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Quem malha seus males espanta! Como a atividade física ajuda na redução de danos neurológicos

Tem gente que adora fazer atividade física! Corre, dança, nada, malha. Está sempre bem-disposto, de bem com a vida, cara de gente saudável! Mesmo aqueles que não são tão simpáticos a fazer atividades físicas sabem dos seus benefícios para manter o corpo são, mas será que eles sabem que podem estar prevenindo doenças neurológicas que poderiam vir a acontecer?Parece tão distante e não relacionado correr e com isso melhorar a função cerebral, mas um grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderado pela Dra Fernanda De Felice (1), mostrou que essa relação existe sim! Os autores mostraram que pacientes em estágio avançado de Alzheimer não possuíam uma proteína chamada irisina no fluido cerebrospinal. Os autores já conheciam essa proteína de estudos anteriores. O nome irisina foi dado em homenagem a Íris, mensageira dos deuses gregos (2) e como todo bom mensageiro, ela leva uma informação de um lugar para o outro. No caso da irisina a mensagem é levada para várias partes do corpo onde ela pode agir como uma molécula anti-inflamatória, reduzir a replicação de células de câncer, fortalecer os ossos entre outras atividades biológicas que podem recuperar um tecido danificado (3). Ela também pode chegar ao cérebro e, sabendo dessa característica, os autores se perguntaram se seria possível que manter os músculos em atividades, a famosa atividade física, poderia levar a uma melhora das condições cerebrais de pacientes com Alzheimer. Por questões éticas, não foi possível usar pacientes, mas os autores usaram animais com danos cerebrais parecidos com o Alzheimer e viram que, quando esses animais eram submetidos a atividade física regular, eles apresentavam aumento na comunicação entre os neurônios – o que levou a recuperação da memória. Mais do que a melhora do prognóstico, animais que já faziam exercícios regulares mostraram um perfil clínico de proteção ao desenvolvimento da doença.

Adaptado de: An exercise-induced messenger boosts memory in Alzheimer’s disease.

Pessoas que tem Alzheimer geralmente são idosas e costumam ter outras comorbidades como artrite reumatoide, problemas cardíacos, obesidade e depressão. Logo a prática de exercício físico não é uma alternativa viável num primeiro olhar, até por isso outras alternativas terapêuticas vêm sendo estudadas, como já vimos por aqui antes. Mas, assim como a administração de medicamentos requer supervisão, quem sabe, no futuro, a supervisão se estenda aos exercícios físicos. Por hora nos resta a parte da prevenção. Está nas nossas mãos. Já estamos cheios de motivos para levantar do sofá e começar a nos exercitar, certo?

(1) https://www.nature.com/articles/s41591-018-0275-4

(2) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3522098/

(3) Irisin as a Multifunctional Protein: Implications for Health and Certain Diseases

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Afinal, a homossexualidade está no DNA?


Reprodução Marvel – Avengers: The Children’s Crusade (2010) #9

A homossexualidade humana nem sempre foi um tabu. Desde que o ser humano deixou de ser nômade e passou a se organizar em comunidade e comunicar sua história (seja por meio de desenhos ou hieróglifos, por exemplo), há relatos de relações estáveis entre pessoas do mesmo sexo. O desconforto social com a relação entre pessoas do mesmo sexo coincidiu historicamente com a ascensão das religiões abraâmicas e a crença de que o sexo seria um ato exclusivamente voltado para a reprodução da espécie (1). No entanto, se olharmos para o reino animal de forma geral, vamos encontrar comportamentos muito semelhantes: ou seja, é comum, natural e esperada a relação de espécimes do mesmo sexo (já falamos sobre isso aqui no blog antes) (2).

