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Doutora Veneno em ação: a representação de uma cientista no filme Mulher Maravilha

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Imagem: Dra. Maru ou dra. Veneno no filme Mulher Maravilha. Fonte: Divulgação

 

“Mulher Maravilha” é o primeiro filme de super heróis a ser protagonizado e dirigido por mulheres e tem sido um sucesso de público e crítica. O longa, dirigido por Patty Jenkinks e estrelado por Gal Gadot se tornou o filme dirigido por uma mulher com a maior arrecadação no primeiro fim de semana de exibição nos Estados Unidos. No Brasil, no final de semana de sua estreia, mais de um milhão de pessoas viram o filme! Não é para menos: Mulher Maravilha é uma heroína forte, cativante e inspiradora.

Mas esse texto não pretende focar na protagonista da história, nem na maravilhosa sociedade das amazonas da qual ela vem. O que eu gostaria de falar hoje aqui é sobre a personagem da Doutora Isabel Maru, ou Doutora Veneno, como também é chamada no filme. Apresentada como uma das vilãs da história, ela trabalha para o governo alemão desenvolvendo gases mortais para serem utilizados como armas de guerra.

Elena Anaya, a atriz que interpreta a dra. Maru, contou em uma entrevista que a diretora do filme, sabendo que há muitos quadrinhos e planos de fundo possíveis, decidiu focar apenas no que havia no roteiro. Anaya revelou, também, que quando questionou Jenkis a respeito da origem da prótese no rosto de Maru, descobriu que a cientista fez de propósito. Para entender os efeitos do gás no qual ela estava trabalhando, decidiu testar em si mesma. A dra. Maru, assim, parece encarnar o tropo do cientista maluco. Ela almeja progredir a ciência, não importando os custos disso – nem mesmo quando envolve o seu próprio rosto.

Quando questionada que história ela imaginava por trás da personagem, anterior à cicatriz, a atriz revelou fantasiar em sua cabeça que a Dra. Maru teve um grande amor, que partiu com outro alguém e a abandonou. Para Anaya, a Dra. Maru é uma mulher que quer ser amada, mas que tem ódio demais em sua alma. Mesmo sendo uma interpretação criada pela própria atriz para dar emoção a sua personagem, confesso que fiquei decepcionada com essa história. As motivações dos personagens masculinos são sempre bastante complexas mas, quando se trata de uma mulher, parecem resumir-se a um amor frustrado (e, portanto, um novo amor poderia “curá-la” ou “salvá-la”).

A dra. Maru dos quadrinhos parece ter sido inspirada no químico alemão Fritz Haber que, durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou na produção de gases venenosos. A esposa de Haber, Clara Immerwahr, também era química e foi inclusive a primeira mulher a obter um doutorado em química na Alemanha. Ela teve grande participação nas pesquisas do seu marido, que renderam a ele um Prêmio Nobel de Química em 1918. Ela, no entanto, não teve seu trabalho reconhecido nem concordava com os usos da ciência para a guerra. Após o primeiro uso de armas químicas nas batalhas da Primeira Guerra, Clara Immerwahr se suicidou com um tiro no peito. Fritz Haber não alterou sua conduta nem seus planos com a morte da esposa e foi para o front no dia seguinte, bem como continuou com suas pesquisas de gases tóxicos. Ou seja: o que motivava o dr. Maru da vida real certamente não era o amor, tanto é que a perda de sua esposa não fez com que ele abandonasse o estudo de armas químicas.

Mas o que mais me incomodou no filme (spoiler alert!) foi a cena em que Ares, o deus da guerra, revela que foi ele quem sussurrou nos ouvidos da Dra. Maru as fórmulas para o gás altamente destrutivo que ela descobriu. Isso tira todo o brilhantismo da cientista: seu trabalho não foi dela; ao invés disso foi dado por um homem! Pôxa, Mulher Maravilha, você estava indo tão bem!

