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Traídas pela genética: contraceptivos hormonais não funcionam em todas as mulheres

Mulher na gente do espelho (Girl before Mirror) de Pablo Picasso (1932). Retirado de http://www.moma.org. © 2019 Estate of Pablo Picasso / Artists Rights Society (ARS), New York

Quando as pílulas contraceptivas femininas foram lançadas nos anos 60, uma onda de alívio e liberdade se espalhou. Finalmente as mulheres teriam autonomia em decidir se e quando engravidar.  Essa lua de mel não durou muito já que rapidamente as mulheres começaram a sentir os efeitos colaterais dessa revolução. Aqui mesmo nós já falamos dos problemas de saúde que podem ser causados pelos métodos hormonais contraceptivos. Não demorou para levantarem a questão sobre o porquê de só as mulheres terem que ser responsáveis por evitar a gravidez. Vários trabalhos foram feitos para criar métodos hormonais contraceptivos masculinos, mas os efeitos colaterais observados, que não eram diferentes dos observados em mulheres, fez com que o lançamento deste método fosse adiado (leia mais sobre esse assunto aqui no blog). Volta a batata quente para as mulheres, que com a ajuda da ciência grita um sonoro: Contraceptivo hormonal não funciona em todas as mulheres!!! Essa foi a conclusão de um estudo realizado numa parceria do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia com o Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. Para ficar mais fácil entender a conclusão do estudo, vamos relembrar como funcionam os anticoncepcionais hormonais, especificamente os de baixa dosagem como as pílulas e os implantes. Esse método de contracepção se baseia em manter altos os níveis de progesterona e, com isso, impedir a ovulação.

O grupo liderado pela Dra Stephanie Teal analisou 350 mulheres de várias etnias e identificou alterações genéticas nas enzimas CYP3A7 responsáveis pelo metabolismo de medicamentos e hormônios. Essas modificações não causam nenhum problema de saúde, mas elas podem ser responsáveis por metabolizar um medicamento mais rápido do que as pessoas sem essas alterações e isso sim pode ser um problema. Já foi mostrado que indivíduos com essa alteração respondem pior à quimioterapia pois o medicamento é metabolizado antes de poder fazer efeito nas células cancerígenas. Baseados nesses fatos, a equipe da Dra Stephanie se perguntou se, além da quimioterapia, essa alteração genética poderia alterar o efeito anticoncepcional de implantes de baixa dosagem de progesterona, hipótese que acabou sendo comprovada pelo grupo. Eles mostraram que as alterações genéticas levam algumas mulheres a metabolizar os hormônios de forma mais rápida a ponto de eles não estarem mais disponíveis para controlar o ciclo menstrual e, assim, não conseguirem suprimir a ovulação. É importante mencionar que também foram avaliadas questões como índice de massa corporal e tempo do implante, mas que nenhuma destas duas variáveis reduziu tanto a disponibilidade de progesterona quanto a variação genética. Além disso, esse estudo foi todo feito com implantes, mas resta a dúvida: podemos extrapolar os resultados para as pílulas e dispositivos intrauterinos? A resposta é não. Não porque não aconteça, mas simplesmente porque não foi estudando (ainda!!) pela ciência. Mas considerando a forma como esses métodos contraceptivos funcionam, provavelmente as alterações genéticas em CYP3A7 reduzem os níveis de progesterona abaixo do recomendado para evitar a ovulação.

Esse tipo de dado não deve ser visto como um tipo de derrota, mas sim com esperança. Se antes desconfiava-se sobre “se” e “como” a mulher realmente tinha tentado evitar a gravidez, com esse estudo fica claro que essa não é uma área de sim-ou-não, mas de muitos ”talvezes” no meio. Esse estudo deixa mais claro como alterações genéticas silenciosas, como a estudada aqui, devem ser levadas em consideração para cuidar da saúde da mulher e do planejamento familiar.

Referências

https://journals.lww.com/greenjournal/Abstract/2019/04000/Influence_of_Genetic_Variants_on_Steady_State.27.aspx

https://brasilescola.uol.com.br/biologia/anticoncepcionais.htm

https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/09/15/P%C3%ADlula-anticoncepcional-da-revolu%C3%A7%C3%A3o-sexual-%C3%A0-revis%C3%A3o-de-seu-uso

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“Eu estava aqui o tempo todo e só você não viu”: Quando velhos remédios tratam novas doenças

Existem vários mitos envolvendo a indústria farmacêutica: que já existe cura para a doença X, mas a indústria não fala só para continuar vendendo o remédio Y; que o remédio Z causa autismo, mas ninguém fala para não perder vendas, entre outras que você pode ver aqui se são verdade ou não.

