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50 anos de endossimbiose: a mulher por trás da teoria

Há 50 anos, um artigo que se tornaria um marco na história da Biologia era publicado por uma mulher. Lynn Margulis (na época Lynn Sagan), em seu artigo “On the Origin of Mitosing Cells”, publicado em 1967, defendia a teoria da endossimbiose: uma teoria unificadora sobre a origem das células eucarióticas. Resumidamente, a teoria da endossimbiose propõe que algumas organelas, como mitocôndrias e cloroplastos, eram, no início da vida na Terra, procariontes (bactérias) de vida livre, que foram englobados por outros seres unicelulares. A partir dessa união, chamada simbiose, se originaram as células eucarióticas. Apesar de essa hipótese já ter sido levantada anteriormente, Margulis considerou e organizou evidências celulares, bioquímicas e paleontológicas para suportá-la, bem como sugeriu meios pelos quais ela poderia ser testada experimentalmente.

Atualmente, a teoria da endossimbiose é amplamente aceita e reconhecida, mas o primeiro trabalho de Lynn Margulis a defendendo foi rejeitado por mais de uma dúzia de revistas. Ainda após a publicação, Margulis precisou de muita argumentação e persistência para defender suas ideias. Tais qualidades, no entanto, faziam parte de sua personalidade desde cedo. Quando criança, era considerada uma má aluna, pois não aceitava argumentos de autoridade e acreditava apenas no que via com seus próprios olhos. Margulis achava o ambiente escolar tradicional entediante. Aos 14 anos foi aprovada na University of Chicago Laboratory Schools, onde pôde desenvolver sua paixão pela ciência, num ambiente que considerava academicamente estimulante e onde tinha acesso a trabalhos científicos de diferentes áreas. Margulis foi uma “naturalista à moda antiga”. Não se contentava em fazer o que diziam que ela deveria fazer e não se restringia a uma área de conhecimento ou a uma época. Buscava informação sobre tudo que despertava seu interesse e que a ajudasse a entender o mundo, sempre com uma visão abrangente. Lynn Margulis dizia que seu amor pela ciência surgiu porque percebia que a ciência não era uma questão sobre sua opinião política ou orientação, mas uma forma de descobrir o mundo diretamente a partir de evidências: “E eu nunca havia visto isso na minha vida. Eu via apenas pessoas dizendo ‘você deve fazer isso porque ele disse, e ele sabe mais do que você’.” (tradução livre).

Lynn Margulis (Ilustra por Juliana Adlyn)

Além da teoria da endossimbiose, Lynn Margulis colaborou com James Lovelock no desenvolvimento da hipótese Gaia, que defende a ideia da biosfera como um sistema ativo de controle, capaz de manter a Terra em homeostase. Perceba que essa ideia é diferente do que muitos pensam sobre a hipótese de Gaia, considerando o planeta como “um organismo”. Tal má interpretação do conceito originalmente proposto por Lovelock e Margulis colaborou para que ele se tornasse popular entre movimentos anti-ciência. Ainda, essa hipótese gerou mais discussão entre cientistas de diferentes áreas, pois muitos consideram uma hipótese bonita, poética, mas difícil de ser testada. Mais uma vez, a visão de Margulis ia contra o que a maioria dos cientistas de sua época pensavam. Para ela, entretanto, Gaia nada mais é do que a “simbiose vista do espaço”. Ainda hoje, Gaia trata-se, no mínimo, de uma hipótese inspiradora e intrigante, e muita discussão ainda deve rolar a respeito dela.

Lynn Margulis recebeu diversos prêmios ainda em vida, principalmente por causa da teoria da endossimbiose. Dentre eles, destacam-se a “National Medal of Science”, dada pelo presidente dos EUA a cientistas por suas contribuições de destaque, e a medalha “Darwin-Wallace” – dada pela Linnean Society of London a cada 50 anos em reconhecimento a “grandes avanços na biologia evolutiva”  Como se não bastasse a carreira brilhante como cientista, Lynn Margulis também escreveu diversos livros (muitos em parceria com seu filho Dorian Sagan) para divulgação de suas teorias e de ciência em geral para público leigo. Margulis faleceu em novembro de 2011 – sua história e seu amor pela ciência, entretanto, continuam a nos inspirar.

