0

Mulheres, socialismo e os primeiros anos pós-Revolução Russa (I)

familiaperfeita2

Colagem: @sarita

Em 2014, foi lançado no Brasil o livro Mulher, estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas (1917-1936), da historiadora Wendy Goldman. O livro pretende analisar a situação jurídica e social das mulheres nos primeiros anos após a Revolução Russa. Neste post, trataremos dos três primeiros capítulos do livro. No post de 17 de novembro, abordaremos o restante do livro.

No primeiro capítulo, Goldman trata das teorias existentes a respeito da emancipação das mulheres antes da Revolução Russa.

As primeiras reivindicações de mulheres, enquanto grupo, surgiram na Revolução Francesa. Goldman, porém, ressalta que, nesse momento, as manifestações delas estavam mais associadas a interesses de classe do que de gênero. Elas se preocupavam com direitos de cidadania, mas não questionavam o papel doméstico das mulheres. Além disso, suas conquistas durante a Revolução – simplificação do divórcio, reconhecimento de direitos a filhos ilegítimos e modificação do direito de propriedade para as mulheres – foram ignorados no Código Civil de Napoleão (1804). Já entre os socialistas utópicos, existia ideias de igualdade e independência das mulheres, mas elas não foram sistematicamente aplicadas em suas experiências comunitárias.

Goldman analisa, também, a resistência dos trabalhadores homens à entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho. As mulheres foram hostilizadas por seus colegas homens e por membros dos sindicatos, que as acusavam de roubar seus postos de trabalho, uma vez que recebiam menos pelo mesmo trabalho executado.

Os marxistas, por sua vez, passaram a identificar a família como uma construção social, não natural. A partir dessa concepção, foi possível criticar, também, a divisão sexual do trabalho. Para os bolcheviques, especificamente, a libertação das mulheres só ocorreria se elas não fossem mais as principais responsáveis pelo trabalho doméstico. No socialismo, o trabalho doméstico seria transferido para a esfera pública: esse trabalho seria feito em creches, lavanderias e restaurantes comunitários. Desoneradas do trabalho doméstico, as mulheres poderiam participar da esfera pública em igualdade com os homens.

Alexandra_Kollontai zetkin

Alexandra Kollontai (1872-1952), dirigente bolchevique e Clara Zetkin (1857-1933), feminista marxista

Além disso, os bolcheviques consideravam o casamento burguês viciado, uma vez que não se dava por amor, mas por questões patrimoniais. A emancipação feminina contribuiria, portanto, para o fim da família burguesa. O Estado não mais interferiria nos relacionamentos, que se constituiriam por “uniões livres”, entre pessoas iguais. Os filhos dessas uniões seriam, também, responsabilidade do Estado e não haveria mais que se falar em filhos “ilegítimos”. Assim, Goldman argumenta que a visão bolchevique da emancipação das mulheres era fundada em quatro preceitos: a) união livre; b) emancipação das mulheres através do trabalho assalariado; c) socialização do trabalho doméstico; e d) definhamento da família.

Ao tomarem o poder, os bolcheviques procuraram implementar modificações na instituição da família, enquanto ela não era extinta pelo socialismo. Para esse período de “transição”, aprovaram, em 1918, o Código do Casamento, da Família e da Tutela. As principais questões reguladas pelo Código foram: a) substituição do casamento religioso pelo civil; b) estabelecimento do divórcio a pedido de qualquer um dos cônjuges; c) estabeleceu igualdade entre homens e mulheres; d) ampliava a pensão alimentícia para o homem e para a mulher; e) aboliu o conceito de ilegitimidade dos filhos; f) proibiu a adoção; e g) determinou que o casamento não dava origem à propriedade compartilhada entre os cônjuges. De acordo com Goldman, o Código foi a legislação de família mais progressista do mundo, naquele momento.

