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Identificada nova bactéria intestinal e sua possível relação com a depressão

bacteria intestinalImagem: https://www.rheumatologyadvisor.com/home/topics/scleroderma/little-data-available-for-small-intestinal-bacterial-overgrowth-treatment-in-systemic-sclerosis/

Não é de hoje que as bactérias intestinais vêm revirando as informações no mundo da ciência e por consequência causando grande impacto em nossas vidas. Em outros posts aqui do blog falamos sobre a relação da microbiota com antibióticos, parasitas intestinais, cérebro, obesidade, fadiga crônica e até mesmo sobre depressão.  

No post passado sobre a depressão, relembramos que 95% da serotonina, um neurotransmissor responsável pelo bem-estar, é produzido no intestino e sua relação com a microbiota. O que é novidade é que uma pesquisa publicada na revista Nature Microbiology conseguiu isolar e identificar uma espécie de bactéria intestinal e relacioná-la com depressão.

A ideia do projeto começou com uma lista de potenciais alvos bacterianos que o NIH (National Institutes of Health – USA) publicou sugerindo que fossem isoladas do intestino humano por sua potencial importância no desenvolvimento de doenças.  

Muitas espécies de microorganismos da microbiota intestinal permanecem desconhecidas por existirem em baixa quantidade ou por sua incapacidade de sobreviver fora do corpo humano.

A bactéria KLE1738 está nesta lista por ter sido identificada em quase 20% do microbioma intestinal humano nos bancos de dados de sequenciamento microbiano, porém nunca havia sido cultivada.

O cultivo de espécies de bactérias e fungos fora do corpo humano é muito difícil, pois em laboratório não conseguimos reproduzir as mesmas condições ambientais para promover seu crescimento, porém após um extenso processo de triagem, os pesquisadores descobriram que o KLE1738 só crescia em condições laboratoriais na presença de Bacteroides fragilis, uma bactéria intestinal comum no microbioma humano.

Somente este dado nos mostra um novo parâmetro a ser pensado, que muitos microorganismos possuem seu papel biológico desconhecido porque não conseguimos mimetizar em laboratório as influências que outras bactérias vizinhas exercem para promover o crescimento ou redução de espécies que identificamos no microbioma humano.

Outros testes biológicos e purificações levaram ao isolamento de GABA (Ácido gama-aminobutírico) como um fator de crescimento produzido pela bactéria Bacteroides fragilis. Descobriram que o GABA produzido serviu como nutriente para o crescimento da KLE1738.

A capacidade da microbiota de produzir e/ou consumir GABA não havia sido amplamente descrita antes, e uma bactéria dependente do GABA nunca havia sido relatada.

Mas afinal o que é o GABA?

sinapseImagem:https://psicoativo.com/2017/01/sinapses-partes-funcoes-e-tipos-de-sinapses.html

O GABA é um neurotransmissor que atua inibindo o sistema nervoso central (SNC) e está diretamente relacionada com comportamento agressivo e impulsividade. Este neurotransmissor inibe ou reduz impulsos nervosos nos neurônios, levando o indivíduo a um estado de menor agitação cerebral, ou seja, a um estado de relaxamento tanto mental quanto muscular. Quando seus níveis estão baixos, estamos muito mais suscetíveis a ansiedade, angústia e estresse.

Logo, se as bactérias intestinais produzem esse neurotransmissor, um desequilíbrio na microbiota pode levar a baixa produção de GABA.

Pensando no papel do GABA e seus efeitos no SNC, os cientistas testaram a possível conexão entre Bacteroides sp. e depressão. Para isso, coletaram amostras de fezes e mediram a atividade cerebral por ressonância magnética de 23 indivíduos clinicamente diagnosticados com depressão. Os resultados mostraram que a baixa abundância de Bacteroides sp. estava associada à alta atividade de uma parte do cérebro que está ligada a depressão.

O próximo passo será fazer mais testes com humanos para explorar se o GABA microbiano pode atuar como um sinal do intestino para o cérebro.

Saiba mais sobre microbiota e cérebro nesse post: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/06/06/cerebro-e-intestino-parceria-inseparavel/

Referência

Philip Strandwitz et al, GABA-modulating bacteria of the human gut microbiota, Nature Microbiology (2018). DOI: 10.1038/s41564-018-0307-3

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Fadiga crônica e a relação com a microbiota intestinal

Sente-se cansado o tempo todo? Com dificuldade de concentração e de memorização? Mesmo após uma boa noite de sono, essa sensação de cansaço não vai embora?

