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Nettie Maria Stevens e a descoberta dos Cromossomos Sexuais

Nettie Maria Stevens nasceu em Cavendish, Vermont, cidadezinha de um dos menores estados dos Estados Unidos, em sete de julho de 1861. Nascida em uma época na qual a maior preocupação de uma jovem mulher deveria ser com um bom casamento, Nettie Maria queria muito mais. Estudou muito e trabalhou como professora, mas queria mesmo era ser pesquisadora. Com muito esforço e dedicação, ela conseguiu um espaço na história da genética.

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Nettie veio de uma família muito simples, vivendo nos Estados Unidos recém-saído de uma guerra civil. Apesar disso, o pai, carpinteiro e faz-tudo, conseguiu mandar os filhos à escola. Nettie logo se destacou entre os alunos, com um histórico brilhante. Em 1896, ela foi para a Universidade de Stanford, na Califórnia. Graduou-se com mestrado em biologia, dedicando-se ao estudo de novas espécies de vidas marinhas. Nettie foi continuar seus estudos na pós-graduação do Bryn Mawr College, uma faculdade liberal para mulheres, localizada na Pensilvânia. Seu desempenho foi tão extraordinário que ela ganhou uma bolsa para estudar no exterior.

Ela desenvolveu seus estudos na Estação de Zoologia de Nápoles na Itália e no Instituto de Zoologia de Würzburg na Alemanha, em parceria com Theodor Boveri. Theodor Boveri foi um importante biólogo alemão, que estudava o modo como características genéticas eram transmitidas, o que logo chamou a atenção de Nettie. Ela obteve o título de Ph.D. em 1903, aos 39 anos, e em 1905 publicou sua pesquisa intitulada “Studies in Spermatogenesis”. Finalmente, Nettie pode trabalhar como pesquisadora, se dedicando ao entendimento da determinação sexual nos animais.

nettie2 Nettie Maria trabalhando em suas análises microscópicas. Sua experiência em microscopia foi muito importante para suas descobertas.

Nettie Maria descreveu a diferença entre os cromossomos sexuais, através de suas observações em diversos animais. Stevens descreveu que células do besouro da farinha, Tenebrio molitor, eram diferentes entre machos e fêmeas.

As células das fêmeas, em divisão meiótica, continham 20 cromossomos grandes, enquanto as células masculinas continham 19 cromossomos grandes e 1 cromossomo menor. Ela concluiu que essa diferença resultava na presença de material genético diferente, associado à diferenciação sexual.

Ela também observou que as células dos espermatozoides podiam conter conjuntos de cromossomos com o cromossomo feminino ou com o cromossomo menor (masculino). A combinação desses conjuntos determinaria o sexo do indivíduo formado. De forma que ela inferiu que a união de dois cromossomos grandes (XX) determinaria o sexo feminino, enquanto um cromossomo grande e um pequeno (XY) determinaria o sexo masculino.
Ela repetiu estes estudos em diversas espécies de insetos, para poder afirmar que a diferenciação sexual, entre diversos fatores hoje conhecidos, estava relacionada ao par de cromossomos sexuais. Esse foi o início da teoria da determinação sexual cromossômica, que foi reconhecida mais tarde como correta, nos permitindo conhecer os cromossomos X e Y.

Thomas Morgan , importante zoologista e geneticista americano, que estudou e aprimorou o modelo de estudo animal da Drosophila melanogaster, a mosquinha da fruta, foi professor de Stevens. Ele afirmou que durante seus 12 anos de professor na pós-graduação nunca teve alguém tão competente e independente em pesquisa como Nettie.

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Células em divisão no besouro-farinha e observação dos cromossomos sexuais x e Y.

Na época, a teoria de herança sexual cromossômica era pouco aceita entre os cientistas, e o trabalho de Nettie não foi muito reconhecido. Mais ou menos na mesma época, Edmund Beecher Wilson fez observações similares, dando maior credibilidade à pesquisa de Nettie Maria. Nettie Maria Stevens era brilhante, porém teve uma carreira curta. Ela faleceu em 1912 de câncer de mama. No entanto, deixou sua contribuição inestimável para o entendimento do mecanismo genético de determinação sexual.

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Imagem de cariótipo humano masculino (46, XY) mostrando a diferença de tamanho entre os cromossomos sexuais X e Y.
Referências:
• Nettie Stevens: A Discoverer of Sex Chromosomes, disponível em: https://www.nature.com/scitable/topicpage/nettie-stevens-a-discoverer-of-sex-chromosomes-6580266

• Nettie Maria Stevens, disponível em: http://www.dnaftb.org/9/bio.html

• Wessel GM. Y does it work this way? Nettie Maria Stevens (July 7, 1861 – May 4, 1912) , Mol Reprod Dev. 2011 Sep;78(9):Fmi. doi: 10.1002/mrd.21390.

• Nettie Stevens, disponível em https://www.britannica.com/biography/Nettie-Stevens

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Microrganismos da pesada e o Bioterrorismo

Alguns microrganismos, além de patógenos, também podem ser usados como armas, e podem causar grandes estragos.  Bioterrorismo é como chamamos a liberação proposital de agentes biológicos, como vírus e bactérias capazes de causar doenças. O patógeno utilizado no Bioterrorismo é chamado de Arma Biológica.

B1      Símbolo de Risco Biológico, muito associado ao Bioterrorismo, mas também é visto nos materias e descartes de resíduos com risco biológico, como amostras de sangue, culturas de microrganismos, entre outros.

Armas biológicas se baseiam no uso de microrganismos, um recurso de fácil obtenção e reprodução, já que existem diversas formas de se produzir bactérias e vírus em grande quantidade. Além disso, com o avanço da Biotecnologia e da Engenharia Genética, novas formas de disseminação mais eficazes são possíveis. As armas biológicas tem um custo menor do que armas nucleares ou químicas, por exemplo, porém é preciso grande aporte tecnológico para o seu controle. Ou seja, talvez seja mais fácil reproduzir bactérias, mas é mais difícil dizer a elas qual é exatamente o seu alvo! O risco de fugirem do controle e atacarem tanto inimigos quanto aliados é muito grande, por isso várias convenções políticas já tentaram proibir o seu uso para sempre…

Mas, essas armas sempre foram de grande interesse para alguns países, como Estados Unidos, Rússia, Japão e Coréia do Norte, devido ao seu grande potencial de dano. Podem causar milhares de mortes, debilitação e incapacitação, e espalham, além de doenças, o PÂNICO!

