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“O dia depois de amanhã” pode ser real?

Modelos climáticos finalmente sugerem que colapso da circulação do Oceano Atlântico não só é possível, como levaria o continente Europeu a uma nova “Era Glacial”.

Fonte: Setor norte da Circulação/Célula de Revolvimento Meridional. Jack Cook, Woods Hole Oceanographic Institute.

 

Filmes de ação e thrillers apocalípticos, como “O dia depois de amanhã” de Roland Emerich, vêm retratando consequências catastróficas de um eventual colapso da circulação do Oceano Atlântico há pelo menos 20 anos. Até recentemente, no entanto, nenhum modelo climático havia sido capaz de reproduzir tal colapso.

Esse padrão de circulação, conhecido como Circulação de Revolvimento Meridional  (Atlantic Meridional Overturning Circulation – AMOC), é de extrema importância para a manutenção do clima global, na medida em que atua no balanço de calor. A AMOC transporta pela superfície águas quentes do equador em direção aos pólos e, em profundidade, águas frias dos pólos em direção ao equador¹. A comunidade científica acreditava na estabilidade desse padrão até janeiro de 2017, quando um artigo² publicado na revista Science Advances apontou erros em diversos modelos climáticos que estariam superestimando essa estabilidade. Ao neutralizar esses erros e efetuar novas simulações, os autores reproduziram o colapso da circulação em algum momento no futuro, o que paralisaria o transporte dessas águas quentes em direção à Groenlândia e culminaria no resfriamento de todo o continente Europeu.

Como cenário para as simulações, os autores utilizaram variações nas concentrações de CO2, o principal vetor do aquecimento global antropogênico³. As simulações finais apontaram o colapso da AMOC como sendo 300 anos depois que as concentrações de CO2 na atmosfera dobram a concentração de 355ppm (nível registrado em 1990). O efeito desse colapso seria o resfriamento do Oceano Atlântico Norte (aprox. -2.4° C em média na superfície) e a consequente expansão do gelo marinho do Ártico. Como as trocas de calor entre o oceano e a atmosfera são responsáveis pela manutenção do clima, a temperatura do continente Europeu também cairia (em média 7° C), causando profundas mudanças no clima da região ou uma pequena “Era Glacial”.

Essa nova descoberta tem enormes implicações para o campo das Mudanças Climáticas, indo de encontro aos últimos dois relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC). O IPCC até então considera a AMOC “estável e não colapsável”, enquanto admite que ela pode enfraquecer o transporte de calor com o tempo. Nesse sentido, esse estudo contribui, principalmente, na melhora das previsões de cenários climáticos, já que trabalham com os erros intrínsecos dos modelos climáticos mais utilizados. Entretanto, para que se compreendam na totalidade os desdobramentos do colapso da AMOC ainda serão necessários mais estudos que desenvolvam esses novos e interessantes resultados.

Dito isso, se faz necessário mencionar e se posicionar contra a tragédia anunciada que a agenda ambiental prometida pelo novo governo causará a curto e a longo prazo a diversos setores produtivos do Brasil. Durante a campanha, Jair Bolsonaro deixou claro que a agenda ambiental não só não será prioridade, como servidores e órgãos reguladores perderão autonomia de fiscalização e preservação dos recursos naturais brasileiros. Recentemente, foi decidido pelo Itamaraty e pelo futuro chanceler Ernesto Araújo, que a Conferência do clima das Nações Unidas (COP 25) que serviria como local de negociações para implementação do Acordo de Paris deixará de ser sediada no Brasil em 2019 por conta de “restrições fiscais e orçamentárias” e devido ao “período de transição da nova administração”.  O presidente eleito Jair Bolsonaro, que votou a favor da PEC do teto de gastos enquanto deputado federal, diz que teve participação nessa escolha, ou seja, que ela não foi exclusiva do seu chanceler. É no mínimo lamentável que uma decisão dessa magnitude seja tomada por (1) um futuro chanceler que vive na Guerra Fria e acredita que o tema “Mudanças Climáticas” é uma conspiração marxista e puro alarmismo e (2) um presidente eleito que foi multado dentro de uma reserva por pesca ilegal e nunca pagou sua multa. Infelizmente, esse posicionamento tacanha e de negação de evidências científicas tende a retirar o Brasil de sua posição de líder global nas questões ambientais, posição essa que ocupa desde a histórica cúpula climática Rio 92.

Além do perigo a curto prazo para patrimônio natural brasileiro, essa agenda negacionista é uma ameaça para a economia brasileira. Todos os países que implementaram medidas de mitigação para as mudanças climáticas aumentaram seu PIB e geraram empregos. Recentemente, um relatório produzido a pedido do Congresso dos Estados Unidos mostra que 10% do PIB do país será comprometido em função das mudanças climáticas até o fim deste século. O documento mostra que centenas de bilhões de dólares são gastos por conta das políticas ambientais de Donald Trump, cuja agenda econômica orbita em torno dos combustíveis fósseis e negligencia energias renováveis – políticas essas que servem de guia ao presidente eleito Jair Bolsonaro, admirador declarado do presidente americano.

A retirada da candidatura do Brasil para a COP 25 demonstra com clareza o que devemos esperar da agenda ambiental do novo governo: exposição irrestrita dos brasileiros aos riscos e implicações dos efeitos das Mudanças Climáticas. Em tempo, esse posicionamento ameaça a possibilidade de um Brasil forte e soberano no futuro, pois entrega nossos recursos naturais a própria sorte pela má gerência e impacta a economia brasileira. Veremos nossos setores produtivos em dificuldade, danos materiais por conta de desastres naturais aumentando e uma defasagem tecnológica que nos impedirá ou tornará extremamente cara nossa mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. O Brasil, ao que tudo indica, terá muita dificuldade em sair respirando ao fim desses quatro anos.