Se esses sintomas ocorrem há mais de 6 meses, pode ser que você tenha a Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), também conhecida como encefalomielite miálgica (ME). O paciente com a SFC apresenta piora da memória, dores musculares e nas articulações, distúrbios digestivos e sonolência ao longo do dia, que pioram com a atividade física ou mental.

A SFC é de difícil diagnóstico porque é preciso que qualquer outro tipo de doença causadora dos mesmos sintomas seja descartada, como o hipotireoidismo ou anemias. Sem um marcador específico que caracterize a síndrome, o diagnóstico pode ser muito demorado. Porém um estudo publicado este ano aponta um caminho promissor para que esses marcadores sejam enfim utilizados.

O estudo aponta que o problema pode começar no seu intestino, com a sua microbiota intestinal!

Sindrome da fadiga ronica

Imagem adaptada de: shutterstock.com

A microbiota é formada pelo conjunto de bactérias e fungos que vivem em nosso organismo. Sem as mesmas, não poderíamos sobreviver. Quando os micro-organismos presentes na microbiota entram em desequilíbrio, podem causar distúrbios ao organismo.

A pesquisa conduzida pela Dr. Dorottya Nagy-Szakal da Universidade de Columbia nos Estados Unidos relata a relação entre o desequilíbrio de espécies de bactérias intestinais com essa síndrome.

Os cientistas compararam pessoas saudáveis com pessoas portadoras da SFC e observaram que a maioria dos portadores da SFC também possuíam a Síndrome do Intestino Irritável (SII). De acordo com os autores de 35-90% dos pacientes com SFC também são portadores da SII.

A Síndrome do intestino irritável é um transtorno gastrointestinal que causa mudanças na movimentação (motilidade) do intestino, podendo levar a constipação ou diarreia, acúmulo de gases e cólicas. 

Ao analisarem o perfil das pessoas que possuem SFC com ou sem a SII, os autores do estudo não encontraram diferenças entre células do sistema imune, já que em artigos anteriores publicados por outros grupos haviam suspeitas de que a SFC fosse causada pelo aumento de células inflamatórias circulantes. O que encontraram de diferente entre os grupos analisados foram os tipos de bactérias intestinais de cada paciente. Ao identificar esses diferentes tipos de bactérias entre os pacientes, os pesquisadores puderam encontrar possíveis biomarcadores para o diagnóstico da SFC.

Chamamos de biomarcador tudo aquilo que pode ser utilizado como um indicador de alguma doença ou distúrbio. No caso deste estudo, os cientistas identificaram que pessoas com a SFC+SII possuem como biomarcadores o aumento de bactérias do gênero Alistipes e diminuição do gênero Faecalibacterium no intestino, em comparação a pessoas saudáveis. Já pacientes somente com SFC apresentaram como biomarcadores o aumento de gênero Bacteroides juntamente com uma diminuição específica na espécie Bacteroides vulgatus. Sabendo desses perfis de bactérias que funcionam como biomarcadores, os pesquisadores conseguiram prever os 3 tipos de pacientes: pacientes saudáveis, pacientes somente com SFC e pacientes com SFC+SII. Além disso, os cientistas encontraram uma forte correlação entre a gravidade dos sintomas (dores, fadiga extrema e motivação reduzida) e a quantidade dessas bactérias nos pacientes portadores da SFC.

O trabalho de Dr. Dorottya Nagy-Szakal conclui ainda que essas bactérias específicas podem quebrar a comunicação que há entre o cérebro e o intestino, atuando por diferentes vias do metabolismo.  Isso pode ocorrer porque as bactérias há redução na produção de ácidos graxos e aminoácidos essenciais para o metabolismo corpóreo.

Há cerca de 10 anos, estudos científicos que exaltam a importância do papel da microbiota intestinal para o corpo humano crescem a cada ano. Uma gama de estudos vêm relacionando o papel das bactérias e fungos que temos em nossos corpos, principalmente nos intestinos, com o desenvolvimento de doenças.

