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O que a literatura nos mostra sobre identificação e manejo de risco de suicídio?

Estudo revisa literatura sobre o tema, apontando características importantes para a identificação e manejo efetivos de risco de suicídio.

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/autumn-cemetery-cross-death-decay-2182010/

O suicídio é considerado um problema global e, a cada ano, pesquisadores estudam maneiras de entender melhor as condições que podem levar à morte por suicídio. Pensando em como entender melhor e manejar o risco de suicídio, os pesquisadores Tiago Zortea e seus colaboradores, da Universidade de Glasgow, publicaram um estudo de revisão sobre risco de suicídio e comportamentos autolesivos, isto é, qualquer ato de autoenvenenamento ou automutilação independentemente do motivo aparente para tais comportamentos.

A escolha por estudar também comportamentos autolesivos ocorreu porque a literatura indica que há uma relação entre comportamentos autolesivos e suicídio. Estimativas mostram que mais de 800.000 pessoas morrem todos os anos por suicídio no mundo todo. Além disso, comportamentos de autolesão não suicidas são 20 vezes mais frequentes que o número de mortes contabilizadas por suicídio.

Um dos modelos utilizados para estudar suicídio é o modelo de iceberg, no qual existem três níveis: a ponta do iceberg consiste no número de mortes contabilizadas por suicídio. A camada abaixo é composta por comportamentos autolesivos onde o indivíduo em questão é hospitalizado. Por fim, a camada mais profunda deste iceberg é composta por comportamentos de autolesão realizados em casa e outros locais privados, porém sem levar a hospitalização, sendo, muitas vezes, feito de maneira privada e em segredo (só a própria pessoa sabe).

Alguns fatores especialmente importantes para profissionais da saúde se atentarem são a maior probabilidade de uma pessoa que já foi internada por tentativa de suicídio realizar uma nova tentativa ou morrer por suicídio em até cinco anos após a internação. Além disso, existem evidências de que hospitalização por comportamentos autolesivos é fortemente associada com morte por suicídio (esse risco é 30 vezes maior que o risco de morte por suicídio para a população geral). De acordo com os autores, se engajar em comportamentos autolesivos, com ou sem intenções suicidas, é o preditor mais consistente de morte por suicídio. Isso mostra a importância de se atentar para esse tipo de comportamento, mesmo que emitido sem uma intenção suicida aparente.

Embora existam evidências de que em torno de 90% das pessoas que morrem por suicídio tenham um transtorno psiquiátrico diagnosticável (isto é, poderiam ser encaixadas em um diagnóstico psiquiátrico), a grande maioria das pessoas com diagnóstico psiquiátrico não morrerão por suicídio, o que impossibilita que o diagnóstico psiquiátrico possa ser considerado um marcador de risco. Levando em consideração a dificuldade de encontrar tais marcadores de risco, e com a preocupação de descobrir quais fatores podem determinar a transição de pensamentos suicidas para uma tentativa de suicídio, alguns modelos foram desenvolvidos para auxiliar profissionais da saúde na identificação e manejo do risco de suicídio.

Apesar de possuírem diferenças entre esses modelos, os pesquisadores salientam alguns aspectos destes que são importantes para profissionais e indivíduos que buscam identificar e manejar o risco de suicídio. Em primeiro lugar, uma tentativa de suicídio é um preditor importante de uma nova tentativa. Exposição ao comportamento suicida de outros também parece incorrer em risco. Nesse sentido, estudos têm mostrado que esses fatores (chamados de fatores volitivos) parecem diferenciar quem têm pensamentos suicidas de quem de fato age sobre esses pensamentos.

Existem também instrumentos desenvolvidos para avaliar risco de suicídio em indivíduos, embora, de acordo com os autores, a evidência para o uso dessas escalas seja fraca. Muitas delas geram muitos resultados falso-positivos. Assim, o uso delas como única avaliação de risco de suicídio não é recomendado. Nesse sentido, é importante desenvolver outras maneiras de analisar esse tipo de risco. Um tipo de avaliação que tem sido relacionado com menor tentativa e repetição de comportamentos autolesivos foi o uso de avaliações psicossociais.

As três características comuns que os autores observaram em diferentes tipos de avaliações psicossociais são: uma avaliação clínica, uma resposta à crise individualizada e um plano de segurança, e por fim, o contato de acompanhamento (follow-up). De acordo com a recomendação de órgãos como a Organização Mundial da Saúde, a avaliação clínica não deve se basear no uso dos instrumentos de avaliação de risco previamente mencionados, e sim em uma entrevista interessada, estabelecendo uma relação de confiança e de apoio com o paciente. Estudos mostram que essas características são cruciais para uma avaliação efetiva. Na entrevista, deve-se perguntar diretamente ao paciente as características da ideação suicida (e.g., frequência de pensamentos, plano de suicídio e preparação para tal), além de perguntar sobre eventos da vida do paciente que possam ser estressantes. É importante contextualizar os eventos e os sentimentos e pensamentos dos pacientes (por exemplo, um indivíduo pode analisar um evento estressante, como ser pedida em casamento, como algo ruim, enquanto outra pode considerar bom ou até demonstrar sentimentos ambíguos). É preciso também ficar atento sobre o uso da internet (e.g., más práticas como a maneira pela qual suicídios são reportados na mídia podem servir de gatilhos para o paciente). Esse cuidado não deve ser no sentido necessariamente proibitivo; o ideal é combinar com o paciente as melhores maneiras de utilizar a internet (se ele quiser utilizá-la).

Também é importante identificar possíveis barreiras para que o paciente fale sobre pensamentos suicidas com pessoas próximas, uma vez que a literatura mostra que 60% das pessoas que morrem por suicídio não expressam ideação. Por fim, é importante também debater as estratégias de manejo (coping) dos pacientes, avaliando estratégias adaptativas e mal-adaptativas que podem reduzir ou não o risco de suicídio. Em resumo, deve-se analisar os pontos fortes e vulnerabilidades para o risco de comportamentos suicidas e avaliar fatores de risco e de proteção, de modo a desenvolver um plano conjunto com o paciente.

Com relação ao plano de segurança e a resposta à crise individualizada, é importante auxiliar o paciente a identificar variáveis que possam funcionar como gatilhos e sinais de alerta e desenvolver estratégias que reduzam eventos estressantes que possam levar a uma crise (também é importante desenvolver estratégias de coping para eventos não relacionados ao suicídio). O plano de segurança deve ter medidas de segurança, ou seja, a eliminação ou redução de meios que possam ser utilizados para o suicídio. Uma sugestão é ter esse plano por escrito e deixar uma cópia com o paciente e outra com a equipe de saúde. O contato de acompanhamento é imperativo, já que pessoas que já se engajaram em tentativas de suicídio possuem risco aumentado de tentar novamente, como mencionado no início do texto. Desse modo, é importante fazer, pelo menos, duas ligações de telefone para acompanhar o paciente depois que ele tiver alta, monitorando o risco de suicídio, revisando e discutindo com o indivíduo a experiência com o plano desenvolvido, sendo sensível e apontando os sucessos deste, mas também se atentando para as dificuldades e mudando o plano, se necessário.

Quer saber mais?

O estudo: Zortea, T. C., Cleare, S., Melson, A. J., Wetherall, K., & O’Connor, R. O. (2020). Understanding and managing suicide risk. British Medical Bulletin, 1-12. Online First Publication. https://doi.org/10.1093/bmb/ldaa013

 

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Como crianças brancas e não-brancas associam o estereótipo de “excepcionalidade” com relação a inteligência a pessoas brancas e negras?

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Pesquisa mostra que estereótipo de “inteligência excepcional” é mais associado a homens brancos que mulheres brancas, e que homens negros não são associados a este estereótipo

Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/people-group-children-boy-3137670/

 

Você sabia que a aquisição de estereótipos de gênero ocorre bem cedo no desenvolvimento? Existem evidências de que, a partir dos dois anos de idade, crianças já tem alguma noção sobre estereótipos de gênero, como cores consideradas apropriadas para cada sexo (e.g., Liben & Bigler, 2002). Com o tempo, essa habilidade se expande para coisas mais abstratas, de modo que, na segunda série, crianças já tem uma maior probabilidade de associar habilidades matemáticas com meninos do que com meninas (Cvencek et al., 2011).

