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Marielle e a luta contra a criminalização da pobreza

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Créditos da imagem: Nunah Alle

Marielle Franco, mulher, negra, bissexual e mãe. A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Relatora da controversa intervenção federal no Rio de Janeiro. Socióloga e mestra em Administração Pública. Ela é, inegavelmente, parte do grupo que saúda nos agradecimentos de sua dissertação de mestrado, o “bonde de Intelectuais da favela”. Marielle é parte daqueles que frequentaram cursinhos populares, foram para universidades consagradas e ousaram ocupar os espaços da pós-graduação.

Nós, enquanto um coletivo de mulheres cientistas e feministas, composto por diferentes etnias e origens sociais, estamos em luto. Cada pedaço da história de vida de Marielle ecoa em diversas partes de nossas próprias histórias. Desejamos, acima de tudo, honrar sua trajetória e somar forças para que toda a dor proveniente dos últimos acontecimentos se converta em luta.

O engajamento social de Marielle aparece também no tema de sua pesquisa de mestrado, que analisa a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) na cidade do Rio de Janeiro e a implementação de um modelo de Estado Penal. Em tempos sombrios, tentamos aqui resumir em linhas gerais sua dissertação, potente e viva, como não poderia deixar de ser.

Para compreender sua proposição, é necessário, antes de tudo, entender do que se trata um “Estado penal”. De acordo com as definições trazidas ao longo do texto, o Estado Penal  é caracterizado pela redução das políticas públicas focadas na garantia de direitos básicos (como saúde, educação, moradia etc) e o aumento de políticas voltadas para o controle da ordem por meio de repressão estatal, por meio do aparato policial e Judiciário.

Nesse sentido, sua pesquisa se propôs a  investigar se as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), enquanto política de segurança pública adotada no estado do Rio de Janeiro, reforçam o modelo de Estado Penal. Para compreender esse fenômeno, Marielle considerou todo o processo de formulação da implementação das UPPs nas favelas do Rio de Janeiro, no período de 2008 a 2013.

Além disso, questionou “em que medida essas ações representam políticas que, de certo modo, alteram a realidade da administração da segurança pública; ou se operam uma espécie de maquiagem dos fatos reais que, com efeito, constroem uma capa ideológica que disfarça e aprofunda o Estado Penal; ou, ainda, se estas unidades seriam, realmente, uma mudança de percurso da política do Estado para a segurança pública do conjunto da cidade, especificamente nas favelas” (FRANCO, 2014, p. 17).

A pesquisa se fundamentou na análise de documentos oficiais, tais como decretos legislativos, normativas e o boletim interno da Polícia Militar.  Durante todo o processo de elaboração do trabalho foi utilizada a observação participante, que consistiu na participação da pesquisadora em diversas reuniões com os movimentos sociais e a cúpula da Segurança Pública. Além disso, o exercício profissional junto à equipe da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ foi, sem dúvidas, um grande aliado na compreensão do fenômeno estudado.

A autora conclui que, do ponto de vista dos dados quantitativos,  a medida teve o efeito contrário ao prometido por parte de alguns gestores. O número de homicídios aumentou desde a implementação das UPPs:

“Desde o início das UPPs, alguns moradores de favela foram assassinados pelas mãos armadas do Estado. Somente em 2010, morreram no Brasil 49.932 pessoas vítimas de homicídio, ou seja, 26,2 a cada 100 mil habitantes, sendo que 70,6% das vítimas eram negras. Ao analisar a faixa etária desses mortos, 26.854 eram jovens entre 15 e 29, ou seja, 53,5% do total (ISP, 2013). Já no último ano da série oficial, refere-se o Instituto de Segurança Pública (ISP) ao ano de 2013, ocorreu o aumento de 16,7% nas mortes por homicídio, 4.081 em 2012 e 4.761 em 2013. Seguindo a lógica de raciocínio impetrada e maciçamente propagandeada pelo governo do Rio de Janeiro, 680 pessoas deixaram de ser salvas” (FRANCO, 2014, p. 102).

A pesquisadora alerta para o fato de que o homicídio de policiais também aumentou, totalizando 16 mortes. Além disso, tais ações tiveram impacto direto no respeito aos direitos dos moradores e nas as alterações das relações sociais dessas comunidades. Não parece muito difícil de concluir, afinal de contas, que a presença constante de coerção e o aumento de homicídios tenham influência na vida da população.

Nesse sentido, o que estaria em disputa não seria, simplesmente, a preocupação ou não com a segurança pública, mas dois diferentes projetos de cidade:

A cidade como mercadoria, baseada no lucro dos grandes empreendimentos, em que determinados tipos de limpeza social acontecem a fim de tornar o ambiente mais propício para esses negócios, empurrando grande parte da população para o sistema penal ou para as periferias.

A cidade de direitos, que busca a implementação de políticas públicas para a superação dos problemas de segurança pública, na contramão dos projetos hegemônicos desenvolvidos até então.

Desse modo, as UPPs, acima de tudo, são “(…) uma iniciativa ideológica que responde às necessidades do momento, diante de megaeventos, exposição do Rio de Janeiro ao mundo e resposta a investidores, ao invés de assumirem um papel qualitativo de alteração de um dos aspectos centrais das políticas de dominação, que é o modelo de segurança pública” (FRANCO, 2014, p. 16).

A expansão do Estado Penal permite abafar a precariedade e o caos urbanos gerados pela desigualdade e pela má gestão pública e permite que políticos contenham seu nível de desaprovação em momentos em que não têm muito a oferecer aos seus eleitores. Ela é, basicamente, uma jogada de “marketing”, que apenas garante a manutenção do poder dos grupos de sempre.