Trazer uma mulher cientista para o filme é muito positivo, pois mostra para as meninas que elas podem seguir essa carreira, geralmente associada apenas aos homens. Agora, tirar as conquistas da Dra. Maru e atribuir elas a Ares prejudica em muito essa representação. Ao final, em um ato de bondade, a Mulher Maravilha escolhe não matar a Doutora Veneno. Como vários filmes de super heróis tem continuações, podemos esperar ver a Dra. Maru novamente na franquia de Mulher Maravilha. Só nos resta torcer para que a personagem se desenvolva de uma forma melhor do que foi feito nesse primeiro filme.

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Mulheres da literatura: como a crítica literária enxerga as escritoras

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Imagem 01: ilustração feita por JulianaJuliana Adlyn para o blog

Homens e mulheres são vistos e tratados de forma desigual em diversas áreas. (Na nossa coluna “Em off: feminismo”, você pode encontrar diversos exemplos de como isso se dá na academia). Nos Estados Unidos, uma iniciativa chamada “VIDA Count: Women in Literary Arts” está levantando esse debate na literatura, como forma de chamar a atenção para o problema e procurar soluções. A VIDA é uma organização feminista sem fins lucrativos que desde 2009 publica um anuário com dados sobre a disparidade de gênero das maiores publicações literárias e resenhas de livros do país. Para tanto, um grupo de voluntários analisa trinta e nove grandes e respeitados periódicos que publicam críticas literárias.

Os dados de 2016 não saíram ainda, mas abaixo pode-se ver a disparidade na revista The New York Review of Books de 2015:

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Imagem 02: gráficos sobre os dados da The New York Review of Books de 2015
Fonte: VIDA Count

Enquanto 366 homens foram submetidos à crítica, apenas 89 mulheres tiveram seus trabalhos analisados no mesmo período. A redação dessas críticas também foi fortemente masculina: foram 216 homens, 52 mulheres e 2 pessoas trans não-binárias. Já em artigos, 120 foram assinados por homens e apenas 44 por mulheres.

Partindo dessas disparidades de gênero, os pesquisadores Andrew Piper e Richard Jean So decidiram analisar a forma como homens e mulheres apareciam nessas críticas literárias e se alguma coisa mudou nos últimos 15 anos. Eles contam que focaram no suplemento literário de domingo do jornal The New York Times primeiro por ele ter uma grande influência e segundo porque o jornal reconheceu os problemas apontados pela VIDA e está tentando modificar esse cenário.

Assim, os pesquisadores separaram as críticas em dois grupos, divididos por gênero, e rodaram testes para procurar palavras que indicassem as diferenças entre eles. Os testes apontaram “palavras características” – aquelas usadas mais frequentemente em um grupo ou outro. Eles elaboraram uma tabela em que listaram essas palavras e também a probabilidade delas aparecerem em críticas de um grupo versus outro:

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Imagem 03: tabela elaborada pelos pesquisadores
Fonte: New Republic

Por exemplo, nas críticas de 2000 a 2009, é 3.07 vezes mais provável que a palavra “marriage” (casamento) seja usada para descrever uma escritora do que um escritor. Esse número caiu para 1.90 para as críticas entre 2010 e 2015. Ainda assim, o contraste entre as palavras características de autores e autoras é gritante. Aos homens, ainda se atribui uma escrita de ideias, enquanto às mulheres, uma de emoções.

Como os autores do estudo apontaram, a tabela mostra que a velha divisão de mulheres/privado e homens/público ainda prevalece nas críticas analisadas. Palavras como guerra, política, herói, presidente, tem muito mais probabilidade de aparecerem em críticas de livros escritos por homens, enquanto que nas críticas a autoras, é mais provável que apareçam as palavras amor, família, sexo, crianças.

Piper e Jean So concluem que representação não necessariamente significa uma menor discriminação de gênero. Embora o jornal The New York Times tenha se comprometido com mudanças, velhas noções e estereótipos de gênero estão se mostrando mais difíceis de serem mudados.