Dentre estes muitos estereótipos, a noção de talento intelectual inato – de acreditar que certas pessoas são brilhantes ou gênios – é mais relacionada aos homens que às mulheres. Já foi evidenciado, por exemplo, que esse estereótipo de “excepcionalidade” (brilliance, em inglês) com relação a inteligência já é endossado diferencialmente em crianças de apenas seis anos de idade, as quais passam a acreditar que meninos sejam mais brilhantes que meninas, embora aos cinco anos as crianças, independentemente do gênero, tendam a escolher a pessoa do mesmo gênero que ela como mais excepcional (Bian et al., 2017).

A maioria dos estudos, no entanto, se foca na análise de participantes e/ou de alvos brancos, o que impede verificar efeitos conjuntos de raça e gênero, por exemplo. Pensando nisso, Jilana Jaxon, Ryan Lei, Reut Shachnai, Eleanor Chestnut e Andrei Cimpian conduziram um estudo avaliando como crianças americanas de uma maioria racial (brancas) e de minorias raciais (negras, latinas e asiáticas) associavam imagens de homens e mulheres brancos e negros com o estereótipo da inteligência excepcional.

Para o experimento, 203 crianças (105 garotas e 98 garotos), com idades entre 5 e 6 anos foram recrutadas em duas escolas públicas da cidade de Nova Iorque. Dentre as informações demográficas dadas pelos pais e/ou cuidadores de 80% da amostra, 37% delas era branca, 30% latina, 6% asiática, 5% negra, e 22% foram classificadas como multirraciais. A tarefa consistia de duas etapas. A primeira serviu para garantir que as crianças sabiam o que “muito, muito inteligente” significava. Na segunda tarefa, as crianças viam uma foto com dois adultos em ambientes naturais, como em uma casa ou no trabalho. Em cada foto, aparecia sempre um homem e uma mulher da mesma raça. No total, oito fotografias eram mostradas, e a cada foto, os experimentadores diziam que uma das pessoas na foto era “muito, muito inteligente”, e então pediam para a criança dizer qual ela achava que era. Raça e gênero não eram salientados. Além disso, outras tentativas com distratores foram utilizadas para diminuir as chances de as crianças perceberem o objetivo da tarefa (dizer, diante de outras quatro fotografias, qual pessoa era “muito, muito legal”).

O experimento buscou responder duas perguntas. Em primeiro lugar, as associações de excepcionalidade variam de acordo com a raça do alvo? Em segundo lugar, crianças brancas e não-brancas avaliam essas fotos de pessoas da mesma maneira? Os resultados mostraram que crianças brancas tenderam a associar a excepcionalidade com seus próprios gêneros de modo similar, independentemente do gênero, aos cinco anos de idade. Entretanto, aos seis anos de idade, ouve uma redução nesse escore de excepcionalidade atribuída ao próprio gênero para as meninas, mas não para os meninos. Nas crianças não-brancas de cinco e seis anos não houve mudança no número de associações entre a excepcionalidade e alvos de seus próprios gêneros. De acordo com os autores, esse dado sugere que esse estereótipo de gênero possui um caráter de intersecionalidade desde quando é adquirido, ou seja, leva em consideração gênero e raça dentre as primeiras aprendizagens.

Outra análise que foi feita é sobre o número de vezes que homens brancos seriam associados com excepcionalidade nas crianças brancas e não-brancas de seis anos de idade, em comparação com mulheres brancas. Como esperado, os homens brancos foram mais associados com essa característica, independentemente de gênero e raça das crianças. Além disso, os homens negros, apesar de serem homens, não foram associados a excepcionalidade, embora esse seja um estereótipo de gênero considerado masculino.

Esses resultados mostram a importância de se utilizar uma abordagem interseccional quando analisamos fenômenos sociais; nesse caso, estereótipos de gênero. Uma pergunta que o estudo suscita é: é possível chamar essa e outras características de estereótipos de gênero, uma vez que, de acordo com esse e outros estudos, não é só o gênero que determina as associações feitas? Eu, particularmente, não tenho resposta para essa questão, mas sugiro uma leitura que analisa como o homem negro (entre outros de raça não–branca) não é considerado homem em uma sociedade racista como a que vivemos (Franz Fannon – Pele negra, máscaras brancas).

Ficou curioso? Quer saber mais?

O artigo:

Jaxon, J., Lei, R. F., Shachnai, R., Chestnut, E. K., & Cimpian, A. (2019). The acquisition of gender stereotypes about intellectual ability: Intersections with race. Journal of Social Issues, 75,(4), 1192—1215. https://doi.org/10.1111/josi.12352

Referências:

Bian, L., Leslie, S. J., & Cimpian, A. (2017). Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests. Science, 355, 389–391. https://doi.org/10.1126/science.aah6524

Cvencek, D., Meltzoff, A. N., & Greenwald, A. G. (2011). Math–gender stereotypes in elementary school children. Child Development, 82, 766–779. https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2010.01529.x

Liben, L. S., & Bigler, R. S. (2002). The developmental course of gender differentiation: Conceptualizing, measuring, and evaluating constructs and pathways. Monographs of the Society for Research in Child Development, 67, 1–147. https://doi.org/10.1111/1540-5834.t01-1-00187

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Você sabe o que é colorismo?

Estudo mostra as chances de um indivíduo ser preso a depender da cor de sua pele

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Créditos da Imagem: Photo by Yunming Wang on Unsplash

O termo colorismo pode ser conceituado como as consequências sociais diferenciais entre indivíduos brancos e negros, de modo que, quanto mais próximo da pele branca com características eurocêntricas, melhores as consequências. Tais consequências vão desde as chances de estudar, conseguir emprego e obter bons salários, até a probabilidade de ser considerado bonito/desejado e de um indivíduo se casar. Assim, pessoas com pele mais clara possuem chances aumentadas de obter coisas positivas, como educação, emprego e bons salários, e chances menores de obter coisas negativas, como ser abordado por um policial, ser preso ou ser sentenciado a muitos anos de prisão. De modo inverso, quanto mais escura a pele de uma pessoa, maiores as chances de sofrer uma abordagem policial, da pessoa ser presa e sentenciada a muitos anos de prisão, enquanto suas chances de obter educação, saúde e emprego são menores (e.g., Dixon & Telles, 2017).

Um ponto importante quando se fala de colorismo é que tal concepção pode se sobrepor ao conceito de raça e racismo em alguns contextos e/ou em algumas culturas: por exemplo, na sociedade brasileira, onde se utiliza a cor da pele (além de outros traços fenotípicos, como a textura do cabelo e o formato do nariz e da boca) como o principal indicador da raça de um indivíduo, cor e raça são tidos como sinônimos em vários contextos. Em outras culturas, como a estadunidense, onde o principal critério para saber a raça de um indivíduo é a hereditariedade (embora estes outros traços fenotípicos também sejam utilizados em alguns contextos), cor e raça são mais distintos que similares (embora possa haver alguma sobreposição).

Ampliando a literatura sobre o tema, Amelia Branigan, Christopher Wildeman, Jeremy Freese e Catarina Kiefe publicaram um estudo na revista Social Science Research investigando as chances de homens brancos e negros estadunidenses serem presos utilizando um banco de dados para análise. Sendo a pesquisa realizada nos Estados Unidos, é importante ressaltar que, nessa cultura, o conceito de colorismo operando como um contínuo de consequências sociais diferenciais, é geralmente adotado para se referir às minorias (especialmente às pessoas negras), de modo que se assume que a diferença no tom da pele branca não estaria relacionada a essas consequências diferenciais.

Para realizar a análise, utilizou-se dados obtidos no estudo de coorte “Coronary Artery Risk Development in Young Adults” (CARDIA – em português, Risco de Desenvolvimento de Artéria Coronária em Jovens Adultos) de quatro cidades: Birmingham – Alabama, Chicago – Illnois, Minneapolis – Minnesota, Oakland – California. Foram analisados os dados sobre raça, sexo, idade e nível educacional dos respondentes. Na primeira aplicação do questionário (realizada entre 1985 e 1986), os respondentes diziam se tinham sido presos no ano anterior. Na segunda aplicação (1987-1988), a pergunta era repetida, porém sem a limitação temporal.

A medida da cor da pele dos respondentes foi obtida na quarta aplicação (1992-1993), utilizando um espectrofotômetro. Esse instrumento mede a refletância da pele, de modo que, quanto maior a refletância da pele, mais clara ela é (nesse sentido, quanto maior a refletância, a pessoa seria “mais branca” na nossa concepção). O local de aplicação do espectrofotômetro foi a parte interna do antebraço, local onde raramente se pega sol, de modo que, para os experimentadores, refletiria a cor “constitutiva” de cada participante. Uma vez que existe uma correlação entre nível socioeconômico e negritude, o estudo controlou o cargo ocupado pelos respondentes, o nível educacional obtido pelos pais dos respondentes e por eles mesmos, de modo que as diferenças encontradas foram devido a cor do respondente, e não seu nível socioeconômico. Os dados analisados foram de 888 homens brancos e 703 homens negros.