Marielle termina sua dissertação dizendo que, apesar das graves consequências desse tipo de política, diante delas, cada vez mais, as periferias têm se constituído como locais de resistência e auto-organização, criando meios de fortalecimento e existência. Caso se faça a opção por outras políticas, focadas no desenvolvimento social, a periferia tem consigo não apenas dor e luto, mas imensa potencialidade de criação de alternativas.

 Enquanto isso:

“As marcas dos homicídios não estão presentes apenas nas pesquisas, nos números, nos indicadores. Elas estão presentes sobretudo no peito de cada mãe de morador de favela ou mãe de policial que tenha perdido a vida. Nenhuma desculpa pública, seja governamental ou não, oficial ou não, é capaz de acalentar as mães que perderam seus filhos” (FRANCO, 2014, p. 103).

Seguimos em luta.

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Fonte: Portal A Postagem

Referência

FRANCO, MARIELLE. UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. UFF: Niterói. Dissertação (Mestrado), 2014. Disponível em: <https://www.dropbox.com/s/uojapsz1tghgk5b/Marielle_Disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf?dl=0&gt;. Acesso em: 16 mar. 2018.

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Brasileirxs e brasileires: um ponto de vista da linguística sobre gênero neutro

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Fonte: elaborado pela autora.

Ao longo do primeiro semestre do ano de 2015 tornou-se notícia na mídia de diversos países a inclusão do pronome de gênero neutro “hen” ao Dicionário da Academia Sueca. Tal pronome é uma alternativa neutra às opções de pronome feminino (hon) e masculino (han) existentes na língua sueca e teria sido proposto pela primeira vez em meados dos anos 1960 por ativistas pelos direitos das mulheres, embora só tenha passado a ter maior visibilidade na última década. Apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas.

O sueco, assim como o dinamarquês, tinha historicamente três gêneros (como o então alemão moderno), contando com masculino, feminino e neutro, entretanto, ao longo de seu processo de dialetação durante a Idade Média, perdeu o gênero neutro. Na língua sueca há dois pronomes similares ao pronome em inglês “it”: “den” e “det” que são de gêneros neutros no sentido de não se referirem às categorias de masculino ou feminino, no entanto, raramente são utilizados para se referir a seres humanos (PETTERSSON, 1996).

A Universidade de Tenessee, nos Estados Unidos, produziu uma nota oficial sugerindo que seus alunos passassem a fazer uso das palavras “ze”, “hir”,“hirs”, “ xe”, “xem” e “xyr” no lugar do uso dos pronomes “it” (pronome neutro comumente utilizado para se referir a animais ou objetos) “he” (ele), “she” (ela), “they” (eles/elas) e suas consequentes conjugações. Segundo representantes da universidade, o objetivo dessa ação é fazer com que pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero feminino x masculino tenham suas identidades respeitadas por meio de uma linguagem mais inclusiva.

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Fonte: WKRN Portal

Todavia, além de propor uma alteração mais custosa do que a inclusão do gênero neutro no sueco, tendo em vista a alteração de todos os pronomes existentes na língua inglesa, até o momento, o uso dessas nomenclaturas parece permanecer restrito a comunidades muito específicas, interessadas diretamente na temática das identidades de gênero. Existe, no entanto, um pronome utilizado regularmente por diversos falantes da língua inglesa em situações em que não se sabe o gênero da pessoa a quem se refere ou se escolhe omitir essa informação, o pronome “they” conjugado no singular. Utilizado nos mais diversos gêneros de produção textual, como os midiáticos e acadêmicos, e nas mais diversas situações de comunicação cotidiana, seu uso na maior parte das vezes está desvencilhado de um projeto ideológico mais específico (como o feminismo, por exemplo) e se encontra relativamente consolidado no repertório de parte considerável da comunidade de falantes. Isto é, os falantes fazem uso dessa opção sem necessariamente pensar a respeito dela, pois é um pronome de uso comum.

Diferentemente das línguas de origem germânica, como o sueco e o inglês, as línguas latinas tem a flexão de gênero como traço semântico inerente aos substantivos, sendo o gênero demarcado pela vogal temática (a/o) e/ou artigo (a/o). Devido ao fato de que todo sintagma nominal sempre será conjugado em conformidade com o gênero, a incorporação de um gênero neutro na língua portuguesa pode ser um processo mais custoso do que nas línguas em que a flexão de gênero não altera necessariamente os substantivos e adjetivos (como é o caso de algumas línguas germânicas, que mesmo entre si apresentam diferenças relevantes nesse sentido, como no caso do inglês, que sofreu forte influência do latim).

No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação da declinação nominal que ocasionou no desaparecimento de muitas das suas formas, e a supressão do gênero neutro, reduzindo o gênero a dois, foi uma delas. Parte das hipóteses a respeito desse fenômeno explica que isso ocorreu devido à confusão com o gênero masculino dos casos nominativo, vocativo e acusativo que possuíam terminações idênticas para ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também teria acontecido uma confusão fonética pela queda, no latim vulgar, dos –s e –m finais nas palavras. Devido a essa razão, não era mais possível distinguir as formas masculinas cantu(s) e hortu(s), das neutras templu(m) e cornu(m) e, por analogia, essas palavras foram absorvidas para o grupo das masculinas. Da mesma maneira, as palavras terminadas em –a, no nominativo, vocativo e acusativo foram absorvidas pelo gênero feminino (MONARETTO; PIRES, 2012).

Dentre os tipos de palavras flexionadas por gênero gramatical, existe um subgrupo denominado por “tipo 2”, que consiste na categoria gramatical de gênero especificamente motivada pela correspondência entre gênero gramatical e sexo biológico. E embora possamos observar em cantigas medievais a frequente presença de palavras no português arcaico como “senhor” e “pastor” se referindo tanto ao gênero masculino como feminino, a identificação do gênero correspondente se dava pela concordância com um determinante, com um quantificador, com um qualificador, ou, ainda, com elementos não exclusivos dos nomes (idem). Ou seja, nesses casos, algum outro elemento gramatical do enunciado demarcava o gênero feminino ou masculino.

