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O solo como estoque de carbono e gestão de resíduos. Na busca por soluções para o avanço do aquecimento global.

Surgem cada vez mais estudos no mundo sobre sequestro de carbono (C) no solo, com práticas agropecuárias diversas. De modo geral, essas taxas variam entre 0,1 e 0,5 tonelada de C por hectare por ano, dependendo do tipo de prática, da composição e estrutura do solo, e da região do estudo.

A questão é, até que ponto a forma como o solo é manejado pode interferir no aquecimento global?  Bom, segundo as pesquisas, interfere e muito!

Medidas calculadas a partir de uma meta-análise global por West e Post (2002) do Departamento de Energia dos EUA sugerem uma taxa de sequestro de C média de 0,48 ± 0,13 t C / ha / ano, no caso de conversão de sistema de plantio convencional (práticas intensivas de manejo) para o plantio direto (plantio sobre a palha da colheita anterior – menos intensivo). Rotações de culturas têm uma taxa de sequestro de C média de 0,15 ± 0,04 t C /ha /ano.

Outra análise, dessa vez do estudo de Lam et al. (2013) mostrou estimativas maiores de sequestro de C na Austrália, após a adoção da chamada lavoura de conservação, com manejo de resíduos de plantas e conversão para pastagem.

A figura abaixo ilustra a diferença entre o plantio convencional e direto, na manutenção do estoque de carbono no solo. No desenho, as setas em vermelho e rosa indicam a liberação de gases do efeito estufa para a atmosfera. As setas verdes indicam a absorção desses gases no solo, como estoque de carbono, dependendo da atividade de uso do solo. Como é possível observar, a floresta possui um sistema equilibrado de entradas e saídas, considerando o ecossistema como um todo. O sistema de plantio convencional tem um balanço negativo na emissão de gases, enquanto que no sistema de plantio direto, a conservação da matéria orgânica promove a elevação da absorção de gases, aumentando a capacidade do solo em reter carbono da atmosfera.

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Fonte: Carlos C. Cerri, 2009.

Normalmente, solos arados ​​contém 1-3% de carbono orgânico (Stockmann et al., 2013). Essa média é relativamente baixa, pelo processo de mineralização da matéria orgânica, causada pelo uso de técnicas agrícolas intensivas.

Por enquanto, só falamos da agricultura que, mesmo com taxas baixas, dependendo do manejo, sequestra certa quantidade de C. No caso da pecuária, o cenário apresentado é oposto, uma vez que o rebanho de gado é, junto com a queima de combustíveis fósseis, uma das principais causas do aumento do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global. Além disso, a pecuária é responsável por grande parte do desmatamento da Floresta Amazônica, fato ainda mais prejudicial, já que a Floresta representa um grande estoque de carbono ativo.

Apesar da realidade pouco otimista dos dados, ainda há o que fazer para reverter esse quadro.

A modificação das práticas agrícolas convencionais pelo manejo de base ecológica pode auxiliar na melhoria da qualidade e estrutura do solo e, consequentemente, aumentar o estoque de C armazenado. Localizar os recursos e alocá-los de maneira a facilitar processos naturais pode ser uma importante alternativa também. Um exemplo disso é a questão dos resíduos sólidos na cidade.

No Brasil, a taxa de geração de resíduos orgânicos é, em média, 50% da composição do resíduo domiciliar, cerca de 94.309,5 t/dia, de acordo com o IPEA (2012). Entretanto, apenas 1,6% dos resíduos orgânicos (aprox. 1.510 ton/dia) são destinados para unidades de compostagem, sendo o restante (92.800 ton/dia), encaminhado para outros destinos finais (lixões, aterros controlados e aterros sanitários).

Abaixo, segue a tabela com a composição dos resíduos no Brasil por tipo e sua geração em toneladas por dia, bem como a evolução da produção de resíduos entre os anos de 2000 e 2008.

