0

O que são as BPF ou GMP?

Quer trabalhar ou tem uma entrevista de emprego em uma indústria farmacêutica? Não seja pega de surpresa! Entenda o que são as BPF ou GMP, e quais são as principais diferenças em relação ao trabalho dentro de um laboratório de pesquisa acadêmica.

Quando uma pesquisadora da área acadêmica ou alguém que acabou de terminar a graduação aplica para uma vaga de emprego em uma indústria farmacêutica, de hemoderivados e tecidos humanos ou em um hospital, geralmente, encontram a barreira de não ter experiência de trabalho com as GMP/BPF (Good Manufacturing Practices ou, em português, Boas Práticas de Fabricação). Neste artigo, vamos entender um pouco melhor o que são essas práticas, o porquê de elas existirem e onde podemos nos informar sobre elas.

Em geral, estamos acostumadas com os laboratórios de pesquisa acadêmica (ex. pesquisa básica e/ou in vitro), no qual temos um caderno onde descrevemos nossos experimentos, os materiais utilizados, os métodos e os resultados. Quando publicamos em uma revista científica, por exemplo, o importante é que os materiais e métodos estejam claros e os resultados sejam reprodutíveis, pois caso outra pessoa repita os métodos descritos no artigo científico, ela conseguirá resultados similares. Nesta situação, não existe a necessidade de auditoria ou inspeção no laboratório para verificar se os equipamentos ou reagentes estão dentro da validade, se a documentação dos experimentos está correta ou se a pessoa que realizou o experimento foi devidamente treinada para o teste realizado, como ocorreria em um laboratório dentro de uma indústria farmacêutica.

A diferença é que a indústria farmacêutica produz medicamentos, que serão comercializados e utilizados pela população. Por isso, estes medicamentos devem ser eficientes e seguros para não colocar a vida dos pacientes em risco. Para atingir esta excelência de qualidade, desenvolveram-se as Boas Práticas de Fabricação (BPF). As BPF são princípios e procedimentos que devem estar presentes em todas as fases do processo de fabricação, começando pela matéria-prima e indo até o produto final. Com isto, os testes são validados, as documentações definidas e arquivadas, inspeções e auditorias são realizadas com frequência, e os profissionais são treinados para garantir a qualidade do produto que chega ao paciente.

E por que o cumprimento das BPF é tão importante para a indústria?

De acordo com as normas da OMS (Organização Mundial de Saúde)[1], é obrigação do fabricante assegurar a eficácia do produto farmacêutico e assumir a responsabilidade pela sua qualidade, cumprindo com os requerimentos de segurança de forma a não expor os pacientes a riscos. Com isto, as BPF dão sustentação ao processo de fabricação, lembrando que a baixa qualidade da produção de medicamentos pode custar vidas, dinheiro e a reputação de uma empresa. Por isso, essas normas são tão destacadas quando fazemos uma entrevista de emprego ou quando já trabalhamos em uma indústria farmacêutica.

Para finalizar, deixo um vídeo-aula detalhado sobre as BPF, realizado pelo farmacêutico Marcio Guidoni:  https://www.youtube.com/watch?v=Pna2Jc81i9g

Outras informações podem ser encontradas nos links disponíveis nas referências abaixo.

Texto por Aline Ramos da Silva.

Referências:

[1] http://www.who.int/medicines/areas/quality_safety/quality_assurance/TRS986annex2.pdf?ua=1

https://www.tga.gov.au/good-manufacturing-practice-overview

https://www.pda.org/docs/default-source/website-document-library/chapters/presentations/southeast/glp-vs-gmp-vs-gcp.pdf?sfvrsn=6

http://www.who.int/medicines/areas/quality_safety/quality_assurance/gmp/en/

https://www.canada.ca/en/health-canada/services/drugs-health-products/compliance-enforcement/good-manufacturing-practices/guidance-documents/good-manufacturing-practices-4.2.2 Good Manufacturing Practices (GMP) for Drugsguidelines-2009-edition-version-2-0001.html

Anúncios
0

Plástico: mocinho ou vilão?

O plástico é um material impermeável e resistente, versátil (maleável ou rígido) e por isso sua aplicação em diversos produtos. O plástico pode ser utilizado como embalagem, na construção civil, em produtos automotivos e aeronáuticos, em eletroeletrônicos, na agricultura, em produtos médico-hospitalares, em brinquedos, entre outros.[1] Neste sentido, ele é o ‘mocinho’ da história por ser um material amplamente utilizado e, até então, insubstituível.

