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Linha do Tempo Invertida e Informação Quântica

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Créditos: Wang Guoyan e Chen Lei

Em meio a todo o pesadelo da física do ensino médio (incluindo os mnemônicos constrangedores para memorização de fórmulas) a termodinâmica sempre me pareceu a frente mais amistosa. Sem muito sofrimento, absorvi logo a ideia de que as coisas são feitas de partículas, que formam, átomos que formam moléculas… E que tudo isso se mexe, o tempo todo, numa escala de espaço muito pequena para ser observado diretamente pelos nossos olhos. Me pareceu também um conceito razoável dizer que um corpo está “quente” quando suas moléculas estão muito agitadas e, conforme elas “esbarram” em outras menos agitadas, vão perdendo energia até que todo mundo esteja mais ou menos na mesma vibe, com o perdão do trocadilho.

 Descobri depois que uma importantíssima lei da física enuncia que não é possível acontecer o inverso: não dá pras partículas mais quietas, por uma ação delas mesmas, apaziguarem as mais agitadas. Em outras palavras, se existe um esquema fechadinho na natureza e as coisas dentro dele estão em um certo “nível de bagunça”, esse nível de bagunça sempre permanece o mesmo ou piora. Chamamos o “nível de bagunça” de entropia e essa é a Segunda Lei da termodinâmica. [Três físicos teóricos acabam de morrer após essa simplificação]*. Usamos essa lógica por muito tempo, sempre que precisamos transferir calor de um lugar para outro: o calor flui do quente para o frio, sempre nessa direção e, se quisermos fazer o contrário, precisamos de uma forcinha externa. 

 

AÍ ~OS FÍSICO~ RESOLVEM FRITÁ.

Um belo dia, vem o sr. James Maxwell (cuja aparente função na história da ciência era “causar”) numa tarde de chuva (só pode!) propondo o seguinte exercício de imaginação: “e se a gente pudesse, dentro do sistema fechadinho, separar as moléculas agitadas das calmas? Se um pequeno “demônio” ficasse lá dentro e direcionasse as agitadas pra um lado e as calmas para o outro?”

UUUhhhh.. a galera pirou. Fritou. Gaguejou. O experimento mental ficou conhecido como “O demônio de Maxwell”. Todo mundo tentando explicar que OBVIAMENTE não dava pra fazer isso e, mesmo que houvesse um “demônio” (ou qualquer dispositivo que cumprisse o mesmo papel), isso violaria a Segunda Lei. Mas o óbvio, meus amigos, não é nada fácil de se explicar. E na física não dá só pra dizer que “não dá”. Não dá pra torcer o narizinho e dar as costas quando não gostamos de uma pergunta. Na física, tem que explicar PORQUÊ não dá. 

 

E DAÍ QUE DÁ SIM.

Conforme os nossos conhecimentos sobre o mundo “microscópico” foram avançando, conseguimos criar, teoricamente, ferramentas que bloqueassem as partículas menos agitadas no sistema, sem um gasto relevante de energia e dentro da mais pura, bela e rebuscada lógica da ciência – sem escândalo. Lindo, lindo mesmo. Umas contas, uns modelos… vocês precisam ver. Mas o povo quer o que? O povo quer internet instantânea. O povo quer os jogos rodando na mais perfeita brisa do cooler. O povo quer cerveja gelada espontaneamente em 30 segundos. E isso exige menos perda de calor já! Mas aí é que tá a boniteza da física teórica, vanguardista – uma vez aberto o portal:

 

SEGURA ESSE DEMOGORGON, JAIME MACSSUEL, PORQUE O MUNDO INVERTIDO CHEGOU.