Referência:
JEAN SO, Richard; PIPER, Andrew. Women Write About Family, Men Write About War. Disponível em: https://newrepublic.com/article/132531/women-write-family-men-write-war

 

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Livro “A guerra não tem rosto de mulher” conta a trajetória de mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial através da História Oral

Embora muitas vezes se diga que a História é contada pelos vencedores, pesquisadoras e pesquisadores tem tentado, já há algum tempo, mudar esse cenário. Histórias de pessoas comuns, de trabalhadores, de mulheres, de minorias étnicas, vem ganhando espaço nas pesquisas acadêmicas. (Às vezes os resultados demoram para chegar ao público geral, e iniciativas como o blog Cientistas Feministas tem justamente a intenção de aproximar universidade e sociedade.)

Um dos campos historiográficos que tem possibilitado contar essas outras histórias é a História Oral. Segundo o CPDOC, a História Oral começou a ser utilizada na década de 1950 nos Estados Unidos, México e Europa e difundiu-se desde então. No Brasil, foi a partir dos anos setenta que começaram os trabalhos com entrevistas como fontes de pesquisa. Nessa mesma década, a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch começou a colher depoimentos de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. O resultado foi “A guerra não tem rosto de mulher”, o primeiro livro da jornalista.

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Imagem: três guerrilheiras soviéticas em ação durante a II Guerra. Fonte: The Atlantic

Publicado primeiro em uma edição curta em uma revista soviética em 1984 e no ano seguinte no formato de livro, o texto foi traduzido para o português e lançado no Brasil somente no ano passado. “A guerra não tem rosto de mulher” intercala trechos de depoimentos com comentários da autora. Nesses espaços, Svetlana reflete sobre o próprio fazer de sua obra e da dificuldade de trabalhar com esse tipo de material.

Uma das preocupações acerca da História Oral é como ela se aproxima do que “de fato aconteceu”. Mesmo com outros tipos de documento como suporte, no entanto, tal tarefa é impossível: não existe a verdade absoluta sobre o passado. Nas palavras do historiador David Lowenthal:

Não há verdade histórica absoluta à espera de ser descoberta; por mais diligente e imparcial que o historiador seja, ele, assim como nossas lembranças, não estará apto a relatar o passado “como ele realmente foi”. Nem por isso a história fica invalidada; persiste a crença de que o conhecimento histórico venha a lançar alguma luz sobre o passado, e que componentes da verdade ainda nele permaneçam (LOWENTHAL, 1998, p.143-4).

Svetlana Aleksiévitch coletou depoimentos de mais de quinhentas mulheres. Ouviu histórias de tanquistas, franco-atiradoras, enfermeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, lavadeiras, comandantes, partisans… Ela explica porque quis ouvir mulheres que exerceram atividades tão diferentes:

Depois de classificar os endereços que tinha, formulei assim: tentar entrevistar mulheres de diferentes profissões militares. Cada um de nós vê a vida segundo sua atividade, segundo seu lugar na vida ou nos acontecimentos de que participa. Podemos pressupor que a enfermeira viu uma guerra, a padeira viu outra, a paraquedista uma terceira, a piloto viu uma quarta, a comandante de um pelotão de atiradores de fuzil uma quinta… Cada uma delas esteve na guerra que existia em seu raio de visão: a de uma era a mesa de cirurgia: “Vi tantos braços e pernas amputados… Já nem acreditava que em algum lugar havia um homem inteiro. Parecia que todos estavam feridos ou mortos…” (A. Diémtchenko, primeiro-sargento, enfermeira); de outra, os caldeirões da cozinha de campanha: “Depois de um combate às vezes não sobrava ninguém… Você cozinhava caldeirões de mingau, caldeirões de sopa, e não havia para quem dar…” (I. Zínina, soldado, cozinheira); a da terceira era a cabine de piloto: “Nosso acampamento ficava na floresta. Cheguei do voo e decidi entrar na floresta; já estávamos no meio do verão, os morangos estavam no ponto. Passava por uma trilha quando vi um alemão no chão… Ele já estava escuro… Me deu medo. Até aquele momento ainda não tinha visto mortos, e já combatia na guerra havia um ano. Lá no alto era diferente… Quando você está voando, só pensa em uma coisa: encontrar o alvo, bombardear e voltar. Não chegávamos a ver os mortos. Não tínhamos esse medo…” (A. Bóndarieva, tenente da guarda, piloto).