Mas será mesmo que a microbiota está na intersecção de todas essas doenças?

No mundo da ciência este é um assunto muito novo e que ainda precisa ser muito explorado. Ainda estamos no princípio para o entendimento do papel que a microbiota pode exercer em nosso organismo.

Fatores genéticos, ambientais, se nascemos de parto normal ou cesariana, metabolismo e nutrição são fatores que influenciam diretamente em qual tipo de micro-organismos iremos ‘cultivar’ em nosso corpo. Desta lista, o fator nutricional parece ser o que mais podemos controlar de alguma forma. Por isso a prevenção ainda é o melhor remédio.

O tratamento para a síndrome da fadiga crônica depende de cada caso, mas inclui antidepressivos para ajudar no sono e nas dores musculares, psicoterapia para atenuar o stress, exercícios físicos e principalmente uma alimentação balanceada.

Em um futuro próximo, quem sabe, esses biomarcadores sirvam como base para probióticos que possam ajudar pessoas que sofrem com essas síndromes. Enquanto isso, a dica é tentar manter uma vida equilibrada. Evitar o stress e o álcool em excesso e manter uma rotina de exercícios físicos e de boa alimentação.

*Probióticos: organismos vivos que quando ingeridos exercem efeito benéfico ao organismo por balancear a microbiota intestinal.

Saiba mais sobre os micro-organismos que habitam nossos corpos nesse outro post do blog: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/08/29/o-ecossistema-que-nos-habita/

Saiba mais sobre microbioma: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/12/21/microbioma-uma-questao-de-peso/

 

REFERÊNCIAS

Giloteaux L, Goodrich JK, Walters WA, et al. Reduced diversity and altered composition of the gut microbiome in individuals with myalgic encephalomyelitis/chronic fatigue syndrome. Microbiome. 2016; 4:30.

Nagy-Szakal D, Williams BL, Mishra N, et al. Fecal metagenomic profiles in subgroups of patients with myalgic encephalomyelitis/chronic fatigue syndrome. Microbiome. 2017; 5:44.

 

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O primeiro embrião humano “corrigido’’.

Pela primeira vez cientistas conseguiram remover um pedaço do DNA responsável por uma doença genética que pode ser fatal ao coração humano.

O pesquisador Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Saúde e Ciências do Oregon (EUA), liderou um time que contou com a colaboração de outros cientistas do Instituto Salk (CA/EUA) e do Instituto de Ciências Básicas da Coreia do Sul (CN) para que a pesquisa pioneira fosse publicada no periódico da Nature neste mês de agosto.

Nessa pesquisa, os cientistas deletaram um gene chamado de MYBPC3, conhecido marcador genético para hipertrofia cardiomiopática , uma doença que causa aumento da parede do coração, levando à repentina parada dos batimentos cardíacos.

Como se trata de uma doença hereditária dominante significa que se um dos pais for portador do gene causador da patologia, seus descendentes tem 50% de chances de também possuírem a patologia.

Pensando em como evitar que esse gene seja transmitido à prole, os pesquisadores utilizaram a técnica de CRISPR/Casp9 para ‘editar’ os embriões humanos ainda no momento da fecundação, injetando os componentes CRISPR-Cas9 no óvulo ao mesmo tempo em que injetaram o esperma para fertilizá-lo.7b5dfe_30515736ad674cc793a10db6286af4cfmv2

 

Repare no espermatozóide sendo inoculado dentro do óvulo. Isso é feito com auxilio de uma micro-pipeta, que é um tipo de micro agulha que possibilita romper a membrana celular do óvulo para injetar o espermatozóide + componentes CRISPR/Casp9.
https://www.maisfert.com.br/icsi-convencional

A técnica chamada CRISPR (Clustered Regularly Interspeced Short Palindromic Repeats) permite a edição de moléculas de DNA por inserir um novo pedaço de material genético modificado em uma célula. Para isso a enzima Casp9 corta o genoma alvo marcado por uma molécula guia de RNA e insere a nova sequência no material genético.

Saiba mais sobre a técnica: https://www.youtube.com/watch?v=dI4L70J_x8c&t=274s

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http://revistapesquisa.fapesp.br/2016/02/19/uma-ferramenta-para-editar-o-dna/

No estudo foram utilizados 58 embriões fertilizados, sendo o espermatozóide o portador do gene para a doença cardíaca. Destes, conseguiram corrigir a patologia de 42 embriões.

