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O papel da evolução no surgimento e no tratamento do câncer

Os últimos meses foram marcados, em todo o Brasil, por campanhas de prevenção ao câncer de mama, com o outubro rosa, e ao câncer de próstata, com o novembro azul. Agora, por meio do dezembro laranja, as campanhas de saúde pública se voltam para outro vilão, o câncer de pele.

O motivo dessas mobilizações nacionais é bem evidente: o câncer é uma doença com uma alta frequência na população nacional e mundial. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), estima-se que até 2040 serão registrados 29,4 milhões de novos casos de câncer no mundo, uma expansão de 63% nos próximos 20 anos. Além disso, a mortalidade decorrente de câncer deve subir de 9,6 milhões de pessoas em 2018 para 16,3 milhões em 2040.

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Figura 1. Representação de um tumor (Fonte: Mopic/Alamy, BBC, 2016).

Olhando esse cenário, podemos nos perguntar: qual o motivo de tantas pessoas desenvolverem essa patologia ao longo da vida? As explicações mais comuns para esses números alarmantes estão relacionadas ao envelhecimento da população e aos hábitos das pessoas, como má alimentação, tabagismo, obesidade e falta de atividade física. Entretanto, para responder esse questionamento inteiramente, é importante entender que o câncer é um subproduto do processo evolutivo e que nós, seres humanos, fazemos parte desse processo e, dessa forma, somos suscetíveis a essa doença.

Para compreender o câncer nós precisamos lembrar de um processo biológico fundamental: a divisão celular. Esse processo é extremamente regulado nas células do nosso corpo. Entretanto, uma célula cancerígena é capaz de “quebrar” os mecanismos de controle que uma célula comum segue, gerando uma proliferação celular descontrolada [1].

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Figura 2. Representação de uma molécula de DNA sendo quebrada (Fonte:  Paul Wootton/SPL, BBC, 2016).

Durante os anos de evolução da vida em nosso planeta, muitos mecanismos de reparo de danos celulares surgiram, além de mecanismos de destruição das células que apresentem alguma irregularidade. Esses mecanismos evitam que tais células “danificadas” causem prejuízos para todo o organismo. Entretanto, essas correções, apesar de excelentes, não são exatamente perfeitas. Quando um pequeno número de células que possuem alguma alteração não são “consertadas” pelos mecanismos de reparo, essa população celular pode crescer, gerando centenas e milhares de células alteradas, que levam à formação do que conhecemos por um tumor [2].

Recentemente os cientistas olharam para as células cancerígenas sob novas perspectivas, e perceberam que com o crescimento desacelerado e desordenado, cada célula cancerígena possui um material genético diferente da outras células [2], como um organismo independente, e que o conjunto dessas células, o que seria análogo ao que conhecemos como uma população, está suscetível a várias pressões do ambiente externo e aos fatores evolutivos.  

Assim, após a formação de um tumor, constituído inteiramente por células alteradas, novas modificações acontecem dentro dessa mesma população de células cancerígenas, tornando-as cada vez mais diversas geneticamente [1,3]. Assim, sob essa diversidade de células há a atuação da seleção natural, ou seja, as células com maiores taxas de divisão, mais “agressivas” e resistentes sobrevivem, enquanto as outras células não tão adaptadas morrem. Esse processo faz com que as células do tumor se tornem cada vez mais “fortes” e adaptadas, sendo necessária a completa remoção de todas as células de um organismo para a eliminação da doença pois, se apenas algumas sobreviverem, elas podem rapidamente se multiplicar e voltar ao estágio de tumor.

Esse processo evolutivo com constantes modificações é uma das razões de ser tão difícil encontrar um único tratamento para o câncer. Entretanto, entender esse processo nos revela também uma das possibilidades de cura. Cientistas começaram a olhar os cânceres sob a luz da evolução e descobriram que as células de um tumor usualmente compartilham alterações genéticas (mutações) provenientes das primeiras células que sofreram alterações. Em uma analogia, funciona como uma árvore com vários galhos (Figura 3).

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Figura 3. Representação do isolamento de células de diferentes partes de um tumor e reconstrução da ordem de aparecimento de cada modificação (Fonte: Kuo, C.J; Curtis, C. Nature, 2018, com adaptações e tradução para português).

O estudo [4] foi publicado na revista Nature em abril de 2018, e mostra que a partir da separação de diferentes regiões de um tumor é possível identificar a origem e as mutações acumuladas em cada parte. Assim, após entender e mapear essas primeiras alterações celulares é possível criar terapias direcionadas para cada tipo de tumor que eliminem todas as células de uma só vez.

Por fim, a ciência básica e a ciência aplicada caminham mais uma vez de mãos dadas e a cada dia mais unidas para desvendar um dos grandes desafios da humanidade no século atual: a cura do câncer.

Para saber mais sobre a história do câncer e estatísticas brasileiras vale a pena ler o livro gratuito do Instituto Nacional do Câncer (INCA) dos autores Luis A. Teixeira e Cristina O. Fonseca, intitulado “De doença desconhecida a problema de saúde pública: o INCA e o controle do câncer no Brasil”. E, aqui no blog, recentemente nós publicamos um texto sobre um dos últimos avanços da medicina em relação ao tratamento do câncer por meio da imunoterapia. Boa leitura!

Referências:

[1] Mel Greaves & Carlo C. Maley. Clonal evolution in cancer. Nature, v. 481, p. 306–313, 2012. (https://www.nature.com/articles/nature10762)

[2] Melissa Hogenboom. How cancer was created by evolution. BBC Earth, 2016. (http://www.bbc.com/earth/story/20160601-is-cancer-inevitable)

[3] Calvin J. Kuo & Christina Curtis. Organoids reveal cancer dynamics. Nature News &  Views, p. 441, 2018. (https://www.nature.com/articles/d41586-018-03841-x)

[4] Roerink, S et al. Intra-tumour diversification in colorectal cancer at the single-cell level. Nature, n. 556, p. 457–462, 2018. (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29643510)

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Nenhum pedacinho a menos! A importância de manter as florestas “intactas”

Apesar das crescentes taxas de desmatamento na Terra, as florestas ainda estão amplamente distribuídas, cobrindo um total de 40 milhões de km2, aproximadamente 25%, da superfície terrestre. Entretanto, destas florestas restantes, 82% estão atualmente degradadas de alguma forma, como resultado de ações humanas diretas, como exploração industrial, urbanização, agricultura e infraestrutura.

Um estudo publicado com 28 cientistas, em abril de 2018 na revista Nature [1], mostra a necessidade de identificar e preservar os ecossistemas naturais “intactos”, que são aqueles, conforme definição dos autores, livres de degradações significativas feitas pelo homem. Os cientistas mostraram que as florestas “intactas” são indispensáveis não só para conseguirmos frear as mudanças climáticas provocadas pela nossa espécie, mas também para barrar a crise da perda de biodiversidade do planeta, além de fornecerem serviços ecossistêmicos essenciais e permitirem a manutenção da saúde humana.

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Figura 1. Mapas da extensão das regiões de floresta intacta no mundo e graus de pegada humana (intervenção) nos ecossistemas florestais. (FONTE: Watson et al., 2018, traduzido para português).