Ser natural no reino animal não parece ser suficiente para a ciência! Os cientistas estão sempre em busca de querer saber o porquê, e dessa vez foram buscar nos genes: a relação entre seres humanos do mesmo sexo teria algum componente genético? Foi essa a pergunta que um consórcio formado por diversas instituições, entre elas  University of Copenhagen, MIT, Harvard, University of Queensland da Austrália e University of Cambridge fez e para respondê-la, realizou o maior estudo genético sobre o  assunto (3). Os autores usaram 500 mil amostras genéticas de pessoas que preencheram um detalhado formulário que, entre outras questões, perguntava se o doador da amostra fazia sexo com pessoas do mesmo sexo ou com o sexo oposto. Foram inseridos no estudo pessoas de perfil genético XY ou XX, ou seja, clássicos machos e fêmeas, respectivamente. Pessoas que contém o perfil de cromossomos X, XXX, XXY ou XYY foram excluídas, e dessas, foram excluídas as pessoas que não se identificavam com o sexo biológico para evitar inserir no estudo variáveis que alterassem o resultado. As pessoas XY e XX foram divididas em 2 grupos em função do seu comportamento sexual: pessoas que faziam sexo com pessoas do mesmo sexo, e pessoas que faziam sexo com pessoas do sexo oposto. O material genético de todos eles foi analisado e comparado para ver se havia alguma diferença genética significativa que justificasse o comportamento de fazer sexo com pessoas do mesmo sexo ou com pessoas do sexo oposto. Apesar de todas as exaustivas análises, os autores não encontraram nenhuma alteração genética que justificasse os dois comportamentos (se existe a hipótese do “gene gay”, também podia existir a do “gene hetero”, certo?). Além disso, o estudo derruba a hipótese de que haja alguma relação de hereditariedade, ou seja, não existe família que tem maior ou menor probabilidade de ter pessoas que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo ou com o sexo oposto.    

Claro que todos os estudos têm limitações e podem ser completados mais tarde a partir de novas tecnologias e/ou novos resultados. Ainda que seja descoberto um motivo pelo qual a pessoa faz sexo com pessoas do sexo oposto ou com do mesmo sexo, como isso mudaria nossa sociedade? Se estamos falando de seres humanos, cidadãs e cidadãos, pessoas que estudam, trabalham, se exercitam, se divertem, amam, choram, cuidam, dirigem, comem… qual a implicância ética disso? Já que somos animais, pode ser simplesmente suficiente saber que na natureza isso é natural, comum e esperado. 

(1)    http://www.cremesp.org.br/pdfs/eventos/eve_08052014_111540_Bioetica%20e%20Homoafetividade%20Curso%20de%20Bioetica%20de%20Ribeirao%20Preto%20-%20Dr%20%20Marco%20Aurelio%20Guimaraes%20-.pdf

(2) https://www.abrasco.org.br/site/outras-noticias/opiniao/daniela-knauthsobre-homossexualidade-natureza-apresenta-um-grande-leque-de-diversidade-que-ultrapassa-nossas-categorias-de-classificacao/33348/

(3) https://science.sciencemag.org/content/365/6456/eaat7693

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Traídas pela genética: contraceptivos hormonais não funcionam em todas as mulheres

Mulher na gente do espelho (Girl before Mirror) de Pablo Picasso (1932). Retirado de http://www.moma.org. © 2019 Estate of Pablo Picasso / Artists Rights Society (ARS), New York

Quando as pílulas contraceptivas femininas foram lançadas nos anos 60, uma onda de alívio e liberdade se espalhou. Finalmente as mulheres teriam autonomia em decidir se e quando engravidar.  Essa lua de mel não durou muito já que rapidamente as mulheres começaram a sentir os efeitos colaterais dessa revolução. Aqui mesmo nós já falamos dos problemas de saúde que podem ser causados pelos métodos hormonais contraceptivos. Não demorou para levantarem a questão sobre o porquê de só as mulheres terem que ser responsáveis por evitar a gravidez. Vários trabalhos foram feitos para criar métodos hormonais contraceptivos masculinos, mas os efeitos colaterais observados, que não eram diferentes dos observados em mulheres, fez com que o lançamento deste método fosse adiado (leia mais sobre esse assunto aqui no blog). Volta a batata quente para as mulheres, que com a ajuda da ciência grita um sonoro: Contraceptivo hormonal não funciona em todas as mulheres!!! Essa foi a conclusão de um estudo realizado numa parceria do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia com o Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. Para ficar mais fácil entender a conclusão do estudo, vamos relembrar como funcionam os anticoncepcionais hormonais, especificamente os de baixa dosagem como as pílulas e os implantes. Esse método de contracepção se baseia em manter altos os níveis de progesterona e, com isso, impedir a ovulação.