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Fonte: IPEA (2012)

Caso esse recurso fosse utilizado, muitos dos problemas que enfrentamos seriam solucionados, uma vez que:

  • O volume de resíduos diminuiria, o que faria aumentar a vida útil de aterros sanitários;
  • Contaminações de solo e água poderiam ser evitadas/menos frequentes;
  • Haveria mais recursos para adubação natural do solo, melhorando sua qualidade e estrutura e evitando a utilização de insumos sintéticos;
  • No final desse ciclo virtuoso, a taxa de sequestro de carbono aumentaria notavelmente.

Portanto, o potencial de aumento no estoque de carbono é possível, com gestão in situ estratégica, desenvolvimento de práticas de manejo adequadas, implementação de políticas públicas, envolvimento de todas as cadeias de produção e, principalmente, da sociedade civil.

Além disso, ações individuais são sempre válidas, agir no micro para modificar o macro é uma medida efetiva, principalmente, porque age na transformação de consciência da sociedade.

Então, podemos aprender por nós mesmos como realizar o tratamento dos resíduos orgânicos em casa, acessando links interessantes, como esses:

 

Referências

  • IPEA- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Diagnóstico dos Resíduos Sólidos Urbanos. Relatório de Pesquisa. Brasília/DF, 2012.
  • Lam, S.K., Chen, D., Mosier, A.R., Roush, R.. The potential for carbon sequestration in Australian agricultural soils is technically and economically limited. Sci. Rep. v.3, n. 2179, 2013.
  • Stockmann, U., Adams, M. A., Crawford, J. W., Field, D. J., Henakaarchchi, N., Jenkins, M., Zimmermann, M., et al. The knowns, known unknowns and unknowns of sequestration of soil organic carbon. Agric. Ecosyst. Environ. 164, 80–99. 2013.
  • West, T. O., Post, W. M., Soil organic carbon sequestration rates by tillage and crop rotation. Soil Sci. Soc. Am. J. 66, p.1930–1946. 2002.
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A domesticação da Amazônia por povos pré-colombianos e a lógica atual do agronegócio: controvérsias.

Um artigo recente publicado pela Revista Science em novembro de 2017, denominado “Persistent effects of the pre-columbian plant domestication on Amazonian forest composition” trata das influências dos povos pré-colombianos na estrutura atual da floresta amazônica.

Os pesquisadores cruzaram dados de localização de sítios arqueológicos com o mapeamento e distribuição de 85 espécies arbóreas domesticadas por povos indígenas na região. Notou-se que a riqueza, abundância e diversidade de espécies, de modo geral, diminuía de acordo com o distanciamento dos locais onde se estabeleciam essas comunidades. A realização de análises genéticas e morfológicas das plantas confirmou essas hipóteses (LEVIS, et al., 2017).

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FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2017/03/1863192-civilizacoes-pre-colombianas-moldaram-vegetacao-da-amazonia.shtml

Para saber mais detalhes sobre essa pesquisa, dê uma olhadinha nesse link, com um artigo aqui do blog!

A domesticação de plantas e animais é algo que acompanha a história da humanidade há 10 mil anos, na Amazônia, mais especificamente, há 8 mil anos segundo os pesquisadores. Ou seja, a manipulação de espécies para benefício próprio inicia no momento em que o ser humano “descobre-se” enquanto ser ativo no ecossistema, passando de populações caçadoras-coletoras para agricultoras e criadoras.

Ainda existem inúmeras lacunas para a compreensão desses processos, dada a complexidade na evolução da história da humanidade e nas transformações do ambiente. Agora, adiantando uns bons anos nessa discussão, nos transportemos para o século XX, a partir de 1950. Quando iniciou-se a chamada Revolução Verde.

A Revolução Verde representa o desenvolvimento de um pacote tecnológico para a agricultura, incluindo o uso de fertilizantes químicos, pesticidas, herbicidas, sementes modificadas e mecanização dos cultivos para o aumento da produtividade. Vendendo a ideia de acabar com a fome no mundo, porém com a intenção real e clara de transformar a agricultura em um setor rentável do ponto de vista econômico.

Os impactos positivos da Revolução verde, em termos de aumento de produtividade de alimentos e commodities agrícolas são inegáveis e podem ter sido necessários para sustentar a evolução demográfica da humanidade, que passa agora dos 7 bilhões de indivíduos.

