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Descobrindo novos planetas, redescobrindo a Terra

Sempre nos perguntamos se estamos sozinhos no Universo. A probabilidade é que não estejamos: já se conhece mais de 4.000 planetas fora do Sistema Solar e é possível que existam mais de 60 bilhões de planetas com chances de habitabilidade parecidas com o nosso em todo o Universo. Se vamos conseguir achar vida – para não dizer vida complexa – nesses planetas é outra história. O exoplaneta em zona habitável mais próximo de nós, Proxima Centauri b, está a mais de quatro anos-luz de distância de nós. Se a mera ideia de viajar até lá está bem distante da realidade, encontrar um planeta “substituto” para a Terra está ainda mais distante no horizonte de possibilidades. A ciência diz que não existe mesmo um “planeta B”.

A astrônoma Raphaëlle Haywood, Sagan Fellow no Harvard College Observatory (EUA), tem plena consciência disso e busca compartilhar esta perspectiva ganha com anos de pesquisa sobre exoplanetas. Para ela, a descoberta de planetas longínquos “é uma nova revolução Copernicana” que nos ajuda a enxergar com mais clareza o nosso lugar no Universo – e nos ajuda, também, a entender que é preciso cuidar bem da Terra, nossa casa e único planeta comprovadamente habitável que conhecemos. 

Haywood conta um pouco mais o assunto nesta entrevista ao blog Cientistas Feministas.

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Raphaëlle Haywood (arquivo pessoal)

Quando você percebeu que queria ser uma astrônoma?

Quando criança, a primeira coisa que eu queria ser era florista. Eu amo flores, árvores e plantas… e depois eu queria ser uma botânica. E desde sempre, eu sabia que eu queria fazer um doutorado. Meu pai fez doutorado (em ornitologia), e acho que isso teve uma influência forte para mim desde pequena. Minha mãe tem um mestrado em biologia e minha família tem uma veia acadêmica bastante forte, e me sinto muito sortuda por isso e por ter tido bons professores. 

Então desde cedo eu sabia que queria fazer um doutorado, mas não sabia ainda em que área. Quando mais nova, pensava bastante em botânica, mas, quando me tornei adolescente, comecei a pensar em astronomia. Eu queria muito entender como o mundo funciona e que padrões existem no funcionamento das coisas – e então fui estudar Física, o que parecia um percurso natural, porque a Física te ajuda a entender como o mundo natural e as coisas funcionam. Tive uma professora que ensinava sobre estrelas e planetas – ela me contou sobre esse grupo de pesquisa na Escócia (na Universidade de St. Andrews), que se debruçava sobre planetas fora do nosso sistema solar, ou exoplanetas. E então se tornou muito claro para mim que eu queria trabalhar com isso, e fui para lá pesquisar isso no doutorado. 

A sua pesquisa envolve encontrar e caracterizar planetas pequenos no entorno de estrelas fora do nosso sistema solar. Como se encontra e se mede estes exoplanetas?

Quando se tem um planeta orbitando uma estrela, esse planeta gira ao redor dela porque a gravidade dessa estrela “puxa” esse planeta para perto. Ao mesmo tempo, esse planeta está exercendo uma força contrária sobre essa estrela também, mas proporcional ao seu tamanho. Quando o planeta é pequeno, ele exerce uma força pequena sobre a estrela – é pequena, mas está lá. Então a estrela “balança” um pouco – e esse “bamboleio” cria uma oscilação na luz da estrela. 

Luz é basicamente onda – e as cores que vemos no arco-íris têm comprimentos de onda um pouco diferentes entre si. Nós vemos, por exemplo, a luz do nosso Sol como amarela – e quando a luz de uma estrela como o Sol oscila, a luz vai do azul para o vermelho, mas em uma quantidade muito, muito pequena – e conseguimos medir essa variação entre azul e vermelho usando telescópios pequenos e incrivelmente precisos. O tamanho dessa variação de luz depende da massa do planeta que estamos observando. Então, por exemplo, se estamos olhando para um planeta grande e massivo, vamos ter mais azul e mais vermelho. 

Descobrir a massa e o tamanho de um exoplaneta é o mais fundamental quando se faz esse tipo de pesquisa. Olhamos para a estrela e, em alguns casos, o planeta passa bem na frente dela, fazendo um pouco de sombra. O tamanho dessa sombra, ou dessa pequena queda na emissão de luz, nos diz muito sobre o tamanho desse corpo celeste – que vamos perceber como planeta se fizer esse trânsito sempre à mesma velocidade e de forma regular. 

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Impressão artística de exoplanetas encontrados pela sonda Kepler (Imagem: NASA/W. Stenzel)

Como entender o funcionamento do nosso Sol pode ajudar a procura por exoplanetas?

É importante ter um pouco de perspectiva. Quando falamos de exoplanetas, estamos falando de planetas que orbitam estrelas muito, muito longe de nós. Aquelas estrelas que vemos no céu à noite são as mais brilhantes do céu – e muitos dos exoplanetas que estudamos estão orbitando essas estrelas. E tudo o que fazemos, de fato, é estudá-las – porque só conseguimos informação sobre exoplanetas de forma indireta, observando como eles afetam a luz das estrelas que orbitam. É como se a estrela fosse o farol de um carro que está a dois campos de futebol de distância de você – e você está procurando por um mosquito passando à frente desse farol. Tudo o que fazemos, de fato, é observar esse farol. 