Em resumo, os resultados mostraram que o nível de refletância da pele está associado a probabilidade de ser preso somente para os homens brancos (p<0.01); independentemente da cor, os homens negros tinham a mesma probabilidade de serem presos (uma probabilidade, no entanto, bem mais alta que a dos homens brancos, é importante mencionar). Ao analisar a probabilidade de ser preso pelo percentil de refletância da pele, verificou-se que, entre os homens brancos cuja pele possuía refletância semelhante à do negro de pele mais clara, a probabilidade de prisão se assemelhava a das pessoas negras.

Esses resultados são importantes, uma vez que mostram 1) que o racismo atinge também pessoas brancas, mesmo em um país como os EUA, onde a raça é formalmente classificada mais por conta da hereditariedade do que por meios fenotípicos; 2) que, apesar dessa formulação, em decisões rápidas, como a de uma abordagem policial, os policiais estadunidenses se pautam mais nas características fenotípicas para realizar ou não uma abordagem e/ou prisão e 3) que um indivíduo negro, mesmo de pele clara, tem a mesma chance de ser preso do que um negro retinto. Achados de pesquisas anteriores, que mostraram que brancos com características afrocentradas têm maiores chances de serem presos e de terem maiores sentenças que indivíduos brancos com traços eurocêntricos apoiam tais resultados. Uma das limitações do estudo foi o fato que os dados analisados foram obtidos há 30 anos, duas décadas após a Lei dos Direitos Civis, que eliminou formalmente as leis de segregação racial nos Estados Unidos. Apesar disso, tais dados são relevantes, uma vez que é nítido que o racismo é um fenômeno presente tanto nos EUA quanto no Brasil, como mostram as inúmeras notícias de agressões verbais e físicas a indivíduos negros/de pele escura quase que diariamente.

Quer saber mais? Leia o estudo na íntegra:

Branigan, A. R., Wildeman, C., Freese, J., & Kiefe, C. I. (2017). Complicating colorism: Race, skin color, and the likelihood of arrest. Socius: Sociological Research for a Dynamic World, 3, 1-17. doi: 10.1177/2378023117725611

Referência

Dixon, A. R., & Telles, E. E. (2017). Skin color and colorism: Global research, concepts, and measurement. Annual Review of Sociology, 43(1), 405–424. doi:10.1146/annurev-soc-060116-053315

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Você já ouviu falar sobre uma forma de violência conhecida como Psychological Gaslighting?

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/handcuffs-trouble-police-arrest-2102488/

Embora seja um termo de difícil tradução, ele se refere a um tipo de manipulação psicológica que faz com que a vítima questione suas percepções, levando até ao questionamento da própria sanidade, em casos mais graves. Esse termo é baseado no filme Gaslight (1994), no qual o personagem Gregory manipula sua esposa Paula, com o objetivo de hospitalizá-la e assim obter riqueza por meio da obtenção das joias da esposa. Sempre que Gregory vai ao sótão procurar as joias, as luzes (gaslight) dos outros cômodos da cama escurecem. Quando a esposa começa a perceber a mudança das luzes e conta para Gregory, ele desmente e diz que são coisas de sua imaginação. Isso vai se repetindo e Gregory leva a esposa a pensar que essa “falsa percepção” é um indicio de que ela está enlouquecendo.

Talvez vocês tenham visto esse termo ser utilizado em casos de violência contra a mulher, como quando o homem diz para a mulher que suas impressões (sempre ou quase sempre) estão incorretas, que ele tem boas intenções em tudo que faz, apesar de os resultados, muitas vezes, serem negativos para a esposa/parceira. E esse ciclo ir se repetindo até que a parceira se sente totalmente invalidada e pode até passar a duvidar de suas próprias percepções, sempre acreditando nas justificativas do parceiro. Entretanto, essa forma de violência pode ser vista em outros contextos. Isso foi o que os pesquisadores Heston Tobias e Ameil Joseph, da província de Ontário, no Canadá, descobriram.

Esses pesquisadores analisaram 27 notícias midiáticas publicadas em 2015 e 2016 sobre uma prática policial controversa, o “carding”. Outra palavra de difícil tradução, carding é o termo utilizado para descrever a prática de abordar pessoas nas ruas sem ter mandato ou denúncia e anotar informações dela em um cartão (card), como a raça, o gênero, idade, altura, e quaisquer outras informações pessoais que o policial achar relevante. Essas informações são depois transferidas para o banco de dados da polícia e ficam permanentemente armazenadas. Apesar de ser uma prática cujo objetivo declarado é proteger a comunidade, dados estatísticos mostram que em Hamilton, uma cidade de Ontário com altos índices de crimes de ódio contra pessoas negras, negros são desproporcionalmente mais abordados pela polícia do que cidadãos brancos (12% das pessoas abordadas são negras), embora sejam apenas 3,2% da população.

Esses pesquisadores estavam interessados em saber qual era o discurso da mídia local sobre a prática de “carding”, além de investigar a relação já estabelecida entre o carding e o chamado perfil racial (racial profiling), uma prática considerada racista, por se basear em comportamentos ou características observadas ou assumidas de um grupo racial/étnico. Os pesquisadores perceberam, ao analisar os dados, que os discursos midiáticos sobre o carding se assemelhavam à prática de psychological gaslighting.

Em primeiro lugar, essas notícias não definiam claramente o que é racismo, omitindo informações importantes que fazem parte dos argumentos de vários grupos que são contra a prática. Os autores afirmam que essa omissão pode ser vista como um apagamento do racismo institucional contra negros, indígenas e outros grupos marginalizados presente na polícia de Hamilton. Uma vez que parte dos argumentos contra a prática é baseado na existência do racismo institucional, histórico e atual, tais argumentos podem ser menos efetivos ou até questionados diante de leitores que estão alheios ao conhecimento sócio histórico das relações raciais no local.

Em segundo lugar, a definição dada pela polícia do que é a prática de carding não é clara e têm constantemente mudado: por exemplo, street checks (abordar pessoas nas ruas, porém sem armazenas dados sobre elas) e carding são vistos como coisas distintas, porém relacionadas. Há denúncias que ambas as práticas são, na verdade, violações da carta de direitos humanos (onde proíbe-se abordar pessoas ou deter pessoas sem razão, e discriminação baseada na raça), mas a falta de uma definição precisa impede que a polícia seja acusada de racismo institucional. Quando se pede por uma definição clara, há relatos de policiais dizendo abertamente que há múltiplas definições e que isso “vai depender de quem fizer a declaração”.

Quando a população descobriu que a raça era uma das características armazenadas nos cartões e começou a questionar a prática, o governo anunciou uma reunião para revisar os critérios, e foi estabelecido que a prática seria baseada em uma série de princípios (e.g., minimizar efeitos negativos para as pessoas abordadas, garantir que as abordagens tenham, como objetivo, um policiamento efetivo, garantir conformidade com a carta de direitos humanos, especialmente com relação a proteção contra detenções arbitrárias e a liberdade de discriminação baseada na raça e em outros marcadores sociais, e garantir conformidade com o Ato de Proteção da Privacidade). Entretanto, isso não modificou a prática, ou seja, pessoas marginalizadas continuaram a reclamar pelas abordagens indevidas, e o número de pessoas negras e indígenas abordadas continuou desproporcional, em comparação ao número de pessoas brancas abordadas.

Os argumentos a favor da prática de carding envolvem afirmar que essa prática é essencial para o trabalho da polícia, negando que qualquer pessoa inocente será afetada pela prática (ou seja, ignorou-se reclamações de diversas pessoas inocentes que são abordadas pela polícia diariamente, ao ponto de ficarem traumatizadas, e também se colocou a prática como algo acima da carta de direitos humanos). Além disso, a polícia nega a existência de racismo institucional, apesar dos dados mostrarem que os alvos da prática são desproporcionalmente pessoas negras, indígenas e pobres. Em outros momentos, a evidência de racismo institucional é colocada como um problema individual, de alguns poucos policiais e não uma questão estrutural, ao afirmar que a prática de carding nunca foi oficialmente implementada em um documento da organização.

A polícia também leva a entender que a prática é essencial e alega que, se descontinuada, pode afetar a segurança da comunidade. Ou seja, afirma-se que o desconforto de um grupo de pessoas é um preço justo a se pagar pela segurança da comunidade. Contudo, não há evidências de que a prática de carding é efetiva.