A principal matéria prima do plástico ainda é o petróleo, um recurso natural fóssil, não-renovável e de quantidade limitada no planeta.[2]  Além disto, o plástico pode demorar mais de 400 anos para se decompor na natureza.[3] Atualmente, em torno de 300 milhões de toneladas de plástico são produzidas todo ano e estima-se que 270 mil toneladas estão flutuando nos oceanos.[4,5]

 (Pixabay, CC0 Public Domain)

A situação do acúmulo de resíduos de plástico nos mares e oceanos é inaceitável, pois além de ameaçar o ecossistema marinho, reduz a quantidade de alimento disponível, impacta a economia mundial e ainda desperdiça um material valioso. O resíduo plástico no ambiente marinho é um desafio global a ser vencido, pois é causado pela atividade humana. E aí vem a pergunta: o plástico é o vilão ou o nosso comportamento? Utilizamos uma quantidade absurda de embalagens e produtos descartáveis e, na maioria das vezes, não damos a destinação correta ao resíduo/lixo plástico, tanto por falta de informação quanto pela escassez de infraestrutura e tratamento de resíduos.[1]

Na Europa, onde o tratamento de resíduos plásticos é um dos melhores do mundo, a taxa anual de reciclagem é de 29,7%, a taxa de recuperação de energia pela queima do plástico é de 39,5%, porém, a taxa de aterro sanitário ainda é alta, de 30,8%.[1] Se considerarmos os outros continentes, temos uma situação ainda mais alarmante. As pesquisas atuais preveem que até 2050 haverá um volume maior de plástico do que de peixes nos oceanos. Por isto, uma gestão adequada dos resíduos de plástico é fundamental.[6]

Para solucionar os problemas relacionados a este tipo de resíduo, precisamos dar prioridade à educação e informação da população, às pesquisas científicas, às políticas públicas (como a Política Nacional de Resíduos Sólidos do Ministério do Meio Ambiente [3]), à reciclagem, recuperação e redução do consumo do plástico, além da contenção no uso de partículas plásticas presentes em cosméticos e produtos de higiene pessoal.

Avanços científicos nas áreas de biotecnologia, engenharia química e de materiais, ajudaram a desenvolver plásticos sustentáveis, os chamados plásticos biodegradáveis e bioplásticos. Os biodegradáveis são produzidos por recursos fósseis, mas com uma tecnologia que permite uma decomposição mais rápida. Os bioplásticos são produzidos exclusivamente com matérias primas orgânicas (como amido de milho ou de batata, cana de açúcar, beterraba) ou materiais renováveis (óleo vegetal e até água de esgoto). Em ambos os casos, a vantagem dos plásticos sustentáveis é de degradarem-se mais rapidamente, uma vez que são consumidos por microrganismos do meio ambiente[7,8] Pesquisas com insetos (como a traça da cera) que consomem plástico[9] e até mesmo produção de biopolímeros (com características de plástico) estão sendo desenvolvidas[10].

Algumas das muitas iniciativas que estão envolvidas na redução do problema do lixo são, por exemplo:

  • Projeto Pimp my carroça[9], uma cooperativa de reciclagem que conta com mais de 700 catadores de materiais recicláveis, quase 2000 mil voluntários, estando presente em 8 países, incluindo o Brasil;
  • Projeto Route[10], com sede em Florianópolis e fundado por surfistas, realiza coletas de resíduos de plástico em praias do Brasil;
  • The Ocean Cleanup Project[11], com sede em Delft (Holanda), que estuda a possibilidade de limpar os oceanos retirando até 50% dos resíduos plásticos em um período de 5 anos.

Por fim, o que define se o plástico é mocinho ou vilão é a forma como o utilizamos, e como destinamos e tratamos os resíduos formados após o seu uso. O importante é que nesta luta pela saúde do planeta, todos nós somos responsáveis e devemos contribuir!

Texto por: Aline R.S.

 

Referências:

[1]http://www.plasticseurope.org/Document/plastics—the-facts-2016-15787.aspx?Page=DOCUMENT&FolID=2

[2]http://www.usinaciencia.ufal.br/multimidia/livros-digitais-cadernos-tematicos/Plasticos_caracteristicas_usos_producao_e_impactos_ambientais.pdf

http://www.recicloteca.org.br/material-reciclavel/plastico/

[3]http://www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/producao-e-consumo-sustentavel/consumo-consciente-de-embalagem/impacto-das-embalagens-no-meio-ambiente

[4] http://www.worldwatch.org/global-plastic-production-rises-recycling-lags-0

[5]http://www.dailymail.co.uk/wires/ap/article-2869195/Study-270-000-tons-plastic-floating-oceans.html

[6]https://www.theguardian.com/business/2016/jan/19/more-plastic-than-fish-in-the-sea-by-2050-warns-ellen-macarthur

[7] http://www.sustainableplastics.net/about

[8] http://www.explainthatstuff.com/bioplastics.html

[9] http://www.sciencemag.org/news/2017/04/could-caterpillar-help-solve-world-s-plastic-bag-problem

& http://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(17)30231-2

[10]https://www.insidescience.org/news/study-finds-wastewater-treatment-plants-important-source-plastic-pollution-rivers

& http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1871678416324268

[11]http://pimpmycarroca.com/

[12]http://projetoroute.com.br/

[13]https://www.theoceancleanup.com/

0

Marchar pela Ciência: sem perceber, vivemos dela todos os dias!

