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Uma nova esperança no combate à malária

A malária é uma doença infecciosa causada por protozoários do gênero Plasmodium, parasita que é transmitido para os seres humanos através da picada de mosquitos do gênero Anopheles. A malária é a doença transmitida por vetores que mais recebe investimentos para sua eliminação, US$ 3.1 bilhões de dólares foram investidos para a eliminação da doença no ano de 2017. Estima-se que 219 milhões de casos de malária ocorreram nesse mesmo ano , totalizando 435 mil mortes. Cerca de 90% das mortes por malária ocorreram nos países da África Sub-Saariana, acometendo principalmente crianças menores que 5 anos.

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Países com casos de malária em 2000 e seu status em 2017 – em vermelho as regiões mais afetada pela doença. Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

Devido à implementação de diversas técnicas para o controle da malária, as mortes pela doença caíram 60% desde os anos 2000. As estratégias de controle são baseadas no uso de mosquiteiros tratados com inseticidas e pulverização de inseticidas dentro dos domicílios. Além do uso de testes rápidos para o diagnóstico da doença e tratamento derivados da artemisinina (artesunato + mefloquina). Apesar dos avanços no controle da doença, muitas comunidades ainda não conseguem ter acesso à essas intervenções, e é por isso que cientistas estão desenvolvendo uma vacina que seja efetiva contra a doença. Cabe ressaltar que a malária causa um importante impacto negativo na economia de países africanos.

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Plasmodium vivax se multiplicando nos glóbulos vermelhos do sangue. Fonte: Public Health Image Library (PHIL).

A vacina, que recebe o nome científico RTS,S representando sua composição ou MosquirixTM, foi desenvolvida em 1987 e de lá pra cá passou por diversos testes para testar sua eficácia. Essa vacina espera ativar o sistema imune quando o Plasmodium falciparum infecta a corrente sanguínea por meio da picada do mosquito Anopheles. A vacina foi desenvolvida para prevenir o parasita de infectar as células do fígado do paciente (período de incubação da doença). 

A vacina tem sido rigorosamente testada por uma série de testes clínicos. Na fase 3, a vacina foi testada quanto a sua segurança e efetividade, em um teste clínico envolvendo 15.459 crianças africanas. Os testes mostraram que a vacina preveniu aproximadamente 4 em 10 (39%) casos de malária e 3 em 10 (29%) casos de malária severa em um período de 4 anos.

 

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Fonte: Pixabay

Essa é a primeira vacina que proveu proteção parcial contra a malária em crianças menores de 5 anos. Após anos de testes, a vacina está pronta para ser implementada em um programa de imunização piloto que ocorrerá em três países africanos, Gana, Quênia e Malawi. Estima-se que aproximadamente 360 mil crianças receberão a vacinação junto com suas vacinas da infância. A vacina será implementada em quatro doses, uma vez por mês durante três meses e a quarta dose após 18 meses.

O programa de imunização durará seis anos. O objetivo do programa de imunização é colher o máximo de informação na efetividade e quaisquer efeitos colaterais associados ao uso da vacina, para assim poder ser implementada em um contexto mais amplo.

Apesar da eficácia da vacina ser de apenas 40%, o que não é alto em comparação a outras vacinas, ainda assim é um grande avanço rumo ao controle da malária e sua subsequente eliminação. Com menos pessoas doentes, os mosquitos terão menos oportunidades de serem infectados e carregar os parasitos e com isso infectarão menos pessoas.

Referências

Organização Mundial da Saúde – Perguntas e Respostas sobre a implementação da vacina.

Organização Mundial da Saúde – Relatório sobre a vacina contra a malária.

PATH – Explicação sobre a implementação da vacina.

 

Notícia em português

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/23/oms-anuncia-primeiro-teste-em-grande-escala-de-vacina-contra-malaria.ghtml

Mais sobre a malária no blog

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/18/malaria-novas-complicacoes-para-velhos-problemas/

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/25/malaria-de-macacos-infectando-humanos-na-mata-atlantica/

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Os mosquitos odeiam música eletrônica?

Eu odeio música eletrônica… e os mosquitos também! Pelo menos é o que afirmam pesquisadores de um estudo publicado em março de 2019, no periódico científico Acta Tropica.

No estudo realizado por pesquisadores da University Malaysia Sarawak, foram examinados os efeitos da música “Scary Monsters and Nice Sprites”, do produtor musical Skrillex, em mosquitos transmissores do vírus da dengue e zika, Aedes aegypti.

Os mosquitos produzem sons que geram vibrações com o bater de suas asas. Para ocorrer o acasalamento entre mosquitos, o macho precisa harmonizar os sons/vibrações produzidos pelo bater de suas asas com os da fêmea, usando principalmente as antenas como órgãos sensoriais. Por isso, o estudo examinou se a música eletrônica poderia influenciar os mosquitos em três principais aspectos: busca por alimento, repasto sanguíneo e acasalamento (1).

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Aedes aegypti. Fonte: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas.

Vamos entender a escolha da música. Os autores do estudo justificaram a escolha da música por ser caracterizada como barulhenta, com forte pressão sonora e vibração, além de ter variação de altura constantes.

Para analisar o comportamento dos mosquitos, os pesquisadores colocaram 10 mosquitos fêmeas, que estavam há cerca de 12h sem se alimentar, em uma gaiola com um hamster (para testar o repasto sanguíneo e busca por alimento) e um mosquito macho (para acasalamento). Ao lado da gaiola foi colocada uma caixinha de som que tocava a música durante 10 minutos, enquanto os pesquisadores observavam o comportamento dos mosquitos.

Após os experimentos serem replicados 10 vezes com o som ligado e desligado, os resultados indicaram que os mosquitos submetidos à música demoraram mais para iniciar busca por alimento, se alimentaram menos de sangue e se acasalaram menos, em relação aos mosquitos analisados com a música desligada.

Baseados nos resultados, os autores concluíram que o estudo sugere um potencial para o desenvolvimento de estratégias de controle de mosquitos baseadas em música e já que tantas pessoas amam música, essa estratégia poderia ser mais apelativa do que o uso de inseticidas químicos.

Entretanto, o estudo foi fortemente criticado pela comunidade científica. É possível afirmar que o estudo deixa dúvidas quanto a ser baseado em evidências científicas. A primeira dúvida que me surgiu foi, porque os pesquisadores só testaram uma música? Em ciência nós evitamos ao máximo nos basear em apenas uma variável para explicar uma correlação entre dois fatores. Além disso, os pesquisadores também não testaram a amplitude e frequência do som, o que torna impossível saber qual foi a característica (frequência, amplitude, vibração) da música que afetou o comportamento dos mosquitos.

Esse assunto não é de hoje. No ano de 2012, a Rádio Band FM foi criticada por uma campanha contra mosquitos. Todos os dias do verão, entre 17 e 19 horas, a rádio transmitia uma sinal de alta frequência (15 kHz). A rádio prometia que essa frequência, que é quase inaudível aos seres humanos, era capaz de espantar os mosquitos. Porém, tudo não passava de uma campanha publicitária (que rendeu à rádio o prêmio Grand Prix em Cannes). Segundo cientistas entrevistados na época, a campanha não era baseada em evidências científicas e faziam um desserviço à população brasileira.