Por fim, a prática ocorre mais na região central da cidade, que é onde o número de pessoas negras, indígenas e LGBTs é superior ao da média da população. A polícia justifica a prática nestes locais dizendo que esta é uma das áreas de foco e reiterando que a prática é benéfica para a comunidade. Portanto, há uma tentativa de naturalizar os locais-alvo para a prática, que são justamente os locais onde grupos marginalizados vivem.

De acordo com Roberts e Andrews (2013, citado por Tobias e Joseph, 2018), o processo de gaslighint possui 5 componentes:

  • Perpetrador da violência;
  • Vítima;
  • Objeto da manipulação;
  • Consequências experienciadas pela vítima, como a invalidação
  • Recompensa para o perpetrador.

Nesse sentido, os perpetradores da violência seriam o serviço policial de Hamilton. As vítimas, pessoas negras e outros grupos marginalizados da cidade. O objeto da manipulação seria a prática de carding. As consequências negativas para as vítimas seriam abordagens injustificadas, possíveis abordagens com abuso de poder por parte dos policiais, possíveis sentimentos de ansiedade e medo diante de policiais, invalidação dos sentimentos negativos e das experiências traumáticas por quem foi abordado, possíveis detenções injustas, entre outros. A recompensa para os perpetradores seria a execução de uma prática nitidamente racista e que não tem evidência que é efetiva, o que possibilita manter tanto o racismo institucional, quando uma imagem positiva da polícia, que justifica a prática dizendo que é para o bem da população.

Por fim, é importante salientar que, apesar do gaslighting ser uma manipulação, os autores afirmam que nem sempre essa manipulação é algo planejado; muitas vezes o perpetrador não está conscientemente tentando fazer com que a vítima se sinta invalidada ou louca. Ou seja, esse ciclo pode começar como algo não-intencional, com o intuito de fugir da responsabilização por algo. Não é possível afirmar se a polícia de Hamilton usa estratégias como o uso de ambiguidade e da negação plausível (afirmar desconhecimento por abuso de poder por parte de policiais ou outra prática considerada criminosa ou indesejada) de maneira intencional ou não, mas independentemente da intencionalidade, as consequências negativas para a população afetada pela prática são sérias e debilitantes, o que seria motivo suficiente para revisar as técnicas utilizadas.

Quer saber mais?

Tobias, H., & Joseph, A. (2018). Sustaining systemic racism through psychological gaslighting: Denials of racial profiling and justifications of carding by police utilizing local news media. Race and Justice, 1-32. Online First Publication. doi: 10.1177/2153368718760969

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Formas efetivas de reduzir vieses masculinos na linguagem

foto blog

Na língua portuguesa, aprendemos que se usa o masculino para se referir ao plural de várias palavras (e.g., todos, para um grupo com homens e mulheres), assim como para se referir a humanidade (e.g., o homem). Isso ocorre em outras línguas também, e durante muito tempo não se questionou possíveis problemas com essa forma de utilizar a linguagem. Entretanto, críticas a masculinização do universal começaram a surgir, apontando possíveis alternativas para que a linguagem não tenha um viés androcêntrico. Nesse sentido, se propôs, por exemplo, utilizar palavras com gênero neutro, mas alguns estudos têm mostrado que mesmo essas são associadas com masculinidade/homem. A busca de alternativas efetivas continua sendo, portanto, uma pergunta cujos pesquisadores e pesquisadoras precisam se debruçar para responder.

Levando em consideração o número baixo de estudos que investiguem formas de amenizar o chamado viés masculino da linguagem (suposição de que uma pessoa, descrita por meio de uma palavra que não permite definir seu sexo, é um homem), as pesquisadoras Anna Lindqvist, Emma Renström e Marie Sendén investigaram experimentalmente algumas alternativas propostas na literatura, fruto de discussões entre principalmente, mas não exclusivamente, grupos de feministas e de LGBTs.

De acordo com as autoras do estudo, até o momento, existem duas propostas de reforma da língua com o intuito de gerar uma linguagem justa com relação aos gêneros, ou seja, uma linguagem inclusiva, independentemente da identidade de gênero de cada indivíduo: a feminização e a neutralização. O objetivo da proposta de feminização é dar visibilidade para o feminino. Um exemplo de sua utilização é utilizar eles/elas ou todos/todas para se referir a um grupo de pessoas. A segunda estratégia é de neutralização, cujo objetivo é reduzir dicas que possam levar ao entendimento de que certa palavra se refere a um homem. Um exemplo dessa estratégia é a mudança das palavras, em inglês, “fireman” para “firefighter” (bombeiro). Outro exemplo de neutralização constitui na criação de novas palavras, como se pode ver, no Brasil, na palavra “menine”, usada para se referir à meninos e meninas (e inclusiva também para indivíduos não-binários[1]).

A pesquisa buscou investigar ambas estratégias, utilizando palavras em sueco e em inglês. No Estudo 1, 417 estudantes de uma universidade sueca participaram da pesquisa (303 mulheres, 85 homens e 25 com identidades de gênero não-binárias). Os/as participantes foram informades que a pesquisa era sobre avaliação de candidatos para empregos em situações de recrutamento. A tarefa consistia em ler uma pequena descrição de determinado/a candidato/a e dizer, em seguida, qual de quatro fotos de candidatos/as (dois homens e duas mulheres) os/as participantes achavam que correspondia a descrição. O emprego utilizado foi de corretor de imóveis, uma profissão na qual homens e mulheres trabalham em uma mesma proporção na Suécia. As fotos utilizadas foram pareadas em termos feminilidade, masculinidade, nível de atratividade, expressão emocional e idade.

Os/as participantes liam uma de três versões da descrição, sendo uma de feminização e duas de neutralização. Na estratégia de feminização, utilizou-se o equivalente a ele/ela na descrição do/a candidato/a (han/hon). Na estratégia de neutralização 1, utilizou-se as palavras “the applicant” (candidato/a) e, em seguida, “NN” (Latim para ‘não sei o nome’). Na segunda estratégia de neutralização, utilizou-se uma palavra recente cujo gênero é neutro, “hen”. Apesar de ser uma palavra relativamente nova, as autoras afirmaram que mais de 95% da população conhece a palavra, devido aos debates sobre as justificativas a favor e contra o uso desta.

Os resultados desse estudo mostraram que o uso das palavras supostamente neutras “the applicant” e “NN” geraram vieses masculinos, ou seja, mais da metade dos/das participantes que eram dessa condição disseram que o/a candidato/a era um dos homens das fotos. Em contraste, o uso do par “ele/ela” e da palavra neutra “hen” ambas eliminaram o viés racial. Isso significa que as fotos dos homens e das mulheres receberam, aproximadamente, 50% de votos cada.

No Estudo 2, 411 participantes estadunidenses (145 mulheres, 252 homens, 5 mulheres trans, 4 homens trans, 3 com identidades de gênero não-binárias, e 2 que não indicaram o gênero) participaram da pesquisa. Houveram duas diferenças do primeiro para o segundo experimento: as palavras utilizadas para denotar o/a candidato/a e um questionário para ver o quão familiar era a palavra “ze”. Na estratégia de feminização, foi utilizado o par ele/ela (he/she). Na estratégia de neutralização 1, foram utilizadas as palavras “the applicant” (candidato/a) e o “they” no singular[2]. Na segunda estratégia de neutralização, “hen” foi substituído pela palavra “ze”, uma palavra criada recentemente para denotar gênero-neutro no contexto dos Estados Unidos.

Novamente, os resultados mostraram que o uso das palavras “the applicant” e “they” no singular geraram um viés masculino. Ou seja, foi necessário usar o par ele/ela (he/she) ou a palavra “ze” para eliminar esse viés. Não houve diferença nos resultados dos/das participantes que não eram familiares com ze, em comparação com os/as que eram. Esse resultado faz sentido, uma vez que o entendimento de novas palavras se dá pelo contexto.

Esses resultados são importantes, principalmente para quem advoga a favor da criação de novas palavras que denotem gênero neutro, uma vez que mostram que palavras já existentes na literatura, embora supostamente consideradas neutras, podem ser entendidas como masculinas. Esse é, inclusive, um dos argumentos de quem é contra a criação de novas palavras de gênero neutro: afirmar que já existem palavras que expressam neutralidade de gênero. O uso do par ele/ela, embora não tenha gerado um viés masculino, ainda dicotomiza os gêneros em dois, sendo, portanto, não inclusivo aos indivíduos não-binários.