Para saber mais:

Lynn Margulis sobre sua vida, carreira e visão sobre ciência:

Teoria da endossimbiose:

Sagan, L. 1967. On the origin of mitosing cells. Journal of Theoretical Biology. 14 (3): 225–274. doi:10.1016/0022-5193(67)90079-3

Gray M. W. 2017. Lynn Margulis and the endosymbiont hypothesis: 50 years later. Mol. Biol. Cel. doi:10.1091/mbc.E16-07-0509

Hipótese Gaia:

Lovelock, J.E.; Margulis, L. 1974. Atmospheric homeostasis by and for the biosphere: the Gaia hypothesis. Tellus. Series A. Stockholm: International Meteorological Institute. 26 (1–2): 2–10. doi:10.1111/j.2153-3490.1974.tb01946.x

Doolittle, W.F. 2017. Darwinizing Gaia. Journal of Theoretical Biology. doi: https://doi.org/10.1016/j.jtbi.2017.02.015

Margulis, L. 1998. The symbiotic planet: a new look at evolution. (Recomendo fortemente a leitura deste livro!!)

Livros de Lynn Margulis e Dorion Sagan traduzidos para português:

O que é vida?

O que é sexo?

Microcosmos

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Sobre patos e a capacidade de pensar conceitos abstratos

O que faz de nós humanos? Para além de qualquer clichê, desde os filósofos mais antigos de que se tem notícia, todas(os) nós já pensamos nessa pergunta, que possivelmente não terá uma resposta definitiva tão cedo. Dentre as capacidades que gostaríamos de acreditar que são exclusivas de nossa espécie, está a capacidade de pensar abstratamente. Entretanto, um estudo recente desenvolvido na Universidade de Oxford revelou que até mesmo filhotes recém-nascidos de patos podem ser considerados “pensadores”.

Uma das formas de se estudar o pensamento abstrato em animais não humanos é com base na capacidade dos indivíduos diferenciarem conceitos relacionais, como “igual” e “diferente”. Já se sabe que esses conceitos podem ser aprendidos por vários animais como papagaios, pombos, macacos e até mesmo abelhas, especialmente após algum tempo de treinamento por recompensas após respostas corretas. Surpreendentemente, filhotes de patos não precisam deste treinamento e são capazes de diferenciar essas ideias com apenas 24h de vida.

Recém-nascidos de muitas espécies de aves, como patos e pintinhos, apresentam o comportamento chamado de imprinting. Esse é um processo que permite que os filhotes aprendam a identificar seus pais, ou o primeiro objeto que veem, tocam ou escutam (até mesmo humanos ou robôs). Uma vez identificado, o filhote segue o “objeto” como se este fosse sua mãe, até que cresça o bastante para se tornar independente. Portanto, este comportamento é adquirido em poucos minutos, sem qualquer treinamento e com alta fidelidade. A partir disso, pesquisadores utilizaram o comportamento de imprinting como modelo para buscar entender se filhotes de patos são capazes de diferenciar os conceitos abstratos “igual e diferente”.

Na fase inicial do experimento (fase de imprinting), cada filhote foi exposto por 25 minutos a um par de objetos que se movia por uma arena experimental. Depois, os filhotes eram mantidos por 30 minutos num ambiente escuro e, finalmente, apresentados a dois novos pares de objetos em movimento. Nesta fase final, cada animal foi exposto a dois pares de objetos que diferiam do primeiro quanto à cor ou quanto à forma. Entretanto, um desses pares mantinha o mesmo padrão dos objetos apresentados na fase de imprinting. Por exemplo: na fase inicial, um filhote foi exposto a um par de esferas vermelhas. A seguir, na fase final do experimento, ele foi então apresentado a um par de esferas roxas e, ao mesmo tempo, a uma esfera azul ligada a uma esfera laranja, ambos os pares se movendo pela arena como móbiles. Neste momento, os pesquisadores observavam qual dos pares de objetos o filhote escolhia seguir. Foi observado que a maioria dos filhotes preferiam seguir os objetos de padrão similar àqueles que eles haviam sido apresentados inicialmente, mesmo que esses não fossem exatamente iguais. No exemplo acima, o filhote escolhia seguir o par de esferas de mesma cor (roxas), uma vez que, na fase de imprinting, ele havia sido exposto a um par de esferas vermelhas, e não a um par de esferas de cores diferentes. Os resultados foram similares quando a característica variável foi a forma do objeto. Neste vídeo, você pode entender melhor e visualizar o experimento!

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No experimento, os patinhos eram inicialmente expostos a um par de objetos que se movia pela arena e, posteriormente, a dois novos pares de objetos. A imagem (C) demonstra um filhote que, na fase de imprinting, havia sido exposto ao par indicado em (A) e, na fase final, escolhe um novo par de objetos diferentes entre si, ao invés do par de esferas (B).