Se hoje você acordou quando seu despertador tocou, acendeu a luz do quarto, foi ao banheiro e deu descarga, a água saiu limpa da torneira (‘bendito’ tratamento de água!), tomou um paracetamol (ou aspirina ou outro remédio), pegou seu smartphone e deu uma olhada nas redes sociais, gostaria de te dizer que: todas essas ações só foram possíveis após pesquisas científicas. Se você olhar para cada eletrodoméstico da sua casa, se contar cada remédio ou vacina que já tomou – e por isso está viva(o) – vai entender porque lutar pela ciência é tão importante.

Para quem não é cientista, parece que a ciência é uma coisa inatingível, que aparece somente em filmes, mas a verdade é que ela está no nosso dia a dia e nós nem sempre nos damos conta. A ciência é o que move o desenvolvimento de tecnologias, o que nos faz viver mais e com mais qualidade de vida, porém estamos ameaçados pelas posturas que alguns governos estão tomando em relação a este assunto.[1]

Infelizmente, temos vivenciado cortes financeiros em ciência e tecnologia que atingem os Estados Unidos[2] e, principalmente, o Brasil. Somente neste ano, a ciência do Brasil sofreu uma redução de 44% do seu orçamento – uma perda de 2,2 bilhões de reais – o que configura o menor orçamento recebido nos últimos 12 anos (Figura 1). A notícia é tão assombrosa que foi parar na Nature, uma das mais antigas e respeitadas revistas científicas do mundo.[3,4]

Alguns dos nossos dedicados cientistas deram o seu recado em relação a esta situação. A Pesquisadora Dra. Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), escreveu cartas ao presidente em exercício, Michel Temer, e ao Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, advertindo sobre o impacto negativo que esses cortes ocasionarão na ciência e tecnologia brasileiras. O físico Dr. Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, e o pesquisador Dr. Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, também destacaram o grande prejuízo que esses cortes causarão no desenvolvimento do Brasil.[3,4]

MCTIC2-budget

Figura 1. Cortes drásticos no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC). (Crédito da imagem: Nature) [3]

Por razão do desmantelamento da ciência brasileira e mundial, esta semana (22 a 29 de abril) é especial para todos nós. No dia 22 de abril, tivemos a Marcha pela Ciência, motivada principalmente pelos cortes de orçamento propostos à ciência dos Estados Unidos e anunciados em março pelo governo Trump. A comunidade científica mundial saiu às ruas para protestar contra os cortes de orçamento e demonstrar a importância da ciência no desenvolvimento, bem estar e saúde do planeta.

De acordo com o site Vox[7], dezenas de milhares de pessoas marcharam pela ciência em mais de 6 continentes e 600 cidades. No Brasil, a comunidade também mandou o seu recado e marchou em 23 cidades. Nossas colaboradoras do Cientistas Feministas participaram da Marcha pela Ciência e contam o que viram.

 San Diego, California, EUA (por @carmensandiego )

O descaso do presidente Trump em relação à existência do efeito estufa foi um dos grandes motivadores para muitos participantes da Marcha pela Ciência que ocorreu no dia da Terra (22 de abril). San Diego abriga diversas pequenas empresas de biotecnologia, grandes indústrias farmacêuticas, universidades e institutos de pesquisas e dessa forma, há inúmeros cientistas. Muitos destes aderiram à marcha juntamente com familiares e pessoas que dão suporte à ciência e tecnologia. Estima-se que 15.000 pessoas participaram da Marcha pela Ciência em San Diego [9]. Os temas mais comuns abordados pelas faixas e pôsteres foram as inovações e descobertas realizadas por cientistas. Dois temas apresentados foram o advento das vacinas e questão preocupante do efeito estufa, fato que pode causar grandes impactos no clima da Terra.

