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Entrevista: Natalia Oliveira (Dance Your PhD)

Uma das maiores dificuldades das(os) cientistas é ir além dos seus pares e explicar o conteúdo e resultados de sua pesquisa para o grande público. Essa preocupação em particular não parece ser um problema para a Dra. Natália Oliveira, vencedora da categoria de Química e do Voto Popular do concurso mundial “Dance Your PhD 2017” promovido pela revista Science. Em parceria com a cia de dança Vogue 4 Recife, Natalia transformou sua tese intitulada “Desenvolvimento de Biossensores para as Ciências Forenses” em um vídeo explicativo, em que o tema e resultados do estudo dela são explicados de forma lúdica (e dançante!) ao público geral. O trabalho apresentado no clipe também já está publicado em periódico científico e pode ser conferido aqui. Vem conhecer um pouco mais dessa mulher, artista, cientista e feminista e única finalista brasileira do concurso na entrevista de hoje:

CF – Oi, Natália! Você poderia descrever sua pesquisa?

Minha pesquisa é baseada no aparelho que detecta glicose no sangue que pode ser usado em casa pelos diabéticos. No meu caso, o aparelho desenvolvido é uma adaptação desse modelo, em que avalia com mais especificidade amostras biológicas, como sangue, sêmen e saliva nas cenas de crime. A vantagem desse sistema é que ele consegue detectar as amostras mesmo que a cena do crime tenha sido lavada, que é o que geralmente os criminosos fazem pra tentar escapar.

CF – O que te motivou a estudar ciência? Em especial, ciência forense?

É engraçado, eu sempre quis fazer artes, mas quando fui estudar biologia sempre quis estudar Genética. Quando eu entrei na graduação (Ciências Biológicas), veio a possibilidade de estudar Genética e ciência forense, e vislumbrei trabalhar com investigação criminal, como perita, aí eu vi que era isso que eu queria pra mim.  Eu conheci uma perita criminal, que foi minha orientadora da graduação, e depois que a conheci, eu soube que era com isso que eu queria trabalhar. Quando fui pro mestrado, tive que procurar um outro orientador, que me introduziu a ideia dos biossensores. Mesmo trabalhando com um assunto não relacionado com a ciência forense, eu já tinha a vontade de desenvolver algo nessa área da biotecnologia, porque eu vi que tinha carência em alguns aspectos técnicos de métodos usados na investigação de crimes, que estavam precisando de coisas novas, dar uma atualizada… Então eu fiquei com esse embriãozinho e no meu doutorado consegui trabalhar com isso.

CF – Como surgiu a ideia de video clipe?

A ideia surgiu por um pesquisador do meu laboratório aonde fazia o meu doutorado. Ele sabia que eu já fazia teatro há um tempinho e que eu tinha entrado recentemente numa companhia de dança (Vogue 4 Recife). Estávamos discutindo em um grupo do trabalho no Whatsapp,que contem alunos, professores e outros pesquisadores quando ele sugeriu: “Por que tu não participas desse concurso?”. Aí mandou o link. No começo eu não queria fazer [risos]. Mas ele insistiu, disse: “Faça! É a sua cara!”. Acabei comprando a ideia, comecei a ver os vídeos das competições passadas e me empolguei. Levei a ideia para os meus colegas da Vogue 4 e decidi tentar.

CF –  E quanto tempo levou o processo de transformar a tua tese em uma coreografia?

O concurso abriu em março deste ano, só que eu só tive coragem para começar a fazer todo o planejamento em julho – e a deadline era em setembro! Daí, eu cheguei com a ideia pros meninos da Vogue 4 Recife no comecinho de julho com uma ideia e depois disso, desenvolvemos juntos o roteiro geral do clipe. Em agosto, a gente acertou as coreografias e em setembro, a gente fez a gravação em duas tardes: uma tarde no laboratório e uma  no Recife Antigo. Resumindo, foram mais ou menos uns três meses de preparação. Mandamos no último dia da competição, deadline, oito horas da noite, acabava meia noite… “Minha gente, pelo amor de Deus!” [risos]. Mas deu certo. Com muita emoção! [risos].

CF – O video clipe integrou arte e ciências, há outros tipos de trabalhos que você faz que conectam estas áreas?

Eu nunca tinha feito nada que integrasse ciência e arte, mas eu já tinha uma vibe de querer dar uma misturada nas coisas, sabe? É que eu tenho uma coisa muito de criança, de querer misturar tudo e brincar… Mas nunca fiz nada na prática que não fossem atividades da época de escola mesmo. O vídeo foi a primeira vez que misturei as duas coisas.

CF –  Para você, quanto a criatividade é importante para ser cientista?

Eu acho bem importante a gente ter arte para ser cientista, justamente por conta da criatividade. Lembro que eu estava em um evento sobre parques tecnológicos em 2013 e ouvi de um pesquisador que falava para seus alunos que eles tinham que buscar arte: “não fiquem só no laboratório, não se limitem. Vão buscar criatividade em locais que vocês nunca imaginaram”. Ele dizia que a arte era um meio condutor. Se a gente for pensar na questão da academia, acaba reproduzindo o que já existe. Então se a gente tem uma novidade, isso é possibilitado pelas artes. Então, além de nos humanizar, a arte expande nossa cabeça para pensar em métodos e situações que nunca pensamos na nossa vida acadêmica. Mas não só para cientistas: a arte ganha bastante com a ciência, porque só a criatividade, sem um jeito de reproduzi-la, faz com que muita coisa se perca. Uma certa “metodologia” é válida para as artes, também.

CF – O que você pretende fazer no futuro?

Tenho planos não só na parte científica, mas também na parte artística. Terminei o doutorado em fevereiro e comecei meu pós-doutorado na mesma linha de pesquisa também na UFPE. Já tem uma equipe boa aqui no laboratório para a gente continuar investigando essa área de cenas de crime, mas também expandir para a detecção de drogas ilícitas. Não pretendo ser professora e trabalhar na academia. Gosto de pesquisa científica e sempre quis ser perita. Isso me possibilita fazer pesquisa e seguir a carreira de polícia. Sempre fui meio Sherlock Holmes e CSI [risos].

Com o pessoal da companhia de dança, estamos tentando expandir mais essa ideia que deu uma visibilidade boa pro nosso grupo. O vídeo foi exibido na abertura do X Janela Internacional de Cinema, aqui no Recife!  Foi muito emocionante ver o nosso vídeo projetado naquela tela de cinema enorme, que quando eu era criança assisti O Rei Leão. Pretendemos investir em projetos audiovisuais e também fazer o Making off do nosso video clipe. Por enquanto estamos focando nos derivados do clipe, mas depois vamos pensar em nos planos para 2018.. Estávamos tentando fazer um espetáculo, mas como todos tem seus compromissos, ainda não conseguimos conciliar o tempo de todos. Quem sabe?

CF – Como você vê a questão das minorias na vitória por voto popular do videoclipe?

No começo eu pensei “como é que a academia vai receber isso?”. Não rola um preconceito direto, mas sempre rola um ou outro comentário preconceituoso.  A comunidade ALGBTTQI me acolheu quando eu comecei a estudar teatro e foi graças a eles que hoje eu sou quem eu sou. Então, eu não quis coibir a criatividade de ninguém da companhia. Quem quiser aceitar que nos aceite, porque é isso que a gente é. A gente é uma minoria, mas quer se sentir representado. Então foi por isso que eu disse “gente, vamos gravar isso e aquilo e cada um se veste do jeito que quer. Quem quiser vir de drag vem, quem quiser vir de salto vem. A gente tem que mostrar a nossa luta, que é inerente à história do Vogue”. Seria incoerente colocar todo mundo num padrão hetero-normativo e falar de Vogue. Recebemos críticas falando que somos vagabundos e que estamos gastando dinheiro público, quando na verdade nós usamos nosso dinheiro para produzir o videoclipe. O meu (videoclipe) é uma dança de rua, uma dança de periferia, então pode ter sido por isso que não tenha ganhado, segundo o comentário de alguns. Mas eu não penso muito nisso, eu já me sinto vitoriosa pelo voto popular. O fato de ter uma universidade que não está entre as cem melhores do mundo e ser a única representante da América Latina concorrendo, isso sim pra mim já foi uma vitória.