Os resultados encontrados revelam que o sistema neural de aprendizagem desses animais processa informações, não apenas reconhecendo a informação sensorial, mas também decodificando aspectos abstratos bastante específicos da análise do estímulo. Essa habilidade deve ser determinante para a sobrevivência dos recém-nascidos: mesmo se a “mãe” não parece exatamente igual à última vez que o filhote a viu, ele pode acessar algumas informações abstratas que permitem o reconhecimento.

A habilidade de compreender as relações abstratas de igual/diferente deve ser crucial para uma ampla variedade de vertebrados e, na escala evolutiva, deve ter surgido antes do que imaginávamos. Ainda, essa pesquisa reforça que o pensamento abstrato não é restrito a humanos ou a “animais com cérebros grandes”, como se imaginava, evidenciando que essa capacidade não faz de nós, humanos, tão especiais assim.

Referência:

Martinho, A. & Kacelnik, A. (2016) Ducklings imprint on the relational concept of “same or different”. Science 353 (6296), 286-288. [doi: 10.1126/science.aaf4247]

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Por que as aves sobreviveram à extinção dos dinossauros?

De todas as espécies que já existiram no planeta, mais de 90% foram extintas. A vida na Terra enfrentou 5 grandes eventos de extinção em massa conhecidos e, após cada um desses eventos, os poucos organismos sobreviventes foram capazes de ocupar e recolonizar o novo ambiente. Mas… por que algumas espécies sobrevivem, enquanto muitas outras desaparecem durante eventos de extinção em massa? O que faz com que as vidas dessas espécies seja viável após eventos tão catastróficos?

Apesar de não ter sido a mais severa, a extinção em massa que marcou o final do Cretáceo e inicio do Terciário (K-T) é a mais estudada e também a mais famosa, pois corresponde ao final da “era dos dinossauros”. Sobre esse evento, uma das questões mais intrigantes para os paleontólogos refere-se à sobrevivência de apenas um grupo de dinossauros – as aves. Muitas hipóteses já foram sugeridas para tentar explicar por que as aves se deram bem naquele momento. Por exemplo, a presença de penas, o voo e o tamanho reduzido poderiam ter proporcionado boas condições de sobrevivência no ambiente pós-catastrófico do final do Cretáceo. Entretanto, são conhecidos fósseis de outros animais, incluindo outros répteis e dinossauros, que também apresentavam essas características e não tiveram a mesma sorte. Uma pesquisa recente, desenvolvida por Derek Larson e seu grupo, sugere que o segredo para a sobrevivência das aves poderia estar na boca, ou melhor, no bico.

Imagine o seguinte cenário: há 66 milhões de anos, asteroides de até 10km atingiram o planeta. O impacto foi tão intenso que causou diversos efeitos globais. Inicialmente, acredita-se que houve aumento de temperatura, terremotos e tsunamis. A colisão fez ainda com que se levantasse muita “poeira”, causando o bloqueio da luz solar e levando o planeta a um inverno prolongado e ao colapso do ecossistema existente até então. Muitas espécies que haviam tido muito sucesso por milhares de anos, de Tyranosaurus a Velociraptors, não conseguiram sobreviver à mudança brusca das condições ambientais.

Para entender a dinâmica de extinção de espécies durante a extinção K-T, a equipe de Larson estudou mais de 3000 dentes de pequenos dinossauros carnívoros. Estudar dentes fossilizados pode parecer estranho, à primeira vista. Entretanto, dentes podem contar histórias muito interessantes por indicarem o tipo de dieta que o animal apresentava. Sabendo a dieta, podemos imaginar que tipo de ambiente aquela espécie ocupava e que comportamentos poderia exibir, por exemplo. O grupo de pesquisadores descobriu que antes da extinção K-T, havia uma grande diversidade de especializações de dietas entre os pequenos dinossauros carnívoros, como peixes, insetos ou caças, por exemplo. Perceberam também que essa diversidade não mudou durante o Cretáceo. Isso significa que não houve uma diminuição gradual da variedade de tipos de dentes. Ao contrário, parece que esses pequenos carnívoros desapareceram de repente ao final do Cretáceo.

Essa extinção em massa também fez desaparecer muitos pequenos dinossauros com penas, que possivelmente se comportavam de forma muito semelhante às aves verdadeiras. Entretanto, apenas um grupo de aves – os Neornithines – tiveram sucesso em sobreviver no novo ambiente. Uma das poucas diferenças entre essas aves e outras que não conseguiram sobreviver era que, enquanto outros animais possuíam dentes, os Neornithines possuíam bicos queratinosos –  o que realmente é um dos traços que apenas as aves modernas apresentam em comum. Ainda, o tipo de bico que essas aves apresentavam era relacionado a uma dieta herbívora, e elas provavelmente comiam sementes.