Além disso, existem vários aplicativos de celulares disponíveis na App Store que prometem emitir ultrassons que repelem mosquitos, porém nenhum deles parece mesmo funcionar – veja o vídeo no link.

Pesquisador mostrando que aplicativos que emitem sons de alta frequência NÃO repelem mosquitos. Fonte: https://www.bbc.com/news/magazine-20669080.

Apesar desse assunto ser interessante e um tanto quanto polêmico, a possibilidade de desenvolvimento de repelentes baseados em sons ainda precisa ser extensamente estudada e testada. Ou seja, estamos longe de poder usar música para nos proteger de picadas de mosquitos. Portanto, a melhor maneira ainda é usar repelentes e inseticidas como forma de proteção contra os mosquitos, preferencialmente aqueles que são regulados e recomendados pela Anvisa.

PS: Após ler o estudo, eu escutei a música “Scary Monsters and Nice Sprites” e preciso dizer que eu concordo com os mosquitos, é realmente irritante (risos).

Referência

1 – Dieng H, Chuin TC, Satho T, Miake F, Wydiamala E, Kassim NFA, et al. The electronic song “Scary Monsters and Nice Sprites” reduces host attack and mating success in the dengue vector Aedes aegypti. Acta Tropica. 2019;194:93–9.

Disponível em: https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0001706X19301202

Mais sobre o tema:

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/04/musica-eletronica-reduz-picadas-e-reproducao-do-mosquito-aedes-aegypti-aponta-estudo.ghtml

Sons de alta frequência não repelem mosquitos.

https://www.bbc.com/news/magazine-20669080

https://hypescience.com/ultrassom-realmente-repele-mosquitos/

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Como a urbanização afeta o comportamento de mosquitos vetores (Parte 1)

As modificações feitas pelos seres humanos nos ambientes naturais podem resultar em desfechos dramáticos para o meio ambiente, como aumento da temperatura, aumento de cobertura impermeável do solo, alteração na hidrologia e aumento de poluição. Apesar das alterações no meio ambiente prejudicarem algumas espécies, diversas outras, além dos seres humanos, podem ser beneficiadas e prosperar nos ambientes urbanos, como espécies que veiculam patógenos causadores de doenças.

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Imagem sem direitos autorais.

Metade da população mundial vive em grandes centros urbanos e, como consequência, mais e mais habitats naturais são fragmentados e ameaçados pela presença humana. Por exemplo, a Mata Atlântica brasileira é um bioma caracterizado pela alta diversidade de espécies e alto grau de endemismo*. Esse bioma é considerado um hotspot* de biodiversidade, devido ao seu ecossistema mais devastado e ameaçado do planeta.

*endemismo – fenômeno no qual uma espécie ocorre exclusivamente em determinada região geográfica.

*hotspot – regiões que, por sua importância ecológica, devem ser investigadas.

Pesquisadores que trabalham com ecologia e evolução de espécies em áreas urbanas afirmam que as alterações antrópicas no ambiente podem contribuir para o aumento da abundância de espécies adaptadas a esse meio e diminuir a riqueza de espécies em geral. Isso significa que espécies adaptadas aos ambientes urbanos aumentam suas populações, enquanto espécies mais sensíveis podem diminuir suas populações, ou até mesmo serem extintas. Esse fenômeno ocorre em diversas espécies de plantas e animais, porém neste texto nos focaremos em quais são as implicações da urbanização em populações de mosquitos.

Países como o Brasil frequentemente passam por uma rápida e não planejada urbanização, caracterizada por falta de saneamento básico, casas insalubres, rios poluídos e esgoto não tratado. Esses fatores juntos podem favorecer a abundância de algumas espécies de mosquitos adaptadas ao meio urbano, além de ser um obstáculo para estratégias de controle de vetores.

Durante o meu mestrado, eu pesquisei a genética de populações da espécie de mosquito Aedes fluviatilis em São Paulo. Nos baseando nos resultados encontrados neste estudo, meus colaboradores e eu sugerimos que as populações desse mosquito sofreram processos de expansão populacional associados aos processos de urbanização de São Paulo. Os resultados desse trabalho foram publicados em um artigo científico na revista PLoS ONE.

Nós propomos duas hipóteses para explicar a expansão das populações de Aedes fluviatilis em São Paulo. A primeira delas é: a expansão das populações desta espécie ocorreu porque a mesma é muito adaptada ao meio urbano e se benefica deste ambiente e consegue completar todo o seu ciclo de vida na cidade. Já a segunda hipótese é baseada na história da construção da cidade de São Paulo, propomos que devido a urbanização mais intensa da cidade começar após 1960, as populações de Aedes fluviatilis que eram na verdade uma grande população sem barreiras para troca de genes, foi fragmentada devido ao crescimento da cidade. Como essa urbanização ocorreu recentemente e foi intensa as populações dessa espécie em São Paulo são pouco diversas, porém abundantes e bem adaptadas ao meio urbano.

Existem mais de 70 espécies de mosquito somente na cidade de São Paulo. Entre estas, as mais abundantes são: Aedes albopictus, Aedes fluviatilis, Aedes aegypti, Culex nigripalpus, Culex quinquefasciatus e Aedes scapularis. Todas essas espécies possuem importância para a área da saúde. Nem todas são capazes de efetivamente transmitir patógenos aos seres humanos em condições naturais, mas todas são consideradas “fator de incômodo”.

Enquanto eu fazia meu mestrado, outras pessoas do meu grupo de pesquisa trabalhavam em pesquisas com objetivos que consistiam em caracterizar  geneticamente populações urbanas de outras espécies de mosquito. Populações de Aedes aegypti em São Paulo provavelmente também sofreram processos de expansão populacional devido à sua alta capacidade de adaptação às mudanças antropogênicas. Pelo contrário, populações da espécie Culex nigripalpus provavelmente não se beneficiam da urbanização e sofrem severas pressões seletivas desse meio, resultando em populações com pouca diversidade genética.

 

Agora no doutorado, eu pesquiso a espécie Anopheles cruzii, vetor primário de malária na Mata Atlântica. Meu projeto consiste em analisar geneticamente e fenotipicamente* populações desta espécie em três diferentes ambientes: silvestre, peri-urbano e urbano. Farei comparações das populações entre três anos e entre os três ambientes. Alguns resultados já estão prontos e serão publicados em breve. Ainda no doutorado, eu também faço um projeto à parte no qual pesquiso a genética de populações do mosquito Aedes albopictus, neste projeto resultados interessantes foram encontrados e também serão publicados em breve. Falarei mais sobre este assunto na parte 2 deste texto.

*fenotipicamente – características visíveis do genótipo.