Diante dessas características do português e de uma crescente demanda pela construção de alternativas linguísticas possivelmente mais inclusivas no quesito de gênero, começa a surgir nos textos de movimentos sociais e de alguns grupos de jovens nas redes sociais, o uso de determinadas grafias em busca de uma linguagem com gênero mais neutro. As três grafias mais utilizadas são aquelas em que se substituiria a vogal temática por “@”, por “x” ou por “e”. Respectivamente:

(1) Entidade representativa d@s graduand@s de RI-UFPB, perante o movimento estudantil. Sua função primordial é dialogar com @s estudantes (…)
– trecho retirado da página do Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFPB
 (2) Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs
– trecho retirado do site Contra Infro, blog de mídia independente
(3) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.
Exemplos de uso: Lindo(a) = linde; querido(a) = queride; todos(as) = todes; menino(a) = menine; cansado(a) = cansade.
Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”
Exemplos de uso: minha namorada não tem nada contra isso. —> mi namorade não tem nada contra isso. / minhe namorade não tem nada contra isso.
– trecho retirado do texto “Guia para uma Linguagem Oral Não Binária ou Neutra (PT-BR) disponível no tumblr Espectromia Não Binária.

As construções do tipo (1), marcadas por “@”, parecem ter sido as primeiras a surgir e se assimilam a uma tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino (como é possível observar por sua grafia, em que temos um “a” dentro de uma circunferência similar ao “o”). Já as construções do tipo (2), marcadas por “x”, omitem as vogais temáticas e parecem tentar neutralizar a conjugação de gênero. Ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, sendo não pronunciáveis no português falado. Além disso, elas dificultam a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais). Justamente por essas razões parece surgir a grafia presente em construções como (3), em que as vogais temáticas são substituídas por “e”, tendo assim como “x” a função de omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada.

Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim da total adaptação dos sintagmas nominais. Mesmo partindo da proposta (3), pronunciável em língua falada, uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.

A história de mudança e variação das línguas tem nos demonstrado que, embora alteremos e produzamos a língua a cada momento em que nos colocamos em uma situação de comunicação, as alterações mais profundas de suas características estruturais se dão de acordo com as transformações histórico-sociais, por meio de um processo longo e contínuo.

Dessa forma, a tentativa de institucionalização de uma mudança linguística só pode funcionar se as condições de vida e a produção de necessidades e valores sociais dos falantes forem compatíveis com essa mudança, de modo com que essas práticas já sejam existentes na vida cotidiana de forma expressiva. Vale dizer, contudo, que, como discutido por Severo e Mader (2015), essas alternativas, assim como o aumento do uso de “presidenta” (marcando o gênero feminino, no lugar de “presidente” como forma genérica) instauram variabilidade em um contexto tradicionalmente considerado na linguística como menos propenso à variação e faz emergir novas formas linguísticas com fins de delimitação identitária, marcando a existência de sujeitos não-masculinos (que é um outro jeito de dizer: todas aquelas pessoas que não sejam homens).

Como uma alternativa mais acessível do que aquelas mencionadas aqui, sugiro a leitura do Capítulo 5 do Manual para o uso não sexista da linguagem, publicado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e disponível para consulta online.

Abordando outros aspectos também relevantes dessa questão, sugiro o vídeo a seguir:

Referências

FREITAS, M. A. O “x” da questão: gênero neutro como ato ético e estético? In: Palavras e Contrapalavras: cortejando a vida no cotidiano.  Pedro & João Editores: São Carlos-SP, 2015.

MADER, G. R. C., SEVERO, C. G. Sexismo e políticas linguísticas de gênero. In: Raquel Meister Ko. Freitag; Cristine Gorski Severo; Edair Maria Görski. (Org.). Sociolinguística e Política Linguística: Olhares Contemporâneos. 1ed.São Paulo: Blucher Open Acess, 2016, v. 1, p. 245-260

MONARETTO, V. N. O. ; PIRES, C. C. . O que aconteceu com o gênero neutro latino? Revista Mundo Antigo , v. I, p. 155-172, 2012.

PETTERSSON, G. Svenska språket under sjuhundra år: En historia om svenskan och dess utforskande. Studentlitteratur, 2005.

Centro acadêmico de relações internacionais celso amorim (CARICA). Disponível em: <http://www.ccsa.ufpb.br/dri/ensino-graduacao-em-ri/entidades-estudantis/&gt;. Acesso em 03 out 2015.

Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs. Disponível em: <http://pt.contrainfo.espiv.net/2015/09/02/desde-brasil-porto-alegre-pixacoes-em-solidariedade-com-xs-anarquistas-presxs/&gt;.

Guia para a linguagem oral não-binária ou neutra (PT-BR). Disponível em: <http://espectrometria-nao-binaria.tumblr.com/post/95838656403/guia-para-a-linguagem-oral-n%C3%A3o-bin%C3%A1ria-ou-neutra&gt;.

Manual para uso não sexista da linguagem. Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf&gt;.

Sweden adds gender-neutral pronoun to dictionary. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/mar/24/sweden-adds-gender-neutral-pronoun-to-dictionary&gt;.

UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns/&gt;.