Estamos procurando por planetas muito menores que suas estrelas – e há fluídos de plasma super quentes em erupção, sendo ejetados e voltando à superfície, e há campos magnéticos e manchas escuras… há muitas coisas acontecendo na superfície de uma estrela, que não é completamente uniforme. Então, precisamos corrigir esses efeitos todos para conseguirmos desemaranhar os sinais e entender a influência indireta que o planeta tem sobre a luz dessa estrela – e que melhor forma de fazer isso do que olhando para o nosso Sol? Nós o conhecemos muito bem – conseguimos ver os detalhes de sua superfície, suas manchas… a superfície do Sol é como a pele de uma laranja, não é lisa – e há outras estrelas assim também. Mas não conseguimos ver a superfície delas tão bem, porque estão muito mais longe – mas conseguimos ver mudanças na luminosidade delas ao longo do tempo. Como essas estrelas giram sobre si mesmas, as manchas aparecem e desaparecem, causando variações na luz delas também.

Mas então, como se diferencia uma mancha escura de um planeta orbitando essa estrela? Porque pode-se confundir os dois, não?

Sim, isso é um risco e já aconteceu. Em algumas das primeiras detecções de exoplanetas, pensamos que era um exoplaneta, quando na verdade era uma mancha. 

Para não confundir as duas coisas é preciso conhecer a estrela, como ela funciona, se tem manchas ou não, com que frequência essas manchas aparecem, como elas evoluirão com o tempo… Uma forma muito boa de se saber se temos um planeta ou não é ter duas detecções diferentes com métodos separados. Eu falava do método de trânsito e do método em que se vê azul e vermelho na estrela quando um planeta passa na frente de uma estrela. Se você consegue ver o trânsito de um planeta e também o “bamboleio” que esse planeta induz na estrela, então pode ter certeza que este é um planeta, mesmo. 

Estudando planetas distantes, você começou a prestar mais atenção aos processos naturais acontecendo aqui mesmo, na Terra. Como isso aconteceu?

Foram duas coisas: uma é minha paixão por plantas, árvores… e ter sido extremamente sortuda durante meu doutorado e agora no pós-doutorado, tendo a oportunidade de viajar para tantos lugares para fazer pesquisa, observações e participar de conferências. Conhecer tantos lugares me fez apreciar melhor o nosso planeta. 

Ao mesmo tempo, paro e penso que estou procurando por outros lugares como a Terra no meu trabalho. E ao fazer isso, percebo que sim, estamos começando a encontrar muitos planetas que têm algumas semelhanças com o nosso – eles são um pouco maiores e mais massivos (porque esses são mais fáceis de encontrar) – e se extrapolarmos sobre esses achados, esperamos que existam muitos outros planetas que se pareçam de alguma forma com a Terra. Mas acontece que nenhum deles será exatamente igual à Terra, certo? Mesmo um planeta gêmeo seria muito diferente – e isso me dá uma razão adicional para apreciar o que temos aqui na Terra. O que temos é muito precioso – e se quisermos manter nosso lar habitável para nós mesmos, temos que trabalhar para isso. Não existem outros lugares como aqui.

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É provável que o turismo para outros planetas habitáveis ainda permaneça no reino da ficção científica por muito tempo (Imagem: NASA-JPL/Caltech)

É uma perspectiva bastante ampla para pensar sobre sobre nosso planeta e nosso lugar no Universo. 

O fato de que estamos encontrando todos esses planetas fora do sistema solar… isso é algo sobre o qual a humanidade tem pensado por milênios. E todo mundo em algum momento, especialmente enquanto criança, já olhou para o céu – e pode ter se perguntado em algum momento se existem outros planetas como o nosso lá fora ou se esses planetas têm vida. As perguntas são muito antigas e as respostas são muito recentes: o primeiro exoplaneta encontrado fora do sistema solar, 51 Pegasi b, foi descoberto em 1995. E o que estamos vivendo com esses achados é uma nova revolução Copernicana – está nos fazendo repensar o nosso lugar no Universo e nos dando uma outra perspectiva. Acho que essas descobertas estão nos ajudando a pensar que sim, existe um monte de planetas no Universo, e provavelmente alguns muito similares à Terra – e podemos ousar pensar que, mesmo que não tenhamos encontrado vida neles ainda, pode haver seres vivos nesses lugares. E quem sabe se esses seres não estão encarando os mesmos problemas que nós? 

Agora mesmo, com as mudanças climáticas que estamos induzindo e com todas as implicações que vêm com elas, estamos mudando a habitabilidade do nosso próprio planeta a ponto de nos prejudicar. Estamos tornando nosso planeta um lugar menos confortável e menos habitável para nós mesmos. E penso que essa revolução Copernicana de encontrar outros planetas além do nosso sistema solar pode nos ajudar a enxergar as coisas de uma outra forma – pensando que talvez não sejamos os únicos a lidar com estas questões no Universo. Assim a situação fica menos dramática e conseguimos pensar que dá para fazer algo para lidar com isso. 

E então esperamos que as gerações futuras farão isso por nós porque falhamos nessa missão.

É bom colocar esperança nas gerações futuras, sim – mas na nossa geração também! Acho que a maior lição que tive com as oportunidades que me foram dadas por fazer astronomia é que nós, como indivíduos, podemos fazer a diferença. Cada um de nós deveria fazer o que acha certo, mesmo sentindo às vezes que o problema não está nas nossas mãos – de alguma forma, ele está, sim. 

Ajuda pensar que somos parte de algo maior. Às vezes eu gosto de pensar sobre o nosso cérebro e sobre como há bilhões de neurônios nele e eles estão “atirando” em direções aleatórias, mas, como um todo, ainda assim conseguimos ter pensamentos coerentes – existem padrões na forma como esses neurônios se comportam em meio ao caos.