Este primeiro texto foi um dos mais importantes que já escrevi, pois nele tentei resumir um pouco da minha pesquisa, algo que nunca tinha feito antes, e falar sobre a sua real contribuição para a área da saúde. Entender como as mudanças no ambiente afetam a genética de populações de espécies de mosquitos pode nos ajudar a compreender como a urbanização pode facilitar a expansão de populações de mosquitos adaptadas a esse ambiente. Além disso, as áreas urbanizadas também oferecem habitats aos mosquitos e podem facilitar a emergência de patógenos que causam doenças em seres humanos.

Referências utilizadas na concepção do texto

  1. Johnson MTJ, Munshi-South J. Evolution of life in urban environments. Science (80- ). 2017;358: eaam8327. doi:10.1126/science.aam8327
  2. Multini LC, Wilke ABB, Suesdek L, Marrelli MT. Population Genetic Structure of Aedes fluviatilis (Diptera: Culicidae). Franz AWE, editor. PLoS One. 2016;11: e0162328. doi:10.1371/journal.pone.0162328
  3. Wilke ABB, Wilk-da-Silva R, Marrelli MT. Microgeographic population structuring of Aedes aegypti (Diptera: Culicidae). Sekaran SD, editor. PLoS One. 2017;12: e0185150. doi:10.1371/journal.pone.0185150
  4. Wilke ABB, de Carvalho GC, Marrelli MT. Retention of ancestral polymorphism in Culex nigripalpus (Diptera: Culicidae) from São Paulo, Brazil. Infect Genet Evol. Elsevier; 2018;65: 333–339. doi:10.1016/j.meegid.2018.08.017
  5. Medeiros-Sousa AR, Fernandes A, Ceretti-Junior W, Wilke ABB, Marrelli MT. Mosquitoes in urban green spaces: using an island biogeographic approach to identify drivers of species richness and composition. Sci Rep. 2017;7: 17826. doi:10.1038/s41598-017-18208-x

Leituras interessantes (Inglês)

This Mosquito Likes Us Too Much For Our Own Good. https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2016/02/10/466268138/this-mosquito-likes-us-too-much-for-our-own-good

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Comunicação em saúde pública

Segundo a União Internacional de Telecomunicações (International Telecommunication Union – ITU), cerca de 48% da população mundial tem acesso à internet . A estimativa é que a proporção de casas com acesso à internet seja de 53% em todo o mundo (ITU, 2017). A mesma agência constatou que a assinatura de internet em celulares cresceu 20% nos últimos cinco anos e estimou que atingiria 4.3 bilhões de assinaturas no final de 2017.

A relação dos seres humanos com os seus celulares é de tanta dependência que até doenças relacionadas a esse comportamento estão começando a ser descritas, como é o exemplo de “WhatsAppitis, um tipo de tendinite diagnosticada após uma mulher apresentar fortes dores nos pulsos após passar 6 horas seguidas segurando seu celular e digitando mensagens usando os polegares.

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Fonte: IBGE

No Brasil, aproximadamente 65%  da população (116 milhões de pessoas) tem acesso a internet e, destes, mais de 95% acessa a rede pelo celular. Esse fenômeno torna o celular a ferramenta perfeita para todo o tipo de pesquisa, principalmente, pesquisas sobre saúde. Em uma pesquisa realizada pela London School of Economics, entre os brasileiros, 68% consultam a internet sobre medicamentos, 45% sobre hospitais e 41% para conhecimento sobre experiências de outros pacientes.

Um grande problema sobre o acesso a informações de saúde pela internet é a disseminação de notícias falsas, pois qualquer pessoa pode publicar o que quiser na internet. Estudos realizados após a crise do Ebola na África, concluíram que tuítes com informações falsas sobre a doença foram mais retuítados do que os contendo informações verdadeiras. As redes sociais, assim como SMS e WhatsApp, também ajudam muito a disseminar notícias falsas sobre tratamentos de doenças, vacinas e outras questões relativas à saúde.

Devido às mudanças no comportamento da população em pesquisar sobre doenças, as organizações de saúde estão entrando cada vez mais nas redes sociais. Hospitais, profissionais e autoridades em saúde estão abrindo contas no YouTube, Facebook e Twitter para atingirem uma maior parte da população.

Considerando a grande demanda de pessoas interessadas em sua saúde e a imensa quantidade de notícias falsas, é muito importante que as agências e organizações de saúde contratem profissionais capacitados e com experiência nos campos da saúde e comunicação para cuidar de suas redes sociais e outros veículos de informação. Estes profissionais são os chamados Comunicadores de Saúde (Health Communicator). A comunicação em saúde é uma área nova que tem ganhado bastante atenção, em parte por sua ênfase em combinar teoria e prática em entender processos da comunicação e mudança do comportamento humano.

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Para a promoção de saúde, algumas campanhas estão usando a disseminação de informação por meio de mensagens de texto, principalmente em áreas rurais, nas quais esse pode ser o único canal de informação do público. Como exemplo, o projeto Masiluleke na África do Sul enviou milhões de mensagens de texto por dia para encorajar as pessoas a fazerem o teste para HIV/AIDS. As mensagens foram enviadas em língua local e provia informações sobre os locais de realização dos testes. Enquanto outros meios de comunicação como rádio, televisão e sites também são implementados nos serviços de educação em saúde pública, o SMS tem diversas vantagens, bom custo-benefício, é conveniente, pode atingir mais pessoas e é muito popular em países em desenvolvimento.

A comunicação em saúde tem muito o que contribuir com o conhecimento da população mundial em momentos de surtos de doenças e desastres naturais, principalmente nos países em desenvolvimento. Essa abordagem é pertinente neste momento em que muitas das ameaças para a saúde pública global estão enraizadas no comportamento humano. Os comunicadores em saúde têm uma oportunidade única em melhorar e salvar a vida de diversas pessoas.

Referências

Kahn, James G., Joshua S. Yang, and James S. Kahn. “‘Mobile’ health needs and opportunities in developing countries.” Health Affairs 29.2 (2010): 252-258.

Fernandez-Guerrero, Inés M. “WhatsAppitis.” The Lancet 383.9922 (2014): 1040.

Fernández-Luque, Luis, and Teresa Bau. “Health and social media: perfect storm of information.” Healthcare informatics research 21.2 (2015): 67-73.

Vital Wave Consulting. The opportunity of mobile technology for healthcare in the developing world. Washington (DC) and Berkshire (UK): UN Foundation–Vodafone

http://www.who.int/bulletin/volumes/87/4/08-056713/en/

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/20073-pnad-continua-tic-2016-94-2-das-pessoas-que-utilizaram-a-internet-o-fizeram-para-trocar-mensagens.html

https://www.gazetadopovo.com.br/saude/80-usam-internet-para-fazer-buscas-sobre-saude-dukyya76lkzf6ggxpwkvmz4ge

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As doenças negligenciadas do Brasil

O medo de uma doença viral, mais conhecida como febre amarela, tem deixado a população brasileira em estado de alerta. Em um cenário que envolve: macacos morrendo, pessoas doentes, filas quilométricas nos postos de saúde e a falta de certeza se haverá vacina para todos.

Mas hoje não falaremos desta doença, a febre amarela já foi discutida em um outro post deste blog. Hoje falaremos de outras doenças virais transmitidas por mosquitos.

