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Controle de natalidade em animais: o que é natural quando o assunto é concepção?

No último mês, acompanhamos o referendo irlandês que escolheu revogar a emenda constitucional que criminalizava o aborto no país. Esse é mais um dos resultados do movimento de consolidação das conquistas feministas em todo o mundo. No Brasil, a discussão sobre a legalização do aborto é complexa e considera questões religiosas, políticas e de saúde pública (vale a pena ler um dos textos recentes aqui do blog sobre isso).

Argumentos muito frequentes em relação à concepção, ao corpo da mulher e às suas escolhas são pautados na naturalidade deste processo. Em outras palavras, como nosso corpo seria designado a desempenhar o papel materno, não caberia à mulher a escolha de interromper ou, muitas vezes, evitar a concepção.

Felizmente, a tão falada natureza ensina repetidas vezes que o “natural” está bem longe das nossas expectativas. Desde a descoberta de que muitos dos casais de passarinhos não são exclusivamente monogâmicos como pensávamos, até as incontáveis interações de cunho sexual entre indivíduos do mesmo sexo no reino animal – só citando alguns exemplos -, tudo parece dissolver o argumento da naturalidade de certos comportamentos humanos.

Para contribuir com este processo de queda de afirmações “naturalistas”, trago alguns exemplos menos estudados, porém muito interessantes, de animais que usam substâncias da natureza para, possivelmente, controlar a reprodução.

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Microtus montanus. Foto por Roger W. Barbour – Smithsonian Natural History

O primeiro exemplo é das fêmeas de roedores da espécie Microtus montanus observadas por Berger e colaboradores na década de 1970 [1]. Esses animais foram observados consumindo uma grande quantidade de plantas que contêm fitoestrógenos, sempre coincidindo com o fim do seu período reprodutivo. Fitoestrógenos são substâncias capazes de alterar as vias de regulação do estrógeno no corpo de mamíferos. Consumidas em grande quantidade, estas substâncias inibem características relacionadas à reprodução.  

No caso, as fêmeas de roedores exibiam um menor peso uterino e inibição do desenvolvimento folicular, além de encerrar atividades relacionadas ao acasalamento. É importante pontuar que a interrupção do seu período reprodutivo estava em consonância com a diminuição da disponibilidade de recursos de alta qualidade, no fim da época de frutificação dos alimentos consumidos por estes animais.

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Perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Foto por Nikita (Flickr).

Ainda mais interessante é dos perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Em momentos de grande escassez de recursos, as fêmeas desta espécie de ave consomem plantas com os mesmos fitoestrógenos que inibem características do período reprodutivo [2]. Como não seria possível o desenvolvimento ótimo dos filhotes neste longo período, quase nenhuma prole é produzida na população. Quando a situação volta a ser positiva, relacionada principalmente a um aumento no índice de chuvas e na disponibilidade de alimento, aquele composto deixa de ser consumido e as fêmeas voltam a reproduzir normalmente.

E não parece que estes resultados são isolados, presentes em apenas algumas espécies. Primatas também parecem usar o mesmo tipo de substâncias, com resultados similares. Glander [3] sugeriu que macacos bugios costarriquenhos (Alouatta palliata) estavam consumindo certas espécies de plantas para afetar seu período reprodutivo. Posteriormente, até a sazonalidade reprodutiva de chimpanzés (Pan troglodytes) da Tanzânia, foi relacionada com variações anuais de precipitação e a composição de sua dieta, com possível mediação por fitoestrógenos [4].

Estes exemplos indicam que a concepção, apesar de central para as espécies animais, pode não ser considerada prioritária em determinadas situações ou períodos. A possibilidade das fêmeas reconhecerem estes momentos e regularem seu ciclo reprodutivo, muitas vezes resultando em um controle de natalidade da população, pode ser fundamental para garantir o bem-estar e sobrevivência daqueles indivíduos.

Com absoluta certeza, os casos descritos não se assemelham nem de longe ao casos de milhões de mulheres que hoje precisam aprender a lidar com a complexidade de seus corpos e as escolhas que desejam fazer para si mesmas quanto à concepção. Mesmo assim, nos ajudam a desmistificar o que se convencionou chamar de natural, comum ou normal quando o assunto são estas escolhas. É sempre importante pensar no que elas significam para nós e em que contexto elas são aplicadas, da mesma forma que olhamos para o não tão distante “mundo natural”.