Metendo o pé com ciência brazuca, a publicação da Nature Communications relata o experimento que foi capaz de observar o fluxo espontâneo e invertido do calor. O bonde formado por pesquisadores da Universidade Federal do ABC (Associados da Balbúrdia Comunitária**) em conjunto com o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) (“B” de Brasil, né meu povo), o Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF – USP) e colaboradores internacionais observou qubits (qubit is the new bit) levados a diferentes temperaturas utilizando ressonância magnética nuclear e, posteriormente, o fluxo de calor do qubit mais frio para o mais quente. A sacada foi o estado inicial do sistema: as partículas observadas (qubits) possuíam uma conexão entre si, chamada “correlação quântica”, que mantém as informações dessas partículas “conectadas” ainda que elas estejam muito distantes uma da outra. Nada místico no laboratório: muita conta, suor, medida e investigação. Toneladas de ciência. Conforme essa conexão “enfraquece”, a soma das entropias (aquela desordem) individuais diminui e o calor flui no sentido chocante. AUGE. A tal correlação entra como um ente no sistema isolado, mantendo a Segunda Lei a salvo. [Físicos respiram].

Você tá achando tudo isso Black Mirror demais? Porque eu não acabei… O que o experimento pôs em xeque foi a irreversibilidade de certos processos físicos. Isso porque ressignificar a variação de entropia relativiza também a famosa “linha do tempo” (Arthur Eddington) e sua direção única possível, uma ideia baseada justamente na concepção de processos irreversíveis. É a física quântica estapeando o senso comum. Além disso a causa da troca estranha de calor parece relacionada à troca de informação, e é incrível que esses conceitos estejam de fato ligados entre si. 

O resultado deste importante experimento se reflete, por exemplo, na nossa atual concepção do Cosmos: as coisas aconteceram mesmo na ordem que pensávamos ser “obrigatória”? A computação quântica e o domínio sobre esse tipo de informação, por sua vez, nos permitem vislumbrar computadores muito mais rápidos e criptografias invioláveis [certos juízes respiram…], resolvendo o “gargalo” mundial de transferência de dados e nos levando a uma dimensão de informação ainda não imaginável – não como carros voadores e roupas prateadas. Computadores quânticos são uma realidade (ainda não acessível financeiramente) e os experimentos de transferência instantânea de informação estão entre nós. Apesar da magnitude espacial do experimento da troca de calor “invertida”, os autores afirmam não haver razão para que isso não funcione em larga escala. Por hora, você pode conseguir ajuda com a coisa da cerveja com essas rainhas da engenharia aqui. Eu sei que quântica parece ficção, mas a ciência nos trouxe pelos séculos através de sua estrutura sólida, sempre ampliando os horizontes visualizados “sobre os ombros de gigantes”. Não vamos fechar os nossos olhos a ela. Leiam textinhos, discutam ciência no bar, combatam a desinformação, se hidratem, troquem calor. Reinventem. 

Já falou com seus demônios hoje?

 

*Houve protesto quanto a essa afirmação (por parte da física teórica).

**Na sigla da Universidade Federal do ABC, “ABC” se refere às cidades do ABC Paulista  e a menção é apenas mais uma brincadeira do texto.

 

Referências

  1.  NATURE COMMUNICATIONS | (2019) 10:2456 | https://doi.org/10.1038/s41467-019-10333-7 | http://www.nature.com/naturecommunications
  2. http://agencia.fapesp.br/experimento-inverte-o-sentido-do-fluxo-de-calor/30700/
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Olha pro céu, meu amor!

“Abri asas confiantes no espaço e elevei-me em direção ao infinito, deixando para trás tudo o que os outros se esforçavam para ver ao longe. Aqui não há em cima, em baixo, não há beira nem centro, eu vi que o sol era só outra estrela e que as estrelas eram outros sois. Cada um deles acompanhado por outras terras como a nossa, a revelação dessa imensidão foi como se apaixonar”

(Giordano Bruno sobre uma nova visão de universo, 1578 – Transcrito da Série Cosmos: Uma Odisséia no Espaço)

Imagem da Lua Eclipsada em outubro de 2004, na Flórida. Fonte: http://science.nasa.gov/science-news/science-at-nasa/2007/12feb_lunareclipse/

Imagem da Lua Eclipsada em outubro de 2004, na Flórida. Fonte: http://science.nasa.gov/science-news

Nesse exato momento estamos nos aproximando a uma velocidade de 108.000 Km/h do ponto onde nos colocaremos entre o Sol e a Lua, imergindo nosso satélite natural nas sombras e ocasionando um belíssimo fenômeno natural: o Eclipse Lunar.