Desde o ano de 1870, os processos de degradação das florestas foram responsáveis por 26% das emissões de CO2 atmosférico. As florestas intactas armazenam mais carbono que florestas derrubadas, degradadas ou plantadas em locais ecologicamente comparáveis. A explicação para isso é que a extração de madeira e a conversão de florestas em terras agrícolas causam grande erosão e contribuem para a perda de carbono subterrâneo, liberando o gás na atmosfera. Além disso, as florestas intactas contribuem com a complexidade da fauna nos ecossistemas e sequestram carbono ativamente em solos e biomassa viva.

Florestas intactas atuam na regulação do clima local e regional, além de atuarem na geração de chuvas e na prevenção de secas. Os autores demonstram que a degradação e perda de floresta intacta pode aumentar o número de dias secos e quentes, diminuir a intensidade das chuvas diárias e aumentar a duração da seca durante os anos do El Niño. Adicionalmente, a degradação das florestas podem afetar a disponibilidade de escoamento de água e a manutenção dos serviços hidrológicos.

A conservação da biodiversidade é outro fator importante para a preservação das florestas. Estes ambientes possuem maior número de espécies sensíveis, são importantes refúgios de animais e possuem maior diversidade genética e funcional do que os ambientes degradados [1]. Além disso, são ecossistemas com maior quantidade de funções para a sociedade, como a dispersão de sementes e serviços de polinização.

Pelo menos 250 milhões de pessoas no planeta vivem em florestas e, para muitas delas, suas identidades culturais estão profundamente enraizadas nas espécies de plantas e animais encontradas nestes ambientes. A fragmentação e degradação das florestas impede a manutenção dos hábitos e tradições dos povos da floresta, levando essas pessoas a estarem conectadas com os produtos provenientes da cidade para sobreviverem. Além disso, causam diversos impactos na saúde dessas pessoas, que são expostas à doenças e vetores das regiões externas à floresta. Nos dias atuais, existem evidências crescentes que o fortalecimento da posse da terra para os povos da floresta é uma maneira eficaz para proteger esses ambientes.

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Figura 2.  Comunidade indígena que vive isolada na Amazônia que foi fotografada pela primeira vez em setembro de 2016 (Foto: Guilherme Gnipper/Hutukara/Divulgação/G1).

Em relação aos benefícios a saúde humana, os ecossistemas florestais são importantes fontes de muitos compostos medicinais que fornecem medicamentos a milhões de pessoas em todo o mundo. Adicionalmente, florestas intactas reduzem os riscos de doenças infecciosas, como Ebola, dengue, zika vírus, vários hantavírus, febre amarela e malária. Assim, o maior índice de incidência dessas doenças endêmicas está relacionado à invasão e degradação das florestas decorrentes do aumento da presença humana nesses habitats.

Em relação ao Brasil, um grande problema atual é a permissão por parte do governo de classificar e autorizar o uso de áreas de florestas nativas impactadas como áreas que podem ser “exploradas”. Na Amazônia brasileira, 16% das áreas com permissão para utilização são desmatadas para agricultura no primeiro ano após a exploração, com perdas adicionais nessas áreas de mais de 5% ao ano nos próximos quatro anos. A taxa de queimadas nessas regiões é muito maior do que em outras áreas, e, além disso, o risco de invasão de espécies exóticas também é maior do que em florestas não-degradadas. Assim, a definição de uma área como “menos importante”, “degradada” ou “passível de modificação e/ou exploração” torna essas regiões mais propensas a serem desmatadas.

Apesar de todos esses benefícios indiscutíveis, é possível vislumbrar, ainda no atual século, um mundo com poucas ou nenhuma área de floresta intacta remanescente significativa. Em alguns anos, a humanidade provavelmente irá presenciar apenas florestas degradadas e danificadas, que irão precisar de restaurações caras e algumas vezes inviáveis, abertas a uma série de novas ameaças e sem a capacidade de suportarem as tensões das mudanças climáticas cada vez mais reais. Assim, existe uma necessidade urgente de maiores esforços de conservação das florestas em todo o mundo, e para isso a sociedade precisa entender a importância da conservação da integridade das florestas, bem como os valores sociais e ambientais provenientes destes ecossistemas.

 

Referências:

[1] Watson et al., The exceptional value of intact forest ecosystems. Nature: Ecology & Evolution, v. 2, p. 599–610, 2018.

 

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Contraceptivos hormonais, trombose e depressão. Quais são os riscos comprovados cientificamente?

Muitas pessoas já viram diversos relatos e notícias na web sobre casos de trombose e depressão sendo associados à utilização de contraceptivos hormonais. Porém, às vezes é difícil entender se realmente esses efeitos são pontuais ou de maiores proporções na população. Além disso, entender toda a relação de causa e efeito com a grande quantidade de fatores ligados a essas doenças é complicado. Por isso, hoje nós trazemos os últimos dados relacionados a esses temas para contribuir com algumas informações.

O lançamento da pílula anticoncepcional hormonal, no início dos anos 60, significou um grande passo para a emancipação da mulher com a opção de decidir quando e quantos filhos gerar. Porém, apesar dessas vantagens, há alguns anos ela passou a ser vista de forma desconfiada pelo público por conta dos seus efeitos colaterais e possíveis riscos de desenvolvimento de doenças.

Os contraceptivos hormonais orais normalmente contém uma combinação de estrogênio e progesterona, ou apenas progesterona, e regulam a fertilidade de forma segura, eficaz e reversível. Desde a regulamentação da primeira pílula, as fórmulas utilizadas foram constantemente modificadas para reduzir os riscos de efeitos cardiovasculares adversos e de tromboembolismo [1].

O tromboembolismo pode ocorrer nas veias ou artérias do corpo e se dá pela coagulação do sangue nesses vasos, podendo ter causas diversas. Esse coágulo, chamado de trombo, pode se aderir na parede dos vasos causando muitos sintomas, constituindo assim a trombose.

coágulo

Figura 1. Ilustração de um coágulo dentro de um vaso saguíneo (Fonte: Ferrerincode)

Grande parte dos estudos em larga escala presentes na literatura até hoje foram realizados na Europa e nos Estados Unidos, isso restringe um pouco a extrapolação dos dados para outros países e populações, como o Brasil, mas ao mesmo tempo nos auxilia com informações fisiológicas importantes relacionadas ao uso desses fármacos.

Esses estudos mostram que a presença do estrogênio chamado de etinilestradiol nas pílulas hormonais é o fator que mais se relaciona com o aumento do risco de desenvolvimento de trombose nas mulheres, comparado aos outros compostos analisados. Em números, mulheres que utilizam esse composto específico na pílula possuem 4 vezes mais chances de riscos de trombose do que não usuárias de contraceptivos hormonais [1, 2].

Um estudo com seis milhões de mulheres francesas mostrou que existe uma correlação entre a dose de etinilestradiol utilizada e os efeitos de embolia pulmonar, AVC e infarto do miocárdio. Ou seja, mulheres que utilizavam menores doses de etinilestradiol eram menos propensas a desenvolverem os efeitos citados, justificando a recomendação de baixas doses do composto nos medicamentos comercializados. Aparentemente o etinilestradiol causa alterações na produção das proteínas do fígado e pode promover ligeiras alterações nas vias relacionadas a coagulação sanguínea, independentemente da via de administração utilizada [2].

