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Smart Cities: sobre o que precisamos refletir

Fonte: UNICAMP

Nos últimos tempos, assistimos a um aumento de notícias, palestra e trabalhos acadêmicos sobre o tema das “smart cities” que, acionadas em sua concepção mais básica – da utilização de tecnologias em prol de uma governança melhor para as cidades – parece desejável e mesmo necessária no que nos é vendido diariamente como um completo descontrole urbano nas cidades brasileiras.

No entanto, pensar sobre o tema exige ir um pouco mais a fundo na sua definição e nas suas possíveis implicações em nossas cidades.

Uma simples busca na wikipedia vai retornar o seguinte conceito para smart cities: são “projetos nos quais um determinado espaço urbano é palco de experiências de uso intensivo de tecnologias de comunicação e informações sensíveis ao contexto, de gestão urbana e ação social dirigidos por dados (Data-Driven Urbanism). Esses projetos agregam, portanto, três áreas principais: Internet das Coisas (objetos com capacidades infocomunicacionais avançadas), Big Data (processamento e análise de grandes quantidades de informação) e Governança Algorítmica (gestão e planejamento com base em ações construídas por algoritmos aplicados à vida urbana).

Ao mesmo tempo, instituições como a Fundação Getúlio Vargas – FGV – tratam do tema sob as seguintes bases: “o conceito de Smart City já se consolidou como assunto fundamental na discussão global sobre  o desenvolvimento sustentável e movimenta um mercado global de soluções tecnológicas, que é estimado a chegar em US$ 408 bilhões até 2020. Atualmente, cidades de países emergentes estão investindo bilhões de dólares em produtos e serviços inteligentes para sustentar o crescimento econômico e as demandas materiais da nova classe média.  Ao mesmo tempo, países desenvolvidos precisam aprimorar a infraestrutura urbana existente para permanecer competitivos.”

O texto da mencionada fundação nos leva ao que parece ser o ponto de reflexão mais importante sobre o tema no Brasil: de que forma o investimento de recursos, sabidamente escassos, em tecnologia que serve aos interesses das classes média e alta, bem como da competitividade interurbana, pode ajudar na redução do drástico cenário de desigualdade socioespacial que domina nossas cidades?

O planejamento urbano no Brasil passa por uma visão mercantilizada na qual os investimentos feitos em determinada área devem trazer lucro. Com isso, acabam se concentrando em áreas mais valorizadas, com maior potencial de exploração econômica, em um ciclo infinito de privilégio de certas áreas da cidade em detrimento de outras. O empresariamento da cidade, que se tornou princípio fundamental da administração pública urbana, se mostra como uma máquina de reprodução de privilégios e exclusões, aprofundando os abismos estruturais e simbólicos existentes entre as partes da cidade ocupadas pelas classes média e alta e aquelas ocupadas pelos pobres. O recorte não é apenas econômico, envolvendo verdadeiras fronteiras raciais e jurídicas, evidentes na atualidade a partir dos extermínios institucionalizados, verificados em áreas pobres em nome de um pretenso combate à criminalidade (assunto para outro texto!).

Em um cenário como o nosso, que se reproduz de diferentes formas nas cidades dos países  em desenvolvimento, cabe refletir sobre quem se beneficiaria dos artifícios tecnológicos das smart cities e em que medida eles de fato poderiam ser utilizados para um desenvolvimento integrativo da cidade, realizando o objetivo do alcance de cidades mais justas e solidárias, trazido pela Constituição Federal.

Não podemos esquecer que as cidades abrigam cada vez um percentual maior da humanidade, sendo o espaço por excelência para limitar ou empoderar os indivíduos na busca por seus direitos. Refletir sobre as propostas de políticas e modelos urbanos é condição essencial para nossa individualidade, mas também para o desenvolvimento de nossa sociedade como um todo. A partir dos cenários expostos acima, precisamos nos posicionar sobre que cidades queremos e sobre quais são os melhores meios de se chegar a elas.

As experiências realizadas até então parecem indicar que, antes de pensarmos em tornar nossas cidades mais inteligentes, temos que torná-las minimamente racionas e equilibradas, sob pena de criarmos um extraordinário robô com pés de barro, que não vai a lugar nenhum.

Referências

FGV. O que é uma cidade inteligente? Disponível em: https://fgvprojetos.fgv.br/noticias/o-que-e-uma-cidade-inteligente. Acesso em 06 de abril de 2019.

WIKIPEDIA. Cidades inteligentes. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_inteligente. Acesso em 06 de abril de 2019.

VAINER, Carlos B. (2000), “Pátria, empresa e mercadoria: notas sobre a estratégia discursiva do planejamento estratégico urbano”, In: Otília Arantes; Carlos Vainer & Ermínia Maricato, A cidade do pensamento único, Petrópolis, Vozes.

ARCHDAILY. Cidades fabricadas: o caso da primeira smart city do Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/888323/cidades-fabricadas-o-caso-da-primeira-smart-city-do-brasil. Acesso em 06 de abril de 2019.

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A financeirização do espaço urbano e o que você tem a ver com isso

Referências:

As cidades vêm crescendo em ritmo acelerado pelo mundo todo. Atualmente, mais da metade da população mundial vive em cidades, com estimativa de que este percentual chegue perto dos 70% em 2050, segundo estudo da Organização das Nações Unidas.