Referências:

[1] Berger, P., E. Sanders, P. Gardner, and N. Negus. 1977. Phenolic plant compounds functioning as reproductive inhibitors in Microtus montanus. Science 195: 575-577.

[2] Leopold, A., M. Erwin, J. Oh, and B. Browning. 1976. Phytoestrogens: Adverse effects on reproduction in California quail. Science 191: 98-100.

[3] Glander, K. 1980. Reproduction and population growth in free-ranging mantled howling monkeys. American Journal of Physical Anthropology 53: 25-36.

[4] Wallis, J. 1997. A survey of reproductive parameters in the free-ranging chimpanzees of Gombe National Park. Journal of Reproduction and Fertility 109: 297-307.

 

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Animais doentes se isolam dos membros do grupo

O que fazemos quando ficamos extremamente doentes? Apesar da frequente vontade de nos isolar do mundo, sempre há uma demanda maior pelo cuidado e atenção das pessoas próximas. Nesse caso, quantas vezes essas pessoas também não ficaram doentes junto com a gente?

Apesar das muitas vantagens de se viver em sociedade – como a divisão do trabalho, por exemplo – uma das desvantagens mais proeminentes é a maior possibilidade de transmissão de doenças entre os membros do grupo [1]. E quem pula carnaval sabe muito bem disso. Não dá pra acordar na quarta-feira de cinzas e dizer que você está completamente sadio depois de todo aquele contato social.

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Louva-Deus se limpando. Um comportamento importante para evitar a dispersão de parasitas.

Os animais se utilizam de diversos mecanismos para evitar que uma doença se espalhe entre os membros do grupo. Algumas possibilidades são o tratamento através de automedicação (saiba mais nesse texto); comportamentos como o de limpeza corporal (ou grooming), que observamos em vertebrados [2] e invertebrados [3]; e o isolamento do grupo.

Quando ficam doentes, indivíduos de algumas espécies simplesmente se afastam do grupo, reduzem sua interação com outros e morrem sozinhos [4]. Apesar dessa história parecer extremamente triste e solitária, os efeitos podem ser bastante benéficos para o grupo social.

Um estudo realizado por Patrícia Lopes e colaboradores na Universidade de Zurich, Suíça [5], mostrou que ratos da espécie Mus musculus domesticus injetados com um produto bacteriano (lipopolissacarídeos de Escherichia coli) deixam de interagir com os seus colegas de grupo. Apesar de existirem mecanismos de reconhecimento do colega doente pelos outros indivíduos, eles não parecem evitar a presença do indivíduo infectado. Este isolamento é provocado pelo comportamento do próprio rato adoentado. É como se ele ativamente se removesse do grupo. Além disso, os pesquisadores puderam perceber que esse comportamento diminuiu a disseminação da infecção entre os outros membros do grupo, tornando o comportamento benéfico em longo prazo.

rato

Mus musculus domesticus

Os autores do estudo [5] ainda discutem sobre a importância dos seus resultados para os modelos de transmissão de doenças, que são como previsões de que modo uma doença vai se disseminar em uma população. Esses modelos são essenciais para as ações de controle e prevenção de doenças em populações humanas. Segundo eles, os modelos tradicionais não levam em consideração os efeitos das doenças no comportamento dos indivíduos infectados, como pudemos observar no exemplo dos ratinhos. A inclusão desse efeito comportamental seria um ponto essencial para aumentar o poder de previsão dos modelos quanto à velocidade e a magnitude da disseminação de doenças.

Links:

Macaquinhos fazendo gromming

Referências:

[1] Alcock, J., 2016. Comportamento animal: uma abordagem evolutiva. Artmed Editora.

[2] Mooring, M.S., Blumstein, D.T. and Stoner, C.J., 2004. The evolution of parasite-defence grooming in ungulates. Biological Journal of the Linnean Society, 81(1), pp.17-37.

[3] Zhukovskaya, M., Yanagawa, A. and Forschler, B.T., 2013. Grooming behavior as a mechanism of insect disease defense. Insects, 4(4), pp.609-630.

[4] Formigas doente se isolam para morrer

[5] Lopes, P.C., Block, P. and König, B., 2016. Infection-induced behavioural changes reduce connectivity and the potential for disease spread in wild mice contact networks. Scientific reports, 6.  