CF – Quais são as medidas necessárias para manter as mulheres na ciência e qual conselho você daria para as mulheres na ciência?

Eu acho que para manter as mulheres na ciência, a gente precisa de inspiração desde a infância, seja com modelos, com brinquedos e sobretudo sem o estereótipo de que “isso é coisa de menina e isso é coisa de menino. Menina só pode ter profissões determinadas no mercado, enquanto que homens podem fazer o que querem”. Resumindo: mudar o pensamento e nutrir a ideia de profissão gender free, já que todos os seres humanos são capazes de realizar qualquer atividade. E sobre as mulheres na ciências: manas, vocês são maravilhosas! Continuem conquistando seus espaços bravamente, com as pesquisas de ponta, sem esmorecer frente a possíveis episódios machistas que venhamos a enfrentar no nosso cotidiano. O mundo científico é feito por mentes abertas e por pessoas e nós é quem devemos mudar os paradigmas conservadores que existem atualmente.

Obrigada, Natália! Parabéns e sucesso nos novos rumos! 🙂

Entrevista feita por @ribeirosantosn@carmensandiego e @diehistorikerin

 

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Por trás da ciência de Orphan Black

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Foto via Rosie de Belgeonne (Vimeo) sob a licença The Creative Commons.

 

Orphan black (OB) é uma série de ficção científica que envolve clones humanos, mulheres cientistas e muita ciência. As personagens principais são resultado da atuação de uma só atriz, Tatiana Maslany. Além das protagonistas vividas por Tatiana, outras personagens mulheres tem papel fundamental no desenvolvimento da saga do Clone Club 1, como a guerreira Siobhan Sadler (Mrs. S), as cientistas Delphine Cormier e Susan Duncan e a médica Virginia Coady. Além da série não utilizar o estereótipo de que cientista é homem, dá um grande papel na trama para as mulheres. Há extensas falas de personagens mulheres e seus diálogos refletem a complexidade de suas vidas, de suas lutas, de suas descobertas e muito raramente estão associados a seus relacionamentos com homens. Assim sendo, OB, passaria facilmente no teste de Bechdel 2. Há muitos materiais já publicados que definem OB como uma série feminista.

Todos capítulos das cinco temporadas são inundados com assuntos que cientistas convivem diariamente como metodologia científica, questões de ética e leis sobre aquisição de patentes. OB é considerada uma das séries onde a ficção científica é mais realista com a ciência.

Os aspectos científicos dos episódios são discutidos por uma estudante de doutorado na área de genética, Casey Griffin, e uma divulgadora científica, Nina Nesseth, no blog The Mary Sue. Logo após o episódio final da série que foi ao ar em 12 de agosto, Casey e Ninah publicaram no 22 do mesmo mês, o livro “The Science of Orphan Black”.

Orphan Black book

Vamos falar da crazy science3 da série? Aqui estão alguns dos pontos mais interessantes.

Quem está por trás da ciência em OB?

Cosima Herter é a consultora de ciências de OB e amiga de um dos criadores da série Graeme Manson. No inicio da série, Cosima Herter fazia seu doutorado sobre o desenvolvimento histórico da biotecnologia no século XX. Não é nenhuma coincidência a existência de uma personagem também chamada Cosima. A personagem Cosima Niehaus é uma cientista brilhante, inspirada em Cosima Herter.

Graeme apresentou sua ideia sobre seu projeto de clones humanos e Cosima foi a responsável por trazer a ciência de uma forma mais real e precisa para os escritores. Cosima e Graeme gostariam de expor tópicos polêmicos, explorar o conceito de individualidade, uma vez que somente o DNA não determina quem você é. Ele só contribui como um dos componentes da sua individualidade.

As descobertas em OB e a linha do tempo das descobertas da ciência

A ciência de OB está um pouco mais avançada no espaço e tempo que a ciência que vivenciamos. Susan e Ethan Duncan obtiveram clones humanos em 1984 e a ovelha Dolly nasceu em 1996. A geneticista Jennifer Doudna da Universidade da Califórnia, Berkeley, diz no artigo publicado em The New Yorker que clonar um ser humano em 1984 seria impossível.

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O que são clones? Existem clones humanos?

Criar um indivíduo completo geneticamente similar a outro é chamado clonagem reprodutiva. Clonagem humana também foi um dos tópicos da famosa novela: O Clone.

Há vários métodos para produzir seres idênticos. Uma delas é chamada Transferência Nuclear de Células Somáticas (TNCS), Somatic cell nuclear transfer, em inglês. Foi com a utilização dessa técnica que a mascote da clonagem, a ovelha Dolly4, foi produzido (veja a figura abaixo). Essa mesma técnica foi utilizada para a produção dos clones em OB. Para a criação dos 274 clones do Projeto Leda e os clones do Projeto Castor, eles retiraram o núcleo (parte da célula que contém o material genético) de um óvulo e inseriram o núcleo de uma outra célula somática (células que não são progenitoras como o óvulo e espermatozoide) proveniente de um indivíduo adulto doador. Um pequeno pulso de eletricidade fez o núcleo do doador penetrar no óvulo vazio e estimular a multiplicação celular. Depois o embrião gerado foi implantado no útero de uma mulher, que serve de incubadora, para completar a formação do embrião.

Dolly

O processo de clonagem da ovelha Dolly

 

Até então, não foi descrito nenhum humano obtido por clonagem reprodutiva. Clonagem reprodutiva de humanos é proibida nos Estados Unidos e em diversos países. No entanto, muitos outros não possuem nenhuma legislação sobre este assunto. Já no Brasil, foi proibida em 2005 (lei 11105/05). É possível encontrar empresas que dizem fazer clonagem humana. A empresa Clonaid relata que foi responsável pelo primeiro clone humano chamado Eve. Não há nenhum registro e resultado publicado que confirmem isso.

Qual é o índice de sucesso da TNCS?

Criar um clone por essa técnica é uma tarefa árdua. Dolly foi resultante de 277 tentativas. Para produzir o primeiro cão clonado Snuppy foram necessárias 1.095 tentativas. No geral, a taxa de eficiência é de 1 a 5%. Já imaginou quantas tentativas foram feitas para produzirem 274 clones do projeto Leda?

Por que a transferência Nuclear de Células Somáticas é ineficiente?

A divisão celular é processo muito bem orquestrado e qualquer erro pode ser letal para célula. Se a célula é estimulada a se dividir no tempo não ideal, pode desencadear erros no processo de divisão, resultando em anormalidades cromossomais e morte celular. Para a célula se dividir, necessita fazer cópias dos cromossomos e fazer com que estes sejam alocados adequadamente nas células resultantes da divisão, isto é, nas células filhas. Para que isso aconteça, é necessário que o fuso mitótico funcione perfeitamente. Eles relatam esse problema em OB como spindle protein problem. Na série, Susan Duncan foi capaz de solucionar esse problema. A partir das células de um dos clone Leda, Rachel, foi gerada Charlotte, que é clone do clone. Foram 400 tentativas para obter 1 clone viável. Em relação a nossa realidade, em 2013, cientistas modificaram a técnica de TNCS para evitar esse problema com o fuso mitótico e erros na divisão celular. Deve ser sido um dos métodos que Susan utilizou em OB.

Fuso_Mitotico

Componentes do fuso mitótico em verde e vermelho e cromossomo em azul. Fonte Wikipédia.

Quais são as aplicações da clonagem reprodutiva?

Uma delas é reviver as espécies de animais extintas. Para isso, seria necessário ter células preservadas ou saber a sequência inteira de todo genes. Além disso, ter um animal compatível que gestasse o embrião. O clone de um tipo de cabra selvagem extinta (Pyrenean ibex) foi produzido em 2009 infelizmente o clone morreu após o nascimento. Muito possivelmente, no futuro, será possível resgatar espécies de animais que não existem mais e isso é crazy science!

