cientistas Feministas: Quais as principais a contribuições da crítica feminista à ciência?

Estela Aquino: O feminismo é um fenômeno social complexo e abriga várias vertentes teóricas em diferentes campos do conhecimento. A sua influência na ciência inclui a formulação de conceitos e teorias, tais como a própria categoria de gênero e a noção de divisão sexual do trabalho; a abordagem de novas questões com métodos e técnicas disponíveis; e a incorporação de novas estratégias e técnicas metodológicas (por exemplo, o uso da iconografia na pesquisa histórica sobre cotidiano). Sua contribuição tem se dado desde a visibilização de fenômenos obscurecidos pelo androcentrismo a novas perspectivas, projetos e prioridades. Muitas contribuições nem são mais pensadas como feministas.

Como as suas pesquisas se relacionam e se articulam com as pautas do movimento de mulheres?

Estela Aquino: Meu trabalho tem-se pautado na compreensão que tenho sobre o papel da universidade e no compromisso de que o conhecimento produzido seja socialmente útil, sendo divulgado e reapropriado pelos sujeitos coletivos.  Isso não significa apenas responder questões da agenda feminista, mas antecipá-las, de modo a qualificar o debate político e a formulação de políticas públicas.  Nesse sentido, a qualidade da produção científica é imprescindível, e a atuação acadêmica envolve a permanente articulação com a sociedade e as várias instâncias de controle social sobre o Estado, embasando políticas sociais mais justas e adequadas às necessidades das populações.  Tenho participado de várias destas instâncias, integrando comissões e conselhos, tais como a Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher do Conselho Nacional de Saúde, e mais recentemente o Conselho Nacional de Direitos da Mulher, onde representei a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) por cinco anos. Na ABRASCO, participei da criação do Grupo Temático em Gênero e Saúde, importante instrumento político que influencia a organização de eventos científicos e a definição de prioridades de pesquisa junto às agências de fomento. O financiamento de pesquisas tem papel determinante na produção de conhecimentos, tal como se observou, por exemplo, na década de 90 pelo estímulo aos estudos sobre sexualidade e saúde reprodutiva e a secundarização do trabalho.  Temas como violência sexual e aborto têm sido pautados pelo movimento feminista, apesar da crescente pressão de setores conservadores e religiosos.

Em sua opinião, o que está faltando pesquisar nesse campo?

Estela Aquino: A agenda precisa ser permanentemente atualizada e há muitas lacunas do conhecimento.

A situação das mulheres tem mudado muito nas últimas décadas, mas há grandes permanências nas relações de gênero, principalmente na esfera doméstica. No Brasil, pouco se conhece sobre o efeito dessas transformações na saúde. As pesquisas ainda se concentram nos aspectos reprodutivos e temas como saúde mental, trabalho e violência são muito pouco estudados. O envelhecimento e as doenças crônicas não transmissíveis ainda têm enfoque eminentemente biomédico e requerem uma abordagem crítica e feminista.

Para finalizar eu gostaria de enfatizar a necessidade de investigar as mudanças e permanências que vêm ocorrendo na academia e na produção de conhecimentos. Apesar da crescente participação das mulheres na ciência, principalmente como consequência do aumento da escolarização feminina em todo o mundo ocidental e também no Brasil, mudanças culturais no meio científico são lentas e difíceis. Por isso, conhecer esta dinâmica é crucial para apoiar a definição de estratégias de ação na busca da equidade de gênero.