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A atividade do cérebro de pessoas quando suas opiniões são desafiadas

Você provavelmente já deve ter entrado em uma discussão com outras pessoas sobre alguma questão política. Principalmente nos últimos anos esses debates têm ocorrido cada vez com maior frequência. Pelo lado positivo isso demonstra que vivemos em uma sociedade livre onde podemos colocar e defender nossas opiniões, também isso beneficia a formação de uma sociedade mais crítica e independente. Porém, esses debates geram conflitos e tensões entre pessoas, as quais, no final das contas, só estão tentando defender uma ideia que elas acreditam ser melhor, mais razoável ou mais lógica. Foi pensando nesse nosso contexto atual que esse artigo Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence me chamou a atenção. Confesso que passei por diferentes fases lendo e relendo essa pesquisa. Primeiro achei muito interessante, depois comecei a me incomodar com algumas ideias, métodos utilizados e análise de resultados, por fim, decidi que o estudo tinha que ser divulgado e, assim, mais pessoas poderiam julgar e criticar por si mesmas seus méritos e problemas. Mas gostaria de colocar que esse tipo de estudo é complexo não somente na pergunta inicial e delineamento da metodologia por se tratar de um estudo social relacionado com identificação de correlatos neurais, mas também na interpretação dos resultados. Por isso, espero que leiam com uma atitude crítica, porém, não rígida. Ah, e não esperem encontrar uma descrição de como o cérebro de pessoas intolerantes funciona.

Os autores realizaram esse estudo com o objetivo de investigar regiões neurais que estariam envolvidas com a manutenção de crenças em pessoas com opiniões políticas fortes. Suas predições eram de que circuitos neurais relacionados com a formação de modelos internos da própria pessoa (o “self”)  e aqueles envolvidos com emoções negativas seriam mais ativados quando essas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra suas crenças políticas, mas menos ativados quando essas mesmas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra crenças não políticas. Para isso, 40 participantes foram selecionados a partir de um questionário com uma escala numérica para saber o quanto eles se consideravam politicamente liberais ou conservadores sendo 1 ‘extremamente liberal’ até 7 ‘extremamente conservador, e o quanto concordavam com algumas afirmações que envolviam questões políticas e outras não-políticas em uma escala de 0 a 7, sendo 0 ‘não concordo’ e 7 ‘concordo muito’. Essas pessoas foram selecionadas por responderem que eram muito liberais (entre 1 e 2 na escala) e por responderem que concordavam muito com pelo menos 8 afirmações políticas e 8 não políticas (entre 6 e 7 na escala).

Esses participantes, então, foram colocados em uma máquina de ressonância magnética enquanto eram apresentado, uma de cada vez em uma tela, a essas mesmas 8 afirmações políticas e 8 não políticas, as quais haviam indicado concordar muito anteriormente. A cada afirmação apresentada eram colocados em seguida 5 argumentos desafiando a sua validade. Os argumentos eram exagerados ou distorciam a verdade na maior parte das vezes. Após a apresentação desses argumentos, a afirmação era apresentada novamente e perguntado o quanto eles concordavam com ela na mesma escala numérica anterior (de 0 a 7). Cada pessoa realizou essas etapas do procedimento para cada 16 afirmações individualmente enquanto sua atividade cerebral era registrada pelo método de ressonância magnética funcional. Esse método permite medir o consumo de oxigênio em regiões do cérebro e, assim, acessar indiretamente a atividade cerebral de uma pessoa enquanto esta realiza uma tarefa. Deste modo é possível analisar a atividade neural da pessoa em diferentes momentos e comparar essa atividade quando a pessoa é confrontada com argumentos contra sua crença política ou não política. Da mesma forma é possível avaliar suas respostas na escala numérica e observar se as pessoas mudaram seu grau de concordância sobre a afirmação após terem sido confrontadas com os argumentos. Assim, a atividade neural de pessoas que demonstram mais flexibilidade com suas crenças pode ser comparada com a  de pessoas não tão flexíveis.