Apesar de parecer apenas um detalhe na linguagem, sem implicações práticas na vida das pessoas, as experimentadoras apontam pesquisas indicando que o uso da linguagem pode aumentar a probabilidade de mulheres se candidatarem a certos empregos, sem contar os efeitos psicológicos da negação da identidade de gênero no caso de indivíduos trans. Nesse sentido, essa é uma linha de pesquisa importante do ponto de vista científico e social, especialmente quando se leva em consideração a luta contra a desigualdade de gênero e a inclusão de indivíduos não-binários.

Quer saber mais?

Lindqvist, A., Renström, E. A., & Sendén, M. G. (2018). Reducing a male bias in language? Establishing the efficiency of three different gender-fair language strategies. Sex Roles. Online First Publication. doi: 10.1007/s11199-018-0974-9)

[1] Não-binário é um termo utilizado para descrever indivíduos cuja identidade de gênero não se conforma na dicotomia masculino-feminino.

[2] Uma das estratégias utilizadas pelo movimento LGBT é utilizar a palavra “they”, já existente no vocabulário, embora tradicionalmente para se referir a eles e elas, para identificar indivíduos não-binários ou trans. Nesse caso, é utilizado o “they” no singular (he/she/it/they is).

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Museus e pinturas: Como aprender a nomear obras de vários autores

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/grafite-mural-arte-de-rua-pintura-508272/

É provável que vocês, leitores, em algum momento da vida tiveram a oportunidade de ir a um museu de arte. E que apesar de admirar várias pinturas, vocês tenham tido dificuldade de responder adequadamente quando alguém questiona quem foi o pintor de determinada obra (exceto talvez os que estudam arte ou tópicos relacionados). Você pode até ter aprendido algumas obras e artistas durante a escola, mas não se lembra mais de (quase) nada, não é mesmo?

A maneira tipicamente utilizada para memorizar autores e obras é fazer cartões com vários nomes e pinturas e tentar agrupá-los, mas isso pode ser demorado e não garante o aprendizado. Nesse sentido, maneiras alternativas de ensinar (e aprender) categorias de elementos têm sido desenvolvidas. Na Psicologia, existe um modelo cuja eficácia tem sido cientificamente provada há muitos anos. Esse modelo se chama “equivalência de estímulos” (e.g., Sidman & Tailby, 1982; Sidman, 1994) e é, grosso modo, uma maneira de aprender a tratar estímulos fisicamente dissimilares como se fossem substitutos uns dos outros (em certas ocasiões), ou, no contexto da categorização, a tratarmos certos estímulos em uma categoria A (e não B ou N), e outros na categoria B (e não A, ou N).

Esse modelo tem sido utilizado para ensinar, por exemplo, uma segunda língua, estatística, neuroanatomia, entre outros tópicos academicamente relevantes. Recentemente, os pesquisadores Paulo Ferreira e seus colaboradores utilizaram o modelo para ensinar indivíduos a reconhecer pinturas de Gauguin, Botticelli, Monet e Picasso. Dois experimentos foram realizados e ambos contavam com o mesmo procedimento e número de participantes, mudando apenas um dos pintores trabalhados (Gauguin, Botticelli e Monet no estudo 1, e Botticelli, Monet e Picasso no estudo 2).

No estudo 1, 10 participantes (três mulheres e sete homens) foram ensinados, inicialmente, a reconhecer as pinturas de cada um dos pintores. Diante da foto de uma entre 10 pinturas de um mesmo autor, os participantes tinham que selecionar, entre as três alternativas (Gauguin, Botticelli e Monet), qual era a correta. Um feedback informava os participantes, após a escolha, se suas respostas estavam certas ou erradas. Nessa fase, foram realizados três blocos, um para cada autor. Os participantes tinham que acertar 6 tentativas em sequência para avançar para a próxima fase.

Na fase seguinte, os participantes deveriam, diante de uma entre 30 pinturas dos três autores, escolher uma de três figuras abstratas. Cada figura foi arbitrariamente considerada o par correto para 10 pinturas do mesmo autor, e os participantes recebiam feedback após suas respostas. Para avançar para a fase seguinte, os participantes deveriam acertar 18 tentativas seguidas em um bloco com 30 tentativas.

Na terceira fase, os participantes deveriam relacionar as figuras abstratas aos nomes dos pintores. Ou seja, diante de cada símbolo abstrato, eles deveriam selecionar o pintor que foi considerado arbitrariamente o par correto para tal símbolo abstrato. Nessa fase, havia 18 tentativas, e os participantes deveriam acertar 6 tentativas consecutivas para avançar para a fase de testes.

Revisando, os participantes aprenderam, até o momento, a 1) reconhecer 30 pinturas de cada um dos três autores, 2) relacionar cada um dos três pintores com três figuras abstratas, arbitrariamente consideradas os pares corretos para cada pintor, e 3) relacionar cada uma das três figuras abstratas com 10 pinturas de cada um dos três autores.

Atingindo o critério dessa fase de treino, havia a fase de testes. Os participantes deveriam, diante de cada pintura, selecionar o pintor correto. Veja que, nessa metodologia, não se aprende diretamente a relacionar as pinturas com os pintores; isso ocorre de maneira indireta, como resultado do procedimento de treino. Além das pinturas utilizadas na fase de treino, também apareciam 15 novas pinturas, 5 de cada pintor, como uma medida de generalização. Assim, havia 60 tentativas, duas de uma mesma pintura, sem feedback de acerto ou erro, embora os participantes fossem instruídos a continuar respondendo como haviam aprendido nas fases anteriores.

Os resultados mostraram que seis dos 10 participantes aprenderam a relacionar as pinturas com os pintores correspondentes. Esses seis participantes também generalizaram, ou seja, acertaram as tentativas mesmo quando as pinturas apresentadas não foram treinadas anteriormente. No estudo 2, outros 10 participantes (quatro mulheres e seis homens) foram expostos à mesma sequência de treinos e testes supracitada, sendo a única diferença que em vez de utilizar como estímulos “Gauguin” e suas pinturas, foi utilizado “Picasso” e suas pinturas. No estudo 2, oito dos 10 participantes passaram a categorizar as pinturas de acordo com os pintores de maneira adequada, mesmo quando as pinturas não tinham sido utilizadas na fase de treino (generalização).

Esse estudo mostrou como metodologias alternativas de ensino podem ser utilizadas na aprendizagem de categorização e, especialmente, na categorização de pinturas e seus autores. Uma possível limitação (não apontada pelos autores) foi o uso de estilos diferentes nas três categorias: pós-impressionismo com Gauguin, impressionismo com Monet, renascentismo com Botticelli e cubismo com Picasso. Isso possibilita que características comuns das obras possam ter sido utilizadas como base para a categorização, além do treino. De qualquer modo, essa possibilidade deve ser verificada empiricamente. Levando em consideração que existe uma ampla produção utilizando o que chamamos de equivalência de estímulos para ensinar diversas habilidades, não é surpresa que a categorização de pinturas seja também possível com o uso dessa metodologia.

Ficou interessado?

O artigo: Ferreira, P. R. S., Cruz, S. A., Sampaio, W. M., Teodoro, J. V., Correia, L. L., & Santos, E. L. (2018). Interaction between equivalence and categorization in the recognition of paintings. The Psychological Record, 68(4), 477-488. doi: 0.1007/s40732-018-0291-2

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O papel das mulheres que rompem o teto de vidro na manutenção deste fenômeno

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/colorido-pir%C3%A2mide-3d-2253141/

O teto de vidro é um fenômeno bastante conhecido nos meios feministas e denota a dificuldade das mulheres em ascender nas áreas consideradas de maior prestígio em seus campos profissionais. Nesse contexto, muitas pesquisas têm demonstrado o fenômeno ao evidenciar a porcentagem de mulheres e homens em posições “subordinadas”, “juniores” e “sêniores”. Os resultados têm mostrado que quanto mais alta determinada posição, menor a chance de uma mulher atingi-la. Isso acontece, inclusive, nos campos em que as mulheres são maioria, como, por exemplo, a psicologia. Nessas áreas, os cargos de maior prestígio (por exemplo, pesquisadores da área experimental) são dominados por homens.

Apesar da imensa dificuldade, algumas mulheres conseguem romper o teto de vidro. ‘Isso é ótimo’, você deve estar pensando. Outra ideia que pode estar passando por sua cabeça é: ‘Essas mulheres podem auxiliar outras a ascenderem, pois suas posições de prestígio possibilitam que elas lutem pela implementação de ações afirmativas que beneficiem outras mulheres no início de carreira’. Seria maravilhoso se isso acontecesse, não? Mas não é bem isso que tem ocorrido.