Então, você se lembra como era o ambiente após o impacto? Não havia luz solar por causa do acúmulo de poeira, o que significa que também não havia fotossíntese. Sem fotossíntese, muitas plantas acabavam morrendo. Com a escassez deste recurso, muitos animais que dependiam de folhas e frutos, por exemplo, acabaram morrendo. Apesar de imaginarmos que o grande número de animais mortos poderia ser uma boa fonte de alimento para dinossauros carnívoros, esse é um recurso que se deteriora muito rapidamente. Entretanto, sementes são alimentos altamente nutritivos, e estoques de sementes dispersadas por plantas podem continuar viáveis por mais de 50 anos, como boas fontes de nutrientes. Assim, não é difícil imaginar que animais capazes de absorver nutrientes desses bancos de sementes, e de sementes encontradas no meio dos detritos, tiveram uma grande vantagem de sobrevivência. Bem, aves com bicos queratinosos podiam fazer isso. Assim, é possível que a especialização da dieta em sementes de algumas linhagens de aves tenha sido um dos fatores fundamentais para sua sobrevivência ao final do Cretáceo.

Como todo avanço em Ciência, esse provavelmente não é o final dessa história. Novas hipóteses devem ser testadas pois há, provavelmente, outras características fisiológicas e morfológicas dos Neornithines que proporcionaram a este grupo melhores condições para sobrevivência após o impacto do asteroide. Entretanto, essa pesquisa demonstra que até mesmo dentes de dinossauros podem nos contar uma história interessante sobre o passado. Ainda, o conhecimento do que acontece durante eventos de extinção em massa pode ser muito relevante para entender nosso planeta atual, já que a Terra está passando por mudanças bruscas, por exemplo no clima e condições atmosféricas, levando ao colapso de ecossistemas e à extinção de muitas espécies.

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 Cladograma de dinossauros e grupos relacionados, mostrando os grupos extintos (em vermelho) e sobreviventes (em verde) na extinção em massa do final do Cretáceo. (Current Biology v.26, 2016, R416)

 
Referências:

Larson, D.W., Brown, C.M., and Evans, D.C. (2016). Dental disparity and ecological stability in bird-like dinosaurs prior to the end-Cretaceous mass extinction. Current Biology 26, 1325–1333.

Brusatte S. L. (2016). Evolution: How Some Birds Survived When All Other Dinosaurs Died. Current Biology 26, R408–R431.

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Hora de rever conceitos! Descoberto primeiro eucarionte sem mitocôndria

“A vida é como uma caixa de chocolates, você nunca sabe o que vai encontrar”. Essa frase, uma das mais marcantes do filme Forrest Gump, pode facilmente ser utilizada também para a Ciência. E, nas ciências da vida, muitas vezes o que encontramos requer mudanças de paradigmas e conceitos que consideramos bem estabelecidos.

Há anos, cientistas acreditam que todas as células eucarióticas contêm, além de um núcleo celular organizado, mitocôndrias. Mitocôndrias são organelas responsáveis pela respiração celular em organismos aeróbicos, ou seja, são as responsáveis pela geração de energia para a vida, através de um processo metabólico que exige a utilização de oxigênio.

Acredita-se que a origem da mitocôndria se deu a partir de um processo de simbiose, no qual uma célula procariótica primitiva, parecida com as bactérias atuais e capaz de realizar respiração aeróbica, foi envolvida por uma célula nucleada hospedeira. Apesar de ainda não entendermos muito bem os detalhes de como ocorreu esse processo, as pesquisas desenvolvidas até aqui reforçam que, apenas após a simbiose, a diversificação dos organismos eucariontes foi possível. Ao longo da evolução, a mitocôndria manteve seu próprio material genético e o DNA mitocondrial  passou por diversas modificações. Até mesmo organismos eucariontes anaeróbicos apresentam formas reduzidas dessa organela.

Ou, pelo menos, isso era o que acreditávamos até agora… Em Maio de 2016, Anna Karnkowska e colaboradores descreveram o primeiro organismo eucarionte unicelular que não contém nenhum sinal da presença de mitocôndria!

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Monocercomonoides sp., o primeiro eucarionte sem mitocôndria descrito. Fonte: Dr. Naoji Yubuki

Este organismo, Monocercomonoides sp., faz parte de um grupo taxonômico que inclui alguns simbiontes e parasitas anaeróbicos – por exemplo, os patógenos humanos Giardia e Trichomonas. Os “primos” do organismo em questão, mesmo sendo anaeróbicos, possuem homólogos da mitocôndria, cujas funções ainda não conhecemos claramente.