As arboviroses, ou doenças transmitidas por arbovírus, são ameaças constantes em países tropicais, como o Brasil. Fatores como: mudanças climáticas, desmatamento, migração, crescimento desordenado de áreas urbanas e condições sanitárias precárias, amplificam os vírus e seus vetores, favorecendo a transmissão de doenças.

No Brasil foram isolados, aproximadamente, 200 espécies diferentes de vírus, dos quais 40 podem causar doenças em humanos. As doenças virais transmitidas por mosquitos mais conhecidas são: zika, dengue, chikungunya e febre amarela. Mas existem outras, menos notificadas, negligenciadas e que são menos discutidas na literatura e, consequentemente, aparecem menos na mídia.

Estas doenças são: Oropouche, Mayaro e Rocio. Todas elas tem um sintoma em comum: febre alta. Não existem testes específicos para essas doenças. O que torna o seu diagnóstico difícil e por vezes são subnotificadas.

Oropouche

Esse vírus foi isolado pela primeira vez no ano de 1955 em Trindade e Tobago. Cinco anos depois o vírus foi encontrado no Brasil em uma amostra de bicho-preguiça. Desde essa época o vírus tem causado surtos epidêmicos na região Amazônica, principalmente nas cidades de Manaus e Belém.

O vírus é transmitido entre hospedeiros vertebrados, podendo infectar mamíferos e aves. Ele é transmitido por espécies silvestres de mosquitos e pelo Culicoides paraensis, popularmente conhecido como borrachudo.

Oropouche é considerada uma das doenças mais importantes nas Américas, especialmente na região da Amazônia Brasileira. Pesquisas indicam que cerca de 500 mil pessoas podem ter sido infectadas com o vírus Oropouche desde a década de 60.

Em 2002, 128 pessoas de Manaus foram encontradas infectadas pelo vírus, pacientes que tiveram o diagnóstico inicial de dengue. Provando que o diagnóstico dessa doença é constantemente confundido com outras que apresentam quadro febril do paciente e que são endêmicas na região amazônica, como dengue e malária.

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Pântano Oropouche – Trindade e Tobago. Fonte: Grueslayer @Wikipedia, CC BY-SA 4.0

Mayaro

A doença conhecida como febre do Mayaro, com sintomas que envolvem: febre, dor de cabeça e dor nas articulações, foi primeiramente identificada em 1954, em regiões silvestres aos arredores da Amazônia. Existem casos esporádicos da doença em seres humanos que habitam próximos a fragmentos de florestas tropicais, pois o vetor que transmite o vírus, mosquitos do gênero Haemagogus, são comuns nestas florestas.

A maior preocupação em relação a esse vírus, é de que ele pode ter se adaptado. Anteriormente, era transmitido apenas por mosquitos silvestres, e agora pode ser transmitido por mosquitos urbanos do gênero Aedes, indicando a possível urbanização da doença. Uma vez que mosquitos do gênero Aedes estão espalhados por todo o continente latino-americano, há razões para se preocupar com surtos dessa doença.

Foi estimado que a transmissão do vírus em Manaus, chegou a cerca de 2 milhões de pessoas. Essa doença pode se tornar um sério problema de saúde pública, pois não possui vacina e o controle de vetores é precário em determinadas regiões.

Rocio

O vírus Rocio, foi isolado de um caso fatal de encefalite em 1975, em uma área da Mata Atlântica. Esse caso foi detectado no surto que durou de 1973-1980 e causou mil casos de encefalite em mais de 20 municípios, resultando em 100 mortes. O ciclo do vírus é mantido por aves que servem de reservatório e transmitido por mosquitos do gênero Aedes e Psorophora. Porém, há pouca informação na literatura a respeito deste vírus.

Doenças negligenciadas

As doenças negligenciadas, ou “esquecidas”, são um conjunto de doenças infecciosas que atingem as populações mais vulneráveis. Essas populações incluem os mais pobres, os mais marginalizados e aqueles com menor acesso à serviços de saúde, especialmente pessoas que vivem em áreas rurais, ou nas periferias de grandes centros urbanos. Todas as doenças citadas no texto se encaixam no perfil de negligenciadas.

Lidar com essas doenças requer uma estratégia integrada com ações multi-setoriais, uma vez que todas elas têm o potencial de se espalhar pelo território brasileiro e ameaçar mais ainda a parte mais vulnerável da população. Além de intervenções com boa relação de custo-benefício para reduzir os impactos negativos que as doenças apresentam para a saúde e bem-estar socioeconômico da população.

Standing up to Chagas at the Paraguayan Chaco

Fonte: MSF – Anna Surinyach

Referências

Lorenz C, Azevedo TS, Virginio F, Aguiar BS, Chiaravalloti-Neto F, Suesdek L (2017) Impact of environmental factors on neglected emerging arboviral diseases. PLoS Negl Trop Dis 11(9): e0005959. https://doi.org/10.1371/journal. pntd.0005959

Informações do Ministério da Saúde

http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-do-mayaro

Informações na mídia sobre as doenças

http://agencia.fapesp.br/virus_oropouche_pode_emergir_e_causar_problemas_de_saude_publica_no_brasil/25696/

https://saude.abril.com.br/medicina/conhece-a-febre-do-oropouche-pois-ela-pode-crescer-no-brasil/

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/01/1954737-virus-primos-da-zika-tambem-causam-ma-formacoes-em-fetos-de-roedores.shtml

https://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/saiba-que-o-mayaro-virus-transmitido-pelo-aedes-aegypti-que-pode-se-espalhar-20428264.html

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/09/1919223-virus-primos-da-dengue-podem-estar-na-ativa.shtml

http://www.paho.org/hq/index.php?option=com_topics&view=article&id=37&Itemid=40760

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Malária de macacos infectando humanos na Mata Atlântica

Em recente estudo publicado na revista The Lancet por pesquisadores brasileiros relataram casos de pacientes infectados por Plasmodium simium, um parasita que causa malária em macacos dos gêneros Alouatta e Cebus, em regiões de Mata Atlântica (Brasil et al. 2017).

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Alouatta guariba, popularmente conhecido como bugio-ruivo. Foto: Everton Gonçalves.

A malária é uma doença parasitária causada por protozoários do gênero Plasmodium, parasita que é transmitido aos seres humanos, obrigatoriamente, através da picada de fêmeas de mosquitos Anopheles infectadas (World Health Organization 2014). A transmissão de malária no Brasil ocorre quase que exclusivamente na região amazônica do país, porém existe um número consistente de casos autóctones¹ sendo reportados nas regiões sul e sudeste,  onde se acreditava que a doença já havia sido eliminada há 50 anos.

A malária que ocorre fora da região amazônica é nomeada malária-bromélia. A doença recebe esse nome porque o vetor que a transmite, Anopheles cruzii, ocorre associado a essas plantas, e utilizam a água retida em suas axilas como criadouro para suas formas imaturas. Essa espécie de mosquito costuma ser amplamente encontrada em regiões de Mata Atlântica, bioma que é rico em bromélias (Pina-Costa et al. 2014).