Entretanto, atualmente, o cenário de abundância proposto pela Revolução verde a partir da utilização de fertilizantes químicos (NPK), pesticidas, herbicidas, fungicidas (e outros idas) passa a ser questionado. É cada vez mais necessário o input de quantidades maiores desses insumos para manter a alta produtividade. Fato que pode provocar efeitos negativos, como o desequilíbrio ecossistêmico na extração e utilização dos insumos, acidificação e/ou salinização de solos agricultáveis, liberação de gases que agravam o efeito estufa e a contaminação humana e ambiental por metais pesados, presentes nas formulações desses produtos, alerta a pesquisadora indiana Vandana Shiva (2016).

Segundo Foley et al. (2011), a utilização inadequada de insumos químicos (fertilizantes e pesticidas), aliada ao sistema agrícola de monoculturas, desencadeia um desequilíbrio que causa a dependência desses produtos, fragilizando o solo e podendo torná-lo improdutivo, em um curto período de tempo. Eles consideram que o sistema de monocultivo seja de alta vulnerabilidade, principalmente em ambientes tropicais, em decorrência da baixa biodiversidade.

Isso sem mencionar os danos ambientais e à saúde humana na utilização de fertilizantes químicos e agrotóxicos. No início desta semana, a notícia de que uma importante empresa do ramo, a Monsanto, foi obrigada a pagar uma indenização de mais de 1 bilhão de dólares a um funcionário dos EUA, que trabalhava aplicando um herbicida muito utilizado no Brasil, que contém em sua composição, um produto comprovadamente cancerígeno, o glifosato.

O trabalho de uma pesquisadora brasileira, Prof. Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de Geografia Agrária da FFLCH/USP traduz em dados e mapas didáticos os prejuízos provocados pelo uso abusivo de agrotóxicos em um atlas denominado “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”. A figura abaixo ilustra no cenário brasileiro o grau de intoxicação por agrotóxicos entre os anos de 2010 e 2011.

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Fonte: Bombardi, 2012.

A visão da agricultura como negócio (o agronegócio), e não mais como modo de subsistência e mecanismo de nutrição, modifica o papel do humano como ser ativo do ecossistema para um indivíduo alheio à essa rede, que pensa não mais fazer parte dela. Esse comportamento, entretanto, não procede, dentro de um contexto de interdependência entre seres e recursos naturais para o equilíbrio entre uso e renovação dos mesmos.

Isso prova a não viabilidade a longo prazo da lógica do agronegócio enquanto sistema predominante vigente. E que os caminhos anteriormente traçados, da domesticação natural e evolutiva das espécies pode ser revisto e retomado, aliado a formas mais inteligentes de otimização da produção e beneficiamento dos alimentos e demais produtos de origem agropecuária.

Esse pode e deve ser um importante ponto de virada no desenvolvimento de novos modos de produção, menos prejudiciais aos seres humanos e ao meio ambiente. Já que no formato controverso previsto pelo agronegócio, os recursos naturais, como solo e água, principalmente, são exauridos podendo tornar-se improdutivos.

Referências Bibliográficas

  • FOLEY, J., et al. Solutions for a cultivated planet. Nature Analysis, v. 478, n. 7369, p. 337–42, 2011.
  • LEVIS, C. et al. Persistent effects of pre-Colombian plant domestication on Amazonian forest composition. Science, v.355, n.6328, p.925-931, 2017.

 

  • SHIVA, V. The violence of the Green Revolution: third world agriculture, ecology and politics. University Press of Kentucky. EUA, 1ª ed, 257 p, 2016.

 

 

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Reflexões de uma vida sem gasolina: locavorismo

Nesses últimos dias, o Brasil viveu uma situação crítica, que expôs fragilidades importantes e intensas (diria). Pessoas aflitas pela falta de combustível, estocando alimentos, desesperadas pela possibilidade da falta de itens que julgamos necessários.