A partir das respostas sobre o grau de concordância com as afirmações após os 5 contra argumentos, foi observado que os participantes mudaram suas repostas e diminuíram o grau de concordância em relação às afirmações. Porém, essa mudança foi mais proeminente com afirmações não políticas. Eles observaram, em média, uma diminuição da escala de 0.31 para afirmações políticas e diminuição de 1.28 para não políticas. A comparação da atividade neural enquanto participantes liam os contra argumentos políticos em relação quando liam os contra argumentos não políticos, mostrou um aumento de atividade em  regiões (figura 1) como o córtex pré frontal medial, lobo parietal inferior e lobo temporal anterior, regiões relacionadas a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) apontando a existência de uma relação entre a manutenção de crenças muito fortes (neste caso políticas) com a ativação dessa rede neural. Os pesquisadores defendem que essa rede, por estar relacionada com funções auto-referenciais, se ativa enquanto pessoas são confrontadas com argumentos contrários a suas crenças mais fortes, pois elas estariam realizando uma auto-análise, integrando informações internas a fim de obter um significado coerente daquilo ao qual foram expostas.     fig1-blogFigura 1. Regiões mais ativadas quando comparada a atividade cerebral dos participantes quando eram apresentados argumentos contrários a suas crenças políticas comparada com a atividade para os argumentos contrários às crenças não políticas.

Outro resultado demonstrado por esse estudo foi de que há uma correlação negativa entre ativação do córtex insular dorsal anterior e a amígdala, regiões (figura 2) relacionadas ao processamento de emoções negativas, ameaças e incertezas, e o grau de mudança na concordância de afirmações não políticas após os contra argumentos por sujeito. Isto é, pessoas com maior resistência a mudar sua concordância (menor grau de mudança) às afirmações não políticas tiveram uma maior ativação dessas estruturas quando comparadas com a atividade dessas regiões em pessoas com menor resistência a mudar sua concordância. Note que essa diferença foi observada entre diferentes indivíduos (em contraste com diferente condições mencionado anteriormente) e utilizando as afirmações não políticas. Isso porque houve maior variabilidade de respostas em relação a esse tipo de afirmação e, assim, foi possível realizar essa comparação. A teoria por trás desse resultado é de que pessoas com menos flexibilidade para mudar sua opinião após contra argumentos demonstram maior ativação de regiões envolvidas no processamento de ameaças e emoções negativas e, assim, lidariam com informações contrárias a suas crenças de modo mais rígido e cauteloso.

fig2-blogFigura 2. Áreas mais ativadas nos participantes que mudaram menos sua concordância com afirmações não políticas após os desafios.  

Esses resultados parecem concordar com outros resultados encontrados em outro estudo que também observou diferente atividade em algumas dessas regiões quando comparadas crenças religiosas e não religiosas em pessoas muito religiosas. Porém, os pesquisadores seguem ao final do artigo apontando alguns problemas ou limitações do estudo que colocam seus resultados em cheque (e isso para mim é um mérito e dever de todo estudo). A primeira limitação é a de que há diferenças entre crenças políticas e não políticas além de somente o grau de concordância da pessoa. Seria possível que as pessoas sendo utilizadas no estudo, por terem sido selecionadas por se considerarem muito interessadas por política, tivessem muito conhecimento sobre as afirmações sendo colocadas no teste ou até mesmo fossem expostas muitas vezes a argumentos contrários a suas crenças, o que poderia ter um efeito de hábito ou controle sobre como elas reagiriam a esse teste. Também é apontado o fato de que crenças políticas são mais prescritivas, normativas em comparação com crenças não políticas que podem ser mais diretas e factuais. Outro ponto interessante a ser colocado é a limitação do estudo por se tratar somente de pessoas liberais, mas não de conservadores. Os autores citam outros estudos que apontam haver diferenças de atividade e até de volume de estruturas neurais entre conservadores e liberais (para saber mais, ver Kanai, R., Feilden, T., Firth, C. & Rees, G. Political orientations are correlated with brain structure in young adults. Curr Biol 21, 677–680, doi: 10.1016/j.cub.2011.03.017 (2011)).      