Uma espécie de êxtase me percorre a espinha quando imagino esses corpos incrivelmente gigantescos – Lua, Terra e Sol – se movendo a altíssimas velocidades no infinito até que se alinhem e a Lua mude de cor, deixando sua aparência imaculada e assumindo o aspecto avermelhado, que nos levou ao apelido de Lua Sangrenta.

Hoje, não menos que majestosamente – além de eclipsada, a Lua estará em seu perigeu [1]. Isso significa que, nesta noite a Lua estará o mais próximo possível da Terra, neste ano. Significa também que isso será, provavelmente, uma espécie de “Top 10” do mais próximo que você chegará da Lua em toda sua vida – a menos que tenha intenção de ser astronauta um dia.

Desde os primórdios da humanidade, civilizações muito mais íntimas do céu do que a nossa observam, descrevem, temem e se propõem a explicar os eclipses. Os índios Tupi-Guarani, por exemplo, descrevem o fenômeno como o assassinato da Lua por um espírito das trevas [2]. Sendo a Lua e o Sol divindades irmãs, o Sol viria logo após cada assassinato, lavaria o sangue do irmão mais novo – a Lua – e o ressuscitaria com seu poder supremo. De rituais de bruxaria até outros que procuram acalentar almas temerosas, o elipse está sempre imerso em aspectos místicos.

Nos dias de hoje podemos observar este fenômeno, inclusive de fora da Terra, com uma percepção estendida. Na figura abaixo segue uma ilustração da posição dos astros (e estrela) que protagonizam este espetáculo noturno.

Eclipse Lunar. Fonte: Observatório Nacional.

Eclipse Lunar. Fonte: Observatório Nacional.

Sendo assim, proponho duas reflexões que considero pertinentes para uma melhor compreensão do que iremos assistir hoje:

  1. Se a Lua dá voltas em torno da Terra, com duração de um mês, por que não temos um eclipse em Toda Lua Cheia, quando a Terra está entre ela e o Sol?
  2. Se a Lua entra na sombra da Terra, por que não se torna negra, como num eclipse Lunar, mas ganha uma aparência avermelhada?

[Deixo como questionamentos, mas obviamente são respostas de fácil acesso ou que poderiam ser discutidas nos comentários, na página do facebook ou por mensagem. Um pouco mais de informação sobre hoje também está disponível no vídeo feito pelo Observatório Nacional com a explicação da pesquisadora Josina Nascimento, neste link aqui.]

Todo mundo que estiver vendo a Lua hoje a noite, a verá eclipsada. Se as nuvens não colaborarem, você também pode dar uma espiadinha em sites que transmitirão o evento ao vivo nesses links aqui, aqui ou aqui. Nessa primeira semana de primavera, este acontecimento, não tão raro, mas que hoje ganha adornos especiais promete não decepcionar.

Por fim, das muitas coisas que poderiam ser ditas sobre o eclipse e num mundo onde temos cada vez menos oportunidade de observar o céu noturno, sugiro aproveitar essa maravilhosa evidência de que não somos o centro do Universo. Acima de nossas cabeças, mais eventos do que poderíamos contar ocorrem a cada segundo na imensidão do espaço. Alguns, para que sejam observados, exigem cautela e equipamentos específicos. Hoje porém, basta olhar pra cima mantendo olhos e mente abertos.

Céus limpos a todas as pessoas!