A situação trouxe à tona diversas questões, como a importância da retomada na construção de ferrovias, mudanças na política de preços do combustível, a imensa carga tributária sobre os produtos, livre mercado, enfim, longos e extensos debates.

Entretanto, para além da reflexão sobre os combustíveis, uma questão sintomática dessa situação foi a evidente falta de autonomia e a dependência exagerada de transportes movidos a combustíveis fósseis para o acesso a produtos básicos, principalmente, ALIMENTOS.

Já parou para pensar de onde vem o alimento que você consome?

Infelizmente, talvez não venha do mesmo estado em que residimos. A maior parte das terras agricultáveis do Estado de São Paulo estão sob cultivo de cana de açúcar, como é possível observar na figura abaixo.

 

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Figura 1: Evolução da área de cultivo de cana-de-açúcar em São Paulo. Hectares/município. Fonte: Camara e Caldarelli (2016).

Curioso perceber que uma das razões pelas quais a produção de alimentos seja distante dos consumidores paulistas é exatamente a produção de biocombustível que, de forma direta ou indireta, contribui para o transporte dos alimentos até aqui. Pesquisadores como Mital (2008) em seu estudo “Crise no preço dos alimentos: Repensando políticas de Segurança Alimentar” mostram que o aumento no uso de combustíveis no sistema agroalimentar dominante contribui para o aumento no custo da produção de alimentos.

Ou seja, quanto mais longe produzimos o alimento, mais caro ele será, dados os custos de transporte e distribuição.

 Sabe-se pela FAO (2015), que pelo menos 70% da alimentação mundial provém da agricultura familiar. Para estabelecer uma comparação, o mapa abaixo (retirado de Silva et al., 2007) ilustra o número de Assentamentos Rurais ligados ao Movimento Sem Terra (MST) até o ano de 2005.

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Figura 2: Distribuição de assentamentos rurais por município no Estado de São Paulo. Fonte: Silva et al. (2007).

Na figura 1, podemos observar que mais da metade dos municípios paulistas tem grande quantidade de hectares destinados ao plantio de cana-de-acúcar. Na figura 2, por sua vez, nota-se que poucos municípios do estado tem assentamentos rurais que promovam o desenvolvimento de agricultura familiar nas regiões.É possível, portanto, perceber a grande diferença no uso e ocupação da terra, no que diz respeito à produção de alimentos para consumo interno versus monoculturas para produção de biocombustível.

Se pretendemos reavaliar a mentalidade do consumidor nos termos da origem dos produtos, é preciso estimular a reflexão por mais autonomia e conhecimento.

A busca por um sistema alimentar saudável, com preço justo, produzido em locais mais próximos ao consumidor, utilizando de forma racional os recursos naturais pode configurar-se em uma ótima alternativa na contramão dos sistemas de longa distância.

UFA! Mas essa é uma ideia utópica, será que é possível o desenvolvimento de um novo sistema, que possibilite o resgate dessas possibilidades nos dias de hoje?

Foi na busca por pessoas que falavam sobre novos movimentos que encontramos o locavorismo. De acordo com Azevedo (2015), locavorismo seria a ideia de alimentar-se o máximo possível de alimentos produzidos localmente, respeitando a sazonalidade natural, dignificando agricultores familiares, estimulando o desenvolvimento de sistemas agrícolas sustentáveis e da economia local, por meio da venda direta dos produtos ao consumidor.

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 Figura 3: Da onde vem sua comida? Fonte: Árvore, ser tecnológico.

Azevedo (2015) levanta ideias de diversos pesquisadores que estudam o tema, acrescentando que o conceito de comida local deve se estender a quem produziu o alimento. Gera reflexões a respeito da ética do agricultor e seu modo de vida, as conexões sociais e a confiança entre as pessoas. Esses fatores compõe a “história por trás da comida” (Thompson, Harper e Kraus, 2008).