No segundo capítulo, a autora aborda a questão das crianças na Rússia pós-revolucionária. Para os teóricos bolcheviques, as crianças deveriam ser responsabilidade do Estado, não das famílias. Ademais, os lares de crianças seriam autogestionados pelas próprias crianças, que adquiririam autonomia e contribuiriam para a economia comunitária. Essas teorias, no entanto, foram de difícil implementação, principalmente, em razão do contexto econômico do pós-guerra. A sociedade tinha acabado de sair de uma guerra civil e estava sofrendo com todo o tipo de instabilidade advindo de confrontos armados. Além disso, em 1921, a Rússia sofreu uma seca severa e a fome afetou 25 milhões de pessoas. Nesse contexto, muitas crianças foram viver nas ruas, mendigando e furtando: umas tinham perdido os pais na guerra; outras tinham perdido a família em razão da escassez de alimentos; outras, ainda, fugiram de lares empobrecidos. Os lares para crianças não conseguiam receber todos os que precisavam e elas foram se acumulando pelas ruas das cidades e em estações de trem.

Em 1921, procurando sair da crise econômica e social que assolava o país, o governo adotou a chamada Nova Política Econômica (NEP), que permitiu o restabelecimento da iniciativa privada. Os efeitos da NEP sobre as crianças e as mulheres, no entanto, foram duramente sentidos: o fechamento de empresas estatais provocou o desemprego, principalmente, de mulheres e a redução do gasto estatal levou ao fechamento de instituições de assistência às crianças. Orfanatos e creches tiveram seus orçamentos drasticamente reduzidos, o que fez aumentar o número de crianças em situação de rua.

Mulheres e crianças formavam elos de um mesmo ciclo vicioso. Para diminuir seus gastos com as crianças, o Estado procurou transferir para as famílias a sua criação: o trabalho doméstico da mulher desempenhava uma função essencial a um “custo mínimo”. No entanto, o aumento de suas responsabilidades domésticas impedia as mulheres de procurarem emprego ou de trabalharem por período integral fora de casa.

No terceiro capítulo, Goldman aborda a situação da mulher na família soviética. Como já mencionado, o Código tinha permitido o divórcio. No entanto, o exercício da união livre e do divórcio era também uma questão de classe: o alto índice de desemprego, os baixos salários e a ausência de creches impediam que as mulheres exercitassem esses direitos.

A transição do Comunismo de Guerra para a política da NEP precarizou as condições de trabalho das mulheres. Elas foram as demitidas em maior número. Além disso, persistiam as discriminações e o machismo nos locais de trabalho. Homens e mulheres ganhavam salários diferentes pelo mesmo trabalho. Gerentes de empresas não contratavam mulheres pois as consideravam um tipo caro de trabalhador, em razão da licença maternidade e de outras proteções que a legislação trabalhista dispensava a elas.

Em 1924, os delegados do Congresso do Partido votaram pelo fim da demissão de mulheres e pelo aumento de sua qualificação. Porém, essas orientações não tiveram muitos efeitos práticos. Para tentar diminuir a demissão de mulheres, algumas das normas trabalhistas protetivas foram precarizadas. Assim, durante a NEP, o número de prostitutas aumentou em relação ao período anterior. Outra consequência da NEP foi o fechamento dos refeitórios comunitários, o que contribuiu para sobrecarregar, ainda mais, as mulheres com os trabalhos domésticos. Sob essas condições econômicas difíceis – e agravadas pela diminuição das creches – ficava difícil para as mulheres efetivarem seu direito ao divórcio. Quando se divorciavam, as mulheres recorriam ao judiciário para pedir pensões alimentícias para seus filhos. Os juízes eram bastante favoráveis às mulheres nesses casos. No entanto, muitas vezes, era difícil cobrar do pai da criança o valor devido.

[continua no post do dia 17 de novembro de 2015]

Referência bibliográfica: GOLDMAN, Wendy. Mulher, estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas (1917-1936). São Paulo: Boitempo/Iskra, 2014.