A alta taxa de sucesso representa um grande passo para a edição de genes humanos e isso só foi possível por uma pequena modificação na técnica de CRISPR/Casp9.

Geralmente, os pesquisadores inserem o DNA desejado nas células e esperam que a própria célula faça o trabalho de gerar RNA e as proteínas necessárias para que a nova cópia seja gerada. Porém na pesquisa da edição de embriões, a diferença foi que os cientistas inseriram a própria Casp9 ligada ao seu RNA guia. Deste modo puderam prevenir que mutações não desejadas ocorressem, pois a Casp9 é degradada rapidamente em comparação com sequências prontas de DNA.

Com isso o CRISPR/Casp9 degenerou o gene com defeito vindo do pai e copiou o gene intacto vindo da mãe. Parece que a técnica funciona quando temos ao menos uma cópia saudável do gene por parte de um dos pais.

Após a reparação do DNA, o embrião se desenvolveu por 5 dias antes dos  experimentos serem interrompidos. Segundo os cientistas, não havia intenção de implanta-los no útero e que isso ainda está muito longe de acontecer.

O pesquisador responsável acredita que foi capaz de demonstrar que a edição de embriões para doenças genéticas que tenham alteração em um único gene são possíveis e seguras,  e que podem ser futuramente uma alternativa à cura de doenças hereditárias.

Alguns cientistas e órgãos governamentais dos EUA alertam para o perigo da técnica ser utilizada para a criação de “bebês perfeitos’”.

A academia Nacional de Ciência, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos, atualmente, autoriza o uso da edição gênica de embriões humanos para estudos e aceita que a implantação de embriões humanos ocorra somente se o objetivo for tratar uma doença para a qual não haja tratamentos alternativos possíveis.

O debate ético em torno de pesquisas de edição de embriões levanta questões como:

1) Quando devemos utilizar a tecnologia genética para criar embriões mais saudáveis?

2) Até que ponto deveríamos permitir a edição de embriões?

3) Será que no futuro poderemos customizar bebês?

Fontes:

http://www.nature.com/news/crispr-fixes-disease-gene-in-viable-human-embryos-1.22382

Animação sobre a técnica: https://www.youtube.com/watch?v=FNqGjHdV2kE

 

 

 

 

 

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Conheçam Anna Freud a fundadora da psicanálise infantil.

Anna Freud

Ilustração: Mari Reis

Filha do fundador da Psicanálise, Sigmund Freud, Anna Freud nasceu em 1895-Viena na época em que as teorias de Freud sobre sexo e mente estavam começando a torná-lo famoso em toda Europa. Desde nova mostrava interesse por estudar e ao acompanhar seu pai em reuniões de psicanálise, começou a colaborar profissionalmente com as pesquisas. Mais tarde tornou-se professora e psicanalista, sendo pioneira no tratamento de crianças, criando clínicas e enfermarias para crianças que foram vítimas de guerra, sobreviventes do holocausto ou perturbadas por traumas diversos.

Em seu livro de 1936 intitulado de O Ego e Mecanismos de Defesa, Anna traz à tona, pela primeira vez, a ideia da análise do ego como uma resposta instintiva a realidade, ou seja, que instintivamente tentamos proteger “a imagem aceitável do que somos’’ com uma variedade de defesas.

O problema é que no ato de defender nós mesmos contra a dor, acabamos prejudicando nossas chances de lidar com a realidade a longo prazo e, portanto, de desenvolver o amadurecimento.

Anna Freud destacou dez tipos principais de mecanismos de defesa:

1- Negação: quando não admitimos que há um problema e tentamos nos enganar justificando para nós mesmos com pequenas ‘mentiras’ de que tudo irá ficar bem ou que conseguiremos lidar com a situação. Se outras pessoas tentam nos conduzir a enfrentar a problema, tendemos a reagir muito mal. O instinto para se sentir bem consigo mesmo recusa reconhecer a nossa necessidade de mudança.

2 – Projeção: quando atribuímos um sentimento ruim ou nossas frustrações à alguém sem querer olhar para nós mesmos mais a fundo e tentar descobrir a origem desse sentimento. Você está colocando os sentimentos negativos, que você não quer reconhecer em si mesmo, na outra pessoa. Isso é projeção.