O movimento do CSA (comunidades que sustentam a agricultura) vem ganhando destaque no cenário do locavorismo. Essa proposta teve início na década de 1960 na Suíça e no Japão (AZEVEDO, 2015). O CSA representa a construção de uma relação próxima entre agricultor e consumidor, na forma de um acordo associativo, no qual o consumidor atua no financiamento da produção dos alimentos, bem como na garantia de escoamento da produção. É uma relação ganha-ganha, em que os agricultores têm a garantia de compra de seus produtos, e o consumidor conhece a fundo a procedência do alimento. Essa relação alimenta o que os pesquisadores Portilho e Castañeda (2011) chamam de “confiança face a face”, em seu estudo realizado numa feira orgânica no Rio de Janeiro/RJ.

As comunidades que sustentam a agricultura estabelecem, portanto, um ciclo positivo de cooperação e autogestão para criar viabilidade econômica e segurança ao agricultor, que passa a ter mais suporte, fortalecimento e motivação para realizar suas atividades.

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Figura 4: CSA. Fonte: Google images.

Também é fundamental trazer a importância de movimentos sociais que organizam e articulam ações para a população rural. O MST, por exemplo, possui em todo o território brasileiro em torno de 100 cooperativas, 96 agroindústrias e 1,9 mil associações de agricultores (Dados do MST). Sem falar das ações em agroecologia e educação no campo, que além de produzir alimentos e mentes saudáveis, geram benefícios ecossistêmicos em ações de recuperação e uso consciente dos recursos naturais.

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Figura 5: Venda de produtos de assentamentos rurais numa das feiras promovidas
pelo MST. Fonte: http://www.vozdomovimento.org/

Esse pode representar o embrião da transformação de perspectiva, buscando o incentivo à produção local de alimentos. A linha de frente de resistência ao sistema agroalimentar (Agro é pop, agro é tech, agro é tudo!) que nos é imposto como verdade única.

Além disso, existem agora associações e empresas que realizam a ponte entre consumidores e produtores e levam, semanalmente, cestas de alimentos orgânicos em pontos de encontro. A escolha dos produtos da cesta pode ser realizada via internet, de acordo com a disponibilidade dos produtores, com pagamentos semanais ou mensais.

Esses sistemas ainda não possuem forma definida e representam outra lógica de consumo, por isso, ainda podem parecer mais caros que os alimentos do supermercado. Porém no preço dos alimentos produzidos em massa, muitas vezes, não estão contabilizadas todas as externalidades negativas associadas a ele, nem tampouco é clara sua procedência, até a chegada na bancada do supermercado.

É preciso ainda transpor uma série de barreiras econômicas, burocráticas e sociais que inviabilizam a relação mais próxima entre consumidores e produtores locais, no entanto, é possível iniciar transformações locais, a partir da criação dessa nova perspectiva.

A criação de políticas públicas federais, estaduais e municipais têm papel importante no fortalecimento de cadeias locais de produção e consumo de alimentos, seja criando instrumentos legais, Planos, linhas de crédito aos agricultores ou até no estabelecimento de canais alternativos de comercialização dos produtos.

No Brasil, temos o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), programas federais que visam o fortalecimento das agricultoras e agricultores no escoamento da produção dos alimentos, por meio da sua compra pelos municípios.

No estado de São Paulo foi promulgada a Lei nº 16.684, de março de 2018, que institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica. Ela traz diretrizes e instrumentos legais que buscam beneficiar agricultores com financiamento, acesso a crédito, subsídios e apoio técnico na produção, beneficiamento e escoamento de produtos orgânicos e agroecológicos. Visando a garantia de segurança e soberania alimentar, a recuperação dos ecossistemas naturais, o protagonismo dos agricultores nos processos de construção e socialização do conhecimento e a democratização do acesso à terra (BRASIL, 2018).

Bom, fica claro, portanto, que a utopia não está distante da realidade (ou será que deixa de ser uma utopia?) e que existem sim caminhos possíveis para o resgate da soberania alimentar e de relações menos dependentes de um sistema oneroso para todos!

Uma coisa que todos os caminhos aqui ilustrados têm em comum é a organização coletiva, civil e política. Observando nossos hábitos de consumo e promovendo articulação entre grupos é possível criar novas alternativas muito mais economicamente viáveis, socialmente justas e ambientalmente corretas, de fato.