O grupo liderado pela Dra Stephanie Teal analisou 350 mulheres de várias etnias e identificou alterações genéticas nas enzimas CYP3A7 responsáveis pelo metabolismo de medicamentos e hormônios. Essas modificações não causam nenhum problema de saúde, mas elas podem ser responsáveis por metabolizar um medicamento mais rápido do que as pessoas sem essas alterações e isso sim pode ser um problema. Já foi mostrado que indivíduos com essa alteração respondem pior à quimioterapia pois o medicamento é metabolizado antes de poder fazer efeito nas células cancerígenas. Baseados nesses fatos, a equipe da Dra Stephanie se perguntou se, além da quimioterapia, essa alteração genética poderia alterar o efeito anticoncepcional de implantes de baixa dosagem de progesterona, hipótese que acabou sendo comprovada pelo grupo. Eles mostraram que as alterações genéticas levam algumas mulheres a metabolizar os hormônios de forma mais rápida a ponto de eles não estarem mais disponíveis para controlar o ciclo menstrual e, assim, não conseguirem suprimir a ovulação. É importante mencionar que também foram avaliadas questões como índice de massa corporal e tempo do implante, mas que nenhuma destas duas variáveis reduziu tanto a disponibilidade de progesterona quanto a variação genética. Além disso, esse estudo foi todo feito com implantes, mas resta a dúvida: podemos extrapolar os resultados para as pílulas e dispositivos intrauterinos? A resposta é não. Não porque não aconteça, mas simplesmente porque não foi estudando (ainda!!) pela ciência. Mas considerando a forma como esses métodos contraceptivos funcionam, provavelmente as alterações genéticas em CYP3A7 reduzem os níveis de progesterona abaixo do recomendado para evitar a ovulação.

Esse tipo de dado não deve ser visto como um tipo de derrota, mas sim com esperança. Se antes desconfiava-se sobre “se” e “como” a mulher realmente tinha tentado evitar a gravidez, com esse estudo fica claro que essa não é uma área de sim-ou-não, mas de muitos ”talvezes” no meio. Esse estudo deixa mais claro como alterações genéticas silenciosas, como a estudada aqui, devem ser levadas em consideração para cuidar da saúde da mulher e do planejamento familiar.

Referências

https://journals.lww.com/greenjournal/Abstract/2019/04000/Influence_of_Genetic_Variants_on_Steady_State.27.aspx

https://brasilescola.uol.com.br/biologia/anticoncepcionais.htm

https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/09/15/P%C3%ADlula-anticoncepcional-da-revolu%C3%A7%C3%A3o-sexual-%C3%A0-revis%C3%A3o-de-seu-uso

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“Eu estava aqui o tempo todo e só você não viu”: Quando velhos remédios tratam novas doenças

Existem vários mitos envolvendo a indústria farmacêutica: que já existe cura para a doença X, mas a indústria não fala só para continuar vendendo o remédio Y; que o remédio Z causa autismo, mas ninguém fala para não perder vendas, entre outras que você pode ver aqui se são verdade ou não.

Você tem ideia que um medicamento pode levar de 10 a 20 anos para ter sua eficácia e segurança comprovada? São anos de pesquisa no laboratório depois mais outros vários anos testando em humanos, fora o tempo de papelada burocrática, de análises de dossiês e relatórios. Esse aí embaixo é um esquema “muito simplificado” das etapas necessárias para se descobrir um novo medicamento para uma doença. (Nós já falamos sobre isso aqui antes! venha conferir!)

nrd.2017.217-f1

Legenda: Esquema sugerido pelo Fórum de Descoberta e Desenvolvimento de novos Medicamentos da Academia de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos para representar um resumo das etapas existentes entre a identificação de uma molécula com potencial terapêutico até sua transformação em medicamento. O início está representado na parte superior do esquema na área laranja e o fim na parte amarela (veja o texto completo aqui).