 

Referências

¹Talley, Lynne D. “Descriptive physical oceanography: an introduction.” Academic press, 2011.

²Liu, Wei, et al. “Overlooked possibility of a collapsed Atlantic Meridional Overturning Circulation in warming climate.” Science Advances 3.1 (2017): e1601666.

³Stocker, T. F., et al. “IPCC, 2013: climate change 2013: the physical science basis. Contribution of working group I to the fifth assessment report of the intergovernmental panel on climate change.” (2013).

 

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Como estarão a Antártica e o Oceano Austral em 2070?

 

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Foto: Iceberg no Setor Atlântico do Oceano Austral. OPERANTAR XXXIII. Natalia Ribeiro

Apesar de ser uma das regiões mais remotas do planeta, a Antártica está completamente acoplada ao restante do sistema climático terrestre. As teleconexões oceânicas e atmosféricas se comunicam com as variações do clima das baixas às altas latitudes, influenciando a atmosfera polar, a estabilidade das plataformas de gelo, o gelo marinho e a própria biosfera. Dada a influência da Antártica e do Oceano Austral no aumento do nível do mar, clima e ecossistemas marinhos em geral, mudanças na região trazem consequências generalizadas para o planeta e para a humanidade. Por conta da situação política do continente e do oceano, que são divididos e regulados por um conjunto de países através do Tratado Antártico, todas as decisões dependem de esforço global e, portanto, estão idealmente atreladas aos interesses de todos e não somente a uma nação. Dessa forma, as decisões tomadas no presente, serão as responsáveis por como será o mundo do futuro para as crianças de hoje.

Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, pesquisadores discutem dois cenários sob a perspectiva de um observador do futuro, baseado nas decisões tomadas 50 anos antes. (1) No primeiro cenário, as emissões de gases do Efeito Estufa não foram controladas, o clima segue esquentando e as decisões tomadas para responder às mudanças climáticas foram inefetivas de forma geral. (2) No segundo cenário, ações ambiciosas foram tomadas para limitar as emissões de gases do Efeito Estufa e para estabelecer políticas que reduzissem a pressão antropogênica sobre o ambiente. Para desenvolver esses cenários foram utilizados dados quantitativos de modelos climáticos para variáveis físicas e químicas e, quando não era possível (ex. avaliação da situação dos sistemas biológicos e sociais), foi feita uma análise heurística, baseada no entendimento dos processos e respostas conhecidas de mudanças passadas.

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Fig. 1 | Antártica e Oceano Austral em 2070, sob os cenários de “baixas emissões/ações efetivas (esquerda) e “altas emissões/ações fracas” (direita).

(1) Antártica em 2070 sob altas emissões, segundo nosso viajante do futuro:

“Observando os 50 anos anteriores, fica claro que os últimos 50 anos se desenvolveram de acordo com o esperado pelo 5˚ Relatório do IPCC (2013). A demanda por alimentos e energia aumentou devido ao crescimento populacional e foi suprida por intensa atividade agrícola, principalmente sustentada por combustíveis fósseis e desmatamento. Isso, aliada à falta de regulação das emissões, acabou por aumentar ainda mais as emissões de gases de efeito estufa.

A temperatura média do ar já é mais de 3.5˚C mais alta que no fim do século XIX, o que excede os 2˚C recomendados pelos acordos climáticos internacionais (como o Acordo de Paris). A temperatura do Oceano Austral aumentou 1.9˚C o que, aliada à dessalinização por conta do aumento da precipitação, causou profundas mudanças na circulação dos oceanos e colapso de plataformas de gelo tanto do oeste como do leste da Antártica. Os icebergs gerados são cuidadosamente monitorados por conta do aumento do tráfego de navios na área, tanto de turismo como navios de pesca e navios comerciais. A melhora do acesso ao continente, aumentou consideravelmente a pesca. Rapidamente a sobrepesca de algumas espécies base alterou as cadeias tróficas, diminuindo o número de predadores de topo (como os pinguins) e ferindo a biodiversidade da região. Espécies invasoras no continente, especialmente de plantas, também são uma realidade.

O aumento do nível do mar já causa mais de 1 trilhão de dólares de prejuízo por conta de 27 cm de aumento, e as taxas esperadas para os próximos anos consideram um aumento de 10m irreversível, números similares ao último período de deglaciação da Terra.

As alianças começam a dar sinais de desgaste. Muitas discussões sobre criação de espécies marinhas e, principalmente, mineração, e como esses recursos poderiam ser divididos entre as nações causam conflitos que parecem ser irreversíveis. A conservação vai perdendo a importância e a Antártica hoje é tratada como um Parque Nacional ou reserva ambiental, vivendo precariamente do balanço entre turismo, lucro possível e conservação da biodiversidade.”

(2) Antártica em 2070 sob baixas emissões, segundo nosso viajante do futuro:

“Embora as perspectivas de ação global eficaz para mitigar as emissões parecessem sombrias em 2015, a subsequente ratificação do acordo climático das Nações Unidas em Paris (Acordo de Paris) por 196 países, anunciou uma nova era de cooperação internacional para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A redução mais rápida do que o previsto nos custos das energias renováveis ​​desencadeou uma rápida transição do carvão. Um aumento na magnitude e frequência de eventos climáticos extremos que afetam grandes populações e economias destacou a vulnerabilidade generalizada e convenceu os tomadores de decisão a aumentar sua ambição de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, com o forte envolvimento de cidades, regiões e empresas. Como resultado dessas políticas, a ampliação dos feedbacks de carbono não foi acionada, e estamos agora no caminho para manter o aquecimento bem abaixo da meta de 2°C. Novos caminhos financeiros ajudaram a criar um mercado de carbono funcional e equitativo, que é um incentivo para a rápida transição para uma economia de baixo carbono. Líderes empresariais e gestores de fundos começaram a apreciar as oportunidades financeiras e outros co-benefícios da transição associada à descarbonização, e as novas tecnologias permitiram o sequestro seguro e eficiente e, por fim, a remoção de gases de efeito estufa da atmosfera. O amplo reconhecimento dos perigos do uso irrestrito de combustíveis fósseis inspirou mudanças nos padrões de consumo no mundo desenvolvido, incluindo mudanças em dietas baseadas em plantas mais sustentáveis ​​e mudanças na agricultura e práticas de uso da terra. A disponibilidade de energia renovável de baixo custo permitiu que os países em desenvolvimento fornecessem energia acessível e diminuíssem a pobreza.