[1] http://www.on.br/conteudo/noticias/Eclipse-total-da-Lua_24-09-2015

[2] Scientific American Brasil, disponível em http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/mitos_e_estacees_no_ceu_tupi-guarani.html

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Engenheiros e Físicos Fêmea

*Este relato traz reflexões de experiências pessoais e observadas. Não regem absolutamente todos os indivíduos de exatas, mas se manifestam com frequência alta o suficiente para motivar esse texto.

Há tempos existem elementos curiosos nas minhas amizades com garotos. Grupos “de meninos” sempre foram muito receptivos à minha presença. Eu podia estar na banda, no time, na roda de conversa, nos quartos bagunçados tão característicos… Eu era capitã do time. Nenhuma roda de garotos mudava o tom da conversa por minha causa. Quando surgia um desconforto por parte de algum novato as coisas eram rapidamente resolvidas com “relaxa, ela é brother”…

Nem demorou tanto até que eu fosse universitária, aluna de Física numa federal. E eu não sabia das proporções que esta relação tomaria. Após meia dúzia de mesas de bar, novos grupos de garotos à vontade com a minha presença estavam formados e, naturalmente, recebi o meu título: eu não era mulher, era físico fêmea. E isso não era uma especialidade das ciências duras. Éramos todas pequenos bibelôs com exemplares disponíveis também nas engenharias.

Minha vida, meus caros, era bem mais fácil do que a das garotas oficialmente mulheres. Elas eram assediadas de modo muito mais desrespeitoso, como carne em uma roda de leões. Cada cofrinho deve ter reprovado meia classe de Cálculo I. Precisavam provar a cada segundo que podiam executar essa ou aquela tarefa. Eram excluídas de um modo muito mais explícito e veja bem, em exatas, não há muitos grupos de mulheres que se possa integrar. Ao ir mal em uma disciplina, ouviam as mais bem intencionadas sugestões: “Você devia fazer arquitetura. Tem umas contas mais simples e tem mais a ver com as mulheres”. Em aproximadamente dez anos, vi duas dessas moças completarem o curso. Duas. Dez anos. Duas. Deux. Two. Duas garotas consideradas oficialmente mulheres se formando. Em dez anos.

Deste modo foi sempre uma espécie de privilégio ser brother – ou físico fêmea. E então qual o problema aqui? Estaria eu, um exemplar tão afortunado, procurando razões para me queixar da vida? Na verdade, não dura muito. Quando as coisas começam a ficar sérias (na execução de um projeto de pesquisa, por exemplo) e você concorre com uma figura masculina, “parecer um homem” ainda não é suficiente. Ainda que fosse, e caso você não tenha notado, existe sim um “pequeno” inconveniente em tudo isso: A referência do que é “bom” possui uma genitália específica. E nem vou gastar caracteres com ⅓ de dúzia de contra exemplos – e o diabo que elas passaram para que assim o fossem. O bom é masculino, e você pode ser tão boa quanto possa se aproximar da masculinidade. O que pode implicar em abrir mão de muitos elementos da sua vida pessoal, além de ter que preparar um bom caderno de explicações sobre conciliar a sua carreira com blá, blá, blá… E que sentido faz toda essa prosa quando – num meio tão criterioso – nada reafirma a incapacidade de resolver integrais usando batom?

Aos poucos, fui entendendo o quanto poderia ser destrutivo que o meu raciocínio fosse considerado “bom, por ser parecido com o de um homem”. Ganhei também em ter uma orientadora maravilhosamente fora dos padrões físico fêmea, exalando competência por todos os fios de seus cabelos perfeitamente cuidados. Até que a verdade me deu na cara, daquele jeito que só ela sabe fazer. Eu não estava ganhando a briga. Eu estava ajudando o time adversário.