 

Diante desse cenário, uma pergunta sempre vem à tona: quando passamos por endemias como é o caso da Zika e Chikungunya não podemos esperar tanto tempo: como são descobertos medicamentos para esse tipo de doença? Uma alternativa para otimizar o tempo de descoberta é usar medicamentos que já estão no mercado e verificar se ele funciona para o tratamento de outra doença. Essa abordagem é conhecida como Reposicionamento de Fármacos. Para se ter uma ideia, no esquema mostrado acima, isso significa que o processo se restringiria à metade inferior do esquema.

Pensando nessa estratégia, pesquisadores da Fiocruz – RJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, se reuniram e testaram a seguinte hipótese: se o medicamento sofosbuvir é usado para o tratamento da hepatite C, que é causada por um vírus da família dos flavivírus, esse mesmo medicamento seria eficaz contra outras doenças causadas por outros vírus da mesma família como a chikungunya e febre amarela? Os autores mostraram que animais infectados com chikungunya e tratados com sofosbuvir apresentavam menos sintomas relacionados à infecção como perda de peso e inchaço nas articulações das patas. Esse efeito foi atribuído a redução da quantidade de vírus circulante, ou seja, o medicamento foi capaz de inibir a replicação do vírus. Ora, o sofosbuvir mata o vírus da hepatite C, em 2017 foi mostrado que também tem esse efeito sobre o vírus zika e agora os pesquisadores mostraram o efeito sobre o chikungunya, por que não tentar para febre amarela? De fato, os autores comprovaram que esse medicamento também foi capaz de reduzir a replicação do vírus da febre amarela e, com isso, reduzir os sintomas como perda de peso e melhora da função e na inflamação hepática observadas durante a infecção.

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Legenda: Figura mostrando como o tratamento com sofosbuvir melhora a aparência e edema das patas que que receberam o vírus chikungunya

A semelhança entre a estrutura física, bioquímica e metabólica dos vírus de uma mesma família faz com que o medicamento tenha o mesmo efeito nos diferentes subtipos de vírus. O sofosbuvir atua numa enzima essencial à replicação de todos os vírus dessa família, a RNA polimerase. Mas cada membro da família tem suas próprias características e tendem a se alojar numa parte diferente do corpo: o zika fica no cérebro, o chikungunya nas articulações e o da febre amarela no fígado. O que não se sabia, até agora, era se ao administrar o medicamento seria possível alcançar o vírus em seu local de ação.

E quando poderemos usar o sofosbuvir para tratar chikungunya, zika ou febre amarela?! Calma, o reposicionamento de fármacos adianta o processo mas não podemos abrir mão de garantir a eficácia e segurança de seu uso para essas doenças. Como próximos passos, os pesquisadores devem avaliar se o sofosbuvir é realmente eficaz em tratar humanos doentes. Além disso, é preciso garantir que o tratamento seja seguro, ou seja, não cause efeitos colaterais nos doentes. Não é porque ele não causa reações no paciente com hepatite que podemos extrapolar para o paciente com febre amarela. Mas sigamos esperançosos, o caminho é longo, mas menor do que o antigo!   

Referências

de Freitas CS, Higa LM, Sacramento CQ, Ferreira AC, Reis PA, Delvecchio R, Monteiro FL, Barbosa-Lima G, James Westgarth H, Vieira YR, Mattos M, Rocha N, Hoelz LVB, Leme RPP, Bastos MM, Rodrigues GOL, Lopes CEM, Queiroz-Junior CM, Lima CX, Costa VV, Teixeira MM, Bozza FA, Bozza PT, Boechat N, Tanuri A, Souza TML. Yellow fever virus is susceptible to sofosbuvir both in vitro and in vivo. PLoS Negl Trop Dis. 2019 Jan 30;13(1):e0007072. doi: 10.1371/journal.pntd.0007072.