A temperatura do ar e demais aspectos da atmosfera, como o padrão de ventos, se mantiveram muito similares aos padrões de 50 anos atrás. As tendências de aquecimento e dessalinização no Oceano Austral observadas no início do século XXI foram se reduzindo até reverterem entre 2020 e 2050. As plataformas de gelo ficaram menos expostas às águas quentes, mas essa mudança não aconteceu rápido o suficiente para preservar as plataformas do oeste da Antártica. Quanto às plataformas do leste da Antártica, mais volumosas, estas se mantiveram relativamente intactas. O aumento do nível do mar foi de 6cm e continua principalmente sendo derivado da expansão térmica. O gelo marinho também retraiu, mas apenas 15%.

Em relação à biodiversidade, a estrutura continua muito parecida com a de 50 anos atrás e as espécies invasoras continuam controladas, principalmente porque a relativa estabilidade da  temperatura manteve o ambiente inóspito para as espécies que dominam os outros continentes. As ações mitigatórias também foram efetivas em diminuir a taxa de acidificação dos oceanos, preservando a biodiversidade dependente de cálcio e aragonita.

Como reflexo dos bons resultados do Acordo de Paris e motivadas por uma apreciação mais clara das ameaças à região e o valor global de uma melhor compreensão da Antártica e suas ligações com latitudes mais baixas, as nações envolvidas reafirmaram o compromisso de manter a Antártida como uma reserva natural para a paz e ciência.”

E o presente?

Os dois cenários são altamente especulativos e, segundo os autores, a intenção do estudo prioriza mais catalisar a discussão do que fazer previsões diretas para o futuro. A principal lição é que as escolhas feitas na próxima década irão determinar que trajetória seguiremos enquanto humanidade e que, apesar de o caminho da preservação e mitigação não ser fácil, ele é possível.

 

 

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Referências

Rintoul, S.; Chown, S.; Deconto, R.; England, M.; Fricker, H.; Masson-Delmotte, V.; Naish, T.; Siegert, M. and  J. Xavier. 2018. Choosing the future of Antarctica. Nature, 558, 233 – 241.

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Aproveite o carnaval no litoral sem riscos: saiba como evitar o famoso repuxo!

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As correntes de retorno, também chamadas de vala do mar ou repuxo, são fluxos intensos que se deslocam da beira da praia em direção ao oceano aberto, arrastando os banhistas mais distraídos e, muitas vezes, causando afogamentos. Essas correntes são como rios dentro do mar, um fluxo localizado que flui para longe do litoral em direção ao oceano, perpendicular ou em ângulo com a costa. Normalmente termina atrás da zona de arrebentação das ondas e é bastante estreita, com largura inferior a 25 metros. Elas são responsáveis por quase 80% dos afogamentos registrados em praias globalmente, mas sabendo algumas dicas simples, você conseguirá evitá-las!

 

COMO SE FORMAM?

Correntes de retorno são correntes geradas por ondas, através das correntes de deriva litorânea. Quando as ondas quebram, o volume de água que fica acima do nível do mar gera uma diferença de pressão (gradiente) que, ao buscar equilíbrio, forma as correntes de deriva litorânea, fluxos responsáveis pelo transporte de sedimento paralelo à costa. Ao se deslocarem, elas podem convergir e ir para o alto-mar (offshore), formando ou alimentando correntes de retorno já existentes (Fig. 1). Esse fluxo para o oceano aberto normalmente se dá por áreas de menor resistência, como pontos mais baixos (fuja dos “buraquinhos”!), em quebras de bancos de areia ou também em regiões próximas a estruturas, como molhes, píers ou docas (Fig. 2).

A quantidade de correntes de retorno por praia varia de acordo com a distribuição das ondas: se a atividade das ondas é leve, várias correntes podem se formar em vários tamanhos e velocidades. Já sob ação de ondas mais pesadas,  formam-se correntes de retorno em menor quantidade, porém mais intensas. O grande perigo se dá pela velocidade que essas correntes atingem, cerca de 0,5 m/s. No entanto, algumas correntes já registradas chegaram a 3m/s, o que é mais rápido que qualquer nadador olímpico.

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Figura 1. Anatomia da corrente de retorno, mostrando como as correntes de deriva litorânea (longshore currents) formam e alimentam essas estruturas. Imagem de Byron Inouye.

 

 

 

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Figura 2. Diagrama mostrando o canal formado (corrente de retorno – rip current) por uma quebra em um banco de areia (sand bank). Imagem de Kimberly Pascoal.

 

 

COMO EVITAR?

1. Olho no Mar: saiba identificar uma corrente de retorno.

As correntes de retorno costumam ter coloração mais escura que as águas do entorno, pois sua velocidade acaba suspendendo o sedimento que fica no fundo. Também podem ser identificadas pela interrupções da zona de arrebentação, pois por onde elas passam as ondas não arrebentam. Seguem abaixo alguns exemplos de correntes de retorno para ajudá-la(o) a reconhecer “as vilãs” quando estiver na praia:

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Figura 3: Praia do Guarujá – SP. Adaptado de:  Prefeitura de Guarujá

 

 

 

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Figura 3: Praia de Maresias (São Sebastião). Adaptado de In Paradise.