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Uma das diversas respostas bem humoradas às declarações do cientista Tim Hunt sobre a presença de mulheres em laboratórios. Fonte: http://www.bbc.com/

Em um ano em que um prêmio nobel diz por aí que mulheres em laboratórios só trazem problemas, a minha reflexão é que nos esforcemos todos os dias para deixar de lado toda e qualquer razão que atrapalhe tanto o desenvolvimento da ciência quanto o empoderamento feminino. E, numa tentativa de me esquivar da profundidade deste tema e do pedantismo dessa conclusão, recomendo lavação de alma aquiaqui, aqui, e aqui. Vida longa (e próspera) a todas as divas cientistas. Que nossa competência seja desatrelada de aparência e comportamento social. Ainda não sei como conto as pessoas qual a minha profissão. Bacharela em Física soa horroroso. Física tem o mesmo problema de Música… Mas Físico Fêmea, definitivamente, eu passo.

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Precisamos falar sobre espectros (ou sobre energia solar e borboletas)

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Borboleta Pieres, por Richard ffrench-                 Constant. Fonte: Ref. [5]

Me sinto um tanto estúpida tentando pontuar em um parágrafo a necessidade urgente de utilizarmos fontes renováveis de energia, nos portando como sociedade sustentável e resiliente. Neste texto, muitos dos aspectos relacionados às alternativas para as matrizes energéticas do planeta deixarão de ser explorados (mas você pode conferir um overview de cálculos de impacto na referência [1] ou de estudos de utilização relacionados à arquitetura em [2] e [3]). O que eu pretendo fazer a seguir é expor – de modo um tanto simplório – a quantas andam os nossos estudos sobre converter luz do Sol em energia elétrica. E o que as borboletas tem a ver com isso.

Basicamente, as tecnologias desenvolvidas a níveis relevantes para captação de luz solar podem ser divididas em duas grandes categorias: fotovoltaicas e concentradoras de luz solar [1].

As fotovoltaicas excitam elétrons em comprimentos de onda específicos gerando corrente elétrica. Entretanto, não é uma tarefa simples aproveitar toda a energia do Sol que chega à Terra. A figura abaixo mostra a gama de comprimentos de onda (e consequentemente energia) do Sol.

Comprimentos de onda que atingem a Terra. Adaptado de: https://en.wikipedia.org/wiki/Sunlight

Comprimentos de onda que atingem a Terra. Adaptado de: en.wikipedia.org/wiki/Sunlight

“Oh, não! Um gráfico”!

Humano, se acalme! Isso não precisa doer. Respire fundo e olhe com calma. Estamos recebendo energias do Sol com comprimentos de onda que variam, aproximadamente, de 250 a 2500 nanometros (É o que nos dizem os números no eixo horizontal).  A cor avermelhada sinaliza quanto de cada comprimento estamos recebendo, ao nível do mar. Dá pra ver que os comprimentos de onda “preferidos” do Sol estão em torno de 500 nm, basta observar que nessa região (entre as linhas pontilhadas) a mancha vermelha é maior. Ainda assim existe muita energia disponível para além das linhas pontilhadas.

E então? Sabe aquela palestra maravilhosa sobre um assunto interessantíssimo, mas muito rápida e cheia de informação? Mesmo querendo muito, você não consegue aproveitar todo o conteúdo. Algo parecido acontece com a energia que o Sol nos entrega. Ainda não conseguimos um jeito de absorver todos esses comprimentos de onda e convertê-los em eletricidade de um modo eficiente e economicamente viável. Sabemos de várias ligas semicondutoras que podem transformar luz solar em corrente elétrica (Si, GaAs, GaInAsP e GaPN, por exemplo), porém cada um desses materiais consegue aproveitar energia em uma faixa relativamente pequena de comprimentos de onda. A partir daí cada grupo de pesquisa interessado neste assunto samba para encaixar combinações que possam ter a maior eficiência possível (converter a maior quantidade de energia absorvida em energia elétrica). Para as células solares fotovoltaicas mais modernas, por exemplo a eficiência está próxima aos 50% – o que é bastante, visto que quando esse tipo de estudo começou (1941) a eficiência era de 2%.  Ainda assim, esse tipo de dispositivo perde toda energia coletada em forma de calor. Para aumentar o desempenho destas células é possível, por exemplo, recorrer às células multijunção, compostas por camadas de diferentes materiais empilhadas.