 

Ferreira AC, Reis PA, de Freitas CS, Sacramento CQ, Villas Bôas Hoelz L, Bastos MM, Mattos M, Rocha N, Gomes de Azevedo Quintanilha I, da Silva Gouveia Pedrosa C, Rocha Quintino Souza L, Correia Loiola E, Trindade P, Rangel Vieira Y, Barbosa-Lima G, de Castro Faria Neto HC, Boechat N, Rehen SK, Brüning K, Bozza FA, Bozza PT, Souza TML. Beyond Members of the Flaviviridae Family, Sofosbuvir Also Inhibits Chikungunya Virus Replication. Antimicrob Agents Chemother. 2019 Jan 29;63(2). pii: e01389-18. doi: 10.1128/AAC.01389-18.

 

Ana C. Vicente, Francisca H. Guedes-da-Silva, Carlos H. Dumard, Vivian N. S. Ferreira, Igor P. S. da Costa, Ruana A. Machado, Fernanda G. Q. Barros-Aragão, Rômulo L. S. Neris, Júlio S. Dos-Santos, Iranaia Assunção-Miranda, Claudia P. Figueiredo, André A.Dias, Andre M. O. Gomes, Herbert L. de Matos Guedes, Andrea C. Oliveira, Jerson L.Silva Yellow Fever Vaccine Protects Resistant and Susceptible Mice Against Zika Virus Infection bioRxiv 587444; doi: https://doi.org/10.1101/587444

 

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Imunoterapia contra o câncer: O tratamento que vem de dentro

Todos acompanham ou já acompanharam o caso de alguém que foi diagnosticado com câncer. Infelizmente, muitos ainda acompanharão, mas, para os casos futuros, novas abordagens terapêuticas surgem como esperança.

A exemplo dos cientistas que ganharam o Prêmio Nobel de Medicina em 2018, pesquisadores têm procurado a cura que vem de dentro. Não, não é nada místico, é ciência mesmo!

Alguma vez você já se perguntou por que o corpo não consegue combater as células cancerosa? Comecemos do início. O sistema responsável pela defesa do nosso organismo, seja contra câncer, infecções ou até mesmo traumas físicos, é o sistema imune. Vários tipos de células compõem esse sistema e a maior parte delas pode ser visualizada no sangue. Quando fazemos hemogramas completos elas aparecem como série branca, ou leucograma. O mais interessante do sistema imune é o autocontrole, ou check point, que regula o quanto este sistema vai se ativar diante de uma ameaça ao organismo. Imagine que as células do sistema imune são armadas com bombinhas e granadas. Dependendo da ameaça ao organismo, a célula lança a bombinha ou a granada. O check point serve para as células não lançarem só granadas quando poderiam resolver o problema com as bombinhas.

O autocontrole são moléculas que estão na superfície dos linfócitos T (células que “lançam as bombas”) e recebem o sinal de moléculas presentes na superfície de outras células, que avisam ao linfócito que está acontecendo um (células apresentadoras de antígeno, ou APC*). Na figura abaixo, dois tipos de check points são mostrados em amarelo: o CTLA-4 e o PD-1. As moléculas em azul representam as que estimulam a ativação do linfócito, mas tem seu efeito inibido, pois as moléculas de autocontrole também estão ligadas. Assim, a ativação do linfócito não é suficiente para matar as célula cancerosa.

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Os quadros acima mostram as moléculas CTLA-4 e PD-1 em amarelo se ligando a outras moléculas e, assim, controlando a ativação do sistema imune e impedindo a morte das células cancerosas. APC do inglês – antigen presenting cells. Figura adaptada do site https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2018/press-release/ acessado em 11 de novembro de 2018)

Baseados nesse sistema, os pesquisadores James Allison da Universidade do Texas, e Tasuku Honjo, da Universidade de Kioto, tiveram uma ideia: e se fosse possível desligar o autocontrole durante o câncer e permitir que o sistema imune ativasse a “granada”? Baseados nessa premissa, eles começaram os estudos do que chamaram de imunoterapia e verificaram que pessoas com câncer tratadas com anticorpos que bloqueiam o autocontrole conseguiam controlar a doença e, em muitos casos, alcançavam a cura. A imunoterapia já foi eficaz em tratar câncer de pulmão, renal, linfoma e melanoma. Apesar de bastante promissor, como todo tratamento, os autores também observaram efeitos adversos relacionados a super ativação do sistema imune, como reações autoimunes, por exemplo.