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O eclipse de 1919: pela paz e pelo método científico

A comprovação da Teoria da Relatividade está comemorando um século de idade. Neste 29 de maio, a comunidade científica rememorou as expedições de observação de um eclipse total do Sol em Sobral, no Ceará, e na Ilha do Príncipe, na costa oeste da África.

A data é relevante porque traz à memória uma contribuição extremamente importante daquele que provavelmente é o cientista mais conhecido de todos os tempos: Albert Einstein. Ele, que formulou a Teoria da Relatividade em 1915, não tinha como comprová-la apenas por cálculos. Era preciso fazer observações e comparações. Pesar evidências.

Einstein não acompanhou as expedições, que, lideradas por Arthur Eddington na Ilha do Príncipe e por Andrew Crommelin em Sobral, contaram com a participação de equipes da Royal Astronomical Society. Britânicos e brasileiros estavam atrás de evidências de que corpos massivos – como o Sol, por exemplo – “deformam” o espaço-tempo em seu redor. É mais ou menos como colocar uma bola de futebol sobre um tecido estendido ou em cima de uma cama fofa. Se essa bola fosse o Sol, a curvatura que causa no tecido, ou no Universo, é o que explicaria o movimento dos planetas ao seu redor. Não era mais a gravidade newtoniana.

Se fosse possível observar a luz de uma estrela próxima do Sol enquanto ele estivesse no céu – e se a posição dela fosse diferente quando o Sol não estivesse lá -, isso seria um forte indício de que a teoria de Einstein estava certa. Como o Sol ofusca as outras estrelas durante o dia, essa observação não era viável. No entanto, um eclipse solar era a oportunidade perfeita para fazer esse teste. E foi o que aconteceu em Sobral e Príncipe: os pesquisadores conseguiram observar a constelação de Touro e viram que sim, a posição dessas estrelas durante o dia não era exatamente a mesma durante a noite. Einstein tinha razão!

A descoberta catapultou o cientista alemão para o estrelato mundial, beneficiou a ciência brasileira e causou uma revolução no mundo da Física: as leis que valem para nós aqui na Terra não se aplicam a galáxias, estrelas e buracos negros.

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Esta foto, tirada na Ilha do Príncipe (oeste da África), consta no relatório de Arthur Eddington sobre as observações que fez com sua equipe. Fonte: Wikipedia, CC0

O feito também nos lembra sobre como o método científico funciona e como ele é importante para se chegar a fatos e conclusões. Hipóteses sem testes e análises continuam sendo hipóteses. Só se tem um fato comprovado quando grupos diferentes de pessoas se debruçam sobre aquela hipótese e procuram entender, com metodologias sólidas e de forma honesta, se ela se confirma na realidade.

O eclipse centenário tem outro legado que também fala muito sobre como a ciência funciona. Ela é, essencialmente, um empreendimento colaborativo e internacional, capaz de unir pessoas de crenças e valores diferentes na busca de um único objetivo. Não é exagero dizer que a ciência, por sua própria natureza, tem o potencial de promover a paz.

Não podemos nos esquecer de que as observações em Sobral e Príncipe aconteceram em um período imediatamente posterior à I Guerra Mundial. A busca de Einstein e Eddington resultou em uma colaboração científica entre Alemanha e Reino Unido. Em um período pós-guerra, isso definitivamente não foi pouca coisa.

Em um artigo de 2003, Matthew Stanley, pesquisador do departamento de história da ciência na Universidade Harvard, conta que as dores da guerra em curso deixou um gosto amargo que começou a atrapalhar a cooperação entre britânicos e alemães. Pesquisadores do Reino Unido não tinham o mesmo ânimo para continuar cooperando com seus colegas da Alemanha – e em 1916 houve quem dissesse que a Alemanha deveria ser banida da ciência internacional.

Arthur Eddington, em uma carta à publicação Observatory na mesma época, desejava que a guerra não envenenasse a cooperação científica entre países. A astronomia, em especial, era, e é, uma ciência altamente internacional. Para Eddington, levar as fronteiras da guerra para o empreendimento científico, relata Stanley, era “um completo desentendimento das necessidades básicas e dos objetivos mais nobres da ciência”.

Um alerta que continua válido mais de um século depois de publicado.

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Sonda Parker: nunca conseguimos “um lugar ao Sol” tão rápido

Lançada no dia 12 deste mês, a Parker Solar Probe, da NASA, ainda não chegou ao seu destino, o nosso Sol. Isso deve acontecer apenas em novembro. Mas não é por falta de velocidade: depois de pegar carona em um foguete Delta IV Heavy e na gravidade de Vênus, a sonda poderá atingir 700 mil km/h – o suficiente para se fazer o trajeto entre Nova York e São Paulo em um minuto. É a maior velocidade atingida por qualquer coisa que a humanidade já construiu.

Tendo custado US$1,5 bilhão, a sonda, que tem mais ou menos o tamanho de um carro, também tem outros superlativos. A uma distância de 6 milhões de quilômetros do Sol, é o instrumento que vai chegar mais próximo da nossa estrela do que qualquer outro que já enviamos para lá. E a Parker quebrará o recorde de proximidade por uma margem absurda: segundo a NASA, a sonda que mais conseguiu se aproximar do Sol foi a Helios 2, que em 1976 ficou a pouco mais de 43 milhões de quilômetros do Sol – apenas um pouco mais próxima que Mercúrio, que orbita a nossa estrela a uma distância de quase 60 milhões de quilômetros. O nosso planeta, em comparação, está a quase 150 milhões de quilômetros do Sol. E ainda bem.