Para chegarem à conclusão improvável da completa ausência de mitocôndria em Monocercomonoides sp., Karnkowska e seu grupo desenvolveram uma série de experimentos. Inicialmente, observaram seu genoma completo… e não encontraram sinais de material genético mitocondrial. Até aqui, nenhuma grande surpresa, pois já são conhecidos outros organismos que não apresentam DNA mitocondrial. Nesses casos, o próprio DNA nuclear codifica proteínas responsáveis por sustentar o metabolismo mitocondrial. Entretanto, também não foi encontrado em Monocercomonoides sp. nenhum homólogo de qualquer componente da maquinaria mitocondrial. Ou seja, o material genético desses organismos não apresenta nenhuma sequência para proteínas mitocondriais, reforçando a ausência dessa organela!

Então, a próxima pergunta que Monocercomonoides sp. nos deixa para ser  respondida é: como esses organismos obtêm energia?

Como muitos outros seres anaeróbicos, Monocercomonoides sp. não produz enzimas para a geração de energia dependente de oxigênio. Diferentemente, essa espécie parece ser capaz de realizar uma via glicolítica estendida, o que permite que obtenham energia a partir da glicose, contando apenas com a atividade de enzimas alternativas presentes no citosol, e não dependam de uma organela como a mitocôndria. Aparentemente, Monocercomonoides incorporou sequencias do genoma de bactérias, o que permitiu que os indivíduos obtivessem energia no citosol e finalmente pudessem  dispensar totalmente os processos mitocondriais.

Essa descoberta é um exemplo de como o conhecimento científico está sempre sendo reconstruído. Ainda, é um bom exemplo de como o esforço de pesquisa em grupos pouco conhecidos pode surpreender e ajudar a elucidar questões em evolução. Com certeza, são necessários mais estudos para confirmar a real e completa ausência de mitocôndria no gênero Monocercomonoides. Entretanto, a atual falta de evidência positiva para sua presença, mesmo procurando por isso de diferentes formas, indica fortemente que a mitocôndria pode não ser tão indispensável para a vida eucarionte quanto imaginávamos.

Referência:

Karnkowska, A. et al. 2016. A Eukaryote without a Mitochondrial Organelle. Current Biology 26, 1274–1284. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2016.03.053

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Por que a Ciência Básica importa? Um olhar especial para a Biologia

Earthrise. Fonte: Nasa

Earthrise. Fonte: Nasa

Temos mania de dividir tudo em caixinhas didáticas, e na ciência não é diferente. Uma das discussões ainda bastante relevantes atualmente ocorre entre ciência “básica” e ciência “aplicada”. De forma geral e bastante intuitiva, entendemos por ciência “básica” (ou ciência pura, ou hard science) aquelas pesquisas que buscam entender como é o mundo e como tudo funciona, em sua essência. Já pesquisas que visam resolver questões práticas e cotidianas são classificadas como ciência “aplicada”, ou como alguns preferem dizer: aplicações da ciência.

No mundo acelerado em que vivemos, é fácil conseguir e justificar investimento em quase todo tipo de ciência aplicada, mas o incentivo pode ser extremamente difícil quando nos dedicamos à ciência básica – e com isso quero dizer tanto no aspecto financeiro quanto pessoal. Poucos entendem quando contamos que nos dedicamos a entender a história evolutiva dos peixes, ou como os hormônios de um sapo funcionam, ou como ocorreu uma formação geológica, ou ao desenvolvimento de equações matemáticas complexas.

Pesquisas em ciência básica não tem objetivo prático claro e definido com antecedência. No caso da ecologia, por exemplo, pesquisas básicas buscam entender a diversidade biológica, as interações entre organismos e entre os organismos e seu meio. Seu objetivo principal é o avanço do conhecimento, muitas vezes de forma exploratória, ou seja, sem saber ao certo os resultados que serão encontrados e quais suas possíveis aplicações – se é que existirão. Um dos objetivos centrais das pesquisas em ecologia básica envolve desenvolver, testar e aprimorar hipóteses e teorias, como a evolução através de seleção natural. Por outro lado, a ecologia aplicada é motivada por objetivos particulares bem definidos, e buscam resolver problemas ambientais como recuperação de áreas degradadas, invasão de espécies exóticas, desertificação… manejo de recursos naturais, de forma geral.