 

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O masculino como neutro: a normalização da masculinidade

É provável que nenhuma outra frase proveniente da teoria feminista tenha se tornado tão famosa e motivo de tanta polêmica quanto “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, retirada da obra O Segundo Sexo (1949/2014), de Simone De Beauvoir. As discussões a respeito da socialização feminina e a negação da subjugação das mulheres como característica própria da natureza[1] humana se tornam cada dia mais expressivas em diversos âmbitos da sociedade. Trocando em miúdos, muito tem sido discutido sobre as regras explícitas e implícitas ensinadas às mulheres desde os primeiros anos de vida[2] e qual a relação desses construtos com a condição de subjugação. Parte-se do pressuposto de que, para combater a desigualdade, é necessário desestabilizar (destruir, de preferência) a crença de que mulheres são de determinada maneira e se encontram em condições sociais específicas porque assim nasceram para ser. Porém, em contrapartida às crescentes discussões sobre as que ocupam o lugar de subjugação em um sistema de desigualdade de gênero, pouco se debate sobre os que ocupariam nele o lugar de dominação e privilégio, os homens.

Cabe dizer, antes de tudo, que este texto não pretende relativizar a importância de manter as mulheres como foco de debate no feminismo. Muito ainda precisa ser conquistado para a emancipação das mulheres ao redor de todo o mundo e é de extrema urgência que nos organizemos em torno dessas questões, sendo nós mesmas agentes de transformação. Nesse sentido, o objetivo aqui não consiste em direcionar ao movimento feminista a responsabilidade pelo debate das questões relativas aos homens, mas sim destacar como, apesar da discussão a respeito do feminismo aos poucos vir conquistando lugar no espaço público, o silêncio a respeito das construções da masculinidade é sintoma da noção de masculino como sinônimo de neutro. Afinal de contas, diferente da mulher, que “não nasce”, mas “torna-se”, já nasceria o homem pronto?

Em seu livro Sexo e Temperamento (1935/1999), a antropóloga Margaret Mead trata de sua pesquisa em três das mais antigas sociedades da Nova Guiné: os arapesh, os mundugumor e os tchambuli.  Dentre os arapesh não existia muita diferença entre o temperamento dos gêneros, homens e mulheres eram dóceis, cooperativos, não agressivos e “maternais”. Os mundugumor também não apresentavam grande contraste de temperamento entre os gêneros, sendo ambos violentos e agressivos. Já dentre os tchambuli, havia uma diferença temperamental bastante marcada: a mulher era dominadora e impessoal, responsável pela administração da vida social, e o homem dependente e encarregado das atividades de cuidado. Diante dos achados de sua pesquisa, Mead chega então à conclusão de que os comportamentos tidos como femininos ou masculinos não são determinados por aspectos inatos, mas definidos e organizados na vida social.

Nesse sentido, a masculinidade, assim como a feminilidade, seria uma invenção. Esta invenção, contudo, não pode ser definida como algo criado do nada, absolutamente novo e sem uma história por trás. Ao longo do desenvolvimento das sociedades humanas a masculinidade foi construída de diferentes formas e trazer luz às suas mudanças de configuração é de crucial importância para entender tanto seu papel na organização social, quanto para superar uma visão essencialista que entende a definição do que é “ser homem” como algo estanque, homogêneo e “natural”.

Figura 1: o ex-presidente estadunidense Franklin Roosevelt,
por volta de 1884. Assim como vários outros garotos de sua época,
Franklin usa um vestido.
roosevelt
Fonte: Smithsonian Mag

Em seu artigo “A construção do masculinodominação das mulheres e homofobia”, o antropólogo Daniel Welzer-Lang argumenta que a estruturação do masculino se dá mediante a ideia de que, para ser um “(verdadeiro) homem”, os rapazes devem desde a infância eliminar todos os traços que poderiam associá-los às mulheres. Em suas palavras:

É verdade que na socialização masculina, para ser um homem, é necessário não ser associado a uma mulher. O feminino se torna até o pólo de rejeição central, o inimigo interior que deve ser combatido sob pena de ser também assimilado a uma mulher e ser (mal) tratado como tal (p. 6).

Tal socialização se daria principalmente nos espaços que Welzer-Lang vai chamar de “casa dos homens”. A expressão é advinda de um estudo realizado por Maurice Godelier (1982/1996) dentre os Baruya, povo da Nova Guiné. “Casa dos homens” consiste em um espaço proibido para as mulheres onde os mais jovens e fracos são associados ao feminino e, por isso, violentados de diversas maneiras. Nesse local os homens constroem a si mesmos e ao feminino (ali encarnado pelos mais novos) submetido por meio de violência ao masculino. Esse processo tem função pedagógica e é depois transposto para as relações entre os homens e mulheres, de modo que as mulheres passam a ser submetidas às regras de relação entre homens e mulheres definidas sem sua participação, em que “o masculino e os homens e o feminino e as mulheres aparecem como construídos por relações de violência entre homens” (CLIMACO, 2008).

Welzer-Lang considera que tal conceito é também útil para pensar as sociedades ocidentais, compostas por rituais de iniciação masculina em diversos espaços com dinâmicas similares àquelas descritas por Godelier. Esses espaços iriam desde os grupos de meninos na infância, em que ocorrem as primeiras compreensões sobre sexualidade e poder (como nas brincadeiras de “troca-troca”, em que um menino penetra o outro e aquele que, por ventura, for apenas penetrado é tido como inferior e em situação de desvantagem, pois a penetração já se apresenta como uma forma de exercício de poder), até os prostíbulos, bares, a relação entre os homens da família, a prisão, a política, dentre outros. Nesses espaços de socialização monossexual (em que só homens participam definindo seu funcionamento), os homens considerados desviantes das normas de masculinidade e, portanto, semelhantes em alguma medida ao feminino, são punidos com violência simbólica e física. Entretanto, mesmo os homens que passam por essas punições são ensinados a reproduzir esse sistema em suas relações com as mulheres, evidenciando que “o masculino é, ao mesmo tempo, submissão ao modelo e obtenção de privilégios do modelo” (WELZER-LANG, p. 5).