 

 

 

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Figura 5: São Francisco do Sul – SC. Retirado do site 7° Batalhão do Corpo de Bombeiros Militar de Itajaí.

2. Saiba antes de ir:

Pesquise como estão as condições do mar em portais locais antes de ir à praia. Veja se não há sinais, como bóias e bandeiras, indicando risco em determinadas regiões antes de entrar na água. Para diminuir ainda mais seus riscos, sempre fique perto dos postos dos salva-vidas.

3. Pés no chão.

Quem nunca ouviu da mãe: “Não pode passar da água na cintura!!”. Era chato, mas é uma ótima dica para quem fica inseguro no mar ou simplesmente não tem muita experiência. Com os pés no chão e boa parte do corpo fora da água, as correntes de retorno dificilmente vão conseguir arrastar você para o oceano aberto. No caso de você perceber que se encontra na corrente, é só se deslocar caminhando para a praia e você estará a salvo.  

 

AI MEU DEUS, CAÍ NUMA CORRENTE DE RETORNO!

Mesmo depois de todos os cuidados você não teve sorte e foi pego pelo repuxo? Não tem problema, você vai sair dessa! Mas você precisa conhecer as suas opções:

1. Primeiro, CALMA.

As pessoas tendem a ficar desesperadas e imaginar que a corrente está puxando elas para baixo. Fique tranquila(o), as correntes de retorno nos levam para o oceano aberto, não para o fundo. Nenhuma corrente oceânica vai puxar ninguém para o fundo na beira da praia. A situação pode ser desesperadora, mas escapar necessita da sua tranquilidade. Se você não é um bom nadador, tente boiar e comece a pedir ajuda. Se conseguir, acene com os braços.

2. NÃO NADE CONTRA A CORRENTE!

Elas são mais rápidas que o Michael Phelps, lembra? Além de não conseguir vencê-la, você vai se cansar (e afundar!). Jamais nade em direção à praia quando estiver em uma corrente de retorno.

3. Hora de sair 

Lembra que elas são bem estreitas? Raramente a largura delas excede o tamanho de uma piscina semi-olímpica. Quando perceber que está em uma corrente de retorno, comece a nadar paralelamente à praia (e ao fluxo) (Fig. 6). Quando você sentir que não está mais sendo puxado para longe da costa, comece a nadar em direção à praia.

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Figura 6: Adaptado e traduzido pelos Bombeiros de Santa Catarina da National Oceanic and Atmospheric Administration, EUA.

 

4. Ajudando outras pessoas

Nunca entre na água para resgatar alguém que você suspeita estar em uma corrente de retorno. Comunique imediatamente aos salva-vidas que tem o equipamento de segurança e a experiência necessárias para o salvamento. Se na praia você verificar que não há sinalização em uma região de corrente de retorno, comunique aos salva-vidas essa necessidade. Sinalizando uma região de risco aos banhistas, você está ajudando a prevenir possíveis acidentes.

Atenção e bom feriado! 🙂

 

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Referências

  1. Komar, P. 1998. Beach Process and Sedimentation, 2a Edição, Prentice-Hall, Upper Saddle River, NJ, 544 pp.
  2. National Ocean Service, National Oceanic and Atmospheric Administration. (NOAA), EUA. https://oceanservice.noaa.gov/facts/ripcurrent.html
  3. 7° Batalhão do Corpo de Bombeiros Militar de Itajaí  https://7bbm.cbm.sc.gov.br/index.php/prevencao/afogamentos.

 

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Os exploradores antárticos: conheça a contribuição dos mamíferos marinhos no estudo dos ecossistemas polares.

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Imagem: agu.org

O Oceano Austral (que pode ser definido como toda área oceânica abaixo dos 60° S de latitude) possui características importantes que lhe conferem um papel de destaque no entendimento das questões relativas às mudanças climáticas globais. Ao mesmo tempo em que é uma das regiões de maior produtividade biológica do mundo¹, também atua na ventilação* das camadas profundas de grande parte dos oceanos globais, sendo então responsável por grande parte do transporte global de calor e água doce e por retirar e armazenar CO2 atmosférico2. Estudos indicam que a sensibilidade desse oceano às mudanças climáticas parece ser maior do que a do resto do planeta3, o que evidencia ainda mais a importância do entendimento dos processos atmosféricos e oceânicos da região.  

Entretanto, a amostragem desse oceano é um desafio bem conhecido da comunidade científica. Fazer pesquisa é muito caro! E na Antártica, mais caro ainda, sem contar as dificuldades de logística impostas pelo clima polar.  A coleta de dados oceanográficos por si só já “quebra a banca”, pois exige o uso de navios – um navio “simples” de pesquisa pode custar até 50.000 reais por dia de mar! Além disso, muitas vezes a quantidade de gelo marinho impede os navios de se aproximarem de áreas de interesse científico, como as cavidades subglaciais e as plataformas continentais. O difícil acesso, condições climáticas adversas (ventos fortes, baixas temperaturas) e os altos valores levam a uma falta de dados observacionais nesse oceano quando comparado a outras regiões.

Para driblar essas dificuldades, o campo da oceanografia operacional tem focado no desenvolvimento de plataformas autônomas de amostragem, como os perfiladores ARGO (Fig. 1), instrumentos autônomos medem temperatura e salinidade (podendo agregar mais sensores, como o fluorímetro para medição de clorofila) do oceano até 2000m, transmitindo os dados via satélite quando em superfície. Operar esses equipamentos em áreas com muito gelo marinho, no entanto, pode se tornar muito complicado, já que ele precisa ficar em superfície em torno de 10h a cada 10 dias para transmitir os dados coletados. Isso faz com que o uso desses equipamentos seja bastante restrito no Oceano Austral (Fig. 2). 