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A figura mostra que o tratamento com anticorpos (representado pelos Y verde) inibem a ligação das moléculas de autocontrole, e, assim, as moléculas representadas em azul podem atuar livremente fazendo com que as células do sistema imune possam atacar as células cancerígenas. Figura adaptada do site https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2018/press-release/ acessado em 11 de novembro de 2018.

Hoje em dia esses estudos ganharam desdobramentos que estão ajudando a aperfeiçoar o tratamento. Uma abordagem é juntar a inibição de mais de um tipo de autocontrole no mesmo tratamento (por exemplo, inibir o CTLA-4 e o PD-1 ao mesmo tempo). Outra abordagem é induzir a atividade anti-inflamatória das células do sistema imune. Parece contraditório, mas é um sistema finamente regulado. Os autores notaram que se eles pudessem “desligar” algumas vias de ativação e só deixassem ligadas as vias responsáveis pela morte das células ccancerosas, os danos ao organismo seriam menor. É algo como direcionar para onde a granada vai explodir.

Apesar da imunoterapia já ser uma realidade em muitos países, ela ainda não está amplamente disponível no mercado. Até 2016 só havia um medicamento imunoterápico registrado no Brasil, mesmo assim não estava disponível no SUS. Aguardemos, com esperança, a disponibilização destas terapias e, quem sabe, já com essas melhorias que vêm sendo estudadas.

Referências

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Se é proibido, é porque faz mal. Ou não?

Substâncias ilícitas são aquelas que tem uso e/ou comercialização proibida por lei, como é o caso da Cannabis sativa (maconha). Segundo historiadores, a proibição do uso da maconha no Brasil está baseada em fatores políticos e econômicos próprios da época em que a lei foi sancionada e não tem relação com a possibilidade de fazer mal ao ser humano (para saber mais sobre a história da proibição, vide referências abaixo). Independente das questões éticas, jurídicas e morais, o fato é que substâncias psicoativas ou não presentes na Cannabis sativa alteram o funcionamento do corpo e isso não é necessariamente ruim.

Toda substância consumida por nós (remédios, álcool, suplementos, etc) modifica o funcionamento do nosso organismo, até mesmo a alimentação, como já foi falado aqui antes. Isso acontece porque elas atuam em vias metabólicas que já existem no corpo. Com as substâncias presentes na Cannabis não é diferente, e foi a partir deste pressuposto que cientistas do mundo todo vêm caracterizando o Sistema Endocanabinóide (ou ECS do inglês “endocannabinoid system”), e desvendando como e porque a Cannabis sativa altera o nosso metabolismo. Recentemente o pesquisador Vicenzo Di Marzo que atua tanto na Universidade Laval do Canadá quanto no Instituto de Bioquímica Molecular na Itália, debateu como usar as vias metabólicas que envolvem o ECS, para a promoção da saúde.

O ECS é composto de pelo menos duas substâncias produzidas dentro do corpo, a aracdoniletanolamida (AEA) e o 2-aracdonil-glicerol (2-AG), que exercem suas atividades ao se ligar a, pelo menos, dois tipos de receptores: CB1 ou CB2. Outros receptores já foram descritos como participantes do ECS, como o GPR18, GPR119, GPR55, GPR110 e TRPV1, mas estes ainda não têm o mecanismo de ação e localização bem estabelecidos. Esse sistema em equilíbrio com os outros sistemas do corpo atuam controlando respostas inflamatórias, equilíbrio emocional, a microbiota do intestino e até ajuda no combate a infecções. Essa variedade de efeitos acontece devido a presença desse sistema em praticamente todos os tecidos no corpo.

