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Violência doméstica: Impactos na vida profissional de mulheres nordestinas

A data da entrega desse texto se aproximava, e eu estava fazendo o que sei fazer de melhor: procrastinando e pensando qual poderia ser o tema do texto. Eis que na televisão era transmitido o Jornal Hoje e uma das matérias me chamou a atenção. Um estudo recém-publicado pela Universidade Federal do Ceará em conjunto com o Instituto Maria da Penha, apontava o impacto da violência doméstica na vida profissional das mulheres nordestinas. O assunto chamou atenção não apenas por seu ineditismo, mas também por ser publicado no mês em que a Lei Maria da Penha completa 11 anos. Ano passado, publicamos aqui no blog um texto sobre o impacto e a importância da lei para a defesa dos direitos das mulheres. E nunca é demais falar sobre uma lei que impactou fortemente a vida das mulheres no Brasil e tem transformado a maneira como lidamos com esse tipo de violência, seja por meio de conversas e debates mais amplos pela sociedade, ou das denúncias.

Chamada de “Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica Familiar contra a Mulher” (PCSVDFmulher), ela teve como objetivo principal obter dados nacionais sobre a violência doméstica e as inter-relações entre contexto econômico e social que possam refletir sobre a violência de gênero. Em um primeiro momento, entende-se que o empoderamento da mulher ajude a diminuir a violência, uma vez que ela se torna independente financeiramente, o que permite que ela possa sair de casa se descontente com a relação. O que tem sido observado, é que quando esse empoderamento subverte normas culturais e estereótipos de gênero, a incidência de violência aumenta. Portanto, é natural pensar então que a violência possa ter um impacto negativo no mercado de trabalho, interferindo na capacidade laboral das mulheres e na manutenção do emprego. Como apresentado na Figura 1, essa relação entre violência doméstica e mercado de trabalho é bastante complexa, incluindo diferentes variáveis, e pode também levar em conta as consequências a curto e longo prazo.

Mercado de trabalho e violência doméstica

Tendo como base a Lei Maria da Penha, o estudo levou em conta as violências física, emocional e sexual. Das mulheres entrevistadas, 3 em cada 10 relatam ter sofrido pelo menos um episódio de violência em sua vida e 1 em cada 10 relata ter sido vítima nos últimos 12 meses, sendo que os parceiros atuais ou mais recentes são os perpetradores. Devido às sequelas físicas e/ou emocionais ocasionadas, são perdidos em média 18 dias de trabalho por ano. A massa salarial perdida, somente para a região nordeste é de R$ 64,4 milhões, extrapolando a mesma média para todo o país, temos um prejuízo de R$ 975 milhões, sem contar os gastos previdenciários e dos serviços de saúde. Outro ponto alarmante revelado pelo estudo, é que mulheres que sofreram violência nos últimos 12 meses, permanecem menos tempo no emprego quando comparadas àquelas que não foram violentadas.

Então aqui temos dois impactos importantes na vida profissional da mulher: a redução de sua produtividade imediata devido às faltas, e histórico de trabalho inconsistente, alternando curtos períodos de emprego com longos períodos de desemprego. Nesse ponto entramos em um círculo vicioso, em que a violência dificulta a manutenção do emprego, ao mesmo tempo em que estar empregada pode gerar maior violência por parte de seu parceiro.

É assustador pensar que o número de mulheres que sofrem de violência doméstica pode ser ainda maior que o observado nesse estudo, devido à recusa da vítima em denunciar o perpetrador. Essa recusa perpassa pela culpabilização da vítima e também por crenças morais e religiosas por parte dos envolvidos. Quantas vezes não ouvimos justificativas para a violência “ela deve ter provocado”, “mas eles são casados, ninguém tem nada com isso”, “certeza que ela mereceu”.

Onze anos após a promulgação da lei, esse estudo nos mostra que os impactos da violência doméstica são ainda mais amplos e complexos, influenciando de maneira direta as diferenças de gênero, perpetuação da pobreza e a desigualdade no país. Muito foi conquistado, mas é importante e necessário que continuemos na luta para não perdermos nossos direitos, de maneira a garantir que nenhuma mulher seja violentada.