Anúncios
0

Divisão sexual do trabalho e carreira acadêmica (I): a graduação

Nossa sociedade está estruturada na chamada divisão sexual do trabalho. No post de hoje e no post do dia 13 de novembro, abordaremos como ela impacta a vida acadêmica.

Na estrutura social sustentada pela divisão sexual do trabalho, às mulheres cabe realizar o trabalho dito “reprodutivo e de cuidados”, restrito à esfera privada; e aos homens, o trabalho dito “produtivo”, realizado na esfera pública. Existe uma hierarquia entre o trabalho reprodutivo e o produtivo. O último é mais valorizado, enquanto o primeiro não é visto como trabalho, mas como uma atividade que a mulher realiza por sua própria natureza, sendo executado por amor e afeto.

Já há algumas décadas, as mulheres têm ocupado postos de trabalho na esfera dita “produtiva”. No entanto, por serem responsáveis pela maior parte do trabalho não remunerado exercido no âmbito doméstico,[1] muitas vezes, as mulheres são vítimas da “dupla jornada de trabalho”, não lhes sobrando o tempo livre necessário para realizar outras atividades.

A divisão sexual do trabalho, que estrutura nossa sociedade, tem reflexos, também, na vida acadêmica.

Por serem as principais responsáveis pelo trabalho “reprodutivo”, geralmente desde muito novas, as mulheres têm menos tempo para estudar e, portanto, mais dificuldade para entrar na universidade e, uma vez aprovadas, para seguir no curso.

Também porque são, frequentemente, as únicas responsáveis pelos filhos, são diretamente afetadas quando não há creches disponíveis nas universidades ou quando não há dormitórios adequados para crianças nas moradias universitárias.

A divisão sexual do trabalho também se reflete na divisão sexual dos cursos. Por exemplo, a Escola de Enfermagem é a unidade de ensino e pesquisa da USP que apresenta o maior número relativo de mulheres entre os alunos de graduação: em 2013, eram 369 mulheres e 43 homens. Já a Escola Politécnica e o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação-São Carlos são as unidades que apresentam o maior número relativo de homens entre os graduandos: em 2013, a Poli tinha 908 alunas e 3944 alunos e o ICMC contava com 200 graduandas e 878 graduandos.[2] Ou seja, a unidade que possui o maior número relativo de mulheres é a responsável por cursos tradicionalmente ligados a ideias de cuidado e afeto, geralmente associadas a mulheres. Já as unidades que têm o maior número relativo de homens abrigam cursos tido como racionais, científicos, ideais comumente ligados aos homens.

Essa divisão sexual dos cursos acaba reproduzindo as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho, pois os cursos “masculinos”, geralmente, estão ligados a profissões de maior prestígio social e que costumam proporcionar remuneração mais alta.

E na pós-graduação e na carreira acadêmica? Qual é o impacto da divisão sexual do trabalho? Aguarde nosso post do dia 13 de novembro, no qual discutiremos essas questões. 😉

[1] De acordo com pesquisa realizada pelo IPEA, as mulheres gastam um tempo médio 150% maior do que o gasto pelos homens em atividades domésticas. http://www.ipea.gov.br/retrato/infograficos_uso_tempo.html.

[2] Ver o Anuário Estatístico para o ano de 2013: https://uspdigital.usp.br/anuario/AnuarioControle#

0

A escravidão ilegal no Brasil escravista: novos problemas de pesquisa

A história da escravidão é uma das áreas mais consolidadas nas ciências humanas brasileiras. A escravidão é um sistema social, econômico e jurídico que já foi estudado sob as mais diversas perspectivas.

Durante muito tempo, os historiadores pensaram a escravidão, no Brasil, em relação com a liberdade. Quais eram os meios que um escravo tinha para conseguir a alforria? Como vivam os libertos? Quais categorias de escravos tinham mais chance de conseguirem se libertar? Como os escravos brasileiros juntavam dinheiro para comprar sua liberdade? Como mecanismos como, por exemplo, a luta judicial pela alforria, minaram o sistema escravista? Qual foi o papel da difusão de ideias abolicionistas? Quais as relações entre a abolição e a conjuntura econômica e política da década de 1880? Essas são apenas algumas das muitas questões sobre as quais os historiadores da escravidão estão se debruçando a muitos anos.