Em OB, os clones foram criados por Susan e Ethan Duncan e foram os cientistas líderes do projeto Leda5 que resultou na produção de clones de sexo biológico feminino. Foram criados Sara Manning (protagonista principal), Cosima Niehaus, Alison Hendrix entre outros clones.

Enquanto o objetivo de Ethan era produzir crianças, Susan queria criar humanos com caraterísticas superiores. Eles implantaram embriões obtidos por clonagem reprodutiva em diversas mulheres com função de barriga de aluguel. Após o nascimento, os cientistas colocaram monitores humanos para averiguar o comportamento de cada clone. A maioria dos clones e monitores não tinham conhecimento sobre o projeto.

Quem é o doador do material genético dos clones?

A doadora do material genético para a produção tanto dos clones de sexo biológico feminino como masculino é Kendall Malone, mãe de Siobhan Sadler (Mrs. S). Quando Kendall estava na prisão, Ethan Duncan examinava amostras de prisioneiros e descobriu que Kendall portava células somáticas de dois indivíduos diferentes. Durante a gestação, Kendall absorveu as células do seu irmão e o seu organismo é uma mistura de células com código genético diferentes. Isso é chamado no inglês vanishing twin que tem como significado: desaparecimento do irmão gêmeo. O fenótipo de Kendall é predominante feminino, uma vez que ela foi capaz de gerar Mrs. S, que é a mãe adotiva de Sarah. Isso mostra que Mrs. S e Sarah compartilham partes de seu código genético! Células de Kendall com o sexo biológico feminino deram origem aos clones do Projeto Leda e as células do seu irmão deram origem ao Projeto Castor que resultou em clones com sexo biológico masculino para serem testados pelos militares.

Projeto Leda e Castor

Material genético de um único indivíduo foi capaz de gerar clones do sexo biológico feminino (XX), Projeto Leda, e clones do sexo biológico masculino (XY), Projeto Castor.

Então Sarah é mãe da Mrs. S?

Não, mesmo que Sarah compartilhe 100% do seu DNA com Kendall não significa que ela é mãe de Mrs. S, da mesma forma que Kira (filha de Sarah) não é filha dos outros clones como Alison e Helena que também compartilham 100% de seu DNA com Sarah. As relações familiares vão além do código de DNA.

Árvore genealógica

Árvore genealógica dos clones do projeto Leda (Sarah), Projeto Castor (Ira), Kendall (mãe de Mrs.S), Mrs. S (mãe adotiva de Sarah) e Kira (filha de Sarah). Figura esquemática baseada no livro: Science of Orphan Black.

Por que Kendall não parece fisicamente com a Sara e com os outros clones Leda?

Como explicado acima, o organismo de Kendall era composto de células de diferentes conteúdos genéticos. Kendall é uma quimera6 e a combinação dos código genéticos desses organismos distintos foi responsável pela sua aparência. Se ela fosse só composta pelas células que originaram os clones do projeto Leda, ela teria a mesma aparência da Sara e dos outros clones como Allison, Rachel e Cosima. Quimeras humanas podem ocorrem espontaneamente. Um dos casos famosos de quimera foi de Lydia Fairchild que teve problemas na justiça para provar a maternidade de seus próprios filhos, já que as células sanguíneas e do interior da bochecha, que foram usadas para o teste de DNA, eram provenientes de sua irmã gêmea que foi reabsorvida por Lydia que ainda estava se desenvolvendo no útero de sua mãe.

E o DNA mitocondrial é igual entre os clones Leda e Kendall?

A mitocôndria é uma organela que provém a energia da célula e contém seu próprio DNA. O óvulo é quem contribui com a mitocôndria, dessa forma, somos gratos às nossas mães pelas mitocôndrias. Como na TNCS, usam óvulos vazios para a inserção do material do doador, no caso de OB, o material genético de Kendall, muito provavelmente os clones têm diferentes genes pertencentes ao DNA mitocondrial.

Helena e Sarah são gêmeas idênticas e espelhos

O embrião que originou Sarah foi implantado na mãe que serviu de barriga de aluguel, Amelia, e se dividiu 7-12 dias depois criando sua irmã gêmea e sestra7, chamada Helena. Como o embrião se dividiu mais tardiamente, geralmente se divide ao redor de 5 dias de desenvolvimento, Sarah e Helena são gêmeas idênticas e espelhos. Elas se desenvolveram no útero frente a frente, como se fossem uma imagem vista com um espelho, fenômeno denominado de gêmeos-espelhos. Isso explica o porquê Helena é canhota e os outros clones são destros. Em casos mais raros, a posição dos órgãos internos são invertidas, os órgãos que ficam de um lado em um gêmeo, ficam do outro lado em outro. Em OB, Sarah nasceu com o posicionamento de órgãos normal, enquanto Helena é trocado. Essa condição é chamada de situs inversus que significa posição invertida. Como o coração de Helena é posicionado diferentemente, isto é, está localizado mais ao lado direito, livrou Helena da morte quando Sarah atirou no peito de Helena.

Sequências Sintéticas de DNA

Os cientistas implantaram sequências no DNA original das células de Kendall. Toda sequência que foi produzida no laboratório e não pertence ao DNA original é denominada sintética.

Como os clones têm a mesma aparência e compartilham 100% do código genético, os cientistas inseriram uma sequência única para cada clone, funcionando como um marcador ou identificador, chamado ID Tag. Eles inseriram essa sequência na parte do DNA responsável pela produção da proteína, citocromo c, que é altamente conservada e é a mesma ou muito similar nas diferentes espécies de animais, plantas e organismos unicelulares. Com essa sequência, os cientistas eram capazes de identificar o clone.

Outra sequência inserida no DNA original teve com o propósito produzir clones inférteis e assim controlar a disseminação do material genético dos clones. Essa sequência faz com que os óvulos dos clones Leda nunca se desenvolvam. A sequência é responsável por produzir uma proteína que vai degradar o endométrio, que reveste a parede do útero e evitar a maturação dos ovários. Sarah e Helena, gêmeas idênticas, são férteis. E como explicar isso? A ausência da proteína pode ter decorrido por: 1) falta dessa sequência no DNA que causa infertilidade em Sarah e Helena; 2) pela presença de uma mutação nesta parte do DNA e inviabilizando a produção da proteína; 3) pelo silenciamento do gene e assim a proteína não é produzida. Pode-se especular que essas alterações devem ter ocorrido antes da divisão do embrião para a formação das gêmeas, Sarah e Helena. Por isso Cosima chama Sarah de selvagem (Wild type, em inglês), uma vez que ela não expressa a proteína e é fértil, mostrando uma forte relação com o material do clone original.

Os clones contém uma outra sequência sintética que é uma espécie de código de barras que diz que este organismo é patenteado.

Por que os clones estão ficando doentes?

A produção da proteína que causa infertilidade provoca uma doença autoimune que provoca pólipos no útero e pulmões nos clones Leda, levando a morte dos clones que desenvolvem a doença.

Nos clones do projeto Castor, a mesma proteína causa uma perda de memória, mudança de comportamento, distúrbios visuais, colapso e morte. Na autópsia de um dos clones do projeto Castor, Cosima e seu amigo Scott descobriram que o cérebro de um dos clones do projeto Castor parecia uma esponja, característico de doença causada por um príon que é uma proteína com potencial infeccioso que tem alteração na estrutura espacial (conformação). Príons causam encefalites espongiformes transmissíveis, como a doença de Creutzfeldt-Jakob e a doença da vaca louca. Em OB, o príon presente nos clones do projeto Castor passa pelo contato sexual promovendo esterilização. Não se conhece nenhuma doença provocada por príon que seja sexualmente transmissível.

Parece que há variantes de proteínas nos clones Leda e Castor, a variante nos clones Leda afeta os órgãos ricos em vasos sanguíneos como o pulmão, enquanto a variante presente nos clones Castor afeta o cérebro.

Há a possibilidade da doença dos clones ser causada por uma doença que parece ser causada por prion, mas não é. Amiloidose é decorrente do acúmulo em vários órgãos de uma proteína que tem sua conformação alterada. Esse acúmulo leva a perda da função do órgão.