A socialização masculina, portanto, atua como um sistema de violência e submissão dentre os próprios homens, trazendo, por vezes, intenso sofrimento na construção de suas identidades. Todavia, ela é ainda mais violenta em seu direcionamento às mulheres, definidas de antemão como seres que devem existir em situação de subjugação em relação aos homens.

Nesse sentido, pensando nos homens que honestamente costumam interpelar suas amigas feministas sobre como poderiam contribuir no combate ao machismo, esboço aqui um apelo: para além da resposta óbvia de que não sejam abusivos com suas companheiras, não sejam violentos, não objetifiquem as mulheres, considerem-nas seres tão capazes de raciocínio quanto quaisquer outros, sugiro que os homens que se pretendem pró-feministas saiam de sua posição de conforto e passem a questionar a masculinidade, a historicizem, relativizem e a tornem não mais blindada.  Uma vez compreendendo-se como parte do sistema de dominação, é de essencial importância que os homens se assumam como atores de transformação de sua categoria e desafiem de dentro as estruturações da socialização em profundidade – não fundando um novo tipo de “clube dos homens”, e sim se abrindo ao verdadeiro diálogo com as mulheres, que foram historicamente excluídas desse processo, mas que, ao contrário dos homens, vêm há um amontoado de décadas repensando a si mesmas, então certamente terão algo a contribuir.

Referências e indicações

CLIMACO, Danilo. Das transformações da dominação masculina. Cad. Pagu,  Campinas,  n. 30, p. 437-443,  June  2008 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332008000100024&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 24 jul. 2017.

DE BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Nova Fronteira, 2014. (1949).

MEAD, Margaret. Sexo e temperamento em três sociedades primitivas. Editora Perspectiva: São Paulo, 1999. (1935).

SESC TV. Filosofia pop: masculinidade. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=M8WgYfzxYaI&gt;. Acesso em: 25 jul. 2017.

SMITHSONIAN. When Did Girls Start Wearing Pink? Every generation brings a new definition of masculinity and femininity that manifests itself in children’s dress. Disponível em: <http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/when-did-girls-start-wearing-pink-1370097/>. Acesso em: 24 jul. 2017.

WELZER-LANG, DANIEL. A construção do masculinodominação das mulheres e homofobia. Rev. Estud. Fem. [online]. 2001, vol.9, n.2, pp.460-482.

GODELIER, Maurice. La production des Grands Hommes. Paris: Fayard, 1982. (1996).

[1]                      É importante dizer que não tenho qualquer intenção de definir “natureza” e “sociedade” como duas instâncias totalmente separadas, mas sim me refiro ao discurso hegemônico (presente em diversos setores e com muitas nuances) que “explica” a condição de subjugação feminina por meio do argumento do “instinto”.

[2]                      Parto do pressuposto de que não existe uma socialização, mas socializações que ocorrem em diferentes momentos da vida de cada mulher, interseccionadas com seu contexto amplo (classe, raça/etnia, dentre outras características). Ainda nesse sentido, mulheres trans também passariam por socializações femininas.

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A ciência é patriarcal e deve ser abandonada pelas mulheres?

Embora grande número de estudos tenha sido feito para mostrar que as mulheres não estão à altura dos homens, é surpreendente o quão pouco sabemos acerca dos corpos femininos, quando se trata de manter as mulheres saudáveis” (Schiebinger, 2001, p. 215).

Não é muito incomum encontrar em grupos feministas debates sobre a relação entre dominação masculina e a ciência [1].  Tais debates geralmente se desenvolvem a partir da constatação de que, além do cânone predominantemente masculino, historicamente, a Ciência forneceu ferramentas para justificar a subjugação das mulheres [2] e sua consequente anulação como produtoras de saber. As exceções compostas pelos poucos casos de mulheres cientistas reconhecidas pelo cânone até recentemente só confirmam a regra e conforme vamos avançando nos estudos feministas e na historiografia das ciências, temos tomado conhecimento a respeito de inúmeras mulheres que contribuíram de maneira revolucionária para o desenvolvimento da ciência e que foram apagadas da história, de modo que em diversos casos homens levaram os créditos em seus lugares. O filme Estrelas Além do Tempo e o livro As Cientistas – 50 mulheres cientistas que mudaram o mundo podem ser citados como produções recentes destinadas ao grande público contando um pouco dessa história [3].

Dentre esses debates, por vezes, defende-se a ideia de que as mulheres deveriam renegar a ciência e pautarem-se a partir de outros tipos de saberes. Meu ponto neste texto consiste em apresentar um contraponto a essa visão, ao mesmo tempo em que reconheço os problemas do machismo/patriarcado/da dominação masculina (a denominação pode ser escolhida de acordo com o gosto da/o leitora/o) na ciência.

Meu argumento principal se desenvolve ao redor da ideia de que desconsiderar a ciência enquanto um campo de conhecimento que necessita ser disputado pelas mulheres e transformado por dentro traz perdas para toda a sociedade, mas, acima de tudo, pode custar a vida de várias mulheres.

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Ilustração feita por Juliana Adlyn para o blog

Em seu livro O feminismo mudou a Ciência?, Londa Schiebinger aborda três aspectos principais desse tema: o desenvolvimento histórico das ciências ocidentais, a história de como as noções de feminilidade e masculinidade modelaram os conceitos nos contextos e produções científica e como os papéis de gênero influenciaram não apenas a configuração institucional da ciência, mas o próprio fazer científico. A conclusão óbvia disso é que… *tam tam taaaaaamm*….. a ciência não é neutra!