Nos trechos selecionados pela autora para o livro, percebe-se uma preocupação que ela mesma afirma ter:

Estou escrevendo uma história dos sentimentos… Uma história da alma… Não é a história da guerra ou do Estado, e não é a hagiografia dos heróis, mas a história do pequeno ser humano arrancado da vida comum e jogado na profundeza épica de um acontecimento enorme. Na grande História.

Os depoimentos trazem o dia a dia na guerra, os cheiros e cores do conflito. Trazem também a dureza de ser mulher em um ambiente masculino:

Não havia algodão e ataduras suficientes para os feridos… Para outros usos, então… Roupa de baixo feminina só apareceu uns dois anos depois, talvez.
Maria Semiónovna Kaliberdá, sargento, comunicações

Ainda sobre menstruação, uma outra mulher contou:

E, por causa da sobrecarga, deixamos de ser mulheres… Se transformou, a nossa… Perdemos nosso ciclo biológico… Dá para entender? Foi terrível. Era terrível pensar que você nunca mais vai ser mulher…
Maria Nésterovna Kuzmenko, primeiro-sargento, armeira

Quando a guerra finalmente acabou, as mulheres que lutaram achavam que finalmente iam ter paz, mas “depois da guerra ainda tivemos mais uma guerra. Terrível também”. Elas contam que foram hostilizadas pelas mulheres que não foram à guerra e pelos homens, que as abandonaram.

Depois de trinta anos começaram a nos homenagear… Convidavam para encontros… No começo nos escondíamos, não usávamos nem as medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos. Era completamente diferente… Vou lhe dizer, tomaram a vitória de nós.
Valentina Pávlovna Maksimtchuk, operadora de artilharia antiaérea

Lendo os relatos, tem-se a certeza de que essa história precisa ser contada, ainda que seja difícil. Nas palavras de uma delas: “É terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. Rememorar a violência, as mortes, o cotidiano duro e transformar isso em palavras é o mais próximo que conseguimos chegar do que essas mulheres passaram:

Será que alguém que não esteve lá consegue entender? E como contar? Com que rosto? Bom, me responda você: com que rosto isso deve ser recordado?
Tamara Stiepánovna Umniáguina, terceiro-sargento da guarda, enfermeira-instrutora

Referências:

ALESKIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

LOWENTHAL, David, “Como conhecemos o passado”, Projeto História, [v.]17, 1998. Disponível em:
< http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/11110/8154 >. Acesso em: 16 mai. 2016.

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Estudo aponta a discriminação no mercado de trabalho alemão contra mulheres muçulmanas

Em 2011, diversos países do Oriente Médio e norte da África foram tomados por protestos no que ficou conhecido como “Primavera Árabe”. Na Síria, a situação transformou-se em guerra civil, que já dura cinco anos. A ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) divulgou este mês que a guerra já deixou mais de 300 mil mortos. Uma outra consequência da guerra é que milhões de sírios deixaram suas casas fugindo do conflito sangrento. Turquia, Líbano, Jordânia e Alemanha são, nessa ordem, os países que mais receberam sírios até agora. Na Alemanha, estima-se que já sejam mais de 600 mil refugiados.

No novo país, além da dor da família e amigos deixados para trás, é preciso se acostumar com muitas diferenças: culturais, linguísticas, climáticas… Além disso tudo, as mulheres muçulmanas que desejam se inserir no mercado de trabalho alemão tem que enfrentar uma barreira de preconceito. É o que diz um estudo publicado este mês, intitulado “Discrimination against Female Migrants Wearing Headscarves” (Discriminação contra mulheres migrantes que usam véu, em tradução livre). O estudo foi conduzido pela professora Doris Weichselbaumer, da Johannes Kepler Universität Linz, em parceria com o IZA – Institute for the Study of Labor.