E aí? O que achou do estudo? Espero que eu tenha conseguido passar a ideia geral e principais resultados encontrados de forma coerente. Se ficou alguma dúvida pode me perguntar. E eu gostaria de fazer um pedido também, quase que como uma pesquisa. Se você achou que esse texto ou o próprio artigo te ajudaram a compreender um pouco mais sobre o nosso comportamento e que te adicionou na forma de você se relacionar com essas questões, por favor, comente algo (qualquer coisa, um sinal) lá embaixo na área de comentário! Obrigada!

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Você consegue ler este texto de uma vez só, sem se distrair com outra tarefa?

multitasking

Já passaram por esse tipo de experiência? Enquanto escreve um email para seu chefe (ou orientador), a música que está ouvindo faz você lembrar que precisa comprar o ingresso de um show, então, entra no site de venda para ver o preço e o horário, simultaneamente, manda uma mensagem pelo Whatsapp para sua amiga, para saber se ela quer ir junto e aproveita para ver a foto que te mandaram no grupo dos seus amigos de infância. O tempo todo estamos realizando diversas tarefas ao mesmo tempo, ação comumente conhecida como multitasking. Para que isso seja possível, é necessário que mecanismos atencionais, aqueles que selecionam as informações que serão processadas pelo sistema nervoso, funcionem de forma efetiva para que cada tarefa possa ser devidamente realizada. A ideia de que conseguimos começar uma tarefa e, antes de terminá-la, começar uma nova tarefa não é nova e nem surpreendente. Algumas tarefas requerem mais atenção e recursos do sistema nervoso, como estudar e dirigir, por isso dificilmente são realizadas juntas a outras. Outras tarefas podem ser mais facilmente realizadas em conjunto, como cozinhar, falar ao telefone, lavar a louça, etc. Atualmente, lidamos com diversas mídias requisitando nossa atenção continuamente, assim, podemos questionar se nossa capacidade de realizar mais tarefas simultaneamente aumentou se comparada à 15 anos atrás. Será que a contínua troca do foco de atenção do Facebook, para o Whatsapp, para o jornal na TV, para o rádio pode ter um efeito de melhorar nosso desempenho em multitasking?

A ideia de que podemos treinar habilidades também não é nova. Estudos demonstram que jogadores de vídeo game de ação apresentam desempenho melhor em algumas tarefas, como de orientação da atenção, discriminação visual e troca entre tarefas. O raciocínio por trás dessas evidências parece lógico. O treino repetitivo de tarefas específicas altera redes neurais que estão relacionadas com os processos cognitivos necessários nessas tarefas tornando sua realização mais facilitada e melhor. Assim, dentro dessa lógica podemos pensar que, no mundo atual, jovens e adultos podem se beneficiar da loucura de lidar com diversas mídias e informações ao mesmo tempo treinando suas redes neurais. Porém, evidências sugerem o contrário. Alguns estudos observaram que pessoas que realizam mídia multitasking de forma muito intensa em comparação com pessoas que realizam pouco, na realidade, apresentaram desempenho pior em tarefas que requerem atenção seletiva, troca entre duas ou mais tarefas e pontuaram menos em testes para memória operacional. Esse tipo de memória seria aquela utilizada para manter e organizar as informações enquanto realiza uma tarefa, por exemplo, a memória que utilizamos para gravar os números do crush no celular pela primeira vez. Esses resultados parecem paradoxais se compararmos com o que ocorre com jogadores de vídeo games. Os autores de um artigo de revisão que debatem esse assunto (Rothbart e Posner, 2015) argumentam que, apesar de mais estudos deste tipo serem necessários, a atividade de multitasking mais intensa pode ser decorrente de um baixo controle atencional dessas pessoas. Dessa forma, o multitasking seria uma estratégia adotada uma vez que essas pessoas teriam dificuldade em se concentrar em uma única tarefa de cada vez. Corroborando essa ideia, um estudo (Sanbomnatsu et al., 2013) observou que pessoas que se autodeclaravam boas multitaskers apresentaram alta pontuação em testes de impulsividade e de busca de sensações (sensation seeking, definido como busca por novas informações e experiências). De forma oposta, essas pessoas pontuaram baixo em tarefas que envolviam a realização de diferentes tarefas simultaneamente. Além disso, nem toda atividade relacionada às multimídias pode ser comparada às habilidades utilizadas durante um jogo de vídeo game de ação. Nessa última atividade estão presentes diversos desafios como movimento rápido de alvos, apresentação transitória de diversos objetos e possuir incertezas espaciais e temporais que proporcionam pesadas cargas cognitivas, perceptuais e motoras.