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Bromélia com água retida em suas axilas

Entre os anos de 2006 e 2016, 1032 casos autóctones de malária foram registrados em regiões de Mata Atlântica (Ministério da Saúde, 2017). Nestes locais, a maioria dos casos reportados de malária é atribuída ao parasita Plasmodium vivax, conhecido parasita causador da malária em humanos.

Porém, no ano de 1966 ocorreu um único caso de malária causada por Plasmodium simium* em humanos. Neste estudo, Deane e colaboradores descreveram a infecção de um homem com Plasmodium que foi considerado ser Plasmodium simium, por causa das características morfológicas do parasita e porque a infecção ocorreu em uma reserva florestal de São Paulo, local onde havia transmissão ativa de malária entre macacos (Deane and Ferreira Neto 1966).

Segundo a hipótese de Deane e colaboradores (1966), os macacos bugios da Mata Atlântica servem como espécies reservatórias de Plasmodium, sendo que este é transmitido aos seres humanos através da picada de mosquitos Anopheles cruzii. Essa espécie é conhecida por fazer repasto sanguíneo (alimentar-se de sangue) em primatas não-humanos nas copas das árvores e em humanos no nível do solo.

Nos anos de 2015 e 2016 foram notificados 49 casos autóctones de malária em pessoas vivendo próximas a fragmentos de Mata Atlântica no Rio de Janeiro. Todos os casos foram diagnosticados como sendo causados por Plasmodium vivax. Porém, o estudo de Brasil e colaboradores (2017) mostrou uma realidade diferente.

Os pesquisadores envolvidos no estudo investigaram amostras de sangue de pacientes do Rio de Janeiro que apresentavam sintomas de malária, assim como amostras de sangue de macacos bugios locais, e as compararam por microscopia e técnicas moleculares.

No mesmo estudo, também foi criado um teste molecular baseado no genoma dos parasitas P. vivax e P. simium para distingui-los. O teste foi realizado em amostras de 33 pacientes acometidos no surto de malária que ocorreu previamente, em 2015 e 2016.

Quarenta e nove casos autóctones de malária foram notificados entre 2015 e 2016 no Estado do Rio de Janeiro. A maioria dos pacientes eram homens com idade média de 44 anos, viviam em áreas urbanas do Rio de Janeiro e visitaram a Mata Atlântica por lazer, ou por atividades relacionadas ao trabalho.

Das 33 amostras de sangue testadas para distinção dos parasitas, 28 amostras foram sequenciadas com sucesso e mostraram resultados positivos para Plasmodium simium, indicando que há transmissão zoonótica de malária nessa região. Os resultados encontrados neste estudo sugerem que os surtos de malária ocorrendo nessa região foram causados por P. simium, previamente considerado um parasita específico de macacos.

Exemplificação do ciclo de malária de Mata Atlântica

 

ciclo

tradução livre: “em certas condições, Anopheles cruzii pode picar na copa das árvores e perto do solo, comportamento que pode favorecer a transmissão de plasmódios de símios para humanos em locais próximos a fragmentos de florestas” (Pina-Costa et al. 2014)

O ciclo da malária de Mata Atlântica ainda gera dúvidas aos pesquisadores. Há evidências de infecção subclínica de Plasmodium, ou seja, infecção na qual os doentes não apresentam sintomas da doença. Esse comportamento da doença pode indicar que a dinâmica da malária pode ter atingido um nível de transmissão “sustentável”, sem causar morbidade³ e sem afetar a sobrevivência de hospedeiros, reservatórios e vetores (Sallum et al. 2014).

Além da infecção subclínica, a transmissão zoonótica de malária ocorrendo em locais de Mata Atlântica e próximos a locais urbanos possuem consequências imediatas para a saúde pública nesta região, e para o futuro controle e eliminação de malária no Brasil. Os órgãos de saúde competentes devem avaliar estas regiões para saber a extensão do problema da malária zoonótica.

Assim como a febre amarela, uma doença zoonótica estabelecida, na qual os macacos são reservatórios de seu agente etiológico, a malária zoonótica pode se transformar em um grande problema de saúde pública.

¹Autóctones – natural da região onde se encontra

²Plasmodium simium – protozoário responsável por causar malária especificamente em macacos símios.

³Morbidade – pessoas consideradas doentes, ou seja, que apresentam sintomas da doença.

Leia mais

Malária: novas complicações para velhos problemas

Referências

Brasil P, Zalis MG, de Pina-Costa A, Siqueira AM, Júnior CB, Silva S, et al. Outbreak of human malaria caused by Plasmodium simium in the Atlantic Forest in Rio de Janeiro: a molecular epidemiological investigation. Lancet Glob Heal. 2017 Oct;5(10):e1038–46.

Deane LM, Ferreira Neto J. Studies on transmission of simian malaria and on a natural infection of man with Plasmodium simium in Brazil. Bull World Health Organ. 1966;35(5):805–8.

Pina-Costa A, Brasil P, Di Santi SM, de Araujo MP, Suárez-Mutis MC, Santelli ACF e S, et al. Malaria in Brazil: what happens outside the Amazonian endemic region. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2014;109(5):618–33.

Sallum MA, Daniel-Ribeiro C, Laporta G, Ferreira-da-Cruz M, Maselli LM, Levy D, et al. Finding connections in the unexpected detection of Plasmodium vivax and Plasmodium falciparum DNA in asymptomatic blood donors: a fact in the Atlantic Forest. Malar J. 2014;13(1):337.

World Health Organization – WHO. Malaria. 2014.

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Uma nova maneira de divulgar descobertas científicas

Você que é pesquisador, pós-doc, doutorando, mestrando ou até mesmo um aluno de Iniciação Científica, provavelmente, já se deparou com as dificuldades inerentes à publicação de um artigo científico. Pra quem não é da área acadêmica, eu explicarei as etapas necessárias para que um artigo seja aceito para publicação em um bom periódico.

Primeiramente, é necessário o desenvolvimento de um projeto que deve ser avaliado quanto a sua justificativa, objetivo e métodos para obtenção de resultados confiáveis e consistentes. Após o desenvolvimento de todo o seu projeto e análise dos seus resultados, nada mais o impede de começar a escrever o seu artigo científico.

A maioria dos artigos da área de ciências biológicas e saúde é dotada de cinco seções: Resumo, Introdução, Material e Métodos, Resultados e, por fim, Discussão. Essa estrutura é a mais comum, porém alguns artigos das áreas de ciências humanas e sociais podem adotar estilos de redação diferentes. Se você quiser o passo-a-passo de como um artigo científico deve ser escrito, acesse o texto: Como escrever um artigo científico do site Pós-graduando.

Em geral, artigos científicos são curtos e não ultrapassam 10 páginas. Por isso, a capacidade de síntese é algo importante, apesar de difícil, na hora de escrever. Depois de conseguir fazer toda a sua pesquisa caber em poucas páginas escritas em inglês formal¹ você estará pronto para submeter seu artigo, juntamente com todas as suas figuras, gráficos e tabelas, em um periódico científico de preferência com alto fator de impacto².