Você tem ideia que um medicamento pode levar de 10 a 20 anos para ter sua eficácia e segurança comprovada? São anos de pesquisa no laboratório depois mais outros vários anos testando em humanos, fora o tempo de papelada burocrática, de análises de dossiês e relatórios. Esse aí embaixo é um esquema “muito simplificado” das etapas necessárias para se descobrir um novo medicamento para uma doença. (Nós já falamos sobre isso aqui antes! venha conferir!)

nrd.2017.217-f1

Legenda: Esquema sugerido pelo Fórum de Descoberta e Desenvolvimento de novos Medicamentos da Academia de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos para representar um resumo das etapas existentes entre a identificação de uma molécula com potencial terapêutico até sua transformação em medicamento. O início está representado na parte superior do esquema na área laranja e o fim na parte amarela (veja o texto completo aqui).

 

Diante desse cenário, uma pergunta sempre vem à tona: quando passamos por endemias como é o caso da Zika e Chikungunya não podemos esperar tanto tempo: como são descobertos medicamentos para esse tipo de doença? Uma alternativa para otimizar o tempo de descoberta é usar medicamentos que já estão no mercado e verificar se ele funciona para o tratamento de outra doença. Essa abordagem é conhecida como Reposicionamento de Fármacos. Para se ter uma ideia, no esquema mostrado acima, isso significa que o processo se restringiria à metade inferior do esquema.

Pensando nessa estratégia, pesquisadores da Fiocruz – RJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, se reuniram e testaram a seguinte hipótese: se o medicamento sofosbuvir é usado para o tratamento da hepatite C, que é causada por um vírus da família dos flavivírus, esse mesmo medicamento seria eficaz contra outras doenças causadas por outros vírus da mesma família como a chikungunya e febre amarela? Os autores mostraram que animais infectados com chikungunya e tratados com sofosbuvir apresentavam menos sintomas relacionados à infecção como perda de peso e inchaço nas articulações das patas. Esse efeito foi atribuído a redução da quantidade de vírus circulante, ou seja, o medicamento foi capaz de inibir a replicação do vírus. Ora, o sofosbuvir mata o vírus da hepatite C, em 2017 foi mostrado que também tem esse efeito sobre o vírus zika e agora os pesquisadores mostraram o efeito sobre o chikungunya, por que não tentar para febre amarela? De fato, os autores comprovaram que esse medicamento também foi capaz de reduzir a replicação do vírus da febre amarela e, com isso, reduzir os sintomas como perda de peso e melhora da função e na inflamação hepática observadas durante a infecção.

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Legenda: Figura mostrando como o tratamento com sofosbuvir melhora a aparência e edema das patas que que receberam o vírus chikungunya

A semelhança entre a estrutura física, bioquímica e metabólica dos vírus de uma mesma família faz com que o medicamento tenha o mesmo efeito nos diferentes subtipos de vírus. O sofosbuvir atua numa enzima essencial à replicação de todos os vírus dessa família, a RNA polimerase. Mas cada membro da família tem suas próprias características e tendem a se alojar numa parte diferente do corpo: o zika fica no cérebro, o chikungunya nas articulações e o da febre amarela no fígado. O que não se sabia, até agora, era se ao administrar o medicamento seria possível alcançar o vírus em seu local de ação.

E quando poderemos usar o sofosbuvir para tratar chikungunya, zika ou febre amarela?! Calma, o reposicionamento de fármacos adianta o processo mas não podemos abrir mão de garantir a eficácia e segurança de seu uso para essas doenças. Como próximos passos, os pesquisadores devem avaliar se o sofosbuvir é realmente eficaz em tratar humanos doentes. Além disso, é preciso garantir que o tratamento seja seguro, ou seja, não cause efeitos colaterais nos doentes. Não é porque ele não causa reações no paciente com hepatite que podemos extrapolar para o paciente com febre amarela. Mas sigamos esperançosos, o caminho é longo, mas menor do que o antigo!   