Entretanto, é preciso saber com clareza que um tipo de ciência não é mais ou menos relevante que outro. Mais que isso: a ciência aplicada não existe sem uma base sólida e um passado de exaustiva pesquisa básica. Eric Lander, neste vídeo, faz uma ótima analogia: a ciência básica pode ser entendida como troncos de árvores em uma floresta, enquanto as aplicações da ciência são como as folhas, nas pontas dos galhos. Se hoje é possível a fabricação de iPhones, que carregamos conosco o tempo todo, é devido a anos de pesquisa em diversos “troncos” da ciência – termodinâmica, química, geologia, estatística, inteligência artificial, física teórica, eletricidade, robótica… inclusive equações desenvolvidas por Einstein, sem que ele tivesse a menor ideia em que resultariam.

São incontáveis os exemplos de pesquisas básicas em Biologia que levaram a grandes desenvolvimentos e aplicações em áreas diferentes. Um exemplo clássico: ao estudar ervilhas, Mendel não imaginava que estava criando uma das grandes bases da genética. Mais recentemente, pesquisas que buscavam entender as causas da mortalidade do “rato-toupeira-pelado” (Heterocephalus glaber) levaram à  descoberta de mecanismos de defesa contra tumores. E a descoberta de um peptídeo com atividade antimicrobiana e antifúngica capaz de reduzir o crescimento dos principais agentes de infecções hospitalares foi possível através do estudo do pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus), cujo macho preserva peixes em seu estômago por cerca de 3 semanas para alimentar o filhote.

Como qualquer outra área de desenvolvimento, as pesquisas em biologia básica precisam de muitos recursos financeiros e humanos. Mas por trabalhar na base do conhecimento e por não ter aplicação prática definida, esse tipo de ciência cada vez mais perde esses recursos para pesquisas aplicadas. É preciso que a sociedade entenda a importância da ciência básica e a incentive, pois não sabemos os desafios que enfrentaremos no futuro. Especialmente no cenário atual de mudanças ambientais globais e perda de diversidade, a compreensão profunda dos problemas é o melhor caminho para encontrar uma saída – e possivelmente o mais seguro e barato. Decisões políticas precisam de predições seguras de ecólogos, baseadas em trabalho exaustivo de pesquisa de campo, laboratório e modelagem. E isso não se faz sem investimento.

Apesar de todas as bases para aplicações fornecidas pela ciência básica, os autores deste artigo discutem que a principal justificativa para desenvolver e incentivar essas pesquisas deve ser satisfazer a curiosidade, adquirir conhecimento e alcançar a compreensão. Por trás do “tiro no escuro” que é a pesquisa em ciência básica, está a motivação baseada em curiosidade, criatividade, inteligência, perseverança… e até sorte. Mas a curiosidade é seu maior motor. Há um certo desejo inato na maioria dos biólogos em compreender como sistemas complexos naturais funcionam – sejam as interações entre moléculas ou indivíduos ou populações. Explorar o mundo que nos cerca e compreender a natureza das coisas apenas pelo conhecimento é possivelmente uma das aspirações humanas mais antigas. E há beleza nisso.

Fontes:

Courchamp, F. et al. Fundamental ecology is fundamental. Trends Ecol. Evol. 30, 177 (2015).

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Vida e feminismo de Bertha Lutz

Ilustração: Helô D’Angelo

Bióloga, feminista, líder do movimento pelo direito das mulheres ao voto no Brasil, filha de Adolfo Lutz. Essa é a descrição básica de Bertha Maria Júlia Lutz (1894 – 1976), que não exprime as qualidades da grande mulher que foi.

Como cientista, era extremamente dedicada e detentora de pensamento lógico-científico admirável, despertando o reconhecimento de seus professores e colegas durante sua formação em Sciences na faculdade de Sobornne. Durante sua carreira como bióloga, desenvolveu trabalhos importantíssimos em botânica e em herpetologia, e não escondia sua empolgação com a sistemática: “temo que seja a lógica da ciência que exerça maior fascínio sobre mim“, dizia. Em 1919, após concorrer com outros 10 candidatos homens em concurso público, foi admitida como secretária do Museu Nacional, onde trabalhou por 50 anos.

Além dos trabalhos de pesquisa, Bertha se preocupava muito com a educação em ciência no país. Nesse aspecto, acreditava na importância de ambientes de educação não formal, como museus, e se dedicou ao estudo do papel educativo desses nos Estados Unidos, no início da década de 1930, com o desejo de transformar museus brasileiros em instrumentos modernos de educação.

Paralelamente, seu interesse no feminismo teve início durante o período que passou estudando na Europa, quando teve contato com o movimento sufragista que ocorria por lá. Em 1919, criou no Brasil a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que mais tarde se tornaria a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderando a campanha sufragista no país.  Em 1932, por decreto de Getúlio Vargas, foi alcançado o estabelecimento do direito ao voto feminino no Brasil. Bertha Lutz investiu em sua vida política e em 1936 assumiu posição de deputada federal, cargo no qual executou propostas de mudança na legislação referente ao trabalho da mulher, visando, dentre outros direitos, a igualdade salarial, participação em questões públicas e a licença maternidade.