Uma vez submetido, o artigo passará por uma análise de revisão rigorosa que conta, geralmente, com 2 revisores e 1 editor. Eles vão ler seu trabalho, avaliá-lo e decidir se será aceito, negado ou se precisará passar por correções e uma nova análise para poder ser publicado. A maioria dos periódicos são “peer-reviewed”, ou seja, revisado por pares, isso significa que os pesquisadores que revisarão seu manuscrito são, preferencialmente, da mesma área de pesquisa que você.

Digamos que após algumas correções e rigorosa análise, o seu artigo tenha sido aceito em um periódico. Você pensa: “nossa que ótima notícia, agora todos os pesquisadores do mundo inteiro que tenham interesse pelo meu campo de trabalho poderão acessar meu texto e ler minhas contribuições para a área.” Na verdade, não é bem assim que as coisas funcionam…

Os bons periódicos com acesso aberto (Open Access) ao público, geralmente cobram na faixa de U$1,000 para publicar um artigo. Existem revistas que não cobram para publicação, porém o acesso ao seu artigo fica restrito a assinantes daquela revista, como universidades e institutos de pesquisa. Para os não assinantes, existe uma taxa de cerca de U$40  para permitir acesso ao texto.

Por conta dessas dificuldades, surgiram algumas iniciativas, como o sci-hub. O sci-hub é um site fundado em 2011 pela neurocientista Alexandra Elbakyan, no qual são encontrados cerca de 62 milhões de artigos científicos das mais variadas áreas e revistas. Apesar de ser uma nobre iniciativa, que visa derrubar as barreiras da ciência, o sci-hub é ilegal, já foi retirado do ar diversas vezes e enfrenta graves acusações de roubo de direitos autorais.

Scihub

Fonte: Sci-hub. Tradução livre: ..para remover todas as barreiras no caminho da ciência.

Mais um importante projeto criado pela instituição Cold Spring Harbor Laboratory sediada em Nova Iorque, é o BioRxiv (lê-se bio-archive), um site autointitulado de “the preprint server for biology” (em tradução livre: “servidor para artigos pré-publicados de biologia”) que opera como uma revista científica para artigos que ainda não foram formalmente revisados e publicados. O BioRxiv foi lançado no final de 2013 e já conta com cerca de 10 mil manuscritos disponíveis para serem acessados por qualquer pessoa.

A plataforma funciona da seguinte maneira: pesquisadores podem submeter  rascunhos de seus artigos assim que estiverem prontos para serem compartilhados, com semanas, ou meses antes de serem formalmente publicados em uma revista científica.

preprints

Fonte: Nature. doi: 10.1038/503180a. Tradução livre: Os “preprints” ganham vida.

O objetivo do BioRxiv é acelerar o compartilhamento de resultados científicos importantes que ficariam “escondidos” até serem aceitos para publicação em algum periódico. O mais legal desta plataforma é que outros cientistas podem deixar comentários e te ajudar no processo de evolução do seu manuscrito. Uma vez que um artigo é adicionado no BioRxiv ele não pode ser removido, pois o site permite sua citação por outros autores. Depois de ser aceito para publicação, o site atualiza automaticamente a versão “preprint” com um link para a versão publicada.

Em abril deste ano foi divulgado que o servidor recebeu uma grande contribuição de Chan Zuckerberg Initiative (CZI) para a expansão do site e adição de mais ferramentas. “O acesso expandido a esses manuscritos pode acelerar o ritmo de descobertas e, como consequência, nosso entendimento de saúde e doenças”, afirmou o neurocientista Cori Bargmann, presidente do Departamento de Ciências da CZI.

Iniciativas como o BioRxiv já são altamente disseminadas em outras áreas do conhecimento, como no  campo da física, matemática e ciências sociais com o site Rxiv (archive) que aceita “preprints” dessas áreas há 25 anos, mas para os pesquisadores do campo da biologia e de saúde isso tudo é uma grande novidade.

O servidor certamente contribuirá para todas as áreas da biologia,  principalmente para a saúde. Uma das contribuições mais evidentes é reportar rapidamente surtos de doenças infecciosas, como no começo do ano de 2013, quando cientistas submeteram ao Rxiv um relatório a respeito de surtos de gripe aviária (H7N9) que ocorriam na China.

O sistema atual de publicação de artigos científicos é caro, restringe o acesso à ciência aos meios especializados e torna o desenvolvimento científico mais lento, artigos podem levar até um ano para serem publicados.  Diante desse cenário, a comunidade científica deve considerar que uma ação como o BioRxiv pode realmente representar um avanço no jeito de fazer e divulgar ciência.

¹Nem todos os artigos científicos são, obrigatoriamente, escritos em inglês, porém os textos em inglês podem ser lidos por qualquer pessoa ao redor do mundo.

²Fator de impacto: é uma medida que calcula o número médio de citações de artigos científicos publicados em determinado periódico.

 

Links

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BioRxiv

Mais sobre BioRxiv (inglês)

 

 

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Cientistas preveem spillover de vírus de mamíferos selvagens para seres humanos

A maioria das doenças virais que acarretam os seres humanos envolvem patógenos inicialmente transmitidos por outros animais – doenças chamadas de zoonoses.

Zoonoses virais, como o HIV e o Ebola, são doenças de grande importância, pois podem causar consequências devastadoras em populações humanas. Porém, até o momento, entender os fatores que conduzem a diversidade viral em mamíferos, possibilidades de hospedeiros e transmissão de vírus entre outras espécies de mamíferos, consiste em uma verdadeira dificuldade para os pesquisadores.

Por esse motivo, o pesquisador Kevin J. Olival e  seus colaboradores da ONG EcoHealth Alliance, sediada nos Estados Unidos, criaram e analisaram um banco de dados de vírus associados a mamíferos, incluindo 754 espécies de mamíferos (14% da diversidade global de mamíferos) e 586 espécies virais. Os autores usaram esses dados para testar hipóteses nos determinantes de todas as espécies de vírus albergadas (riqueza viral) pelas espécies de mamíferos e compartilhamento de vírus entre mamíferos selvagens e humanos.

Primeiramente, os autores identificaram fatores que influenciam a riqueza viral total – o número de espécies virais em um dado hospedeiro, incluindo aqueles que possuem o potencial de infectar humanos. A seguir, os autores identificaram os caracteres ecológicos, filogenéticos e da história de vida que fazem de algumas espécies de mamíferos mais prováveis de serem hospedeiras de zoonoses que outras. E por último, reconheceram que nem todos os vírus de mamíferos teriam a capacidade biológica de infectar humanos, por isso, identificaram caracteres virais que aumentam a probabilidade do vírus ser zoonótico.

Os resultados encontrados pelos autores mostraram que morcegos, primatas e roedores tiveram maior proporção de vírus zoonóticos observados. Isso indica que os animais desses grupos são alvos importantes para descoberta de vírus na vida selvagem.

O risco de transmissão viral zoonótica, ou spillover¹, provavelmente varia entre espécies hospedeiras, devido a diferenças na população viral, oportunidade de contato com seres humanos e à propensão em exibir sintomas clínicos.