 

Para saber mais sobre o Instituto Maria da Penha e sobre o estudo:

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/documentos/relatorio.pdf

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/documentos/relatorio_v06.pdf

Dúvidas frequentes sobre a LMP: http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/index.php/duvidas-frequentes-sobre-a-lei-11-340-06

 

 

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Amazônia: manejo e domesticação começaram com os povos pré-colombianos

Quando pensamos na Floresta Amazônica, lembramos sempre do desmatamento desenfreado que ela vem sofrendo ao longo das décadas, mas raramente pensamos nos impactos que as populações locais causaram neste ecossistema. Pensamos na subsistência, na caça e coleta, mas sequer pensamos que essas populações possam ter realizado o manejo das áreas que ocuparam conforme seus desejos e necessidades.

Um estudo publicado recentemente na revista Science nos mostra que a biodiversidade amazônica está fortemente relacionada à ocupação humana desde tempos pré-colombianos. A equipe multidisciplinar, composta por 152 pesquisadores de todo o mundo, utilizou dados botânicos e arqueológicos levantados ao longo de décadas para determinar se a Amazônia é uma floresta intocada ou se foi modificada por seus habitantes.

Liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a pesquisa cruzou informações sobre sítios arqueológicos e inventários botânicos da Bacia Amazônica. O resultado encontrado é que existe uma relação entre a maior presença de espécies domesticadas e a proximidade com sítios arqueológicos.

A domesticação de plantas acontece quando o esforço humano é capaz de se sobrepor às pressões ecológicas do ambiente, com o intuito de usufruir dos recursos naturais conforme sua necessidade, causando assim grandes alterações em ecossistemas, nas escalas local e global. Alguns indivíduos de cada espécie são escolhidos para a domesticação e geralmente são aqueles que possuem características desejáveis, como frutos de maior tamanho ou frutos mais saborosos, por exemplo. Essa escolha representa apenas uma pequena parte da diversidade genética encontrada naturalmente na espécie e gera o que conhecemos como “efeito fundador”. Com o passar do tempo, a população domesticada é transportada pelos povos da região estudada para outros locais, aumentando a sua ocorrência de maneira artificial.

Os pesquisadores constataram que 85 espécies de árvores da região amazônica foram completa ou parcialmente domesticadas, sendo que 20 delas são encontradas até cinco vezes mais do que o esperado para espécies hiperdominantes. Além disso, a riqueza e abundância dessas espécies estão relacionadas a sítios arqueológicos e também margens de rios, sendo ainda maiores quanto maior a proximidade aos locais habitados. Outro dado interessante é o fato de que os maiores esforços de manejo foram direcionados às espécies que já se apresentavam em condições de hiperdominância, aumentando ainda mais sua presença, com um esforço menor direcionado à domesticação de espécies mais raras, mas que eram importantes para os povoados, fosse para alimentação ou uso medicinal.

Você pode se perguntar como é possível saber que humanos causaram esse tipo de impacto na floresta. Os pesquisadores deste estudo fizeram a mesma pergunta, e utilizaram a composição arbórea e as necessidades ecológicas de cada espécie para chegar a uma conclusão. Por exigirem condições ambientais diferentes, é muito improvável que aquelas 20 espécies hiperdominantes ocorressem em locais tão diferentes da floresta amazônica de maneira aleatória. Assim, a explicação que sobra é a de que tenham sido introduzidas e cultivadas pelos povos da região estudada ao longo do tempo. Esses resultados modificam a ideia de que a Amazônia é em grande parte uma floresta intocada. Neste sentido, ela foi e continua sendo manejada e moldada conforme as necessidades das pessoas que vivem naquele ambiente, mostrando que o ecossistema é bastante dinâmico.

O legado desse estudo é evidenciar que embora saibamos muito sobre a Amazônia, ainda há muito que ser estudado. Estima-se que existam 16 mil espécies arbóreas, mas apenas cinco mil delas foram identificadas, e pouco se sabe sobre a história humana nessas florestas. Há locais ainda inexplorados, que certamente guardam muitas descobertas que nos ajudarão a compreender melhor de que maneira a ocupação humana aconteceu e como isso impactou este ecossistema.

Para saber mais:

Artigo original (em inglês) Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition. C. Levis et al, 2017 http://science.sciencemag.org/content/355/6328/925.full

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Novas evidências fósseis: A vida na Terra começando mais cedo

A origem da vida na Terra é um assunto que sempre desperta muito interesse, mas também gera bastante polêmica. Exatamente como e quando a vida surgiu neste planeta são perguntas que ainda intrigam cientistas, que seguem buscando no registro fóssil informações que esclareçam essas questões. Estima-se que o Universo tenha 13,7 bilhões (bi) de anos e a Terra 4,5 bi de anos, com a vida surgindo em algum momento entre 3,5 e 3,8 bi de anos. Diferentemente da escala histórica, usada para contar o tempo do surgimento da humanidade até os dias de hoje (alguns milhares de anos), o tempo geológico é usado quando falamos do processo de surgimento da Terra e as transformações que aqui ocorreram, e a contagem é feita em milhões e bilhões de anos.

Uma descoberta recente, feita por pesquisadores da University College London, indica que a origem da vida pode ter ocorrido entre 3,77 e 4,28 bi de anos, pouco tempo depois da formação de nosso planeta. O material estudado tem origem no Cinturão Supracrustal de Nuvvuagittuq (chamado em inglês de NSB), localizado em Quebec, no Canadá (Figura 1). Esse cinturão era parte do solo oceânico quando a Terra ainda estava em formação. Rochas do local, com idade estimada em 4,28 bi de anos, foram coletadas e analisadas em laboratório, utilizando técnicas de microscopia, espectroscopia e espectrometria a fim de analisar idade, composição e resquícios fósseis deixados pelos possíveis micro-organismos que ali viveram.

Localização NSB Canadá

Figura 1: Localização do Cinturão Supracrustal de Nuvvuagittuq, à beira da Baía de Hudson, norte da província de Quebec (Google Maps).

Se fósseis de grandes organismos às vezes já são difíceis de encontrar e estudar, imaginem só os fósseis de micro-organismos, chamados de microfósseis. Eles são bem pequenos, com um décimo da circunferência de um fio de cabelo humano. Dessa forma, para saber se um micro-organismo qualquer viveu em um dado local, é necessário verificar a presença de rastros deixados por eles. Assim, os pesquisadores procuram por impressões deixadas nas rochas pelas células, por isótopos de carbono e também pelas alterações químicas da rocha, ocasionadas pelo metabolismo celular. Além disso, à medida que a célula cresce e se movimenta, deixa marcas na forma de pequenos filamentos, tubos, e diversos outros formatos. A polêmica é que muitos desses registros podem ser ocasionados por processos abióticos, como a intensa metamorfose sofrida pelas rochas durante bilhões de anos. Por este motivo, é bastante difícil provar a origem biológica de tais marcas, mas não impossível.

Para responder esta questão, os cientistas compararam esses fósseis com outros já encontrados em formações com idade semelhante à NSB, e também com micro-organismos que vivem em fontes hidrotermais no fundo dos oceanos nos dias de hoje. É esperado que, pela semelhança dos ambientes, como o tipo de formação rochosa e temperatura, o metabolismo dos microfósseis e dos organismos atuais também seja semelhante. Isso fornece um padrão para que os pesquisadores possam confirmar ou refutar a origem biológica dos microfósseis. As semelhanças encontradas (Figura 2) permitiu que os cientistas concluíssem que o material encontrado tem origem biológica, indicando que a vida pode ter começado na Terra muito antes de 3,77 bi de anos e talvez muito próximo a 4,28 bi de anos, em regiões próximas a fontes hidrotermais nos oceanos.

microfósseis

Figura 2: Filamentos e tubos (microfósseis) encontrados no Cinturão Supracrustal de Nuvvuagittuq (à esquerda) comparados aos microfósseis encontrados na formação de Løkken na Noruega (à direita). Fotos retiradas do artigo original.

Essa descoberta, embora não coloque certeza na origem da vida em nosso planeta, certamente ajudará em futuras missões que tenham como objetivo encontrar vida em outros planetas, colaborando com a expansão do nosso conhecimento sobre a vida e o universo.

 

Para saber mais:

Artigo original (em inglês) Evidence for early life in Earth’s oldest hydrothermal vent precipitates. Matthew S. Dodd, Dominic Papineau, Tor Grenne, John F. Slack, Martin Rittner, Franco Pirajno, Jonathan O’Neil, Crispin T. S. Little.

http://www.nature.com/nature/journal/v543/n7643/full/nature21377.html

Livro sobre astrobiologia (em português) compilado e disponibilizado pela USP (download gratuito) http://www.tikinet.com.br/iag/

Espectroscopia http://astro.if.ufrgs.br/rad/espec/espec.htm

Espectrometria https://pt.wikipedia.org/wiki/Espectrometria_de_massa

Microscopia http://ead.hemocentro.fmrp.usp.br/joomla/index.php/noticias/adotepauta/618-microscopia

 

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RNA de interferência, uma nova maneira de proteger plantações contra patógenos

     A história da humanidade foi modificada amplamente a partir do momento que percebemos que somos capazes de manipular, até certo ponto, a natureza. O cruzamento de plantas e de animais para a obtenção de características específicas foi aprimorado ao longo do tempo, aumentando a resistência a doenças, a produtividade e a longevidade.

     Com os avanços em biologia molecular e engenharia genética, aprendemos a inserir e alterar genes responsáveis por características de interesse comercial bem como introduzir genes de resistência a pragas e pesticidas. Além disso, foi possível a obtenção em larga escala de medicamentos e vacinas, como a insulina, os antibióticos e a vacina contra hepatite B. Entretanto, a manipulação genética e seus produtos, os organismos geneticamente modificados (OGM), não são bem vistos por uma boa parcela da população, que prefere optar pelo consumo de produtos de origem orgânica. Mas uma nova metodologia para o silenciamento de genes em plantas, sem alteração do DNA, pode revolucionar o controle de pragas e doenças.

     Proteger as plantas contra infecções virais é uma tarefa complicada, pois é necessário cultivar plantas resistentes aos vírus, caso existam, ou utilizar pesticidas que combatam os animais vetores dos vírus. Os vetores são animais capazes de transmitir a outro ser vivo vírus, bactérias e protozoários causadores de doenças. Atualmente, estima-se que entre 30 e 40% da produção agrícola seja perdida devido a pragas. Com as mudanças climáticas globais, a tendência é que cada vez mais plantações se tornem suscetíveis, uma vez que o aumento global das temperaturas facilita a dispersão de micro-organismos causadores de doenças. Dessa maneira, é cada vez mais evidente que a utilização de técnicas de manejo sustentáveis para plantações seja uma necessidade, com o intuito de reduzir a utilização de agrotóxicos e pesticidas, diminuir a contaminação ambiental, e baratear os custos de produção.

     Liderado pela doutora Neena Mitter, da Universidade de Queensland na Austrália, o grupo de pesquisa desenvolveu um spray contendo ácido ribonucleico (RNA) de dupla fita (dsRNA) capaz de proteger plantas de tabaco (Nicotiana tabacum) contra infecções virais. O RNA é o material genético, de fita simples, responsável pela produção de proteínas nas células e um dsRNA é uma molécula de RNA que está pareada com outra molécula complementar, também de RNA. O dsRNA é acoplado a nanopartículas de argila, esse complexo é então aspergido sobre as folhas das plantas a serem protegidas. Após a aplicação, ocorre a liberação do dsRNA e sua absorção pelas folhas conforme a partícula se degrada. A proteção é baseada no silenciamento de genes essenciais dos vírus estudados, ou seja, a técnica impede a expressão de genes sem os quais os vírus não são capazes de se replicar dentro das células. Com isso, a técnica chama bastante atenção porque se torna uma alternativa à modificação genética de organismos, que pode levar anos até se mostrar segura e eficiente.

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Mecanismo de aplicação, liberação e ação do spray desenvolvido pelos pesquisadores da Universidade de Queensland (Esquema retirado do artigo original).

     A técnica desenvolvida pelo grupo é baseada num sistema de defesa existente em organismos eucariotos (que possuem núcleo em suas células), chamado de RNA de interferência (RNAi). Esse mecanismo tem por função identificar e degradar qualquer sequência de nucleotídeos estranha à célula, como vírus e transposons, impedindo a tradução dessa sequência. No entanto, essa degradação só ocorre caso haja complementaridade entre a sequência do RNAi e do RNA estranho, conferindo uma especificidade em sua ação. Dessa maneira, não há risco de interferência no funcionamento celular normal. Outra vantagem é a possibilidade de um mesmo spray poder ser utilizado em diferentes variedades de plantas. Porém, é possível que os organismos alvo acabem desenvolvendo resistência ao alterar sua sequência de DNA em resposta à aplicação do spray. Uma das maneiras para burlar esse mecanismo seria a utilização de diferentes sequências numa mesma solução, aumentando o número de sequências alvo e diminuindo assim as chances de adaptação.

     Os resultados do trabalho mostram que as plantas ficam protegidas por pelo menos 20 dias após a aplicação de uma dose do spray e que mesmo as folhas novas, que não receberam o tratamento, estão protegidas contra a infecção viral. Pesquisadores da Universidade de Cornel em Nova Iorque, também desenvolveram um spray semelhante, mas o alvo foi o besouro-da-batata e o estudo desenvolvido mostrou que a plantação ficou protegida por mais de 28 dias.