Rumo à independência do combustível, minha gente!

 

Referências

  • AZEVEDO, E. de. Ativismo alimentar na perspectiva do Locavorismo. Revista Ambiente & Sociedade São Paulo v. XVIII, n. 3 p. 81-98 jul.-set. 2015.
  • BRASIL, Assembleia Legislativa do Estado e São Paulo. Lei nº 16.684, de 19 de março de 2018. Institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica – PEAPO, e dá outras providências. São Paulo. 2018. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/2018/lei-16684-19.03.2018.html Acesso: 29 de maio de 2018.
  • CAMARA, M. R. G. da; CALDARELLI, C. E. Expansão canavieira e o uso da terra no estado de São Paulo. Estudos avançados, São Paulo, v. 30, n. 88, p. 93-116, 2016 .   Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142016000300093&lng=en&nrm=iso . Acesso em 06 de junho de 2018.
  • Food and Agriculture Organization. The state of food insecurity in the world. Meeting the 2015 international hunger targets: Taking stock of uneven progress. Rome: FAO; 2015. Disponível em: http://www.fao.org/3/a-i4646e.pdf
  • MITTAL, A. Foodprice Crisis: Rethinking food security Policies. G24 Technical Group Meeting, 2008. Disponível em: http://www.g24.org/TGM/mitta0908.pdf. Acesso em: Jun 2018.
  • PORTILLO, F.; CASTANEDA, M. Certificação e Confiança Face a Face em Feiras de Produtos Orgânicos. de Economia Agrícola, v. 58, n. 1, p. 11-21, 2011.
  • SILVA, R. A. da, et al. Infestação por triatomíneos em assentamentos e reassentamentos rurais na Região do Pontal do Paranapanema, Estado de São Paulo. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical v.40 n.5. Uberaba. 2007.
  • THOMPSON, E., HARPER, A. M. J.; KRAUS, S. Think Globally – Eat Locally: San Fran­cisco Foodshed Assessment, 2008. Disponível em: http://www.farmland.org/programs/ states/ca/Feature%20Stories/documents/ThinkGloballyEatLocally-FinalReport8-23-08. pdf http://www.farmland.org/programs/states/ca/Feature Stories/San-Francisco-Foodshed­-Report.asp. Acesso em: jun 2018.
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Segurança Alimentar no mundo em desenvolvimento: por onde caminhamos?

Nos dias atuais, o aumento da população e as taxas de consumo de recursos, produtos, bens e serviços já chegaram a demandas jamais vistas na história da humanidade. Quando passamos a refletir a respeito de nosso estilo de vida, ou sobre viver em um planeta com recursos finitos e que, em sua maior parte, não se renova na mesma medida em que é consumido, precisamos nos perguntar por onde caminharemos? No que diz respeito à agricultura, alimentação e sustentabilidade da produção agrícola e pecuária não é diferente.

Segundo dados do último relatório da Organização da Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) publicado em 2015, cerca 800 milhões de pessoas, aproximadamente 11% da população mundial, encontram-se em estado de subnutrição crônica. A porcentagem de terras ocupadas por agricultura somam cerca de 12% da cobertura livre de gelo (1,53 bilhões de hectares), enquanto pastagens cobrem 26% (3,38 bilhões de hectares). Em suma, a agropecuária ocupa cerca de 38% da superfície terrestre, representando a maior atividade de uso do solo do planeta.

Outro dado interessante do mesmo relatório da FAO é o que se refere à porcentagem de alimentos produzidos pela agricultura familiar ou comunidades agrícolas. Essa produção representa 70% do que está incluso, propriamente dito, na dieta da população mundial. Entretanto, essas famílias detém apenas 12% das terras produtivas no planeta.

Sendo assim, podemos nos perguntar, mas por que então, a taxa de subnutrição no mundo é tão elevada? O que significa essa tal de Segurança Alimentar e por que esse é um assunto de importância global? Bom, para responder a essas perguntas, precisaremos da ajuda de algumas e alguns pesquisadores pelo mundo.