Outro estudo, realizado com nove milhões de dinamarquesas que faziam uso de contraceptivos hormonais não orais, mostrou que a taxa de trombose aumentou 7,5 vezes para mulheres que utilizavam adesivos hormonais, 6,5 vezes para mulheres que usavam anéis vaginais e 1,4 para implantes subcutâneos, comparada a mulheres que não faziam uso de contraceptivos hormonais. Entretanto, a taxa de trombose não aumentou para mulheres que utilizavam o dispositivo intra uterino (DIU) hormonal a base de levonorgestrel, que é um tipo de progesterona sintética [3].

anticoncepcionais hormonais

Figura 2. Métodos contraceptivos. 1. Pílula, 2. Implante subcutâneo, 3. Diafragma*, 4. Injeção, 5. Anel vaginal, 6. Adesivo dérmico, 7. DIU hormonal (Fonte: Bruno Marçal/ Saúde Abril, com adaptações). *Não é um método contraceptivo hormonal.

Sobre as relações dos anticoncepcionais com a depressão, sabe-se que os índices de depressão em mulheres são duas vezes maiores do que em homens [4] e diversos estudos tentam entender esses motivos, sendo que os contraceptivos hormonais são constantemente apontados como uma das possíveis causas.

A revisão mais recente sobre o tema foi publicada em janeiro de 2018, com a síntese dos 26 principais trabalhos publicados sobre anticoncepcionais e depressão. Segundo a revisão, os resultados ainda não são conclusivos para afirmar uma associação de anticoncepcionais com a depressão, devido à grande variação entre as conclusões encontradas nos estudos, o tamanho das populações analisadas, a validação e randomização dos dados [5].

Sabemos que a ciência, que até pouco tempo atrás era majoritariamente realizada por homens, tende a negligenciar alguns assuntos de importância extrema para a saúde da mulher. Hoje, milhões de mulheres utilizam anticoncepcionais hormonais no mundo. Nesse sentido, mais estudos são necessários para entender todas as relações entre os contraceptivos hormonais e a saúde das mulheres. Por fim, é importante lembrar que para decidir sobre o uso de qualquer medicamento é necessário sempre consultar um profissional de saúde que deve basear-se no histórico, idade, condições de saúde de cada mulher para prescrever o melhor contraceptivo.

Para saber mais:

A Organização Mundial da Saúde fez uma cartilha que auxilia os profissionais de saúde a selecionarem apropriadamente o melhor método contraceptivo para cada mulher de acordo com cada estágio da vida reprodutiva e condições de risco. E aqui, no Cientistas Feministas, existem dois ótimos textos sobre contraceptivos hormonais para homens e sobre depressão. Vale a pena conferir.

 

Referências:

  1. Heit, J.A., Spencer, F.A., White, R.H. The epidemiology of venous thromboembolism. J Thromb Thrombolysis, 41, 3–14, 2016.
  2. Sitruk-Ware, R. Hormonal contraception and thrombosis. Fertility and Sterility, 106(6), 1289-1294, 2016.
  3. Lidegaard, O., Nielsen, L.H., Skovlund, C.W., Løkkegaard, E. Venous thrombosis in users of non-oral hormonal contraception: follow-up study, Denmark 2001-10. BJM, 344, e2990, 2012.
  4. Skovlund, C.W., Mørch, L.S., Kessing, L.V., Lidegaard, Ø. Association of Hormonal Contraception With Depression. JAMA Psychiatry. 73(11), 1154-1162, 2016.
  5. Worly, B.L., Gur, T.L., Schaffir, J. The relationship between progestin hormonal contraception and depression: a systematic review. Contraception. S0010-7824(18)30032-5, 2018.
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Por que menstruamos? A história evolutiva da menstruação

Menstruação. Esse acontecimento fisiológico que ocorre com metade da população mundial em idade fértil ainda é um tabu social e científico em muitos aspectos. Por exemplo, quem nunca viu uma propaganda de absorvente que representa o sangue menstrual em cor azul ou rosa? Os fatores sociais e culturais relacionados  a este tema afetam a vida das mulheres[1] em todo o mundo e possuem influências em diversas questões políticas relacionadas à liberdade e saúde da mulher, mas o entendimento profundo sobre o assunto ainda é escasso para grande parte da população.

Recentemente a famosa revista científica “The Lancet” lançou uma nota editorial com o tema “Tempo de falar sobre menstruação” [1] na qual apresenta dados sobre como a menstruação é um assunto negligenciado socialmente, mesmo podendo afetar desde a autoestima de meninas e mulheres até o desempenho escolar destas, que precisam passar por este período todo mês. Então, no texto de hoje vamos abordar esse tema e mostrar algumas curiosidades sobre o assunto.

Os médicos e cientistas se perguntavam sobre o motivo e a função da menstruação desde os anos 400 a 300 a.C.. Nesse tempo eles acreditavam que a menstruação era a substância necessária para a formação do embrião. A crença era de que o sêmen atuaria no sangue menstrual levando este à coagulação. Sendo o sangue a matéria prima do embrião, perder este antes da entrada do sêmen era considerado na época equivalente a assassinato infantil. Esse simples desconhecimento de ciência levou na prática ao casamento de crianças em alguns países, sendo considerado um crime para uma menina menstruar antes de se casar [2].

Essa visão antiga sobre a menstruação permaneceu popular por quase dois mil anos, e somente por volta de 1700 os cientistas perceberam a diferença entre sangue menstrual e o sangue que circula em nosso corpo [3]. Com o passar dos anos, no final do século XIX e início do século XX, a partir de avanços na ciência com a descrição do ciclo hormonal de alguns mamíferos, acreditava-se, erroneamente, que a menstruação na mulher era equivalente ao sangramento relacionado ao momento de cio em alguns animais, sangramento proestrus [4]. Foram necessários mais alguns anos, até que em 1923 George W. Corner publicou um trabalho descrevendo a menstruação como um processo secundário, relacionado a um método altamente desenvolvido de implantação do embrião [5]. Sabe-se atualmente que esse processo ocorre em apenas 1,5% das espécies de mamíferos, sendo quase que restrito à primatas (78 ordens), mas que também está presente em 4 espécies de morcegos, um pequeno mamífero africano Elephantulus myurus, e recentemente descoberto na espécie de rato Acomys cahirinus [6, 7].

espécies que menstruam
Figura 1. Outras espécies que menstruam (Elephantulus myurus e Acomys cahirinus).

Com o surgimento e popularização da teoria da evolução, diversas hipóteses surgiram para explicar a função da menstruação, sempre tendo como perspectiva o fato de que, se este processo sobreviveu à seleção natural, provavelmente ele deve ser de alguma forma vantajoso ou pelo menos não prejudicial aos primatas e à continuação da espécie. Na época, os cientistas ignoraram os fatos de que a menstruação só ocorre em fêmeas com desenvolvimento corporal completo e apenas quando não estão grávidas ou amamentando. Assim, encontrar uma função para a menstruação consistia em uma tarefa árdua, pois era possível que as fêmeas passassem os seus genes para as próximas gerações mesmo sem menstruar e anteriormente à seleção natural exercer efeitos positivos ou negativos sobre a espécie [1]. Seguindo esse ponto de vista, aparentemente, a menstruação não está envolvida com alguma função específica na evolução dos primatas, mas possui uma ligação direta com o nossa forma de reprodução e à função do útero das mulheres.