“Ok! Então pegamos diferentes materiais, empilhamos e cada um coleta sua faixa de energia, absorvendo todo o espectro! Resolvido!”

A. C. Noob.

Bom, nem vai dar. Para formar uma célula multijunção, os materiais precisam combinar algumas características entre si (o parâmetro de rede, para quem quiser ir mais a fundo) e isso depende por exemplo, de descobrir a porcentagem exata de cada elemento, em uma liga de modo que entre cada átomo desse material exista o espaço certinho necessário para “casar” essa estrutura com a próxima camada. Isso tudo sem alterar a região em que ele está absorvendo. Um verdadeiro quebra cabeça. Só que com as peças espalhadas nas escadarias de Hogwarts.

No que tange à conversão de calor em energia elétrica, os grandes concentradores de calor fazem uso de espelhos e lentes para concentrar o calor do Sol em uma pequena área (mais ou menos como a história da lupa e a formiga). Esse calor pode ser convertido em energia elétrica com o auxílio de geradores ou reações termoquímicas. É possível ver um pouco mais sobre o aproveitamento do calor absorvido do Sol aqui.

Infelizmente, se quiséssemos abastecer uma grande cidade com energia solar proveniente de qualquer uma das tecnologias apresentadas, com a eficiência que temos disponível, precisaríamos ocupar enormes áreas com painéis gigantes. Isso é muito caro, grande, pesado e impactante. Em outras palavras, ainda é inviável.

Felizmente, no último mês, um curioso estudo baseado em uma visão biomimetista (ciência que estuda modelos da natureza e aplica esses designers e processos para resolver problemas humanos) apresentou soluções que encaminham os concentradores solares para uma versão mais leve e eficiente. O estudo desenvolvido por Katie Shanks e colegas partiu da observação de que as borboletas do gênero Pieris que, em dias nublados, levavam menos tempo para aquecer sua musculatura e voar quando comparadas com outras borboletas. Supondo que isso se devia ao fato da borboleta aquecer suas asas em um formato “V” ao invés de aquecê-las completamente abertas, Katie e seus colegas constataram, a partir de imagens de uma câmera no infravermelho, que a eficiência em um ângulo otimizado entre as asas era 42,3% maior do que com as asas abertas.

Imagens mostrando o maior acúmulo de calor para asas em posição "V".

Imagens mostrando o maior acúmulo de calor para asas em posição “V”. Fonte: Ref. [5]

Além do formato em V ser interessante para a concentração do calor, a estrutura da asa deste grupo de borboletas é extremamente leve e reflexiva, de modo que a imitação desta estrutura pode vir a ser extremamente útil na concepção de novos materiais reflexivos onde o peso se faz uma questão relevante.

Agora é torcer e trabalhar duro para que novas ideias, biomiméticas ou não, componham o quadro de conhecimento existente até atingirmos unicamente o consumo de uma energia limpa – por cada vez mais borboletas aquecendo músculos por aí.