Parker Solar Probe Launch

Delta IV Heavy no momento em que decolou a partir da base da Força Aérea Americana no Cabo Canaveral, Flórida, levando a sonda que vai “tocar” o Sol

A Parker é, também, a primeira sonda batizada com o nome de uma pessoa viva. O físico homenageado, Eugene Parker, é professor emérito de Astronomia e Astrofísica na Universidade de Chicago e no fim dos anos 1950 foi um dos primeiros a se debruçar sobre o que hoje conhecemos como ventos solares (que causam as lindas auroras boreais ou austrais quando se encontram com o campo magnético da Terra). À época, ele achava que matéria de altas velocidades e magnetismo escapavam do Sol constantemente, afetando planetas em todo o Sistema Solar.

Depois de muita observação, ele propôs várias ideias sobre como estrelas perdem energia – nosso Sol, inclusive. Daí veio com o conceito de vento solar e toda a intrincada relação entre plasma, partículas de energia e campos magnéticos que causam o fenômeno. Ele também pesquisou as causas de um fenômeno estranho – o fato de que a coroa solar, ou a “atmosfera” do Sol, é muito mais quente que a superfície da estrela. Muito. Para se ter uma ideia, a superfície do Sol queima a cerca de 5.500°C. A coroa é 300 vezes mais quente que isso e os pesquisadores estão atrás de explicações.

Em um comunicado na NASA na ocasião em que a sonda foi renomeada em homenagem a Parker, Nicola Fox, física da Universidade Johns Hopkins que trabalha no projeto, disse que a Parker “irá responder questões sobre física solar que tem nos intrigado por mais de seis décadas” – inclusive essa diferença de temperatura entre superfície e coroa solar.

Dr. Parker Watches Parker Solar Probe Liftoff

Eugene Parker, 91 anos, assiste o lançamento da sonda que leva seu nome. Atrás dele está Nicola Fox. Créditos: NASA

Nada consegue aguentar um calor de mais de um milhão de graus Celsius. Assim, em seu momento mais próximo do Sol, a sonda Parker será submetida a uma temperatura de 1.377°C. Com um escudo de compósitos de carbono com 11,43 cm revestido de tinta cerâmica branca para refletir o máximo que puder da luz solar, a sonda conseguirá manter confortáveis 30°C em seu interior. Até 2025, ela terá orbitado o Sol 24 vezes e fará medições que, espera-se, trarão muitas surpresas.

Mas o que a sonda Parker vai estudar, mesmo?

Plasma solar, campo magnético e radiação são elementos um tanto quanto gerais para falar do que a Parker quer descobrir. Segundo as equipes da NASA e da Universidade Johns Hopkins, que lideram o projeto, os objetivos principais são 1) traçar o fluxo de energia que aquece e acelera coroa e vento solar; 2) determinar a estrutura e a dinâmica entre plasma e campos magnéticos onde nascem os ventos solares, e 3) explorar mecanismos que aceleram e transportam partículas de energia.

Para fazer tudo isso, a missão vai lançar mão de quatro instrumentos principais:

O Solar Wind Electrons Alphas and Protons Investigation (SWEAP) fará a contagem das partículas mais abundantes em ventos solares (elétrons, prótons e íons de hélio).

Já o telescópio Wide-field Imager for Solar Probe Plus (WISPR) fará imagens em 3D da coroa e da atmosfera do Sol. O instrumento irá “ver” o vento solar e fazer imagens tridimensionais de choques e de outras estruturas conforme elas se aproximarem e passarem pela nave.

O Electromagnetic Fields Investigation (FIELDS) irá fazer medidas diretas de ondas de choque ao longo do plasma da atmosfera solar.

Por fim, o Integrated Science Investigation of the Sun (IS☉IS) irá fazer um levantamento dos elementos presentes na atmosfera solar usando um instrumento que irá medir a massa de íons próximos à sonda.

E por que estudar isso?

A NASA tem alguns motivos ótimos para abordar isso e vai super direto ao ponto quando esta é a questão.

Para eles, é uma questão de oportunidade: o Sol é a única estrela que nós podemos estudar de perto. Entender o Sol seria, assim, uma chance de aprender sobre outras estrelas espalhadas pelo Universo. Fora o Sol, a estrela mais próxima de nós é Proxima Centauri, que está a uns 4,2 anos-luz de distância. Ou seja: muito longe para chegar com uma sonda.

O Sol, é claro, nos afeta diretamente. Não só por questões óbvias (a vida na Terra depende dele), mas também por questões menos desejáveis: estas descargas de partículas ionizadas – os ventos solares – podem afetar a órbita dos nossos satélites (ou mesmo estragá-los), queimar eletrônicos e, na pior das hipóteses, nos deixar sem GPS ou internet. Uma tempestade solar da magnitude da que aconteceu em 1859, apelidada de Evento Carrignton, poderia levar nosso mundo ao caos generalizado. Na época, havia apenas telégrafos. Operadores viram que, ainda que não estivessem conectados à energia elétrica, poderiam enviar mensagens assim mesmo, tanta o excesso de elétrons circulando. E levavam choques ao operar estes telégrafos. Papéis pegaram fogo onde estas máquinas estivessem. Se fosse hoje, além de ficarmos sem internet para operar bancos, hospitais e aviões, poderíamos ter um prejuízo global entre US$ 1 trilhão a US$2 trilhões. E poderia levar uma década até nos recuperarmos completamente.