Nesse sentido, olhando para o trato feminino atual, tudo começou com uma estrutura primitiva especializada em transportar gametas que apareceu primeiramente no peixes com mandíbulas. Esta estrutura evoluiu por milhões de anos, sendo conhecida atualmente como ductos de Müller ou Mulleriano, o precursor do útero, oviduto, cérvix e vagina superior nas mulheres. A grande vantagem da estrutura primitiva era permitir que o macho depositasse seus gametas diretamente dentro da fêmea, facilitando assim a união dos gametas e a fecundação.

ducto muller português
Figura 2. Ducto Mulleriano e a formação das estruturas do sistema reprodutivo feminino (Fonte: Wilhelm, D. e colaboradores/Physiological Reviews). Traduzido para português e adaptado.

Essa fertilização interna constituiu em um primeiro passo para a conquista do ambiente terrestre, mas apresentava algumas desvantagens evolutivas. Primeira, o embrião agora dentro da mãe possuía um tecido diferente geneticamente da mãe e um processo inflamatório de não reconhecimento deste tecido estranho teria que ser evitado. Segundo, a presença do embrião no interior de um ducto significava que a evolução do trato feminino passaria a ser realizada em conjunto com a evolução do embrião, sendo desta forma mais difícil de ter sucesso evolutivo.

Mudanças importantes no ducto Mulleriano ocorreram ao longo dos anos nas espécies que conquistaram o ambiente terrestre. Em répteis essa estrutura atuou na adição de camadas de proteção ao embrião (ovo), e em mamíferos, que evoluíram a partir de ovos de répteis primitivos, vestígios dessas camadas protetoras do embrião ainda existem. Um exemplo atual dessa evolução são os mamíferos primitivos que vivem nos dias atuais, como os ornitorrincos (Figura 3), que ainda possuem ovos.

Ornitorrinco

Figura 3. Ornitorrinco e seus ovos (Fonte: Agostini Picture Library/De Agostini/Getty Images).

O surgimento do útero em mamíferos ocorre com a especialização deste na provisão de nutrientes para o embrião. E com o passar do tempo, a evolução útero ocorreu no sentido de um contato cada vez cada vez mais íntimo entre o embrião e o endométrio materno (Figura 4). Tudo isso permitiu uma transferência de nutrientes cada vez mais eficiente entre as membranas que separam o sangue fetal e o materno.

trato vaginal
Figura 4. Esquema do trato feminino (Fonte: Editora Sanar). Com adaptações.

Para evitar a expulsão do embrião e o processo de inflamação no corpo da mãe em relação aos tecidos não reconhecidos deste, a evolução do embrião ocorreu no sentido de paralisar o processo inflamatório no útero e juntamente formar um tecido de granulação de proteção. Esse processo ocorre com o controle do embrião em estágios bem iniciais de um hormônio da mãe chamado de progesterona. Esse hormônio é majoritariamente produzido pelo ovário, porém com a fecundação passa a ser controlado, e posteriormente, produzido pelo próprio embrião. Esses efeitos combinados se converteram na resposta de implantação do embrião, que é considerada bem invasiva em primatas em relação ao mesmo processo em outros animais [8].

Contra isso, a mãe reagiu ao longo da evolução para proteger as camadas epiteliais do seu útero por meio de mudanças na espessura da parede do útero (endométrio) ao longo do ciclo de fertilidade e em resposta à antecipação de uma gravidez e a invasão do possível embrião. Assim, quando a gravidez não ocorre, há apenas o descolamento dessa parede do endométrio com um sangramento: a menstruação.

embrião se implantando no útero
Figura 5. Embrião se implantando na parede do útero (Fonte: Science Picture Co/SPL).

Ao perceber a estreita relação entre a menstruação e o seu papel na implantação do embrião, é difícil imaginar que estas poderiam ter evoluído separadamente. Assim, outra hipótese muito aceita é que a função evolutiva mais útil da menstruação é de se livrar de embriões não implantados corretamente [1, 7]. Ainda, não podemos deixar de citar, que uma pesquisadora chamada Margie Profet defende a ideia de que a menstruação serviria também para proteger a fêmea dos patógenos transportados pelo esperma do macho [9], mas vários autores discordam dessa hipótese e testes clínicos ainda são necessários para comprovar essa afirmação [10].

Para finalizar, um fato curioso da abordagem do tema é um pequeno vídeo produzido pela Walt Disney em 1946. Desculpas antecipadas pelas imagens e comentários sexistas da época, mas acredito que seja interessante conferir.

E aí, vamos colocar a menstruação na roda de conversa?

Referências

  1. The Lancet. Time to talk about menstruation: #PeriodEmoji. Lancet, 389: 2264, 2017.
  2. Finn, A.C. Why do women menstruate? Historical and evolutionary review. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology 70, 3-8, 1996.
  3. Grant E, ed. A source book in Medieval Science. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1964.
  4. Heape W. The ‘sexual season’ of mammals and the relation to menstruation. Q J Microsc Sci 44,1-70, 1900.
  5. Corner, G. W. Oestrus, ovulation and menstruation. Physiological Reviews 3, 4, 457-482, 1923.
  6. Bellofiore, N., Ellery, S., Mamrot, J., Walker, D., Temple-Smith, P. e Dickinson, H. First evidence of a menstruating rodent: the spiny mouse (Acomys cahirinus). American Journal of Obstetrics and Gynecology, 2016.
  7. Emera, D., Romero, R., Wagner, G. The evolution of menstruation: A new model for genetic assimilation. Bioessays, 34, 26–35, 2011.
  8. Kirby DRS. Development of mouse eggs beneath the kidney capsule. Nature 187, 707,1960.
  9. Profet, M. Menstruation as a defense against pathogens transported by sperm. The Quarterly Review of Biology, 68(3), 335–386, 1993.
  10. Dasgupta, S. Why do woman have periods when the most animals don’t? BBC earth, 2015.

[1] É importante tomar nota que ao se referir à mulheres nos artigos utilizados para compor este texto, os autores se referem a pessoas que possuem biologicamente o sistema genital feminino. Homens trans ou pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros também podem menstruar, mas este tema específico não será o foco deste texto.

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Origem da vida e os desentendimentos entre Ciência e Religião

Você provavelmente já se perguntou várias vezes como a vida começou. Esse é um questionamento que muitas pessoas possuem e causa um grande debate entre ciência e religião.

Ciência e religião utilizam abordagens distintas para explicar a realidade. Para nós, cientistas, a forma como tentamos entender o mundo natural é aplicando o método científico. Isso quer dizer que, a partir de experimentação e observação dos eventos naturais ao longo dos anos, nós formulamos hipóteses que podem ser confirmadas ou refutadas.