Nesse sentido, é importante compreender que, para além dos usos da ciência para fins declaradamente higienistas e/ou dominadores conhecidos historicamente, pesquisadores podem ser tendenciosos de maneira inconsciente ou não intencional, mas são influenciados por questões políticas e sociais ao criar suas categorias de análise. Para ilustrar um pouco disso, vou tentar expor resumidamente alguns aspectos da história da medicina e da primatologia explorados pela historiadora da ciência.

Até meados do século XVIII, pesquisadores acreditavam que o corpo feminino era uma versão inferior do corpo masculino, sendo as únicas diferenças entre os corpos femininos e masculinos os aparelhos reprodutivos e a qualidade inferior do feminino (que era entendido como uma espécie de cópia inferior do corpo masculino).  Após esse período, passou-se a considerar a “diferença sexual” não mais como uma questão resumida às genitálias, mas “que envolvia cada fibra do corpo”. Muitas e muitas décadas de pesquisa se seguiram norteadas pela ideia de papéis sexuais. As pesquisas como um todo buscavam encontrar evidências “biológicas” para justificar os papéis de homens e mulheres na sociedade.

Como aponta Londa, “(…) poucos médicos interessavam-se pelas implicações da diferença na assistência à saúde. Na maioria das vezes, o estudo acadêmico de diferenças sexuais era projetado para manter as mulheres em seu lugar”.

No século XIX, em um momento de grandes reivindicações das mulheres estadunidenses para serem admitidas nas universidades, argumentava-se que a ânsia de mulheres em produzir ciência era a forma mais alta de egoísmo e essa atitude poderia  prejudicar a saúde delas de tal forma que seus ovários poderiam atrofiar (!).

A autora nos conta que a história da medicina oscilou nesse sentido entre dois paradigmas. O paradigma da igualdade, que considerava os organismos feminino e masculino iguais, teve como consequência o fato de que certos aspectos da saúde das mulheres fossem pouquíssimo estudados, como, por exemplo, a relação entre tratamento com estrógenos e problemas cardiovasculares. Já o paradigma da diferença radical resultou em considerar sintomas relatados por mulheres como efeitos “psicossomáticos” com muito maior recorrência do que se registram os sintomas relatados por homens (dito em bom português, “mulher é tudo meio doida e paranoica mesmo… homem não, quando relata algo deve ser coisa séria”).

Nos anos que se seguiram a partir de 1980, diversas feministas se dedicaram a estudar e criticar pesquisas médicas que negligenciavam totalmente os corpos femininos, pois se baseavam em grupos controle compostos unicamente por homens (em um deles, por exemplo, foram estudados 22.071 homens e ZERO mulheres). Os resultados dos testes realizados apenas com indivíduos do sexo masculino eram generalizados para toda a população, e, mesmo sem que se soubesse, por exemplo, o efeito de aspirinas em casos de doenças cardíacas no organismo feminino, mulheres passaram a ser orientadas a tomar uma aspirina por dia (tá dando pra sacar o absurdo?). Esse tipo de negligência com o estudo do organismo feminino, tomando o corpo masculino como referência universal, foi e ainda é responsável por danos seríssimos na saúde das mulheres.

Uma pesquisa de 1981 sobre estudos a respeito da saúde das mulheres descobriu que havia duas vezes mais pesquisas sobre mulheres relacionadas ao parto e à criação dos filhos do que outros problemas de saúde. Além disso, apesar do foco na saúde reprodutiva, dos mais de 15 institutos do NIH (Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos) nenhum deles era dedicado à ginecologia e obstetrícia. Dito de outra maneira, temos profissionais dedicados a cuidar da saúde dos bebês, mas não temos profissionais dedicados a cuidar da saúde das mulheres que deram a luz a esses bebês. E mais, a grande maioria dos estudos a respeito da saúde das mulheres naquele momento estava diretamente relacionada à mulher apenas enquanto sujeito que dá a luz, não enquanto um organismo que necessita de cuidados independente de ter (ou querer) ter filhos ou não.

Para ilustrar brevemente como essas questões afetam diretamente a vida das mulheres mesmo em campos distintos da medicina, cito o exemplo da primatologia, um dos poucos campos com predominância de pesquisadoras mulheres. Pesquisas sérias realizadas por cientistas mulheres nesse campo desmistificaram noções que guiavam as pesquisas até então, como a de que machos primatas seriam os dominadores dos bandos, responsáveis pela busca por fêmeas para reprodução. Essas pesquisadoras se propuseram a estudar fêmeas e descobriram uma complexa rede de relações, de modo que as próprias fêmeas possuem um papel ativo na escolha de parceiros sexuais. Dessa forma, por meio de estudos replicáveis, desbancaram a partir da própria primatologia argumentos anteriormente pautados nas sociedades de primatas como justificativa para a dominação masculina nas sociedades humanas.

É relevante ainda mencionar que as mulheres só foram admitidas nas universidades norte-americanas na última década do século XIX. No Brasil, como observa Nilda Marinho, professora da Universidade de Rio de Janeiro:

“Embora o ensino superior estivesse presente desde 1808, com a vinda da família real, somente com a Reforma do Ensino Primário e Secundário do Município da Corte e o Superior em todo o Império – instituída pelo Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879, e que ficou conhecida como Reforma Leôncio de Carvalho – a mulher passou a ter esse direito citado. A primeira mulher brasileira a possuir um diploma de ensino superior foi Maria Augusta Generoso Estrela, que se graduou em Medicina no ano de 1882, porém nos Estados Unidos, não no Brasil. Desta forma, em 1887, Rita Lobato Velho Lopes (1867-1954) se torna a primeira mulher a se graduar no País na Faculdade de Medicina da Bahia.”