Esse tipo de evento, no entanto, é raro. Mas estudar o comportamento do Sol pode nos ajudar muito a nos preparar para este tipo de acontecimento – que não é uma questão de “se” acontecerá de novo, mas “quando”.
Saiba mais:

Parker Solar Probe (NASA)

Parker Solar Probe (NASA/Goddard Space Flight Center)

Parker Solar Probe Science Gateway (Johns Hopkins Applied Physics Laboratory)

NASA Renames Solar Probe Mission to Honor Pioneering Physicist Eugene Parker (NASA)

Parker Solar Probe: Mission to Touch the Sun (Space.com)

A massive solar storm could wipe out almost all of our modern technology without warning (Business Insider)

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Mudanças climáticas potencializam a resistência a antibióticos

Que a resistência a antibióticos é uma questão preocupante, muita gente sabe. O tema vem sendo cada vez mais debatido em cúpulas de altas negociações e entre governos. No ano passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) deu atenção especial à questão em sua 72ª Assembleia na sede da Organização, em Nova York. Afinal, um problema que causa a morte de 700 mil pessoas por ano atualmente – e pode matar 10 milhões de pessoas por ano em 2050, superando todos os tipos de câncer e diabetes – é um problema que não pode ser ignorado.

Especialistas e formuladores de políticas públicas estão alarmados e alertam para o uso indiscriminado de antibióticos em pessoas e animais. Em muitos lugares, antibióticos são vendidos sem receita, as pessoas não seguem o tratamento até o fim ou mesmo fazem uso desse tipo de medicamento para tratar infecções de causa viral, como a gripe. Some-se isso ao ritmo lento no desenvolvimento de novos medicamentos de maior eficácia no tratamento de infecções bacterianas, a resistência de bactérias a antibióticos só piora. Há quem tema que a medicina sofra um “retorno à idade das trevas”, quando infecções simples matavam.

O que muita gente não deve saber, no entanto, é que as mudanças climáticas têm um papel importante na disseminação da resistência bacteriana a antibióticos. Um estudo publicado recentemente na revista Nature Climate Change indica que, quanto maior o aumento da temperatura, maior a incidência de infecções resistentes a tratamentos com antibióticos.

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Klebsiella pneumoniae. Imagem: NIAID

Os líderes do estudo, Derek MacFadden e Sarah McGough, pesquisadores da Harvard Chan School of Public Health, constataram, junto com seus colegas, que uma mudança de 10ºC na temperatura aumentaria a resistência da Escerichia coli, causadora de infecções urinárias, em 4,2%; sob as mesmas condições, a resistência da Klebsiella pneumoniae, causadora de pneumonia, aumentaria em 2,2%; e a Staphylococcus aureus, responsável por doenças como a meningite, aumentaria sua resistência a antibióticos em 2,7%.

A pesquisa teve como amostra os Estados Unidos e levou em conta padrões de resistência bacteriana registrados em uma extensa base de dados com índices de resistência por antibiótico e por bactéria entre 2013 e 2015. Os dados foram recolhidos de hospitais, laboratórios e unidades de observação em todo o país e foram cruzados com taxa de prescrição de antibióticos por região e também com a densidade populacional de diferentes regiões dos EUA. Para analisar a relação com o clima, os pesquisadores usaram uma série histórica de variação de temperatura que ia de 1980 a 2010 em todas as regiões dos EUA.

Os pesquisadores perceberam, também, que nos estados do sul do país – com temperatura mais alta que os do norte em razão da latitude onde estão – a prescrição de antibióticos era, em geral, maior que nos estados mais ao norte. Isso faz sentido quando se pensa que temperaturas mais altas facilitam a transferência de genes de resistência a antibióticos, que é uma das hipóteses que o estudo levanta. A questão é que uma maior prescrição de remédios coincidiu com mais resistência a tratamentos para as três bactérias analisadas.

O que acontece nos Estados Unidos possivelmente se repete com uma frequência muito maior em países em desenvolvimento. Na Índia, por exemplo, há uma preocupação muito grande com a prescrição indiscriminada de antibióticos e o uso incorreto deles, que é algo bastante comum por lá.

Se a relação entre mudanças climáticas e resistência bacteriana for confirmada por mais estudos, podemos estar diante de um desafio imenso – que não vai poupar nenhum continente. Além disso, este é um problema que pode possivelmente bater com mais força nos países em desenvolvimento, que estão em sua maioria próximos à linha do Equador e é onde os efeitos das mudanças climáticas vão ser sentidos com mais intensidade.

A questão é que precisamos falar mais sobre a resistência bacteriana a antibióticos. Num mundo em que as mudanças climáticas são uma questão incontornável agora – e mais ainda em um futuro próximo – precisamos ter em mente que tudo vai ser alterado pelo clima. Bactérias de hospitais e nos alimentos que consumimos, inclusive. Para não sermos pegos de surpresa, precisamos começar a conversar mais seriamente sobre este problema – problemão – nas nossas casas e com nossos conhecidos. A comunidade médica precisa ser mais criteriosa em prescrever medicamentos – é preciso parar de receitar antibióticos para qualquer diagnóstico de “virose”. Muita gente toma antibiótico porque o médico diz que é para tomar.

Precisamos exigir menos uso de antibióticos na agricultura e parar de usar esse tipo de medicamento para tratar gripe. Quem sabe uma ação coletiva coordenada pegaria as bactérias de surpresa, mesmo ajudadas pelas mudanças climáticas?