Mais recentemente, no entanto, a atenção de alguns historiadores se voltou para práticas de escravização e reescravizão ilegais de pessoas, durante o período em que a escravidão era um instituto reconhecido pelo Estado brasileiro. As práticas de escravização e reescravização ilegais eram as mais diversas.

Você talvez já tenha assistido o filme 12 anos de escravidão, que conta a história de um homem livre sequestrado e escravizado nos Estados Unidos.

Esse tipo de prática não acontecia só nos Estados Unidos. No Brasil também tivemos milhares de pessoas ilegalmente reduzidas à escravidão.

A primeira prática que nos vem à mente quando falamos de escravização ilegal é o contrabando de africanos após a proibição do tráfico de escravos, em 1831. Em novembro de 1831, foi aprovada uma lei que proibia a inserção de novos escravos no território brasileiro. No entanto, milhares de africanos continuaram chegando nos nossos portos até a década de 1850. Estima-se que, pelo menos, 700.000 africanos foram ilegalmente escravizados, no Brasil, nesse período. Uma consulta à base de dados Slave Voyages pode dar um quadro desse comércio ilegal no Brasil e em outros países escravocratas.

O tráfico transatlântico, no entanto, não era a única prática de escravização ilegal. Nos últimos anos, historiadores estão pesquisando práticas de sequestro e escravização nas fronteiras do Brasil com países da América Latina que já tinham abolido a escravidão. Um exemplo, é o caso da fronteira Brasil-Uruguai. Ao longo do século XIX, era recorrente a prática de escravizadores brasileiros cruzarem a fronteira no sul do Brasil, sequestrarem africanos ou seus descendentes livres no Uruguai e leva-los para o Brasil como escravos.

Também o sequestro de crianças livres, africanas ou descendentes de africanas, para serem vendidas no tráfico inter-provincial brasileiro era uma realidade.

Os libertos brasileiros também viviam em constante perigo de serem novamente escravizados. No século XIX, a polícia poderia apreender uma pessoa por “suspeita de ser escravo fugido”. Essa pessoa era levada para a cadeia e esperava-se que fosse reclamada por seu senhor. Se não o fosse, poderia ser considerada como escravo abandonado e leiloada. Ou seja, um liberto – que não tinha senhor que o reclamasse – poderia ser preso pela polícia e, posteriormente, ser vendido em leilão, tornando-se novamente (e ilegalmente) escravo.

Outra prática relativamente frequente era a falsificação de títulos de propriedade sobre pessoas livres. No século XIX, o assento de batismo (certidão de batismo) declarava se determinada pessoa era livre ou escrava e, na prática, funcionava como prova do estatuto jurídico dessa pessoa. Assim, também era corriqueira a prática de batizar crianças legalmente livres como escravas, mantendo-as nessas condições por muitos anos ou por toda sua vida.

Os arquivos brasileiros estão apinhados de documentos que evidenciam essas e outras práticas de escravização e reescravização ilegais. E é esta documentação que, nos últimos anos, está despertando a atenção dos historiadores, que têm o objetivo de esclarecer uma ilegalidade latente nas práticas de escravização e a precariedade estrutural da liberdade no Brasil escravista.

Bibliografia

ALENCASTRO, Luiz Felipe. “O pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira”. Novos Estudos CEBRAP, n. 87, 2010, pp. 5-11.

CAÉ, Rachel; GRINBERG, Keila. “Escravidão, fronteira e relações diplomáticas Brasil-Uruguai”. Africana Studia, n. 14, 2010, pp. 275-285.

CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

FREITAS, Judy. “Slavery and Social Life”. Journal of Latin American Studies, v. 26, n. 3, pp. 597-619, 1994.