É necessário abordar com cautela o que pode ser considerado um treinamento que interfere no sistema nervoso de forma a fortalecer circuitos neurais e melhorar o desempenho de certas habilidades. Nesse sentido, mais pesquisas são relevantes para demonstrar que treinamentos em tarefas específicas, como as relacionadas com antecipação de eventos, discriminação visual, resolução de conflitos e controle de inibição de ação, resultam não só em uma melhora no desempenho comportamental, mas também em aumento da atividade neural em regiões relacionadas com atenção e memória operacional. Aparentemente, atividade em regiões corticais frontais como o córtex cingulado anterior (Figura 1a.) está relacionada com os processos atencionais de supervisão durante a execução de uma tarefa, também denominado de atenção executiva, evitando erros e permitindo respostas apropriadas. Assim, o treinamento em tarefas específicas altera a atividade neural e a conectividade de regiões relacionadas com o sistema de atenção executiva e memória operacional, levando a uma melhora no desempenho ao realizar diferentes tarefas de forma simultânea. Mas não é somente dessa forma que podemos influenciar a atividade e conectividade de nossas redes neurais. Outro modo seria através da modificação de estados cerebrais, o que ocorre durante a meditação. Estudos recentes mostraram que a meditação pela técnica de treinamento integrativo de mente e corpo (IBMT – integrative body mind training) promoveu, em poucas semanas, aumento de atividade e eficiência de conexão de regiões neurais do córtex cingulado anterior, corpo estriado e ínsula anterior (Figura 1), quando comparado com o grupo controle, que realizou sessões de relaxamento convencional. Juntamente a essas alterações, foi observado uma melhora na utilização da atenção executiva, no humor e na regulação do estresse (Tang e Posner, 2014).

regioesneurais

Figura 1. Esquema da vista lateral direita de um cérebro humano representando regiões e estruturas neurais relacionadas aos sistemas de alerta, orientação da atenção e atenção executiva. O córtex cingulado está destacado (a). Corpo estriado (b). Ínsula (ou córtex insular) destacada em uma representação de um cérebro visto do lado esquerdo (c). Modificado de Posner e Rothbart, 2007; Wikipedia (Brasil); Frank Netter (Netter images).

Nossa exposição a mais informação, mais tecnologia e mais mudanças no mundo só tende a aumentar e ignorá-las não parece ser uma opção. Estudos sobre a influência disso em nossos comportamentos e sistema nervoso são essenciais para entendermos como lidar com essa realidade. Neste momento, tenho 15 abas abertas no meu navegador e tentar concluir este texto sem começar uma nova tarefa (por exemplo, ver meu Whatsapp) parece ser impossível. Assim, é relevante saber sobre estudos demonstrando que algumas atividades como meditação podem melhorar nosso desempenho ou diminuir o estresse quando encarar nossas tarefas do dia a dia. Agora é só começar a colocá-las em prática (ai, mais uma tarefa para realizar)!

Referências

Rothbart M.K. e Posner M.I. (2015) The developing brain in a multitasking world. Dev Rev.; 35: 42–63.

Tang Y.T. e Posner MI. (2014) Training brain networks and states. Trends in Cognitive Sciences. 2014; 18:345–350.