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Figura 1. Ciclo de funcionamento dos perfiladores ARGO: (1) Perfil de salinidade, temperatura e profundidade até 1000m, (2) deriva por 9 dias, (3) desce até 2000m e, finalmente, (4) perfil de subida e transmissão dos dados do ciclo. Fonte: ARGO PROGRAMME.

 

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Figura 2. Distribuição atual dos perfiladores ARGO. Note que o uso desses equipamentos não é compatível com a presença de gelo marinho, o que faz com que não existam muitos deles ativos no Oceano Austral. Fonte: ARGO PROGRAMME, figura do colaborador UCSD.

Nesse contexto, percebeu-se que investigar esse ambiente tão importante requer ajuda dos moradores do continente gelado. Alguns mamíferos marinhos viajam milhares de quilômetros em busca de comida, mergulhando a profundidades de até 1000 m (caso dos elefantes-marinhos). Algumas focas se alimentam sob as plataformas de gelo e nas plataformas continentais, visitando constantemente, inverno e verão, áreas de difícil acesso até mesmo para navios quebra-gelo. Instrumentar esses animais com sensores (temperatura, salinidade, etc), não só permite que se observe diretamente o comportamento alimentar (ou forrageio) dessas espécies, mas garante a obtenção de dados oceanográficos únicos em áreas extremamente remotas nos ecossistemas polares (Fig. 3).  

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Figura 3. Foca instrumentada pelo Australia’s Integrated Marine Observing System (IMOS). Fonte: News Research to Reality, Universidade da Tasmania.

Depois de uma iniciativa científica internacional chamada Southern Elephant seals as Oceanographic Samplers (SEaOS) iniciada em 2004, que foi responsável por instrumentar um grande número de elefantes-marinhos, o projeto MEOP (Marine Mammals Exploring the Oceans Pole to Pole) se estabeleceu durante o Ano Polar Internacional com o objetivo de coordenar os esforços entre programas científicos de países que estivessem investindo nesse tipo de amostragem (entre eles o Brasil, através do financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq) (Fig. 4). Hoje, cerca de 200 elefantes marinhos são equipados todos os anos com sensores de condutividade (que mede salinidade), temperatura e pressão (CTD) e os mamíferos marinhos são responsáveis por 98% dos dados coletados sob o gelo marinho e por 80% de todos os dados de temperatura e salinidade do oceano Austral como um todo4.  

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Figura 4. Posição dos dados coletados por mamíferos marinhos disponíveis para uso científico. A contribuição do Brasil (em azul) é de 15505 perfis, coletados por 28 instrumentos.

Para garantir que não haverá qualquer dano aos animais e evitar que o aparelho interfira na vida normal deles, existe um rígido protocolo para a instalação do equipamento. O CTD é colado à pele do mamífero, assim que administrada a sedação. Como eles passam por um processo de muda todos os anos, o instrumento eventualmente cai – se não for recuperado pelos pesquisadores antes. Logo que os CTDs são instalados, eles já passam a coletar dados quando os animais estão dentro da água. Quando na superfície, os equipamentos transmitem os dados coletados via satélite, que são então processados e disponibilizados pelo MEOP para uso da comunidade científica (Fig. 5). No momento, são 371768 perfis disponíveis, de 2004 até Junho de 2016  (Fig. 4).

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Figura 5. Ciclo de funcionamento dos CTDs de mamíferos: (1) Instalação, (2) instrumento mede temperatura, salinidade, pressão enquanto o animal estiver na água (3) transmissão via satélite quando em superfície e, finalmente, (4) processamento e disponibiliazação para uso científico. Fonte: MEOP.

 

Os dados coletados têm permitido uma série de descobertas científicas. Na oceanografia física, por exemplo, os mamíferos já ajudaram a identificar um novo local de formação da Água de Fundo Antártica5 e taxa de formação de águas profundas6.Os dados hidrográficos coletados já foram capazes de refinar modelos que incluem gelo marinho e devem ajudar a melhorar as projeções de modelos oceânicos em geral. Esse monitoramento também têm sido importante para o estudo desses animais e da ecologia do ecossistema polar4. Como esses dados podem ser considerados novos, existe uma gama de possibilidades ainda não exploradas totalmente pelos cientistas.

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Filhote de Foca-de-Weddell. Fonte:  Wikipedia.

 

 

No aguardo das novas descobertas!

 

 

 

*Ventilação:  processo pelo qual águas superficiais formam águas intermediárias ao penetrarem extratos mais profundos (ocorre principalmente no inverno nas áreas subtropicais)7.

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Referências:

  1. Emerson, S. & Hedges, J. 2008. Chemical Oceanography and the Marine Carbon Cycle. Cambrigde University Press, Reino Unido, 453 p.
  2. Orsi, A.H., Johnson, G.C. & Bullister, J.L. 1999.Circulation, mixing and production of Antartic Bottom Water. Progress in Oceanography, 43: 55 – 109.
  3. Sprintall, J. 2003. Seasonal to interannual upper ocean variability in the Drake Passage. Journal of Marine Research, 61: 27-57.
  4. Roquet, F., & Coauthors. 2014. A Southern Indian Ocean database of hydrographic profiles obtained with instrumented elephant seals. Nature Scientific Data, 1: 140028.
  5. Ohshima, K., & Coauthors. 2013. Antarctic Bottom Water production by intense sea-ice formation in the Cape Darnley polynia. Nature Geoscience, NGEO1738.
  6. Williams, G., & Coauthors. 2016. The suppression of Antarctic bottom water formation by melting ice shelves in Prydz Bay. Nature Communications, 7, 12577.
  7.  Talley, L. D. Descriptive physical oceanography: an introduction. Academic press, 2011.
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A baixa representatividade das mulheres no legislativo brasileiro: o Parlamentarismo resolve?