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Farmacêuticos da natureza: Os animais também se automedicam

Automedicação é algo muito presente na nossa vida. Quem nunca tomou um chazinho super bom para dor de barriga ou aquele outro para garganta? E quem nunca usou aquela folha boa pra cicatrizar uma feridinha? Todo mundo já usou alguma planta ou alguma substância sem qualquer recomendação médica, não é?

Para além do uso indevido de medicamentos sem acompanhamento de um profissional (no assunto, dá uma olhada nesse texto da aqui no blog), a automedicação tem a ver principalmente com o conhecimento sobre o efeito medicinal de substâncias e materiais presentes no nosso dia a dia. Esse conhecimento é adquirido de uma forma geral com a nossa família, e é mantido culturalmente através das comunidades tradicionais, que têm uma relação diária com a natureza. Parte desse conhecimento vem da observação de animais (Huffman 2003). Assim como nós, muitos animais utilizam-se de substâncias e materiais da natureza para evitar ou tratar parasitas ou patógenos no seu organismo.

Sim, animais se automedicam! E pode até ser mais fácil relacionar a automedicação como resultado de observações e aprendizagem, restrito a animais como nossos parentes próximos, os primatas.  No entanto, há estudos que mostram que insetos, aves, répteis, elefantes e outros animais também se automedicam. Dessa forma, esse comportamento pode ser uma resposta evolutiva que não necessita de aprendizagem, e assim é muitas vezes considerado inato (de Roode et al. 2013).

Comportamentos de automedicação podem ser identificados quando há uma correlação entre a ocorrência de doenças em animais e o uso de uma substância natural como forma de tratamento. Mais do que isso, a automedicação também pode ser profilática (ou seja, com intenção de prevenir e não tratar), e assim, podemos observar o uso de substâncias e materiais em períodos relacionados ao aumento de ocorrência dessas doenças. Isso pode acontecer, por exemplo, durante uma estação chuvosa onde a infestação de alguns parasitas é maior (de Roode et al. 2013).

Alguns primatas têm a prática de ingerir terra para tratar de problemas intestinais (Oates 1978; Mahaney et al. 1995). Borboletas monarcas escolhem de forma cuidadosa o local para depositar seus ovos e assim tem preferência por frutos cheios de álcool para evitar parasitismo por protozoários (Abbott 2014). Também há casos de aves que esfregam lesmas, plantas ou formigas nas penas possivelmente a fim de evitar parasitas (Clayton, Wolf 1993; VanderWerf 2005) e algumas vespas que usam resina de carvalho para prevenir infecções por fungos (Taper & Case 1987).

As pesquisas sobre automedicação em animais ainda têm que avançar bastante em quantidade e diversidade. Elas têm um potencial imenso na descoberta de novas substâncias e no melhor entendimento do ambiente favorável para a conservação de certos animais. Mas mesmo com poucos exemplos, fica claro o quão incrível é esse comportamento, e o quanto nós podemos aprender com ele.

Para saber mais:

News Feature: Animals that self-medicate

Drauzio Varela – Automedicação em animais

Canal Comporta – Automedicação em animais

Referências:

Abbott, J. (2014). Self‐medication in insects: current evidence and future perspectives. Ecological Entomology, 39(3), 273-280.

Clayton, D. H., & Wolfe, N. D. (1993). The adaptive significance of self-medication. Trends in Ecology & Evolution8(2), 60-63.

de Roode, J. C., Lefèvre, T., & Hunter, M. D. (2013). Self-medication in animals. Science, 340(6129), 150-151.

Huffman, M. A. (2003). Animal self-medication and ethno-medicine: exploration and exploitation of the medicinal properties of plants. Proceedings of the Nutrition Society, 62(02), 371-381.

Mahaney, W. C., Aufreiter, S., & Hancock, R. G. V. (1995). Mountain gorilla geophagy: a possible seasonal behavior for dealing with the effects of dietary changes. International Journal of Primatology, 16(3), 475-488.

Oates, J. F. (1978). Water-plant and soil consumption by guereza monkeys (Colobus guereza): a relationship with minerals and toxins in the diet?. Biotropica, 241-253.

Taper, M. L., & Case, T. J. (1987). Interactions between oak tannins and parasite community structure: unexpected benefits of tannins to cynipid gall-wasps. Oecologia, 71(2), 254-261.

VanderWerf, E. A. (2005). ‘Elepaio “anting” with a garlic snail and a Schinus fruit. Journal of field ornithology, 76(2), 134-137.