GRINBERG, Keila. “Reescravização, direitos e justiças no Brasil do século XIX”. LARA, S.; MENDONÇA, J. (orgs.). Direitos e justiças no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 2006. pp. 101-128.

             . As fronteiras da escravidão e da liberdade no sul da América. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

MAMIGONIAN, Beatriz. “O Estado Nacional e a instabilidade da propriedade escrava”. Almanack, n. 2, 2011, pp. 20-37.

1

Eventos acadêmicos e representatividade das cientistas

A universidade, por ser um local de produção de conhecimento, é considerada por muitos como um ambiente privilegiado, onde supostamente imperaria um pensamento crítico. No entanto, a universidade não é uma instituição descolada do contexto social no qual está inserida. Também os pesquisadores que a integram são pessoas que vivem em uma sociedade onde não há igualdade de gênero e, muitas vezes, acabam reproduzindo, no ambiente acadêmico, atitudes e pensamentos sexistas.

A reprodução de comportamentos sexistas ocorre frequentemente em eventos acadêmicos, como congressos, seminários, palestras, etc. Não é incomum depararmo-nos com mesas compostas exclusivamente por palestrantes homens, mesmo existindo mulheres especialistas nos temas que estão sendo debatidos. Veja-se, por exemplo, o tumblr Congrats, you have an all male panel!

Esse quadro recorrente possui efeitos perversos na trajetória profissional das mulheres cientistas.

Em primeiro lugar, a falta de representatividade das mulheres em eventos acadêmicos pode servir para desestimular que jovens alunas sigam a carreira acadêmica. Há muito tempo os movimentos feministas vêm debatendo a importância de meninas e jovens se identificarem com modelos de mulheres fortes e independentes em filmes, livros, programas de televisão, etc. O mesmo acontece no campo da ciência. Para que as jovens sejam incentivadas a seguir a carreira acadêmica, é muito importante que possam reconhecer-se como possíveis profissionais da área. Ora, se essas jovens vão a um evento científico onde só há homens falando, como poderão se sentir representadas pelo campo e, portanto, incentivadas a seguir na carreira?

Além disso, a presença de uma maioria masculina em determinados eventos acadêmicos expressa uma característica mais profunda de nossa sociedade: a divisão entre público e privado. A sociedade patriarcal está estruturada em uma separação entre o público e o privado que relega as mulheres, predominantemente, à esfera privada, limitando seu espaço de fala no ambiente público. Essa estrutura social acaba sendo reproduzida no ambiente universitário: as mulheres ocupam postos de pesquisa, mas, muitas vezes, são preteridas para debater publicamente. Ou seja, também no meio acadêmico e universitário é mais difícil para uma mulher do que para um homem aceder a um lugar público de fala, de debate.

Diante desse quadro, algumas pessoas têm se mobilizado para garantir a representatividade das mulheres cientistas em eventos acadêmicos. Quando organizamos um congresso, um seminário ou uma palestra, é muito importante termos em mente a importância de montar mesas compostas também por mulheres. E isso não somente em eventos que debatem gênero, história das mulheres, saúde das mulheres ou qualquer outro assunto diretamente relacionado às mulheres. É fundamental termos mulheres debatendo todos os temas, não apenas aqueles que discutem especificamente temas “de mulheres”.

Além das iniciativas individuais, também é necessário começar esse debate no ambiente universitário, inclusive nos espaços mais institucionalizados, como conselhos, reuniões departamentais, etc. Para que esse quadro de desigualdade de gênero se reverta, as iniciativas individuais não bastam. São necessárias políticas institucionais, como, por exemplo, exigência de mulheres em mesas para concessão de financiamento para eventos.

A igualdade de gênero não é algo inerente à supostamente “ilustrada” academia. É um ideal pelo qual as mulheres cientistas devem lutar cotidianamente. Nessa luta, a batalha pela representatividade e pela ocupação de lugares de fala é fundamental. Somente com mulheres ocupando espaços públicos de debate poderemos alcançar um ambiente verdadeiro igualitário nas universidades.