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O Parlamentarismo é um modelo de governo que privilegia a figura da(o) primeira-ministra(o), cargo escolhido por parlamentares, em detrimento da figura de presidente, que perde poder. Entre as discussões sobre os pontos positivos e negativos do modelo atual, o Presidencialismo, e a nova proposta, surgiu a afirmação de que o Parlamentarismo aumentaria a representatividade das mulheres na política. Antes de discutirmos a veracidade dessa afirmação, é importante que se entenda qual a realidade da representatividade feminina hoje no legislativo brasileiro.

A situação das mulheres na política no Brasil não é das mais animadoras: de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres representam menos de 11% do legislativo federal, dados que apresentam melhoras tímidas a cada nova eleição. Na Câmara, são 51 mulheres do total de 513 deputados, enquanto no Senado são 11 representantes femininas para um total de 81 senadores. Esses números eram ainda menores em 2010, havendo apenas 45 e 8 mulheres entre os eleitos para a câmara e o senado, respectivamente.

Hoje, ainda existem estados brasileiros sem nenhuma mulher em suas respectivas bancadas da câmara e, ainda que tenha havido um aumento de 13,33% no número de deputadas, elas representam apenas 10% do total dos deputados em exercício. Em 2010, na eleição que renovou 2/3 do Senado Federal, somente 13% dos eleitos eram mulheres. A proporção de senadoras eleitas subiu na eleição de 2014 (18.5%) e hoje a bancada feminina do Senado representa 14% dos senadores com mandato vigente (ver esquemas abaixo). Esses números ainda estão bem longe dos ideais estabelecidos pela ONU, que indica que as mulheres devem ocupar ao menos 30% dos cargos de liderança em governos e partidos políticos para garantia da promoção da igualdade de gênero.

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Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Em contrapartida, a maioria do eleitorado brasileiro é feminino, representando mais de 50% em todas as faixas etárias consideradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (ver figura abaixo). Mulheres não estão votando em mulheres e isso tanto pode ser em decorrência da falta de candidatas como do próprio alcance das campanhas.

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Estatísticas do Eleitorado para as Eleições de 2014. Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Na legislação eleitoral vigente na eleição de 2014, o financiamento privado era fundamental, o que beneficia tanto o candidato que possua fundos próprios como aquele que consiga mais doadores. Isso já coloca as mulheres em extrema desvantagem, uma vez que a maioria dos doadores tendem a apoiar candidatos homens e normalmente elas possuem menor capital econômico. A falta de capital político também prejudica as mulheres, já que elas sofrem mais para se integrarem a redes políticas e sociais ou chegarem a altos postos de hierarquia nas entidades de representação civil (como sindicatos, partidos etc). Além dos obstáculos elencados, as candidatas também enfrentam problemas intrapartidários, uma vez que os partidos tendem a repassar menos recursos dos fundos partidários para as mulheres (Sacchet, 2012). A recente Reforma Política proíbe doações de empresas, mas o quanto isso irá impactar na proporção da divisão de recursos entre homens e mulheres ainda será preciso observar.

Iniciativas que visam a inclusão da mulher na esfera política tem trazido resultados. A conscientização feminina e da sociedade nos últimos anos (por meio de campanhas das mais diversas origens), contribuiu para o aumento no número de candidatas ao cargo de deputada federal nas eleições de 2014. Esse aumento também resulta da Lei n° 12.034, aprovada em 2009, que obriga que as candidaturas aos cargos proporcionais – deputado federal, estadual ou distrital e vereador – sejam preenchidas (e não apenas reservadas, como era antes) com o mínimo de 30% e o máximo de 70% de cidadãos de cada sexo. Apesar dos números virem crescendo, a porcentagem de mulheres que se candidatam a cargos públicos ainda é inferior a dos homens. Além disso, o sucesso das candidaturas está fortemente ligado ao aporte de recursos, que não são igualmente distribuídos entre os gêneros. As mulheres recebem proporcionalmente menos dinheiro para suas campanhas (Sacchet, 2012), enquanto os homens têm mais facilidade na hora de arrecadar fundos – uma realidade sistemática na maioria dos estados brasileiros.

Quanto ao Parlamentarismo, não é claro o quanto sua implementação aumentaria a representatividade feminina no legislativo. O programa político do PSDB (partido favorável à implementação do modelo) do dia 17 de Agosto afirmou que:

Em todos os países parlamentaristas existe uma forte representação das mulheres.

Essa afirmação foi checada pelo Truco, projeto de checagem de fatos da Agência Pública, que descobriu 79 países parlamentaristas nos quais a representação feminina no parlamento está abaixo do ideal de 30% estabelecido pela ONU. De acordo com dados da União Interparlamentar (UIP) (ver Tabela), organização internacional que promove a colaboração e o diálogo entre parlamentos de todo o mundo, somente 47 países de diferentes sistemas atingem a proporção indicada pela ONU em suas Câmaras, sendo 29 deles parlamentaristas e 17 presidencialistas. Além do número expressivo de países parlamentaristas com representatividade feminina abaixo do considerado ideal, o número de países acima do mínimo não é significativamente relevante para que se afirme que o Parlamentarismo teria uma ligação direta com o aumento da representatividade feminina no legislativo.

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Fontes: Truco, União Interparlamentar (UIP), CIA The World Factbook.

No caso do Brasil, a inclusão das mulheres na política e a diminuição na desigualdade de representação parecem estar mais relacionadas às iniciativas de combate às desigualdades intrínsecas das campanhas, que continuarão operando quase que inalteradas no que diz respeito à promoção da igualdade de gênero na política.

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 Referências:
L12034, de 29 de Setembro de 2009.
Sacchet, Teresa, and Bruno Wilhelm Speck. “Financiamento eleitoral, representação política e gênero: uma análise das eleições de 2006.” Opinião Pública 18.1 (2012): 177-197.
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Como se formam os furacões e porque eles podem se tornar mais frequentes e mais destrutivos.