Como curar os clones?

Primeiro é importante identificar a sequência que causa infertilidade, pois ela é causadora da doença. A comparação do DNA da Kendall com os clones poderia ser uma das estratégias, pois a sequência não está presente em Kendall. Só que todas as amostras de Kendall foram perdidas e Kendall foi morta e seu corpo incinerado.

Como a doença é causada pela inserção de uma sequência, outro passo importante é usar de terapia gênica que atua a nível molecular e assim tratar a doença. Para isso, é preciso de uma ferramenta que insira o gene que pode curar os clones Leda. Os vetores usados em terapia gênica tem que ser pouco tóxicos, infectar células de interesse e seguro. Vírus são comumente utilizados como vetores para injetar o gene de interesse nas células.

Para isso, Cosima utiliza células progenitoras provenientes do embrião gerado pela combinação da fertilização do óvulo de Sarah (clone Leda) e óvulo de Ira (clone castor) que seria mais próximo do original. Ela fez uma bateria de testes para selecionar a sequência e o vetor que não causava toxicidade e mantinha as células vivas se duplicando.

Clones humanos podem ser patenteados?

A consultora Cosima Herter explica que a ovelha Dolly não foi patenteada por ser considerada um organismo já existente na natureza e não por ser um organismo vivo. No entanto, o primeiro animal a ser patenteado foi o OncoMouse que é um camundongo geneticamente modificado e expressa um gene humano e sendo usado para estudos na área de oncologia. A invenção pertencia à Dupont até 2005, ano de vencimento da patente. A patente sobre um organismo vivo gerou muita controvérsia em 1980. Mesmo que um clone humano fosse patenteado pelo fato de conter sequências sintéticas, os direitos humanos prevaleceriam sobre a patente como propriedade intelectual. Cosima Herter descreve que patente dos clones Leda dá ideia que o corpo e biologia não pertence às mulheres, uma analogia com a nossa história.

 Curiosidades:

  • Os títulos dos episódios da primeira temporadas foram inspirados na obra “Origem das espécies” de Charles Darwin.
  • A informação referente ao código genético original que originou os clones estava criptografada no livro a “Ilha do Dr. Moreau”. Esse livro conta a história de um cientista que fazia experimentos macabros com vivissecção, produzindo quimeras de animais. Foi com esse livro, encontraram informações sobre Kendall que também é uma quimera. A série também faz a associação com a produção de monstros e com o trabalho antiético do Dr. Moreau e os cientistas de OB.

1 Grupo de clones, designado por uma das personagens de OB, Cosima Neihaus.

2 Teste de Bechdel avalia se uma obra possui pelo menos duas mulheres e se seus diálogos não sejam sobre homens.

3 Crazy science é o termo que uma das cientistas Cosima Neihaus da série usa para fazer a ciência e descobrir o que está acontecendo com os clones e como foram gerados.

4 Há várias referências da ovelha Dolly em OB. Uma delas é a máscara de ovelha usada por um dos clones: M.K.

5 Leda e Castor são personagens da mitologia Grega.

6 Seres místicos com aparência de 2 ou mais animais.

7 Referente a sister (irmã). Termo usado pela personagem Helena.

Referências:

The Science of Orphan Black. The oficial companion. Casey Griffin e Nina Nesseth. 2017.

The Mary Sue- Orphan Black

The crazy science of Orphan Black

The history lurking behind orphan black

OB Science Time

Créditos sobre os componentes das figuras: The Noun Project e Orphan Black wiki

Artistas: i cons, Gorkem Oner, Bom Symbols, Sergey Demushkin, BomSymbols, Becris, Symbolon, Alena Artemova, Eucalyp e Linseed Studio.

 

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Vem aí: As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo

Em maio será lançada a versão em português do livro “Women in science: 50 fearless pioneers who changed the world”, com o título “As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo”, da autora e ilustradora Rachel Ignotofsky pela editora Blucher. Rachel mostra grande entusiasmo sobre o lançamento do seu livro para a audiência brasileira no vídeo promocional. Em seu website, Rachel relata que tem um grande compromisso com a divulgação científica e o feminismo. Seu trabalho é inspirado por história e ciência. Ela descreve que a ilustração é uma forma lúdica e uma importante ferramenta para divulgação de conhecimento e aprendizado.

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Fonte: Divulgação

O livro contém sinopses da carreira de 50 cientistas destemidas que fizeram história. Em suas páginas encontra-se uma das primeiras matemáticas, Hipátia, a primeira mulher a ganhar o Nobel, Marie Curie; a antropóloga e primatóloga Jane Goodall entre outras mulheres incríveis. As ilustrações refletem cada uma das cientistas e na página ao lado há uma descrição sobre suas carreiras e importância daquela mulher para a história. Há também pequenos desenhos com informações adicionais que estão por toda parte. É muito divertido descobrir estas informações que aparecem em forma de pistas. No livro, encontra-se uma linha do tempo indicando como certos acontecimentos históricos, como a aquisição do direito de voto, guerras mundiais, etc., estão intrincados com os caminhos da ciência e das mulheres cientistas. O livro contém um glossário para termos técnicos e também uma parte que mostra, com ilustrações, os equipamentos usados no dia a dia pelas cientistas, o que auxilia a compreensão daqueles não ligados à ciência. Para aqueles que querem saber mais sobre o assunto, as fontes e referências estão disponíveis no final do livro.

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Fonte: Divulgação

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Fonte: Divulgação

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Fonte: Divulgação

A imagem de cientista é frequentemente associada a Einstein, Newton e outros homens. Diferentemente daquilo que estamos acostumadas, o livro “As Cientistas” mostra que as mulheres também têm capacidade de inovar, inventar, descobrir e mudar paradigmas. Com esta abordagem, esse livro é um dos grandes aliados na promoção da ruptura do estereótipo de que cientista é homem.

Certamente o livro é adequando para pessoas de qualquer idade. Aquelas pessoas que já conhecem a história das cientistas também irão apreciar o livro, pois há muito o que aprender com todas essas mulheres. Ler e conhecer essas mulheres destemidas também pode encorajar as mulheres cientistas a não desistirem da carreira. Sabe-se que um grande número de mulheres abandonam a carreira e este fenômeno já foi descrito neste texto do Cientistas Feministas. Além disso, é importante salientar que o livro será um grande presente para meninas e, também, meninos. Estudo recente publicado na revista Science mostrou que meninas de seis anos relacionam a inteligência e a genialidade como características masculinas. Isso evidencia como o estereótipo de gênero em relação às caraterísticas que estão associadas aos cientistas se estabelece muito cedo. Portanto, mostrar para meninas que elas são tão inteligentes e brilhantes pode ser crucial para desconstruir isso. Além disso, o livro mostra aos meninos como as mulheres são importantes no desenvolvimento e progresso da ciência e também os obstáculos que elas enfrentam e enfrentaram para seguir carreira. Dessa forma, desmistifica para os meninos que ciência é formada pelo “clube do Bolinha” para adultos. O livro é um excelente material no auxílio da promoção de empatia dos futuros cientistas com as colegas cientistas.

A autora deseja inspirar mulheres que se dedicaram e se dedicam nessa jornada e pretende também inspirar meninas e adolescentes a seguirem carreira científica. O livro “As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo” deixa bem claro que gênero não é um fator determinante para a escolha dos caminhos das meninas e mulheres. A autora e nós esperamos que haja mais meninas olhando intrigadas para plantas, insetos e estrelas. Enfim, elas podem seguir a carreira que quiserem e podem estar onde quiserem.

Onde encontrar? Nas principais redes de livrarias online e físicas e no site da editora Blucher.

Para saber mais sobre o livro:

Siga a página no facebook: www.facebook.com/ascientistas

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O livro será lançado em maio. Fonte: Divulgação

Veja outros trabalhos da autora:

Ilustrações

Livros

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Quando o câncer é transmissível

Durante a progressão tumoral, acredita-se que a seleção natural favorece o aparecimento de populações de células cancerosas com características mais agressivas. Cânceres mais agressivos tendem a ser letais ao hospedeiro, e dessa forma, podem ter vida curta. Nesta circunstância, podem ser caracterizados como entidades autodestruitivas 1.