Sabemos que o Homo sapiens é uma espécie bem curiosa e essa curiosidade nos ajudou a sobreviver ao longo dos anos, pois modificamos o nosso entorno como nenhuma outra espécie, utilizando a nossa capacidade de observação do ambiente e da experimentação. Com o passar do tempo, melhoramos o nosso entendimento sobre o mundo natural e aperfeiçoamos as formas de transmitir esse conhecimento entre as gerações. Assim, nós sobrevivemos e nos multiplicamos. E como multiplicamos! Somos 7,5 bilhões e continuamos contando. Por conseguinte, com a formação das diversas sociedades em diferentes locais do planeta Terra, utilizamos a nossa observação e imaginação para responder as nossas curiosidades e dúvidas mais basais, como: qual é a nossa origem? Qual é a origem da vida?

Penso que a ideia por trás dessas perguntas talvez esteja associada ao fato de que, sabendo a origem, talvez encontremos um motivo para a nossa existência. Assim, centenas de religiões e crenças oferecem as respostas para esses anseios da nossa espécie. Seguindo essa lógica, nós sempre praticamos ciência. Nós sobrevivemos por conta da ciência e, ao mesmo tempo, utilizamos a nossa abstração do mundo natural para criar religiões e, em muitas delas, obter o conforto para as nossas perguntas. Porém, a ciência aplicada à sobrevivência – como práticas agrícolas, contar o tempo, cozinhar os alimentos e explorar o mundo natural – sempre foi permitida. Mas à medida que a nossa curiosidade foi aumentando e o caminho da ciência começou a cruzar com o da religião historicamente estabelecida, as coisas mudaram de configuração.

Com o passar dos anos, religião e moral se tornaram um bloco único e passaram a atuar como organizadores sociais. Assim, a expansão do conhecimento científico se tornou algo considerado perigoso, pois as respostas que a experimentação científica nos trouxe começaram a ameaçar interesses religiosos e, com isso, abalaram também os fundamentos de uma ordem social, majoritariamente religiosa. Por outro lado, como o progresso científico sempre trouxe mais conforto para o ser humano, a ciência também era vista como algo bom, desde que estivesse aprisionada em uma caixinha de só prover produtos. As outras áreas do conhecimento como o campo social, político e moral sempre foram reservadas, e continuam sendo nos dias atuais, obrigatoriamente à religião.

Por outro lado nós, cientistas, enfrentamos os bloqueios ao longo dos séculos para expandir o nosso conhecimento sobre o mundo. Com isso, mais cedo ou mais tarde, chegamos nas fronteiras da nossa caixinha científica, sendo que, agora, temos respostas para muitas dúvidas que antes eram atribuídas a uma criação divina. Para começar a citar essas descobertas, é impossível não lembrar de Darwin que presenteou a humanidade com o livro “A origem das espécies”. Nos dias de hoje, até o representante de uma das maiores religiões mundiais (o papa) de alguma forma aceita a ideia da evolução. A outra novidade é que agora estamos muito próximos de outra descoberta: a explicação sobre a origem da vida. Os cientistas estão a cada ano mais empenhados em solucionar essa questão e possuem alguns experimentos que comprovam esses dados. Vamos lá!

Atualmente, os fósseis mais antigos conhecidos têm cerca de 3,5 bilhões de anos, 14 vezes a idade dos primeiros dinossauros [1]. Porém, em agosto de 2016, pesquisadores descobriram registros fósseis na Austrália de uma comunidade de microorganismos, chamados de estromatólitos [2], que datam 3,7 bilhões de anos. Outro estudo ainda mais recente, em março de 2017, mostra evidências de vida na Terra há aproximadamente 4,28 bilhões de anos. Lembrando que a Terra em si não é muito mais antiga: os cálculos mais aceitos revelam que o nosso planeta foi formado há 4,5 bilhões de anos, isso quer dizer que a vida na Terra teve origem muito cedo.

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Estromatólitos (Fonte: Nutman e colaboradores, Nature).

As descobertas não param por aí. A curiosidade científica nos fez olhar para o mundo através de lentes de aumento, e com a criação do primeiro microscópio no século XVII nós descobrimos algo fantástico: as células! Não demorou muito para a gente entender que todos os seres vivos eram formados por células (nota 1). Além disso, diversos organismos que vivem nos mais diferentes lugares do planeta possuem apenas uma única célula, como por exemplo as bactérias. Ao observar a atual árvore da vida, podemos notar que quase todos os ramos principais são compostos por esses seres unicelulares.

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Árvore da vida (Fonte: Hug, Banfield e colaboradores, Nature Microbiology).

Enxergar essas unidades celulares nos fez pensar sobre como as células podem ter se formado e o que existe dentro de uma única célula. O desenvolvimento de tecnologia nos permitiu identificar que as células possuem internamente diferentes organelas, que são majoritariamente estruturas formadas por proteínas, e estas, utilizando uma explicação bem básica, são resultado de ligações entre diferentes elementos químicos.

Assim, após esta descoberta, a saga para entender como os elementos químicos presentes na Terra inicialmente se transformaram em compostos orgânicos começou! A primeira hipótese, que é muito conhecida, fala sobre uma sopa primordial de elementos químicos. Essa proposta é proveniente da junção de ideias de dois cientistas, o soviético Alexander Oparin e o biólogo inglês John B.S. Haldane. A ideia de Oparin-Haldane basicamente é que os oceanos primitivos eram como uma sopa quente, que possibilitaria a combinação de diferentes compostos químicos e assim, espontaneamente, o aparecimento dos primeiros organismos vivos [3]. A vida então não precisaria de nada divino para ser explicada.

Essa hipótese era instigante e foi até mesmo encontrada em uma correspondência de Darwin anos antes de ser pensada por Oparin e Haldane, na qual ele dizia:

“Mas, se (Oh, mas que grande “se”) pudéssemos conceber em algum lago pequeno e quente com todos os tipos de amônia e sais fosfóricos com a presença de luz, calor, eletricidade assim um composto protéico foi quimicamente formado, pronto para passar por mudanças mais complexas…”

Porém, o problema para todos esses questionamentos era conseguir realizar um experimento para testar essa hipótese. Nesse momento, surgem outros dois cientistas nesta história, Harold Urey e Stanley Miller. Urey, ganhador de um prêmio Nobel, explicou em uma palestra que a atmosfera inicial era praticamente desprovida de oxigênio, e que isso seria o suporte para a teoria da sopa primordial. Miller, que estava na plateia, propôs para o professor testar essa ideia, e assim o fez em 1952. Ele conectou por meio de frascos de vidro quatro produtos químicos (água fervente, gás hidrogênio, amônia e metano) e submeteu esses gases à choques elétricos, para simular relâmpagos.

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Experimento de Miller e Urey (Fonte: Francis Leroy, Biocosmos/Science Photo Library).

Miller descreveu que após o primeiro dia a água estava um pouco rosa e no final da semana turva e avermelhada. Ao analisar seu conteúdo, ele encontrou dois aminoácidos formados: glicina e alanina. E olha que incrível, as proteínas, que são basicamente a constituição dos seres vivos, são formadas por uma cadeia de nada mais, nada menos do que aminoácidos! Os resultados foram publicados na revista Science em 1953 [4].

Com o passar dos anos, outros cientistas começaram a encontrar maneiras de criar moléculas biológicas simples a partir de soluções químicas, e uma explicação para o mistério sobre a origem da vida parecia próxima. Porém, ao mesmo tempo ficou claro que a vida era mais complicada do que se pensava. Células vivas possuem um modo de funcionamento próprio, não são apenas uma bolha com produtos químicos dentro, e uma das características que as tornam especiais é a capacidade de se dividirem.