Segurança alimentar seria a situação ideal na qual todo cidadão, em qualquer tempo e local, possui disponibilidade e acesso econômico a alimentos seguros e nutritivos que supram as necessidades diárias e preferências alimentares, possibilitando uma vida ativa e saudável. Os pilares da Segurança Alimentar caracterizam-se por disponibilidade, acesso e utilização dos alimentos, bem como a estabilidade econômica e política do país que se analisa (FAO, 2015).

O estudo de Katarzyna Boratinska, da Universidade de Biociências de Warsaw, na Polônia, em parceria com Raqif Tofiq Huseynovb, da Universidade Estadual de Agronomia do Azerbaijão, publicado em 2015, intitulado Uma nova abordagem para a criação de políticas públicas de segurança alimentar para países em desenvolvimento revela a relação existente entre a recessão econômica e os índices de subnutrição no mundo. Tanto fatores de dimensão macro como taxação fiscal e câmbio, que afetam a economia global; quanto micro, como a adoção de novas tecnologias e infraestrutura na produção, influenciam no aumento ou queda dos preços dos alimentos e, consequentemente, no número de famílias com acesso restrito aos mesmos.

A disponibilidade nutricional é um problema crônico nos países em desenvolvimento, que possuem, de modo geral, população urbana com graves contrastes sociais e população rural que depende de boas condições de trabalho no campo para produzir os alimentos com qualidade e em quantidade suficientes à demanda de mercado (BORATINSKA, 2015).

O gráfico abaixo, retirado do relatório da FAO, publicado em 2015 retrata a diminuição do nível de subnutrição, com o aumento da renda per capita nos países. Nota-se que, mesmo com o passar dos anos (de 1992 a 2010), a situação permanece a mesma, ou seja, países com menor renda per capita, possuem os maiores índices de subnutrição.

 

Figura texto Cientistas Femininas (3)

Fonte: The State of Insecurity food in the world, FAO, 2015.

Além das discussões propriamente econômicas e políticas acerca da produção de alimentos com garantia de segurança alimentar, a pesquisadora indiana e ativista Vandana Shiva alerta em suas pesquisas sobre o perigo do monopólio e uso dos insumos agrícolas e dos impactos dos mesmos aos agricultores e ao meio ambiente. Segundo ela, a utilização de fertilizantes químicos sintéticos, como o NPK (nitrogênio, fósforo e potássio, sob formas minerais), promove efeitos negativos como o desequilíbrio ecossistêmico em sua extração, a aplicação equivocada que provoca a acidificação dos solos agricultáveis, a liberação de gases que agravam o efeito estufa e a contaminação humana e ambiental por metais pesados presentes nas formulações (SHIVA, 2016).

Segundo Foley e uma equipe global de pesquisadores, em seu artigo Soluções para um planeta cultivado, publicado pela revista Nature em 2011, a utilização de insumos químicos (fertilizantes e pesticidas) aliado ao sistema agrícola de monoculturas (vulneráveis, uma vez que a biodiversidade não é considerada) desencadeia um desequilíbrio ecossistêmico que causa a dependência de utilização cada vez maior de insumos, o que acaba por fragilizar o solo e torná-lo improdutivo em um curto período de tempo.

Figura texto Cientistas Femininas (2)

Fonte: Artigo Solutions for a cultivated planet, Folley et al, 2011.

As figuras a e b ao lado, extraídas desse mesmo artigo mostram a diferença entre a atualidade (a) e o cenário futuro ideal em 2050 (b) para as metas de segurança alimentar (quadrantes superiores) e os impactos ambientais do sistema de produção (quadrantes inferiores).

Na parte superior, à esquerda, temos a produção real e total de alimentos, à direita, respectivamente, a distribuição e acesso aos alimentos e a resiliência dos sistemas de cultivo.  Nos quadrantes inferiores temos, à esquerda, a emissão total de gases do efeito estufa, bem como a perda de biodiversidade; à direita a poluição dos corpos hídricos e a insustentabilidade dos sistemas de irrigação.