Saiba mais

MacFadden et al. Antibiotic resistance increases with local temperature. Nature Climate Change, 21 de maio de 2018

Antibiotic Resistance. World Health Organization, 5 de fevereiro de 2018

A “epidemia” que matará mais gente do que o câncer (se não for evitada). El País Brasil, 22 de setembro de 2017

Por que o mau uso dos antibióticos é uma ameaça para a saúde de toda a população. Gaúcha ZH, 29 de julho de 2016

Superbactérias avançam no Brasil e levam autoridades de saúde a correr contra o tempo. BBC Brasil, 11 de julho de 2017

Plano de combate à resistência a antibióticos deve ser concluído em 2018. O Globo, 11 de novembro de 2017

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Vamos falar de raça e classe na ciência?

Com mais frequência do que gostaríamos, ser mulher e fazer pesquisa não é tarefa fácil. Ser mulher, fazer pesquisa e chegar a posições de alta patente no meio acadêmico, então, só faz adicionar alguns níveis de desafio ao jogo.

A culpa é do chamado “teto de vidro” – ou uma barreira invisível que atrasa e impossibilita o progresso de mulheres não apenas em carreiras acadêmicas, mas também nos negócios e em outras áreas. A falta de políticas específicas que permitam ter filhos e continuar progredindo na carreira* e o sexismo implícito em se conferir mais competência a homens do que a mulheres para assumir cargos de liderança são algumas das muitas variáveis na manutenção desse teto de vidro. A conversa vai muito além do senso comum de que “existem poucas mulheres” em áreas das ciências, tecnologias, matemática e engenharias (STEM, na sigla em inglês).

Mas quando se é mulher, negra, pobre e cientista, o buraco é bem mais embaixo. E o teto de vidro, muito mais acima.

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Lançado no início dos anos 1980, o livro “Mulheres, Raça e Classe”, obra clássica da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, traz aspectos importantes sobre a construção do movimento de liberação feminina nos Estados Unidos desde a escravatura – sempre aliada a concepções de raça e classe social, já que “ser mulher” nunca é uma categoria isolada. Como Davis mostrou bastante bem através de análises e numerosas histórias fortes e chocantes no livro, as variáveis “raça” e “classe” têm uma enorme influência no resultado de qualquer equação que comece com “gênero”, e não apenas pelo ponto de vista do abismo entre se ser “mulher+branca+rica” versus ser “mulher+negra+pobre”. Ser mulher, branca e pobre também é diferente de ser mulher, negra e rica – algumas camadas de preconceito se mantém, outras se silenciam, a maioria raramente desaparece.

Passar um marca-texto sobre “raça” e “classe” como subcategorias em “gênero”, no entanto, não quer dizer que mulheres com diferentes situações de privilégio ou preconceito deveriam se opor, ou que a luta de umas é mais importante que a de outras (embora algumas lutas possam, sim, ser mais urgentes que outras, o que não quer necessariamente dizer que sejam mais importantes). É preciso que todo mundo entenda e respeite as necessidades de quem está em lugares e momentos diferentes na escala do preconceito para que seja possível que todas as mulheres nos unamos contra o que nos oprime. Empatia é um combustível poderoso, afinal.

E daí?

Não podemos negar que o tal teto de vidro na academia parece ter um revestimento especial, ainda mais difícil de quebrar, quando se fala em mulheres negras e pobres adentrando (e se destacando em) carreiras científicas. Sem mencionar o fato de que, por todos os lados, as oportunidades para homens e mulheres não são as mesmas e a diferença entre média salarial ainda é de se chorar de tristeza (e raiva, obviamente).

Segundo o Fórum Econômico Mundial, se continuarmos no passo em que estamos, será necessário esperar 170 (!) anos para que o mundo atinja a paridade salarial entre gêneros. Por aqui, é vergonhoso que as brasileiras em média ganhem quase 25% a menos que os brasileiros, mesmo tendo passado mais tempo na escola. O que mais assusta é que mulheres negras com curso superior ganhem em média quase metade do salário de homens brancos com o mesmo grau de instrução (as mulheres brancas ganham também absurdos 40% a menos). Esperar 170 anos por paridade salarial seria um horizonte de expectativa otimista para as brasileiras, para dizer o mínimo. Mais ainda para as negras.

É verdade que o acesso da população negra brasileira ao ensino superior praticamente dobrou na última década em decorrência de cotas e outras políticas de ação afirmativa. Em 2005, a juventude negra e parda somava 5,5% do contingente de estudantes no ensino superior. Em 2015, já eram 12,8%. Entre jovens brancos entre 18 e 24 anos, a porcentagem também cresceu: passou de 17,8% em 2005 para 26,5% em 2015, segundo o IBGE. O quadro melhorou, mas o fosso continua.

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Olhando mais de perto

Dois estudos de caso de 2008 e 2009 mostram que para jovens negras e pardas o desafio é se manter nesta magra porcentagem do alunado em instituições públicas e privadas. No estudo de 2008, João Bôsco Góis, professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense, traz alguns dados observados na instituição (que não devem ter mudado substancialmente desde que o artigo foi publicado). A presença de estudantes negras nos cursos de maior status era estatisticamente residual. Com números chocantes. Segundo Góis, 60,9% do alunado do curso de Medicina era mulher – delas, ínfimos 1,53% eram negras e 16,9% eram pardas. Em Direito, 77,5% dos alunos eram mulheres – 3,2 negras e 16% pardas. Nas Engenharias, o professor aponta que há uma inversão em termos de gênero: apenas 24,8% dos alunos eram mulheres – desse total, 2,4% eram negras e 17,4%, pardas.

