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Pílulas do festival Mulheres do Mundo: feminismo e ciência na veia

Por Renata Fontanetto e Rebeca Bayeh

Durante os dias 16 a 18 de novembro, a praça Mauá foi sacudida pelo festival Mulheres do Mundo (WoW, na sigla em inglês). Nós duas, Renata e Rebeca, fomos selecionadas pelo British Council (BC) para participar do início do programa Mulheres na Ciência e integrar o treinamento em divulgação científica oferecido pelo BC. Foram dois dias intensos de aprendizados e troca de vivências. Depois, tivemos que cobrir o WoW nos três dias de festival. Separamos pequenos momentos que observamos para compartilhar no Cientistas Feministas. Vem junto!

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Cientistas Feministas marcando presença no WoW: na foto, Rebeca Bayeh, Renata Fontanetto, Meghie Rodrigues e Josephine Rua com participantes da sessão “Converse com uma cientista”. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

O protagonismo é das mulheres, a luta é da sociedade como um todo

“Aprendi a ser feminista sem ser feminista”. A frase foi de Avanildo Silva, agrônomo e gestor de projetos da ActionAid, na roda de conversa “A conversa aqui é eles com elas pela igualdade de gênero”. Segundo Silva, os homens deveriam conhecer os princípios, filosofia, métodos e abordagens do dia a dia do feminismo, mas sem roubar o protagonismo e a luta, que sempre será das mulheres. Reconhecendo que as mulheres estão em condição de desigualdade, os homens poderiam ser empáticos à causa e lutar por um mundo mais justo e igualitário impedindo, por exemplo, aquele “brother” machista (racista, homofóbico…) de reproduzir piadas e comportamentos que constrangem individualidades e coletividades. Não vamos conseguir sozinhas porque não vamos e não queremos lutar sem nossos pais, filhos, amigos, familiares e amores. Se for preciso, seguiremos sozinhas. Mas queremos os homens ao nosso lado também! A sociedade como um todo precisa estar engajada.

Um mundo sem “mordidinhas de mosquito”

A física Márcia Barbosa, em fala na discussão “Mulheres na ciência e a potência do trabalho realizado em rede”, disse que as frases que as mulheres ouvem todos os dias, que muitas pessoas na sociedade veem como inofensivas (“mordidinhas de mosquito”, em suas palavras), machucam, expõem, constrangem, isolam e podem causar adoecimento. São frases inoportunas que falam sobre a inteligência de uma mulher, o “absurdo” de ser mãe e querer seguir carreira científica, estereótipos femininos e toda sorte de barbaridades que podem calar uma mulher e prejudicar seu desempenho acadêmico. Para impedir que essas mordidas continuem a nos machucar, é preciso que as universidades e instituições estimulem alunas e docentes a denunciar, criando um ambiente acolhedor e seguro.

Tesoura de repicar

Márcia Barbosa também compara os recortes opressivos às tesouras de repicar, explicando que mulheres são sempre sub-representadas nas ciências, mas que conforme analisamos recortes mais profundos como raça, maternidade e região, as proporções de mulheres que pertencem a minorias são ainda menores.  “O problema é geral, mas é agravado pelas circunstâncias e pelo grupo social do qual você faz parte”, concorda Josephine Rua, também física, que participou da sessão de tutoria “Converse com uma Cientista”, do WoW. Josephine conta sobre um workshop do qual participou no International Center of Theoretical Physics, que reuniu mulheres físicas do mundo todo. “Você vê as diferenças dos típicos casos latino-americanos, os típicos casos africanos, os típicos casos de países africanos que são muçulmanos”, adicionando que alguns passaportes sequer dão acesso a países na Europa e aos EUA, onde a maioria dos congressos científicos acontece.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

As mulheres na divulgação científica precisam se unir!

A jornalista Flávia Oliveira, na mesa “As mulheres precisam conquistar o campo da comunicação”, levantou reflexões sobre a presença feminina no jornalismo e, por tabela, refletimos sobre a presença da mulher na divulgação científica. Entendemos a divulgação científica (DC) como uma área que dialoga fortemente com a comunicação, sendo o jornalismo científico uma das áreas que a integram. Segundo levantamento sobre o perfil do jornalista brasileiro (2012), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), 64% dos profissionais atuantes no país são mulheres, mas os homens continuam sendo maioria nos cargos de chefia. Se mergulharmos num recorte racial, a realidade é ainda mais grave. “Aqui na sala vocês estão vendo 100% das colunistas negras do jornal O Globo”, disse Oliveira, referindo-se a ela e Ana Paula Lisboa, outra palestrante da sessão. A divulgação científica ainda precisa de dados mais sólidos que explorem a questão da presença feminina no campo, mas durante o festival pudemos perceber que isso também precisa ser discutido pela área. Um exemplo que defende o nosso ponto de vista é a presença de mulheres em canais do ScienceVlogs Brasil: ao todo, há 39 canais, sendo que apenas três são de mulheres. Mulheres da divulgação científica, UNI-VOS!

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Na sessão “Converse com uma cientista’, o público podia escolher sua cientista e tirar dúvidas durante 15 minutos. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Representatividade importa

“Se você não pode ver, não pode ser”, repetiu a física e jornalista britânica Sue Nelson ao longo do Festival, no qual participou falando sobre mulheres nas ciências espaciais. Sue, que trabalhou como correspondente da BBC e hoje trabalha na Agência Espacial Europeia produzindo vídeos de divulgação científica, conta que havia apenas três mulheres em sua turma e que todas ouviram ao longo da vida comentários como “você não deveria estar fazendo física”. Ela acrescenta que aprendeu a ignorar comentários misóginos ao longo de sua carreira e a focar em suas ambições profissionais. Ela é entusiasta da ficção científica porque acredita que mulheres podem se inspirar em personagens cientistas. “Se você vê uma mulher fazendo o trabalho, você pensa ‘eu também posso fazer isso’”. E também observa que fora da ficção há cada vez mais representantes femininas na ciência para que as meninas se inspirem. “Felizmente hoje há muito mais mulheres que têm modelos femininos na ciência, porque há mais mulheres fazendo comunicação científica, mais mulheres nas ciências e organizações como Go Science Girl”.

Quem deseja estudar fora precisa se unir e resistir

Na mesa “Sem fronteiras: mulheres que se aventuram a pesquisar fora do Brasil”, pesquisadoras de diferentes áreas compartilharam as experiências que tiveram em temporadas de estudo fora do país. Viver longe da família, estudar um idioma novo e conhecer costumes de uma cultura diferente, ao mesmo tempo em que se escreve dissertação ou tese, pode ser um desafio e tanto. Separamos três conselhos que ouvimos por lá. Para a psicóloga Enoe Isabela de Moraes, que estudou na Inglaterra e é colaboradora no Núcleo de Estudos Afrodescendentes e Indígenas da Universidade Federal de Goiás, é fundamental conhecer os próprios limites para saber o que você está disposto a fazer, bem como entrar em contato com histórias de outras pessoas para observar o que elas passaram e como enfrentaram questões diversas em outro país. A professora de biologia e pesquisadora paraibana Ana Cláudia Gonçalves conta que sentiu a Síndrome do Impostor em todas as suas vivências enquanto fez intercâmbio na Austrália e mestrado no Reino Unido. “Procurem por redes de apoio dentro da universidade para que vocês se fortaleçam”, sugeriu. A física mineira Zélia Ludwig, que passou por temporadas na Alemanha e Estados Unidos, defendeu que é preciso divulgar para outras mulheres a própria experiência. “Quando um já foi e conta para o outro, este outro já vai muito mais destemido. É uma forma de incentivar outras mulheres”.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Estratégias de luta

É unanimidade que mulheres cientistas lidam com problemas que seus pares homens não enfrentam. Mas as perspectivas sobre causas, consequências e estratégias – legítimas em suas respectivas realidades – são diversas. Sue Nelson advoga pelo foco: “Na vida sempre haverá pessoas dizendo que você não deveria estar lá, que você não deveria estar fazendo o que faz, que aquilo não é para você. Você tem que se acostumar com isso, ignorá-los e fazer o que você quer fazer”. Timandra Harkness, escritora, comediante e jornalista científica britânica, conta que já usou o fato de entrevistados subestimarem seu conhecimento científico a seu favor. “Como jornalista, é muito útil que não esperem que você saiba algo, porque isso significa que você pode perguntar ‘o que é um gene?’[…] meu trabalho é conseguir respostas, a audiência quer respostas […]. Você também pode começar com questões pequenas e básicas e então os pegar de surpresa. Eles não estão esperando isso”, compartilha Timandra com humor. Duília de Mello, astrofísica brasileira que também participou do WoW, propõe uma estratégia diante da situação política: “seja uma pessoa positiva em um ambiente negativo […] encontre sua felicidade, porque isso pode mudar a realidade a sua volta”. Duília propõe que se realizar um sonho não é possível agora, o caminho da adaptação e resiliência podem possibilitar sua realização futura ou sua transformação em algo novo. A química brasileira Joana D’Arc Félix de Souza, vencedora de dezenas de prêmios nacionais e internacionais, é uma das mulheres cientistas que conta ter passado por isso, ao narrar sua transição entre sonhar pesquisar nos EUA, mas se ver forçada a voltar para o Brasil e lecionar em uma escola técnica. Ao contar sobre sua trajetória, destaca alguns conselhos-chave. “Você não pode ter vergonha de pedir quando você precisa”, aconselha. Joana advoga pela persistência e compartilha que o preconceito que sofreu serviu como combustível para suas conquistas. “O preconceito pode ser utilizado como ferramenta para formação de cérebros pensantes”.