O estudo aponta que, sob uma perspectiva política, a inserção no mercado de trabalho é crucial para os migrantes. Além dos sírios, a Alemanha recebe migrantes muçulmanos oriundos da Turquia, que desde a década de 1970 são um grupo demográfico grande no país. O estudo, então, foca em nomes de origem turca e foi desenvolvido da seguinte maneira: três currículos fictícios de mulheres foram enviados para vagas de trabalho. As mulheres tinham qualificações similares, e a foto usada foi a mesma, apenas em uma delas um véu foi acrescentado. No primeiro currículo, um nome tipicamente alemão, “Sandra Bauer”; no segundo, a mesma foto mas um nome de origem turca, “Meryem Öztürk” e no terceiro, a mesma mulher e o mesmo nome, mas com véu. O estudo destaca que, na foto, o pescoço não aparece coberto com o véu, indicando que ela não seria particularmente rigorosa com a religião, muito menos uma religiosa radical.

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Legenda da imagem: fotos utilizadas no estudo e o percentual de resposta positiva dada a cada uma delas

Segundo o estudo, para receber a mesma quantidade de retornos para entrevistas, a candidata com nome turco e véu tem que enviar na média 4,5 vezes mais currículos do que a candidata com o nome alemão e sem véu, o que sugere discriminação contra mulheres migrantes – principalmente se elas usarem véus.

Esses números, no entanto, variam de acordo com a função pretendida. Para o cargo de secretária,“Meryem Öztürk” teve que enviar “apenas” 3,5 vezes mais currículos. Já para a função de chefe contábil foram 7,6 vezes mais: “Supõe-se frequentemente que a discriminação diminui com o aumento da escolaridade. No entanto, vestir um véu pode ser considerado ainda mais inapropriado para posições com maior status profissional” (Weichselbaumer, 2016, p. 13, tradução própria).

Como o estudo indica, houve um aumento na islamofobia depois dos ataques terroristas às torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001. Na Alemanha, ataques xenofóbicos contra muçulmanos vem se intensificando. A migração em massa de sírios para o país escancara essas tensões. Como Weichselbaumer apontou, o fim da discriminação no mercado de trabalho é um passo fundamental para a integração de muçulmanas e muçulmanos na Alemanha.

Fonte: Weichselbaumer, Doris. Discrimination against Female Migrants Wearing Headscarves. Disponível em: http://ftp.iza.org/dp10217.pdf

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Dissertação explora a trajetória de Palmares e Zumbi através de quadrinhos

A História pode ser apreendida através de meios bastante diversos, compreendendo novelas, filmes, músicas, livros e revistas. Cada vez mais professoras e professores de História tem se atentado a isso e procuram trazer esse conhecimento prévio dos estudantes para a sala de aula.

Uma crítica frequente à produção histórica acadêmica é a pouca circulação dos seus resultados, ficando muitas vezes restrita entre os pares. Uma das causas apontadas é a linguagem e estrutura acadêmicas, que dificultariam a leitura para quem não é do meio.

Novos pesquisadores tem pensado nisso, e o blog Cientistas Feministas é uma iniciativa que procura divulgar tanto a História quanto os demais campos do conhecimento de forma mais acessível.

Um trabalho defendido em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) procurou inovar em seu formato: trata-se de uma dissertação totalmente feita em HQ (História em Quadrinhos).

Produzida por Vinícius Finger, o trabalho intitulado “Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” busca discutir as diversas narrativas históricas acerca do Quilombo de Palmaras e de Zumbi, seu líder. Dividida em cinco partes, a dissertação trabalha com a visão dos acontecimentos durante o período colonial, imperial e republicano, este último dividido nas partes Zumbi pós-abolição, Zumbi revolucionário e Zumbi eterno. Faz isso de uma forma bastante interessante: através das aulas que abordam tais assuntos durante esses períodos. Assim, discute também o sistema educacional brasileiro através do tempo.