Sanbomnatsu D.M., Strayer D.L., Medieros-Ward N., Watson J.M. (2013) Who multi-tasks and why? Multi-tasking ability, perceived multi-tasking ability, impulsivity, and sensation seeking. PLoS One. 2013; 8(1):e54402.10.1371/journal.pone.0054402

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A liberdade sexual também na prática científica

A liberdade sexual é um tema bem controverso por diversos motivos…. vai de encontro com preceitos religiosos, pode esbarrar em comportamentos éticos na convivência em sociedade e acalora debates quando colocado sob uma perspectiva evolutiva. Ou seja, um tema que pode ser discutido em diversas esferas e de diferentes modos. Aqui, decidi abordar sob um ponto de vista feminino e feminista e apontar a importância da ciência. Assim, gostaria de falar sobre: sabe aquela atração que a gente sente quando uma pessoa te chama atenção, aquela vontade de fazer sexo, aquele desejo de se tocar, de ter prazer? Não só os homens tem, as mulheres também! Apesar deles também buscarem a liberdade sexual, como o direito de discutir abertamente sobre seus desejos, nós, mulheres, ainda temos que passar por várias outras barreiras a mais que eles.  

Importantes conquistas rumo à essa almejada liberdade sexual ocorreram. A conquista dos anticoncepcionais como o DIU e a pílula é um exemplo, pois tornou possível desvincular o prazer sexual da procriação. Outra conquista que acredito já estar acontecendo, mas ainda lentamente, é as pessoas aceitarem a frequência e diversidade de parceiros que uma mulher pode ter ao longo de sua vida. Em tempos em que o objetivo de vida de uma mulher não é só ter filhos, a liberdade sexual é um importante aspecto em sua vida. Pois, sim, existe toda uma complexa neurobiologia responsável por recompensar o ato do sexo. Assim, o sexo por sexo é tão bom quanto (ou muito melhor se feito corretamente) comer uma deliciosa barra de chocolate ou correr 5 km no parque. Todas essas atividades ativam sistemas neurais como o sistema dopaminérgico e serotonérgico relacionados com sensações positivas.

blog                                                            Google imagens: Artemis Iota vel de Coitu Scholia Triviæ

Nesse processo de entender e aceitar a sexualidade da mulher muitos paradigmas podem ser quebrados, especialmente a partir de pesquisas científicas. Porém, nessa tentativa de explorar o mundo sexual alguns pesquisadores já se deram muito mal. Já ouviram falar do biólogo Alfred Kinsey? Ele conduziu uns dos primeiros grandes estudos sobre comportamento sexual de homens e mulheres entre a década de 40 e 50.  Mas foi muito criticado na academia e não reconhecido pelos seus estudos por muito tempo.

Felizmente, hoje em dia, temos muitas pesquisas sendo realizadas e a partir de diferentes perspectivas. Um interessante estudo procurou estabelecer se haveria uma explicação não adaptativa da ocorrência de cópula extra-par (que chamarei de infidelidade para facilitar) em mulheres. Um dos experimentos foi verificar se haveria relação da ocorrência de infidelidade e variabilidade genética de receptores de hormônios como a vasopresina e a oxitocina envolvidos em comportamentos de vínculos sociais (p. ex: empatia e confiança). Observaram, somente em mulheres, uma forte correlação entre variações no gene do receptor para vasopressina e uma maior frequência de infidelidade. Quais as conclusões disso? Claro, não é defender a infidelidade como algo natural, mas questionar as razões para que isso ocorra. Isto é, pensar a “pulada de cerca” como um comportamento influenciado por diversos fatores, não somente sociais e psicológicos, mas também biológicos. Outra importante observação é que a infidelidade não é um traço biológico somente masculino, contrário do que muitos pensam.