Figura 2. Imagens da Marcha pela Ciência em San Diego, EUA. Na foto da esquerda, um casal nos alerta que “nós temos apenas uma casa” (o planeta Terra) e, na foto da direita, um cachorro saudável agradece a ciência e nos avisa que foi vacinado. (Fotos: @carmensandiego)

Curitiba, Paraná, Brasil (por Bárbara Camargo)

Em Curitiba, a convocação para a marcha pela ciência foi um pouco tardia, mas reuniu cerca de 120 pessoas na praça Santos Andrade, sendo em sua maioria professores e pós-graduandos das Universidades Federal do Paraná (UFPR) e Tecnológica (UTFPR). Por causa dos cortes de verbas, cientistas temem que projetos de pesquisas e institutos sejam fechados e diversos bolsistas de pesquisa possam ter suas bolsas cortadas. Em vista disso, vários pesquisadores discursaram sobre as dificuldades em fazer ciência no Brasil, muitos relataram situações onde tiveram que tirar do próprio bolso a verba para dar continuidade às pesquisas científicas. Notou-se a baixa participação da comunidade e dos alunos da graduação, inferindo que muitos desses não compreendem como a população será afetada diretamente com o baixo investimento em ciência e tecnologia. Traçou-se assim uma meta: divulgar e debater sobre a importância da pesquisa científica em nosso país com toda a população!

18058197_1685399018142384_6393636574541727387_n.jpg

Figura 3. Marcha pela Ciência em Curitiba, Paraná, Brasil. Foto: Rudá Pereira.

São Paulo, SP, Brasil (por Bruna)

Em São Paulo, algumas centenas de pessoas, em sua maioria pós-graduandas(os) e professores universitários, se reuniram debaixo de chuva no Largo da Batata, na zona Oeste de São Paulo. Além do enfoque político e de discursos de importantes cientistas brasileiros, a “marcha” (que se manteve no largo) contou também com uma feira de Ciências. Stands de diversos laboratórios e centros de pesquisa do estado buscaram aproximar o público da Ciência desenvolvida no Brasil, através da exposição de materiais produzidos, como bioplásticos, e de objetos de estudo (ex. animais fixados e réplicas de crânios de hominídeos). Os discursos de pesquisadores importantes como Helena Nader, Carlos Menck, Hernan Chaimovich, Walter Neves e Eleonora Trajano foram inspiradores e destacaram a gravidade da situação de descaso que a Ciência vem sofrendo no Brasil e no mundo, com diversos cortes de investimentos e até questionamentos sobre sua relevância. A ideia de que “Ciência não é gasto, é investimento” foi ponto comum em quase todas as falas, assim como a discussão sobre importância do papel do cientista como multiplicador e divulgador de ciência. Quando a população não reconhece a importância da ciência (e de nós, cientistas), lutamos sozinhos, e a sociedade caminha para o obscurantismo e para a fragilidade da democracia.

MfS 1

Figura 4. A Marcha pela Ciência em Amsterdã, Holanda, contou também com a presença de crianças segurando cartazes dizendo que “a ciência é o nosso futuro”. (Foto: Simon E. Fisher)

 

Especialmente durante esta semana, convido vocês a passar pelo site da “March for Science” onde outras ações colaborativas estão descritas para ajudar na divulgação e na conscientização da importância da ciência para a população mundial.

Referências:

[1] https://www.washingtonpost.com/opinions/the-war-on-science-doesnt-just-hurt-scientists-it-hurts-everyone/2017/04/21/dd243fe0-26ba-11e7-bb9d-8cd6118e1409_story.html?utm_term=.a3e9f85a0e59

[2] http://www.nature.com/news/us-science-agencies-face-deep-cuts-in-trump-budget-1.21652

[3] http://www.nature.com/news/brazilian-scientists-reeling-as-federal-funds-slashed-by-nearly-half-1.21766#/Drastic

[4] http://ciencianautas.com/cortes-na-ciencia-no-brasil-viram-assunto-na-revista-nature/

[5] https://www.marchforscience.com/blog

[6] http://www.sciencemag.org/news/2017/04/march-science-live-coverage?utm_source=newsfromscience&utm_medium=facebook-text&utm_campaign=marchliveblog-12588

[7] http://www.vox.com/2017/4/23/15395786/march-for-science-world

[8] http://veja.abril.com.br/ciencia/marcha-pela-ciencia-23-cidades-do-brasil-protestam-neste-sabado/

[9] http://www.sandiegouniontribune.com/news/environment/sd-me-science-march-20170422-story.html

2

Crise dos antibióticos e superbactérias: como nos proteger? – Parte 2

bacteria

Na primeira parte deste artigo[1], esclareci o porquê devemos aposentar os sabonetes com antibacterianos/antimicrobianos e aderir ao uso de sabonetes comuns. Neste artigo, falarei de atitudes ainda mais importantes para prevenir o surgimento de bactérias resistentes ou superbactérias.