Pelo menos até a metade do século XX as mulheres ainda eram declaradamente desencorajadas a tentar carreira de pesquisadoras e mesmo nos dias atuais é possível perceber a relação desproporcional entre mulheres no corpo discente e docente nas universidades, em que, o número de homens como professores é maior e o número de mulheres é maior dentre o corpo discente, evidenciando a evasão das mulheres ao longo dos níveis da carreira acadêmica. Precisamos ampliar o acesso das mulheres ao ensino e à produção de conhecimento em todas suas instâncias e não sermos mais uma voz que as desencoraja a ocupar esse lugar que lhes é negado. #StandWithMalala

Dito rapidamente tudo isso, defendo que a ciência é um campo que deve ser disputado pelas mulheres e que as transformações proporcionadas por pesquisas preocupadas com o questionamento do sujeito universal masculino (geralmente branco e sempre entendido como neutro) são uma relação de ganha-ganha entre o aprimoramento da ciência, que vai aos poucos se reinventado e se libertando de paradigmas limitadores para a própria pesquisa e, para dizer o mínimo, o avanço no alcance de qualidade de vida para as mulheres e seu reconhecimento enquanto sujeitos. No entanto, somando coro à Londa, friso mais uma vez que “a incorporação das mulheres à ciência não pode e não deve ocorrer sem conturbações na ordem vigente, pois demanda profundas mudanças estruturais na cultura, nos métodos e no conteúdo da ciência” (p.37).

Propor o debate e a transformação das epistemologias e metodologias científicas considerando as mulheres enquanto sujeitos é desafiar o status quo. Ser mulher e fazer ciência é desobedecer! ❤

 Agradeço às meninas que gentilmente sugeriram temas para os textos desta coluna, especialmente à Aline Couto, por ter sugerido o tema da vez. Agradeço também à ilustradora Juliana Adlyn pela sensibilidade e por ter concedido a mim a honra de ter uma de suas artes cocriando os sentidos do texto 🙂

Referências

SCHIEBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciência. Bauru: Edusc, 2001.

Pesquisa analisa a trajetória de inserção das mulheres no ensino superior. Disponível em: <http://www.faperj.br/?id=2748.2.6&gt;. Acesso em: 14 jun 2017.

O feminismo mudou a ciência. Mudará ele a Análise do Comportamento? Disponível em: <http://www.comportese.com/2016/06/o-feminismo-mudou-a-ciencia&gt;. Acesso em: 14 jun 2017.

[1]                      O mais adequado aqui seria falar em “Ciência(s)”, mas para deixar o texto visualmente mais limpo e fluído, optei por usar o termo desta forma. De todo modo, considero “Ciência” o denominador de um campo múltiplo.

[2]                      Cabe dizer que, diferentemente do que os discursos de subjugação feminina propagavam (e ainda propagam), não existe qualquer coisa parecida com uma mulher universal. Existem sim mulheres que vieram de diferentes classes, raças, orientações sexuais, gerações e países, com histórias e repertórios dos mais diversos.

[3]                      Como mostra o filme mencionado, essa problemática toda ganha novas nuances quando interseccionada com outras questões negligenciadas pela ciência, como etnia.

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Afinal, segundo os linguistas, pode tudo?

Popularmente quase não se sabe sobre Linguística. Entretanto, em todas as ocasiões em que surgiu algum debate público relativo aos usos da língua e algum linguista se pronunciou contrapondo-se à percepção de língua como algo que pode ser classificado como “certo” ou “errado”, a discussão tendeu a se tornar uma confusão cheia de acusações que pretendiam encerrar o debate desqualificando os linguistas enquanto “pessoas sem critério”, “deselegantes” e que “querem acabar com a língua”. Os linguistas seriam, de acordo com essa concepção, verdadeiros inimigos de Camões e da “verdadeira língua portuguesa”.

Apesar de ser muito acusada por leigos de ser uma propagadora do “politicamente correto”, a Linguística na verdade é uma ciência que se propõe a observar, descrever e analisar a linguagem humana.  Nesse sentido, se diferencia da doutrina gramatical tradicional porque, assim como é próprio das ciências, se preocupa especialmente com o estudo dos fatos (linguísticos, nesse caso) e não com a prescrição de normas. Desse modo, dentre outras coisas, interessa a um linguista como a língua, enquanto objeto de estudo, se desenvolve em determinados períodos de tempo, localizações e demais contextos. Embora diversas áreas da Linguística se dediquem também aos aspectos sociais referentes à produção linguística, não interessa ao linguista separar os dados linguísticos entre moralmente bons ou ruins, pois o funcionamento da linguagem é descrito a partir dos fatos linguísticos, que não são essencialmente bons ou ruins. Ou seja, a Linguística se ocupa do estudo da língua tal qual ela efetivamente ocorre e não com meras prescrições sem nenhuma base nos dados linguísticos.

A imagem simbolizando a relação entre as línguas de algumas famílias linguísticas ilustra que a mudança e variação linguística foram fundamentais para o surgimento das línguas faladas na atualidade, advindas de outras línguas.

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Fonte: The Guardian Education

Assim como um cientista que descreve o funcionamento de moléculas não deve ser guiado pelo que considera bonito, feio, elegante ou deselegante para reconhecer determinado fenômeno molecular como legítimo, um linguista deve se dedicar ao estudo do funcionamento da língua/linguagem tal qual ela acontece, de modo que apenas seria “ilegítimo” aquilo que não acontece na língua. Contudo, distintamente das moléculas invisíveis aos olhos humanos, a língua é material perceptível a todos os falantes. Todos nós desde os primeiros anos de vida estabelecemos com ela uma relação de construção da nossa identidade e emitimos opiniões sobre suas diferentes formas (chamamos na Linguística essas “opiniões” de “discurso metalinguístico”). Por outro lado, ao mesmo tempo em que reconhecemos essa relação íntima que temos com ela, alguns de nós passam a vida toda perseguindo um ideal de língua que se considera “correto”. Esse ideal se baseia, em linhas gerais, no imaginário popular proveniente das gramáticas tradicionais. Boa parte da doutrina gramatical tradicional se baseia na prescrição e não na descrição da linguagem. Dito de outra maneira, ela funciona como um guia de etiqueta que indica quais formas devem ser utilizadas, tendo por base determinado sistema de crenças que as definem como “elegantes” ou “corretas”. Além disso, parte dessas gramáticas se baseia em exemplos retirados da literatura clássica, cheia de palavras e construções gramaticais já bastante atípicas atualmente (chamamos a isso de “arcaísmo”). Nesse sentido, poderíamos dizer que ela funcionaria como um guia de etiqueta do século XIX, cheio de regras que nem nos ambientes mais eruditos da atualidade são completamente adequadas.