Referências

de Freitas CS, Higa LM, Sacramento CQ, Ferreira AC, Reis PA, Delvecchio R, Monteiro FL, Barbosa-Lima G, James Westgarth H, Vieira YR, Mattos M, Rocha N, Hoelz LVB, Leme RPP, Bastos MM, Rodrigues GOL, Lopes CEM, Queiroz-Junior CM, Lima CX, Costa VV, Teixeira MM, Bozza FA, Bozza PT, Boechat N, Tanuri A, Souza TML. Yellow fever virus is susceptible to sofosbuvir both in vitro and in vivo. PLoS Negl Trop Dis. 2019 Jan 30;13(1):e0007072. doi: 10.1371/journal.pntd.0007072.

 

Ferreira AC, Reis PA, de Freitas CS, Sacramento CQ, Villas Bôas Hoelz L, Bastos MM, Mattos M, Rocha N, Gomes de Azevedo Quintanilha I, da Silva Gouveia Pedrosa C, Rocha Quintino Souza L, Correia Loiola E, Trindade P, Rangel Vieira Y, Barbosa-Lima G, de Castro Faria Neto HC, Boechat N, Rehen SK, Brüning K, Bozza FA, Bozza PT, Souza TML. Beyond Members of the Flaviviridae Family, Sofosbuvir Also Inhibits Chikungunya Virus Replication. Antimicrob Agents Chemother. 2019 Jan 29;63(2). pii: e01389-18. doi: 10.1128/AAC.01389-18.

 

Ana C. Vicente, Francisca H. Guedes-da-Silva, Carlos H. Dumard, Vivian N. S. Ferreira, Igor P. S. da Costa, Ruana A. Machado, Fernanda G. Q. Barros-Aragão, Rômulo L. S. Neris, Júlio S. Dos-Santos, Iranaia Assunção-Miranda, Claudia P. Figueiredo, André A.Dias, Andre M. O. Gomes, Herbert L. de Matos Guedes, Andrea C. Oliveira, Jerson L.Silva Yellow Fever Vaccine Protects Resistant and Susceptible Mice Against Zika Virus Infection bioRxiv 587444; doi: https://doi.org/10.1101/587444

 

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Imunoterapia contra o câncer: O tratamento que vem de dentro

Todos acompanham ou já acompanharam o caso de alguém que foi diagnosticado com câncer. Infelizmente, muitos ainda acompanharão, mas, para os casos futuros, novas abordagens terapêuticas surgem como esperança.

A exemplo dos cientistas que ganharam o Prêmio Nobel de Medicina em 2018, pesquisadores têm procurado a cura que vem de dentro. Não, não é nada místico, é ciência mesmo!

Alguma vez você já se perguntou por que o corpo não consegue combater as células cancerosa? Comecemos do início. O sistema responsável pela defesa do nosso organismo, seja contra câncer, infecções ou até mesmo traumas físicos, é o sistema imune. Vários tipos de células compõem esse sistema e a maior parte delas pode ser visualizada no sangue. Quando fazemos hemogramas completos elas aparecem como série branca, ou leucograma. O mais interessante do sistema imune é o autocontrole, ou check point, que regula o quanto este sistema vai se ativar diante de uma ameaça ao organismo. Imagine que as células do sistema imune são armadas com bombinhas e granadas. Dependendo da ameaça ao organismo, a célula lança a bombinha ou a granada. O check point serve para as células não lançarem só granadas quando poderiam resolver o problema com as bombinhas.

O autocontrole são moléculas que estão na superfície dos linfócitos T (células que “lançam as bombas”) e recebem o sinal de moléculas presentes na superfície de outras células, que avisam ao linfócito que está acontecendo um (células apresentadoras de antígeno, ou APC*). Na figura abaixo, dois tipos de check points são mostrados em amarelo: o CTLA-4 e o PD-1. As moléculas em azul representam as que estimulam a ativação do linfócito, mas tem seu efeito inibido, pois as moléculas de autocontrole também estão ligadas. Assim, a ativação do linfócito não é suficiente para matar as célula cancerosa.