Segundo os autores do estudo, morcegos são hospedeiros de uma proporção significante de zoonoses, mais do que qualquer outro mamífero e apresentam um grande risco de spillover de vírus para os seres humanos. De acordo com a publicação, diversos estudos prévios propuseram que os morcegos são hospedeiros reservatórios de várias zoonoses emergentes, como por exemplo, SARS e Ebola.

Os autores também defendem que a proporção de vírus zoonótico por espécies é maior em hospedeiros selvagens que são filogeneticamente próximos aos humanos, como por exemplo, os primatas e que essa relação é significante.

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Morcego da espécie Platyrrhinus lineatus. Foto: Marco Mello.

Os pesquisadores extrapolaram seus modelos para tentar prever o número de vírus que seriam encontrados por hospedeiro em dadas regiões. Primeiramente, consideraram que todos os hospedeiros foram submetidos a grandes esforços de pesquisa e, a seguir, subtraíram esse número pelo número de vírus já conhecido para cada hospedeiro. Essa abordagem permitiu a predição de espécies e regiões que são mais prováveis de albergar zoonoses, como por exemplo, morcegos na América do Sul (Figura 1).

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Figura 1. Distribuição Global do número previsto de “zoonoses perdidas” transmitidas por morcegos. doi:10.1038/nature22975

Muito mais estudos laboratoriais e de campo precisam ser realizados para confirmação desses resultados, porém este artigo levanta uma importante discussão sobre previsão de zoonoses e regiões onde possuem a maior capacidade de ocorrência (destacando que atenção deve ser dada a América do Sul). Nem todas as zoonoses causam pandemias², mas a grande maioria de pandemias que ocorrem são zoonoses e devem ser frequentemente estudadas.

  1. Spillover: quando uma população hospedeira reservatória com alta prevalência de patógenos entra em contato com uma nova população hospedeira.
  2. Pandemias: doença altamente disseminada.

Referências

Lloyd-Smith JO. Infectious diseases: Predictions of virus spillover across species. Nature. 2017 Jun 21;546(7660):603–4.

Olival KJ, Hosseini PR, Zambrana-Torrelio C, Ross N, Bogich TL, Daszak P. Host and viral traits predict zoonotic spillover from mammals. Nature. 2017 Jun 21;546(7660):646–50.

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Um novo despertar: Febre amarela

Um pouco sobre a doença

A febre amarela é uma doença infecciosa não contagiosa transmitida por mosquitos dos gêneros Aedes e Haemagogus. Epidemias históricas dessa doença ocorreram entre os séculos 18 e 20 em diversos países da África, Europa e Américas [1].

Essa doença pode se manifestar de duas formas: febre amarela silvestre e urbana. A forma silvestre é transmitida nas florestas por mosquitos silvestres do gênero: Haemagogus, que picam macacos suscetíveis que desenvolvem a doença, sendo, nesse cenário, o homem um hospedeiro acidental. A forma urbana da doença é transmitida dentro de cidades, mosquitos infectados picam homens suscetíveis, que por sua vez desenvolvem a doença e podem transmiti-la para outro mosquito Aedes aegypti, que é um excelente vetor do vírus que causa a febre amarela [2]. Com a introdução da vacina da febre amarela no final dos anos 1930 e com as campanhas de erradicação do Aedes aegypti, epidemias urbanas da doença caíram substancialmente e os surtos ficaram confinados às áreas silvestres, onde o principal vetor é o mosquito Haemagogus janthinomys.

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Haemagogus janthinomis. Fonte da imagem: J. Stoffer, WRBU (http://wrbu.org/mqID/mq_medspc/AD/HGjan_hab.html)

            Na região Amazônica e em outras áreas endêmicas do Brasil, surtos epizoóticos* da doença são reportados a cada 5 a 7 anos. Essa periodicidade é, provavelmente, devido à renovação de populações de macacos que são essenciais para amplificação do vírus em áreas silvestres [3].

            A febre amarela pode ser introduzida em áreas não endêmicas de duas maneiras. Primeiramente, pessoas no período virêmico ou de incubação da infecção vão a locais com alta densidade de vetores e hospedeiros vertebrados (macacos). Uma vez que o vírus se estabelece no local, a transmissão do vírus via mosquitos explode e infecta macacos sem imunidade natural, resultando em quase a total eliminação das populações de macacos. A outra maneira de introdução da febre amarela é por meio de tráfico ilegal de animais silvestres. Traficantes de animais usam estradas ilegais que geralmente são de difícil acesso, podendo levar à introdução do vírus para novas áreas [1].

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Ciclo da febre amarela em inglês. Fonte da imagem: CDC PHIL (https://phil.cdc.gov/phil/details.asp).

*Doença que afeta muitos animais da mesma espécie em uma mesma área geográfica

Sintomas da doença em humanos

Depois de contraído, o vírus da febre amarela tem um período de incubação de 3 a 6 dias, seguido de infecção. A primeira fase aguda da doença é considerada aguda e caracterizada pelos sintomas: febre, calafrios, dor muscular, dor nas costas, dor de cabeça, perda de apetite e náusea ou vomito. Após a primeira fase, 15% dos infectados entram na segunda fase da doença, considerada tóxica, após 24 horas de remissão. A febre alta retorna e diversos sistemas do corpo são afetados. O paciente apresenta hemorragia, vômito e fezes com sangue e falha renal. Metade dos infectados que entram na fase tóxica da infecção morre em 10 a 14 dias [4].

Como é realizada a prevenção da febre amarela?

            A febre amarela pode ser prevenida de duas maneiras: vacinação e controle de vetores.

            A vacinação é a medida mais importante para prevenir a febre amarela. A vacina é segura, efetiva e provém imunidade dentro de uma semana para 95% dos vacinados. O controle da febre amarela é baseado na prevenção de surtos da doença, quadro que só poderá ser atingido quando a maioria da população estiver vacinada [5].

            Outra maneira de prevenção, tão importante quanto a vacinação, é o controle de mosquitos vetores, principalmente em locais onde a maior parte da população não é vacinada. O controle dos mosquitos se dá principalmente pela eliminação de criadouros e também com uso de inseticidas para adultos e para larvas. Entretanto, em locais com alta densidade de mosquito o uso descontrolado de inseticidas não é recomendado, pois seleciona os mosquitos com resistência [6].

Surto atual da doença

            De dezembro de 2016 até 22 de fevereiro de 2017, 1336 casos de febre amarela, incluindo 215 mortes, foram detectados em seis estados brasileiros: Bahia, Espirito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, São Paulo e Tocantins. Até o momento, 86% dos casos confirmados são homens – grupo de risco – entre 21 e 60 anos. No mesmo período citado, um total de 883 casos epizoóticos da doença foi reportado em macacos. Destes, 337 foram confirmados após análise em laboratório [7].

            A maioria dos casos atuais da doença ocorreu em Minas Gerais e têm preocupado as autoridades de saúde do país. A cobertura vacinal é pequena no Brasil e, devido à proporção do surto, o vírus pode acabar em contato com o vetor urbano da doença. Recentemente, houve no Brasil a distribuição de 11.5 milhões de vacinas e o país está aumentando sua produção. Entretanto, como o processo de produção de vacinas é demorado, há receio de que os estoques sejam insuficientes caso ocorra um pior cenário epidêmico [8].