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Soldados vestidos com proteção contra armas biológicas durante a 2° Guerra Mundial.

Não é qualquer microrganismo que pode ser usado com fins bélicos. Um microrganismo patogênico é considerado uma potencial arma biológica, quando:
1) Causa doença grave;
2) A dose necessária para o efeito é baixa
3) Período de incubação curto
4) População não tem imunidade
5) Tratamento difícil
6) Disseminação fácil (água, ar)
7) Produção fácil em grandes quantidades
8) Estável quando estocado.

Alguns dos patógenos que se encaixam nessas características, são a bactéria conhecida como Antraz, a bactéria Yersinia pestis (agente da peste negra), e vírus hemorrágicos como Ebola e Marboug, e outros como a Varíola.
A história mundial já nos deu algumas amostras do que esse tipo de arma pode fazer. Em 2001 e 2002, nos Estados Unidos, algumas figuras importantes receberam pelo correio, envelopes contendo esporos de Antraz, o Bacillus anthracis, que causa grave doença respiratória, e se não tratada rapidamente, leva à morte em quase 100% dos casos, além disso, o diagnóstico preciso é difícil.  O Antraz continua sendo uma preocupação, ainda mais com a situação muito complicada da Coréia do Norte, uma potência bélica que tem feito muitas ameaças à paz mundial. O país nega estar produzindo armas biológicas, mas…
Melhor prevenir, e com esse pensamento a Coréia do Sul, vizinha e apavorada, desenvolveu uma mistura de microscopia com inteligência artificial, capaz de detectar com 96% de precisão o bacilo do Antraz. A detecção se baseia na obtenção de fotomicrografias que são analisadas por microscopia eletrônica de transmissão (MET), que tem um aumento inicial de 20.000 vezes, permitindo a identificação de esporos e partículas virais. Essa tecnologia pode ser acoplada à câmeras digitais, por exemplo, onde já irão fazer o rastreio dessas possíveis armas.

 

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Esquema ilustrativo do CDC sobre o Antraz e sua disseminação.

Na 2° Guerra Mundial o Japão liberou uma chuva de pulgas sobre a China. Como assim? Isso mesmo, com aviões, o Japão pulverizou pulgas sobre o inimigo, mas não eram quaisquer pulgas, os animais estavam contaminados com a Yersinia pestis, bactéria causadora da Peste Negra ou Peste bubônica, que assolou a Europa nos anos 1300, matando cerca de 200 milhões de pessoas, aproximadamente um terço da população total da Europa. Hoje esse número representaria a população inteira do nosso país!!!
A peste é altamente contagiosa e afeta também animais, roedores tornam-se o reservatório da doença, e a pulga do rato o principal agente transmissor. A peste não tem tratamento, de forma que só sobreviveu à ela quem tinha imunidade. A probabilidade da disseminação proposital desse patógeno causar uma catástrofe de proporções inimagináveis é muito grande. Não acho que deveríamos brincar com essa bactéria, não é mesmo? Na idade média, cadáveres de pessoas com a Peste eram jogados em rios e poços, com intuito de contaminar o suprimento de água dos inimigos, já demonstrando conhecimento do potencial disseminador desse microrganismo.

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I Medici della Peste – Litografia que retrata os médicos da peste. Apesar do aspecto assustador da máscara utilizada, que ficou associada à morte, a ideia era diminuir o contato com os pacientes contaminados.

Conscientemente ou não (há divergências) os colonizadores europeus trouxeram para a América a Varíola, que dizimou os povos indígenas da América Latina. Não existia essa doença na América, e por isso os indígenas não tinham imunidade e sofreram muito. Os colonizadores davam aos indígenas roupas dos doentes, e como a doença é altamente contagiosa, causou muitos estragos. Para quem ficou curioso sobre o tema, veja esse texto muito interessante sobre a varíola no Brasil Colonial .

A Varíola foi erradicada em 1980 com o uso da vacina. Atualmente, existem apenas dois laboratórios que possuem espécimes da Varíola, um nos Estados Unidos e outro na Rússia. Irônico não é? Deve ser para manter equilibrada a balança mundial…

Pensou-se em destruir todas as cepas, mas sempre fica aquele medo, se a doença retornar, como iremos estudá-la? E assim continua-se preservando o vírus em laboratórios de altíssima segurança.

Outros vírus, como Ebola e Marboug também são altamente contagiosos e letais, causam infecções com febre e hemorragia e não possuem cura. Até os cadáveres são contagiosos.

O C.D.C (Center for Control and Prevention of Diseases) classifica todos os agentes quanto ao seu risco individual e de disseminação para a comunidade, o que implica também em seu potencial para o bioterrorismo. O Antraz é considerado um agente de risco A, bem como vírus que causam febres hemorrágicas. Os organismos classificados como risco A possuem alto risco de contaminação individual e alto risco de disseminação para comunidade, sendo responsáveis por doenças graves.

Apesar de possível e alarmante, ataques bioterroristas precisam de uma logística complicada, de forma que bombas ainda são bem mais efetivas.

Mas o que podemos fazer para prevenir um ataque biológico? Investimento em:
– Diagnóstico clínico e laboratorial rápido e preciso
– Tratamentos e novos antibióticos
– Novas vacinas

Quanto mais se entender a respeito desses microrganismos, mais seguros estaremos.

ALERTA DE SPOILER: Mas essas ideias continuam mexendo com o imaginário de muita gente. Dan Brown, o célebre escritor de Código da Vinci, nos presentou com o livro O Inferno, onde os mocinhos lutam contra um ataque bioterrorista. Mas, o objetivo desse ataque não é a guerra, e sim o controle do crescimento populacional. Já falei demais…

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Referências:

Barth, Ortrud Monika, Bioterrorismo e microrganismos patogênicos História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 20, núm. 4, octubre-diciembre, 2013, pp. 1735-1749, Fundação Oswaldo Cruz
Rio de Janeiro, Brasil

Cross AR, Baldwin VM, Roy S, Essex-Lopresti AE, Prior JL, Harmer NJ. Zoonoses under our noses. Microbes Infect. 2018 Jun 18. pii: S1286-4579(18)30125-4. doi: 10.1016/j.micinf.2018.06.001. [Epub ahead of print]

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Efeito Matilda: o preconceito de Gênero na Ciência

Historicamente, a Ciência foi construída como uma área de domínio masculino. No entanto, muitas mulheres participaram da construção do que conhecemos hoje como Ciência. Contudo, muitas vezes, essas mulheres foram deliberadamente esquecidas. O Efeito Matilda é um fenômeno social que descreve isso.