Harvey, Irma, José, Kátia, Maria… A temporada dos furacões e tempestades tropicais do Atlântico 2017 veio com muito intensidade e potencial destrutivo, atingido principalmente as ilhas caribenhas, mas também partes dos Estados Unidos. Essa temporada tem chamado a atenção não somente pela quantidade de furacões, mas também pela intensidade deles e pelo seu tamanho. Pela primeira vez desde 2010, três furacões de alto potencial destrutivo estiveram ativos ao mesmo tempo no Oceano Atlântico (Ver figura abaixo); um deles, Irma, atingiu o continente com categoria 5 na escala Saffir-Simpson (ver Infográfico) com área de ação maior que o estado do Texas. O rastro de destruição deixados por esses furacões, em especial Harvey e Irma, é similar à temporada de 2005 quando os furacões Katrina e Wilma protagonizaram a maior destruição já registrada ao atingirem à Louisiana e o Caribe, respectivamente.

Os recentes eventos levantam o questionamento se a frequência e intensidade desses fenômenos seria considerada normal. Para discutir isso, o blog Cientistas Feministas explica como se formam os furacões e como o aquecimento global pode estar fortalecendo e aumentando a ocorrência desses fenômenos.

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Registro dos três furacões ativos no Oceano Atlântico na temporada de 2017. Fonte: National Hurricane Center, NOAA.

 

Como se formam os furacões?

Furacões são as tempestades mais violentas do nosso planeta e, como necessitam de calor para se formarem, normalmente ocorrem na região equatorial. Eles são classificados em cinco categorias em uma escala chamada Saffir-Simpson que levam em consideração a pressão medida no centro do fenômeno, velocidade dos ventos e tempestades provocadas pelo furacão¹.

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Infográfico da Escala Saffir-Simpson comparando com os ventos esperados para o furacão Irma. Fonte: BBC Brasil.

Os ingredientes básicos para a formação de um furacão são:

1) Ar quente e úmido como combustível || Os furacões se alimentam da água quente do oceano superficial e é por isso que somente se formam em regiões tropicais e equatoriais onde as águas oceânicas estão acima dos 26°C nos primeiros 50m de profundidade.

2) Vento || No caso dos furacões do oceano Atlântico, os ventos de leste para oeste que vêm da África na região equatorial são os responsáveis pela formação dessas estruturas. Quando em contato com a superfície do oceano quente, a água evapora e sobe. Esse vapor de água se resfria à medida que ganha altura, condensando novamente em gotículas de água e, eventualmente, formando as conhecidas nuvens de tempestade cumulonimbus.

Como o ar quente, mais leve, se moveu para cima, há menos ar deixado perto da superfície do oceano, gerando uma baixa pressão. O ar das áreas circundantes de maior pressão é “empurrado” para a área de baixa pressão. Então, esse ar “novo” aquece, fica mais úmido e também sobe. É dessa forma que as tempestades se formam: à medida que mais ar quente continua a subir, o ar circundante se arrasta para tomar seu lugar e, conforme o ar aquecido e úmido se eleva e esfria, o vapor d’água condensa formando mais nuvens. Todo o sistema de nuvens e vento gira (por conta do efeito de rotação da Terra) e cresce, alimentado pelo calor do oceano e água evaporando da superfície. Conforme o sistema vai girando mais rápido um olho com pressão bastante baixa se forma no centro para onde o ar das pressões mais alta flui enquanto a tempestade gira. Quando os ventos atingem 62 km/h, a tempestade é chamada de tempestade tropical. E quando as velocidades do vento atingem 119 km/h, a tempestade é oficialmente um furacão.

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À esquerda, um esquema feito pela NASA de um furacão, como se ele tivesse sido fatiado na horizontal. As setas vermelhas finas mostram o ar subindo da superfície do oceano e formando as camadas de nuvens ao redor do olho. As setas azuis representam o ar já resfriado e seco de alta pressão fluindo para o olho entre as nuvens. As setas vermelhas largas mostram o giro do cone de nuvens em ascensão.

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À direita uma imagem de satélite do Furacão Irma fornecida pelo NOAA Satellite and Information Service.

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Enquanto estiverem sobre o oceano superficial de águas quentes, os furacões irão crescer e aumentar sua velocidade. Esses sistemas geralmente se enfraquecem quando atingem a terra, porque já não estão sendo “alimentados” pela energia das águas quentes dos oceanos. No entanto, muitas vezes se movem para o interior, causando destruição por conta dos fortes ventos e grandes volumes de chuva antes de se desfazerem completamente².

Mudanças Climáticas vs Eventos Extremos

Já existe consenso entre a comunidade científica no sentido de que o aquecimento global levará, em tempo, à intensificação e ao aumento da frequência de eventos extremos, como enchentes, deslizamentos, secas, ondas de calor e furacões³. Já falamos um pouco sobre isso no último Dia Mundial dos Oceanos.

No caso da presente temporada de furacões do Atlântico, além do impacto do aquecimento global, é preciso analisar outros fatores que influenciam na formação dos furacões nessa região. Em anos de El Niño, fenômeno de aquecimento anômalo das águas do oceano Pacífico equatorial, os furacões tendem a aumentar sua incidência no Pacífico e reduzir sua frequência no Atlântico. Como nesse ano de 2017 não estamos em um ano de El Niño, é preciso também levar isso em consideração ao caracterizar a intensidade desses fenômenos².

De qualquer modo, a formação dos furacões e sua intensidade estão intimamente ligadas às temperaturas superficiais dos oceanos que aumentaram significativamente nas últimas décadas e continuarão aumentando pelo menos até o fim do século4. Um oceano mais quente tende a formar furacões em maior número e de maior intensidade. A série histórica do National Hurricane Center já mostra que houve um aumento nos furacões mais intensos e que a frequência dos furacões observada em 2017 não é normal, mas também não pode mais ser considerada uma exceção, visto que essa situação se repete a cada 15 anos em média².