Contribuições para o entendimento dessa incrível maquinaria celular foram impulsionadas com o descobrimento do DNA em 1953 [5]. Na verdade, proteínas são estruturas quimicamente complexas, e entender o processo de conversão de uma simples molécula de DNA em RNA, e esse RNA posteriormente em proteínas, trouxe várias outras ideias para explicar a origem da vida. Aqui no blog existem dois textos muito bons sobre esse assunto, o primeiro trata da descoberta do DNA e o outro sobre este processo de conversão.

O processo DNA-RNA-proteína ocorre em todas as células existentes. Assim, explicações sobre a origem da vida devem basicamente mostrar como essa “trindade biológica” começou a funcionar. Sobre esse tema, você deve estar pensando agora. “- Isso é muito complicado!” E, na verdade, é sim. Mas os cientistas olharam para o processo e pensaram que, talvez, se fosse possível encontrar um composto químico orgânico que conseguisse reproduzir-se por si mesmo, esse poderia ser a chave para o questionamento de como a vida surgiu. E assim surgiu a hipótese do “mundo de RNA”.

Esta hipótese foi proposta por Walter Gilbert em 1986 [6]. Ele sugeriu que moléculas de RNA poderiam realizar atividades catalíticas necessárias para se auto montar a partir de uma sopa de nucleotídeos. Ao cortar e colar diferentes pedaços, as moléculas de RNA poderiam criar sequências cada vez mais úteis, e isso tudo passaria por aperfeiçoamento até chegar a versão de vida que temos hoje. A ideia ganhou um suporte muito grande em 2000, quando outro cientista, Thomas Steitz, ao detalhar a imagem dos ribossomos, descobriu que o RNA era o centro do funcionamento desta organela [7]. Ribossomos são tão antigos e fundamentais para a formação da vida, que fez com que a hipótese do mundo de RNA parecesse possível. Porém, os problemas dessa hipótese são que, primeiro, até os dias atuais ainda não foi encontrado um RNA que pudesse se auto-replicar inteiramente. Segundo, será que a estrutura química do RNA poderia ser formada nas condições da Terra antigamente?

Assim, outro time de cientistas propôs uma nova teoria de que a vida tenha surgido como um mecanismo para aproveitar energia, ou melhor, ter um metabolismo. Afinal, ao observar o mundo natural a ordem dos acontecimentos é nascer, crescer e se reproduzir, assim, para alguns pesquisadores, a energia para crescer seria primordial e ainda mais importante do que a reprodução. Seguindo essa lógica, os cientistas buscaram por locais capazes de prover energia para a existência de uma célula e com composição química similar à que observamos nos organismos atualmente e, no fundo do Oceano Pacífico, pesquisadores liderados por Jack Corliss descobriram as fontes hidrotermais. A ideia é que essas fontes hidrotermais pudessem criar complexas misturas de produtos químicos e que cada abertura funcionasse como uma espécie de bomba de sopa primordial [8].

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Fontes hidrotermais e a formação de células (Fonte: Richard Bizley/Science Photo Library).

O fluxo de água, aliado ao calor e a pressão, faria com que compostos orgânicos simples, como os elementos presentes no ambiente, se tornassem mais complexos, como aminoácidos, nucleotídeos e açúcares, que posteriormente se ligariam em cadeias – formando carboidratos, proteínas e o próprio DNA. Então, a medida que a água perdesse calor, esses compostos teriam se juntado e formado as primeiras células simples. Aliando essa hipótese à outras descobertas de fontes hidrotermais alcalinas no oceano e, unindo com toda a tecnologia que temos atualmente, pesquisadores publicaram em 2016 [9] a ideia de um ancestral comum universal entre todos os organismos da Terra, denominado LUCA (Last Universal Common Ancestor), em português, último ancestral comum universal.

Para investigar essa possibilidade, os pesquisadores analisaram 1.930 microorganismos modernos e identificaram 355 genes comuns. A ideia é que provavelmente esses 355 genes foram transmitidos, de geração em geração, remetendo a um único antepassado comum. Porém, o problema para esta hipótese é reproduzir em laboratório essa possibilidade. E o mais legal, um grupo está atualmente trabalhando na construção de um reator para reproduzir as condições de um ambiente prebiótico onde a vida poderia ter surgido [10] e, com isso, talvez teremos novidades nos próximos anos.

Além desses trabalhos, um terceiro grupo de pesquisadores apostou na hipótese de um “mundo de lipídeos” [11]. A ideia é que para existir uma célula, precisa existir proteção, precisa existir uma membrana. Assim, unindo essa ideia com o “Mundo de RNA”, os pesquisadores criaram em laboratório as protocélulas [12]. Essas protocélulas podem manter seus genes internamente enquanto absorvem moléculas úteis de fora, e ainda crescer, se dividir, e até mesmo competirem entre si. O RNA pode se replicar dentro dessas estruturas e elas conseguem “sobreviver” a temperaturas de até 100 °C.

Por fim, os cientistas pararam de pensar em teorias separadas e juntaram todas as ideias em uma única. Ao constatar a constituição química das células atuais, como a presença de potássio e fosfato, e além disso metais, que são necessários para o funcionamento de várias enzimas, os pesquisadores encontraram um cenário ideal para o surgimento da vida. A ideia com todas essas pistas é que a vida surgiu em lagoas de superfície em uma área geotérmica-ativa, com abundância de radiação ultravioleta do Sol. As protocélulas nesse ambiente poderiam ficar em zonas mais frias na maior parte do tempo, mas seguindo o fluxo da água teriam também ciclos de aquecimento que poderia auxiliar no processo de replicação do RNA. Além disso, haveriam correntes, conduzidas por essa diferença de temperatura no lago que poderiam ajudar a dividir as protocélulas [13].

Agora, será muito trabalho em laboratório para tentar provar esta nova hipótese. Mas finalmente estamos mais perto do que nunca de descobrir a verdade sobre a nossa origem. Em 1859 Darwin revolucionou o mundo com a verdade sobre a origem das espécies, apresentando dados tão claros que podem ser comprovados diariamente. Você consegue imaginar como o mundo irá reagir quando a verdadeira história da origem da vida for contada?

Agora que entendemos todo esse cenário de descobertas, fica difícil acreditar que toda essa complexidade de relações possa ser explicada por um evento que durou apenas sete dias, como é apresentado por muitas perspectivas teológicas. Por isso, apesar da importância cultural que as religiões têm para o desenvolvimento da sociedade e da própria humanidade, precisamos ser bem cautelosos quando se trata de utilizar suas perspectivas, principalmente para a criação de políticas públicas envolvendo ciência, educação e saúde.

Podemos avançar muito mais em nosso conhecimento e chegar a conclusões inimagináveis atualmente, mas as descobertas científicas necessitam de uma sociedade que apoie a ciência e entenda as contradições existentes no que hoje é tido como senso comum da própria sociedade.