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Os quadros acima mostram as moléculas CTLA-4 e PD-1 em amarelo se ligando a outras moléculas e, assim, controlando a ativação do sistema imune e impedindo a morte das células cancerosas. APC do inglês – antigen presenting cells. Figura adaptada do site https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2018/press-release/ acessado em 11 de novembro de 2018)

Baseados nesse sistema, os pesquisadores James Allison da Universidade do Texas, e Tasuku Honjo, da Universidade de Kioto, tiveram uma ideia: e se fosse possível desligar o autocontrole durante o câncer e permitir que o sistema imune ativasse a “granada”? Baseados nessa premissa, eles começaram os estudos do que chamaram de imunoterapia e verificaram que pessoas com câncer tratadas com anticorpos que bloqueiam o autocontrole conseguiam controlar a doença e, em muitos casos, alcançavam a cura. A imunoterapia já foi eficaz em tratar câncer de pulmão, renal, linfoma e melanoma. Apesar de bastante promissor, como todo tratamento, os autores também observaram efeitos adversos relacionados a super ativação do sistema imune, como reações autoimunes, por exemplo.

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A figura mostra que o tratamento com anticorpos (representado pelos Y verde) inibem a ligação das moléculas de autocontrole, e, assim, as moléculas representadas em azul podem atuar livremente fazendo com que as células do sistema imune possam atacar as células cancerígenas. Figura adaptada do site https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2018/press-release/ acessado em 11 de novembro de 2018.

Hoje em dia esses estudos ganharam desdobramentos que estão ajudando a aperfeiçoar o tratamento. Uma abordagem é juntar a inibição de mais de um tipo de autocontrole no mesmo tratamento (por exemplo, inibir o CTLA-4 e o PD-1 ao mesmo tempo). Outra abordagem é induzir a atividade anti-inflamatória das células do sistema imune. Parece contraditório, mas é um sistema finamente regulado. Os autores notaram que se eles pudessem “desligar” algumas vias de ativação e só deixassem ligadas as vias responsáveis pela morte das células ccancerosas, os danos ao organismo seriam menor. É algo como direcionar para onde a granada vai explodir.

Apesar da imunoterapia já ser uma realidade em muitos países, ela ainda não está amplamente disponível no mercado. Até 2016 só havia um medicamento imunoterápico registrado no Brasil, mesmo assim não estava disponível no SUS. Aguardemos, com esperança, a disponibilização destas terapias e, quem sabe, já com essas melhorias que vêm sendo estudadas.

Referências

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Se é proibido, é porque faz mal. Ou não?

Substâncias ilícitas são aquelas que tem uso e/ou comercialização proibida por lei, como é o caso da Cannabis sativa (maconha). Segundo historiadores, a proibição do uso da maconha no Brasil está baseada em fatores políticos e econômicos próprios da época em que a lei foi sancionada e não tem relação com a possibilidade de fazer mal ao ser humano (para saber mais sobre a história da proibição, vide referências abaixo). Independente das questões éticas, jurídicas e morais, o fato é que substâncias psicoativas ou não presentes na Cannabis sativa alteram o funcionamento do corpo e isso não é necessariamente ruim.

Toda substância consumida por nós (remédios, álcool, suplementos, etc) modifica o funcionamento do nosso organismo, até mesmo a alimentação, como já foi falado aqui antes. Isso acontece porque elas atuam em vias metabólicas que já existem no corpo. Com as substâncias presentes na Cannabis não é diferente, e foi a partir deste pressuposto que cientistas do mundo todo vêm caracterizando o Sistema Endocanabinóide (ou ECS do inglês “endocannabinoid system”), e desvendando como e porque a Cannabis sativa altera o nosso metabolismo. Recentemente o pesquisador Vicenzo Di Marzo que atua tanto na Universidade Laval do Canadá quanto no Instituto de Bioquímica Molecular na Itália, debateu como usar as vias metabólicas que envolvem o ECS, para a promoção da saúde.

O ECS é composto de pelo menos duas substâncias produzidas dentro do corpo, a aracdoniletanolamida (AEA) e o 2-aracdonil-glicerol (2-AG), que exercem suas atividades ao se ligar a, pelo menos, dois tipos de receptores: CB1 ou CB2. Outros receptores já foram descritos como participantes do ECS, como o GPR18, GPR119, GPR55, GPR110 e TRPV1, mas estes ainda não têm o mecanismo de ação e localização bem estabelecidos. Esse sistema em equilíbrio com os outros sistemas do corpo atuam controlando respostas inflamatórias, equilíbrio emocional, a microbiota do intestino e até ajuda no combate a infecções. Essa variedade de efeitos acontece devido a presença desse sistema em praticamente todos os tecidos no corpo.

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Diante de toda variedade de efeitos, Dr Marzo aborda estudos que exploram todo o potencial de ação do Sistema. Para isso, o autor divide o tema em duas partes: medicamentos derivados de plantas que têm substâncias que se ligam aos receptores CB1 e/ou CB2 – os fitocanabinóides, e os canabinóides sintéticos – fabricados em laboratório para se ligar aos receptores apropriados ou modular a produção dos endocanabinóides.