No período colonial, percebe-se a presença de um discurso religioso bastante forte. Já no período imperial, a HQ mostra que a história de Zumbi era estudada como mais um obstáculo no processo de unificação nacional (FINGER, 2014, p. 53) e o bandeirante Domingos Jorge Velho, apresentado como um herói.

Em “Zumbi pós-abolição”, o autor representa uma sala de aula no Estado Novo de Getúlio Vargas, onde fica latente a incongruência entre um discurso que dizia que a escravidão no Brasil foi mais branda com a realidade da senzala.

No quarto período, chamado pelo autor de “Zumbi revolucionário”, o Brasil está na ditadura, e um professor universitário, vigiado pelos militares, encontra-se com uma aluna fora da sala de aula para explicar-lhe a versão ensinada nas escolas não condiz com o que foi a luta em Palmares:

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Imagem 01: professor explicando à aluna sobre Palmares. Fonte: FINGER, 2014, p. 91

No quinto período, “Zumbi eterno”, adolescentes assistem um filme sobre Zumbi, que desconstrói a primeira versão mostrada na dissertação – a colonial – em que Zumbi teria se matado para não se entregar. Depois do quinto período, o autor reproduziu cenas cotidianas do Brasil de hoje em que mostra como o país ainda continua racista:

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Imagem 02: cena racista atual representada na HQ. Fonte: FINGER, 2014, p. 134

“Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” é um trabalho acadêmico que inovou em seu formato. Pode ser usado em sala de aula para discutir com os alunos a forma como a História enquanto área do conhecimento é construída ao longo do tempo. A linguagem dos quadrinhos também pode atrair mais leitores e, assim, diminuir a distância entre o conhecimento produzido nas universidades e o público em geral.

Se você se interessou, a dissertação está disponível on-line aqui.

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Síndrome de impostor

Talvez em algum ponto da sua vida você já tenha se questionado se “merece” estar onde chegou. Até aí tudo bem, muitas pessoas também devem se perguntar isso vez ou outra. O que não é normal é que, a cada feito, conquista e/ou realização sua você pense que foi por acaso, sorte e que logo vão descobrir que na verdade você é uma fraude. Se você se sente assim, saiba que não está sozinha(o): é bem provável que você sofra de síndrome de impostor!

O que é síndrome de impostor?
O termo “síndrome de impostor” foi cunhado em 1978 pelas psicólogas Pauline R. Clance e Suzanne A. Imes e definido como “uma experiência interna de falsidade intelectual, que parece ser particularmente prevalente e intenso em uma amostra de mulheres bem-sucedidas”. O termo inicialmente se aplicava a mulheres, mas hoje se sabe que homens também podem sofrer desse mal (em porcentagem menor). O termo vem sendo usado para definir aqueles indivíduos com uma incapacidade de aceitar suas realizações e com um medo persistente de serem expostos como uma fraude. Embora não seja tida como uma desordem psicológica, a síndrome de impostor tem sido alvo de diversos estudos.

Síndrome de impostor na Academia
As sociólogas Jessica L. Collett e Jade Avalis conduziram uma pesquisa na Universidade de Notre Dame com 461 estudantes de doutorado, dos quais 46% eram mulheres. Elas descobriram que mais mulheres do que homens (11% versus 6%) que aspiravam a seguir na carreira acadêmica desistiram. Para elas, isso está relacionado a síndrome de impostor.

Em áreas onde ainda predominam mais homens que mulheres, a pressão sobre elas pode ser ainda mais forte. Ter uma orientadora, no entanto, nem sempre ajuda: o estudo conduzido por Collett mostrou que um número significativo das entrevistadas afirmou sentir que nunca será tão boa quanto sua mentora.

Você não está sozinha(o)
Se você se sente assim, saiba que não é a única(o). Até mesmo pessoas consideradas bem-sucedidas pela sociedade sofrem com a síndrome de impostor. A atriz Emma Watson confessou que logo após terminar as filmagens de Harry Potter, sentiu-se uma fraude. Conversar com outras pessoas sobre como você se sente pode ter resultados muito bons. Você vai perceber que boa parte também tem suas inseguranças, seus altos e baixos e que não existe pesquisador-maravilha.