Em alguns casos, as células tumorais de um hospedeiro podem invadir outro hospedeiro. Em humanos, estes episódios são extremamente raros e foram relatados em raríssimas circunstâncias dentre elas: transmissão de células tumorais de paciente para o cirurgião, através de um acidente durante cirurgia, em situações onde pacientes são submetidos a transplante de órgãos, provenientes de pessoas com câncer e pela transmissão de células cancerosas de mãe para filho durante a gravidez 1. Há também um relato de um indivíduo, infectado com HIV e com sistema imune debilitado, apresentou nódulos contendo células tumorais de verme intestinal.

Nowinsky, em 1876, e posteriormente Sticker, em 1906, sugeriram que tumores venéreos de cães eram transmissíveis, através de procedimentos experimentais envolvendo transplantes tumorais 2. Até agora, há cinco tipos de tumores transmissíveis descritos em animais. O quinto tumor transmissível foi descoberto recentemente em junho de 2016 3.

Tumores transmissíveis:

1) Tumor facial do diabo-da-tasmânia (TFDT)

2) Tumor venéreo transmissível (TVT) em cães

3) Sarcoma contagioso reticular do hamster-sírio

4) Moluscos bivalves de casca mole (Mya arenaria)

5) Moluscos bivalves de casca dura (Venerupis corrugata)

O TFDT e o TVT acometem muitos cães e o TFDT está ameaçando os diabos-da-tasmânia, marsupiais carnívoros que habitam a Tasmânia, de serem extintos 1. Em 20 anos, o TFDT foi responsável por reduzir a população de diabos-da-tasmânia em mais de 80% 6. Caso a dispersão do TFDT não esteja controlada, será a primeira vez que presenciaremos uma espécie inteira ser dizimada por um câncer.

O TFDT está localizado na Tasmânia, porém, o TVT é observado com frequência nas populações de cães de 90 países. O TVT é mais comum em países que possuem cães de ruas, como países localizados na América Central, América do Sul, África e Ásia 4.

Qual é a origem?

O primeiro indivíduo com TFDT foi fotografado em 1996 e acreditava-se que aquele era apenas um animal selvagem com tumor facial. Pesquisas mostram que o TFDT tem origem neuroendócrina, é 100% fatal, acomete a face e a cavidade bucal, e é extremamente agressivo. O animal morre entre 6 a 12 meses após o aparecimento dos sintomas iniciais 1.

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Diabo-da-tamânia com TFDT. Fonte Wikipédia.

Em 2015, foi descoberto um outro tipo de TFDT, sendo que o primeiro é proveniente de uma fêmea, enquanto o segundo é proveniente de um macho 5. Ambos apresentam sintomas similares, embora tenham originado em diferentes hospedeiros 1. Apesar de não ter tratamento, um recente trabalho mostra que a população de diabo-da-tasmânia está adquirindo uma resposta resistente aos mecanismos de escape do tumor pelo sistema imune 6.

O TVT se originou de células da medula óssea (origem mielóide), se localiza na genitália externa, porém também pode ocorrer em outras regiões e raramente invade outros órgãos. Na maioria dos casos, o tratamento com quimioterapia é altamente eficaz 1.

Como as células tumorais têm conteúdo genético do hospedeiro de origem (founder), resultados de análises da sequência de DNA do TVT, realizada pelo grupo da geneticista Elizabeth P Murchison, indicam que o tumor hoje encontrado nos cães teve sua origem há 11.000 anos. Para calcular quando este tumor teria se originado, o grupo de cientistas utilizou um relógio de mutações baseado em números de mutações que células humanas tumorais adquirem por ano. Eles se basearam no número de mutações, presentes no TVT, que é de aproximadamente 2 milhões. Geralmente, o número de mutações observado em cânceres humanos está na faixa de 1000 a 5000 7. Além disso, a análise do sequenciamento do DNA do tumor mostrou que ele se originou em um animal de pelagem escura e de um cão com similaridades genéticas às raças que são consideradas mais antigas como: akita, chow chow e shar pei.

Como TFDT e TVT se disseminam?

O TFDT e o TVT são cânceres que se espalham para o outro hospedeiro pelo contato. Estes tipos de tumores se desenvolveram independentemente e apresentam diferenças em suas trajetórias através de adaptações dos seus hospedeiros. O TFDT é transmitido pela mordida enquanto TVT é transmitido pelo coito 1.

Como estes cânceres escapam do sistema imune?

O TFDT e o TVT são capazes de invadir um outro hospedeiro imunocompetente, isto é, que a função do sistema imune não está prejudicada 1. Ainda não se sabe ao certo como estas células escapam do sistema imune. Acredita-se algumas características destas células podem ser importantes para transmissão e também pode explicar como este tumor pode sobreviver por tanto tempo, especialmente o TVT que surgiu há 11.000 anos. Dentre elas: 1) em relação à exposição e o tempo de contato, o TVT é facilmente ulcerado e o tempo de coito entre os cães é longo, o que facilita a transmissão; 2) o escape do sistema imune pode decorrer em parte da redução da expressão de certas moléculas na superfície. Dessa forma diminui a possibilidade das células cancerosas serem reconhecidas e eliminadas pelo sistema imune; 3) a manutenção da integridade do conteúdo genético da célula tumoral está associada a diversos mecanismos como: manutenção do processo de reparação do DNA e transferência horizontal das mitocôndrias das células do hospedeiro 2. Com o passar do tempo, há acúmulo de mutações no DNA mitocondrial das células de TVT que pode levar a danos irreparáveis a esta organela. Dessa maneira, o processo de obtenção de mitocôndrias saudáveis provenientes de células do hospedeiro para produzir energia foi essencial para garantir a sobrevivência do TVT.

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Transferência horizontal de mitocôndria observada no TVT. Figura esquemática baseada na  ref.2

Mitocôndria como marcadora de dispersão do TVT pelo mundo

Para se manter durante os 11.000 anos, o TVT incorporou a mitocôndria das células dos hospedeiros. Resultados mostram que essa incorporação ocorreu 5 vezes durante a trajetória do TVT e os cientistas então classificaram TVT em diferentes clados, de acordo com o ancestral doador da mitocôndria.

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Distribuição dos clados. Figura esquemática baseada nos resultados da ref 8.

Com a análise do conteúdo genético mitocondrial foi possível avaliar quando e como o TVT se espalhou. Os tumores de cães no Brasil pertencem ao clado 1, proveniente da Europa e Ásia, clado 2, possivelmente disseminada pela via transatlântica e de expedições através do oceano Índico; enquanto o clado 3 só é observado na América Central, Sul e Índia. Os clados 1, 2 e 3 surgiram 1000, 500 e 250 anos atrás8.

Curiosidade

O fenômeno denominado recombinação de DNA mitocondrial já foi descrito em casos raros, onde o DNA mitocondrial paterno se recombina com o DNA mitocondrial materno. Com dados da análise de TVT de um cão da Nicarágua, os cientistas verificaram pela primeira vez que houve recombinação genética de DNA mitocondrial da célula do hospedeiro e célula tumoral 8.

Importância de estudar estes tumores

Sabemos que células cancerosas são capazes de escaparem do sistema imune e células de tumores transmissíveis podem nos dizer quais os mecanismos usados pelas células tumorais, podendo ser incríveis modelos para se estudar câncer humanos. Decifrando melhor estes mecanismos, podemos implementar diversos esquemas de intervenção.

Além disso, a transferência horizontal de mitocôndria e a detecção de recombinação de DNA mitocondrial em TVT podem ampliar nossa visão sobre a possibilidade destes fatos acontecerem em tumores humanos e quais as funções destes fenômenos. Apesar de não existir um tipo de câncer que seja naturalmente transmissível como os cânceres descritos em animais, devemos estar atentos que há chances disto também ocorrer em humanos 5. Portanto, temos muito o que aprender com que acontece com os animais.