Essa figura nos mostra de forma clara, os grandes desafios que podemos enfrentar, a fim de que a população mundial seja alimentada de forma segura e nutritiva e que os sistemas produtivos ainda tenham como princípio a conservação dos recursos naturais.

Diante de um cenário como esse, existem algumas alternativas possíveis, relacionadas às dimensões ambientais, políticas, econômicas e até a gênero, como evidencia mais uma vez a pesquisadora Vandana Shiva:

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Pesquisadora Vandana Shiva. Fonte: Google images

“As mulheres são a espinha dorsal da economia rural, especialmente no mundo em desenvolvimento. No entanto, elas recebem apenas uma fração da terra, crédito, insumos (como sementes melhoradas e fertilizantes), formação agrícola e informação em comparação com os homens. Capacitar e investir nas mulheres rurais tem demonstrado aumentar significativamente a produtividade, reduzir a fome e a desnutrição e melhorar os meios de subsistência rurais. E não só para as mulheres, mas para todos. ”

A melhoria da produtividade dos recursos agrícolas de forma sustentável desempenha um papel fundamental no aumento da disponibilidade alimentar com segurança. Políticas públicas que reconhecem a diversidade e complexidade dos desafios enfrentados pelos agricultores familiares, por meio da criação de uma cadeia de valores são necessárias para assegurar a segurança alimentar. Além disso, a gestão pública deveria incentivar a adoção de práticas sustentáveis de agricultores e técnicas (manejo adequado do solo, conservação, melhorias na gestão de recursos hídricos, diversidade de sistemas agrícolas, agroflorestas) (FAO, 2015).

No que diz respeito às medidas econômicas, é essencial a criação de linhas de crédito específicas aos agricultores, pesquisas e cursos de capacitação, a criação de estratégias viáveis para escoamento da produção, bem como outros tipos de auxílio capazes de impulsionar a utilização sustentável da terra e garantir a geração de alimentos acessíveis, seguros e nutritivos para toda a população.

A Cartilha Parlamentar do Ministério do Meio Ambiente lançada no início deste ano (2017) possui propostas em dois Programas para a utilização consciente do solo. Nesta cartilha, é possível saber como os recursos financeiros podem ser utilizados, sua origem e destino. Resta saber de que forma pode-se monitorar e verificar se, de fato, todas essas propostas serão colocadas em prática. Mais do que possuir uma legislação consistente e transparente, o poder público, a sociedade civil, empresas e demais atores devem agir em conjunto, a fim de viabilizar a implantação desses programas e transformar a realidade desses países rumo à garantia de Segurança Alimentar.

Embora a visão geral de estratégias para atingir a garantia da Segurança Alimentar seja clara, os detalhes e a forma como essa abordagem pode ser efetiva ainda são subjetivos. Dessa forma, a economia e os gestores públicos exercem um papel fundamental no preenchimento dessas lacunas (BORATINSKA, 2015).

 

  • SHIVA, V. The violence of the Green Revolution: third world agriculture, ecology and politics. University Press of Kentucky, 1ª ed,  257p . EUA, 2016.
  • BRASIL, Ministério do Meio Ambiente. Cartilha Parlamentar 2016-2017, 1ª ed., Brasília-DF, 2017. Disponível em: http://coleciona.mma.gov.br/wp-content/uploads/bsk-pdf-manager/LIVRO_MMA_Cartilha_Parlamentar_WEB_116.pdf. Acesso: 10 jun. 2017.
  • FOLEY, J. ; RAMANKUTTY, N. ; BRAUMAN, K. ; CASSIDY, E. S.; GERBER, J. S.; JOHNSTON, M.; MUELLER, N. D.; O’CONNELL, C.; RAY,  D. K.; WEST, P. C.; BALZER, C.; BENNETT, E. M.; CARPENTER, S. R.; HILL, J.;MONFREDA,  C.; POLASKY, S.; ROCKSTRÖM, J.; SHEEHAN, J.; SIEBERT, S.; TILMAN, D. and ZAKS, D. P. M. Solutions for a cultivated planet., Nature Analysis, vol. 478, no. 7369, p. 337–42, Outubro, 2011.
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