1) Antibióticos matam bactérias, não vírus[2,3]

Esta é a primeira coisa que devemos ter em mente. Os antibióticos matam bactérias por estas serem microrganismos vivos, mas não matam os vírus. Fora do nosso corpo, os vírus são seres sem vida. Eles são agentes infecciosos formados de material genético (DNA ou RNA) dentro de uma cápsula protetora e só entram em ação quando invadem a célula de um hospedeiro (ser humano ou outro ser vivo que abriga um organismo vivo dentro de si).

Portanto, se você estiver infectado por um vírus e tomar antibiótico, sua infecção não vai melhorar. A razão disso é que o medicamento ingerido não tem como alvo as células do seu corpo, ele terá atuação apenas nas células bacterianas que até então estavam em equilíbrio. O problema é que, por exemplo, bactérias importantes da sua flora intestinal morrerão e bactérias resistentes sobreviverão. Assim, criamos um problema dentro do nosso próprio intestino e ficamos mais suscetíveis a infecções por superbactérias.

Na tabela abaixo[4] são listados exemplos de infecções causadas por bactérias, bactérias e vírus, ou apenas por vírus. Os antibióticos podem ser usados apenas nos casos de infecção bacteriana.

resistência bacteriana

2) Use antibiótico apenas quando não há outra solução[5]

Quando a infecção começa e nós rapidamente identificamos o que está acontecendo, podemos recorrer a tratamentos que desacelerem a infecção e deem condições para o nosso próprio organismo reverter o problema. Existem remédios que não precisam de prescrição, e podem ser utilizados com segurança, e fórmulas caseiras que aliviam os sintomas. Portanto, procure ajuda da(o) sua(seu) médica(o) e não insista em um tratamento com antibióticos quando não for realmente necessário.

3) Siga o tratamento à risca[5]

Em geral, o tratamento com antibióticos dura vários dias, mesmo quando os sintomas da infecção desaparecem após poucos dias de uso. Muitas pessoas pensam que já tomaram remédio o suficiente e param o tratamento no meio ou deixam de tomar alguma dose, o que é um grande erro. Por quê? Primeiro, porque você pode desenvolver a infecção de novo e o antibiótico já não terá o mesmo efeito, já que as bactérias resistentes que não foram mortas pelo medicamento acabaram se multiplicando. Segundo, porque pode acontecer das bactérias resistentes transferirem genes de resistência para bactérias que seriam sensíveis ao tratamento mas não foram mortas, desta forma a população de superbactérias aumenta e o tratamento será um fracasso.

Além disto, tome exatamente o antibiótico que lhe foi prescrito. Cada medicamento tem um expectro de ação e age melhor contra um grupo específico de bactérias.

4) Descarte antibióticos vencidos em farmácias ou pontos de recolhimento de medicamentos[5]

Nunca jogue seu medicamento, principalmente antibióticos, no lixo comum, na pia ou descarga abaixo. Estes remédios são compostos químicos que poluem o meio ambiente e que podem gerar resistência bacteriana por onde passarem.

5) Tome vacina[5]

Algumas infecções bacterianas podem ser prevenidas através da vacinação. A vacina é um método seguro e eficiente que nos torna imune de uma doença. Vacine-se e vacine as crianças.

Agora que você já sabe!

Proteja sua família e amigos das superbactérias, informe-os sobre como combater a resistência bacteriana. Nossa saúde e nosso planeta agradecem!

 

Escrito por Dra. Aline Ramos da Silva.

Referências:

[1] https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/03/27/crise-dos-antibioticos-e-superbacterias-como-nos-proteger-parte-1/

[2] https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm092810.htm

[3] https://www.cdc.gov/getsmart/community/about/should-know.html

[4] https://www.cdc.gov/getsmart/community/materials-references/print-materials/everyone/viruses-bacteria-chart.pdf

[5] https://www.cdc.gov/getsmart/community/about/can-do.html

2

Crise dos antibióticos e superbactérias: como nos proteger? – Parte 1.