Mais que sua trajetória, o que chama atenção na história de vida de Bertha Lutz, e que me motiva a escrever este texto, é a sobriedade com que ela tratava as questões da mulher e o feminismo. Assim, deixo de lado maiores detalhes de sua vida política e de seu histórico, pois esses podem ser encontrados com facilidade na internet. Pretendo, ao contrário, apresentar pontos de seu pensamento que me cativaram, e que e expressam a grande mulher que era, deixando muitas vezes que Bertha fale por ela mesma.

Diferente das líderes do movimento sufragista inglês, Bertha Lutz não acreditava na luta feminista feita de forma “violenta e demolidora”, mas lutava pelos direitos das mulheres com argumentos e com seu poder de persuasão.

De forma geral, Bertha Lutz via o feminismo, em primeiro lugar, como reforma social e, em segundo, como uma luta das mulheres por direitos iguais à educação e ao trabalho digno e bem remunerado. Confiava na transformação progressiva e no triunfo do feminismo como “a recompensa das que se tornaram esforçadas pioneiras nas artes e nas ciências; das que para ele se preparam. Das que pela educação que dão às suas filhas lhes sugerem as mais nobres aspirações, que pela reverência que inspiram aos seus filhos lhes ensinam a venerar a mulher, finalmente das que com seu amor esclarecido, abrem ao homem novos horizontes, cheios de harmonia e de luz. (…) Verão elas seu esforço coroado, não por um sucesso passageiro e estéril, mas por uma vitória definitiva, profunda e real.”

Bertha apostava no poder da educação, união e organização femininas como as chaves para a emancipação. Na educação, depositava a esperança de que essa deixasse de ser “mera acumulação de conhecimentos”, mas que pudesse “tornar-nos úteis, ensinar-nos a cumprir nossos deveres de modo eficaz, dar-nos meios de subsistência, para não sermos obrigadas a uma dependência humilhante”.  

Já quanto à união das mulheres, Bertha complementa, em uma de suas citações mais bonitas:

“’L’union fait la force’, diz a divisa belga; poderia também dizer: traz paz e torna possível a civilização. Enquanto as nações estiverem divididas, haverá guerra, quando se unirem, virá o reino da paz. Enquanto a mulher estiver só, será sempre o ser frágil que flutua à mercê das circunstâncias. quando se unirem, elas tornar-se-ão uma grande força. Por isso, devem ser fundadas associações de classe”. (Rio Jornal, março de 1919)

Atenta às diferenças sociais, preocupava-se também com a união das mulheres pobres e trabalhadoras, e se incomodava com a falta de apoio das mulheres ricas, destacando que “são mulheres que trabalham, as mulheres que vivem de seu próprio esforço, as mulheres que precisam rodear-se de garantias e amparos na luta pela vida, que compete dar o primeiro passo na vida associativa. (…) As principais vantagens dessas associações seriam a defesa coletiva de interesses, a assistência à maternidade, à enfermidade e à invalidez, a difusão da instrução. Por que nada disso existe? Por falta de iniciativa. Por inconsciente egoísmo das mulheres cultas e ricas, que ainda não pensaram em tornar mais fácil a vida de suas irmã pobres.” (O Jornal, fevereiro de 1919).

Além dessas ideias sóbrias, no texto intitulado “Em que consiste o feminismo?” (Rio Jornal, abril de 1919) Bertha Lutz resume bem seu pensamento, do qual compartilho:

“O feminismo não procura, é claro, negar as diferenças psicológicas e fisiológicas entre o homem e a mulher e reconhece a influência sobre as que, sendo verdadeiramente irredutíveis, devam ter as relações individuais e mesmo sociais. Não acredita, porém, que elas indiquem superioridade, de um lado, inferioridade, de outro, e assim entende que apenas devem ser consideradas nos casos em que de fato tenham importância, podendo ser deixadas de lado em outros casos nos quais seu papel é insignificante, ou mesmo nulo.”

Confesso que, ao me propor a escrever sobre Bertha Lutz, pouco sabia sobre sua história. Entretanto, o contato com seus textos foi uma experiência ótima. Suas contribuições, naquela época, para os direitos que temos hoje são imensuráveis, porém, muitas de suas ideias continuam atuais e merecedoras de nossa atenção para a construção de uma sociedade mais igualitária.

[As mulheres] “Divididas, são fraqueza. Juntas, serão uma força“.