Outra pesquisa que põe em cheque algumas ideias foi uma realizada para verificar se as diferenças de comportamento sexual entre homens e mulheres não poderiam ser efeito de expectativas sociais sobre esse tipo de comportamento. Foi observado uma diferença, para mulheres, nas respostas em questionários de comportamento sexual dependendo do grau de anonimato. Isto é, parece que mulheres não se sentem muito à vontade para responder livremente quando podem ser julgadas. Além, é possível que o comportamento sexual de homens e mulheres não seja tão diferente, como alguns estereótipos ainda pregam.  

Assim, as pesquisas são importantes em diversos níveis. Pois, é conhecendo um pouco melhor de nós mesmas que vamos quebrando tabus e aceitando nossa natureza.        

Ainda estamos em uma época em que o sexo do casal é voltado para o homem e para sua satisfação. A menina ainda pensa se deve fazer sexo no primeiro encontro ou depois de outros para não se sentir promíscua. A mulher ainda se esforça, põe uma lingerie sexy, mesmo cansada, para não ser chamada de frígida ou para manter seu namorado interessado. Mulheres lindas e sexys ainda não se conhecem anatomica e sexualmente a ponto de saber seus pontos de maior excitação.Todas essas questões podem desaparecer no momento em que a sociedade se conscientizar e sermos criadas e tratadas normalmente como seres com libido. Por exemplo, quando a  auto-exploração do nosso corpo, como a masturbação, seja permitida e vista com normalidade. Nós temos e devemos fazer sexo porque gostamos, porque é delicioso ser tocada, beijada e explorada de forma consentida. E pronto! Sem peso na consciência!

 

Referências:

Zietsch et al. 2014. Genetic analysis of human extrapair mating: heritability, between-sex correlation, and receptor genes for vasopressin and oxytocin. Evolution and Human Behavior.

Alexander and Fisher. 2003. Truth and Consequences: Using the Bogus Pipeline to Examine Sex Differences in Self-Reported Sexuality. The Journal of Sex Research.

http://www.kinseyinstitute.org/research/ak-data.html

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Do sistema imune ao sistema nervoso central passando por uma breve análise da ciência.

A ciência como ela é apresentada a todos tem um quê de “superioridade”. Quem nunca ouviu ou até mesmo disse  “Ah, mas eu li que cientistas falaram que…” como forma de sustentar um ponto de vista ou defender uma ideia? Sim, a ciência se construiu para responder questões de forma lógica e objetiva e capacitar o desenvolvimento da humanidade através de teorias e previsões. Porém, algumas vezes esquecemos que, 1) a ciência não nos dá a “Verdade” sobre o mundo, 2) ela é feita por cientistas tão humanos quanto qualquer outra pessoa, e 3) ela está em constante modificação, seja de técnicas ou modos de pensar.

Em relação a isso, uma ideia apresentada por alguns filósofos e sociólogos da ciência como Thomas Kuhn e Bruno Latour é a de que a ciência não está livre de seu contexto social e histórico. Isto é, as razões para aceitar uma teoria em detrimento de outra não é puramente lógica e objetiva, baseada em dados empíricos e observados.  Mas também depende de outros fatores aos quais os cientistas estão em contato ao longo de sua vida. Entretanto, esse não é um post sobre sociologia da ciência (caso se interessem podemos fazer um sobre esse tema, é só pedir!).     

Em minha área de estudo, neurociência, algo curioso ocorreu recentemente, e exemplifica, de certa maneira, essa característica da ciência.

Acredita-se que o sistema nervoso central (SNC) – composto por cérebro, medula, retina e nervos ópticos – é um sistema bem delimitado e privilegiado, com mecanismos próprios e eficientes que selecionam muito bem o que entra e sai dele. Assim, pensou-se que sua interação com o sistema imune seria diferente de outros sistemas. Reações rápidas e intensas de defesas imunológicas como inflamações e ataques de células defensivas não seriam nada interessantes para esse delicado e complexo sistema. A meninge, a qual consiste em três camadas de membrana, protegeria o SNC contra possíveis patógenos e outras substâncias indesejáveis. Dessa forma, era considerado que o sistema nervoso e o sistema imune periférico não possuíam uma ligação direta como ocorre entre outros órgãos e tecidos por meio do sistema linfático. Isso tornava os mecanismos de defesa, de entrada e saída de células imunológicas no SNC difíceis de compreender. Isso tudo mudou drasticamente com uma recente descoberta publicada na Nature de que há, sim, vasos linfáticos que conectam esses dois sistemas.   