 

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Confissões de uma cientista mãe

Fechando a série sobre maternidade e ciência, trazemos sete histórias de cientistas brasileiras que vivem a ciência e a maternidade.

Para muitas mulheres, a maternidade chega acompanhada de um sentimento de culpa. Falamos sobre isso na primeira matéria sobre maternidade e ciência, na qual apresentamos dados do grupo Parent in Science que ajudam a traçar o perfil da pesquisadora brasileira mãe. Na segunda, “Ser mãe e cientista: o que está por trás disso?”, levantamos provocações a partir de estudos que se debruçaram sobre o tema. Hoje, vamos trazer depoimentos de cientistas que se disponibilizaram a contar como é a experiência de ser cientista e mãe.

Um dos dados obtidos pelo Parent in Science que mais chama atenção é o que diz respeito à percepção das mães sobre o impacto dos filhos na produção científica: 81% avaliaram de forma negativa, sendo que 59% responderam com “negativa” e 22% com “bastante negativa”. Apenas 5% avaliaram de forma positiva, 2% responderam com “bastante positivo” e 12% marcaram “nenhum impacto”.

Com a falta de políticas públicas de órgãos governamentais para solucionar o cenário e a falta de compreensão por parte de atores dentro das universidades brasileiras, não é de se espantar a avaliação negativa. Ser mãe não é nenhum mar de rosas, como grande parte da sociedade gosta de pregar, e não é vergonhoso admitir-se cansada, sem tempo e com a sensação de que não será possível conciliar maternidade, trabalho e vida pessoal. Pelo contrário, é humano e precisamos dar suporte para que as mulheres se sintam confortáveis a falar sem medo de represálias. Senão, o que estamos fazendo com a saúde mental das nossas mulheres?

Com a palavra, as cientistas.

*O nome verdadeiro foi alterado a pedido da entrevistada.

 

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Rafaela Silva*, doutoranda em Ciência Política, grávida do primeiro filho

Por enquanto ainda não consigo imaginar como seria, de fato, ter um bebê em meio à rotina que, muitas vezes, é de intensa abdicação de vida social e cuidado pra que os prazos possam ser cumpridos. Minha orientadora e co-orientadora me deram todo o apoio necessário e não me cobraram nada além do que era possível no momento. Houve, por parte de algumas pessoas, questionamentos sobre a minha necessidade de usar a licença-maternidade, além de terem afirmado a importância de que eu não a utilize e cumpra os prazos de defesa a tempo, de forma a não perder a chance de um pós-doutorado e a não passar por um processo de estagnação na carreira.

Muitas vezes não nos perguntam se gostaríamos de tirar um tempo para a maternidade. Seguir a vida acadêmica da mesma forma como antes, ou da forma como esperam que sigamos, acaba sendo rotina para aquelEs que não entendem nossas especificidades. No momento, ainda em gestação, estou tentando adiantar um pouco os trabalhos e submeter artigos que estavam prontos, aguardando maturação de ideias e melhorias. É como se eu tivesse que trabalhar agora por duas: pelo que eu deveria trabalhar normalmente e pelo que eu “deveria estar trabalhando quando o bebê nascer”. Penso que as condições que precisam ser oferecidas dentro da sociedade sejam as mesmas para todas as mulheres que estão no período de gravidez, pós-parto, amamentação e no ser mãe. Por exemplo, políticas de creche, licença-maternidade remunerada e ambientes estruturados que possam receber crianças e recém-nascidos para que a mãe não tenha que se deslocar e se isolar do que está fazendo.

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Marcela Miranda*, 35 anos, física

Sou formada na área de exatas. No último semestre de minha pós-graduação, engravidei. Quando informei sobre a minha gravidez, a notícia foi bem recebida pelos meus coordenadores. Com o passar do tempo, as coisas mudaram um pouco. Após a licença-maternidade, fui cobrada em relação à produtividade por ter ficado um tempo longe de projetos e pesquisas. Cobrada justamente em uma época bastante complicada, na qual a rotina muda e estamos sensíveis a tudo. Além disso, queremos estar presentes em todos os momentos de descoberta de nossos filhos. Começa um sentimento de culpa por estar longe em uma época que eles mais precisam da gente. Um tempo depois, minha saúde ficou debilitada e tive que me afastar do trabalho e dos projetos. Inicialmente, senti um preconceito muito grande. Os sintomas começaram a se manifestar e fui diagnosticada, primeiramente, com depressão pós-parto e estresse no trabalho. Ao ter que abandonar tarefas de trabalho e pós-graduaçăo, fui criticada por alguns colegas. Hoje, continuo realizando pesquisas na área, mas não com a mesma produtividade que tinha antes de ter meu filho. Antigamente, no decorrer de minha graduação e de minhas pós-graduações, a prioridade eram os estudos e projetos. Após ser mãe, as prioridades são filho, saúde, família, estudos e projetos!

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Paula Garcia, 37 anos, linguista

Entrei como professora numa faculdade pública em junho de 2010 e, em novembro, vi que estava grávida. Ouvi de alguns colegas de departamento que “dei o golpe”, isto é, esperei passar no concurso para logo sair de licença-maternidade. Fiquei com essa culpa um bom tempo. Ano passado (2017), participei de uma banca de concurso como membro e presenciei a melhor candidata tentando esconder a barriga durante as provas para que sua gravidez não fosse um impeditivo para uma boa classificação. Ela ficou em primeiro lugar, assumiu e logo saiu de licença. Ela vai ter mais 30 anos para trabalhar na universidade, assim como eu. Não serão os seis meses de licença que farão ela trabalhar menos ou ser menos capaz de fazer as coisas. Ao lembrar desses anos, lembro que eu sempre tinha a sensação de dever algo a alguém. Fiz um doutorado, publiquei artigos, participei dos congressos que pude com o marido morando em uma cidade, e os familiares, em outra. Dei e estou dando o meu melhor, mas parecia que minhas ações na universidade eram para comprovar que eu não tinha mesmo tido a intenção de dar um golpe.

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Andréa Wieck Ricachenevsky, 36 anos, bióloga molecular

Bom, meu nome é Andréa Wieck Ricachenevsky, tenho 36 anos, moro em Santa Maria (RS) há dois anos e tenho uma filha, a Maya, também de dois anos. Sempre trabalhei com pesquisa na área de ciências da saúde, mais especificamente com psiconeuroimunologia. Eu engravidei quando meu marido havia passado no concurso para professor da Universidade Federal de Santa Maria. Até então, eu era pós-doutoranda em Porto Alegre. Vim oficialmente para Santa Maria quando a Maya tinha 15 dias e, após o término dos quatro meses de licença-maternidade que tinha direito como bolsista, entreguei a bolsa e, oficialmente, fiquei desempregada.