Neste cenário,também vêm crescendo os interesses capitalistas sobre as cidades, no duplo sentido de adaptá-las às necessidades produtivas em geral e aos interesses e formas de acumulação financeirizadas.

A financeirização pode ser definida como uma forma de acumulação que se tornou dominante, no capitalismo, a partir dos anos 70/80. Ela é baseada na circulação de títulos que garantem o direito de propriedade de seu detentor a rendas futuras (como as ações de empresas, os títulos representativos de produção agrícola, etc). A grande novidade é que o preço destes títulos não obedece,necessariamente, a qualquer critério da realidade na esfera produtiva. São, na realidade, fixados com base em percepções subjetivas de agentes do mercado,altamente sujeitos à especulação e à manipulação. Esse descolamento entre a realidade e a precificação desses títulos aumenta as possibilidades de fortes crises financeiras, como a que vivenciamos em 2008.

Não são poucos os exemplos de processos de financeirização no espaço urbano: criação de títulos negociáveis em bolsa lastreados em empreendimentos urbanos (CEPACS,LCIs, etc), abertura de capitais de construtoras, número crescentes de fundos de investimentos que, por sua vez, adquirem cada vez mais imóveis na cidade,entre outros.

Pois bem: mas se você não é investidor de bolsa de valores ou trabalha no mercado imobiliário,porque este texto pode te interessar? Simples: porque você provavelmente mora e/ou trabalha em uma cidade e convive com os impactos desses processos diariamente, mesmo sem se dar conta.

Os processos de financeirização do espaço urbano têm afetado de forma direta e indireta a vida de todos os habitantes. De forma direta, os exemplos devem ser casuísticos, mas,de maneira geral, podemos falar de intervenções no espaço urbano voltadas para a instalação de infraestruturas voltadas para as necessidades tecnológicas desta forma de acumulação financeirizada (cabos de fibra ótica, centros de comunicação, etc), além de outras intervenções para a valorização de determinadas áreas da cidade, conforme os interesses de fundos de investimento,construtoras de capital aberto, entre outros agentes financeiros.

De forma indireta, temos a dominância de uma nova lógica na produção urbana: a da valorização acionária. A cidade como um todo, bem como intervenções específicas, passam a ser direcionadas por essa lógica que visa primordialmente à valorização dos espaços, seja por meio de intervenções diretas (profundas ou de “maquiagem”) ou de medidas de marketing urbano.

A grande questão que se apresenta a partir da dominância da lógica da valorização acionária tem por base a consideração de que a cidade não é um empreendimento ou uma empresa,mas sim um grande espaço de troca, convivência e reprodução da classe trabalhadora. Sua importância vem crescendo junto com a população que a habita,conforme visto no início deste texto.

Neste cenário, a gestão da cidade deve ser dirigida ao equacionamento de conflitos e ampliação de acesso a direitos de seus habitantes, conforme estabelecido por tratados internacionais e pela Constituição Federal do Brasil. Este tipo de gestão exige o engajamento público em investimentos em áreas com menor infraestrutura, para garantir o maior nível de equidade possível entre os moradores, o que vai de encontro aos investimentos realizados sob a lógica da valorização acionária,que tendem a reforçar os privilégios de áreas já valorizadas, em um ciclo de aumento da segregação socioespacial.

Esta seletividade de investimentos e atuação do poder público, que cria círculos viciosos de valorização em determinadas áreas da cidade já valorizadas em detrimento de áreas precarizadas, aumenta exponencialmente o volume o impacto de graves problemas urbanos como a mobilidade, a violência, o acesso à saúde e à educação, entre outros.

Você já parou para pensar sobre como teríamos uma cidade mais justa, solidária e, possivelmente,pacífica se os hospitais e escolas de qualidade estivessem igualmente espalhados pelo território? E se os investimentos públicos permitissem que os deslocamentos se tornassem menores, mais baratos e eficientes para milhões de trabalhadores? E ainda se houvesse investimentos e políticas para a integração social nas cidades e não a retirada de moradores mais pobres de territórios valorizados em nome de mais valorização?

São muitos os mecanismos que tornam essas perguntas apenas o roteiro de uma ficção, mas,atualmente, o principal deles é a financeirização do espaço urbano, que se espalha pelo mundo com consequências mais graves em cidades de países em desenvolvimento. Conhecer os mecanismos por trás dos fenômenos é o primeiro passo para a mudança. Vamos junt@s mudar a lógica de construção das cidades?

Para saber mais sobre pesquisas que envolvem esta temática, confira as referências abaixo!

CENTRO REGIONAL DE INFORMAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Relatório da ONU mostra população mundial cada vez mais urbanizada, mais de metade vive em zonas urbanizadas ao que se podem juntar 2,5 mil milhões em 2050. Acesso em 10 de novembro de 2018.

DE MATTOS, Carlos A. “Financiarización, mercantilización y metamorfosis planetaria: lo  urbano  en  la  valorización  del  capital”. Sociologias, Porto Alegre, v. 18, n. 42, p. 24-52, mai./ago.

PAULANI, Leda. “Não há saída sem a reversão da financeirização”. Estudos Avançados, 31 (89), 2017.2016. Acesso em 08 de novembro de 2018.

ROLNIK, Raquel. A Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo, 2015.