Os fitocanabinóides, os primeiros da classe a serem descritos, são os mais profundamente estudados. Apesar de a maior parte dos estudos ser voltada para o canabidiol e o THC, ambos derivados da Cannabis sativa, outros fitocanabinóides como o beta-cariofileno também são encontrados em plantas como as pitangueiras, cravo-da-índia, alecrim e outras plantas aromáticas. Aqui no blog já falamos sobre o efeito benéfico do canabidiol para o tratamento da Doença de Parkinson antes, mas Dr Marzo chama a atenção para outros efeitos como o uso de desta classe de substâncias para o tratamento da náusea em pacientes de câncer, para dores consequentes da esclerose múltipla ou artrite, e para a melhora da síndrome metabólica. Apesar de amplamente estudadas, existem algumas limitações para uso deste tipo de substância. Como elas devem ser extraídas das plantas, sua obtenção pode ser cara, trabalhosa e não garante a pureza do produto final. No caso de o medicamento ser em forma de extrato, têm-se observado que as várias substâncias presentes no fitomedicamento podem interferir uma no efeito da outra e, dessa forma, reduzir o resultado esperado.

Uma das formas de resolver os problemas dos fitocanabinóides foi a síntese de canabinóides em laboratório. No que tange os sintéticos, estes foram especialmente desenhados por cientistas para encaixar perfeitamente nos receptores CB1 ou CB2 e, assim, desencadear os efeitos benéficos do ECS. Neste sentido alguns sintéticos já têm sido testados para uso em neuroinflamações, esclerose múltipla, náusea em pacientes de câncer, lúpus eritematosos, esteatose hepática e dermatites. Dr Marzo destaca que até medicamentos que não foram desenhados para atuar no ECS, também atuam nele, como por exemplo a dipirona e o paracetamol que tem seu efeito analgésico associado a ativação dos receptores CB1.  Mesmo com tantos efeitos benéficos para o tratamento de várias doenças, algumas limitações também rondam a liberação segura destes medicamentos para o mercado. Grande parte destas substâncias atuam nos receptores CB1 que estão presentes em grandes quantidades no cérebro e regulam muito fortemente fatores relacionados ao comportamento e podem causar quadros de depressão ou ansiedade.

Se tudo que está descrito aí em cima é prova de eficácia dos canabinóides, isso significa que o consumo pode ser benéfico para a saúde? Sim, mas, como tudo que consumimos, temos que estar atentos a alguns detalhes: controle de qualidade da matéria prima utilizada e do sistema de extração dos fitocanabinóides, padronização dos extratos indicando quais os componentes e em que concentração eles se encontram nos extratos, testes de segurança para saber os efeitos adversos, controle qualitativo e quantitativo de impurezas presente nos extratos, autorização de produção e comercialização pelas agências reguladoras. Depois de aprofundados nossos conhecimentos, estaremos empoderados como sociedade para discutir a descriminalização e a legalização dos canabinóides.

Referências

https://www.nature.com/articles/nrd.2018.115.pdf

http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/viewFile/3953/2742

http://lehda.fflch.usp.br/sites/lehda.fflch.usp.br/files/upload/paginas/2014.%20TORCATO.%20uma%20historia%20da%20proibicao%20das%20drogas.pdf

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O vácuo: a falta de representatividade étnica nos resultados de estudos científicos em saúde.

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Calma, hoje é dia da coluna de saúde mesmo! Pedimos licença às colegas das exatas para usar “vácuo” como analogia à falta de resultados científicos que mostrem a importância de se estudar as respostas biológicas das diferentes etnias. Nós já falamos sobre isso por aqui antes especialmente quando tratamos junto a questão do gênero. Um estudo recente realizado por uma rede de instituições de saúde de países como Estados Unidos, Porto Rico, México e Espanha mostrou como a etnia influencia no desenvolvimento e tratamento da asma.

A asma é uma doença crônica comum em crianças, que tem como característica básica a contração dos músculos das vias aéreas, diminuindo drasticamente a passagem do ar para os pulmões (Figura 1). O tratamento é relativamente simples uma vez que substâncias que dilatam as vias, ou seja, broncodilatadores como o salbutamol, são utilizados no momento da crise.