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Fique tranquila(o): diferente do cãozinho, você está habilitada(o) para desempenhar suas funções!
Legenda da imagem: cachorro em um laboratório de química com a frase “Eu não tenho ideia do que estou fazendo”.

Não se preocupe: se você se sente uma fraude, é bem provável que não seja uma. Se, no entanto, você tem um nível de confiança muito alto, cuidado! Pode ser que você sofra o efeito Dunning-Kruger, ou seja, não percebe sua própria ignorância.

Para saber mais:

Teste (em inglês) para saber se você sofre de síndrome de impostor
http://paulineroseclance.com/pdf/IPscoringtest.pdf

PRICE, Michel. ‘Impostors’ downshift career goals. Disponível em:<http://www.sciencemag.org/careers/2013/09/impostors-downshift-career-goals >.

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Uma breve história dos foguetes e do início das viagens espaciais

“Um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. A famosa frase do astronauta Neil Armstrong, ao descrever sua caminhada em solo lunar, dá uma boa dimensão das conquistas humanas no século XX. A corrida espacial travada entre Estados Unidos e União Soviética, que culminou na chegada da humanidade à lua em 1969, é uma história bem conhecida de todos. O que muita gente não sabe, no entanto, é que o início da atividade espacial é bem menos glamoroso e ocorreu, por vezes, de forma amadora, apenas pouco antes.

Os avanços da ciência do fim do século XIX e início do XX criaram em entusiastas um sentimento de que havia muito ainda a ser conquistado e que era apenas questão de tempo. Nas décadas de 1920 e 1930 diversos grupos amadores de foguetismo foram criados mundo afora. Em Nova Iorque, escritores de ficção científica e entusiastas se uniram no American Interplanetary Society, cujo objetivo era descobrir meios para chegar a outros planetas. O grupo foi fundado em 1930 por onze homens e uma mulher e, em um ano, já tinha mais de cem membros. Eles conseguiram, em 1933, lançar um fogute que atingiu pouco mais de setenta metros de altitude antes de explodir no ar. Eles ainda fizeram mais algumas tentativas, e uma delas acabou ferindo uma mulher que estava tentando fotografar o foguete. Em 1934, o grupo mudou seu nome para American Rocket Society e passou a concentrar os esforços mais em estudos do que em testes. Eles também mantinham bom relacionamento com outros grupos de foguetismo da época, em especial o britânico e o alemão, e trocavam informações e ideias.

Paralelo ao esforço de entusiastas amadores, cientistas também procuravam descobrir as fórmulas que levariam o ser humano para além da estratosfera. O cientista Robert H. Goddard vinha trabalhando com o tema desde a década de 10 e, em 1926, lançou o primeiro foguete movido a combustível líquido do mundo. Após um acidente em 1929 com um de seus protótipos, ele se mudou para o Novo México, onde continuou pesquisando.

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Imagem 01: Goddard e seu foguete
Fonte: Wikipedia

Goddard também se envolveu em uma polêmica bastante curiosa. Após a publicação de um artigo em 1919, no qual discutia a forma de alcançar altitudes extremas e chegar até mesmo à lua, um editorial no jornal The New York Times o acusou de não conhecer a lei de ação e reação, e que, no vácuo, uma reação não ocorreria. O editorial ainda afirmou que lhe faltava conhecimento dado no ensino médio. O jornal The New York Times se retratou em 1969, após a caminhada de Neil Armstrong na lua.

Um estudo pioneiro para o desenvolvimento dos foguetes foi publicado pelo russo Konstantin Tsiolkovsky, em 1903. Nele, Tsiolkovsky calculou que a velocidade horizontal necessária para a órbita mínima ao redor da Terra seria 8000 m/s, e que isso seria possível com um foguete movido a oxigênio e hidrogênio líquidos. Seu trabalho influenciou as conquistas do foguetismo não apenas na Rússia (depois de 1917 União Soviética), mas também na Alemanha e Estados Unidos.