Referências

  1. Murchison EP. Clonally transmissible cancers in dogs and Tasmanian devils. Oncogene. 2008;27 Suppl 2(S2):S19-S30. doi:10.1038/onc.2009.350.
  2. Strakova A, Murchison EP. The cancer which survived: Insights from the genome of an 11000 year-old cancer. Curr Opin Genet Dev. 2015;30:49-55. doi:10.1016/j.gde.2015.03.005.
  3. Metzger MJ, Villalba A, Carballal MJ, et al. Widespread transmission of independent cancer lineages within multiple bivalve species. Nature. 2016;534(7609):705-709. doi:10.1038/nature18599.
  4. Strakova A, Murchison EP. The changing global distribution and prevalence of canine transmissible venereal tumour. BMC Vet Res. 2014;10(1):168. doi:10.1186/s12917-014-0168-9.
  5. Pye RJ, Pemberton D, Tovar C, et al. A second transmissible cancer in Tasmanian devils. Proc Natl Acad Sci. 2015;113(2):201519691. doi:10.1073/pnas.1519691113.
  6. Epstein B, Jones M, Hamede R, et al. Rapid evolutionary response to a transmissible cancer in Tasmanian devils. Nat Commun. 2016;7:12684. doi:10.1038/ncomms12684.
  7. Murchison EP, Wedge DC, Alexandrov LB, et al. Transmissible dog cancer genome reveals the origin and history of an ancient cell lineage. Science (80- ). 2014;343(6169):437-440. doi:10.1126/science.1247167.
  8. Strakova A, Leathlobhair MN, Wang GD, et al. Mitochondrial genetic diversity, selection and recombination in a canine transmissible cancer. Elife. 2016;5(MAY2016):1-25. doi:10.7554/eLife.14552.

Fonte das fotos: Wikipédia

Link útil:

TED talk: Elizabeth Murchison

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Câncer de mama: disparidades raciais e socioeconômicas

Outubro é o mês dedicado à conscientização do câncer de mama, que é um dos mais comuns cânceres mais comuns em mulheres, representando 25% de todos os casos de câncer no mundo. Globalmente, são diagnosticados aproximadamente 1,7 milhões de novos casos dos quais meio milhão vão a óbito 1.

A incidência varia de acordo com a região geográfica. É observado que países norte-americanos, países da Europa Ocidental, países da América Latina e Austrália apresentam índices mais elevados, enquanto a grande maioria do território africano e asiático possui as menores taxas de incidência 1. Apesar dos países mais desenvolvidos possuírem uma alta taxa de incidência de câncer de mama, os países em desenvolvimento, como Nigéria e Etiópia, apresentam os maiores índices de mortalidade 2. Em países da América Latina, verifica-se que a incidência de câncer de mama está aumentando e acredita-se que isto esteja relacionado a diversos fatores: o aumento da taxa de obesidade, a redução de atividade física, a ocidentalização do estilo de vida e também ao limitado acesso de triagem e tratamento 1.

Diferenças também são verificadas em um mesmo país. Nos Estados Unidos, as mulheres brancas apresentam maior índice de incidência, porém, mulheres afrodescendentes com câncer de mama apresentam maior índice de mortalidade 2.

Estas disparidades estão relacionadas à combinação de diversos elementos, como fatores biológicos, estilo de vida, diferenças no acesso a tratamento e também em procedimentos de prevenção e triagem 3.

Fatores Biológicos

Devido a sua heterogeneidade, câncer de mama compreende um grupo de doenças. Estudos contendo análises genômicas mostram que câncer de mama pode ser classificado em 10 tipos 4. Na clínica, a classificação é feita por marcadores moleculares que são capazes de definir prognóstico e tratamento.

Células tumorais que expressam receptores hormonais de estrógeno e de progesterona, geralmente estão associadas com bom prognóstico e pacientes que apresentam este tipo de tumor podem ser beneficiadas com o tratamento hormonal. Tumores que expressam o receptor HER-2 (human epidermal growth factor receptor 2), um dos membros da família de receptor do fator de crescimento epidérmico, estão associados com alta agressividade e prognóstico ruim 5.

O desenvolvimento do anticorpo anti-HER-2, foi um grande progresso na terapia deste tipo tumor 6. Tumores que não apresentam nenhum tipo destes receptores, são considerados triplo negativo e pacientes com tumores triplo negativos apresentam um prognóstico pior. Diferente dos outros tipos, não há nenhum tratamento direcionado que seja eficaz para tumores triplo negativos 7.

Dados mostram que mulheres afrodescendentes tem mais probabilidade de serem diagnosticadas com câncer de mama triplo negativo e também com tumores em estágios mais tardios 8. Tumores triplo negativo tem mais incidência em mulheres dos países da África, sugerindo uma possível associação genética 2.

Estilo de vida

A população hispânica* dos Estados Unidos apresenta menor incidência de câncer de mama que a população branca, porém, observa-se que o risco é menor para mulheres hispânicas estrangeiras que as mulheres nascidas nos Estados Unidos. Este risco aumenta para as sucessivas gerações que vivem nos Estados Unidos. Apesar de países asiáticos apresentarem taxas de incidência menores que os países ocidentais, asiáticas que vivem nos Estados Unidos apresentam maior risco de serem diagnosticadas com câncer mama. Resultados indicam que o aumento no risco é devido a mudanças de estilo de vida e aumento do peso corpóreo 3.

Obesidade não só aumenta o risco de incidência de câncer de mama, como também está relacionada ao encurtamento do tempo de sobrevivência após o diagnóstico. Estudos mostram que a obesidade eleva o risco de incidência em mulheres após a menopausa. Entretanto, obesidade durante a adolescência e o período de início da vida adulta é inversamente proporcional com a incidência do câncer de mama antes da menopausa. Nos Estados Unidos, o índice de mortalidade de câncer de mama é maior na população afrodescendente, que também apresenta alto índice de obesidade 3.

Detecção, triagem e manejamento

Detecção precoce através da mamografia promoveu a redução de mortalidade, porém, isto não é observado em mulheres de todas etnias e raças. A incidência de diagnóstico para uma mulher afrodescendente com idade inferior a 35 anos é 1,4 a 2 vezes maior que para as brancas 8. O fato dos exames preventivos serem somente realizados com mulheres na faixa de 40-50 anos pode contribuir com o aumento das chances de mulheres afrodescendentes serem diagnosticadas em estágios mais tardios. Acredita-se que o ajuste da idade para estas mulheres começarem a fazer procedimentos de detecção com idade inferior a 40 anos poderia ser mais benéfico 2.

A qualidade do exame de mamografia e do treinamento dos profissionais envolvidos também pode contribuir para o aumento na disparidade da detecção precoce entre mulheres brancas e mulheres afrodescendentes e hispânicas. Geralmente, unidades que atendem minorias não possuem mamografia digital e profissionais especializados para interpretar os resultados 8 .

Um estudo com 55.000 mulheres mostrou que há uma menor probabilidade de mulheres afrodescendentes serem tratadas nos hospitais de alta qualidade nos Estados Unidos. Além disso, outro estudo com 108.000 mulheres demonstrou que há maiores chances de atrasos no tratamento para pacientes afrodescendentes e hispânicos do que para mulheres brancas 2. Também há uma maior probabilidade das mulheres afrodescendentes não receberem tratamento adequado, além de também receberem doses inferiores de medicamentos.

Foi sugerido por alguns cientistas que o alto custo de medicamentos orais poderia desencadear a subdosagem e até o abandono da terapia 8. Dados mostram que há uma maior probabilidade das mulheres afrodescendentes desistirem do tratamento e faltarem nos dias da aplicação de medicamentos.

Sugere-se que barreiras econômicas como dificuldades de encontrar creches para as crianças, faltar ao trabalho e não ter como pagar o transporte podem desencadear o abandono no tratamento. Um estudo, onde todas estas variáveis foram controladas, mostrou que as mulheres afrodescendentes tinham uma redução na sobrevivência quando comparadas com mulheres brancas. Isto sugere que, mesmo que as mulheres afrodescendentes recebam tratamento adequado, não resulta na mesma proporção de benefícios observados para mulheres brancas.

Câncer de mama e disparidades raciais e socioeconômicas no Brasil

O interesse pelo tópico sobre disparidades raciais e socioeconômicas na incidência e mortalidade de câncer tem aumentado. Como observado nos Estados Unidos, dados mostram uma tendência de aumento das taxas de mortalidade de mulheres afrodescendentes com câncer de mama no Brasil 9. Estados como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo apresentaram diminuição no índice de mortalidade, enquanto que os estados do Maranhão, Piauí e Paraíba apresentaram aumento. Possivelmente estas disparidades refletem as diferenças na qualidade do sistema de saúde 10.

A importância dos estudos sobre disparidades

Muitos estudos sobre disparidades raciais e câncer de mama foram realizados nos Estados Unidos, que apresentam uma menor miscigenação racial que no Brasil. Desenvolver projetos que visam investigar diferenças na incidência do câncer de mama no Brasil é mais desafiador devido ao alto grau de miscigenação e também pela subjetividade das pessoas sobre a determinação da raça e cor 9.

Estudos que investigam os fatores envolvidos na disparidade são essenciais para nós definirmos melhores estratégias para diminuir estas diferenças. Precisamos desenvolver mais projetos multidisciplinares com o objetivo de elucidar como os fatores biológicos e socioeconômicos podem modificar as taxas de incidência e mortalidade do câncer de mama nas diferentes raças e etnias no Brasil.

* Hispânicos: são pessoas provenientes de Cuba, México, Porto Rico, países da América Central e do Sul, ou ainda de outro país de cultura espanhola.

Referências:

  1. Torre LA, Bray F, Siegel RL, Ferlay J, Lortet-tieulent J, Jemal A. Global Cancer Statistics, 2012. CA a cancer J Clin. 2015;65(2):87-108. doi:10.3322/caac.21262.
  2. Ademuyiwa FO, Edge SB, Erwin DO, Orom H, Ambrosone CB, Underwood W. Breast cancer racial disparities: Unanswered questions. Cancer Res. 2011;71(3):640-644. doi:10.1158/0008-5472.CAN-10-3021.
  3. Bandera E V., Makarinec G, Romieu I, John EM. Racial and Ethnic Disparities in the Impact of Obesity on Breast Cancer Risk and Survival: A Global Perspective. Am Soc Nutr. 2015;(5):803-819. doi:10.3945/an.115.009647.non-Hispanic.
  4. Curtis C, Shah SP, Chin S-F, et al. The genomic and transcriptomic architecture of 2,000 breast tumours reveals novel subgroups. Nature. 2012;486(7403):346-352. doi:10.1038/nature10983.
  5. Sims AH, Howell A, Howell SJ, Clarke RB. Origins of breast cancer subtypes and therapeutic implications. Nat Clin Pract Oncol. 2007;4(9):516-525. doi:10.1038/ncponc0908.
  6. Slamon DJ, Leyland-Jones B, Shak S, et al. Use of chemotherapy plus a monoclonal antibody against HER2 for metastatic breast cancer that overexpresses HER2. N Engl J Med. 2001;344(11):783-792.
  7. Dent R, Trudeau M, Pritchard KI, et al. Triple-negative breast cancer: clinical features and patterns of recurrence. Clin Cancer Res. 2007;13(15 Pt 1):4429-4434. doi:10.1158/1078-0432.CCR-06-3045.
  8. Daly B, Olopade OI. A perfect storm: How tumor biology, genomics, and health care delivery patterns collide to create a racial survival disparity in breast cancer and proposed interventions for change. CA Cancer J Clin. 2015;65(3):221-238. doi:10.3322/caac.21271.
  9. Soares LR, Gonzaga CMR, Branquinho LW, Sousa A-LL, Souza MR, Freitas-Junior R. Mortalidade por câncer de mama feminino no Brasil de acordo com a cor. Rev Bras Ginecol e Obs. 2015;37(8):388-392. doi:10.1590/SO100-720320150005319.
  10. Gonzaga CMR, Freitas-Junior R, Curado M-P, Sousa A-LL, Souza-Neto J-A, Souza MR. Temporal trends in female breast cancer mortality in Brazil and correlations with social inequalities: ecological time-series study. BMC Public Health. 2015;15(1):96. doi:10.1186/s12889-015-1445-7.
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Mulheres e câncer: Tumor de útero

Para auxiliar na divulgação de informação sobre cânceres em mulheres, publicarei aqui no Cientistas Feministas, textos que descrevem aspectos gerais de câncer de ovário, corpo do útero, mama e colo do útero, este último conhecido também como câncer cervical. O primeiro texto sobre tumor de ovário você pode acessar aqui.

Como o mês de setembro é o mês de conscientização do câncer de corpo de útero, ou câncer de útero, para simplificar, abordarei aspectos gerais sobre esta enfermidade e tratamento.

Câncer de útero é proveniente da transformação de células do endométrio que estão localizadas na parte interior do corpo uterino. De acordo com dados do Instituto Nacional do câncer (INCA), este é o sexto tipo de tumor mais comum, sendo mais frequente em mulheres da região Sudeste. Diferentemente do câncer de ovário, que tem uma taxa de letalidade mais elevada, o tumor de útero não é tão agressivo. Em geral, a taxa de sobrevida é em torno de 80% e esta taxa vai depender da agressividade do tumor 1-2.

A agressividade está relacionada ao tipo de tumor de útero que pode ser classificado em dois tipos: 1) endometrioides: são os mais comuns e de caráter não agressivo e portanto com bom prognóstico e 2) não endometrioides: são mais agressivos, com mais chances de recorrência e com prognóstico ruim. A taxa de sobrevida de 5 anos para o primeiro é 85%, enquanto, para o segundo cai para 55%. Mulheres afrodescendentes têm maior probabilidade de desenvolver tumores de características não endometrioides 3.

Sintomas, diagnóstico e triagem

Geralmente, as mulheres afetadas apresentam-se no período pós-menopausa (50-60 anos) e somente 5% das mulheres com idade inferior aos 40 são diagnosticadas com tumor de útero. Os sintomas mais comuns são: sangramento uterino e corrimento vaginal. A infecção uterina (piometra) também pode estar presente 2-3.

Em estágios mais avançados, há similaridade com sintomas encontrados em pacientes com câncer de ovário, uma vez que ambas condições podem apresentar distensão e dor abdominal 2. O diagnóstico se dá pelo histórico da paciente mais informações provenientes de exames como ultrassom e biopsia, sendo que esta última técnica é que vai confirmar o diagnóstico da doença. Para avaliar a detecção de metástases nas estruturas da cavidade abdominal como linfonodos, utiliza-se métodos como ressonância magnética e tomografia 2-3. Mulheres que apresentam quadro de obesidade devem ser alertadas pelo fato de possuírem um risco maior de serem diagnosticadas com câncer de útero 2. Além disso, mulheres portadoras da síndrome de Lynch ou câncer hereditário de intestino, também tem riscos aumentados. Infelizmente, não há métodos eficientes para a identificação precoce deste tumor. O melhor método seria a biopsia, mas neste caso, não seria muito aceito pelas pacientes, já que é um método invasivo 2.

Tratamento

Para as mulheres que possuem câncer de útero localizado, isto é, não apresentam metástases (55% dos casos), o tratamento é cirúrgico. Na cirurgia são removidos o útero, trompas e ovários. As chances de recorrência para estas pacientes são muito baixas, ao redor de 5%. Quando há detecção de metástases, a taxa de recorrência varia de 20 a 40% 2. Estudos mostram que a radioterapia é eficaz para diminuir a metástases localizadas e não interfere no tempo de sobrevivência das pacientes. Para combater a disseminação a estruturas mais distantes, pesquisadores sugerem a combinação de tratamentos quimioterápicos com a radioterapia 4.

Fatores de risco

Fatores de risco estão conectados a idade precoce da primeira menstruação (menarca), o fato de nunca ter tido filhos (nuliparidade), infertilidade e idade tardia em relação à menopausa 3.

Terapias à base de estrógeno para minimizar os sintomas causados durante a fase de menopausa podem elevar de 2 a 20 vezes a chance da mulher de ser diagnosticada com câncer de útero 3.

É interessante que os índices deste tipo de tumor têm aumentado principalmente em países mais ricos como os Estados Unidos e países da Europa 2-3. Acredita-se que este fato deve estar associado com a taxa crescente de obesidade 2. Sabe-se que o tecido adiposo é responsável por converter andrógeno a estrógeno, e como foi citado acima, aumento de níveis de estrógeno podem aumentar o risco de desenvolvimento desta doença 3. O uso de medicamentos reguladores negativos da via de estrógeno como Tamoxifeno, utilizado para o tratamento de alguns tipos de cânceres de mama, exercem um efeito estimulador nas células endometriais e isso aumenta as chances de incidência de câncer de útero em 6-8 vezes 3. Embora, haja indícios da conexão com diabetes, estudos mostram resultados controversos 2-3.

Futuro

Como os Estados Unidos, o Brasil também apresenta um aumento na taxa de obesidade e o controle deste número pode definir a incidência do câncer de útero na população brasileira.

Embora o câncer de útero não seja agressivo para a maioria das pacientes, e exista tratamento eficaz, muitas mulheres morrem devido a progressão da doença. Até então, não há nenhum tratamento novo aprovado. Há vários testes clínicos que estão sendo feitos para determinar o efeito de imunoterapias no aumento da sobrevida daqueles pacientes com mais chance de recorrência 2. Vamos aguardar e torcer.

Referências

  1. Estimativa 2016 Incidência de Câncer no Brasil. Ministério da Saúde. http://www.inca.gov.br/estimativa/2016/estimativa-2016-v11.pdf
  2. Morice P, Leary A, Creutzberg C, Abu-Rustum N, Darai E. Endometrial cancer. Lancet. 2016;387(10023):1094-1108.
  3. Burke WM, Orr J, Leitao MS, Emery, Gehrig P, Olawaiye AB, Brewer M, Boruta D, Villella J, Herzog T, Abu SF.Endometrial cancer: A review and current management strategies: Part I. Gynecol. Oncol. 134, 385–392 (2014).
  1. Burke WM, Orr J, Leitao MS, Emery, Gehrig P, Olawaiye AB, Brewer M, Boruta D, Villella J, Herzog T, Abu SF. Endometrial cancer: A review and current management strategies: Part IIGynecol. Oncol. 134, 393–402 (2014).

 

 

 

 

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Mulheres e câncer: Tumor de Ovário

Aqui no Cientistas Feministas, eu publicarei uma série de textos que relatam sobre cânceres que ocorrem em mulheres. Neste primeiro texto da compilação, o tema escolhido foi câncer de ovário 1

Em relação aos outros cânceres que podem ocorrer em mulheres, câncer de ovário é um dos tumores mais raros e um dos mais letais. Estima-se que 70% das pacientes com câncer de ovário faleçam dentro do período de 5 anos após o diagnóstico 2.

Origem

Histologicamente, há 4 tipos de câncer de ovário, sendo o tipo seroso um dos mais comuns. A origem deste tipo de tumor de ovário é muito discutida e há indicações que este câncer seja originado na superfície do ovário, entretanto, há evidências que mostram que sua origem ocorre na trompa de falópio 3 .

Disseminação

Câncer de ovário se espalha para outros lugares do corpo de uma maneira muito única. Diferentemente dos outros tumores que se disseminam pelos vasos sanguíneos e linfáticos, no câncer de ovário, as células tumorais se descolam do tumor e se agregam, podendo sobreviver no interior da cavidade abdominal. Estes agregados celulares, chamados de esferas tumorais, podem ser flutuantes ou aderir em outros órgãos da cavidade abdominal. Além disso, as células tumorais podem também atingir outros órgãos mais distantes como pulmão, via vasos sanguíneos ou linfáticos (veja a figura abaixo).

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Em pacientes diagnosticados em estágios mais precoces, as células tumorais estão confinadas no ovário ou localizadas em regiões próximas ao ovário. No entanto, pacientes em estados mais avançados são diagnosticados com frequência de 70% e apresentam nódulos tumorais distribuídos em diversas regiões no interior do abdômen ou além da cavidade abdominal 4.  

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Detecção e Tratamento

Para outros tumores sólidos, observa-se uma diminuição de letalidades com o avanço da medicina, porém, o cenário pouco se alterou para os pacientes de câncer de ovário. Atualmente, a mesma proporção de pacientes com câncer de ovário sucumbem quando comparada com a proporção de pacientes na década de 80 2.

Há necessidade de se descobrir novos tratamentos e marcadores que identifiquem estágios iniciais da doença. Os tratamentos utilizados são cirurgia e quimioterápicos. Pessoas com câncer de ovário possuem sinais clínicos não muito específicos e infelizmente não há marcadores sensíveis para a detecção precoce desta doença 5CA-125 é frequentemente utilizado como um dos indicadores de recorrência, embora não seja capaz de detectar quando há uma remissão tumoral pequena. Além disso, exames como tomografia com contraste não são capazes de detectar pequenos nódulos tumorais presentes na cavidade abdominal 2.

Câncer de ovário é um dos tumores que albergam mais mutações que outro tumor sólido, em média 61 mutações por tumor 6. Por isso, encontrar tratamentos para esta doença é tão desafiador, uma vez que suas células podem possuir uma aberração de quantidade de mutações e constituem uma população muito heterogênea 5. Dessa maneira, bloquear uma via que esteja ativada decorrente a mutação com uma droga pode gerar resultados não tão promissores.

Um outro obstáculos no desenvolvimento de tratamentos para câncer de ovário que sejam mais eficazes é que as esferas tumorais presentes na cavidade abdominal tem baixa capacidade de multiplicação. Sendo assim, elas são refratárias aos tratamentos convencionais de quimioterapia que são direcionais a células que se multiplicam rapidamente.

Riscos e prevenção

Pessoas que possuem mutações de caráter hereditário de certos genes envolvidos na reparação de defeitos no DNA têm maior risco de desenvolver câncer de ovário. Estima-se que 10-15% dos cânceres de ovário são associados a estas mutações 5. Alguns médicos aconselham a retirada dos ovários e tuba de falópio para pessoas que possuem mutações nestes genes. Mesmo que este procedimento seja muito polêmico, isso acarreta na diminuição da ocorrência de tumor de ovário nestes pacientes em 80% 2.

Futuro

Apesar destes fatos desafiadores em relação ao câncer de ovário, muitos estudos estão sendo realizados com intuito de desenvolver novas drogas para o tratamento desta enfermidade. Saber mecanismos de resistência ao tratamento é um dos pontos chave para o desenvolvimento de um tratamento de sucesso. Sendo assim, aguardamos ansiosamente os resultados dos novos testes clínicos em humanos 5.

Referências

  1. Seton-Rogers S, Ovarian cancer: At the starting line. Nat Rev Cancer. 2013;13(5): 296-7. doi:10.1038/nrc3510.
  2. Vaughan S, Coward JI, Bast RC, et al. Rethinking ovarian cancer: recommendations for improving outcomes. Nat Rev Cancer. 2011;11(10):719–25. doi:10.1038/nrc3144.
  3. Lengyel E. Ovarian cancer development and metastasis. Am J Pathol. 2010;177(3):1053–64. doi:10.2353/ajpath.2010.100105.
  4. Shield K, Ackland ML, Ahmed N, Rice GE. Multicellular spheroids in ovarian cancer metastases: Biology and pathology. Gynecol Oncol. 2009;113(1):143–8. doi:10.1016/j.ygyno.2008.11.032.
  5. Bast RC, Hennessy B, Mills GB. The biology of ovarian cancer: new opportunities for translation. Nat Rev Cancer. 2009;9(6):415–28. doi:10.1038/nrc2644.
  6. Cancer T, Atlas G. Integrated genomic analyses of ovarian carcinoma. 2011:0–6. doi:10.1038/nature10166.

Figuras:

http://www.servier.com/Powerpoint-image-bank