3- Voltar-se contra você: quando pensamos mal de nós mesmos como uma maneira de escapar de um pensamento ainda pior. Anna Freud descobriu que as crianças fazem muito isso. Uma criança abusada por um pai vai geralmente buscar refúgio em um pensamento que, embora desagradável, é menos terrível do que as alternativas. A pessoa tende a pensar: “devo ser ruim e sem valor é por isso que o meu pai está agindo dessa maneira comigo”. Dessa forma a auto-punição dirá que apesar de tudo: “Eu ainda tenho um bom pai”.

4- Sublimação: ocorre quando redirecionamos pensamentos ou emoções inaceitáveis, muitas vezes sobre sexo ou violência, em atividades ou experiências “superiores”. Por exemplo no mundo da música ou da arte, em que muitos autores transformam suas dores em obras incríveis. Como Frida Kahlo, que pintou suas angústias e tornou-se conhecida artista.

5- Regressão: frente a situações difíceis, voltamos a nos comportar como quando éramos mais jovens ou fugir da responsabilidade. Na regressão colocamos a culpa sempre em outra pessoa e é normal para muitos adultos regredirem quando estão sob pressão.

6- Racionalização: tentamos arranjar uma desculpa que soa inteligente para nossas ações, mas é cuidadosamente pensada/manipulada para chegar à conclusão que nós sentimos que precisamos: que somos inocentes, agradáveis e que não merecíamos passar por isso.

7- Intelectualização: ocorre quando tentamos justificar algo ruim baseado em fatos reais do passado ou da atualidade. Quando tentamos neutralizar a situação pensando puramente de forma racional.

8- Formação de reação: fazemos exatamente o oposto dos nossos sentimentos iniciais. Por exemplo quando você se sente atraído por alguém e passa a ser agressivo em relação a pessoa, em vez de admitir sua atração.

9- Deslocamento: quando você direciona seu desejo agressivo para alguém mais fraco. Um exemplo é quando seu chefe grita com você e ao chegar em casa você faz o mesmo com seu parceiro.

10 – Fantasia: ao transportarmos nosso mundo real e intimidador ao mundo da imaginação que é um mundo mais confortável de viver.

Anna Freud, ao escrever sobre os mecanismos de defesa sabe que essas defesas são inerentes do ser humano e também descreve o quanto esses mecanismos podem interferir para melhor ou pior a vida de cada individuo. Seu legado deixa uma forma de ajudar-nos a ver um pouco melhor a nós mesmos para que sejamos um pouco mais maduros e menos egoístas.

Referências

Freud, A. (1936) Ego & the Mechanisms of Defense.

Freud, A. (1956-1965) Research at the Hampstead Child-Therapy Clinic & Other Papers.

Freud, A. (1965) Normality & Pathology in Childhood: Assessments of Development.

PSICOATIVO. Disponível em:<http://psicoativo.com/2016/04/anna-freud-biografia-teorias-livros.html> Acesso em: 30 jun.2017.

PSICOATIVO. Disponível em: <http://psicoativo.com/2016/01/mecanismos-de-defesa-o-guia-essencial.html> Acesso em: 30 jun.2017.

 

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Até que ponto somos responsáveis por tudo o que escolhemos comer?

    Segundo levantamento feito no ano de 2014 pela Organização Mundial da Saúde,  54% da população brasileira apresenta excesso de peso e 20% são obesos1. Atualmente um dos tratamentos para obesidade são as cirurgias bariátricas, consideradas eficientes por reduzirem a ingestão alimentar e a absorção calórica. Porém, em um recente estudo publicado na revista Cell Metabolism, pesquisadores demonstram que a perda de peso pós-cirúrgica altera a comunicação entre o intestino e o cérebro, levando à preferência por alimentos menos calóricos.

    A história toda começou com estudos prévios publicados pela equipe de Tellez onde investigaram a via  de um ácido graxo chamado Oleoletanolamina (OEA), que é naturalmente produzido por células intestinais após o consumo de gorduras como azeite, castanhas e amêndoas. A molécula OEA atua no receptor PPAR-alpha que, via nervo vago, atinge uma região do cérebro conhecida como estriado dorsal . Essa região cerebral é responsável pela liberação e captação do neurotransmissor chamado de dopamina que atua no controle do bem-estar, do prazer e na vontade de comer.