No mês passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma lista monster-426994.jpgde bactérias resistentes para as quais necessitamos urgentemente de novos antibióticos. Essas bactérias resistentes, também conhecidas como superbactérias, tornaram-se resistentes à maioria (ou a todos) os antibióticos disponíveis no momento. No caso de uma infecção por alguma superbactéria, não temos atualmente tratamento suficiente para controlar a infecção, o que pode causar a morte do doente. [1]

Quando pensamos nessas superbactérias entramos em pânico e começamos a procurar meios de nos proteger dessa ameaça. Em geral, nossa primeira atitude é entrar no supermercado e comprar sabonetes, produtos de higiene pessoal e de limpeza doméstica com antibacterianos (por vezes chamados de antimicrobianos ou antissépticos). Estes produtos possuem compostos químicos que prometem reduzir ou prevenir infecções e matar 99,9% das bactérias. Porém, mal sabemos que esse é um dos erros graves que cometemos e, com esta atitude,  promovemos o aumento da quantidade das temidas superbactérias. [2]

E como isso acontece? É simples. Quando lavamos as mãos com um sabonete antibacteriano, exterminamos as bactérias que são sensíveis a este composto químico, mas deixamos para trás as bactérias que são resistentes a ele. Estas bactérias sobreviventes – que antes eram uma minoria – multiplicam-se, e assim se forma uma população maior de bactérias resistentes.

De acordo com a FDA (agência reguladora dos alimentos e dos medicamentos nos EUA), cientistas comprovaram que os sabonetes com antibacterianos (ex. triclosan ou triclocarban) não possuem maior eficiência na prevenção de doenças quando comparados aos sabonetes comuns. Além disto, estes dois compostos químicos podem trazer riscos à saúde quando usados diariamente. [2]

A FDA alerta que estudos com animais demonstraram que o triclosan altera os níveis de hormônios tireoidianos e pesquias em andamento investigam o potencial carcinogênico dessa substância. [3] Outros trabalhos científicos demonstraram que o triclosan é tóxico especialmente para espécies aquáticas, as quais apresentaram alterações hormonais, neurais e inflamações após longa exposição ao produto. Estudos epidemiológicos mostraram a presença do triclosan em tecidos do corpo humano, no leite materno, na urina e no plasma sanguíneo, porém não se sabe ao certo quais são os efeitos desta substância a longo prazo. [4]

Por conta dos ricos à saúde, a FDA proibiu em setembro de 2016 o uso do triclosan e de mais 18 compostos químicos usados como antibacterianos em fórmulas de sabonetes, produtos de higiene pessoal e limpeza. [5] Para quem se perguntou sobre os desinfetantes para as mãos a base de álcool (mínimo de 60%), respirem aliviados, apenas observem se antimicrobianos não foram adicionados à fórmula. [6]

faucet-1581573

Para finalizar, a FDA aconselha a higienização das mãos e do corpo com sabonete comum (e água) e enfatiza que este é o melhor método para evitar doenças e prevenir a propagação de bactérias. [2]

(No próximo texto – parte 2 – falarei de outras atitudes que podemos tomar para evitar a resistência microbiana e nos proteger das superbactérias).

Por Aline R.S.

 

Referências:

[1] http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2017/bacteria-antibiotics-needed/en/

[2] https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm378393.htm

[3] https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm205999.htm

[4] http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/10937404.2017.1281181

[5] http://www.npr.org/sections/health-shots/2016/09/02/492394717/fda-bans-19-chemicals-used-in-antibacterial-soaps

[6] http://www.businessinsider.com/do-hand-sanitizers-cause-antibiotic-resistance-2014-4?international=true&r=US&IR=T

0

O Alzheimer e a poluição do ar: estariam os nossos cérebros contaminados?

dependent-826332

Quando pensamos em poluição do ar, os primeiros riscos que nos vêm à cabeça são: alergias, doenças respiratórias, câncer de pulmão, acidente vascular cerebral (AVC, derrame) e doenças cardíacas.1 Infelizmente, mais um risco entrou para esta conta: a doença de Alzheimer, causa mais comum de demência irreversível.2,3

Entre os fatores de risco para desenvolver a doença de Alzheimer estão: idade avançada, histórico familiar e, a mais recente descoberta científica, exposição à poluição do ar.4

Nos dias de hoje, as cidades estão cercadas de fontes de poluição do ar5, como: veículos (queima de combustíveis fósseis)6, indústrias (exaustão de fumaça tóxica)7, áreas agrícolas (agrotóxicos e fertilizantes), mineração (ex. crime ambiental de Mariana e pó preto no estado do ES)8,9, e até mesmo dentro das nossas casas (produtos de limpeza, tintas, fumaça de cigarro).

Muitas vezes conseguimos até ver a poluição, principalmente quando estamos em uma cidade grande, como São Paulo, depois de muitos dias sem chuva. Porém, a maioria das partículas que contaminam o ar é invisível a olho nu, uma vez que são ultrafinas, podendo ser até 200 vezes menores que a largura de um fio de cabelo humano!4 Aí é que mora o perigo.