Queen Bee, ou Abelha Rainha, é o nome dado à “tendência de algumas mulheres, que investiram no sucesso de suas carreiras, de serem mais críticas com relação às suas colegas mulheres em posições inferiores e menos inclinadas a defender medidas que apoiem as mulheres como um grupo” (tradução minha)[1]. Três características estão presentes nessas mulheres em posições de chefia: um distanciamento das mulheres em posições “juniores”, a assimilação a um grupo de maior status, que ocorre, por exemplo, quando as abelhas rainhas se classificam com traços considerados mais masculinos, e a legitimação do status quo, por exemplo, ao rechaçar políticas direcionadas a desigualdade de gênero.

Com o objetivo de entender porque as mulheres, especialmente as que estão em uma posição de prestígio, não estão inclinadas a apoiar cotas para mulheres, Klea Faniko e colaboradores fizeram dois estudos correlacionais, publicados em 2017 no Personality and Social Psychology Bulletin.

No estudo, 1.222 mulheres da Suíça responderam a um questionário. Oitenta e sete trabalhavam em posições de prestígio (cargos de gestão) e 135 em posições consideradas subordinadas. trabalhavam, em média, há mais de 15 anos em seus campos de atuação. O questionário avaliava os seguintes itens: sacrifícios pessoais para alcançar sucesso profissional; percepção do comprometimento com a carreira (seu próprio e de mulheres em posição acima ou abaixo delas); autodescrição, em termos de traços considerados masculinos e femininos; e percepções acerca do outro grupo de mulheres.

Além disso, no final do questionário, havia um pequeno texto dizendo que várias organizações tendem a adotar ações afirmativas para aumentar a representação de mulheres em posições de gerenciamento no país. Esse texto era seguido pela proposição de uma política que beneficiava: 1) mulheres sêniores, 2) mulheres juniores, ou a própria respondente. Assim, era possível descobrir se haveria diferença no apoio, dependendo do “alvo”.

Os resultados mostraram que as mulheres em posições de gerência relataram ter feito mais sacrifícios pelas suas carreiras do que suas colegas em posições consideradas subordinadas. Essas mulheres também afirmaram ter um maior comprometimento com suas carreiras do que suas colegas em posições inferiores e se descreveram como mais masculinas que suas pares de posições subordinadas. Além disso, as mulheres em posições de destaque foram menos favoráveis às cotas direcionadas às mulheres juniores do que às mulheres no mesmo nível que elas.

O distanciamento das mulheres em posições mais altas foi calculado a partir da diferença entre a percepção do comprometimento de suas carreiras e traços de masculinidade auto atribuídos com a percepção do comprometimento e grau de masculinidade de suas colegas em posições inferiores. Os resultados mostraram que a relação entre a posição hierárquica e o distanciamento do outro grupo foi mediado pelos sacrifícios relatados, ou seja, as abelhas rainhas que relatavam terem feito mais sacrifícios também foram o grupo que obteve o maior índice de distanciamento.

Uma vez que as mulheres em posições superiores mostraram apoio às cotas para suas pares de mesmo nível hierárquico, apoiando em menor grau as cotas direcionadas às mulheres em posições inferiores, o estudo de Faniko e colaboradores aponta que o fenômeno da Abelha Rainha não é guiado por um senso de competitividade com outras mulheres. Isso só seria possível se elas se mostrassem contra cotas para suas pares de mesmo nível, mas isso não aconteceu. Assim, foram suas percepções de sacrifício feitos, junto com o distanciamento das mulheres em posições inferiores que fez com que as mulheres em posições de prestígio se considerassem diferentes das mulheres em posições juniores. O problema é que isso acaba, em última instância, reforçando o teto de vidro já existente.

Uma limitação do Estudo 1 foi o fato de que o distanciamento só foi avaliado em relação às mulheres em posições inferiores e não em relação às pares de mesmo nível hierárquico. Já o Estudo 2 foi feito com uma amostra de 156 mulheres da Albânia e os resultados foram replicados. Ou seja, ao que tudo indica, a percepção de que mulheres em níveis inferiores se sacrificam menos do que as mulheres em posições de alto prestígio leva as segundas a serem menos favoráveis à adoção de cotas para mulheres em posições subordinadas.

Como mudar isso?

O artigo de Faniko e colaboradores argumenta que as intervenções que busquem remediar esse efeito devem se pautar em medidas que diminuam o distanciamento entre as mulheres em posições superiores e inferiores. Isso poderia ser alcançando mostrando às mulheres de nível hierárquico superior que as mulheres de nível hierárquico inferior se sacrificam como elas, tendo o mesmo comprometimento em suas carreiras.

Quer saber mais?

Faniko, K., Ellemers, N., Derks, B., & Lorenzi-Cioldi, F. (2017). Nothing changes, really: Why women who break through the glass ceiling end up reinforcing it. Personality and Social Psychology Bulletin, 43(5), 638-651. doi: 10.1177/0146167217695551

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5414903/

[1] Faniko, Ellemers, Derks, & Lorenzi-Cioldi (2017).

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O impacto de vieses raciais na ilusão da mão de borracha

Será que participantes brancos demoram mais tempo para identificar uma prótese negra como sua própria mão em comparação com uma prótese branca na ilusão da mão de borracha?

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Créditos da imagem: https://www.nappy.co (@JOTTANETO)

Para alguns teóricos, o preconceito racial está recionado a uma distinção entre “nós” e “eles” – enquanto grupos de pessoas –, de modo que as representações que temos do endogrupo e do exogrupo podem influenciar a maneira pela qual os tratamos. A nossa consciência corporal também estaria envolvida nessas distinções: nós percebemos como nosso corpo é e o comparamos com os corpos de outras pessoas.

Pensando nessas questões sobre a percepção ou a representação corporal que temos do endo e exogrupo, Marilia Lira e colaboradores realizaram um estudo com o objetivo de verificar como ocorre a percepção de próteses brancas e negras em universitários brancos.  Para tal, eles utilizaram a chamada “ilusão da mão de borracha” (Rubber Hand Illusion – RHI, em inglês). RHI é uma experiência sensorial na qual a estimulação visual e tátil na própria mão do participante, assim como na de uma prótese de borracha, é utilizada para induzir a sensação de que a prótese é a própria mão da pessoa.

Assim, os objetivos do estudo foram verificar a latência e a intensidade na qual próteses brancas e negras são sentidas como a própria mão de participantes brancos e se os resultados se correlacionavam também com a existência de viés racial implícito[1].

Noventa e cinco estudantes universitários destros foram recrutados para a pesquisa. Os participantes eram testados com uma prótese branca e outra negra (uma por dia). A primeira tarefa era o Teste de Associação Implícita (IAT), com o objetivo de verificar a existência de vieses raciais implícitos. A tarefa crítica nesse teste envolvia relacionar faces de homens negros e brancos com adjetivos positivos e negativos, em blocos considerados consistentes ou inconsistentes com a história de vida dos indivíduos. Foi presumido que relacionar negro com atributos negativos e brancos com atributos positivos era provavelmente o que os participantes aprenderam durante suas vidas, enquanto que relacionar negros e atributos positivos e brancos com atributos negativos foi considerado inconsistente com a história de vida dos participantes.

Em seguida, os participantes responderam a uma escala de reatividade interpessoal, com o intuito de verificar o nível de empatia dos participantes em quatro esferas: tomada de perspectiva, fantasia, preocupação empática e sofrimento pessoal. Depois, os participantes se sentavam confortavelmente em uma cadeira, apoiando ambos os braços em uma mesa. O braço esquerdo dos participantes era deslocado para a esquerda, uma partição de madeira era colocada entre este braço e o outro (de modo que o participante não visse mais seu braço esquerdo), e a prótese de borracha era alocada na posição que o braço esquerdo estava inicialmente. Foram feitas quatro próteses: mão de mulher negra, mão de homem negro, mão de mulher branca e mão de homem branco, de modo que o participante experienciava uma mão negra e outra branca do seu próprio gênero. Eles tinham que fechar os olhos e sua primeira tarefa era tentar acertar onde estava seu dedo indicador esquerdo (teste de movimento proprioceptivo).

Os participantes foram instruídos a prestar atenção na prótese de borracha, enquanto o equipamento dava pinceladas no braço esquerdo do participante e na prótese. Os participantes deveriam avisar o experimentador quando começassem a sentir que a prótese era o próprio braço do participante. A estimulação durava três minutos, sendo seguida por um segundo teste de movimento proprioceptivo. Por último, os participantes respondiam a um questionário sobre a RHI, com perguntas que indagavam o quanto a prótese foi sentida ou não como a própria mão do participante.