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Estudos anteriores já tinham identificado que, considerando as diferentes etnias presentes nos Estados Unidos, a maior parte das crianças que desenvolvem asma são de origem porto-riquenha (quase 40%). Crianças de origem africana e europeia tem incidência semelhante (12%) e, em menor proporção, estão as crianças mexicanas (7%). No entanto, o estudo mais recente liderado por Esteban Burchard, da Universidade da Califórnia, e realizado por outros 50 autores de 40 instituições de pesquisa, mostrou que não só a forma que a asma se apresenta, mas a resposta ao medicamento salbutamol também é diferente entre as etnias. A figura abaixo mostra como cada etnia estudada – porto-riquenhos*, mexicanos e afrodescendentes – responde ao medicamento. O gráfico mostra os resultados dos exames de função pulmonar (medição do volume de ar exalado no primeiro segundo de teste) após a administração do salbutamol. Os resultados considerados normais são mostrados em cinza, os resultados que representam a alta resposta ao medicamento é mostrada em vermelho, e a baixa resposta ao medicamento é mostrada em azul. Como pode ser claramente visto, as curvas de avaliação da função pulmonar mostram que cada população reage de uma forma diferente após a administração da mesma dose do medicamento. Isso sugere que a quantidade de medicamento que leva a melhora da população porto-riquenha pode ser muito alta para os afrodescendentes. Note que enquanto as populações porto-riquenhas estão respondendo ao medicamento de forma intermediária, as populações mexicanas e afrodescendentes estão respondendo fortemente, o que pode aumentar a possibilidade de efeitos colaterais.

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Que cada pessoa pode responder de formas diferentes a um mesmo medicamento não é novidade. Mas quando a diferença envolve populações inteiras e de características genéticas definidas, isso ajuda a entender as bases genômicas que justifiquem a diferença de resposta ao medicamento. Já existe um ramo da área de farmácia que estuda esse assunto chamado farmacogenômica. Esta cadeira estuda o efeito de um medicamento administrado em determinada pessoa com características genéticas próprias. Por exemplo, pessoas que tem variação genética, a ponto de produzirem enzimas do fígado que não funcionam bem, podem responder de forma diferente a medicamentos como anticoagulantes ou antidepressivos, quando comparado a pessoas que não tem essa variação. O que esse recente estudo mostra é que ao se estudar características genéticas de grupos étnicos pode-se melhorar o atendimento médico a essas pessoas e prover a elas o tratamento mais adequado e com menos efeitos colaterais.

 

No entanto, outros parâmetros devem ser levados em consideração. Não é à toa que existam poucos trabalhos que estudem as implicações terapêuticas das diferenças genéticas de populações. Isso é um reflexo de como a sociedade se comporta diante de diferentes raças, como já falamos por aqui antes. Nos atenhamos aos grupos avaliados no estudo. A marginalização da comunidade de mexicanos e afrodescendentes nos Estados Unidos os submete a condições de saúde mais precárias: alimentação pouco saudável, alto consumo de substância ilícitas, ambientes mais poluídos, acesso restrito a centros de saúde. Essa combinação de fatores pode dificultar o estudo da influência da genética das populações no efeito de medicamentos. Esse estudo mostra mais do que a falta de representatividade nos dados científicos, mostra como a desigualdade social dificulta o fazer ciência.

*Os porto-riquenhos não foram classificados como latinos devido a sua cultura e por seu meio ambiente insulano separado.  

  

Referências:

http://www.revistas.usp.br/rmrp/article/view/402/403

http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/01/29/farmacogenetica-torna-possivel-aplicar-terapias-individualizadas/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23750510

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29509491

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26734713

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“É claro que a vida é boa…Mas acontece que eu sou triste* ”: Como nosso corpo funciona durante a depressão.

Todo mundo já teve ou conhece alguém que teve uma experiência com ela: a depressão. Esse mal que pode atingir qualquer um, sem aviso nem piedade, já acomete mais de 300 milhões de pessoas e mata 800 mil pessoas por ano no mundo todo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que em Portugal, por exemplo, na ocasião da maior crise político-econômica do país, em 2011, o número de casos de depressão disparou (1). Alguns especialistas acreditam que a atual crise brasileira possa, num futuro próximo, causar um aumento expressivo dos números dos casos desta doença aqui no Brasil (2).