 

sistema linfático e nervoso

Essa evidência traz várias consequências para o estudo e entendimento de como ocorrem as reações de defesa no SNC e, assim, tem grande impacto na compreensão de doenças neurológicas e psiquiátricas como Alzheimer, autismo e esclerose múltipla. Isso porque as causas ou progressões dessas doenças podem estar relacionadas com mal funcionamento dessa conexão direta que resultam em imunidade alterada do SNC, como colocam os autores do trabalho.

Essa observação por si só é impressionante. Porém, outro aspecto interessante que podemos analisar dessa descoberta é o fato de que o estudo da anatomia humana teve seu auge no século XIX e até hoje ainda não sabemos tudo. Talvez a localização muito próxima de vasos sanguíneos tornaram a observação desses vasos linfáticos complicada sem uma tecnologia adequada. Entretanto, também acredito que a forma que tratamos o SNC, considerando-o como algo único e especial, deve ter influenciado no “atraso” dessa descoberta. Apesar de ser um sistema bem peculiar ainda faz parte e interage com outros sistemas do organismo, assim, seu estudo pode se tornar complicado quando colocado em uma redoma. 

Essa não é uma crítica à ciência em si. Acredito que o método científico e as teorias que advém da ciência são os melhores caminhos para o desenvolvimento do conhecimento, pois é democrático e permite replicações. Mas acho legal manter sempre a mente aberta para além daquilo que estamos acostumados. Quem sabe você encontra algo inusitado e ganha um Nobel?!

Referências:

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A dificuldade do debate feminista quando ele bate à sua porta

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Tirinha por: @lacunainkk

Não entendo muito sobre o universo feminista. O que sei é o que leio de diversos textos que aparecem para mim e estou longe de ser uma expert. Mas se você se interessar, textos muito mais esclarecedores sobre seu significado e história podem ser lidos nesse mesmo blog. Porém, mesmo não conhecendo todas suas vertentes, me considero uma feminista. Apesar de frequentemente pensar sobre o assunto, só recentemente comecei a debater sobre feminismo e empoderamento das mulheres mais abertamente. Seja com os amigos, colegas de trabalho, família, namorado… Independente de com quem esteja conversando, a dúvida sempre aparece… “estou sendo chata?”, “estou exagerando?”, “será que estou sendo hipócrita?”. Não sei para vocês, leitores, mas junto com esse debate mais questões aparecem.

Faço doutorado em uma área que tenta entender o sistema nervoso, principalmente observando o comportamento. Assim, no meu laboratório, temos muita curiosidade sobre o comportamento humano. Discutimos sobre novas descobertas nesse campo. Debatemos também sobre filosofia da ciência e como devemos sempre questionar as teorias, as “verdades” sobre o mundo. Principalmente porque a ciência é feita por nós, pessoas criadas em certa sociedade, com certa cultura, certas crenças e descrenças, ou seja, enviesadas. Porém, tem sido comum uma reação aversiva de meus colegas de trabalho, homens e mulheres, quando comento algum assunto relacionado ao feminismo. Piadas e ironias são utilizadas para matar o assunto tornando difícil de me fazer entender. A impressão que tenho é que estou insistindo em algo do passado, quando as mulheres eram “realmente” reprimidas. Mas que agora tudo mudou, pois veja só, você está aqui em uma Universidade, fazendo doutorado, sendo ouvida por homens….Quer mais o quê?