Este fenômeno ocorre quando o trabalho de uma mulher é reconhecido (publicado, premiado, referenciado) como de um homem, seja porque sua contribuição (parceria e coautoria) foi desconsiderada ou omitida.Diversos relatos históricos vieram à tona mostrando que muitas mulheres ficaram na sombra de seus colegas, parceiros e cônjuges.

O Efeito Matilda continua ocorrendo atualmente e por isso é importante falarmos sobre ele. Segundo uma pesquisa realizada pela conceituada editora de artigos científicos, a Elsevier, mulheres tendem a deixar chefias e cargos de pesquisador principal para colegas homem. O pesquisador homem teria maior credibilidade e aceitabilidade no meio científico, favorecendo a obtenção de subsídios e outros incentivos. Dados dessa pesquisa foram descritos com mais detalhes nos textos aqui do blog:  Igualdade de gênero na ciência brasileira e Fulano et. al na verdade é mulher.

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Fonte Twitter @minasnahistória. Imagem disponível em: https://twitter.com/minasnahistoria/status/715935067684659201

Esse fenômeno da supressão da participação feminina na Ciência foi descrito em 1968, por Robert Merton, como “Efeito Matthew”, uma referência à passagem bíblica de Mateus 13:12:

“Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.”

No entanto, o trabalho de Margaret R. Rossiter, publicado em 1993, na revista Social Studies of Science, consagrou o termo como “Efeito Matilda”. A escolha do nome foi uma homenagem a sufragista americana, escritora e crítica feminista Matilda Joslyn Gage (1826 – 1898) de Nova York. A própria Matilda sofreu e vivenciou esse fenômeno social. Ela se dedicou a defender os direitos das mulheres. Participou em convenções públicas em uma época que poucas mulheres eram ouvidas, e chegou a defender o voto feminino, no Congresso Americano.

O efeito Matilda fez com que muitas mulheres fossem condenadas as sombras. Trabalhos importantes, como o de Rosalind Franklin – contribuições na descoberta da estrutura do DNA – foram eternizados com nomes de outros colaboradores homens, como Watson e Crick. Isso ocorre desde a época medieval, onde sabemos que mulheres eram médicas, líderes, curandeiras, parteiras, filósofas. Porém, muitas vezes seus conhecimentos foram julgados, condenados e atribuídos a outros homens. Que outras mulheres deveríamos conhecer melhor?

Se não fosse o Efeito Matilda, que mulheres conheceríamos melhor?

Trótula de Salerno: No século XI, Trótula foi uma importante mulher na história da Medicina. Ela estudou doenças femininas e deixou vários escritos. Tótula foi estudante e professora de um dos primeiros centros médicos de ensino não ligados à Igreja. A Escola de Salerno foi a primeira a permitir o livre acesso da mulher ao ensino. No entanto, no século XII, ao reescrever escritos antigos, um monge, achando que “aquilo deveria ser escrito por um homem”, modificou o nome de Trótula para parecer masculino. No século XX, um historiador alemão reduziu Trótula a uma parteira, negando seus estudos conduzidos.

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Imagem disponível em mujeresconciencia.com

Maria Goeppert-Mayer: Física teórica, recebeu, junto com Eugene Paul Wigner e J. Hans D. Jensen, o Nobel de Física em 1963, por propor um novo modelo do envoltório do núcleo atômico. Foi a segunda mulher a ser laureada nesta categoria do Nobel. A primeira foi Marie Curie. Apesar da importância do seu trabalho na Universidade de Chicago, onde desenvolveu sua pesquisa no período de 1947 a 1949, ela era considerada uma professora “voluntária” não remunerada. Mesmo com seu currículo e reputação, teve dificuldade de conseguir ser contratada como professora na Alemanha e nos Estados Unidos.

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Imagem disponível em https://www.atomicheritage.org/profile/maria-goeppert-mayer

Agnes Pockels: pioneira química alemã desenvolveu em 1890 um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema. No entanto, o crédito da descoberta é frequentemente dado apenas a Rayleigh. Agnes teve a ideia da teoria enquanto lavava a louça, e observou que as sujidades maiores rompiam a tensão da água. Lorde Rayleigh publicou individualmente o primeiro artigo sobre o tema, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes.

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Imagem disponível em: https://www.chemistryworld.com/opinion/pockels-trough/8574.article

Nettie Maria Stevens: geneticista americana, nascida em 1861. Estudou em Stanford, onde se formou como a melhor aluna da turma. Em conjunto com Edmund Wilson, descreveram a base genética e cromossômica da definição do sexo em humanos. Nettie Stevens observou que o cromossomo feminino era maior que o masculino (X e Y). Apesar de sua coautoria, nos livros didáticos apenas Wilson é mencionado.

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Se entre colegas, o Efeito Matilda é aparente, o que pensar daquela relação entre cônjuges? Muitos dos estudos desenvolvidos por cientistas homens, contaram com a participação ativa de suas esposas, no entanto essas raramente são mencionadas. Hertha e W.E Ayrton eram um casal de físicos britânicos. Hertha publicou seus estudos no nome do marido, mesmo quando o mesmo já estava doente, pois os mesmos seriam mais bem aceitos dessa forma. Ruth Hubbard e George Wald eram bioquímicos que trabalhavam com temas semelhantes, e após se casarem passaram a trabalhar juntos. No entanto, todo o trabalho de Ruth anterior ao casamento, foi atribuído ao marido, que ganhou um Nobel em 1967. Isabela Karle, cristalógrafa, trabalhou mais de 50 anos com seu marido, no entanto, em 1985, Jerome Karle ganhou um Nobel de Química compartilhado com outro colega químico, sem menção à esposa.

Os homens eram uma maioria esmagadora na ciência, hoje, nós mulheres somos cerca de 40% de todos os pesquisadores. No entanto, é importante conhecer esses fenômenos sociais para nos mantermos alertas e lutar pelo nosso devido reconhecimento. E também reconhecer essas cientistas que foram injustiçadas em sua época.

O devido crédito a quem o merece, é só o que pedimos.

Referências:
Margaret W. Rossiter. The Mathew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science, Vol. 23, No. 2 (May, 1993), pp. 325-341

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

 

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Canabinóides na Doença de Parkinson

No ano de 2017 se falou muito, aqui no Brasil, da legalização da Maconha medicinal (Cannabis sativa). A reportagem publicada no site do UOL, entitulada Maconha medicinal no Brasil? traz um panorama geral dos avanços nessa área, e é bem legal para você se contextualizar no assunto.

Pacientes com epilepsia grave receberam autorização, no Brasil, por meio judicial, para o consumo em 2014, como divulgado em nota oficial da Academia Brasileira de Neurologia.

Porém os seus benefícios também são estudados para a Doença de Parkinson e outras disfunções motoras.  Foi liberada, no Brasil, em 2017, a venda do Mevatyl, fármaco a base de canabidiol  e THC , com efeitos sobre os sintomas motores, testado na esclerose múltipla. No entanto, mesmo com a dispensação da receita pelo médico, o fármaco não é comercializado na maioria das farmácias. Não houve grande interesse das farmácias, ainda, em comercializar o fármaco devido ao pequeno número de clientes e ao alto custo do fármaco, que segundo pesquisa realizada pela Folha  custa cerca de R$3000,00.

A Doença de Parkinson é um distúrbio neurodegenerativo, que destrói terminações dopaminérgicas da substância nigra do cérebro, e leva a perda progressiva do controle dos movimentos. O tratamento do Parkinson, apesar de bem estabelecido, não impede o avanço dos sintomas, mas sim desacelera os mesmos. A perda de qualidade de vida no Parkinson é progressiva. Em outros textos aqui do blog, você pode ler mais sobre a Doença de Parkinson, como formas de tratamento no texto “A terapia de estimulação cerebral profunda e a Doença de Parkinson”  e formas de estimular o paciente, como em “Os benefícios do Pilates: reabilitação e pacientes com Parkinson”. Os pacientes com Parkinson avançado sofrem muitas debilitações, além de insônia e depressão, e podem se beneficiar também do uso da Cannabis.

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Quando os cientistas descobriram que haviam receptores canabinóides no nosso cérebro, isso levantou uma pergunta, no mínimo curiosa: por que temos receptores para maconha no nosso cérebro? Bom, surgiu daí a teoria de que existiriam canabinóides endógenos, que ainda são pouco conhecidos. Os principais endocanabinóides identificados são aracdoniletanolamida (AEA), também conhecida como anandamida; e o 2-aracdonil-glicerol (2-AG).
Os gânglios basais no cérebro são uma região de alta concentração de receptores canabinóides, receptores CB1, e em menor quantidade CB2, concentrados principalmente no globo pálido e na substância nigra. A ligação dos canabinóides à esses receptores tem efeito sobre o controle dos movimentos. Estudos experimentais sugerem que os efeitos adversos do uso da Levodopa, fármaco de escolha no tratamento do Parkinson, surgem por deficiência de canabinóides endógenos, sendo que o fornecimento de canabinóides exógenos pode melhorar os sintomas de discinesia. A discinesia é um distúrbio da atividade motora que leva a um constante balancear do corpo.

Ensaios clínicos com agonistas dos receptores CB1 demonstram a capacidade de proteção das células dopaminérgicas, diminuição do tremor e melhora dos movimentos voluntários, além da redução da discinesia e da rigidez muscular, em humanos e primatas (Mursaleen e Stamford, 2015). Um estudo conduzido em Israel, publicado em dezembro de 2017 por Yacov Balash e colaboradores, relatou que 40 pacientes foram tratados com maconha medicinal (fumada) e demonstraram: diminuição das quedas dos pacientes, diminuição da dor, melhora dos movimentos e melhora do sono. No entanto, quase 60% desses pacientes tiveram efeitos adversos. Os efeitos adversos foram relacionados, principalmente, aos efeitos alucinógenos da erva, sugerindo ser necessária uma melhor adequação do composto derivado da maconha a ser utilizado.

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Imagem disponível em: http://especiais.correio24horas.com.br/filadacannabis/portfolio-item/nacabecaativa/

O estado de São Paulo tomou a frente nas pesquisas no Brasil e tem publicado resultados importantes que tem colaborado para que os pacientes ganhem acesso aos medicamentos derivados da maconha. O departamento de toxicologia da Universidade Federal de Ribeirão Preto – São Paulo, estudou o canabidiol, constituinte não psico-ativo (não dá barato) da maconha, e evidenciou efeitos neuroprotetores da substância, devido à sua capacidade de cruzar a barreira hemato-encefálica e suas propriedades anti-inflamatórias e oxidantes. Células tratadas com os canabinóides apresentaram menor taxa de morte celular, e no modelo de Parkinson, menor perda, específica de células dopaminérgicas (Santos e cols., 2015). Outro estudo desenvolvido pela USP, um ensaio clínico duplo cego randomizado com grupo controle placebo, testou extratos de canabidiol com 75mg e 300mg, cada grupo com 7 pacientes, e encontrou associação do uso dos canabinóides com a melhora da qualidade de vida dos pacientes (Chagas e cols.,2014).
Em 2014, a Academia Americana de Neurologia (AAN) publicou uma meta-análise (grande conjunto de estudos científicos) de estudos com canabinóides em pacientes com Parkinson, e apesar de considerar controversos os dados sobre aspectos motores, a Academia reconhece os benefícios sobre o sono, dor e qualidade de vida dos pacientes. Mais recentemente, diversos trabalhos foram publicados com o uso específico do canabidiol na melhora dos movimentos e da discinesia no Parkinson (Bruck e cols., 2014).

A prescrição de derivados da Cannabis foi permitida em 2014 para médicos de São Paulo, após estudos efetivos de universidades da região, permitindo a sua importação, e em 2017, a planta foi incluída como medicinal na farmacopeia reconhecida pela ANVISA. No entanto, esse uso tem sido restrito a pacientes com epilepsia grave e esclerose múltipla. Apesar dos avanços, os dados sobre o uso de canabinóides no Parkinson são inconclusivos e insuficientes. Diante do potencial do uso da maconha medicinal no Parkinson, é muito importante o investimento em ensaios clínicos de alto nível de evidência científica para que se possa comprovar os benefícios da maconha medicinal.

Referências:

Mursaleen LR, Stamford JA. Drugs of abuse and Parkison’s disease. Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry, 2015.

Santos NAG, Martins NM, Sisti FM, Fernandes LS, Ferreira RS, Queiroz RHC, e cols. The neuroprotection of cannabidiol against MPP+-induced toxicity in PC12 cells involves trkA receptors, upregulation of axonal and synaptic proteins, neuritogeneses, and might be relevant to Parkinson’s disease. Toxicology in Vitro, v.30, p.231-40, 2015.

Chagas MH, Zuardi AW, Tumas V, Pena-Pereira MA, Sobreira ET, Bergamaschi MM, e cols. Effects osf cannabidiol in the treatment patients with Parkinson’s disease: An exploratory double-blind trial. Journal of Psychopharmacology, 2014.

Bruck S, Frota NA, Schestatsky P, Souza AH, Carvalho VN, Manreza MLG, e cols. Cannabinoids in neurology – Brazilian Academy of Neurology. Arq. Neuropsiquiatria, v.73, n.4, p:371-4, 2015.

Balash Y. e cols. Medical Cannabis in Parkinson Disease: Real-Life Patients’ Experience. Clinical Neuropharmacology • Volume 40, Number 6, November/December 2017

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Fulano, et al. na verdade é mulher: ciência, gênero e produção científica

Pegue um artigo aleatório, qualquer um…

Por exemplo, uma das referências desse texto é Leta, et al., e é assim que somos conhecidos no meio científico, pelos nossos sobrenomes. O uso apenas do sobrenome despersonaliza o autor (ou autora) e nos distancia do público leigo. Isso prejudica as mulheres, especialmente, já que é impossível saber a identidade sexual pelo sobrenome, e dessa forma ficamos escondidas atrás de um nome. Assim como o sonho, o direito e a capacidade de ser uma cientista, a mulher também deseja ser reconhecida e publicar seus artigos. Mas qual a nossa situação nesse ponto?

Como biomédica sempre envolta na área da Saúde – uma das áreas com maior equidade de gêneros, tive a sorte de conhecer muitas mulheres influentes na ciência, a reitora da minha faculdade, minhas professoras prediletas, minha orientadora da iniciação científica, TCC, mestrado, minha nova orientadora de doutorado, chefes e colegas de laboratório. São todas mulheres que vivem nessa batalha que é ser cientista, e sabemos que um dos nossos principais desafios são as publicações. Atualmente, a produção científica é a principal medida de qualidade do pesquisador.

Quantos artigos publicou? Em que revistas? São indexadas? Foi primeiro autor? Quantas citações? Etc, Etc, Etc…

Esse tipo de análise não é de hoje, o primeiro estudo nesse sentido foi em 1917, e essa forma de avaliação foi chamada de bibliometria, ou seja, somos avaliados por aquilo que publicamos. De uma maneira geral, os números dizem que nós mulheres publicamos menos que os homens, e logo seríamos menos produtivas. Mas essa análise não é tão simples assim…

A ciência nasceu como um ramo dos homens. Nos séculos XV, XVI e XVII algumas poucas mulheres bem nascidas, aristocratas, podiam atuar como interlocutoras de pensadores renomados.  Mas, essas mulheres não podiam fazer parte da discussão em si, ignorando que quanto maior a diversidade de um grupo, maior será a riqueza de sua discussão. A mudança dessa realidade começa apenas na segunda metade do século XX, com a grande demanda de recursos humanos na área de ciências e tecnologia e com o fortalecimento da luta pela igualdade entre homens e mulheres. Começa-se a questionar a produção científica feita por mulheres apenas por volta de 1970, e um dos primeiros artigos sobre o tema foi publicado por Alice Rossi, em 1965, que fez um levantamento do número de mulheres que trabalhavam em C&T (Ciências em Tecnologia) nos Estados Unidos, no período de 1950-1960. Muitos tentam, até hoje, justificar a menor participação feminina nas áreas de C&T e nas publicações científicas com estereótipos, dizendo que a mulher tem maior prioridade no casamento e no cuidado dos filhos, o que levaria a menor produtividade. Esse tipo de estereótipo pode desestimular muitas mulheres a investirem em sua formação.

As portas da C&T têm lentamente  sido abertas pelas mulheres, com grande crescimento da nossa representação nas universidades, onde em alguns cursos nos tornamos maioria, como é o caso das áreas biológicas, da saúde e da educação. Avanço que apesar de positivo, demonstra como as mulheres podem ser orientadas a áreas que envolvem o cuidado e que remetem ao estereótipo de esposa que cuida e educa. A área com menor concentração de mulheres continua sendo a Física e Matemática, cerca de 25%, enquanto que na educação chegamos a quase 70%, fenômeno conhecido como gender tracking. E apesar do aumento do número de mulheres que entram na pós-graduação, esse aumento não foi acompanhado com a mesma intensidade na obtenção de títulos, já que a taxa de evasão de mulheres na pós-graduação é maior do que a dos homens, e um dos grandes problemas citados é a relação com o orientador. Alguns professores universitários relatam preferir trabalhar com homens para evitar “distrações”, segundo depoimentos descritos por Léa Velho e Elena León, em seus estudos sobre a produção científica feminina.

 Mesmo com avanços significativos, o quadro ainda se apresenta como um funil, somos muitas nas graduações, algumas entre os professores, um número ainda menor entre pesquisadores líderes, e raras entre os cargos de direção e chefia. Existe uma tendência à estagnação da carreira da mulher, permanecendo em patamares inferiores. Com o avanço da carreira, a mulher encontra cada vez mais dificuldades em progredir e ascender aos níveis mais altos da academia. Por exemplo, após os anos 2000, na Academia Brasileira de Ciências, dentre os acadêmicos titulares apenas 10% eram mulheres, enquanto que entre os associados, 40% eram do sexo feminino. No Reino Unido, para cada professora universitária que atinge o topo da sua carreira científica, dez homens conseguem o mesmo feito.

Um estudo feito na Canadá por Holly O. Witteman e cols. comparou a taxa de sucesso de obtenção de subsídio financeiro para projetos de pesquisa de pesquisadores principais homens e pesquisadoras principais mulheres. O estudo demonstrou que quando se compara a qualidade dos projetos, os homens têm apenas 0,9% de chance a mais de conseguirem a verba para seus projetos do que as mulheres, no entanto, quando os mesmos projetos são avaliados de acordo com o currículo do investigador principal, os homens têm 4% de chance a mais do que as mulheres de ganharem o edital. Se a qualidade dos projetos não é significativamente diferente, porque homens têm mais chances de terem seus projetos aprovados? Isso demonstra que mesmo com menos títulos e menos publicações, as mulheres possuem tanto potencial quanto os homens, no entanto precisamos abrir espaço nos níveis mais altos da carreira para elas.

 Outra explicação para isso é a existência do Fenômeno Matilda, no qual as mulheres optariam por ceder os cargos de chefia para cientistas mais titulados (homens) para atrair mais recursos para as suas pesquisas e garantir um meio de trabalho mais harmonioso.  Na UNESP, as mulheres representam 49% do corpo docente, mas são responsáveis apenas por 46% das produções científicas. As dificuldades da mulher em crescer na carreira científica refletem na sua produção científica, ao mesmo tempo em que com menos produção, surgem menos oportunidades, em um círculo vicioso.

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Estamos todos com a Cristina Yang (personagem da série Grey’s Anatomy)! E leia também nossos artigos, obrigada.

A Elsevier publicou um grande estudo intitulado “Gender in the Global Research Landscape” que analisa como o gênero afeta a vida do pesquisador, com dados de 20 anos, 12 países, e 27 áreas diferentes. Como podemos ver no texto, Igualdade de gênero na ciência brasileira aqui do blog, o Brasil, e também Portugal, ficaram bem na foto! Os dois países aparecem como os com maior igualdade de gênero dentro da C&T, onde nós mulheres somos 49% dos recursos humanos. Mas esse estudo traz muitos outros dados interessantes.

Esse estudo demonstra que a participação feminina aumentou ao longo do tempo em todos os países avaliados, sendo que na maioria dos locais, as mulheres representam 40% dos cientistas e inventores. Esse número cai bastante quando falamos do registro de patentes, onde somos apenas 15%. Comparativamente, mulheres participam menos do que os homens em projetos internacionais e também viajam menos a trabalho, o que pode ser um reflexo das menores posições que ocupam nos grupos de pesquisa e nos cargos acadêmicos.

Cerca de 70% da produção científica produzida até hoje é de autoria de homens, o que reflete séculos de desigualdades. No entanto, veja algo curioso: as mulheres realmente publicam menos do que os homens, mas não há evidências que isso impacte em suas carreiras científicas ou na qualidade do seu trabalho. Quando analisamos o fator Field-Weighted (reflete o número de citações) dos autores, mulheres e homens alcançam números muito semelhantes, o que reflete o alcance da literatura produzida pelas cientistas mulheres, apesar de terem menos títulos, suas publicações têm impactos semelhantes. Uma publicação científica é contada para avaliação do seu autor, mas existem características que lhe dão diferentes pesos, como o alcance e qualidade da revista onde foi publicada, o número de citações e significância dos resultados. É sempre importante lembrar que qualidade deve vir antes de quantidade! Inclusive o estudo demonstrou que mulheres publicam mais sobre interdisciplinaridade, ou seja, apresentam mais aplicações e correlações dos seus dados com o contexto no qual estão inseridos.

Dentre os artigos mais citados em 2014, 13% são de autoria de mulheres, se considerarmos apenas as áreas de engenharia, esse número cai para 3,7%, e se olharmos para a área de ciências sociais, sobe para 31%. Entre 2011-2015, em Portugal, cerca de 20% das publicações, e 26% na Dinamarca, em revistas da área de Medicina, foram feitas por mulheres. Em geral, o primeiro autor de um artigo é aquele que possui a maior responsabilidade e contribuição sobre este, e as mulheres representam 35% dos primeiros autores das publicações, com variações em diferentes áreas.

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Produção científica por autor, período de 1996-2000 e 2011-2015, por país e sexo. Em roxo a produção de mulheres e em verde a produção de homens. Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

 

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Medida do impacto das publicações de homens e mulheres.  Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

Mesmo com séculos de desigualdade, sendo minoria entre os pesquisadores e entre as publicações científicas, temos feito grande diferença, através de grande perseverança e luta, mostrando que somos significativas, que somos impactantes, que somos brilhantes! Publicamos menos, mas quando analisamos uma autora individualmente suas publicações são tão relevantes quanto as de qualquer outro homem. Isso deveria ser suficiente para que se pare de falar em improdutividade e inferioridade do trabalho das cientistas mulheres, troque essas palavras por OPORTUNIDADE, e faremos bom uso dela!

Se no século XV a ideia de uma cientista mulher era ridícula, hoje somos 40% desse mundo. Isso mostra, que a luta, mesmo que árdua, vale a pena.

Referências:

JACQUELINE LETA As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso.. ESTUDOS AVANÇADOS 17 (49), 2003

Renan Carvalho Ramos e Samara Pereira Tedeschi A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA DA UNESP, CAMPUS DE RIO CLARO Caderno Espaço Feminino – Uberlândia-MG – v. 28, n. 1 – Jan./Jun. 2015 – ISSN online 1981-3082

LEA VELHO, ELENA LEÓN. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DAPRODUÇÃO CIENTÍFICA POR

MULHERES. Cadernos pagu (10) 1998: pp.309-344.

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

Witteman, H. O., Hendricks, M., Straus, S. & Tannenbaum, C. Female grant applicants are equally successful when peer reviewers assess the science, but not when they assess the scientist. Preprint at bioRxiv http://dx.doi.org/10.1101/232868 (2018).

 

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Precisamos de mais antibióticos: a busca por novos fármacos

Na verdade, é uma questão simples, nada pessoal. Trata-se de sobrevivência, pura evolução, é disso que estamos falando quando o tema é RESISTÊNCIA BACTERIANA.  Podemos simplificar o mecanismo assim: as bactérias causam doenças nos humanos e nós humanos usamos os antibióticos para eliminá-las. Com o avanço da Medicina aumentamos a expectativa de vida da espécie humana. Tratamos doenças antes intratáveis, pacientes com HIV sobrevivem longos anos, transplantados são imunossuprimidos através do uso de fármacos para evitar rejeição, infecções simples são logo tratadas com antibióticos. Pensando como bactéria, isso é muita pressão. Pressão seletiva!

O uso indiscriminado de antibióticos e o aumento da sobrevida de pacientes imunossuprimidos levaram ao crescimento acelerado da resistência bacteriana. As bactérias mais vulneráveis são eliminadas pelo tratamento, no entanto uma bactéria se replica rapidamente e por isso a taxa de mutação nas bactérias também é alta. Bactérias mais resistentes são selecionadas e começam a se multiplicar. Quanto mais antibiótico é utilizado, maior a seleção, e em consequência, maior a chance do desenvolvimento de resistência.

É um verdadeiro cabo de guerra entre antibióticos e bactérias. Além disso, as bactérias são capazes de trocar materiais genéticos entre si (e entre diferentes espécies) e por isso podem espalhar os genes de resistência, através da troca de plasmídeos que contenham essas características. Se você se interessa por esse assunto pode ler muito mais, aqui mesmo no blog, no texto Crise dos antibióticos e superbactérias: como nos proteger? – Parte 1 e Parte 2, e também temos um sobre Heteroresistência aos antibióticos.

A tão falada Superbactéria, nada mais é do que uma bactéria multirresistente, sendo uma das mais conhecidas a KPC. Mas o que vem a ser isso? KPC é uma sigla para Klebsiella pneumoniae carbapenemase resistente. Os carbapenêmicos são antibióticos muito fortes, de uso restrito a graves infecções hospitalares, como Meropenem, Imipenem e Ertapenem, no entanto, a Klebsiella desenvolveu uma enzima capaz de quebrá-los e inativá-los, uma carbapenemase, causando surtos infecciosos nos hospitais.  Esse mecanismo enzimático de resistência recebeu o nome de KPC, por ter sido descrito pela primeira vez, na Klebisiella pneumoniae.

Infelizmente, nos últimos anos têm sido descritos mais mecanismos de resistência bacterianos do que novos antibióticos. Essa enzima não ficou restrita ao gênero da Klebsiella, sendo descrita em diversas outras bactérias, e segundo a Anvisa, isolados clínicos que apresentem resistência aos carbapenêmicos em testes iniciais, devem ser triados para a presença de carbapenemases e feita confirmação em laboratório de referência, conforme a Nota 01/2013. Apesar de ser a mais conhecida, a KPC não é o único mecanismo de resistência existente para esses fármacos, já sendo relatados no Brasil a presença de isolados NDM (metalo-betalactamase) e de resistência concedida por AmpC plasmidial.

Será que as bactérias estão evoluindo mais do que nós?

Em 15 de junho de 2017, um grupo italiano de pesquisa, da Universidade de Milão em parceria com departamentos de bioquímica e farmacologia dos Estados Unidos e Alemanha, formado por Sonia I. Maffioli e colaboradores publicou na revista americana Cell, o seguinte artigo: “Antibacterial Nucleoside-Analog Inhibitor of Bacterial RNA Polymerase”. O grupo descobriu uma nova molécula com potencial antimicrobiano. Isso mesmo, temos um possível novo antibiótico em teste!

E pode chamá-lo de PUM, ou melhor, Pseudouridimycin. A molécula foi isolada de um microrganismo encontrado no solo, até então desconhecido, que ganhou o mesmo nome (Pseudoridimycin). Os autores ressaltam a importância do estudo da biodiversidade, principalmente para os microrganismos do solo, de forma que fica a recomendação: “olhos atentos ao chão! ”. A grande maioria dos fármacos e substâncias de interesse clínico e econômico são descobertas na natureza, como foi o caso do primeiro antibiótico desenvolvido, a penicilina.

A ação do Pseudouridimycin se dá pela ligação à RNA polimerase de bactérias, impedindo a transcrição do genoma, a produção de proteínas e sua replicação, uma ação semelhante à da rifampicina (antibiótico já em uso). No entanto os cientistas afirmam que o mecanismo do PUM é dez vezes menos suscetível ao desenvolvimento de mecanismos de resistência. A substância foi isolada e está em estudo, tendo sido testada em laboratório in vitro e in vivo com ratos.

​​Os autores afirmam que o Pseudouridimycin possui ação contra bactérias Gram Positivas e Gram Negativas (largo espectro), apresentando baixa indução de resistência in vitro  e in vivo. A RNA polimerase bacteriana é responsável por traduzir o genoma da bactéria em proteínas, e vai incorporando a sequência de bases do RNA.

Quando a RNA polimerase vai colocar uma Uracila na fita, o PUM se liga a ela e bloqueia todo o processo. De modo que para a produção de proteínas da bactéria, sem poder produzir suas proteínas essenciais, a bactéria morre. É como uma greve geral na maquinaria de síntese bacteriana que leva ao tratamento da infecção.

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Estrutura do Pseudouridimycin (PUM) e sua interação com a RNA polimerase.

Apesar de ser uma descoberta muito promissora, a molécula de Pseudouridimycin ainda vai passar por muitos testes. Nos testes laboratoriais o PUM demonstrou atividade bactericida sobre vinte diferentes espécies de bactérias, inclusive algumas com altos níveis de resistência aos antibióticos atualmente em uso; em ratos foi capaz de curar as infecções por Streptococcus pyogenes, com baixíssimo índice de indução de resistência e boa tolerabilidade, ou seja, com baixa toxicidade.

            Todo fármaco para chegar ao uso em humanos passa por uma série de ensaios, não só de sua ação, mas também de sua segurança, percorrendo um longo caminho dos laboratórios até as farmácias.

Os testes seguintes incluem a determinação da efetividade in vivo, dose terapêutica, toxicidade, carcinogenicidade, efeitos adversos, teratogenicidade (indução de malformação em fetos) e contraindicações. Os cientistas acreditam que testes em humanos, com o novo antibiótico, devem começar em 2020, e se confirmada sua ação, chegar ao mercado dentro de uma década, segundo os pesquisadores da Universidade Rutgers-New Brunswick e da empresa italiana de biotecnologia Naicons. Para entender um pouco mais como essas etapas acontecem, você pode ler, aqui no blog os textos Conceitos Básicos da Pesquisa em Saúde, Parte 1, Parte 2 e Parte 3.

Esperamos em breve ter mais notícias do grupo de pesquisa de Sonia I. Maffiolo, com os avanços dos testes da molécula PUM. Se tudo correr conforme o esperado podemos ter um novo antibiótico em uso no ano de 2027.

Dentre todos os fármacos pesquisados, a maior dificuldade é em inovar nos antibióticos, tão necessários à nossa medicina, por isso esse estudo traz uma descoberta de grande relevância, e também aponta um norte para novas pesquisas, pois ainda existem muitos microrganismos produzindo substâncias totalmente desconhecidas por nós, que podem nos ajudar na luta contra a resistência bacteriana.

Referências:

Maffioli SI, Zhang Y, Degen D, Carzaniga T, Del Gatto G, Serina S e cols. Antibacterial Nucleoside-Analog Inhibitor of Bacterial RNA Polymerase. Cell. 2017 Jun 15;169(7):1240-1248.e23. doi: 10.1016/j.cell.2017.05.042.

Nota técnica Anvisa 01/2013. MEDIDAS DE PREVENÇÃO E CONTROLE DE. INFECÇÕES. POR. ENTEROBACTÉRIAS. MULTIRESISTENTES. Brasília, 17 de abril de 2013.

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Lina Stern, neurofisiologista e bioquímica, que nos apresentou melhor o nosso próprio cérebro

Lina Stern nasceu na Rússia, em 26 de agosto de 1878, uma dos sete filhos de um mercante da província de Kurland. Ainda jovem decidiu ser médica, e declarou que sua atração era pela filantropia e não pela ciência, em um primeiro momento. Tentou por dois anos ingressar na Universidade de Moscou, no entanto, isso não era algo alcançável para uma mulher de sua classe social, por isso deixou a Rússia e foi estudar na Suíça, sendo aceita na Universidade de Genebra. Nesse período, a Universidade de Genebra era conhecida por seu liberalismo, e grande parte dos estudantes eram estrangeiros. Em 1900, quase 50% dos alunos eram russos, e na comunidade científica suíça as mulheres eram muito mais bem aceitas do que em outros países nessa mesma época. Ainda na graduação começou a trabalhar no departamento de neurofisiologia, que seria a área pela qual se tornaria reconhecida internacionalmente. Lina Stern é conhecida por descobrir e descrever a estrutura da Barreira-hematoencefálica, estrutura diferenciada dos capilares do Sistema Nervoso que protegem o nosso cérebro, dificultando o acesso de substâncias estranhas a ele.

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Lina Stern no Laboratório de Fisiologia da Universidade de Genebra.

Lina desenvolveu em conjunto com outros pesquisadores de sua época muitos estudos inovadores em fisiologia, incluindo a descrição de descargas elétricas das células cardíacas, mecanismos do sistema nervoso central e autônomo e a fisiologia do sangue. Durante o período de 1904 à 1922, Lina trabalhou com Frédéric Batelli, publicando 54 artigos sobre enzimas respiratórias. Seus estudos foram determinantes para que, 20 anos depois, Adolf Krebs pudesse elucidar toda a rota da respiração celular, consagrando o conhecido (e temido pelos estudantes!) Ciclo de Krebs. O próprio Krebs reconheceu isso, ao receber o prêmio Nobel em 1953. A partir de 1906 se dedicou intensamente a atividade docente, se tornando a primeira professora mulher da Universidade de Genebra.

Lina começou a centrar seus estudos no conhecimento do Sistema Nervoso, e seu primeiro avanço nessa área foi a descrição de funções do nosso cerebelo, região reconhecida do encéfalo como centro do equilíbrio e dos movimentos voluntários, e também dedicou muito tempo ao estudo do líquido cefalorraquidiano (LCR ou líquor) que envolve a medula e o cérebro e age como protetor e lubrificante de todo o sistema. As observações de Lina e de outros cientistas sobre as diferenças de concentrações de substâncias no LCR e no sangue, fizeram a cientista pensar em como esses compartimentos eram mantidos tão bem isolados, enquanto o sangue é denso, vermelho e com alta concentração de proteínas e células, o líquor é límpido, incolor, com baixa densidade celular e baixa concentração de proteínas. Em 1921, Lina inseriu o termo “blood-brain barrier” (BBB), ou no português, barreira-hematoencefálica (BHE), sugerindo que essa barreira era a responsável por estabelecer as diferenças entre o sangue e o líquor, e também contribuía para a homeostase do tecido cerebral. Ela desenvolveu estudos pioneiros com animais recém-nascidos demonstrando a imaturidade da barreira-hematoencefálica e sua contribuição na segurança de fármacos, sendo convidada a se tornar consultora científica de uma grande indústria farmacêutica.

Apesar da prosperidade e da carreira conquistada na Suíça, Lina acreditava que era mais necessária em seu próprio país. Lina retornou a sua terra natal, então chamada de União Soviética, em 1924 foi convidada a assumir uma cadeira de fisiologia na Segunda Universidade Estadual de Moscou. Lina se dedicou inteiramente ao desenvolvimento da ciência, ministrando os cursos de fisiologia e bioquímica, e trabalhando em dois laboratórios de pesquisa, sendo que publicou nesse período 49 artigos em revistas russas, francesas e alemãs. Em 1929, se tornou diretora do Instituto de Fisiologia da Rússia, apresentando ao mundo, de forma completa, seus estudos sobre a barreira-hematoencefálica.

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Representação esquemática da BHE e foto de Lina Stern em 1929, dos arquivos do Instituto Smithsonian.

Lina nunca quis desacelerar sua carreira. Ela estudou como o estresse, a privação de sono, atividade física e o uso de fármacos interferia na barreira-hematoencefálica e como isso afetava a função cerebral, fazendo grande avanços em neuroendocrinologia, respostas imunes e inflamatórias no sistema nervoso, metabolismo de drogas e neurotoxicidade. Em 1934 recebeu título de “Distinta Cientista da União Soviética” e como prêmio, um carro! Em 1939, foi eleita membro da Academia de Ciências, tornou-se editora-chefe de uma revista científica e recebeu o título de “Eminent Woman of Europe”.

Em 1950, Lina, com então 71 anos, e outros cidadãos russos, foram presos, acusados de espionagem para os Estados Unidos, e ela passou 3 anos e 8 meses, em condições desumanas e sofrendo tortura, na prisão. Muitos dos companheiros de Lina foram executados, e ela foi condenada ao exílio no Cazaquistão, onde passou apenas dez meses, em razão da morte de Stalin, o que atenuou sua pena.

Durante sua prisão, Lina pedia aos guardas papel e canetas e continuou escrevendo suas ideias e hipóteses sobre a barreira-hematoencefálica e o desenvolvimento do cérebro, e com 76 anos, após o exílio, continuou suas pesquisas. Ela faleceu em 1968, após uma vida de muito trabalho, contribuindo de forma incalculável para o avanço da neurofisiologia.

Referências:

Levent Sarikcioglu. Lina Stern (1878–1968): an outstanding scientist of her time. Childs Nerv Syst (2017) 33:1027–1029;

Alla A. Vein. Science and Fate: Lina Stern (1878–1968), A Neurophysiologist and Biochemist. Journal of the History of theNeurosciences: Basic and Clinical Perspectives. 2008.