    Em animais que consomem dieta com excesso de gordura, ocorre queda na produção de OEA pelas células intestinais, seguida de redução da liberação de dopamina. Já animais que consomem dieta com baixo teor de gordura não apresentam redução de OEA e consequentemente de  dopamina2. Tanto em humanos quanto em animais, quedas nos níveis de dopamina estão relacionadas ao maior consumo alimentar e seguida de ganho de peso por levar o indivíduo a comer mais para compensar o baixo nível de dopamina produzido em seu cérebro .

Pensando nesses resultados obtidos, Hanikir e seus colaboradores começaram a questionar se cirurgias bariátricas promovem mudança na escolha dos alimentos? Será que essas escolhas por alimentos são reflexos de escolhas conscientes de cada indivíduo? Quais são os mecanismos envolvidos na escolha alimentar?

    Diante dessas perguntas  Hankir e sua equipe  testaram se esta via “intestino – OEA – nervo vago e dopamina” estaria envolvida na preferência por alimentos menos calóricos após cirurgias bariátricas.

    Os cientistas observaram  que em condições normais os roedores preferem os alimentos mais calóricos  quando podem escolher entre alimentos com alto ou baixo teor de gordura. Porém após passarem por cirurgias bariátricas do tipo bypass gástrica, na qual o estômago é reduzido e religado ao intestino delgado, os animais passavam a escolher a dieta com menor quantidade de gordura. Essa escolha foi atribuída aos maiores níveis de OEA no intestino e de dopamina na região estrial dorsal do cérebro após as cirurgias. Ainda, notaram que esse aumento da dopamina cerebral foi maior nos animais que passaram por cirurgia bariátrica em comparação com outro grupo de animais que perderam peso por restrição alimentar.

Mas será que essa escolha estava mesmo sendo mediada via nervo vago?

    Para responder a essa pergunta, os pesquisadores cortaram cirurgicamente o nervo vago dos animais e ofereceram uma dieta rica em gorduras. Então observaram que não houve aumento da secreção de dopamina no cérebro, indicando que o nervo vago precisa estar intacto para enviar o sinal da preferência alimentar ao cérebro.

    O estudo demonstra que alterações na secreção de dopamina e no apetite por gorduras após cirurgia bariátrica são atribuídas ao aumento da sinalização intestinal, desencadeando respostas fisiológicas no organismo e não são, portanto, decorrentes de uma escolha pessoal. Isso ocorre pelo aumento de OEA que é transmitido ao cérebro culminando no aumento de dopamina que leva à redução da ingestão de gorduras (Figura 1).

Figura 1

Figura 1: adaptada de HANKIR, M. K. et al. Gastric Bypass Surgery Recruits a Gut PPAR-α-Striatal D1R Pathway to Reduce Fat Appetite in Obese Rats.; http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/da-saciedade-e-outros-prazeres/

    Trabalhos como este são relevantes para tentarmos entender cada vez mais o papel da fisiologia do corpo humano frente a nossas vontades pessoais. Será que a “vontade’’ de comer determinados alimentos são escolhas pessoais ou são decorrentes de vias hormonais e de sinalização entre moléculas que comandam seu cérebro? Será que um dia poderemos utilizar essas vias para o tratamento de doenças metabólicas? Será que somos responsáveis por tudo o que escolhemos comer?

Deixo vocês aqui com mais questionamentos para futuros experimentos…

 

  1. WHO. Infobase global comparable estimates, risk factors: prevalence of overweight and obesity map. Disponível em: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/&gt;.

  2. Tellez, L.A., Medina, S., Han, W., Ferreira, J.G., Licona-Limo´ n, P., Ren, X., Lam, T.T., Schwartz, G.J., and de Araujo, I.E. (2013). A gut lipid messenger links excess dietary fat to dopamine deficiency. Science 341, 800–802.
  3. HANKIR, M. K. et al. Gastric Bypass Surgery Recruits a Gut PPAR-α-Striatal D1R Pathway to Reduce Fat Appetite in Obese Rats. Cell Metabolism, v. 25, n. 2, p. 335–344, fev. 2017.