E não é só isso: no ano em que a pesquisa aconteceu não havia jovens negras matriculadas nos cursos de Física e Ciência da Computação.

A posse de bolsa para alunas negras também representava um desafio: para as bolsas mais valorizadas, como de monitoria, iniciação científica e extensão, as negras estavam em clara desvantagem: entre as alunas da UFF com posse de bolsa, 3,5% das alunas negras tinham uma bolsa de monitoria, 2,64%, uma de iniciação científica e 0% de extensão, em comparação a 72,3% de brancas que tinham uma bolsa de monitoria, 70,6% com uma de iniciação científica e 66,7% de extensão na universidade.

Por isso Góis defende que os cursos mais valorizados da UFF teriam tido uma “‘democratização de acesso por gênero’ sem seu equivalente racial”. As alunas negras se concentravam mais em cursos considerados de carreira secundária, onde os profissionais “geralmente estão em posição de relativa subordinação nas instituições em que atuam, a exemplo de enfermeiros, fisioterapeutas e assistentes sociais em ambientes hospitalares”, observa o pesquisador.

Não que estas carreiras não tenham função social crucial. As funções do cuidado do outro, aliás, estão entre as que mais serão necessárias em países (como o Brasil) em que a tendência é que a taxa de fertilidade siga em queda. Na quarta revolução industrial, estes profissionais serão mais necessários do que nunca. Mas é uma temeridade que sejam profissões tão pouco reconhecidas – e que isso gere um ciclo vicioso perpetuando a subvaloração da mulher negra, vendo nestes cursos uma possibilidade de inserção no ambiente universitário.

No estudo de 2009, a psicóloga Ana Luiza Julio e a professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) Marlene Strey observam os desafios da permanência de alunos e alunas afrodescendentes na PUC-RS. Por lá, a questão também era um desafio para os 280 alunos com quem elas interagiram. A maior questão que elas encontram é a dificuldade de enfrentamento dos inúmeros percalços que surgem pelo fato de se ser o que se é: negro ou negra em uma instituição de ensino superior. A dificuldade em nos reconhecermos racistas como país e o praticarmos no cotidiano pode ser um fator que, segundo as pesquisadoras, atrapalha o reconhecimento de pertencimento racial de muitos alunos, dificultando, assim, a formação de uma consciência política. Essa consciência, elas enfatizam, é essencial para a permanência na universidade e para iniciar a vida profissional, já que ajuda a criar uma visão de si mais complexa e contextualizada. E ajuda a não interiorizar a decepção de não ser selecionada depois de uma entrevista (normalmente a última etapa de um processo de seleção) como uma falha pessoal.

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E então…

Sabemos que a vida das mulheres negras no Brasil nunca foi fácil (possivelmente a de negras em lugar nenhum, diga-se de passagem). E que na academia, as diferenças não se iniciam na graduação – têm raízes mais profundas mas são sentidas mestrado, doutorado e pós-doutorado afora. E claro, nas seleções de alta cúpula das universidades, de institutos de pesquisa e onde quer que se queira fazer pesquisa de alto nível.

Fica difícil renovar os quadros da pesquisa científica e do professorado universitário com mais diversidade se a graduação é pouco diversa. E chega a ser absurda a dificuldade que alunas negras enfrentam para entrar e se manterem em cursos de graduação em áreas científicas – tanto que chega a ser surpreendente que a primeira negra brasileira a ter um título de doutorado em Física (a simpaticíssima Sonia Guimarães) seja atualmente professora no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e não uma senhora de 90 anos ou uma personagem histórica da ciência brasileira.

Quando se fala em maior acesso de mulheres – e mulheres negras – a carreiras acadêmicas, pode ser bem interessante colocar uma lente e observar quem são estas mulheres e por quais cursos e áreas essa inserção se dá. Entender isso pode ser um passo à frente no que toca ajudar brancas e negras (e amarelas, indígenas, enfim, todo o espectro de tons de pele) a entenderem as lutas e as necessidades umas das outras. E, quem sabe, entender o que é urgente e importante e entrar na briga.

Mais espaço para as mulheres negras nos quadros de prestígio científico e acadêmico não faz mais do que beneficiar toda a sociedade, já que elas são as ‘últimas da fila’ no que toca posições de privilégio. Para trazer de novo Angela Davis à conversa, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”. E da ciência com ele.

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*Em dezembro passado, foi sancionada a lei 13.536/2017, que prevê a possibilidade de afastamento remunerado de bolsistas de pesquisa por maternidade ou adoção. A aprovação do projeto de lei representa um avanço imenso, mas ainda serão necessários alguns anos para se verificar seu impacto real nas diversas áreas do conhecimento e no universo da pesquisa acadêmica.

Fontes:

DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 2016 (1981)

GÓIS, J. B. H. Quando raça conta: um estudo de diferenças entre mulheres brancas e negras no acesso e permanência no ensino superior. Revista Estudos Feministas, 2008. http://www.scielo.br/pdf/ref/v16n3/02.pdf

JULIO, A. L. S e STREY, M. N. Negros e negras no ensino superior: singularidade para a permanência. Revista África e Africanidades, 2009. http://www.africaeafricanidades.com.br/documentos/Negros_e_Negras_no%20ensino_superior_singularidade_para_permanencia.pdf

HU, J. The Magnifying Glass Ceiling: The Plight of Women in Science. PLoS ECR Community Blog, 2013. http://blogs.plos.org/thestudentblog/2013/08/16/glass-ceiling-women-in-scienc/

Portal de Notícias do Senado. Sancionada lei que dá direito a afastamento por maternidade para bolsistas de pesquisa. Brasília, 18/12/17. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/12/18/sancionada-lei-que-de-afastamento-por-maternidade-para-bolsistas-de-pesquisa

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O legado de Vera Rubin, astrônoma brilhante e mãe da matéria escura

Vera Rubin, desenho de Bradley Wind

Uma das grandes frustrações de quem conhecia – e admirava – Vera Rubin é que, apesar de ela ter mudado os rumos da astrofísica com sua confirmação da existência de matéria escura no Universo, ela nunca ganhou o prêmio Nobel.