Notas:

  1. Deixarei fora dessa discussão todas as conceituações teóricas sobre os vírus serem ou não organismos vivos.

Bibliografia utilizada:

  1. Allwood, A.C., Walter, M.R., Burch, I.W., Kamber, B.S. 3.43 billion-year-old stromatolite reef from the Pilbara Craton of Western Australia: Ecosystem-scale insights to early life on Earth. Precambrian Research. 158, 3-4, p. 198-227, 2007.
  2. Nutman, A.P., Bennet, V.C., Friend, C.R., Van Kranendonk, M.J., Chivas, A.R. Rapid emergence of life shown by discovery of 3,700-million-year-old microbial structures. Nature. 537, p. 535-539, 2016.
  3. Oparin A.I. The origin of life. 29 p.
  4. Miller S.L. A Production of Amino Acids Under Possible Primitive Earth Conditions.  Science. 1953. 
  5. Watson J.D., Crick, F.H.C. Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid. Nature. 171, p. 737-738, 1953.  
  6. GIlbert. W. Origin of life: The RNA world. Nature. 319, 618, 1986.  
  7. Cech, T.R. The Ribosome is a Ribozyme. Science. 289, 5481, p. 878-879, 2000.
  8. Corliss, J.B., Dymond, J., Gordon, L.I., Edmond, J.M., Herzen, R.P., Ballard, R.D., Green, K., Williams, D., Bainbridge, A., Crane, K., Andel, T.H. Submarine Thermal Sprirngs on the Galápagos Rift. Science. 203, 4385, p. 1073-1083, 1979.
  9. Weiss, M.C., Sousa, F.L., Mrnjavac, N., Neukirchn, S., Roettger, M., Nelson-Sathi, S., Martin, W. The physiology and habitat of the last universal common ancestor. Nature Microbiology. 16116, 2016.
  10. Herschy, B., Whicher, A.,  Camprubi, E., Watson, C., Dartnell, L., Ward, J., Evans, J.R.G., Lane, N. An Origin-of-Life Reactor to Simulate Alkaline Hydrothermal Vents. Journal of Molecular Evolution. 79, 5-6, p. 213–227, 2014.
  11. Segré, D., Ben-Eli, D., Deamer, D.W., Lancet, D. The lipid World. Origins of life and evolution of the biosphere. 31, 1–2, p. 119–145, 2001.
  12. Hanczyc, M.M., Fujikawa, S.M., Szostak., J.W. Experimental Models of Primitive Cellular Compartments: Encapsulation, Growth, and Division. Science. 302, 5645, p. 618-622, 2003.
  13. BBC earth (Michael Marshall). The secret of how life on earth began. 2016.

 

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Clitóris e orgasmo feminino. Como a ciência aborda esses assuntos?

É impressionante como a ciência atual está direcionada para áreas relacionadas com algum retorno financeiro e não com o bem estar das pessoas. Um exemplo claro disso é a negligência científica sobre assuntos tão importantes como o órgão sexual feminino e o orgasmo feminino. A explicação sobre a polêmica do assunto e do raro financiamento para pesquisas nessas áreas está associada claramente ao fato da nossa sociedade ser patriarcal e machista, além de vários outros aspectos sociais envolvidos. Porém, aqui no blog Cientistas Feministas esses assuntos devem constar, e hoje nós vamos falar das últimas publicações sobre esses tabus sociais e científicos. Vamos lá!

O interesse pela função sexual feminina documentado se inicia com os trabalhos de Hippocrates (a.c. 400). No entanto, sobre o clitóris, especificamente, foi apenas no século XVI que os anatomistas Realdo Colombo e Gabriele Falloppio reivindicam a sua descoberta, sendo que nestes trabalhos pela primeira vez foi atribuída a função sexual a esta estrutura [1].

Seguindo a linha do tempo, os primeiros relatos mais precisos da anatomia do clitóris aconteceram só no século XIX e, durante o século XX, essa terminologia praticamente desapareceu dos textos médicos por 30 anos e só voltou a reaparecer com o surgimento do movimento feminista da época. A explicação para o desaparecimento de investigações sobre o tema foi relacionada ao surgimento dos trabalhos de Freud, nos quais ele afirmava que o orgasmo vaginal era superior ao orgasmo clitoriano. Freud dizia que a capacidade de atingir orgasmos vaginais era fundamental para o desenvolvimento psicológico de uma mulher. No entanto, a ideia foi refutada por trabalhos de Kinsey e Masters e Johnson [2]. Sim, os mesmos pesquisadores da série de TV Masters of Sex (Mestres do Sexo) que voltaremos a falar mais adiante.

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Master e Johnson. Fonte: Leonard McCombe—The LIFE Picture Collection/Getty Images.

Muitos artigos na internet descrevem o clitóris como um botãozinho de prazer, porém a verdade é que esta estrutura é muito maior do que se imagina, sendo esse botãozinho apenas a parte externa do órgão. E, ao contrário do que muitos textos apontam, a idade, a altura, o peso e uso de contraceptivos não afetam o tamanho do clitóris. A real representação do clitóris está sendo desvendada agora, com as principais pesquisas realizadas nos anos de 2005 [3], 2015 [2], 2017 [4], utilizando imagens de ressonância magnética, sendo os trabalhos pioneiros nesta área desenvolvidos pelo grupo de pesquisadores australianos liderados pela professora Helen O’Connell [3].

Clitoris anatomia

Histologicamente, o corpo do clitóris é semelhante ao pênis. Porém, esse órgão possui mais de oito mil terminações nervosas, o dobro do encontrado na glande (cabeça) do pênis. Os nervos estão na superfície externa do corpo, e os corpos do clitóris também são cercados por ramos nervosos, sendo que a maior concentração de pequenos nervos está dentro da glande do clitóris [2].

Clitoris desenho fonte

Masters e Johnson investigaram o orgasmo humano na década de 1960 e criaram o termo “ciclo de resposta sexual humana”. Em seus trabalhos eles descreveram as fases sexuais como excitação, platô (plateau), orgasmo e resolução. Atualmente essas fases foram modificadas e podem ser identificadas como desejo, excitação, orgasmo e resolução. Em seus trabalhos os pesquisadores estudaram o comportamento de 694 voluntários (312 homens e 382 mulheres), após o acompanhamento de 10 mil relações e outros estímulos sexuais em condições de laboratório durante 11 anos de estudo. Masters e Johnson concluíram que as pessoas possuem uma constante tensão sexual humana, que só precisa ser estimulada para que o orgasmo seja alcançado. Porém, apesar de todas essas descrições científicas, é bem fácil de perceber que nem todas as mulheres passam por esse exato “ciclo de resposta” em suas relações sexuais e nem por esta exata sequência [2].

fases orgasmo 2O orgasmo é regulado por nervos somáticos e autônomos, ou seja, uma mistura de estímulos voluntários e involuntários [3]. E diferente dos homens, em que a testosterona desempenha o principal papel na resposta sexual, nas mulheres o estrogênio é o hormônio primário que rege a resposta fisiológica feminina. Os estudos apontam que o desenvolvimento da capacidade da mulher de obter orgasmos é gradual ao longo da vida, e a maioria das mulheres só consegue atingir o orgasmo após os vinte anos [2]. Além disso, as pesquisas relatam que mulheres que experienciam orgasmos tem uma saúde mental superior a mulheres que não passam por essa experiência [2]. E, percebendo todas essas imagens do clitóris é possível perceber algo em que a maioria dos cientistas atuais são muito enfáticos: o papel central do clitóris no orgasmo feminino é indiscutível.