O primeiro ano da minha filha não fez nem cócegas no meu currículo, pois, como eu sabia que ficaria “um tempo” parada, trabalhei bastante durante a gestação e deixei várias coisas alinhavadas que foram publicadas ao longo desse tempo. Já se passaram dois anos e sigo desempregada. Depois que a gente vira mãe, relativizamos uma série de itens e passamos a não dar importância para coisas que antes eram questão de vida ou morte. Eu, como mãe, não vou me candidatar ou aceitar oportunidades em que eu não tenha certeza que meu marido e filha possam ir comigo. Assim como não vou aceitar fazer algo como passar x dias longe dela e depois voltar. De forma nenhuma estou dizendo que o trabalho não importa ou que deixamos de amar ser cientistas. Não! Apenas digo que observar e acompanhar uma criança se desenvolvendo é uma das coisas mais maravilhosas no mundo. Passa muito rápido. Perdeu o foco, eles já estão em outra fase! E a gente sente falta. Então, sim, a gente muda o foco, dá mais importância para os nossos filhos do que para um artigo e, sim, a gente fica em casa cuidando deles quando estão doentes.

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Paola Sanches, bióloga

Sou bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, com mestrado em Ecologia pela mesma universidade e estou finalizando o doutorado em ciências com ênfase em Oceanografia Biológica pela USP. Sou mãe da Catharina, de 8 meses, que nasceu durante o terceiro ano do meu doutorado. Nos primeiros meses, com a amamentação em livre demanda e todas as necessidades do bebe, é difícil arrumar tempo para a execução dos projetos. Mesmo assim, analisei dados e escrevi. Eu lembro de pensar que, enquanto eu estava de licença-maternidade, meus colegas estavam publicando e eu me afastava das chances de passar em um concurso para professora. O curioso é que esse período não deveria gerar essa preocupação.

Eu digo que a sociedade é cruel com as mães. Ela exige que sejamos presentes, dedicadas, devotadas, mas que também tenhamos a justa paridade com os homens em relação ao sucesso profissional. Ter uma rede de apoios nesse momento é fundamental. Faço parte de um grupo de mães também no puerpério. O compartilhamento de medos, anseios e experiências me fortalece muito. Além disso, minha sogra fica com minha filha de duas a três vezes por semana e meu marido durante os fins de semana para que eu consiga “só” trabalhar. Tenho a sorte de ter supervisores que me acolheram muito, tanto durante a gestação quanto nesse primeiro ano da minha filha. Todos disseram que seria difícil, mas que eu daria conta e que teria uma motivação a mais. Eu aumentei o meu poder de concentração e aprendi a focar mais rápido e em períodos que não necessariamente eu focaria antes. Além disso, minha filha representa uma motivação ainda maior para meu crescimento e minha consolidação profissional. Passei, sim, por um momento de constrangimento quando uma pessoa com quem trabalho (o mais triste é ser uma mulher que se diz feminista) justificou sua própria improdutividade alegando que a minha prioridade é outra, apesar de eu ter produzido durante a gestação, a licença-maternidade e ainda mais agora. Isso reflete o pensamento latente da sociedade de que a maternidade é um impeditivo para a carreira de mulheres.

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Imagem: acervo pessoal

Aline Pan, física, 37 anos, Rio Grande do Sul

Meu nome é Aline Cristiane Pan, sou mestre em Engenharia e Tecnologia dos Materiais e doutora em Energia Solar. Sou mãe da Sofia de 6 anos, nascida em 2012, e do Benício de 3 anos, nascido em 2014. Mulheres que trabalham com ciência são promovidas pela mídia a todo instante com o intuito de desmistificar o gênero nesta área. No entanto, a realidade crua destas mulheres é pouco mencionada e/ou, inclusive, “apaziguada” para que não seja retratada. Os motivos são inúmeros, tais como: vergonha, tempo, medo, desunião e reconhecimento. Contudo, todas as mulheres que trabalham com ciência já sofreram ou sofrerão algum tipo de discriminação em sua carreira científica. Inicialmente, podemos pensar nas premiações ou promoções de projetos de fomento de gênero que “tentam” valorizar as mulheres que trabalham na ciência. O primeiro critério de avaliação destes prêmios são os números de artigos e projetos nos quais as mulheres estão envolvidas nos últimos anos (em geral, os três últimos anos). No entanto, se esta mesma mulher teve, neste período de tempo, dois filhos, como no meu caso, e licenças-maternidade, isso não é levado em consideração sob hipótese nenhuma.

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Nota-se, claramente, que a opção de ter estes filhos foi dela (minha), mas será que ela (eu) deve ser avaliada pelo mesmo período de tempo das demais consideradas “na ativa” e que não tiveram filhos? Estas regras foram feitas baseadas em perfis masculinos ou para mulheres cientistas que não são mães? Por tudo isso, não acredito que seja fácil conciliar a produção acadêmica e a maternidade, e a sociedade não oferece ajuda nenhuma para estas condições. Quando retornei da minha segunda licença-maternidade, um colega me perguntou: “Como estavam tuas férias?” e, depois,: “Deve estar sendo bom fazer filho. Esta já é a tua segunda vez em pouco tempo”. Um outro, em uma situação em que eu estava reclamando do tempo de licença não ser considerado pela avaliação trienal, disse que “Se ele conseguiu publicar muito enquanto teve três filhos, eu também poderia”. Por eu não ter conseguido manter as minhas métricas antes da maternidade, fui desvinculada de um programa de pós-graduação da minha universidade, onde acabei tendo muitos prejuízos por isso.

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Depoimento anônimo, 39 anos, Rio Grande do Sul

Quando retornei do doutorado, em 2009, comecei a ensinar numa faculdade particular. No final de 2009, descobri que estava grávida, algo que planejei. Em 2010, com minha primeira bebê, tive direito à licença-maternidade. De 2012 a 2016, fiz um pós-doutorado financiado por duas agências de fomento. Nesse período, tive dois filhos. Com a bolsa, eu não podia tirar licença, apenas pedir extensão da mesma. Então, não parei de trabalhar, continuei escrevendo artigos. Minha orientadora, durante esse processo, foi muito tranquila. Eu optei por não parar por causa da situação financeira, mas também porque era o meu nome que estava em jogo na pesquisa. Se eu parasse, eu sabia que ia me prejudicar. Eu vejo que, por ser mulher, as atribuições são maiores para nós do que para os homens neste momento. Não tem nem como comparar. Participei de congressos enquanto estava grávida. Quando eu chegava em casa, continuava trabalhando, cuidando das crianças e, quando eles dormiam, continuava trabalhando para poder dar conta. Na particular, percebo que há uma luta maior pela sobrevivência porque eu ainda me encontro preocupada com o futuro. Eu não tenho garantia que estarei neste lugar pelo resto da vida. Quem já está na federal tem mais garantias e estabilidade. Acho que as agências de fomento deveriam considerar a trajetória acadêmica levando em conta as licenças-maternidade e afastamentos. O currículo não é só acadêmico, ele também é pessoal.

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Ser mãe e cientista: o que está por trás disso?

Aceitar a maternidade sem julgamentos e estimular a pesquisadora mãe, um combo que requer mais investimentos por parte da sociedade.

A psicóloga Wendy M. Williams é professora no Departamento de Desenvolvimento Humano na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, onde fundou e dirige o Instituto Cornell para Mulheres na Ciência. É de autoria dela e do professor Stephen J. Ceci, também do mesmo Departamento, um breve artigo de 2012 publicado na revista American Scientist: “When scientists choose motherhood” (“Quando as cientistas escolhem a maternidade”, na tradução para o português).

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Ciência e maternidade: a engenheira industrial Lillian Gilbreth, que também foi estudiosa da psicologia aplicada ao trabalho, em momento de trabalho e família com os filhos na casa de Rhode Island, em 1916.

No texto, eles enumeram os motivos que geralmente são mencionados nas explicações sobre a escassez de pesquisadoras, a nível internacional, em áreas como a matemática, física e química e em posições de destaque dentro do universo acadêmico. Um complexo sistema de opressões e questões negligenciadas está por trás disso: o chamado “teto de vidro” da Academia, que já rendeu texto para as Cientistas Feministas. O artigo da American Scientist ressalta a importância de se discutir e reconhecer a maternidade como um elemento que contribui para a sub-representação feminina dentro da ciência. A culpa não é da maternidade, claro, mas de fatores históricos e sociais que acompanham esse momento.

Segundo os autores, é quando a cientista “decide ser mãe que os problemas reais começam”, e as crianças parecem não afetar a vida profissional dos pais tanto quanto afetam a das mães. É mais comum encontrar pesquisadores heterossexuais com esposas que ficam em casa ou que têm empregos mais flexíveis que as permitem permanecer em casa com os filhos, enquanto os maridos estão mais livres para focar no trabalho. O cenário contrário (mulheres cujos maridos ficam mais em casa) acontece em menor grau, de acordo com o artigo.