Os resultados mostraram que os participantes demoravam mais para perceber a prótese negra como a própria mão, em comparação com a prótese branca. Além disso, a magnitude, ou seja, o quanto a prótese foi sentida como a própria mão dos participantes foi maior para as próteses brancas do que para as negras. Com relação ao teste de movimento proprioceptivo, os participantes tiveram maior dificuldade de localizar a prótese negra, em comparação com a branca (apesar de serem instruídos a localizar o próprio dedo esquerdo, após a ilusão, os participantes tendem a apontar para a prótese, em vez da própria mão).

Os participantes demonstraram vieses fortes a favor do próprio grupo (viés pró-branco), havendo correlação entre esses vieses e a latência para a percepção da prótese como a própria mão. Ou seja, quanto maior o viés anti-negro, maior o tempo para que o participante percebesse a ilusão com a prótese negra. Não foram encontrados efeitos significativos entre a medida de empatia e a RHI. Um detalhe interessante nesse estudo é que as diferenças encontradas foram significativas somente na condição de sincronia, ou seja, quando as pinceladas na mão esquerda do participante iam no mesmo sentido que as pinceladas na prótese. Quando as pinceladas eram assincrônicas, não houve diferenças significativas nas medidas.

Esse estudo é um importante exemplo de como vieses raciais negativos podem impactar nossas impressões sobre indivíduos, categorizando-os como parte do exogrupo, mesmo em contextos nos quais eles poderiam ser classificados como membros do endogrupo.

O estudo completo foi publicado aqui: Lira, M., Egito, J. H., Dall’Agnol, P. A., Amodio, D. M., Gonçalves, O. F., & Boggio, P. S. (2017). The influence of skin colour on the experience of ownership in the rubber hand illusion. Scientific Reports, 7(15745), 1-13. doi: 10.1038/s41598-017-16137-3

[1] Viés racial implícito se refere a vieses identificados por medidas nas quais o tempo de resposta é a unidade fundamental, de modo que os participantes devem responder às tarefas o mais rapidamente possível. Esses vieses são distintos dos vieses explícitos, os quais são identificados por medidas de autorrelato (e.g, questionários, escalas) que não requerem tempo ou acurácia para serem realizadas.

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Medo de dirigir? A psicologia aliada a tecnologia pode ajudar

Uso de realidade virtual e terapia de exposição tem sido eficaz na diminuição do medo de dirigirdriving-2732934_640Fonte: CC0 Creative Commons

Muitas pessoas têm medo de dirigir, e isso ocorre por diversos motivos, mesmo quando um indivíduo não esteve presente ou causou um acidente prévio. Entender os motivos pelos quais um indivíduo tem esse medo é o primeiro passo na construção de um programa que tenha como objetivo reduzir o medo ou fobia de dirigir. Para a análise do comportamento, a análise funcional é uma forma de descobrir relações entre nossos comportamentos e o ambiente a nossa volta, evidenciando, por exemplo, diante de quais situações um indivíduo evita ou se recusa a dirigir e o que acontece quando ele se comporta desse jeito.

Estudos têm mostrado, por exemplo, que a avaliação negativa de terceiros (pais, parceiros e, inclusive, estranhos) é um dos motivos pelos quais muitas pessoas evitam dirigir. Outros motivos incluem regras como “se eu dirigir, vou perder o controle do carro”, “não consigo me concentrar”, etc. que, mesmo sem serem acuradas, diminuem a probabilidade de que um indivíduo se engaje no comportamento de dirigir. Para a análise do comportamento, a fobia de dirigir é caracterizada pela esquiva, ou seja, evitação de situações onde seja necessário dirigir, uma vez que elas produzem grande ansiedade. Assim, a emissão dessas regras e de outros comportamentos são eficazes porque reduzem ou eliminam a ansiedade. Nesse sentido, a terapia deve ser focada em expor o indivíduo a situações relativamente estressantes, ensinando estratégias para lidar com a ansiedade e comportamentos técnicos adequados, como a colocação correta das mãos no volante, o uso correto da embreagem, etc., de modo que o indivíduo se sinta cada vez menos ansioso nessas situações, mostrando que ele é capaz de dirigir sem necessariamente causar acidentes.

Pensando nos prejuízos associados a esse medo, pesquisadores têm buscado formas de auxiliar na redução da fobia de dirigir, sem, no entanto, expor esses indivíduos na situação in vivo. Nesse sentido, as terapias de exposição por realidade virtual têm sido utilizadas como uma ferramenta importante em que, apesar de não haver perigo real de acidente, os indivíduos com fobia de dirigir se sentem como se estivessem dirigindo na rua, ou seja, mesmo estando em um ambiente fechado e sem estar em movimento, as características de hardware e software do carro e dos cenários visualizados pelo indivíduo são eficientes em gerar emoções parecidas com a situação real.

O estudo de Elizeu Borloti e colaboradores (2018), publicado na revista Avances en Psicología Latinoamericana é um exemplo disso. Os experimentadores recrutaram seis adultos, quatro mulheres e dois homens que, apesar de possuírem a carteira de habilitação, relataram ter medo ou fobia de dirigir, e uma intervenção com o objetivo de reduzir esse medo foi feita com o uso da terapia por exposição por realidade virtual. Para tal, um simulador de veículo automotivo foi utilizado. Esse simulador continha a estrutura de um carro, com volante, cinto de segurança, freio, embreagem, acelerador, etc., e apresentava diversos cenários (e.g., cenário urbano sem trânsito e com poucos transeuntes; cenário de subida; cenários com múltiplas paradas requeridas; cenário de rampas, curvas e subidas; estacionamento). Durante todo o procedimento, os participantes avaliavam a sensação de desconforto/ansiedade sentida, o senso de presença, ou seja, o quão similar a situações in vivo o simulador era, entre outras medidas.

Na linha de base, foi verificada a habilidade dos participantes no carro, como a identificação dos componentes do carro, a posição do pé na embreagem, a posição das mãos no volante, etc. Nessa fase, nenhum erro de condução foi apontado. As dificuldades foram anotadas para serem abordadas na fase de intervenção. Três cenários foram escolhidos para a fase de intervenção, sendo eles os que o participante demonstrou maior dificuldade. Nessa fase, a experimentadora realizou também uma avaliação funcional do comportamento de dirigir dos participantes, ou seja, verificou em quais contextos e situações os participantes desistiam ou se recusavam a dirigir, e o que acontecia após (e.g., se alguém punia seu comportamento, com comentários do tipo “você nunca vai dirigir assim” e “dirigir é fácil”; se ela recebia apoio e comentários empáticos do tipo “é normal ficar nervosa”, “respira fundo e tenta de novo”).

Sempre que o participante tivesse um nível alto de ansiedade, ele era encorajado a respirar com o diafragma. O cenário inicial sempre era o que eliciava menor ansiedade, aumentando gradativamente, conforme o desempenho do participante fosse melhorando. As dificuldades técnicas no dirigir foram abordadas e ensinadas maneiras adequadas de manipular os elementos do carro. Sempre que um participante realizasse manobras ou outras atividades de modo adequado, ele recebia feedback positivo, assim como pelo enfrentamento da situação que era altamente estressante. Os participantes só avançavam para o próximo cenário se demonstrassem um menor nível de ansiedade e uma boa condução no nível anterior. Foram realizadas seis a oito sessões de intervenção, a depender da necessidade de cada participante, e um e três meses depois do fim da intervenção, foram feitas sessões para avaliar se o comportamento de dirigir tinha sido mantido (follow-up).

Os resultados mostraram que, no geral, todos os participantes relataram sentir menos medo de dirigir. Isso foi evidenciado pelo fato de que todos os participantes tiveram oportunidades de executar o que foi aprendido, dirigindo no dia a dia, e quatro dos cinco dirigiram em mais de 50% das oportunidades durante a fase de intervenção (P1 e P6 dirigiram em todas as oportunidades; P4 dirigiu em torno de 38% das oportunidades). Durante o follow-up, todos os participantes dirigiram em, pelo menos, 50% das oportunidades, e a maioria relatou sentir menos medo de dirigir em comparação com a fase de intervenção. Os participantes relataram que os cenários eram bastante reais, e isso os auxiliou enfrentar o medo e dirigir, de fato, nas ruas. A análise funcional também foi útil, pois ajudou os participantes a discriminarem as situações as quais evitam ou se recusam a dirigir, buscando estratégias próprias para superar o medo e se exporem às situações que temiam.