0

A escravidão acabou?

size_810_16_9_oficina-imigrantes-ilegais

Ilustração: @sarita

Uma metáfora frequentemente associada aos círculos acadêmicos é a torre de marfim, já que são vários os cientistas que preferem se isolar dos problemas sociais e procuram desenvolver suas pesquisas de maneira apartada da realidade em que estão inseridas. Essa postura, porém, deve ser combatida e um dos temas em que o diálogo entre acadêmicos e outros grupos sociais é premente é a questão do trabalho escravo contemporâneo.

O diálogo necessário entre cientistas, agentes públicos e outros grupos sociais já começa na própria definição do que é escravidão contemporânea.

Atualmente, a Convenção sobre a Escravatura – assinada em Genebra, em 1926, e emendada pelo protocolo das Nações Unidas de 1953 –, da qual o Brasil é signatário, define escravidão como “o estado ou condição de um indivíduo sobre o qual se exercem, total ou parcialmente, os atributos do direito de propriedade”.

No texto do tratado, no entanto, não há uma definição precisa do que sejam “atributos do direito de propriedade”. Diante da existência de situações de precariedade extrema às quais estão submetidos trabalhadores ao redor de todo o mundo, um grupo de pesquisadores de diversas áreas se reuniu com o objetivo de tornar essa definição mais clara e, assim, auxiliar no combate a essas práticas de exploração. Esse grupo acadêmico se reuniu entre 2010 e 2011, e, ao final dos trabalhos, publicaram as “Diretrizes Bellagio-Harvard sobre os parâmetros jurídicos da escravidão”. De acordo com esse documento, caracterizam escravidão contemporânea as seguintes práticas:

  • comprar, vender ou transferir uma pessoa;
  • usar uma pessoa;
  • administrar a utilização de uma pessoa;
  • lucrar com o uso de uma pessoa;
  • transferir uma pessoa a um herdeiro ou sucessor;
  • dispor de, maltratar ou negligenciar uma pessoa.

No Brasil, o conceito de trabalho escravo contemporâneo é um pouco diferente, mas também suscita diversas controvérsias. Ele está definido no artigo 149 do nosso Código Penal:

Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto:

Pena – reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência.

§1o Nas mesmas penas incorre quem:

I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho;

II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.

§2o A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido:

I – contra criança ou adolescente;

II – por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.

Juntamente com outros agentes sociais envolvidos no combate à escravidão contemporânea, acadêmicos de diversas áreas procuram descrever, de maneira mais clara, situações que caracterizariam o crime de redução a condição análoga à de escravo. Dessa maneira, além de tornar o combate à prática mais efetivo, procuram barrar tentativas conservadores de modificação desse tipo penal.

Os pesquisadores atuam, ainda, na identificação, descrição, detalhamento e monitoramento das mais diferentes formas que a escravidão contemporânea pode assumir. Essa exploração pode ocorrer tanto no meio urbano, quanto no meio rural. As atividades econômicas que nela se baseiam são as mais variadas: roço da juquira, plantação e colheita de cana-de-açúcar, colheita de maçãs, produção de carvão, confecções têxteis, construção civil, etc. Na identificação dessas práticas, o trabalho dos pesquisadores é essencial. Por exemplo, atualmente, Grupo de Pesquisa em Trabalho Escravo Contemporâneo (UFRJ) está desenvolvendo um trabalho sobre os trabalhadores chineses escravizados em pastelarias, uma forma de exploração que não recebia muita atenção das autoridades públicas até pouco tempo atrás.

O encontro entre acadêmicos e outros grupos engajados no combate à escravidão contemporânea também vem sendo promovido por diferentes instituições. Um exemplo de evento bem sucedido é a Reunião Científica sobre Trabalho Escravo Contemporâneo e Questões Correlatas. Em sua sétima edição, que aconteceu em 2014, pesquisadores das mais diferentes áreas (direito, história, sociologia, antropologia, geografia, etc.) se reuniram para debater o combate à escravidão contemporânea. Também estiveram presentes e apresentaram trabalhos diferentes agentes públicos engajados no combate a esse crime: delegados de polícia, procuradores, juízes, etc.