O contexto histórico é muito importante aqui, já já iremos falar dele. Escrito por autores norte-americanos, o artigo menciona bastante um sistema de cargos que existe nos Estados Unidos e no Canadá que é similar a um período probatório para cientistas, o famoso “tenure-track”. Ao longo desse estágio probatório, ela ou ele precisa acumular experiências (bolsas, prêmios, artigos e aulas ministradas, por exemplo) para apresentá-las num portfólio impecável ao final de mais ou menos seis anos. No outro lado do arco-íris, geralmente, está o emprego estável, bem remunerado e de prestígio, como o cargo de professor dentro da universidade. No Brasil, podemos dizer que temos um equivalente, que é o cargo de professor titular.

Pois bem, mas qual é o problema? O sistema “tenure”, de acordo com Williams e Ceci, abrange a idade dos 27 aos 35+, momento em que muitas mulheres expressam desejo por ser mãe e acabam tendo o primeiro filho. Como disse acima, a história é importantíssima. Vejam o que os autores escrevem: “O sistema ‘tenure’ foi criado numa época em que poucas mulheres trabalhavam fora de casa e quando a criação dos filhos era assumida como sendo responsabilidade da mulher. Então, ele foi desenhado para pessoas sem muitas responsabilidades significativas com o trabalho doméstico ou o cuidado com os filhos. De fato, muitos professores jovens não eram homens casados e esperava-se que eles vivessem em residências dentro da universidade. Muito mudou desde então, mas o sistema ‘tenure’ continuou mais do mesmo”.

Se as relações e papéis sociais felizmente mudam com o tempo, a sociedade deveria acompanhar essas mudanças em vez de ficar presa em valores do passado. Ou, pior: apoiar medidas contra a desigualdade de gênero, mas não fazer efetivamente nada ou fazer muito pouco para mudar as estruturas dominantes. Na luta contra as desigualdades de gênero, há que se prestar atenção na sociedade que fundamentou uma determinada estrutura e é urgente reescrever linhas e entrelinhas para que tudo fique explícito e claro, sem nada a esconder em letras miúdas.

Voltando ao artigo, os autores, ao final, traçam o percurso dos caminhos possíveis que poderiam ser adotados pelas universidades para lidar com essa questão que desestimula as cientistas a persistirem na carreira científica ou, até mesmo, a desistirem de ser mães. A resposta parece passar pela compreensão a respeito do tempo da mulher, já que uma das medidas cabíveis é aumentar o período de tenure-track para elas, reconhecendo o espaço que a maternidade ocupa na vida de muitas.

Como vimos no primeiro texto sobre maternidade e ciência publicado aqui no CsFs, a trajetória de uma pesquisadora brasileira após a graduação envolve, geralmente, mestrado, doutorado e pós-doutorado. É apenas após o pós-doc que a maioria das cientistas consegue uma posição mais estável dentro das universidades brasileiras. Para muitas, numa idade que tende a ser a primeira metade dos 30 anos, como mostrou a pesquisa do grupo Parent in Science, isso significa o início da consolidação da carreira acadêmica. E também, para muitas, a época de tornar-se mãe. Em dezembro de 2017, o governo brasileiro sancionou a Lei 13.536, que “permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas de estudo concedidas por agências de fomento à pesquisa nos casos de maternidade e de adoção” por até 120 dias. No entanto, no Brasil, ainda faltam oportunidades de bolsa que compreendam a maternidade como um todo e o período da licença-maternidade.

Para escrever este artigo, li também a pesquisa de mestrado de Ana Maria Urpia, mestre em psicologia pela UFBA: “Tornar-se mãe no contexto acadêmico: narrativas de um self participante”. E, aqui, abro um parênteses de desabafo. Em todo o momento da leitura, uma pergunta incômoda atravessava a minha cabeça: por mais que muitos avanços tenham sido feitos e que a generalização não caiba dentro deste comentário, até quando veremos homens omissos e pouco pró-ativos nos quesitos compartilhar igualmente tarefas domésticas, cuidar dos filhos e arcar com a carga mental que provém do gerenciamento dessas tarefas?

Reconhecendo que, em nossa cultura, “as responsabilidades dos cuidados parentais” ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres, Urpia buscou entender o que acontece quando estudantes universitárias jovens, de 19 a 25 anos, acabam virando mães e têm que conciliar a transição para a fase adulta com a maternidade e a vida acadêmica. Com a descoberta da gravidez, geralmente ocorre a interrupção de estudos, sonhos, projetos e até relacionamentos. A pesquisadora afirma que “a narrativa de vida construída pelas mães-estudantes revela-se como uma espécie de balanço prospectivo, ‘apresentando o estado de relação com o possível e buscando, no reconhecimento do passado, pontos de referência para o futuro’”. Nos relatos do estudo, aparece muito o discurso das estudantes que se veem “lançadas para frente graças à necessidade de responsabilizar-se por uma outra vida e ao desejo de verem-se qualificadas para o mercado de trabalho”. Elas estão, conforme a pesquisa explica, orientadas por um futuro em que existe um “projeto de si mesmo”, onde poderão retomar o que foi deixado lá atrás. Além de ser um referencial teórico riquíssimo que pode orientar políticas dentro das universidades a favor das estudantes mães, a pesquisa também dialoga com as dificuldades enfrentadas pelas jovens pesquisadoras mães adultas. Até quando a maternidade será vista como interrupção e não como uma fase da vida que precisa ser integrada? Até quando a vida dessas mães precisará ser escrita APESAR da maternidade e não COM a maternidade? Gostaríamos de ter mais respostas para essas dúvidas.

Fontes:

Dissertação de Ana Maria Urpia | “Tornar-se mãe no contexto acadêmico: narrativas de um self participante”

Gênero e número – Edição Mulheres na ciência, com foco especial em maternidade

Vamos falar de raça e classe na ciência: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/04/06/vamos-falar-de-raca-e-classe-na-ciencia/

Is Motherhood the Biggest Reason For Academia’s Gender Imbalance?: http://science.sciencemag.org/content/335/6072/1030

When scientists choose motherhood: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3939045/

Career gaps: maternity muddle – https://www.nature.com/nature/journal/v509/n7500/full/nj7500-389a.html

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A luta de quem é cientista e mãe no Brasil

Dados apresentados em maio pelo grupo Parent in Science, com base na resposta de 1182 pesquisadoras brasileiras, começam a preencher o vazio de conhecimento sobre o impacto da maternidade na produção acadêmica. Um dos motivos? Falta de políticas públicas.

*Este artigo é o primeiro de uma série de três matérias sobre maternidade e ciência.

Ter filhos, criá-los e fazer ciência, ao mesmo tempo, é uma equação que pode não fechar de forma positiva. Eventualmente, a mãe ou o pai precisam elencar prioridades e podem passar a dedicar menos tempo a alguma tarefa ou a alguém. Muito disso se dá pela falta de apoio no trabalho, em casa ou na sociedade de uma forma mais ampla. E, por uma questão de gênero, essa bomba estoura mais no colo das mulheres, já que, historicamente e socialmente, a mulher sempre foi mais vista como a pessoa do cuidado, do ambiente doméstico e da responsabilidade perante as crianças.

O que fazer para compreender melhor esse cenário e propor soluções para uma questão tão delicada e invisibilizada? Uma das respostas, segundo o grupo Parent in Science, está na busca por dados que falem sobre o impacto dos filhos na vida acadêmica de mulheres e homens. Entendendo a questão com números, é possível apontar a enorme necessidade de políticas públicas e iniciativas que levem em consideração a conciliação da maternidade e paternidade com a vida acadêmica.

Criado em 2017, o grupo, composto por seis cientistas mães e um cientista pai, queria traçar o perfil de pesquisadoras que viraram mães recentemente, a nível nacional. Para isso, disponibilizaram formulários on-line, que ainda estão recebendo respostas, com foco nos seguintes grupos: cientistas mães, cientistas sem filhos, cientistas pais, pós-doutorandas e pós-graduandas. Os resultados dos dois primeiros grupos, com um total de 1182 respostas até abril deste ano, foram apresentados no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, realizado nos dias 10 e 11 de maio em Porto Alegre.