Partículas pequenas assim passam inclusive pelos filtros de ar mais sofisticados e acabam chegando às nossas narinas. A partir daí elas podem percorrer vários caminhos dentro do nosso corpo, chegando aos pulmões, corrente sanguínea e também ao cérebro. O dano cerebral pode ocorrer de forma direta, quando as partículas atravessam as células nervosas do bulbo olfatório e atingem o cérebro; ou de forma indireta, quando as partículas se acumulam em outros órgãos, desencadeando a liberação de moléculas inflamatórias que, pela corrente sanguínea, alcançam o cérebro.4

Essas partículas e moléculas inflamatórias levam o organismo a produzir as placas senis, ou seja, levam à formação de placas insolúveis compostas pela proteína beta amilóide. Estas placas protéicas impedem a transferência de sinais (sinapse) entre os neurônios, levando-os à morte.10 Com a morte dos neurônios, formam-se lesões cerebrais que levam à doença de Alzheimer.11

Conforme a perda de sinal entre os neurônios avança, a pessoa afetada começa a sofrer gradualmente os seguintes sintomas: perda de memória recente, redução de raciocínio lógico, dificuldade de completar tarefas simples, confusão mental, dificuldades visuais e espaciais, problemas para falar e escrever, redução da capacidade crítica, afastamento do convívio social, mudanças de humor e de personalidade.12

Infelizmente, ainda não temos a cura para a doença de Alzheimer, apenas medicamentos que retardam o agravamento dos sintomas.2 Porém, com esta nova descoberta científica, sabemos que a poluição é um dos fatores de risco para o desenvolvimento da doença e, que neste caso, podemos dar a nossa contribuição. Então, para reduzir a poluição do ar:

– Utilize transporte público sempre que possível;

– Economize energia elétrica (principalmente quando ela for produzida pela queima de combustíveis fósseis);

– Reduza o consumo de produtos, reuse tudo o que puder, recicle ou doe o que você não usa mais, e recuse-se a comprar coisas com muita embalagem ou das quais você não precisa;

– Exija, do seu governo e governantes, políticas de energia limpa, como: eólica, solar e geotérmica;

– Use eletrodomésticos que consumam menos energia.

Para mais informações e ações para previnir (ou adiar) e tratar a doença de Alzheimer, acesse as páginas: Associação Brasileira de Alzheimer, Associação do Alzheimer e Drauzio Varella.

 

Texto por: Aline R.S.

Referências:

1 http://www.heart.org/HEARTORG/Conditions/More/MyHeartandStrokeNews/Air-Pollution-and-Heart-Disease-Stroke_UCM_442923_Article.jsp#.WKQt0fkrI2w

2 http://www.alz.org/br/demencia-alzheimer-brasil.asp

3 http://www.dementia.com/causes.html

4 http://www.sciencemag.org/news/2017/01/brain-pollution-evidence-builds-dirty-air-causes-alzheimer-s-dementia?utm_source=newsfromscience&utm_medium=facebook-text&utm_campaign=brainpollution-10708

5 http://www.conserve-energy-future.com/causes-effects-solutions-of-air-pollution.php

6 http://www.dft.gov.uk/vca/fcb/cars-and-air-pollution.asp

7 http://g1.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/videos/v/explosao-em-fabrica-de-fertilizantes-gera-fumaca-toxica-e-preocupa-moradores-de-cubatao/5559229/

8 https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2016/11/06/um-ano-de-marina-maior-desastre-ambiental-do-brasil-deixa-duras-licoes.htm

9 http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2016/01/entenda-o-que-e-o-po-preto-que-polui-o-ar-e-o-mar-de-vitoria-ha-anos.html

10 http://www.nature.com/tp/journal/v7/n1/full/tp2016280a.html

11 http://www.brightfocus.org/alzheimers/infographic/amyloid-plaques-and-neurofibrillary-tangles

12 http://www.alz.org/10-signs-symptoms-alzheimers-dementia.asp

1

Dia Internacional das Mulheres e Garotas na Ciência: celebrar ou lutar?

Amanhã, dia 11 de fevereiro, é o dia Internacional das Mulheres e Garotas na Ciência.[1] Nesta data, mais do que para celebrar, somos convidadas a lutar pelos nossos direitos, por um mercado de trabalho igualitário e por mais participação das mulheres nas tomadas de decisões.