O diagnóstico da depressão está sempre envolto pela nevoa da doença mental e esse é um dos principais motivos da falha do tratamento: o paciente quer um remédio, mas não quer fazer a psicoterapia. Mas o quão eficazes são os antidepressivos? Como uma doença que não se mede por exames de sangue ou de imagem pode ser tratada farmacologicamente? Antes de falarmos como a doença é controlada, vamos voltar um pouco e comparar como funciona o corpo de uma pessoa saudável com uma com depressão.

Recentemente falamos aqui no blog sobre como a microbiota intestinal interfere no comportamento das pessoas. Um dos fatores que controla essa relação é a serotonina. Esta pequena notável é um neurotransmissor, ou seja, uma substância que atua no cérebro regulando funções como ciclo sono-vigília, humor, memória, entre outras atividades. Apesar de ser essencial no cérebro, 95% de sua produção acontece no intestino, daí a relação microbiota e comportamento. Depois de sua produção no intestino, a serotonina entra na corrente sanguínea e circula até alcançar receptores na membrana do neurônio onde ela, juntamente com a noradrenalina, pode desempenhar suas funções. Caso exista serotonina não utilizada pelos neurônios, ela é recaptada por moléculas transportadoras e degradadas para posterior eliminação. Quando esse sistema funciona, temos uma pessoa saudável.

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No entanto, fatores genéticos, biológicos e/ou psicossociais podem desregular esse sistema e levar a quadros de alteração comportamental, incluindo a depressão (4). Ora, se a falha pode acontecer em vários lugares (ao mesmo tempo ou não) e os médicos não sabem onde é o defeito, como os antidepressivos funcionam?

Pois é, antidepressivo não é um assunto trivial. Imagine todas as questões éticas envolvidas em testar um medicamento para uma doença que pode levar a morte. A primeira geração de antidepressivos foi identificada por acaso na década de 1950 quando médicos observaram que alguns anti-histamínicos causavam alterações de humor. Com o aumento do conhecimento do sistema serotoninérgico, a segunda geração foi especialmente sintetizada para “encaixar” nas moléculas recaptadoras e inibi-las, deixando a serotonina disponível para atuar nos neurônios (inibidores de recaptação de serotonina, ou SSRI, do inglês “selective serotonin reuptake inhibitors”)(3). Entretanto, apesar de amplamente utilizados, não existe um consenso na comunidade médica sobre a eficácia dos antidepressivos. Entre as várias razões para o descrédito dessa classe de medicamento está a condução de estudos com poucos pacientes, somente um ou dois medicamentos são comparados por vez, e existe um alto índice de abandono do tratamento já que antidepressivos demoram a fazer efeito.

Para tentar esclarecer se os antidepressivos são, afinal de contas, eficazes, vários grupos de pesquisadores de diversas universidades da Europa, Estados Unidos e Japão, lançaram mão de uma ferramenta simples, mas muito eficaz. Os autores, ao invés de submeter pacientes a testes, revisitaram toda a literatura médico-científica que fala sobre o tratamento com os 21 antidepressivos mais utilizados. Os autores identificaram quase 30 mil publicações sobre o assunto e puderam comparar os dados de pouco mais de 87 mil pacientes. Caso esses mesmos pesquisadores tivessem feito os estudos de eficácia, nunca teriam tantos pacientes! A partir das análises desses dados, os autores verificaram que todos os antidepressivos eram mais eficazes quando comparados com o grupo placebo. No entanto, 5 antidepressivos se destacaram pois eram os que tinham menor taxa de abandono de tratamento e maior eficácia quando comparado aos outros 16 estudados. Entre os 5 que se destacaram, havia 4 de segunda geração e 1 de terceira geração (que inibe a recaptação da serotonina e de noradrenalina). Além disso, eles observaram que fatores como a idade influenciam na eficácia do medicamento: medicamentos eficazes em adultos não reproduziam o mesmo efeito em crianças e adolescentes.