Dessas 1182 respondentes, 78% são mães e 22% não. “Os números sobre essa realidade das mães não existiam. Há análises mais subjetivas, como nas ciências sociais, por exemplo, onde já existe uma discussão grande sobre como a maternidade é percebida dentro do ambiente acadêmico. Mas não sabemos quantas docentes brasileiras são mães”, esclarece ao Cientistas Feministas Fernanda Stanisçuaski, idealizadora do projeto Parent in Science e bióloga do Departamento de Biotecnologia da UFRGS.

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Mãe de dois filhos pequenos e à espera do terceiro, a pesquisadora Fernanda luta por mais políticas brasileiras de apoio à cientista mãe. A criação do Parent in Science surgiu após uma postagem em seu Facebook pessoal em que comentava a experiência vivida depois da segunda licença-maternidade, de 2015. Os pedidos de bolsa submetidos a agências de fomento foram indeferidos porque as entidades alegavam falta de produção acadêmica. “Como a maternidade vem carregada de culpa, eu achei que o problema fosse eu”, diz. Como resposta à postagem, Fernanda recebeu inúmeros comentários de outras pesquisadoras que passaram – e passam – pela mesma situação.

De acordo com alguns dados obtidos, a média de idade da mulher no nascimento do primeiro filho é de 32 anos, a maioria das respondentes tem de uma a duas crianças e três anos é o tempo médio que decorre desde a contratação até a gravidez para a maioria das cientistas. Ou seja, no período inicial do estabelecimento dessas pesquisadoras dentro da universidade.

“O impacto da gravidez nessa idade é maior do que se essa mulher estivesse na universidade há um número maior de anos. Isso é uma consequência da nossa formação. A gente sai da graduação, entra na pós-graduação, depois no pós-doutorado e só então numa instituição”, pontuou Stanisçuaski durante o Simpósio, fazendo referência aos cerca de nove anos de formação para um pesquisador após a graduação.

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Para as respondentes com filhos, a taxa de publicação de artigos só volta a subir depois de cerca de três do nascimento da criança. Imagem: Parent in Science

A fase é crítica para muitas cientistas. A bióloga defende que, no período de licença-maternidade, as mulheres não deveriam estar preocupadas com suas carreiras, e, sim, focando no recém-nascido. A volta à carreira depois desse tempo também pode ser outro ponto de conflito. O motivo: uma criança pequena em casa não para de dar trabalho aos seis meses de idade; e o trabalho não para de exigir atenção.

“Naquele momento em que precisamos de um pouco de aceitação, a gente recebe nãos. Há uma questão de desestimular a permanência da cientista por essa questão de falta de apoio e empatia. O quanto estamos mandando cientistas embora por causa disso?”, questiona.

 

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O Simpósio realizado em Porto Alegre foi inclusivo: o espaço de recreação para os pequenos e pequenas estava garantido.

Onde estão os pais dessa história?

Único homem presente no grupo, Felipe Ricachenevsky, biólogo da Universidade Federal de Santa Maria, teve cinco dias corridos de licença-paternidade quando a filha, Maya, nasceu em 2016. “É um erro. Em primeiro lugar, tem que ficar claro que pai presente deve ser a regra, e não um luxo, e isso começa com a participação igual dos cuidadores. Ainda há muitos homens que não percebem isso, infelizmente. Por outro lado, a legislação deve permitir que essa participação efetiva e igualitária aconteça; como o pai vai poder ser pai se ele não ficar em casa?”, observa o pesquisador.

Um dos dados levantados pelo grupo mostra essa desigualdade: mais da metade das respondentes disse que é a única cuidadora do(s) filho(s), enquanto 34% responderam que ambos os pais cuidam. Segundo Stanisçuaski, o resultado foi uma surpresa porque essa não era a realidade do grupo que criou o Parent in Science: ali, os responsáveis dividem as responsabilidades de forma igualitária.

E o que dizer sobre a produção acadêmica dos pais? Será que cai da mesma forma? Por enquanto, o grupo não tem como afirmar com base em dados: desde que o formulário para cientistas pais foi lançado on-line, em fevereiro deste ano, 64 pessoas responderam. “Não temos como analisar a produção científica com esse número restrito. A partir de histórias pessoais de pais que conhecemos e que dividem igualmente a criação da criança, podemos dizer que, sim, a produção deles pode ser afetada também. No entanto, eles ainda são minoria”, observa a bióloga.

Ricachenevsky aponta que, apesar de muito ainda precisar avançar, há muitos pais que dividem de igual para igual o cuidado e que, mesmo assim, percebem que o ônus profissional, mesmo em uma situação mais próxima do ideal, ainda recai sobre as mães. “É pouco provável que críticas ao fato de ter filhos sejam feitas aos pais no ambiente de trabalho. Os homens, tanto os pais como os não pais, precisam atuar para que isso se torne inaceitável. Um dos primeiros passos, a meu ver, é começar a dividir as críticas: se forem criticar uma mãe por ter filhos, que me critiquem também, pois eu vou dedicar o mesmo tempo à criança”, defende.

O vazio deixado pelas políticas públicas

Se a licença-paternidade é praticamente inexistente, o cenário não é diferente quando o foco recai sobre as medidas das agências brasileiras de incentivo à ciência. De acordo com Stanisçuaski, o mínimo que deveria ser oferecido por editais de agências públicas é a consideração ao tempo de licença-maternidade. “Hoje em dia, não existe praticamente nada de política de apoio para cientistas mães. A primeira vez que a gente viu menção à maternidade num edital foi a chamada pública do Instituto Serrapilheira”, disse a bióloga, referindo-se à instituição privada criada em 2017 pelo documentarista João Moreira Salles e a linguista Branca Moreira Salles. O Serrapilheira busca apoiar financeiramente projetos de pesquisa e de divulgação científica. Na primeira convocação para projetos de pesquisa, explicitou que os pesquisadores candidatos deveriam ter recebido o grau de doutor depois de 1o de janeiro de 2007, sendo que essa condição poderia ser ajustada em um ano (janeiro de 2006) para mulheres com um filho e em dois (2005) para aquelas com dois ou mais filhos.

No Simpósio de Porto Alegre, representantes das agências de fomento Capes e Fapergs e do Serrapilheira estavam presentes. A bióloga comenta que o sentimento, ao final do evento, é que algo pode ser feito a favor da questão da maternidade na ciência se o Parent in Science for atrás de um diálogo. Como resultado do encontro, um documento está sendo gerado pelo grupo e por participantes com sugestões de propostas, o qual será encaminhado em breve às agências.

A pressão por mudanças continua. Em maio, o grupo começou a estimular a campanha #maternidadenoLattes, convidando pesquisadoras de todo o Brasil a informar o período de suas licenças na bio da plataforma Lattes. Para Ricachenevsky, a maternidade e a paternidade não são indicativos de que os pesquisadores são pouco produtivos, mas apenas que estão passando por um período em que a produtividade pode cair. Um período da vida, que requer mais compreensão por parte de diferentes atores. “O potencial criativo e de resolver problemas científicos está lá. Precisamos trabalhar juntos; isso começa com dividir igualmente o ônus e a dificuldade de reconciliar a carreira e a nova vida familiar”, acrescenta.

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Na próxima matéria, vamos trazer depoimentos de pesquisadoras que sofreram algum tipo de assédio durante e depois da gravidez.

 

 

 

 

 

Saiba mais:

  • Leis que abordam as licenças-maternidade e paternidade:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8112cons.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11770.htm

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O Carnaval está chegando! Vamos falar sobre mulheres na ciência e no carnaval?

Texto escrito em colaboração com @agaiadm

“Ó abre alas que eu quero passar, ó abre alas que eu quero passar”! Viemos aqui falar sobre carnaval, mulher e ciência. Pedimos licença e abrimos espaço citando a primeira marchinha feita na história, no século XIX, pela musicista carioca e preta Chiquinha Gonzaga, uma mulher que fez a diferença na música popular brasileira e trouxe representatividade e poder a qualquer mulher que quer conquistar seu lugar de fala e respeito numa sociedade machista.

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Chiquinha Gonzaga (1847-1935) – Imagem de Edinha Diniz, 2009.[1]

Como sabemos, o carnaval vem chegando aí e nada como curtir esses dias de liberdade, calor e manifestação cultural compreendendo de onde vem essa festa e refletindo sobre a relação de nós mulheres com a ciência, a cultura e tudo o mais que nós quisermos nos relacionar! Sim, o carnaval é um manifesto a favor da liberdade. E a história está aí para nos contar como as mulheres se relacionam com essa tal liberdade em diversos contextos diferentes. O que nunca mudou no carnaval é que temos uma festa onde podemos sair pelas ruas trazendo à tona nossas fantasias, podendo ser desde deusas a animais selvagens ou seres fantásticos.