Justiça seja feita, hoje em dia existem diversas gramáticas normativas desenvolvidas com maior rigor e preocupação com as ciências da linguagem. Por meio de uma breve averiguada em algumas boas gramáticas contemporâneas é possível localizar discussões sobre o funcionamento das línguas e comentários sobre os diversos usos possíveis de determinadas categorias gramaticais. Desse modo, por vezes, a discussão sobre o uso “correto” ou “incorreto” da linguagem se dá em um nível tamanho de imaginação e mera reprodução de opinião que sequer se discute propriamente as gramáticas normativas mais embasadas cientificamente.

Além disso, as crenças e atitudes dos falantes a respeito da língua são sempre influenciadas por fatores políticos e ideológicos existentes na sociedade a que pertencem. No artigo “Como o brasileiro acha que fala? Desafios e propostas para a caracterização do ‘português brasileiro’”, Feitag et.al (2015) analisam diversas piadas a respeito de diferentes variedades da língua (a que popularmente nos referimos como “sotaques”) buscando compreender em que nível da gramática se encontram os elementos linguísticos identificados pelos falantes que são utilizados para caracterizar as diferentes variedades. A escolha por analisar o imaginário linguístico dos falantes por meio das piadas se deu, pois:

As piadas são […] quase sempre veículo de um discurso proibido, subterrâneo, não oficial, que não se manifestaria, talvez, através de outras formas de coleta de dados, como entrevistas. Outra face da mesma característica é que as piadas veiculam discursos não explicitados correntemente (ou, pelo menos, pouco oficiais) (POSSENTI, 1998, 26, apud FREITAG et al., 2015).

Desse modo, a análise de piadas sobre variedades linguísticas permite a observação dos traços linguísticos apresentados como modos de caracterização do grupo social (falante daquela variedade) alvo da piada. Em linhas gerais, o estudo demonstrou que diversas características linguísticas utilizadas na construção dessas representações não coincidem com aquelas sistematizadas pelos estudos de descrição linguística. Alguns exemplos de construção desses imaginários nas piadas são a caracterização da fala mineira pelas haplologias (tais como em “friozin” e “gostosin”), o que encontra respaldo em estudos descritivos, embora na realidade apenas ocorram em algumas regiões do estado de Minas Gerais. Já outros fenômenos linguísticos marcados ortograficamente na piada não são “exclusividade do falar mineiro, como a redução nos gerúndios (“contano”), o rotacismo (“carção”), vocalização (“muié), a concordância com marcas não explícitas (“as muié”) e a queda de segmento final em infinitivos (“dizê”)” (FREITAG et al., 2015, p.13). Estes fenômenos ocorrem no falar de diversas regionalidades e é presente inclusive na fala de pessoas com alto nível de escolarização.

Outro exemplo é a caracterização do falar baiano pelo uso de vocativos, como “ô mãinha”, “ô minha mãe”, “meu dengo”, “meu rei”, “meu cheiro”. No nível sintático, utiliza-se a forma imperativa para um ato de fala não declarativo, como em “traga” e o uso da posposição da negação, como “foi não”, “percebeu não”, “diz não”. No entanto, estes traços ocorrem no falar da região nordeste como um todo e não enquanto uma característica particular do falar da Bahia (GORSKI e COELHO 2010, 77, apud FREITAG et al., 2015.

Estudos como esse são de fundamental importância para evidenciar como atitudes e julgamentos linguísticos atuam na construção das noções de língua e identidade, demonstrando que valores de diferentes naturezas constituem a compreensão do falante a respeito das variedades linguísticas. Dessa forma, respondendo à pergunta do título do texto, não. Segundo os linguistas, não pode tudo. O que linguistas fazem é descrever como a língua existe e essa existência está necessariamente condicionada ao uso dos falantes. A língua é muito mais complexa do que as noções de “certo” ou “errado” e o processo de mudança linguística só se encerra quando os falantes deixam de existir e essa língua se torna, consequentemente, uma língua morta. Quando um linguista diz que determinada maneira de se falar não está incorreta, ele não está dizendo que todos devem agora falar daquela forma, mas sim que aquela é apenas mais uma maneira de se falar existente que é suportada pela estrutura da língua e não carrega nada em si que a torne mais ou menos correta, mas sim mais ou menos adequada a depender do contexto de uso.

Referências

BAGNO, M.; LAGARES, C. X. Políticas da norma e conflitos linguísticos. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

CORTEZ, S.; XAVIER, C., X. (Orgs). Conversas com linguistas: virtudes e controvérsias da Linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

FREITAG, R. M. K.; SEVERO, C. G; ROST-SCHINHELOTTO; C. A.; TAVARES, M. A. Como o brasileiro acha que fala? Desafios e propostas para a caracterização do “português brasileiro”. Signo y Seña, número 28, dezembro de 2015, pp. 65-87. Disponível em: <http://revistas.filo.uba.ar/index.php/sys/article/view/263/228>. Acesso em: 5 maio 2017.