O aumento na frequência e força desses fenômenos até que deixem de ser extremos e passem à chamada “condição normal” é uma das consequências diretas das mudanças climáticas de maior impacto econômico. Mais pesquisas são necessárias para que se quantifique a relação entre o aquecimento global e os furacões, mas as evidências já apontam para a necessidade imediata de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e controle de emissões de gases do efeito estufa a fim de evitar um futuro cenário catastrófico.

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Referências:

¹ What are Hurricanes? NASA knows series. https://www.nasa.gov/audience/forstudents/k-4/stories/nasa-knows/what-are-hurricanes-k4.html

² Tropical Cyclone Climatology, National Hurricane Center, NOAA, USA. http://www.nhc.noaa.gov/climo/

3 From, A. Explaining Extreme Events of 2014. 2015. Bulletin of the American Meteorological Society, 96 (12).

4 Change, IPCC Climate. 2013. The physical science basis. Contribution of working group I to the fifth assessment report of the intergovernmental panel on climate change, 1535 pp.

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Mulheres em um mundo em aquecimento: como a desigualdade de gênero se faz sentir sob à ótica das mudanças climáticas.

November 13th & 14th, 2018 (1)

*Fonte: DW, por Braima Darame.

 

O aquecimento global já não é segredo. A comunidade científica internacional já reconhece e estima o quanto desse aquecimento é devido à atividade humana e, em conjunto com “tomadores de decisão”, organizações e a comunidade em geral, vem propondo medidas e acordos internacionais – como o recente Acordo de Paris – para combater esses impactos.

Ao contrário do que Donald Trump muitos pensam, esses impactos já poderão ser sentidos e vistos pela nossa geração. Desastres naturais como enchentes, deslizamentos, secas e furacões, serão cada vez mais intensos e frequentes1 e a consequência disso já pode ser sentida na agricultura, na biodiversidade, na proliferação de doenças e na qualidade e abundância de água potável2. Isso gera inúmeras implicações para o nosso modo de vida, pois além de interferir diretamente na própria saúde da população, afeta também a economia mundial. As mudanças climáticas, que eram um problema do futuro, são um problema do presente. Um problema que tem endereço, mas também tem gênero e classe social.

As mulheres constituem a maior parte da população mundial pobre e, portanto, são mais dependentes dos recursos naturais ameaçados pelo contexto das mudanças climáticas. Elas também sofrem todo tipo de pressão social, econômica e política que limitam a capacidade delas de se adaptarem a essas mudanças. As mulheres têm acesso desigual aos recursos e pouca participação na tomada de decisões em todos os âmbitos, sendo desproporcionalmente afetadas pelo aquecimento global e suas implicações, principalmente nas zonas rurais3.

Fica claro que não se pode combater a desigualdade de gênero sem combater a pobreza – e a máxima também é verdade no que diz respeito aos impactos das mudanças climáticas.

Existe uma necessidade de identificar estratégias de resposta a crises ambientais e humanitárias que sejam sensíveis às desigualdades de gênero3. Seguindo esse pensamento, a ONU busca essas estratégias levando em consideração os seguintes cenários: recursos hídricos, biodiversidade, saúde, migração e agricultura.

Recursos Hídricos (1)

*Informações do infográfico foram retiradas de “Fact Sheet: Women, Gender Equality and Climate Change”, UN WomenWatch.

 

As mulheres, em particular as mais pobres, são as mais vulneráveis aos impactos das Mudanças Climáticas.

 

Mas, e aí? || Ou, como combater?

O Acordo de Paris, entende a necessidade de incluir políticas que protejam as mulheres das mudanças climáticas em curso. Cabe que se pressione pelo cumprimento das estratégias de resposta a essa desigualdade, transformando as mulheres em agentes combativos que tenham voz nas convenções que tratam do assunto. Também se trata de incentivar a participação das mulheres no campo das tecnologias de mitigação e adaptação, como as energias renováveis, e garantir que o financiamento de tais estratégias também aconteça com igualdade entre os gêneros.

 

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Referências:

1From, A. Explaining Extreme Events of 2014. 2015. Bulletin of the American Meteorological Society, 96 (12).

2 Change, IPCC Climate. 2013. The physical science basis. Contribution of working group I to the fifth assessment report of the intergovernmental panel on climate change, 1535 pp.

3 52nd session of the Commission on the Status of Women. 2008. Gender perspectives on climate change. United Nations.

4 UN Chief Executives Board (CEB). 2007. Coordinated UN System Action on Climate Change. United Nations.

5 Khan, M. M. H. et al. Magnitude of Arsenic Toxicity in Tube-Well Drinking Water in Bangladesh and its Adverse Effects on Human Health Including Cancer. 2003. Asian Pacific Journal of Cancer Prevention, 4. Web.

Arsenic Mitigation in Bangladesh. 2008. Rep., UNICEF. Web.

Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis. 2005. Millennium Ecosystem Assessment.

8 Lambrou, Y. et al. 2006. Energy and Gender in Rural Sustainable Development. FAO, Rome.

UN Women and UNIDO. 2013. Sustainable Energy Services: The Gender Dimension.

10 Resource Guide on Gender and Climate Change. 2009. UNDP, United Nations.

11 Chan, M. 2007. Climate Change and Health: Preparing for unprecedented challenges. Keynote statement, U.S. National Institutes of Health, Maryland, USA.

12 UN Women and UNIDO. 2004. Our Planet: Women, Health and the Environment. United Nations, 15, 12.

13 Migration, Climate Change and the Environment. 2009. Policy brief, IOM.

14 Women and Food Security. 2011. FAO, Rome.