Referências:

  1. Renewable and Sustainable Energy Reviews: Environmental impacts of utility-scale solar energy – R.R. Hernandez et. al. (2014).
  2. SHC 2013, International Conference on Solar Heating and Cooling for Buildings and IndustryTypical values for active solar energy in urban planning. Jouri Kantersa, Maria Walla, Marie-Claude Dubois (2013)
  3. SHC 2013, International Conference on Solar Heating and Cooling for Buildings and Industry: The solar map as a knowledge base for solar energy use. Jouri Kantersa, Maria Walla, Marie-Claude Dubois (2013)
  4. Mémoire présenté en vue de l’obtention du Diplôme National d’Habilitation à Diriger les Recherches Ecole doctorale “Sciences de la matière. Charles Cornet. Université de Rennes 1, França. (2014)
  5. Nature: White butterflies as solar photovoltaic concentrators. Katie Shanks1, S. Senthilarasu1, Richard H. ffench-Constant2 & Tapas K. Mallick1
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Planetas gêmeos, Jodie Foster, Stephen Hawking e o escaneamento completo do nosso céu.

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Ellie (Jodie Foster) e seus radiotelescópios, numa tentativa de “Contato” (Filme, 1997).

Caso você ainda não o tenha feito, já pode ficar feliz por morar no endereço mais privilegiado do Sistema Solar. Tá cheio de Armstrong na história pra confirmar “what a wonderful world” (dois, nas minhas contas). Se eu precisasse te convencer a morar na Terra – como se você tivesse outras opções – seria fácil apresentar os mais diversos argumentos: Sol da manhã – e da tarde – com intervalos para a noite. Não é aquela loucura do centro (do sistema) com todo aquele trânsito, anos curtíssimos (onde enfiaríamos todos os feriados?), dias intermináveis (1407 horas!), bombardeios incessantes de asteróides e milhares de vulcões ativos. O Tietê parece uma beleza quando as outras opções são rios de ácido sulfúrico. Poderíamos caminhar em direção à periferia, mas prometo que seria bem mais frio e você se sentiria estranho sobre o seu corpo com as outras gravidades – isso quando há uma superfície sólida onde pisar. Que amante escreveria canções inspirado em satélites naturais cujos nomes significam Terror e Medo? Por aqui há também um escudo natural, a magnetosfera, que nos protege dos poderosos ventos solares arrebatadores de oxigênio. A nossa atmosfera “guarda” o calor, que se distribui de forma essencial à nossa sobrevivência. A crise hídrica parece irrelevante quando analisada desse ângulo: não sei muito bem como faríamos com a água…. Por sinal, estamos a uma distância do Sol que permite que exista água líquida em nosso planeta (não apenas congelada, não apenas gasosa), o que nos põe numa importante localização definida como “zona habitável” dos sistemas.

É fato que não somos os únicos nesta posição. Em outros sistemas planetários, orbitando outras estrelas, vários canditatos a “portadores de água líquida” viajam na imensidão do universo margeando um dos maiores e mais intrigantes questionamentos da ciência: Estamos sozinhos no universo? De uns tempos pra cá ouvimos com relativa frequência notícias sobre o o novo exoplaneta mais interessante “dos últimos tempos, da última semana” – acompanhado de um nome, um código e blá, blá, blá. Assim, isoladas e repetidas, essas notícias parecem sem importância, quando na verdade fazem parte de projetos gigantescos e consecutivos que, há décadas, procuram sistematicamente por companhia no universo. Sendo a física em seu âmago uma ciência intimamente relacionada a análise de probabilidades, fisicos, astrônomos, e outros curiosos, observando bilhões de sistemas solares não podem deixar de se perguntar: quais as chances da única vida inteligente em todo esse espaço estar na Terra? Obviamente, enquanto cientistas, tomamos como verdade o que se pode comprovar. Entretanto, a inquietação soa como radiação cósmica de fundo, ilustrada pela profunda frase de Carl Sagan “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. No filme Contato (recomendadíssimo!), adaptado do romance de mesmo nome escrito por Sagan, a atriz Jodie Foster protagoniza magicamente a história de uma astrônoma que dedica sua carreira à essa busca, num enredo que expõe o árduo trabalho, a dedicação, a persistência, a vocação e a paixão necessárias a essa empreitada, bem como as implicações da jornada. Procurar vida no universo significa varrer infinitas possibilidades motivado “apenas” pela inquietação.

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