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Diante de toda variedade de efeitos, Dr Marzo aborda estudos que exploram todo o potencial de ação do Sistema. Para isso, o autor divide o tema em duas partes: medicamentos derivados de plantas que têm substâncias que se ligam aos receptores CB1 e/ou CB2 – os fitocanabinóides, e os canabinóides sintéticos – fabricados em laboratório para se ligar aos receptores apropriados ou modular a produção dos endocanabinóides.

Os fitocanabinóides, os primeiros da classe a serem descritos, são os mais profundamente estudados. Apesar de a maior parte dos estudos ser voltada para o canabidiol e o THC, ambos derivados da Cannabis sativa, outros fitocanabinóides como o beta-cariofileno também são encontrados em plantas como as pitangueiras, cravo-da-índia, alecrim e outras plantas aromáticas. Aqui no blog já falamos sobre o efeito benéfico do canabidiol para o tratamento da Doença de Parkinson antes, mas Dr Marzo chama a atenção para outros efeitos como o uso de desta classe de substâncias para o tratamento da náusea em pacientes de câncer, para dores consequentes da esclerose múltipla ou artrite, e para a melhora da síndrome metabólica. Apesar de amplamente estudadas, existem algumas limitações para uso deste tipo de substância. Como elas devem ser extraídas das plantas, sua obtenção pode ser cara, trabalhosa e não garante a pureza do produto final. No caso de o medicamento ser em forma de extrato, têm-se observado que as várias substâncias presentes no fitomedicamento podem interferir uma no efeito da outra e, dessa forma, reduzir o resultado esperado.

Uma das formas de resolver os problemas dos fitocanabinóides foi a síntese de canabinóides em laboratório. No que tange os sintéticos, estes foram especialmente desenhados por cientistas para encaixar perfeitamente nos receptores CB1 ou CB2 e, assim, desencadear os efeitos benéficos do ECS. Neste sentido alguns sintéticos já têm sido testados para uso em neuroinflamações, esclerose múltipla, náusea em pacientes de câncer, lúpus eritematosos, esteatose hepática e dermatites. Dr Marzo destaca que até medicamentos que não foram desenhados para atuar no ECS, também atuam nele, como por exemplo a dipirona e o paracetamol que tem seu efeito analgésico associado a ativação dos receptores CB1.  Mesmo com tantos efeitos benéficos para o tratamento de várias doenças, algumas limitações também rondam a liberação segura destes medicamentos para o mercado. Grande parte destas substâncias atuam nos receptores CB1 que estão presentes em grandes quantidades no cérebro e regulam muito fortemente fatores relacionados ao comportamento e podem causar quadros de depressão ou ansiedade.

Se tudo que está descrito aí em cima é prova de eficácia dos canabinóides, isso significa que o consumo pode ser benéfico para a saúde? Sim, mas, como tudo que consumimos, temos que estar atentos a alguns detalhes: controle de qualidade da matéria prima utilizada e do sistema de extração dos fitocanabinóides, padronização dos extratos indicando quais os componentes e em que concentração eles se encontram nos extratos, testes de segurança para saber os efeitos adversos, controle qualitativo e quantitativo de impurezas presente nos extratos, autorização de produção e comercialização pelas agências reguladoras. Depois de aprofundados nossos conhecimentos, estaremos empoderados como sociedade para discutir a descriminalização e a legalização dos canabinóides.

Referências

https://www.nature.com/articles/nrd.2018.115.pdf

http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/viewFile/3953/2742

http://lehda.fflch.usp.br/sites/lehda.fflch.usp.br/files/upload/paginas/2014.%20TORCATO.%20uma%20historia%20da%20proibicao%20das%20drogas.pdf

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O vácuo: a falta de representatividade étnica nos resultados de estudos científicos em saúde.

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Calma, hoje é dia da coluna de saúde mesmo! Pedimos licença às colegas das exatas para usar “vácuo” como analogia à falta de resultados científicos que mostrem a importância de se estudar as respostas biológicas das diferentes etnias. Nós já falamos sobre isso por aqui antes especialmente quando tratamos junto a questão do gênero. Um estudo recente realizado por uma rede de instituições de saúde de países como Estados Unidos, Porto Rico, México e Espanha mostrou como a etnia influencia no desenvolvimento e tratamento da asma.