O triste é que eu gostaria de simplesmente debater e não pregar uma ideia. Eu também estou em processo de formação de opinião. Não estou falando que eu mesma não faço julgamentos de valores. Por exemplo, sinto uma ponta de orgulho quando falam que eu tenho qualidades masculinas. Quando pensei nisso fiquei meio chocada, pois percebi que características como ser mais fria, independente, desencanada são mais valorizadas e, pior, consideradas masculinas. Do outro lado, características como ser mais sensível, mais compreensiva, são muitas vezes desvalorizadas, principalmente em ambientes de trabalho, e tidas como femininas. Qual o parâmetro para isso?  É essa expectativa de gêneros e estereótipos que mais me incomoda. Assistam o vídeo da maravilhosa Chimamanda Adichie para ter uma ideia mais clara.

Sim, é claro que existem diferenças biológicas entre o sexo feminino e masculino, mas isso não significa que devemos criar expectativas ou julgar as pessoas levando em conta somente essas duas, digamos, “formas”. Além de fatores biológicos, fatores psicológicas e socioculturais influenciam a todo momento a formação da identidade de uma pessoa.

Um artigo publicado em 2011 (Joel, 2011; para ler ou para assistir vídeo do TED ) expõe isso de forma bem interessante. Algumas características do cérebro são distintas dependendo do sexo, como tamanho, composição de neurotransmissores, densidade de dendritos, etc. Porém, não há evidências conclusivas de que isso levaria a uma significativa diferença comportamental e cognitiva  entre o sexo feminino e masculino. Além disso, observou-se que fatores ambientais, como o estresse, podem modificar essas características. Ou seja, um cérebro com uma característica “feminina”, após exposto a estresses, passaria a expressar uma característica “masculina”. Assim, o artigo questiona a frequente classificação do cérebro em uma forma dentre duas: feminina e masculina. Sugere-se, então, considerar o cérebro como uma composição heterogênea de características “feminina e masculina”, isto é, um cérebro intersexo podendo possuir uma gama de “formas”. Levando isso em conta parece meio inútil falar de papéis de gênero, identidade de gênero e expectativa de gênero considerando somente o feminino ou masculino. Os estereótipos são criados, a cultura é criada, por nós, pessoas. E, se é possível que características do cérebro se modifiquem, nossa mentalidade também pode mudar.

Entendo que existem diversos tipos de feminismo. Alguns mais radicais, outros nem tanto. Mas é fato que ainda existem tratamentos e expectativas diferentes para homens e mulheres. Parece que quanto mais lutamos por direitos e liberdade, mais sobrecarregadas ficamos. Pois conquistar o mercado de trabalho, espaço intelectual, liberdade sexual não ocorreu ao mesmo tempo que outras mudanças. Ainda é esperado das mulheres que casem, tenham filhos, cozinhem, lavem, e ainda ganhando menos para trabalhar o mesmo que os homens. Do mesmo modo, expectativas também existem para homens. Muitas vezes já vi homens sensíveis e carinhosos sendo escrotos e objetificando mulheres por pura pressão social. Sabe aquele cara que muda o comportamento quando está com amigos? E se…considerarmos que todos somos um poço de preconceitos que foram acumulados ao longo de anos? Que fomos expostos a informações construídas desde quando nascemos, sobre como devemos ser, nos comportar, nos vestir, etc.? Se não questionarmos porque julgamos e reprimimos pessoas e comportamentos, não será possível mudar e melhorar. Assim, a troca de experiências e questionamentos faz parte do desenvolvimento de opiniões pessoais, não somente da formação de teorias científicas. No trabalho de um cientista ele precisa ler, se informar e formar opiniões baseada em fatos, pensar criticamente e não ter preguiça de ir buscar mais informação. Por que não ter essa mesma conduta quando deparado com um assunto tão relevante quanto qualquer outra teoria científica, o feminismo?

Para mim, o objetivo do feminismo não é todo mundo ser igual e, menos ainda, as mulheres serem supervalorizadas. As diferenças de sexo e gênero devem ser consideradas e cultivadas…de forma igualitária. Como fazer isso? Sei lá…talvez começando por questionar tudo, que nem Descartes fez. Vamos duvidar de tudo para chegar em alguma “verdade” sobre nós e a sociedade em que vivemos?

Referências inspiradoras: