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Quando devemos parar de amamentar? A pergunta sem resposta.

Quando devo parar de amamentar meu filho? Esse questionamento parece estar trazendo muita inseguranças nos dias de hoje. O “direito“ de opinar sobre o corpo da mulher e suas decisões é muito difundido em nossa sociedade. Aparentemente esse comportamento tem sido reforçado com as mídias e o acesso à internet. Essas ferramentas permitem que a pessoa sinta mais segurança para dar sua opinião e seu comportamento é reforçado por outras vozes que também se sentiram encorajadas pela invisibilidade. Dessa forma, parece que as mulheres acabam mais atingidas agora já que qualquer um na rua se sente encorajado em coagir as mulheres. Essa sensação de ter direito sobre o corpo do outro é ainda maior quando este outro, além de mulher, é mãe. A mãe é vista como uma mulher que está “depositphotos_95943934-stock-photo-two-crab-eating-macaques-nursing.jpgcumprindo com seu papel biológico” de gestora e cuidadora deixando de ser uma pessoa para doar-se ao filho. Esta visão equivocada encoraja as pessoas de agir em prol do bebê e assim, bravejar suas meias verdades contra a mãe em “defesa” deste ser indefeso.

Para além do contexto social, o conflito entre amamentar e deixar de amamentar é uma questão biológica muito importante para a mãe-mamífero. De um lado é vantajoso amamentar o máximo de tempo possível, aumentando as chances de seu filhote sobreviver; por outro lado, amamentar é um superinvestimento. A amamentação é vantajosa para o infante porque fornece toda a energia e requerimentos nutricionais necessários, além de ajudar no sistema imunológico, por exemplo. Contudo, mesmo para os infantes em determinado momento a amamentação oferece desvantagens, pois estes crescem e suas necessidades metabólicas não podem mais ser supridas exclusivamente pelo conteúdo do leite. Essa transição também oferece riscos para o infante porque o expõe a patologias e o deixa mais vulnerável à sazonalidade de recursos alimentares. Para a mãe, a amamentação representa um custo energético muito grande, uma vez que suas necessidades nutricionais podem ser até quadruplicadas quando lactando!

Dessa forma, a decisão sobre o momento de desmame pode influenciar na saúde e na sobrevivência de ambos: filhote e mãe. Agora é fácil entender porque o tempo de desmame é muito importante.

Colocando dessa forma, parece que esta decisão deve ser tomada depois de muito estudo e muito tempo no Google, mas então como escolhíamos o momento de desmame antes da existência do Facebook?

Na nossa última postagemmacaco-do-bebê-da-amamentação-da-mãe-64176797.jpg comentamos sobre como os estudos com nossos parentes mais próximos, os primatas não humanos, podem nos oferecer pistas. Hoje, vamos falar dos estudos com fósseis de hominídeos e ossos de humanos modernos).

Apesar do estudo de espécies filogeneticamente próximas ser bastante elucidativo, estudar a própria espécie é muito importante, principalmente quanto à características exclusivas. Uma característica única dos humanos, é que o infante desmama mesmo antes de ser independente na alimentação. Esta característica tem grandes implicações: 1) precisamos de maior tempo para desenvolvimento e dessa forma a idade da nossa primeira reprodução é tardia em relação aos demais primatas, 2) o intervalo de tempo entre os filhotes é menor, visto que ao desmamarmos um filhote podemos entrar no novo ciclo reprodutivos e 3) essa necessidade de cuidado por longo período do filhote poderia ser uma das pressões evolutivas para a menopausa.

Uma forma de acessar informações sobre o desmame em hominídeos e humanos modernos, seria estudando a variação química e de isótopo de cálcio no esmalte e dentina dos dentes. Contudo, outras fontes alimentares também contêm alto teor de cálcio como o leite de outros animais. Logo, esse método não é eficiente se formos tentar acessar a idade de desmame em sociedades onde já havia a domesticação de animais como a vaca, porque não seria possível identificar quando a mãe parou de amamentar e quando começou a incluir derivados de leite na dieta do seu filho.

Tacail e colaboradores do Laboratório de Geologia em Leyon, França conseguiram desenvolver um método para diferenciar o isótopo de cálcio humano de demais animais. Este estudo testou com humanos modernos, viventes e que, portanto, sabe-se quando desmamou, se a concentração de isótopo de cálcio humano (δ44/42Ca) seria confiável para usarmos nos fósseis e dentes de humanos de populações antepassadas.

Agora que temos o método, esperamos ansiosamente pelos estudos que nos mostrarão como as mulheres, mães, hominídeos e humanos modernos (mas de tempos antigos) lidaram com essa difícil decisão de quando desmamar.

Independente desses resultados, uma coisa já sabemos: as mulheres e sim, as mães devem ter liberdade e apoio nas decisões que tomam pelo próprio corpo.

PARA SABER MAIS

Tacail, Thivichon-Prince, Martin, Charles, Viriot & Balter (2017). Assessing human weaning practices with calcium isotopes in tooth enamel. PNAS 24(114) 6268-6273 doi/10.1073/pnas.1704412114

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Ser mãe e cientista de campo, porque ainda precisamos falar sobre

Fui no solar da Marquesa de Santos. Ver a exposição da Yolanda Penteado. Belíssima exposição. Chamou me a atenção, contudo, seu apelido “princesinha”, as menções aos casamentos, aos romances. Princesinha do café: filha, descendente de família importante, tradicional, aristocrata. “Princesa” adjetivo que remete a delicadeza, que remete à aquela que tem uma posição por ser filha, não por ação. Este é o adjetivo pelo qual ela era e é reconhecida. Yolanda, esta que foi uma grande mulher, amante e incentivadora das artes, pioneira, colecionadora e que também organizou a primeira Bienal no Brasil. Ainda assim: Yolanda Penteado: a princesinha do café.

A exposição também contava da sua vida amorosa. Tento me convencer que foi um esforço em mostrar seu carácter forte, e espírito independente já que sua decisão de separação do primeiro marido foi polêmica nos anos 30.

Contudo, ao me encontrar de frente à uma carta, prova da sua paixão por Carlos Dummond… me perdi entre os seus feitos e sua função de mulher, onde as ações esperadas, as ações lembradas são aquelas que se relacionam com o papel de filha, de esposa, de amante, de mãe. O papel onde a ação não prevê o retorno exclusivo para si mesma. O papel de doação. Seriam esses os “feitos” da vida de uma mulher? Tão importantes e marcantes que não importa as demais conquistas, sempre estarão lá? Na bibliografia, na exposição, na pergunta do repórter?

Honestamente, tenho sentimentos ambíguos quando vejo a menção à vida pessoal em entrevistas, bibliografias de cientistas, economistas, feministas, em jornais e outros meio de divulgação. Por um lado me incomodo quando o foco sai do feito, seja qual for, para o relato da mulher mãe, da mulher romântica. Por outro lado, sinto que talvez precisamos falar da vida pessoal da mulher que conquistou, que venceu profissionalmente,  não porque isto lhe é fundamental, mas que para que todas as que leiam aquelas historias saibam que é possível. Que quem diz que você deve escolher entre maternidade, e/ou família ou carreira não sabe o que diz.

Então hoje, venho contar das cientistas mães. Mais especificamente, daquelas que vão ao campo. Mais especificamente ainda, das primatólogas e como são tantas histórias, vou falar de Jane Goodall.

 

Jane Goodall com filho durante trabalho de campo [alkali.edublogs.org]

Enfrentou muito machismo e descrença, mas foi  capaz de ser um das 8 pessoas a se doutorar em em Cambridge sem ter graduação. O trabalho dela teve um grande impacto em evolução humana e com o passar dos anos ela se tornou, na sua própria definição, ativista e suas atividades tem grande impacto no continente africano.

 

Os esforços de Goodall para educar as pessoas sobre o tratamento ético dos animais estende-se a pesquisadores e as crianças. Seu livro de 1989, The Chimpanzee Family Book, foi escrito especificamente para crianças, para transmitir uma nova e mais humana visão da vida selvagem. O livro recebeu o Prêmio Unicef / Unesco de Crianças do Livro do Ano de 1989, e Goodall usou o dinheiro do prêmio para que o texto fosse traduzido em suaíli. Foi distribuído por toda a Tanzânia, Uganda e Burundi para educar as crianças que vivem em ou perto de áreas povoadas por chimpanzés. Uma versão francesa também foi distribuída no Burundi e no Congo. Em reconhecimento de suas realizações, Goodall recebeu muitas honras e prêmios, incluindo a Medalha de Ouro de Conservação da Sociedade Zoológica de San Diego em 1974, o Prêmio J. Paul Getty de Conservação da Vida Selvagem em 1984, a Medalha Schweitzer do Instituto de Bem-Estar Animal em 1987, o Prêmio Centenário da Sociedade Geográfica Nacional em 1988 e o Prêmio Kyoto em Ciências Básicas em 1990. Mais recentemente, foi nomeada Mensageira da Paz pelas Nações Unidas em 2002 e uma Dame do Império Britânico pela rainha Elizabeth II de Inglaterra em 2003.

Ela é uma das principais cientista na área de primatologia e mãe. Levou seu filho ao campo. A maternidade não a impediu de ser uma brilhante cientista e ativista pelos diretos dos chimpanzés e dos africanos. Ela como Jeanne Altmann, Alison Jolly, Rosemary Grant, Patricia Wright, Kaberi Dar Gupta e tantas outras primatólogas que não somente são cientistas e mães como são ótimas no que fazem fazendo cair por terra o mito de que a maternidade compromete a cientista.

Para saber mais:

SITES

https://www.facebook.com/janegoodall/

http://www.biography.com/people/jane-goodall-9542363

https://seriousmonkeybusiness.wordpress.com/2010/10/27/feminism-and-primatology-a-female-primates-work-is-never-done/

http://mentalfloss.com/article/25109/ape-women-10-dedicated-primate-researchers

Artigos científicos e livros:

Schiebinger L. (2000). Has Feminism Changed Science? The University of Chicago Press [http://www.jstor.org/stable/3175507]

Fedigan L.M. (2000) Is primatology a feminist science? Journal od Woman in Culture and Society, 25(4). [http://people.ucalgary.ca/~fedigan/Fedigan%201997b.pdf]

Fedigan L.M. (1994). Why there are so many woman primatologist. American Anthropologist. [http://www.jstor.org/stable/682288]

Montgomery S. (1991). Walking with the great apes: Jane Goodall, Sian Fossey, Biruté Galdikas. Houghton Miffin Company.

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A NATUREZA, O BEM ESTAR E O CUIDAR

 

Por milhares de anos, os seres humanos foram selecionados para viverem na natureza, e há apenas algumas gerações temos vivido em ambiente urbano. Apesar de, em tempo evolutivo, esta mudança ter ocorrido há pouco tempo, a vida moderna permitiu que a expectativa de vida mais que dobrasse. Contudo, mudanças no estilo de vida também estão associadas com o aumento de diversas doenças, como disfunções cardíacas, diabetes tipo II e câncer além de doenças mentais, como ansiedade e depressão.

É difícil separar as variáveis que podem ter importância para o aumento da incidência dessas condições. Seria consequência da dieta? Ou resultado do sedentarismo? Ou apenas reflexo do maior acesso à saúde, levando assim ao aumento no diagnóstico? Uma das hipóteses que vem sendo levantadas questiona que também possa ser reflexo da falta de conectividade com a natureza que o ambiente urbano causou, já que o nosso corpo reagiria fisiologicamente de forma positiva ao ambiente histórico evolutivo, o ambiente que nossos ancestrais habitavam.

A diminuição do tempo em contato com a natureza já chamava a atenção há algum tempo, sendo que em 1987 os cientistas Katcher e Beck afirmavam que o estímulo artificial das cidades poderia causar exaustão e danos à saúde. Portanto, não é de se espantar que quando o conceito de parque urbano surgiu no século 19, uma das justificativas para o investimento nestas áreas fosse o cuidado com a saúde pública. Contudo, o investimento em estudos sistemáticos que objetivam entender como humanos são dependentes de interação com a natureza só começaram recentemente.

Esses estudos mostram que a simples inclusão de um pequeno jardim já podem trazer efeitos positivos em diversos casos. Um estudo comparou a recuperação de pacientes que passaram por cirurgia, entre os que tinham acesso a um jardim interno e pacientes que não tinham esse acesso, ficando assim todo o tempo de recuperação no quarto ou em outros ambientes hospitalares. O resultado mostrou que aqueles que possuíam acesso à natureza se recuperaram mais rápido. De forma similar, foi verificado que prisioneiros que ficavam em celas com vista para a natureza apresentaram menos dor de cabeça e doenças digestivas. Outra pesquisa mostra um maior desempenho acadêmico de universitários com acesso à vista para natureza.

Durante o desenvolvimento infantil, o contato com a natureza parece ser ainda mais importante. Crianças expostas à natureza possuem maior auto confiança, exercem a criatividade e tem uma chance de brincar de uma forma mais ativa, aumentando assim a atividade física. Essas atividades tem diversas vantagens na aprendizagem e escolha de foco, podendo até mesmo ajudar a aliviar sintomas de condições como a hiperatividade e déficit de atenção.

Essas pesquisas, contudo, sempre contavam com um número limitado de pessoas e analisavam apenas um grupo determinado da sociedade, por exemplo, pacientes e universitários. Portanto, era esperado que uma recente pesquisa com o envolvimento de 18500 voluntários tivesse grande repercussão. Esses voluntários se engajaram em 30 dias consecutivos de “faça algo na natureza” e também respondiam questionários diários para avaliação de como se sentiam. O mesmo questionário foi aplicado depois de dois meses, do início das atividades, ou seja, 30 dias depois que já não praticavam mais nenhuma atividade ao ar livre, para identificar se os efeitos desse contato com a natureza seriam de longo prazo. Os resultados mostraram um aumento na percepção de saúde da pessoa e na sensação de felicidade, mesmo depois de um mês de terem cessado as atividades. Mais de 30 mil atividades foram consideradas e mostram que qualquer um pode colocar um pouco de contato com a natureza no seu dia a dia.

Há diversas formas de se reconectar com a natureza que não necessitam a ida a grandes reservas estaduais ou federais. Esse contato pode sim ser estabelecido emfogaca.jpg parques urbanos ou arredores do trabalho, ou mesmo dentro da sua casa!  O contato com a natureza refere-se a uma grande rede de possibilidades que vão desde estar emerso em ambientes naturais ou até observar um passarinho no centro de grandes cidades como São Paulo. Entre as atividades que podem ser realizadas nestes espaços estão: caminhadas em parque, cuidar de animais de estimação, plantar (mesmo em vasos), ver paisagens naturais e observar animais.

Essas atividades, além de promover bem-estar, saúde e funcionar como terapia complementar à medicina tradicional também funcionam como uma via de duas mãos. Assim, quanto mais as pessoas se sentem conectadas com a natureza mais se sentirão inclinadas a ações que visam preservar o meio ambiente.

Essas pesquisa ressaltam uma urgência do ser humano reconectar com a natureza e portanto esse assunto deveria ser assunto da agenda, tanto da saúde, quanto do meio ambiente. E enquanto isso, que tal uma caminhada no parque próximo a você?

Para saber mais:

Maller, C., Townsend, M., Pryor,A., Brown, P.  e Leget L. (2007). Heathy nature healthy people: contact with nature as an upstream heath promotion intervention for populations. Health Promot Int. 21(1): 45-54.

Richardson, M., Cormack, A., McRobert, L. e Underhill, R. (2016). 30 Days Wild: development and evaluation of a large-scale nature engagement campaign to improve well-being. Plus one. http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0149777

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O obscuro universo sobre o qual todos sabem (#sqn): a hora de parar de amamentar

Tenho diversas amigas que são, ou serão em breve, mães de primeira viagem. Uma delas, dias atrás, dividiu sua mais nova agonia comigo: como e quando desmamar? Deveria ser ativo da parte dela? Deveria esperar pela vontade do bebê, mesmo que seus mamilos doam e que sinta uma urgência em voltar a certas atividades? Como balancear as necessidades da mãe e do filho?

Nessas horas, fica gritante a importância da divulgação científica. Não, não serei mais uma no exército de pessoas donas da razão vociferando regras e verdades às mães. E reconheço os limites da ciência, como deixarei claro. Mas aqui divido o fruto do meu trabalho e de colegas, para que você, mãe, “vá e seja feliz”, como diria o Delegado Nogueira do filme “Lisbela e o Prisioneiro”.

Começo dizendo: mamíferos mamam. E filhotes de mamíferos uma hora param de mamar. 

Pouco se sabe sobre amamentação e isso pode ser um viés histórico devido à maior representatividade de homens na ciência e assim, maiores esforços em estudos que a estes sejam de maior interesse (Shiebinger, 2007). Ainda assim, temos um maior conhecimento de como a amamentação e o desmame acontecem para nós, mamíferos humanos ocidentais e modernos.

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Macaco-prego – Foto por: Sérgio Lopes

 

Chega um momento em que a mãe oferece outros alimentos e começa a impedir que o filho acesse o peito, não só pela necessidade de complementação alimentar por outras fontes, como também por ter que voltar ao trabalho, ou porque o dente do filho já a machuca. E nem sempre o filho reage bem a essa limitação de acesso, isso porque mamar não é importante só para se manter nutrido, também acalma, também estreita laços.

Para os demais mamíferos, esse processo não é tão diferente, principalmente para primatas não humanos, como o chimpanzé. Conforme o filhote cresce, a proporção de energia consumida através da amamentação vai diminuindo. Contudo, existe uma negociação constante entre a mãe e o bebê, assim em humanos. Entre as variáveis que entram nessa conta, podemos destacar a disponibilidade de alimento no ambiente, o “estilo” da mãe e a capacidade do bebê em pedir. Se não há alimentos disponíveis, a mãe amamenta o bebê por mais tempo, aumentando as chances do seu bebê sobreviver. Se a mãe é mais paciente ou mais enfática, ou se filhote chora mais ao ser impedido de acessar o peito, são fatores que influenciam no tempo do desmame. Convenhamos, quem já conviveu com o processo da amamentação, não está lendo nenhuma novidade até agora, certo? Talvez apenas o relato de que isso é comum para outros primatas, e talvez todos eles.

Contudo, em humanos o desmame parece ocorrer mais cedo do que ocorre nos demais primatas. E não estou falando apenas de humanos na idade moderna pós-revolução industrial, que pressiona as mães a voltarem o trabalho. Dan Sellen, após analisar mais de 100 comunidades não industriais, percebeu que a suplementação com outros alimentos acontece em média aos 5 meses e o completo desmame aproximadamente aos 30 meses. Comparados aos chimpanzés, que amamentam até 55 meses (Kappeler e Pereira 2003), os humanos realmente amamentam por menos tempo.

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Chimpanzé – Foto: BI dos animais

 

Esse padrão de desmame no humano parece ter emergido nos hominídeos pois contaria com cuidado mais cooperativo das crianças e acesso a uma dieta mais nutritiva (Reiches et al. 2009; Kramer e Ellison, 2010; Kaplan et al. 2012). Se houver comida suficiente para dar ao filhote e a mulher pode contar com ajuda no cuidado dele e parece que amamentar por menos tempo seria possível e isso diminuiria o tempo entre um filho e outro e portanto, aumentaria a taxa de reprodução. Ou seja, uma mulher teria mais filhos ao longo da vida.

 

Contudo, ainda não sabemos ao certo quando exatamente na nossa história evolutiva começamos a desmamar em menos tempo. A primeira hipótese relacionava o desmame com a erupção dos dentes. Quando a erupção dos dentes começa, a mãe sentiria dor, ao mesmo tempo em que o filhote já teria maior independência para inclusão de outros alimentos: pronto! Boa combinação para parar de amamentar. Contudo, nos demais primatas esses dois momentos não se relacionam, ou seja, a erupção dos dentes não está vinculada com o tempo do desmame (Smith et al 2003; Godfrey et al 2003).

É muito difícil estudar a amamentação em primatas não humanos porque, como para nós, a amamentação não tem função apenas nutricional para esses animais. Dessa forma, apenas observar o contato do filhote com o peito não nos fornece real valor de quanto leite está sendo consumido, porque ele pode estar “chupetando” – ato de ficar usando a mama da mãe como chupeta e não para mamar (Cameron et al 1999, Cameron 1998). Parece fácil de concluir que há necessidade de novas pesquisas que validem quanto de leite está realmente sendo consumido (Reirsema, 2012). Saber quando o leite não é tão significativo nutricionalmente ajudaria a entender não somente quando o desmame poderia ocorrer fisiologicamente, mas também possibilitaria entender mais sobre os processos de apego envolvidos nessa interação mamãe-bebê.

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Gorila – Foto: Revista Época

 

Para entender o papel evolutivo de um comportamento, estudamos os primatas não humanos em busca de respostas e também buscamos evidências em fósseis. Agora, se estudar os primatas não humanos já é difícil, imagina através de registro fóssil? Bem, comportamento não é registrado em fósseis… mas uma parte do corpo que frequentemente resiste a milhares de anos e nos fornece informações incríveis poderia nos levar a algumas respostas: o dente.

Ainda precisamos desenvolver um protocolo confiável, mas estudos com concentração de bário tem se mostrado eficientes em quantificar a transição da alimentação por leite para alimento sólido. De forma semelhante aos famosos anéis de crescimento das árvores, os dentes mostram um padrão de crescimento que cria linhas diárias de esmalte e dentina, que podem ser vistas e contadas com um microscópio.

Enquanto o bebê está no útero não há marcas de bário, já que este não passa pela placenta. Com o consumo de leite, o nível de bário nos dentes aumenta e começa a declinar com o consumo de alimentos sólidos. E mais, os níveis de bário no leite das mães macacas é consistente com a concentração de bário nos dentes dos filhotes (Keity-mammalssucks.blog).

Aplicando esta metodologia para Neanterdals, observa-se que os bebês recebiam complementação alimentar a partir dos 7 meses e eram desmamados ao redor de 14 meses. Além do mais, esse processo era abrupto. Abrupto pode indicar uma separação ativa por parte da mãe e/ou do filhote. Para macacos conhecidos comos macacas observa-se que a mãe tem esse papel ativo no desmame; apesar de não ser de uma hora para a outra. Ela vai negando aqui, cedendo ali. E eu diria que de forma muito similar à que encontramos para macacos-prego e saguis (dados não publciados, Verderane e Fogaça).

As evidências, apesar de estarem se acumulando a cada dia mais, ainda são escassas e não nos fornecem respostas claras. Mas para você, minha amiga, eu diria que aparentemente a mãe tem um papel ativo na decisão do momento de desmame. São diversas as variáveis que influenciam na decisão desse momento, e não são apenas fisiológicos, variando de mãe a mãe, de contexto social para contexto social e de bebê a bebê. E, se é tão flexível assim, eu diria que o bebê é capaz de ficar bem em uma grande rede de possibilidades de datas e métodos de desmame. Portanto, vá e seja feliz.

Para saber mais:

Cameron, E. Z. (1998). Is suckling behaviour a useful predictor of milk intake? A review. Animal Behaviour, 56(3), 521-532.

Cameron, E. Z., Stafford, K. J., Linklater, W. L., & Veltman, C. J. (1999). Suckling behaviour does not measure milk intake in horses, Equus caballus.Animal behaviour, 57, 673-678.

Godfrey, L. R., Samonds, K. E., Jungers, W. L., & Sutherland, M. R. (2003). Dental development and primate life histories. Primate life histories and socioecology, 177-203.

Humphrey, L. T., Dean, M. C., Jeffries, T. E. & Penn, M. Unlocking evidence of early diet from tooth enamel. Proc. Natl Acad. Sci. USA 105, 6834–6839 (2008b)

Humphrey, L. T., Dirks, W., Dean, M. C. & Jeffries, T. E. Tracking dietary transitions in weanling baboons (Papio hamadryas anubis) using strontium/calcium ratios in enamel. Folia Primatol. (Basel) 79, 197–212 (2008a)

Kramer, K. L., & Ellison, P. T. (2010). Pooled energy budgets: Resituating human energy‐allocation trade‐offs. Evolutionary Anthropology: Issues, News, and Reviews, 19(4), 136-147.

Nielsen-Marsh, C. M. et al. Extraction and sequencing of human and Neanderthal mature enamel proteins using MALDI-TOF/TOF MS. J. Archaeol. Sci. 36, 1758–1763 (2009)

Orlando, L. et al. Revisiting Neandertal diversity with a 100,000 year old mtDNA sequence. Curr. Biol. 16, R400–R402 (2006)

Reiches, M. W., Ellison, P. T., Lipson, S. F., Sharrock, K. C., Gardiner, E., & Duncan, L. G. (2009). Pooled energy budget and human life history. American Journal of Human Biology, 21(4), 421-429.

Reitsema, L. J. (2012). Introducing fecal stable isotope analysis in primate weaning studies. American Journal of Primatology, 74(10), 926-939.

Schroeder, J. H. (1969). Experimental dissolution of calcium, magnesium, and strontium from recent biogenic carbonates: a model of diagenesis. Journal of Sedimentary Research, 39(3).

Sellen, D. W. (2001). Comparison of infant feeding patterns reported for nonindustrial populations with current recommendations. The Journal of nutrition, 131(10), 2707-2715.

Sellen, D. W. (2007). Evolution of infant and young child feeding: implications for contemporary public health. Annu. Rev. Nutr., 27, 123-148.

Smith, T.M., Machanda, Z., Bernard, A.B., Donovan, R.M., Papakyrikos, A.M., Muller, M.N., Wrangham, R. (2013) First molar eruption, weaning, and life history in living wild chimpanzees. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 110:2787-2791.

Schiebinger, L. (2007). Has feminism changed science? Sings 25 (4): 1171-1175

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Você é o que você fala? Como a linguagem pode moldar nossa percepção de mundo

Ainda nos dias de hoje muitos buscam identificar o que diferencia os humanos dos outros animais. Uma das características encontrada nos humanos que poderia ser esse “santo graal” é a linguagem; veja bem, não a comunicação. Mesmos os organismos bem simples são capazes de se comunicar. Muitos animais possuem vocalizações complexas e específicas, assinaturas vocais, e até mesmo um certa forma de gramática. Mas definitivamente, a complexidade da linguagem humana é surpreendente.

Outra característica surpreendente da linguagem humana é que ela é população-especifica, ou seja, um conjunto de humanos possui uma lingua que apenas eles entendem, com diversas interfaces com a cultura local. Mas quanto a língua é reflexo da cultura? A língua que falamos molda a maneira como vemos o mundo, a maneira como pensamos e a maneira como vivemos nossas vidas? Ou seja, as pessoas que falam línguas diferentes pensam diferente simplesmente porque falam línguas diferentes? A aprendizagem de novas linguagens muda a maneira como pensamos? Os poliglotas pensam diferente quando falam línguas diferentes?

Estas perguntas tocam em quase todas as principais controvérsias do estudo da mente. Essa linha de pesquisa envolve dezenas de áreas como a filosofia, antropologia, linguística, evolução e a psicologia. Os resultados e discussões decorrentes desses estudos têm importantes implicações para a política, o direito e a religião.

Pesquisas, como a da Universidade de Stanford e do MIT, têm coletado dados em todo o mundo: China, Grécia, Chile, Indonésia, Rússia, Austrália (incluindo populações aborígenes), mostram que as pessoas que falam línguas diferentes realmente pensam de forma diferente e mais: que as expressões da gramática podem afetar profundamente a maneira como vemos o mundo.

É a linguagem apenas uma ferramenta para nos expressarmos ou ela nos molda mais do que imaginamos?

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foto: TED

As línguas diferem tanto uma das outras que a forma de se expressar muda completamente entre aqueles que falam diferentes línguas. Contudo, poderíamos dizer que porque nos expressamos diferentemente o sentimento que motiva essa comunicação também é diferente?

Por exemplo, se uma língua não possui a palavra saudade, significa necessariamente que a população que fala essa língua não sente saudade ou que não valoriza esse sentimento?

Para complicar, não somente a presença ou ausência de palavras mas também diferenças na gramática e na construção das sentenças podem ser evidências de como pensamos e sentimos. Por exemplo na afirmação: “Carolina leu o último livro de Machado”. Vamos nos concentrar apenas no verbo “ler”. Para dizer esta frase em português, temos que conjugar o verbo para o tempo. Em indonésio você não precisa (na verdade, você não pode) alterar o verbo para marcar o tempo. Em russo você teria que alterar o verbo para indicar o tempo e o sexo. Então se foi André quem leu, a escolha do verbo diria isso. Em turco você teria que incluir no verbo como você adquiriu esta informação: se você tivesse testemunhado este evento, você usaria uma forma verbal, mas se tivesse simplesmente lido ou ouvido sobre isso, você usaria uma forma verbal diferente.

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Por exemplo, um experimento conduzido por LERA BORODITSKY, mostrou fotos de diferentes etapas de uma uma ação para voluntários, que deveriam colocá-las em ordem. Quando os voluntários falavam como língua mãe o inglês eles colocam a ação em ordem em sentido horário, já os hebreus, organizaram em sentido anti-horário. E os indivíduos da comunidade aborígene Kuuk Thaayorre, organizavam de leste para oeste.

Mas seriam essas diferenças causadas por linguagem ou cultura?

Pesquisas sugerem que é a linguagem um estímulo externo que determina como você pensa. Ela funciona nos dois sentidos, é moldada pela cultura da mesma forma que determina a linha de raciocínio daquela população, tendo, portanto, um papel causal na construção de como pensamos. Em termos práticos, significa que quando você está aprendendo uma nova língua, você não está simplesmente aprendendo uma nova maneira de falar, você está também aprendendo uma nova maneira de pensar. Além dos domínios abstratos ou complexos do pensamento, como o espaço e o tempo, as línguas também interferem em aspectos básicos da percepção visual – nossa capacidade de distinguir cores, por exemplo. Diferentes línguas dividem o continuum da cor de forma diferente: alguns fazem muitas mais distinções entre as cores do que outros e os limites muitas vezes não se alinham entre os idiomas.

Estudos tem mostrado que a língua falada molda a maneira como pensamos sobre espaço, tempo, cores, objetos, como as pessoas interpretam os eventos, raciocinam sobre a causalidade, compreendem a substância material, percebem e experimentam emoção, raciocinam sobre as mentes de outras pessoas, escolhem assumir riscos e até mesmo na maneira como escolhem profissões e os cônjuges.

Ou seja, mostram que os processos lingüísticos são penetrantes na maioria dos domínios fundamentais do pensamento; inconscientemente moldando-nos e tendo assim papel importante na construção dos processos cognitivos e de percepção do abstrato. Assim, a língua que falamos tem um importante papel nas decisões da nossa vida.

Em síntese essas pesquisas têm mostrando  que a linguagem molda profundamente a maneira como pensamos, a maneira como vemos o mundo, a maneira como vivemos nossas vidas.

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Tirinha: Language of the world

Para aprender mais:

S. C. Levinson and D. P. Wilkins, eds., Grammars of Space: Explorations in Cognitive Diversity (New York: Cambridge University Press, 2006).

Levinson, Space in Language and Cognition: Explorations in Cognitive Diversity (New York: Cambridge University Press, 2003).

L. Boroditsky, “Do English and Mandarin Speakers Think Differently About Time?” Proceedings of the 48th Annual Meeting of the Psychonomic Society (2007): 34.

D. Casasanto et al., “How Deep Are Effects of Language on Thought? Time Estimation in Speakers of English, Indonesian Greek, and Spanish,” Proceedings of the 26th Annual Conference of the Cognitive Science Society (2004): 575–80.

D. Gentner and S. Goldin-Meadow, eds., Language in Mind: Advances in the Study of Language and Cognition (Cambridge, MA: MIT Press, 2003), 61–79.

How language can affect the way we think

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Você é o que você come? – Dieta Paleolítica e o viés sexista.

 

A dieta paleolítica é baseada na convicção que há uma discrepância entre o que comemos atualmente e o que nossos ancestrais “evoluíram para comer”. Defende que nosso corpo está preso na idade da Pedra, ou seja, que é adaptado para comer da mesma maneira que caçadores-coletores comiam na era paleolítica. Poxa mas isso significa que estamos comendo coisas erradas e/ou de forma errada por 2,6 milhões de anos e que durante esse tempo não houve nenhum processo adaptativo. 

Parece improvável, certo? Então por que há cientistas que defendem essa ideia? Bem, porque as sociedades caçadoras-coletoras atuais apresentam menor incidência de doenças as quais vem se tornando epidemias no mundo, como diabetes, e altos níveis de triglicérides e colesterol. Deveríamos então nos alimentar como eles para sermos mais saudáveis? 

Parece a resposta mais óbvia. Contudo, se nos alimentássemos como os atuais caçadoras-coletores ainda estaríamos longe da dieta paleolítica sugerida nos bestsellers já que, como sugerido por Alyssa Crittenden, da Universidade de Nevada, os atuais caçadores-coletores não devem ser considerados como fósseis vivos. Ou seja, eles não se alimentam como à 2,6 milhões de anos.

Além disso, mesmo um dos grandes defensores da dieta paleolítica, Loren Cordian, da Universidade de Utah, comete gafes conceituas. Ele defende que devemos comer muita proteína animal, mas não diariamente e também muitos grãos, como o feijão. Ironicamente, muitos dos produtos sugeridos por ele (como muitos dos grãos) foram, na realidade, introduzidos na dieta humana apenas quando dominamos a agricultura.

Outra falha dos defensores dessa dieta é desconsiderar a plasticidade da alimentação dos caçadores-coletores, que deveriam se alimentar conforme à disponibilidade de cada ambiente. Ou seja, não há uma dieta única da era paleolítica. 

A principal argumentação dos defensores da dieta é que ela estaria alinhada com uma teoria muito aceita na biologia que diz respeito a importância da proteína animal para o processo de encefalizção. 

dieta-paleolitica-vs-dieta-tradicional

Essa teoria fala da importância da ingestão calórica proporcionada pelo consumo de carne. Alguns órgãos são super consumidores de energia. O intestino e o cérebro são exemplos. Dessa forma, é comum contestar que os animais que são consumidores de plantas fibrosas, (que exigem grandes intestinos) possuem menor relação cérebro/corpo do que os que consumem mais proteína animal, que permite um investimento energético no desenvolvimento do cérebro. 

Essa relação é bem relatada em primatas não humanos, sendo os macacos mais complexos cognitivamente os com maior relação cérebro/corpo e que possuem na sua dieta uma maior proporção de proteína animal. 

Para se ter uma ideia da importância da dieta na evolução do cérebro basta verificar que um cérebro de um chimpanzé em completo repouso gasta 8% das calorias diárias necessárias, enquanto em um homem moderno (Homo sapiens) em mesmas condições de repouso o cérebro gasta, para se manter, 20% das calorias diárias. Portanto, fica fácil de entender porque acredita-se na imensa importância da ingestão de proteína animal para evolução do homem moderno.

Mas afinal, evoluímos para comer os alimentos atuais?

Durante a revolução da agricultura houve um boom populacional de humanos. O que a primeira vista leva a crer que a qualidade da dieta aumentou. Contudo, Clark Specnes da Universidade de Ohio, acredita que o aumento populacional decorreu simplesmente porque não precisamos ser saudáveis para ter bebês. Pois, apesar do aumento populacional, a agricultura deixou a dieta dessas populações menos diversa e depois, com a domesticação de animais, os contatos com parasitas e doenças infecciosas aumentaram.

Contudo, apesar da dieta dos caçadores-coletores poder ser constituída por até 30% das calorias em carne, estes podiam ficar muitos dias sem consumir carne. Padrão que ainda se encontra nas comunidades caçadores-coletores atuais que com exceção das comunidades no Ártico (onde a dieta chega a ser constituída de 99% de carne).

!Kung Women Carrying Hay

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Pesquisas recentes têm mostrado que o papel mais importante da sociedade caçadora-coletora, ao contrário do que se imaginava até agora, não é do homem caçador mas da mulher coletora. Afinal, fica cada vez mais claro que a energia necessária para a evolução do nosso cérebro não veio apenas da carne. Elas eram e são as responsáveis por dar o sustento principalmente em momentos de escassez de alimentos. Por exemplo, a sociedade caçadora-coletora contemporânea Hadza tem quase 70% das calorias da sua dieta provida de plantas, e da mesma forma as sociedades, Kung, Aka, Baka Pygmies, Tsimane e Yanomami e Australian Aboriginals.

Parece portanto, que houve um viés dos cientistas em pesquisar o papel masculino e, como reflexo, uma tendência a super-estimar a importância da carne para evolução humana. 

Amanda Henry do Max Planck Institute, achou evidência de que comemos de tubérculos e cereais por pelo menos 100 mil anos! Ou seja, antes mesmo da agricultura, o que derrubaria outro argumento a favor da dieta paleolítica: houve tempo suficiente para tolerarmos esta ingestão. 

E quanto tempo é necessário para que ocorra adaptação? Sarah Tishkoff da Universidade da Pennsylvania defende que nossos dentes, mandíbulas, morfologia do crânio, e nosso DNA não é exatamente igual depois do surgimento da agricultara, o que significa que nosso corpo não está mais adaptado para a dieta paleolítica.

Um ótimo exemplo da evolução constante é a intolerância ao leite. Nas regiões em que houve a domesticação de animais e em que o consumo de leite foi importante, você encontra pessoas que são tolerantes a leite (Europa, Africa), enquanto onde não houve essa influência (China, Tailândia, Nativos Norte-Americanos, Nativos Sul-Americanos) encontra-se populações intolerantes à lactose. 

Fica claro então, a sua dieta ideal vai estar fortemente correlacionada com sua hereditariedade. Uma das mais brilhantes características da evolução do humano é a sua plasticidade; como Homo sapiens, somos virtualmente capazes de tirar nutrição de qualquer ambiente.

O que pode se concluir é que a dieta paleolítica pode não ser a mais indicada para você, enquanto pode ser ótima para seu colega de trabalho. Em outras palavras, a comunidade vai comer conforme o que está disponível no ambiente e dessa forma a dieta, seja na Era Paleolítica ou não, não é homogênea: existiram diversas dietas dos homens das cavernas. 

E sobre quando começamos a cozinhar? Bem esse fica para o próximo post! Até lá!

Para saber mais:
The First Human: The Race to Discover Our Earliest Ancestors. Ann Gibbons
The evolution of the human diet: the know, the unknown and the unknowable. Peter Ugar

 

Crédito de imagem: pirâmide:cnqc.ong, mulheres caçadora-coletoras: http://deedellaterra.blogspot.com.br/2013/02/cacadores-coletores-uma-revisao.html

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E aí, e as girafas?

Lembra do colegial? Te ensinaram a definição clássica de espécie biológica: membros da mesma espécie são capazes de cruzar e gerar um indivíduo fértil. Em outras palavras: 1) se não conseguem se reproduzir: são de espécies diferentes ou, 2) se reproduzem, mas o indivíduo (híbrido) nasce estéril (não é capaz de se reproduzir): são de espécies diferentes, agora 3) se reproduzem e o descendente é capaz de procriar: são da mesma espécie. Simples, não?

Só que a natureza é mais complicado do que gostamos de assumir para os alunos. Isso porque a problematização não é vista como um bom método didático na leitura tradicional da educação, essa que a maioria das escolas brasileiras seguem.

Mas eu vou levantar a bola aqui: a definição clássica de espécie biológica encontra alguns empecilhos na natureza. Uma variável bem simples não contemplada por essa definição é a existência de populações isoladas. Como saber se são capazes de se reproduzir se encontram-se isoladas naturalmente, seja por um rio, seja por uma montanha e hoje em dia ainda pode ser isolada por uma cidade ou açude? O que quero dizer é: se existem duas populações de muriqui, cada uma em um fragmento diferente que não se conectam e eles possuem cores diferentes como saber se são ou não da mesma espécie?

Já os primeiros naturalistas encontraram problemas para reconhecer espécies na natureza. Claro que não há dúvidas em diferenciar uma anta de um macaco, mas essa diferenciação fica mais complicada quando se tenta diferenciar as espécies de macacos; mais difícil ainda entre populações de um mesmo “tipo” de macaco, como o caso do muriqui explicitado acima.

Esses primeiros naturalistas utilizavam uma análise cuidadosa, mas não muito sistemática: diferenças visuais de morfologia: como diferenças na coloração de pelagem. Contudo, sabendo que existe plasticidade de características, como definir até que ponto uma variação na coloração de pele seria suficientemente grande para caracterizar uma outra espécie? Pasme que, mesmo com as análises mais sistemáticas da morfologia atual, essa linha continua não apenas tênue, mas turbulenta e perigosamente subjetiva. Veja bem, são trabalhos seríssimos, mas que se apoiam numa falta de consenso de termos.

Um novo braço da ciência apareceu com ares de quem ia resolver esta questão: a genética. Mas na ciência não há respostas simples e/ou diretas, e as análises moleculares também estão sucetíveis à interpretações quase que subjetivas, afinal para consideramos que são espécies diferentes de quanto deve ser a diferença genética? Ou: há quanto tempo deve ter ocorrido essa separação filogenética?

Enquanto isso, uma nova pesquisa está “bombando” nos blogs científicos como BBCSCIENTIFIC AMERICAN, NATURE: a girafa não é mais uma espécie, mas quatro!

Isso devido a um estudo molecular que mostrou que na realidade as 4 populações existentes de girafas possuem diferenças moleculares  suficientes para serem consideradas espécies diferentes e que estas diferenças ocorreram entre 1 a 2 milhões de anos.

Mas não só de girafas os cientistas moleculares especulam. Como não voltar a atenção para a terra onde “ afinal as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”? Assim, nossas espécies sul-americanas também tem passado por re-estruturação. Como exemplo eu não poderia de deixar de falar dos meu queridinho: os macacos-prego. Análises filogenéticas de macacos-prego o separam em dois gêneros: Cebus com 4 espécies e Sapajus com 8 espécies. O estudo mostra que as diferenças filogenéticas mas recentes que separam duas espécies de Sapajus foi de  apenas 400 mil anos. Em poucas palavras, a genética tem aumentado o número de espécies ao reclassificar o que era considerado uma espécie em múltiplas espécies diferentes.

Em aspecto de conservação essa super separação me parece lógica. Todas as populações selvagens desses animais são de extrema importância. Se separamos, fica mais fácil pedir verba e criar ações de preservação; por uma questão simples de matemática: se eu tenho duas populações de macacos-prego da mesma espécies, 1) uma com 50 indivíduos e 2) a outra com 5000 indivíduos, tenho na realidade 5050 indivíduos dessa espécie de macaco-prego. Agora, se nessa situação tenho duas espécies: espécie A com 50 indivíduos e espécie B com 5000, fica mais evidente que a espécie A precisa de ações imediatas de conservação.

O desafio está em decidir em que ponto as diferenças são suficientes para classificar como espécies diferentes ou são variabilidade populacional, ou seja, diferenças entre indivíduos e entre população. Afinal, se qualquer cor, qualquer variação morfológica e qualquer variação filogenética consideramos como suficiente para constituir uma nova espécie, além de não conseguirmos mais falar de evolução estaremos insinuando que nós, humanos somo de espécies diferentes. E a historia mostra como não somos bons em lidar com essas diferenças.

Seria as variações da nossa espécie a usada como limite para determinar variação populacional? Afinal, tenho certeza que todos temos calafrio só em pensar nas problemáticas que enfrentaríamos em querer afirmar que há mais de uma espécie humana. Já bastam as atrocidades que ainda se cometem quando falamos de diferença de gênero, identificação sexual, cultura e até roupa! Imagine se falarmos de espécies? Me fez re-lembrar quando alguns tinham alma enquanto outros não!

Contudo, esta e outras questões envolvendo definições biológicas, que não são tão simples e certeiras assim, precisam ser discutidas a sério pela sociedade. Afinal, mesmo que não se perceba de imediato a relação, a sociedade toma decisões baseadas nessas definições. Como exemplo: o que é vida? E, portanto, quando podemos desligar a respiração artificial? Ou quando começa a vida e, portanto, quando um aborto começaria a ser considerado assassinato? Ou o que é espécie e os cuidados que devemos tomar com a má interpretação da ciência?

Ignorar a problemática é deixar que alguém decida por você. Já não estamos cansados de decisões que refletem uma minoria e não a real compreensão e desejo da sociedade? Por medo de não se discutir, deixaremos que os mal intencionados decidam pela maioria.

É hora de falar de ciência.

Referências:

Rosenberg NA, et al. 2002 Genetic Structure of Human Populations. Science.

Lynch-Alfaro JW, Boubli JP, Olson LE, et al. 2011. Explosive Pleistocene range expansion leads to widespread Amazonian sympatry between robust and gracile capuchin monkeys. Journal of Biogeography 39:272-288.

Lynch Alfaro JW, Silva JD Jr, Rylands A. 2012. How different are robust and gracile capuchin monkeys? An argument for the use of Sapajus and Cebus. American Journal of Primatology 0:1-14..