Assim, para que consigamos acabar de vez com a escravidão no Brasil e no mundo, é preciso que o diálogo entre os acadêmicos e a sociedade se torne cada vez mais intenso, criando novos instrumentais para erradicar, definitivamente, a submissão de trabalhadores a condições de precariedade extrema.

3

Crônicas de um congresso

Há um tempo, estive em um congresso acadêmico, como tantos que há por aí. Como em vários desses congressos, após os “trabalhos”, alguns participantes saíram para uma espécie de “happy-hour”. Durante esse “evento social”, um dos participantes do congresso passou a mão na bunda de uma das participantes. Um outro participante começou a conversar com uma quarta participante e, de repente, começou a relatar como seu pênis supostamente seria viril, já que ele é descendente de índios. Esse mesmo participante tentou beijar uma outra acadêmica à força. E não foram apenas essas “ocorrências”. Como também é muito comum em congressos, grande parte dos participantes estava hospedada no mesmo hotel. Então, durante a madrugada, depois que todos já estavam dormindo (ou quase), dois acadêmicos tentaram invadir o quarto de uma de nossas colegas.

Situações como essas não aconteceram excepcionalmente nesse congresso. Relatos de cientistas assediadas por seus colegas em eventos científicos são frequentes. E, assim como também acontece em outras situações de violência, essas mulheres assediadas preferiram não relatar o acontecido à organização. O motivo? Os assediadores, provavelmente, negariam o ocorrido e elas ficariam conhecidas na comunidade acadêmica como espalhadoras de boatos e causadoras de problemas. De fato, um desses assediadores passou o resto da semana indo conversar com cada um dos participantes para dizer-lhes que as cientistas assediadas estavam mentindo. E, em decorrência disso, uma dessas vítimas – que estava em seu primeiro congresso – teve que lidar com a preocupação e a tensão de ser considerada mentirosa pelos colegas.

Esses casos são mais uma expressão do machismo a que as mulheres cientistas estão sujeitas no ambiente acadêmico. Muitos pesquisadores ainda consideram que o corpo de suas colegas está disponível. Acham legítimo assediá-las em um ambiente de trabalho. Afinal, o que estariam fazendo essas mulheres desacompanhadas em cidades e países estranhos? Obviamente estão querendo “se divertir”. Só que não. O que essas mulheres querem é apenas conseguir expor o seu árduo trabalho de anos e serem respeitadas por seus colegas, como iguais, como seres intelectualmente tão capazes como eles.

Esse tipo de assédio torna o ambiente acadêmico ainda mais hostil para as mulheres. Ao longo de sua carreira, as mulheres cientistas já têm que enfrentar os mais diversos obstáculos: insuficiência de creches, dupla jornada, silenciamento, etc. O assédio em eventos agrega mais um item a essa lista. Ademais, frequentemente, as cientistas que são vítimas desses atos começam a questionar a própria qualidade de sua pesquisa: meu trabalho tem valor ou sou só mais um rosto bonitinho no congresso?

Já há algum tempo tenho conversado bastante com colegas em congressos e os relatos são os mesmos. Não importa a nacionalidade, as cientistas já vivenciaram – ou conhecem alguém que vivenciou – situações de assédio em eventos acadêmicos. É por isso que não podemos mais nos calar diante dessas situações. Se algo acontecer, considere a possibilidade de relatar à organização. A exposição da situação de assédio – e até mesmo do assediador – para os participantes do evento pode causar uma situação de constrangimento na comunidade acadêmica, o que talvez seja uma arma eficaz no combate a esse tipo de violência. Além disso, se uma colega vier te relatar um assédio, acredite nela e procure dá-la apoio para denunciar o agressor. Somente juntas conseguiremos tornar o ambiente menos hostil à presença das mulheres cientistas.