O último surto de febre amarela silvestre havia ocorrido em 2007 e foi em uma escala muito menor que o surto atual. Todos os surtos da doença que ocorrem no Brasil são silvestres, uma vez que a forma urbana da doença foi extinta em 1942 [8].

Seres humanos não são os únicos que sofrem com a doença: morte de macacos antecede o surto da doença

            Geralmente, o primeiro sinal de casos epizoóticos de febre amarela silvestre é o silêncio nas florestas, devido à morte de macacos que são animais altamente suscetíveis ao vírus. Mortes em massa de macacos que vivem perto de moradias urbanas vêm ocorrendo por todo o Brasil, principalmente em Minas Gerais, Estado em que o desmatamento dividiu as florestas, as transformando em pequenos fragmentos. Como consequência, cada vez mais pessoas vivem perto de locais silvestres e estão suscetíveis às doenças que ali ocorrem [8].

            Em 2008 e 2009 centenas de macacos morreram durante um surto de febre amarela silvestre. Segundo o cientista Júlio César Bicca-Marques, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a febre amarela surgiu na África e veio nos navios negreiros pra a América. Por isso os macacos daqui são tão sensíveis à doença: eles não possuem imunidade ao vírus. Como os seres humanos possuem uma história maior de convivência com o vírus, somos mais resistentes a ele, nos tornando os principais responsáveis por espalhar a doença [9].

            Por esse fato, é extremamente importante se proteger contra o vírus da febre amarela! Vacine-se e não negligencie possíveis criadouros de mosquito na sua casa!

bugio          Bugio ruivo. Foto: Everton Gonçalves.

Links interessantes:

http://revistapesquisa.fapesp.br/2009/03/01/na-propria-pele/

http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/02/13/virus-que-causa-febre-amarela-em-sao-paulo-veio-provavelmente-da-amazonia/

Vacine-se!

http://www.saude.sp.gov.br/resources/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica/unidades-de-referencia/fa/posto_fad1.htm

Referências

1 Da Costa Vasconcelos PF. Febre amarela. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. 2003;36:275–93.

2 Consoli RAGB, Lourenço-de-Oliveira R. Principais mosquitos de importância sanitária no Brasil. Cad. Saude Publica. Editora FIOCRUZ; 1994.

3 Vasconcelos PF da C. Yellow fever in Brazil: thoughts and hypotheses on the emergence in previously free areas. Rev. Saude Publica. 2010;44:1144–9. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21109907

8 Dyer O. Yellow fever stalks Brazil in Zika’s wake. BMJ. 2017;356:j707. Available from: http://www.bmj.com/lookup/doi/10.1136/bmj.j707

Ref 4-7 e 9 links clicáveis.

 

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Emergência e reemergência de doenças infecciosas no sul europeu

Crises econômicas e mudanças climáticas são fatores essenciais para promover a emergência e propagação de doenças tropicais negligenciadas e transmitidas por vetores no sul da Europa [1]. Países como Espanha, Portugal, sul da França, Córsega, Grécia e Croácia serão os mais afetados pela emergência ou reemergência destas doenças. Por apresentarem um clima quente mediterrâneo, os países sul-europeus já foram palco de diversas doenças tropicais, como a malária que já foi endêmica nesta região e a leishmaniose causada por Leishmania infantum.

Entretanto, nas últimas décadas, outras importantes doenças tropicais negligenciadas emergiram ou reemergiram no sul da Europa, sendo elas chikungunya, dengue (DENV-1), vírus do Nilo Ocidental, infecção pelo vírus Toscano, doença de Lyme, doença de Chagas, leishmaniose, malária vivax, esquistossomose, febre hemorrágica de Criméia-Congo e opistorquíase.

Nos países em desenvolvimento, com baixa ou média renda, a pobreza é um dos principais determinantes na transmissão de doenças. É importante citar que a emergência ou reemergência de doenças tropicais infecciosas no sul da Europa coincidem com a crise econômica que começou em 2009, na qual a Grécia, Espanha e Portugal apresentaram dificuldades econômicas e dependeram de ajuda financeira externa. Estas doenças não somente tendem a estar associadas a locais pobres, mas também as próprias doenças são a causa da pobreza.

Desde 2009 ocorreram na Grécia alguns casos de malária, o que pode ser preocupante, já que é uma das doenças que mais causam impactos na economia dos países afetados, principalmente na África. Seu impacto engloba despesas gastas com saúde, dias de trabalho perdidos, dias perdidos na educação, diminuição na produtividade devido às lesões cerebrais, migração, demografia e perda de receitas de investimento e turismo [2]. Porém, tudo leva a crer que outras doenças causadas por insetos vetores como a dengue e o Zika vírus também causem impactos negativos na economia, principalmente a segunda, que está associada com microcefalia e síndrome de Guillian-Barré.

Finalmente, as mudanças climáticas causadas pelos gases do efeito estufa emitidos através da queima de carvão, queima de combustíveis fósseis e outras atividades humanas, são também um fator importante, pois a temperatura do sul europeu tem aumentado, levando ao aparecimento de insetos e caramujos, vetores de agentes etiológicos causadores de doenças.

As mudanças climáticas também podem mudar a distribuição geográfica de algumas doenças infecciosas e de seus vetores [3]. Este é mais um fator pelo qual as mudanças climáticas e o aumento da temperatura global podem afetar países do sul europeu que sofrem frequentes introduções de insetos vetores e patógenos.

Existe ainda mais um importante fator que pode ser levado em consideração, a perda de biodiversidade, que pode ser ocasionada, entre outros fatores, pelas mudanças climáticas, pelo aumento das populações que invadem áreas não habitadas ou pelo desmatamento. A perda de biodiversidade pode levar ao aumento de doenças infecciosas, como a doença de Lyme, que é fortemente associada a este fator [4].

A emergência ou reemergência de doenças infecciosas negligenciadas em diferentes regiões nunca dependem de somente um fator, é muito mais provável que esse evento aconteça por uma rede multicausal de fatores que devem ser estudados e previstos, principalmente em países que podem sofrer com a expansão de doenças infecciosas.

Referências

  1. Hotez PJ. Southern Europe’s Coming Plagues: Vector-Borne Neglected Tropical Diseases. Aksoy S, editor. PLoS Negl Trop Dis. 2016;10: e0004243. doi:10.1371/journal.pntd.0004243
  2. Sachs JD, Malaney P. The economic and social burden of malaria. Nature. 2002;415: 680–685. doi:10.1038/415680a
  3. Lafferty KD. The ecology of climate change and infectious diseases. Ecology. 2009;90: 888–900. doi:10.1890/08-0079.1
  4. Keesing F, Belden LK, Daszak P, Dobson A, Harvell CD, Holt RD, et al. Impacts of biodiversity on the emergence and transmission of infectious diseases. Nature. Nature Publishing Group; 2010;468: 647–652. doi:10.1038/nature09575