Esse estudo traz segurança à comunidade médica na hora do atendimento ao paciente, mas a depressão deve ser encarada de forma mais ampla. A própria OMS preparou um plano de ação até 2020 onde recomenda acolhimento dos doentes, mas, principalmente, preza pela prevenção. Realização de atividades físicas regularmente, investimento em autoconhecimento e inserção de práticas diárias que tragam bem estar são exercícios que não só previnem o aparecimento da depressão como devem ser usados junto do tratamento com antidepressivo. E como fala um dos vídeos educativos da OMS, “não tenha vergonha de pedir ajuda, tenha vergonha de não aproveitar a vida”.

http://www.who.int/mental_health/management/depression/en/

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Malária: novas complicações para velhos problemas

Quando a gente vê um mapa mundi, percebe a extensão continental do Brasil e entende a diversidade sociocultural do país. O que nós não vemos é a diversidade de doenças que pode variar de acordo com a geografia da região e/ou questões socioculturais. A malária, por exemplo, é uma doença que, até o meio do século passado, estava presente em grande parte do território brasileiro. Com a introdução do inseticida DDT nos anos 50, a quantidade de mosquitos transmissores da malária foi reduzida, eliminando assim, a malária na região sudeste.  

A malária é uma doença causada pelo parasita sanguíneo do gênero Plasmodium. No Brasil, existem quatro espécies de Plasmodium que podem causar malária: P. falciparum, P. malariae, P. ovale e P. vivax, mas somente esse último tem importância epidemiológica pois é responsável por mais de 80% dos casos registrados em 2015.vivax

Outras espécies de Plasmodium causam malária em animais, mas a malária humana não é considerada uma zoonose, pois a grande maioria dos casos é derivada da transmissão humano-humano e não animais-humanos. No Brasil, em 1966, foi descrito uma possível infecção de Plasmodium simium, caracterizando a transmissão de macacos para humanos. No entanto, a falta de recursos técnicos da época não permitiu que fosse confirmado que se tratava de infecção por P. simium de forma que, até o momento, não havia registro oficial de malária zoonótica no Brasil. Ainda não existe vacina para evitar a malária (algumas pessoas confundem a vacina anti-amarílica – contra febre amarela – com a vacina anti-malárica), fazendo da prevenção à picada do mosquito Anopheles, também conhecido como mosquito-prego, a melhor forma de proteção. Apesar da alta incidência da doença no Brasil, a taxa de mortalidade é baixa, tanto porque o P. vivax causa um tipo de malária mais branda, quanto porque o tratamento é eficaz. Considerando a área de prevalência, a malária está presente principalmente na região Norte e atinge cerca de 140 mil pessoas por ano (o impacto econômico da malária já foi abordado por aqui antes). No entanto, nos últimos anos, tem-se observado uma mudança no perfil regional de ocorrência de casos.

Mapa_malaria 11_outubro

Apesar de ainda baixo, o aumento do número de casos registrados no Rio de Janeiro deixou em alerta pesquisadores e agentes de saúde. No entanto, não foi só o aumento de números de casos que assustou os pesquisadores, mas sim o tipo de Plasmodium que causou o tipo de malária que tem sido registrada na região. Os pesquisadores observaram que os casos de malária identificados no Rio de Janeiro foram causados pelo parasita Plasmodium simium, ou seja, pela primeira vez no Brasil, foram identificados casos de malária a partir da transmissão de macacos para humanos.

Algumas hipóteses foram levantadas para o aparecimento destes casos. Uma das questões levantadas foi o aumento do ecoturismo na região de Mata Atlântica numa época de seca. Isso pode ter feito com que os macacos ficassem mais próximos a regiões de rios e cachoeiras, o que os aproximou de seres humanos. Além dos macacos, pode ter havido alteração na biologia dos mosquitos transmissores da malária, que tiveram mais facilidade em acessar humanos e macacos em uma mesma região. Mas tudo isso significa que não é seguro fazer ecoturismo, que devemos eliminar macacos ou acabar com toda a Mata Atlântica? Claro que não! Se durante mais de 6 décadas mantivemos os baixos níveis de transmissão da malária no Rio de Janeiro, provavelmente a intromissão do homem em área de mata, através de desmatamentos e queimadas, resulta no desequilíbrio ambiental (veja aqui outras consequências do desequilíbrio ambiental na saúde pública). De fato, alguns autores também atribuem o surto da febre amarela de 2017 ao desequilíbrio ambiental da região sudeste. A solução do problema da transmissão da malária no sudeste parece ser simples e perpassa outros problemas de saúde além de sociais e econômicos: a preservação do meio ambiente.  

Brasil P, Zalis MG e colaboradores. Outbreak of human malaria caused by Plasmodium simium in the Atlantic Forest in Rio de Janeiro: a molecular epidemiological investigation. Lancet Glob Health. 2017 Oct;5(10):e1038-e1046.

Zoonoses são doenças que podem ser naturalmente transmitidas de animais para o ser humano, como a raiva e a leptospirose.