Em relação ao orgasmo vaginal a discussão ainda é ativa, o canal vaginal não possui a mesma quantidade de inervação do clitóris, pelo motivo de sofrer uma grande expansão no parto. Além disso, 30 a 40% das mulheres afirmam nunca terem sentido na vida orgasmo vaginal sem uma estimulação direta ou indireta do clitóris. Adicionalmente, uma parcela de trabalhos relatam uma relação entre o prazer da penetração vaginal com uma estimulação do clitóris internamente a vagina. Assim, todos os estímulos se iniciariam no clitóris e posteriormente iriam para o cérebro através de um nervo chamado nervo pudendo.

pudental nerve

Entretanto, estudos com mulheres com diferentes graus de lesão da medula espinhal, com ferimentos que bloqueiam as vias nervosas que conectam a medula espinhal dos genitais ao cérebro, demonstraram que essas mulheres podiam sentir o momento em que a vagina e o colo do útero estavam sendo tocados. Algumas até experimentaram orgasmo, apesar do nervo pudendo ter sido rompido. Isso mesmo, você não leu errado. Mulheres com lesão da medula espinhal que não conseguiam sentir o clitóris, tiveram orgasmos por estimulação vaginal. Essa pesquisa constitui nos dias de hoje a melhor prova de que existem orgasmos vaginais. A explicação para isso pode ser a existência do nervo vago, que está situado fora da medula espinhal e carrega sensações da vagina para o cérebro [5].

Sobre ponto G (ponto Gräfenberg) e ejaculação feminina, a maioria dos estudos possuem uma baixa amostragem de casos e ainda hoje os resultados são inconclusivos. Assim, a existência de uma região específica mais sensível no interior da vagina que ao ser tocada provocaria orgasmos não foi comprovada pela ciência. Em um trabalho publicado na renomada revista Nature, pesquisadores italianos liderados pelo professor Emmanuele Jannini afirmam que seria mais adequado nomear a região anterior da vagina, junto com o clitóris e a uretra, de “clitourethrovaginal complexo ou CUV complexo”. Os pesquisadores ainda afirmam que a região distal da vagina está tão relacionada com o clitóris que é difícil afirmar que são duas estruturas separadas [6]. Já sobre a emissão de algum fluído feminino durante a atividade sexual, os cientistas afirmam que isto pode ser muito mais relacionado com uma pequena incontinência urinária (pelo relaxamento da uretra) no momento do sexo, a emissão de secreção das glândulas de Skene em resposta à excitação sexual ou orgasmo, ou a uma mistura de urina com secreções de Skene [2].

Sobre as diferenças da percepção do orgasmo no cérebro, os trabalhos do pesquisador Barry Komisaruk da Universidade Rutgers nos Estados Unidos trazem algumas explicações. A verdade é que o orgasmo consiste na ativação de muitas áreas do cérebro, fazendo com que a origem e as causas de toda essa ativação seja difícil de definir. Em relação às diferenças entre o orgasmo feminino e masculino os pesquisadores afirmam que as similaridades entre as sensações é muito maior do que as diferenças. Porém, após ocorrer um orgasmo, as coisas mudam de configuração: o cérebro masculino não responde imediatamente à estimulação sensorial adicional dos órgãos genitais, já o cérebro das mulheres continua a ser ativado. Essa pode ser a explicação do fato de algumas mulheres terem experiências com orgasmos múltiplos, e os homens não [7].

Na biologia evolutiva, o papel do orgasmo feminino ainda é motivo de muitos atritos. No último trabalho publicado (fev. 2017) como resposta ao Dr. Komisaruk, os biólogos Gunter Wagner e Mihaela Pavlicev discutem a origem e a função no orgasmo feminino. O que se tem certeza até agora é que o orgasmo feminino não é necessário para a reprodução e não traz para a espécie humana maiores taxas reprodutivas. Sabe-se que o orgasmo feminino é uma característica de um sistema fisiológico muito antigo, que foi responsável pela ovulação induzida por copulação. Um fato curioso é que em espécies que possuem esse tipo específico de ovulação todo o clitóris, incluindo a parte externa (glande), está localizada totalmente no interior do canal vaginal, provavelmente com estimulação direta e indireta através da parede vaginal durante a cópula. Assim, entender os motivos da transformação da genitália feminina para a parte externa em humanos, em conjunto com a fisiologia do ovário é um fato biológico que ainda precisa de explicação [8].

Infelizmente, ainda em 2017 a área de pesquisa sobre anatomia e orgasmo feminino é dominada por homens, mas nos últimos anos o número de publicações feitas por mulheres têm aumentado significativamente. Por fim, como disse o pesquisador italiano Emmanuele Jannini “Somos capazes de ir à lua, mas não entendemos o suficiente sobre nossos próprios corpos” [9]. Assim, em meio a tantas certezas e incertezas, a mensagem da maioria dos cientistas para cada uma das mulheres é: busque conhecer e entender quem você é hoje, porque provavelmente amanhã você será diferente, e não pense no corpo feminino como uma máquina que sempre irá responder da mesma forma.

Para saber mais, uma animação maravilhosa sobre o assunto é chamada “Le Clitoris”. E um vídeo inspirador do website TED sobre a relação entre o prazer feminino e a sociedade nos dias atuais é da jornalista Peggy Orenstein. Vale a pena conferir!

Referências

[1] Stringer MD, Becker I. Colombo and the clitoris. Eur. J. Obstet. Gynecol. Reprod. Biol., v. 151, p.130–133, 2010.

[2] Mazloomdoost, D., Pauls, R.N. A Comprehensive Review of the Clitoris and Its Role in Female Sexual Function. Sex. Med. Rev., v. 3, p. 245–263, 2015.

[3] O’Connell, H.E., Sanjeevan, K.V., Hutson, J.M. Anatomy of the Clitoris.  Journal of Urology, v.  174, 1189–1195, 2005.

[4] Agarwal, M.D., Resnick, E.L., Mhuircheartaigh, J.N., Mortele, K.J. MR Imaging of the Female Perineum. Clitoris, Labia, and Introitus. Magn Reson Imaging Clin N Am (in press). 2017.

[5] Komisaruk, B. R., Gerdes, C. A. & Whipple, B. ‘Complete’ spinal cord injury does not block perceptual responses to genital selfstimulation in women. Arch. Neurol. 54,  1513–1520. 1997.

[6] Jannini, E.A.,  Buisson, O., Rubio-Casillas, A. Beyond the G‑spot: clitourethrovaginal complex anatomy in female orgasm. Nature Rev. Urol. (opinion). 2014.

[7] Komisaruk, B. R., Beyer-Flores, C. & Whipple, B. The science of orgasm (Johns Hopkins University Press, 2006).

[8] Pavlicev M, Wagner G. Origin, Function, and Effects of Female Orgasm: All Three are Different. J. Exp. Zool. (Mol. Dev. Evol.) 00B:1–5. 2017.

[9] BBC (Linda Geddes). The mystery of female orgasm. Disponível em: <http://www.bbc.com/future/story/20150625-the-mystery-of-the-female-orgasm>, 2015.