A astrônoma Emily Levesque, pesquisadora da Universidade de Washington, era uma das admiradoras de Rubin. Ano passado, em entrevista à Astronomy Magazine, Levesque enfatizou que a existência de matéria escura revolucionou o conceito que temos do Universo e toda a astronomia, e que “o esforço em entender o papel da matéria escura deu início a sub-campos inteiros em astrofísica e física de partículas até agora. O testamento de Alfred Nobel descreve que o prêmio de Física reconhece ‘a descoberta mais importante’ no campo da Física. Se a matéria escura não se encaixa nesta descrição, não sei o que se encaixa”. Um estudo que desafia as leis de movimento elaboradas por Newton certamente se encaixaria na descrição.

Vera Rubin era astrônoma. Mais do que isso, era uma advogada aguerrida pelo direito de mulheres pesquisarem o que quiserem – principalmente nas ciências exatas, onde ela fez carreira. Este era um lugar que, na década de 1950, tinha um “teto de vidro” um bocado mais espesso para as mulheres ultrapassarem do que o de hoje. E Vera o ultrapassou, tornando-se um exemplo para muitas cientistas que vieram depois dela.

O caminho das pedras foi longo. Depois de se graduar no Vassar College em 1948 – segundo Dennis Overbye em um texto para o New York Times, a escolha se deu porque Maria Mitchell, primeira norte-americana a descobrir um cometa, havia ensinado lá – Rubin queria fazer doutorado na Universidade de Princeton. Mas como na época a universidade não admitia mulheres, ela foi estudar em Cornell, onde obteve seu mestrado. Fez seu doutorado na Universidade de Georgetown tempos depois, estudando galáxias distantes e sendo mãe de quatro crianças.

Rubin foi a primeira mulher a obter autorização para fazer observações no Observatório de Palomar, em San Diego (operado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, o CalTech). Em 1965 não havia banheiro para mulheres por lá. Neta Bahcall, pesquisadora da Universidade de Princeton que foi colega da astrônoma, lembra de um episódio pitoresco: Rubin foi para seu quarto, cortou papel em forma de saia e pregou no sinal de “homens” na porta do banheiro. “Ela disse, ‘agora sim, agora temos um banheiro de mulheres’”, contou Bahcall à revista Astronomy Magazine.

Em outra ocasião, em entrevista à CNN, Bahcal disse que Rubin cavava oportunidades que não existiam para mulheres da época. Ela insistiu para que mulheres fossem admitidas no Cosmos Club, um clube social privado na Universidade de Princeton. “Ela brigou com eles até que finalmente aceitaram mulheres, mas de uma forma muito tranquila. Era muito difícil ficar bravo com ela”. Não raramente, Rubin era uma voz pública defendendo o acesso de mulheres a carreiras científicas, já tendo conversado sobre o assunto com Hillary Clinton, então primeira-dama dos Estados Unidos.

A ciência que ela fez foi, sem dúvida, impactante. Na década de 1970, trabalhando com seu colega Kent Ford no Instituto Carnegie de Ciência em Washington, EUA, Rubin observava a galáxia de Andrômeda, a mais próxima da nossa Via Láctea, quando percebeu um fenômeno interessante. Ao contrário do que previra Isaac Newton, as estrelas na área central da galáxia não se moviam com velocidade maior do que as localizadas nas partes mais externas dela. As estrelas nas bordas de Andrômeda giravam tão depressa que a galáxia teria que se desfazer, segundo as leis de Newton – mas a galáxia continuava lá, como que segurada por alguma força. Do estudo de Andrômeda (e de outras galáxias posteriormente), surgiu a hipótese sobre a matéria escura. Esta matéria escura, sabemos hoje, preenche mais de 70% do Universo e não emite nem absorve luz, interagindo fracamente com o restante da matéria que existe, formada por prótons, elétrons e nêutrons.

A descoberta chacoalhou a Física e rendeu à cientista diversos prêmios ao longo de sua vida, mas não o que muitas (e muitos) cientistas esperavam. O Nobel, ou o ápice do reconhecimento acadêmico, tem apenas duas laureadas em Física até hoje: Marie Curie, em 1903, e Maria Goeppert Mayer, em 1963. Vale lembrar que a premiação acontece desde 1901 e já agraciou mais de 900 personalidades entre cientistas, escritores e ativistas. Dos premiados, apenas 49 são mulheres.

Mas talvez Rubin não se importasse tanto com isso a ponto de lhe tirar o ânimo de seguir em frente – e continuou até dezembro do ano passado, quando faleceu aos 88 anos. Rebecca Oppenheimer, astrofísica do Museu Americano de História Natural, lembra de um conselho da mentora em conversa com o New York Times. 

“Não deixe ninguém te colocar para baixo por razões estúpidas como quem você é”.

 “E não se preocupe com prêmios e fama. O prêmio de verdade é encontrar algo novo lá fora”.

— Vera Rubin