Lá no início…

O carnaval teve como inspiração momentos de festividade desde a Grécia antiga e foi adaptado aos moldes da igreja católica como um ritual festivo de preparação à quaresma até a páscoa. Bom, até aí nada de novo. Mas como será que as mulheres eram vistas, levando em consideração as épocas, as classes sociais e a cor, nos primeiros carnavais do Brasil? Por que hoje somos tão objetificadas, principalmente nesse período do ano?

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Representação de jogos do entrudo no Rio de Janeiro, na pintura de Augustus Earle (1822)

A primeira manifestação carnavalesca que existiu em nosso país foi o Entrudo, no século XVI, que era um conjunto de brincadeiras típicas das aldeias da Península Ibérica ligado a práticas socioculturais da Europa pré-cristã. Os Entrudos resumiam-se em três dias de festas que antecediam a quaresma. Era o único momento do ano em que as mulheres sentiam uma liberdade parecida com a dos homens, diferente dos outros 362 dias, onde elas se resguardavam à espera de um casamento. Durante esses três dias, as mulheres podiam sair pelas ruas sem ser reconhecidas, brincavam com quem quisessem e demonstravam interesse por aquele crush que jamais soubera de seus sentimentos. Estamos falando, é claro, das mulheres brancas. Já as mulheres pretas, ainda escravizadas, em épocas de Entrudos tinham muito trabalho a fazer. Eram elas que preparavam os brinquedos e as fantasias, por exemplo. Podiam, sim, participar de brincadeiras durante esses dias, mas tinham a responsabilidade pela produção da festa. A hierarquia social era demonstrada nas festividades e a alegria, marca do carnaval, não era (é!) para todos.[3]

O carnaval foi sofrendo influências políticas, sociais e econômicas até ter a estrutura atual, que começou a ser lapidada no início do século XX, com a expansão urbana e a criação de novos bairros nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. As novas ruas largas foram os palcos escolhidos pela burguesia para apresentar seus desfiles carnavalescos, onde suas filhas desfilavam em ricas fantasias em cima de carros alegóricos, a fim de esbanjarem suas riquezas e quiçá servirem como catálogos para moços ricos escolherem com quem casar. Nesse momento, o Rio de Janeiro tinha uma grande população preta escravizada, em desigualdade social bem evidente, e que trazia outro carnaval às ruas. Da pequena África, região onde morava grande parte dos pretos baianos, surgiram as tias, mulheres emblemáticas conhecidas por acolher os que precisassem de lar e pelos seus saberes e agrupamentos em corporações de trabalho, como fabricação de doces, salgados e costura e aluguel de roupas carnavalescas. As tias foram espécies de mediadoras culturais e ficavam entre as distintas classes sociais, pois eram muito procuradas pelos burgueses da zona sul que encomendavam roupas de carnaval e acabavam ficando em suas casas para os sambas. Aliás, foi na Pedra do Sal, localizada na pequena África, na presença das tias, que o samba nasceu, levando identidade e pertencimento a muitos cantos do país. [4]

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Tia Ciata (1854 – 1924), exemplo das tias baianas na cidade do Rio de Janeiro. (fonte pinterest).[2]

Hoje em dia, o que vemos do carnaval é um grande comércio carnavalesco de desfiles, onde as mulheres são apresentadas não mais a burgueses, mas ao mundo pela mídia, a fim de potencializar o turismo na cidade. Essa exposição, dentro de uma cultura que respira patriarcado e que não vê o corpo da mulher com respeito, acabou contribuindo bastante para a objetificação da mulher brasileira. O carnaval de rua, representado pelos blocos de bairro, também nos traz histórias que mostram que o machismo está enraizado em diversas atitudes. Não é a toa que governos, empresas e sites jornalísticos têm divulgado o Ligue 180 para que mulheres tenham em mente esse canal em casos de assédio durante a folia. Atualmente, muitas mulheres têm reivindicado o direito por seus corpos, sexualidade e vontades. Quem dita as regras somos nós! O que dá gana de lutar pela equidade de gênero e nossos direitos é ver diversos blocos nascendo do feminismo, idealizado por minas engajadas e com fome de conquistas.

A discussão sobre gênero incomoda, mas temos que fazê-la

Essa pequena história do carnaval brasileiro traz as mulheres em diversas posições sociais, porém é perceptível o quanto o machismo está atrelado em nossos caminhos e escolhas. Lugar de mulher é onde ela quiser, seja no carnaval, na arte ou na ciência. Ainda assim, as notícias não enganam: é difícil ser mulher no mundo, em qualquer contexto social. A gente lê manchetes, dados e estatísticas e se assusta, não entende, busca um porquê para ser desse jeito. Os sustos vêm de todos os lados. Pode vir no título de uma matéria de jornal de 2016: “Homens ganharam 97% dos Nobel de ciência desde 1901” (El país). Em 2017, nada mudou: os homens – todos brancos, vale destacar – levaram todos os prêmios do Nobel. Pode vir num número que representa a realidade nua e crua de muitas brasileiras: a taxa de feminicídio (o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher) no Brasil, segundo levantamento da organização Artigo 19, é a quinta maior do mundo. Ou, então, pode vir de um lado que a gente não viu, em forma de agressão física, simplesmente porque dissemos não a alguma pessoa que claramente não soube respeitar o nosso direito de se divertir no carnaval.

Mulher na ciência, mulher vítima de assassinato no Brasil, mulher no carnaval… são mundos distintos, nós reconhecemos. Todos eles poderiam ser contextualizados de forma individualizada, mas há, no pano de fundo que os sustenta, um novelinho de lã que costura essas narrativas. No Brasil, ou em outras partes do mundo, não há como falar de mulher na ciência sem ao menos contextualizar, um pouco que seja, o que isso representa naquela cultura e naquele local. Isso porque uma coisa pode puxar a outra e somos seres inseridos em diferentes mundos ao longo da vida: família, profissão e vida social, por exemplo. Há opressões direcionadas às mulheres em cada um desses mundos. E, sim, todas elas conversam dentro da nossa cultura porque falam de opressão ao gênero e sexo feminino.

Todos nós conhecemos a história de uma mulher que precisa se desdobrar em três para dar conta de trabalhar e/ou estudar, tomar conta da casa e/ou da família e cuidar de si mesma (se restar tempo, claro). Vamos dar um nome a essa mulher: Rosa. Rosa está quase terminando seu mestrado em matemática, cresceu ouvindo que mulher precisa saber cozinhar e ser excelente mãe para arranjar e segurar marido e, além disso, morre de vergonha e desconforto de sair com roupas mais decotadas e menores porque tem medo de ser assediada na rua ou no trabalho. No carnaval de rua, por exemplo, só se sente confortável para sair de casa com alguma fantasia que deixa o corpo mais à mostra caso esteja com um grupo de amigos confiáveis. Isso porque, infelizmente, ela percebeu que é um fator cultural o fato de muita gente achar que pode fazer o que bem entender com o corpo de uma mulher e “se saiu desse jeito, é porque estava pedindo”. “Aqueles amigos do mestrado”, ela pensa, “certamente me julgariam se me vissem desse jeito”.

Desconstruir para construir novos valores na cultura

É difícil ser mulher no mundo. Ponto. É tanta coisa para pensar. As respostas que temos que dar, os sinais que temos que ler, a rua escura que precisamos enfrentar, ou evitar, a inteligência que precisamos provar, a fragilidade que já nos é atribuída de forma natural desde a infância, a boneca que teimam em nos dar para cuidar… A sociedade põe a todos numa caixa, é verdade. Porém, verdade seja dita: a caixa das mulheres, no caso de muitas mulheres, é bem pequena para comportar tanto julgamento e opressão. Já rasgamos e quebramos muitas caixas mundo afora, mas todo dia precisamos rasgar um pouco mais as que ainda existem por aí.

Um convite mais que especial

 

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(Fonte: Museu da Vida/Fiocruz)

Pensando nesse contexto, estamos realizando, no dia 3 de fevereiro, um Grito de Carnaval, cujo tema – ou samba-enredo – será “Mulheres na ciência”. O evento será realizado no Museu da Vida, centro de ciência da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e é uma tentativa de rasgar um pouquinho mais essas caixas que nos rodeiam dentro da sociedade. Há atividades para várias idades. Além de ser uma excelente oportunidade para debater a igualdade de gênero na ciência brasileira, essa farra carnavalesca nos propõe pensar novos formatos para fazer divulgação científica.