Os homens são maioria esmagadora em cargos de alto status sócio-econômico, enquanto as mulheres são mantidas às margens do desenvolvimento, da elaboração de políticas públicas e ainda são as mais afetadas por eventos climáticos extremos (secas, enchentes etc).[ 2,3]

Em relatório da UNESCO intitulado “A diferença de gênero está diminuindo na ciência e na engenharia?“, a pesquisadora e diretora executiva Dra. Sophia Huyer apresenta informações atuais das condições das mulheres nessas áreas e apresenta soluções para melhorarmos a nossa situação.[3]

A pesquisadora observou que mundialmente na área científica existe um “vazamento” de mulheres (Figura 1). 53% dos alunos que terminam um bacharelado são mulheres, a mesma quantidade de mulheres completa o mestrado e dá início ao doutoramento. Nesta fase inicia-se a perda de pesquisadoras com uma queda de 10% no número das que obtém o título de doutora. Após o doutorado, apenas 28% das cientistas conseguem se manter na área, resultando em um total de 72% de homens cientistas bem sucedidos.[3]

mulheres-na-ciencia

Figura 1. “O vazamento no cano”: parcela de mulheres no ensino superior e na pesquisa em 2013. Figura retirada e modificada de relatório científico da UNESCO e da pesquisadora Dra. Sophia Huyer.[3]

Dados da América Latina e Caribe mostram que 45% das mulheres cientistas estão trabalhando ativamente na área. Apesar deste número estar acima da média mundial, nos últimos 10 anos, as mulheres têm perdido espaço nesta região do globo. Ainda é comum observar práticas institucionais que desvalorizam as mulheres e um modelo social no qual espera-se das cientistas tempo integral de dedicação à pesquisa e tempo superior do que o dos homens com cuidados domésticos.[3]

Ainda nesta região, as mulheres têm relativa participação em algumas áreas como saúde, agricultura e gerenciamento do meio ambiente, porém, são excluídas dos momentos de decisões, de monitoramento e de implementação  de resultados.[3]  O mais assustador é observar que as mulheres ainda são minoria na elaboração de políticas públicas, inclusive quando as leis são relacionadas aos nossos direitos e em relação ao nosso próprio corpo.[4,5,6]

Voltando para o âmbito mundial da ciência e engenharia, observa-se que as mulheres frequentemente deixam os seus trabalhos por razões familiares e trocam de carreira mais do que os homens. Esses dados mostram que precisamos focar em soluções para “arrumar o sistema”, como descrito pela Dra. Sophia Huyer, de forma a compreender os pontos de divergências, os obstáculos e o perfil cultural que obriga mulheres a abandonar a ciência.[3]

Mas, falemos em soluções. A UNESCO encoraja os governos, instituições de pesquisa e empregadores a:

  • implementar políticas que promovam o acesso de mulheres ao trabalho, à pesquisa e à ciência, além de garantir que a educação seja acessível e de qualidade;
  • garantir a representação igualitária entre mulheres e homens na pesquisa científica, nas tomadas de decisão e na elaboração de políticas públicas;
  • empoderar mulheres (e garotas) para que se sintam confiantes a expor abertamente suas ideias;
  • adotar critérios transparentes e igualitários em processos seletivos, promovendo a diversidade e o respeito aos diferentes grupos dentro dos ambientes de trabalho;
  • financiar treinamentos em empreendedorismo e impulsionar mulheres a conquistar novos desafios.[3]

Como mostrado em postagem anterior, a igualdade de gêneros garante mais do que justiça entre mulheres e homens, ela garante um futuro mais rico e sustentável para o planeta. Governos, instituições de pesquisa e empresas têm muito a ganhar com ambientes onde a diversidade de gênero prevalece, pois pessoas com experiências de vida diferentes apresentam diferentes perspectivas e são capazes de criar soluções mais eficientes para os problemas atuais. Parafraseando o relatório da UNESCO, a luta pela igualdade de gêneros deveria ser uma prioridade para a comunidade global, se é que realmente queremos atingir as próximas metas de desenvolvimento.[3]

Referências

  1. http://www.unesco.org/new/en/unesco/events/prizes-and-celebrations/celebrations/international-days/int-day-of-women-and-girls-in-science/international-day-of-women-and-girls-in-science-2017#.WJSa1_krI2w
  2. EIGE (2012) Women and the Environment: Gender Equality and Climate Change. European Institute for Gender Equality. European Union: Luxembourg.
  3. https://en.unesco.org/sites/default/files/usr15_is_the_gender_gap_narrowing_in_science_and_engineering.pdf
  4. http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/12/01/interna_gerais,828972/aborto-decidido-caso-a-caso.shtml
  5. http://www.scielo.br/pdf/rsp/v36n3/10487.pdf
  6. https://www.brasildefato.com.br/2016/11/30/aborto-continua-sendo-ilegal-no-brasil-entenda-o-impacto-da-decisao-do-stf/

Imagem em destaque retirada de Pixabay (CC0 Public Domain, no attribution required)