Fonte: Lôbo, Y. 2010. Bertha Lutz.  ISBN 978-85-7019-529-6

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Entre cobras e lagartos… e cientistas

Um artigo publicado recentemente na Science tem causado muito barulho no meio científico, por duas razões: a primeira refere-se à descoberta científica propriamente dita, que é um marco importantíssimo na elucidação da história evolutiva das serpentes; a segunda, a questões éticas e legais da descoberta.

No dia 24 de Julho, foi publicado um artigo descrevendo  o fóssil de Tetrapodophis amplectus, uma serpente com 4 patas, de aproximadamente 120 milhões de anos. Apesar de apresentar patas, o espécime apresenta características típicas da anatomia de serpentes, como corpo mais longo que a cauda, uma única fileira de escamas na região ventral e evidência de hábito carnívoro. Acredita-se também que Tetrapodophis não utilizava as patas para locomoção, mas sim para agarrar presas, ou talvez o parceiro durante o acasalamento.

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Representaçao artística de Tetrapodophis dominando presa. Imagem: Julius T. Cstonyi Nature doi:10.1038/nature.2015.18050

A importância desse fóssil para compreensão da história evolutiva dos répteis é imensurável, pois seria um “elo perdido” da transição entre lagartos e serpentes, trazendo luz a muitas questões debatidas há tempos entre especialistas. Por exemplo, sabe-se que serpentes teriam evoluído a partir de ancestrais lagartos, com patas, mas em que contexto teria acontecido a perda dessas? A anatomia do fóssil recém-descoberto sugere que Tetrapodophis apresentava hábitos fossoriais, portanto, corroborando a hipótese de que a transição ocorreu em meio terrestre. Ainda, juntamente com outros fósseis de serpentes, o Tetrapodophis corrobora a hipótese de que o grupo se originou na Gondwana, supercontinente que hoje constitui os continentes do hemisfério sul do planeta. Isso porque o fóssil em questão é originário do Brasil. Mais especificamente, da Bacia do Araripe, no Ceará.

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Holótipo de Tetrapodophis amplectus. Imagem: Dave Martill et al. 2015

E aí começa a discussão mais grave, e o motivo pelo qual paleontólogos brasileiros estão solicitando à Polícia Federal a investigação do caso. O exemplar estava depositado no museu alemão Bürgermeister-Müller e, segundo o britânico David Martill, autor do trabalho, teria vindo originalmente de uma coleção particular. Entretanto, a comercialização e retirada de fósseis do Brasil sem autorização é ilegal desde 1942 (Veja as leis de proteção  aqui). Portanto, é bastante provável que o exemplar tenha chegado às mãos de David Martill por vias ilegais. Afinal, um fóssil tão importante não passaria despercebido por tanto tempo, não é mesmo?

Quando questionado sobre a procedência do material, o autor respondeu que “não dá a mínima para como o fóssil saiu do Brasil”. Martill é um crítico conhecido das leis nacionais de proteção de material geológico e paleontológico, alegando que apenas dificultam o desenvolvimento da ciência, e que não deveriam existir tais segregações, uma vez que “nenhuma sociedade existia quando os fósseis foram formados”.  Ele argumenta ainda que, no Brasil, muitos fósseis são destruídos pela mineração, mas quando há interesse em usá-los para fins científicos, trata-se de crime.

Esse caso traz à tona diversas questões éticas envolvidas na ciência, como: Até que ponto as leis de um país podem influenciar no desenvolvimento científico? ou: É ético violá-las? Qual a responsabilidade da revista que aceita tal publicação, sem se preocupar com a procedência do material? (a Science, assim como a maioria das revistas, não tem regulamento claro sobre isso) Até que ponto a ciência básica, especificamente a biociência, pode ser “neutra”? É possível ignorar aspectos legais, históricos e culturais de uma nação, “pelo bem da ciência”?

Talvez o mais grave disso tudo, seja a postura arrogante e discriminatória de Martill, demonstrada abertamente quando questionado se ele não deveria ter ao menos considerado a participação de um paleontólogo brasileiro no estudo: “Que diferença faria?” respondeu “Quero dizer, você também quer que eu tenha um negro no grupo  por razões étnicas, e um deficiente e uma mulher, e talvez um homossexual também, apenas para ter um grupo politicamente correto?” (tradução livre, entrevista completa  aqui).

Me parece que, apesar da descoberta de uma peça importantíssima do quebra-cabeças da história dos répteis, ainda temos muito a evoluir em outras questões no meio científico.

Fontes:

David M. Martill et al.Science 349, 416 (2015) doi: 10.1126/science.aaa9208

Anastasia Christakou Nature News (2015) doi:10.1038/nature.2015.18116