A asma é uma doença crônica comum em crianças, que tem como característica básica a contração dos músculos das vias aéreas, diminuindo drasticamente a passagem do ar para os pulmões (Figura 1). O tratamento é relativamente simples uma vez que substâncias que dilatam as vias, ou seja, broncodilatadores como o salbutamol, são utilizados no momento da crise.

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Estudos anteriores já tinham identificado que, considerando as diferentes etnias presentes nos Estados Unidos, a maior parte das crianças que desenvolvem asma são de origem porto-riquenha (quase 40%). Crianças de origem africana e europeia tem incidência semelhante (12%) e, em menor proporção, estão as crianças mexicanas (7%). No entanto, o estudo mais recente liderado por Esteban Burchard, da Universidade da Califórnia, e realizado por outros 50 autores de 40 instituições de pesquisa, mostrou que não só a forma que a asma se apresenta, mas a resposta ao medicamento salbutamol também é diferente entre as etnias. A figura abaixo mostra como cada etnia estudada – porto-riquenhos*, mexicanos e afrodescendentes – responde ao medicamento. O gráfico mostra os resultados dos exames de função pulmonar (medição do volume de ar exalado no primeiro segundo de teste) após a administração do salbutamol. Os resultados considerados normais são mostrados em cinza, os resultados que representam a alta resposta ao medicamento é mostrada em vermelho, e a baixa resposta ao medicamento é mostrada em azul. Como pode ser claramente visto, as curvas de avaliação da função pulmonar mostram que cada população reage de uma forma diferente após a administração da mesma dose do medicamento. Isso sugere que a quantidade de medicamento que leva a melhora da população porto-riquenha pode ser muito alta para os afrodescendentes. Note que enquanto as populações porto-riquenhas estão respondendo ao medicamento de forma intermediária, as populações mexicanas e afrodescendentes estão respondendo fortemente, o que pode aumentar a possibilidade de efeitos colaterais.

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Que cada pessoa pode responder de formas diferentes a um mesmo medicamento não é novidade. Mas quando a diferença envolve populações inteiras e de características genéticas definidas, isso ajuda a entender as bases genômicas que justifiquem a diferença de resposta ao medicamento. Já existe um ramo da área de farmácia que estuda esse assunto chamado farmacogenômica. Esta cadeira estuda o efeito de um medicamento administrado em determinada pessoa com características genéticas próprias. Por exemplo, pessoas que tem variação genética, a ponto de produzirem enzimas do fígado que não funcionam bem, podem responder de forma diferente a medicamentos como anticoagulantes ou antidepressivos, quando comparado a pessoas que não tem essa variação. O que esse recente estudo mostra é que ao se estudar características genéticas de grupos étnicos pode-se melhorar o atendimento médico a essas pessoas e prover a elas o tratamento mais adequado e com menos efeitos colaterais.

 

No entanto, outros parâmetros devem ser levados em consideração. Não é à toa que existam poucos trabalhos que estudem as implicações terapêuticas das diferenças genéticas de populações. Isso é um reflexo de como a sociedade se comporta diante de diferentes raças, como já falamos por aqui antes. Nos atenhamos aos grupos avaliados no estudo. A marginalização da comunidade de mexicanos e afrodescendentes nos Estados Unidos os submete a condições de saúde mais precárias: alimentação pouco saudável, alto consumo de substância ilícitas, ambientes mais poluídos, acesso restrito a centros de saúde. Essa combinação de fatores pode dificultar o estudo da influência da genética das populações no efeito de medicamentos. Esse estudo mostra mais do que a falta de representatividade nos dados científicos, mostra como a desigualdade social dificulta o fazer ciência.

*Os porto-riquenhos não foram classificados como latinos devido a sua cultura e por seu meio ambiente insulano separado.  

  

Referências:

http://www.revistas.usp.br/rmrp/article/view/402/403

http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/01/29/farmacogenetica-torna-possivel-aplicar-terapias-individualizadas/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23750510

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29509491

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26734713