Na Alemanha, um estudo importante para o foguetismo foi lançado em 1923 por Hermann Oberth. Isso impulsionou a criação de uma associação amadora de foguetismo, chamada Verein für Raumschiffahrt, em 1927. O grupo conseguiu lançar um protótipo de foguete com combustível líquido em 1930. Poucos meses depois, em um teste com álcool um foguete explodiu e matou um dos fundadores do grupo, Max Valier. Em 1932 o governo alemão propôs um contrato ao grupo. As divergências sobre o contrato (que foi rejeitado) enfraqueceram o grupo, que acabou no ano seguinte. O jovem Wernher von Braun, integrante do Verein für Raumschiffahrt, foi trabalhar no Departamento de Armas do Exército.

Com a ascenção do nazismo, as pesquisas sobre foguetes ganharam força na Alemanha. Isso porque o governo pretendia usá-los para fins militares. Em 1937 foi fundado o Centro de Pesquisas do Exército de Peenemünde. Lá, foram desenvolvidos foguetes e mísseis usados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O mais famoso deles, o V-2, matou milhares de pessoas – mais em sua produção que em explosões. Estima-se que 9 mil pessoas, entre civis e militares, morreram em decorrência dos ataques de V-2s na guerra, e pelo menos 12 mil pessoas morreram em decorrência de sua produção – prisioneiros de campos de concentração usados em trabalhos forçados. O V-2 também foi o primeiro foguete a cruzar a atmosfera e atingir o espaço, em 1944.

Nos Estados Unidos, alguns membros da American Rocket Society fundaram, no final de 1941, a empresa Reaction Motors, Incorporated. Ao final da guerra, ela era a maior fabricante de foguetes movidos a combustível líquido no país. A empresa também ajudou a construir o Bell X-1, o primeiro avião a quebrar a barreira do som, em 1947. Muitos cientistas alemães que trabalharam em projetos aéreos migraram para os Estados Unidos após a guerra, incluindo Wernher von Braun, e continuaram a desenvolver o foguetismo. A corrida espacial, travada entre Estados Unidos e União Soviética a partir da década de 1950 deu um grande impulso no desenvolvimento de novas tecnologias.

Em 1957 a União Soviética lançou o Sputnik, o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra. A URSS também foi pioneira no envio de uma pessoa ao espaço: o cosmonauta Yuri Gagarin foi o primeiro ser humano a ver a Terra de longe, em 1961. Dois anos depois, foi a vez da Valentina Tereshkova orbitar a Terra. Ela foi a primeira civil e também a primeira mulher a ir para o espaço. Valentina tinha apenas 26 anos à época, e passou quase 3 dias ao redor da Terra (mais do que a soma dos tempos de todos os americanos que tinham ido para o espaço até então). Ao todo, ela orbitou a Terra 48 vezes.

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Imagem 02: a cosmonauta Valentina Tereshkova
Fonte: BBC

A conquista de Valentina e da União Soviética foi tanto tecnológica quanto social:

“Em 1963, a russa Valentina Tereshkova orbitou a Terra; do ponto de vista da liberação das mulheres no Ocidente a vergonha do programa dos EUA não era tanto que uma mulher pilota não duplicou o feito como que a nossa sociedade não sentia que esse passo era sequer imaginável. Este tipo específico de história social era algo que revistas de ficção científica da década de 1930 e 1940 raramente, ou nunca, previram” (CARTER, 1977, p. 51 tradução própria).

De fato, levou vinte anos para que os Estados Unidos levassem uma mulher ao espaço. Entretanto Valentina foi – e continua sendo! – a única mulher a fazer uma missão sozinha no espaço. Uma pena que a igualdade de gênero não avance na mesma velocidade das conquistas espaciais.

Fontes: CHENG, John. “We want to play with Spaceships”: Popular Rocket Science in Action. In: Astounding Wonder: Imagining Science and Science Fiction in Interwar America. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2012 (p. 251-300).

CARTER, Paul A. The creation of tomorrow: Fifty years of magazine science fiction. New York: Columbia University Press, 1977.