Esse estudo é um exemplo de como a união de estratégias da psicologia com os avanços tecnológicos, pelo uso dos simuladores pode melhorar a vida e diminuir o sofrimento de diversas pessoas que sofrem de fobia ou medo de dirigir.

Quer saber mais?

O estudo: Borloti, E., Santos, A., Haydu, V. B. (2018). Terapia com exposição à realidade virtual e avaliação funcional para fobia de dirigir: Um programa de intervenção. Avances en Psicología Latinoamericana, 36(2), 235-251. doi: 10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.5329

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Métodos alternativos para o estudo do preconceito

Como a Psicologia tem estudado os preconceitos uma vez que este e outros temas socialmente sensíveis estão sujeitos à desejabilidade social?

Psicólogos e pesquisadores de outras áreas interessados em estudar temas sociais relevantes, como o preconceito, se deparam com problemas inerentes a algumas medidas amplamente utilizadas em pesquisa. Os questionários, por exemplo, podem ser utilizados para identificar preferências, valores e concepções das pessoas sobre determinado produto, objeto, animal ou pessoa. Em muitos casos, o questionário pode ser muito útil, como quando se descobre preferência por determinada cor em rótulos de alimentos, ou por determinada marca de roupa. Entretanto, quando se avalia preferência por “raças”[1], biótipos corporais (e.g., gordo ou magro), homens ou mulheres em determinados cargos, e outros temas socialmente sensíveis, a possibilidade de que os participantes da pesquisa mintam, ou não revelem suas concepções de maneira acurada é muito alta, uma vez que suas respostas podem ser consideradas preconceituosas e, portanto, sujeitas à punição social. O que fazer nesses casos? Desistir de pesquisar temas como o preconceito? Claro que não!

O que os pesquisadores começaram a fazer foi pensar em alternativas, ou seja, formas que possibilitassem que um indivíduo pudesse revelar o que realmente pensa, mesmo em se tratando de um tema socialmente sensível. Uma dessas alternativas são as chamadas medidas implícitas, ou seja, medidas obtidas sem que o participante tenha consciência que uma atitude está sendo medida, ou as quais os respondentes não podem controlar deliberadamente o que “dizem”/pensam sobre o assunto (de Hower, 2006). Enquanto nas medidas explícitas, como os questionários, os participantes têm liberdade para responder as questões pensando calmamente em como responder cada questão, nas medidas implícitas, os participantes tem que responder rapidamente a questionamentos, o que os impossibilita de “filtrar” seus pensamentos e responder de modo socialmente aceito.

O Procedimento de Avaliação Relacional Implícita (Implicit Relational Assessment Procedure – Barnes-Holmes, Barnes-Holmes, Power, Hayden, Milne, & Stewart, 2006), é um exemplo de medida implícita que está sendo bastante utilizado em algumas áreas da Psicologia. Ele é um procedimento que apresenta para os participantes frases ou figuras, exigindo que os participantes respondam rapidamente “verdadeiro” ou “falso”. Em um IRAP de raça, por exemplo, os participantes devem responder se “branco e um atributo positivo” é verdadeiro ou falso, e também se “negro e um atributo positivo” é verdadeiro ou falso. O mesmo ocorre para as relações “branco e atributo negativo” e “negro e atributo negativo”. O interessante desse instrumento é que o participante não deve dizer o que ele pensa, mas obedecer a uma regra dada pelo experimentador (e.g., agora o negro deve ser considerado positivo e o branco negativo). Em um bloco de tentativas, usa-se relações consideradas consistentes com a história de vida do participante (e.g., branco-positivo e negro-negativo), e em outro, relações inconsistentes, ou seja, muda-se a regra (e.g., negro-positivo e branco-negativo). Parte-se do pressuposto de que os participantes respondem mais rápido às relações que eles concordam, ou seja, consistentes com suas histórias de vida, do que às relações inconsistentes.

Os participantes fazem, inicialmente, alguns blocos de treino para aprender a tarefa, devendo responder a cada relação (e.g., branco-positivo), geralmente, em até dois segundos, e acertando pelo menos 80% das tentativas de um bloco. Quando isso é obtido em dois blocos consecutivos, os participantes fazem mais seis blocos de teste, com o mesmo tipo de tarefa utilizado na fase de treino, alternando sempre um bloco consistente com um inconsistente. Com isso, obtém-se um escore que revela se o participante, no caso do IRAP de raça, possui viés positivo para faces negras e/ou brancas, viés negativo para faces negras e/ou brancas, ou ausência de viés positivo ou negativo para as faces negras e/ou brancas. Dessa forma, é possível verificar a demonstração de viés positivo para uma raça, sem que tenhamos, necessariamente, viés negativo para outra raça. Isso é importante porque tem-se difundida a ideia de que sempre valorizamos o que nos diz respeito, e desvalorizamos o que é do outro, mas isso nem sempre é verdade.

Para exemplificar uma pesquisa com o instrumento, veja o estudo de Power, Harte, Barnes-Holmes e Barnes-Holmes (2017): Com o objetivo de estudar vieses raciais de pessoas brancas e negras, eles recrutaram participantes norte-irlandeses de ambas as raças. No instrumento, aparecia inicialmente “Eu acho que pessoas brancas são” ou “Eu acho que pessoas negras são”, junto com as opções “amigável”, “honesto”, “trabalhador”, “pacífico”, “bom” e “inteligente, consideradas positivas, e “hostil”, “enganador”, “preguiçoso”, “violento”, “ruim” e “burro”, consideradas negativas. Só um adjetivo aparecia por vez, mas todos foram usados. Os participantes tinham que responder “verdadeiro” e “falso” em até dois segundos para cada tentativa. Nessa pesquisa, os participantes negros demonstraram vieses pró-negro, mas também pró-branco. Os participantes brancos também demonstraram vieses pró-branco, mas, quando as fotos eram de negros, eles responderam “verdadeiro” quando negro foi relacionado com coisas positivas, mas também responderam “verdadeiro” quando negro foi relacionado com coisas negativas, ou seja, eles mostraram vieses pró e anti-negro! Interessante, não?

Esse tipo de resultado é importante, pois mostra que as preferências e os vieses raciais não funcionam sempre de maneira dualista ou binária, ou seja, a preferência por uma dada raça (ou tipo corporal, por exemplo) não significa necessariamente que tenhamos antipatia por outra, mas que o modo como nós avaliamos as pessoas são múltiplas, o que exige análises complexas, envolvendo diversas variáveis.

Quer saber mais?

Alguns estudos que utilizaram o IRAP no estudo de vieses raciais, de gênero e de biotipos corporais:

Barnes-Holmes, D., Murphy, A., Barnes-Holmes, Y., & Stewart, I., (2010). The Implicit Relational Assessment Procedure: Exploring the impact of private versus public contexts and the response latency criterion on pro-white and anti-black stereotyping among white Irish individuals. The Psychological Record, 60, 57-80.

Farrell, L., & McHugh, L. (2017). Examining gender-STEM bias among STEM and non-STEM students using the Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP), Journal of Contextual Behavioral Science, http://dx.doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.02.001

Ritzert, T., Anderson, L. M., Reilly, E. E., Gorrell, S., Forsyth, J. P., & Anderson, D. A. (2016). Assessment of weight/shape implicit bias related to attractiveness, fear, and disgust. The Psychological Record 66, 405–417, doi: https://doi.org/10.1007/s40732-016-0181-4

Referências

Barnes-Holmes, D.; Barnes-Holmes, Y., Power, P.; Hayden, E., Milne, R., & Stewart, I. (2006). Do you know what you really believe? Developing the Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP) as a direct measure of implicit beliefs. The Irish Psychologist, 32(7), 169-177.

De Houwer, J. (2006). What are implicit attitudes and why are we using them? In R. W. Wiers & A. W. Stacy (Eds.), The Handbook of Implicit Cognition and Addiction (pp. 11–28). Thousand Oaks, CA: Sage.

Power, P. M., Harte, C., Barnes-Holmes, D., & Barnes-Holmes, Y. (2017). Exploring racial bias in a European country with a recent history of immigration of Black Africans. The Psychological Record. Advanced online publication. doi: 10.1007/s40732-017-0223-6

[1]O termo “raça” foi usado aqui apenas por ser corrente na literatura, não implicando concordância com teorias raciais ou afins, uma vez que só existe uma raça, a humana. Desse modo, ele representa a cor dos indivíduos.