Dando alguns exemplos: no “Espaço da fantasia”, o público poderá vestir uma fantasia que dialoga com diversas áreas da ciência. A proposta conversa com dois questionamentos: “Será mesmo que cientista tem uma única cara, a do jaleco?” e “Será que podemos dar ao nosso público a oportunidade de considerar ser uma cientista?”. No carnaval, as fantasias conversam bastante com o imaginário, sonhos e possibilidade. Por isso, a mensagem que queremos passar é que ser mulher cientista é, além de muito necessário, extremamente possível. Já em “Estandarte das mulheres incríveis”, os visitantes poderão escrever em pedaços de papel sobre mulheres inspiradoras, como integrantes da família, professoras, amigas, namoradas ou outras pessoas queridas. Em eventos públicos de divulgação científica, conversar com o público e ouvi-lo é fundamental!

Poderíamos ficar um bom tempo discorrendo sobre as atividades, mas, para quem é do Rio ou estiver pelo Rio no dia 3, queremos deixar o convite de ir construir o Grito de Carnaval com a gente. Fica a dica! Há mais informações sobre o evento no link bit.ly/gritodecarnavalmv.

Referências:
[1] DINIZ, E. Chiquinha Gonzaga: uma história de vida. Editora Zahar. 2009
[2] https://br.pinterest.com/
[3] SIMSON, Olga R. de Moraes von. Mulher e carnaval: mito e realidade (análise da atuação feminina nos folguedos de Momo desde o entrudo até as escolas de samba). Revista de História, São Paulo, n. 125-126, p. 7-32, july 1992.
[4] VELLOSO, Monica P. As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6, p.207-228, 1990.
[5] http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/noticias/11-visitacao/884-anote-na-agenda-o-grito-de-carnaval-do-museu-da-vida-vem-ai

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Aqui só entram matemáticas

Como a Escola de Matemática de Berlim incentiva as alunas a buscar carreira e fazer pesquisa na área, visando um ambiente mais acolhedor.

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Horário do almoço do dia 10 de novembro. No terceiro andar do prédio 17, na rua An der Urania, em Berlim, a sala Curie acolhe um encontro entre oito matemáticas, com mestrandas, doutorandas, pós-doutorandas e professoras. Uma pesquisadora era interrogada e participava de um bate-papo informal. Ali, uma vez a cada semestre letivo, apenas mulheres entram. A reunião, organizada pela Escola Matemática de Berlim (BMS), tem como nome Kovalevskaya Lunch (Almoço Kovalevskaya, em português), em homenagem à matemática russa Sofia Kovalevskaya (1850-1891). Primeira mulher a assumir o cargo de professora numa universidade europeia em pleno século XIX, ela é reconhecida por diversos trabalhos e iniciativas. Os estudos com equações diferenciais parciais e a luta para estudar matemática numa época em que quase todas as universidades da Europa só aceitavam homens são só alguns exemplos.

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Sofia Kovalevskaya, a matemática russa que foi a inspiração para o nome do almoço. (Imagem retirada da Wikipedia)

A convidada do dia 10 é Ilaria Perugia, pesquisadora da Universidade de Viena, e a pauta principal do almoço gira em torno das oportunidades, vitórias e desafios vivenciados pela cientista em sua trajetória acadêmica. Ela estuda, entre outros campos, métodos de Galerkin descontínuos, eletromagnetismo computacional e problemas de propagação de onda. Alguns dias depois do encontro, uma matemática que participou disse em entrevista: “A palestra dela foi muito boa; sou de um campo da matemática que está distante do dela. Geralmente, quando os campos são distantes na área, é difícil entender um ao outro. Ela transferiu uma mensagem que compreendi”.

Se os próprios matemáticos podem não entender as especificidades um do outro, fiquei tranquila. Os assuntos do almoço, no entanto, são comuns a muitas mulheres pelo mundo e, portanto, fáceis de acompanhar. Como deixar o ambiente acadêmico mais acolhedor numa área que é conhecida por ser bastante masculina? O objetivo do encontro é este: criar um local em que as pesquisadoras possam se conectar e se ouvir, compartilhar suas experiências e construir uma rede de apoio, tanto pessoal como profissional.

Segundo Ilaria, é comum observar poucas mulheres em algumas comunidades matemáticas de certos países. Além disso, há quase sempre poucas mulheres no nível de professor universitário. Na Alemanha, esse cargo de professor é considerado o mais difícil de se alcançar: oferece menos vagas, mas garante mais estabilidade do que cargos temporários, como as bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado. A pesquisadora frisa que o fato de haver poucas mulheres pode dar a impressão de que a matemática é um trabalho para homens, o que pode desencorajar jovens pesquisadoras a ir atrás de uma carreira acadêmica na área.

“Esta iniciativa da BMS ajuda a dar uma imagem mais ampla e a conscientizar as pessoas de que não é esse o caso. Compartilhar experiências durante a discussão informal pode ressaltar que algumas dificuldades podem ser superadas ou que um ponto de vista diferente pode ser adotado. O “modelo masculino” que geralmente temos em mente para o nosso trabalho não é o único possível. O networking é outro aspecto extremamente importante e acredito que a oportunidade de se conhecer colegas também por um ponto de vista pessoal ajuda na promoção de conexões”, afirma.

“Mas o encontro é só para as alunas?”

Gerente de diversidade e relações públicas da BMS, Tanja Fagel menciona que já foi parada por alunos homens que gostariam de participar do almoço. Nestes casos, ela sugere uma inversão de realidade: “Imagine se você fosse o único homem numa área em que só há mulheres. Por favor, fique contente por existir esta iniciativa para nossas alunas!”, diz. O almoço é restrito às cientistas, mas, para o colóquio que acontece depois, todos estão convidados. Este ocorre algumas vezes ao longo do semestre letivo e, em um deles, uma pesquisadora é convidada para o almoço.

A estudante Luzie, de 23 anos, que está fazendo mestrado na BMS, compareceu pela primeira vez. “O encontro é muito útil porque, na realidade, você tem alguém com quem se relacionar. Há outras pessoas ali que estão na mesma posição que você”, explica. “Eu vim para obter perspectivas diferentes e para aprender. Eu não sei o que quero fazer no meu doutorado. Eu quero muito continuar na pesquisa, mas sei que não é muito fácil dentro da Alemanha em relação a posições permanentes, como a de professor”.

Já a doutoranda Nevena Palic, também da BMS, conta que já foi em torno de seis vezes. “Cada semestre há uma mulher diferente, com uma história diferente e o jeito como ela alcançou aquilo também é diferente. É bom ouvir de alguém que está numa posição em que eu gostaria de estar daqui a cinco, dez ou 20 anos. É uma questão de ouvir os problemas que ela teve, como ela lidou com tudo e o que aconteceu na vida dela para que ela abrisse a porta de se tornar uma matemática de sucesso, mãe, esposa ou seja lá o que ela é na vida dela”, detalha.

 

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O site da BMS disponibiliza, em inglês, uma lista com todas as matemáticas que já foram convidadas para o almoço. (Imagem: reprodução do site da BMS)

Ainda de acordo com Nevena, o networking é relevante, assim como a sensação de pertencimento. “Não é apenas um momento bom, faz parte de eu perceber que eu pertenço a essa comunidade. É sobre perceber que, as questões que eu tenho, alguém também tem. É necessário conhecer pessoas, fazer colaborações. O almoço nos ajuda a estabelecer conexões umas com as outras, mas não é o único jeito pelo qual fazemos isso”, explica.

Uma breve comparação com o Brasil

Em números, Alemanha e Brasil não estão muito distantes quando se trata de mulheres em cargos de liderança ou posições de prestígio na área de pesquisa. Primeiro, ao olharmos no nível de graduação, no semestre letivo de 2016 para 2017, 73,6 mil alunos aplicaram para matemática em cursos pela Alemanha. Destes, 33,9 mil eram mulheres, ou seja, próximo de 50%. No entanto, no total de acadêmicos na posição de professor, considerando todas as áreas do conhecimento, as mulheres estavam em apenas 23,4% em 2016. Os dados são do Escritório Federal de Estatística Alemão, o Destatis.

No Brasil, em 2015, segundo dados do CNPq, 306 mulheres obtiveram bolsas 1A de produtividade em pesquisa – uma das mais altas bolsas concedidas pelo CNPq, abaixo apenas da bolsa sênior -, contra 938 homens. Considerando a grande área Ciências Exatas e da Terra, na qual matemática se encaixa, 7.219 mulheres receberam bolsas de diferentes níveis nessa área, enquanto os homens estão em 13.784. Na distribuição de pesquisadores por sexo segundo a condição de liderança, o número é um pouco mais animador: em 2016, 17.326 pesquisadores foram registrados como líderes, fazendo frente às 15.092 pesquisadoras líderes.

A matemática Diana Sasaki, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), uma das vencedoras do prêmio L’oréal-Unesco-ABC Para mulheres na ciência de 2017, acredita que a mulher ainda precisa conquistar mais espaço na área. A premiação, em suas palavras, é importante para o avanço da pesquisa brasileira e veio para fortalecer a carreira e contar positivamente em futuras candidaturas. “Eu tive muitos colegas homens no laboratório que estive durante a minha pós-graduação e graduação. Fui me acostumando com estes ambientes. Para mim, agora, é natural.”

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Oito pesquisadoras, quatro palanques e uma praça pública em Berlim

Imagine oito cientistas se apresentando em praça pública em um evento criado por duas pesquisadoras. Isso no vuco-vuco da Potsdamer Platz, uma das áreas mais movimentadas de Berlim, na Alemanha. O evento em questão se chama Soapbox Science e aconteceu no dia 7 de novembro em frente ao cinema CineStar da Potsdamer Straße. A história fica mais interessante: uma das cientistas presentes é Mariana Cerdeira, brasileira que está terminando o doutorado em Neurociências na Charité, um dos maiores hospitais universitários da Europa.

Presente na Alemanha há pouco mais de cinco anos, Cerdeira está num laboratório que estuda mecanismos que podem tratar casos de isquemia cerebral, o AVC. “Nesse caso, o sangue não chega ao cérebro porque há alguma coisa bloqueando o vaso sanguíneo. Se não chega sangue, também não chega oxigênio, fundamental para que as células sobrevivam”, detalha. No cérebro, uma das células mais conhecidas é o neurônio, que não se multiplica como outras células. Se eles morrem, não há substituição. “No meu grupo de pesquisa, buscamos identificar os mecanismos celulares responsáveis por fazer com que ela aguente o máximo possível antes de morrer. Além disso, investigamos como podemos ativar esses mecanismos e aumentar ou diminuir o nível de certas proteínas na célula por meio de modificação genética”, prossegue.

 

Realizado durante a Semana de Ciência de Berlim, que aconteceu entre 1 e 10 de novembro, o Soap Box foi criado em 2011 por duas cientistas britânicas que queriam estimular a presença da mulher na ciência. Na plateia, transeuntes curiosos, professores e jovens de ensino médio assistiram às apresentações e puderam fazer diversas perguntas. As oito mulheres se dividiram em dois grupos de quatro; cada um com uma hora para dialogar com o público. As apresentações costumam ser rápidas e acontecem de forma simultânea. Isso significa que quem reservou 15 minutos ou um pouco menos para cada apresentação conseguiu assistir a tudo!

Brincadeiras com o público dão o tom durante os diálogos

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Constance Holman e seu cérebro – apenas uma reprodução, claro! Segundo ela, o cérebro possui um GPS interno. (Foto: Renata Fontanetto)

Para engajar os presentes, vale de tudo. A doutoranda Constance Holman, do Centro de Pesquisas em Neurociências da Charité, por exemplo, começou com um desafio: “Eu gostaria que vocês fechassem os olhos e apontassem na direção da Alexander Platz. Feito isso, fechem os olhos novamente, girem em círculo e depois apontem para a mesma direção”, pediu de forma empolgada. “É incrível o quanto o seu cérebro acabou de unir tantas coisas diferentes, como a sua noção de onde você está, a memória espacial de Berlim e, mesmo após o giro, ele ainda conseguiu fazer uma suposição”, explica. Em seu doutorado, Holman estuda os diferentes ingredientes cerebrais que estão por trás dessa navegação, como a estrutura celular envolvida, os mecanismos celulares e as conexões entre diferentes células na hora em que a localização é a palavra-chave.

Outra apresentação que animou o público foi a de Wing Ying Chow, do Instituto de Pesquisa Leibniz para Farmacologia Molecular. A conversa contou com um ingrediente especial: gomas de gelatina, que ajudaram durante a explicação sobre o colágeno, uma proteína formada por três cadeias polipeptídicas que se torcem uma ao redor da outra. Adivinhe quem interpretou o papel das cadeias? A goma em formato de minhoca! “O colágeno exerce muitos papéis importantes dentro do corpo e ele nos acompanha durante muito tempo. Quando envelhecemos, ele começa a quebrar, mudar e ainda não temos um jeito muito bom de estudar essas modificações”, diz.

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O que se conhece e o que não se conhece sobre o colágeno? A pesquisadora Wing Ying Chow estuda a molécula e compartilhou o que sabia com alguns alunos. (Foto: Renata Fontanetto)

Em seu projeto de pesquisa mais recente, ela estuda uma doença rara, que afeta as articulações, chamada alcaptonúria, causada por uma mutação genética que impede um metabolismo adequado de aminoácidos. As articulações estão revestidas por cartilagem, material também constituído por colágeno. Uma das manifestações da doença é a mudança da cor da urina, que passa de amarela a preta. E veja que curioso: as articulações das pessoas com a doença ficam pretas. “Por meio de um procedimento específico, pude perceber que as três cadeias da molécula de colágeno, quando há a ocorrência da doença, estão mais distantes entre si ou uma cadeia pode até mesmo ter sumido. Eu ainda não sei por que isso acontece, mas vamos investigar”, resume.

O vestibular é logo ali! Será que rola de ser cientista?

A estudante de ensino médio Nalyereh Hage Hassen, de 17 anos, foi com a turma da Escola Britânica de Berlim. Ela e a amiga, Sulafa Mo, de 16 anos, ficaram encantadas com a fala de Chow. “Eu não tenho muita ideia do que quero fazer na universidade, tenho vontade de cursar biologia, mas ainda não sei o quê dentro da área. Eu vim para este evento para pensar melhor a respeito”, esclarece Nalyereh. A seu ver, encontros como esses só podem trazer benefícios. “A gente sempre ouve na escola que as meninas querem fazer artes e outras coisas, enquanto os garotos fazem ciências. Eu nunca tinha estado num evento de ciência como este. Isso aqui meio que me ajudou a encontrar o meu caminho”, revela.

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Ao final das apresentações, que giram em torno de 5 a 10 minutos, o público tem a oportunidade de tirar dúvidas. (Foto: Renata Fontanetto)

Enquanto conversávamos, a amiga ouvia atentamente. Ela também não sabe o que quer estudar e, por isso, o evento a encorajou a pensar em ingressar na área científica. “Algumas pessoas têm uma cabeça fechada em relação à ideia da mulher trabalhando. Agora, estou considerando ser uma cientista”, diz. A brasileira Camila Eckert-Bujalos, professora de química que acompanhava a turma das duas jovens, menciona que a diretora da escola queria os alunos presentes para justamente divulgar a ciência para as jovens do grupo. “O segundo motivo é para que esses estudantes, que estão aplicando para a universidade, saibam que há outras áreas e, de repente, alguém pode pensar em ir para a área da ciência, tanto as meninas quanto os meninos”, acrescenta.

Ah, um detalhe interessante: soapbox é uma espécie de plataforma pequena em que é possível subir para discursar. ‘Soap’, em inglês, é sabão e ‘box’, caixa. Mas, espera aí… por que sabão? Lá nos séculos XIX e XX, era comum que oradores, geralmente políticos e trabalhadores industriais, subissem em caixotes de madeira, que transportavam sabão e outras mercadorias, para se comunicar com um determinado público sobre um tema político ou social, geralmente. Naquela época, esse local de fala era muito destinado aos homens. Os tempos mudaram e ainda estão mudando, não é mesmo?

Sugestões de leitura:

http://soapboxscience.org/

Vídeo sobre o Soapbox Science 2013: https://www.youtube.com/watch?v=eqC2DIB5Ccw

https://en.wikipedia.org/wiki/Soapbox

Oito alternativas para os discursos tradicionais: http://loveteachlearn.edublogs.org/2016/10/07/8-alternatives-to-traditional-speeches/

https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/may/31/women-science-industry-structure-sexist-courses-careers