     Por ora, a intenção é silenciar genes de pragas biológicas, mas num futuro não muito distante é possível que sprays semelhantes sejam desenvolvidos para alterar outras características das plantas, como composição nutricional, amadurecimento e coloração. E aí, já pensou mudar a cor das flores no seu jardim usando apenas um spray?

Para saber mais:

Artigo original: Clay nanospheres for topical delivery of RNAi for sustained protection against plant viruses. Neena Mitter, Elizabeth A. Worrall, Karl E. Robinson, Peng Li, Ritesh G. Jain, Christelle Taochy, Stephen J. Fletcher, Bernard J. Carroll, G. Q. (Max) Lu, Zhi Ping Xu. http://www.nature.com/articles/nplants2016207

Vídeo em inglês sobre o mecanismo de funcionamento do RNAi: http://www.nature.com/nrg/multimedia/rnai/animation/index.html

RNAi para terapia em humanos: http://www.scielo.br/pdf/rbr/v50n6/v50n6a08.pdf

Poster da Nature (em inglês) sobre RNAi: http://www.nature.com/nrg/posters/small-rna/small-rna.pdf

O mundo dos pequenos RNAs: http://www.plantcell.org/site/teachingtools/TTPB5LectureNotes_PortugueseVersion.pdf

Vetores de doenças: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vetor_(epidemiologia)

Nucleotídeos: http://www.biocristalografia.df.ibilce.unesp.br/cursos/intro_bioquimica/aula7.pdf

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Marcha das Mulheres: ativismo além do movimento feminista

Conhecem aquela história de que se cada um fizer a sua parte as coisas vão pra frente? Pois foi assim que a aposentada Theresa Shook, do Havaí (EUA), pensou quando criou um evento para mobilizar mulheres um dia após a eleição de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Sua ideia era a de que mulheres marchassem em Washington D.C. no dia seguinte à posse do presidente, para mostrar o descontentamento frente à eleição de um candidato sabidamente machista, misógino e sobre quem pesam alegações de abuso sexual.

Sua vontade era a de mobilizar mulheres a mostrar que seus direitos não seriam esquecidos. Só não imaginava que o evento se tornaria viral e que com tanta repercussão, a coordenação teria de passar às mãos de ativistas veteranas de Nova Iorque (Tamika D. Mallory, Carmen Perez, Linda Sarsour e Bob Bland) . Com um time de mulheres entendidas do assunto à frente, os primeiros passos para a consolidação da marcha foram tomados, também foi criado um site onde todas as informações pertinentes à marcha podiam ser acessadas, incluindo a inscrição para a participação no evento. Essa inscrição serviu apenas como modo de saber quantas pessoas participariam para a organização da logística.

Embora o site fosse voltado para a marcha em Washington, mulheres de outros países também se inscreveram. Excursões de outras partes dos EUA começaram a ser organizadas ao mesmo tempo em que marchas em outras cidades foram marcadas. Aos poucos, cidades em todo o mundo entraram no mapa das marchas e foram chamadas de “sister marches” (marchas irmãs). O que começou como um protesto contra Trump acabou mobilizando mulheres no mundo todo, lutando pelos mesmos direitos.

Com o nome de “Women’s March on Washington” (Marcha das mulheres em Washington) ela teve uma abrangência muito maior do que apenas a pauta feminista. Um dos motes do protesto é “Direitos das mulheres são Direitos humanos e Direitos humanos são Direitos das mulheres”. Ele veio com uma nova visão sobre o feminismo a partir do momento em que englobou pautas de grupos que também sofrem preconceitos e desafios no dia-a-dia como afro-americanos, a comunidade LGBTQIA, imigrantes, e refugiados. A demanda da intersecção de causas cresce e torna a inclusão de outras pautas uma necessidade, como forma de fortalecer o movimento e aumentar seu alcance.

Apesar de liderada por ativistas de diferentes causas, o movimento chama a atenção pela ausência de agenda partidária e por abraçar outros movimentos. Um dos pontos chave de sua missão é reconhecer que a defesa de grupos mais marginalizados é defender a todos e que a marcha é o primeiro passo para a unificação das diferentes comunidades, com o objetivo de gerar mudanças. Esse é um dos motivos que tornou a marcha tão bem sucedida: a participação é aberta a todos que lutam por direitos humanos, independente de sua visão político-partidária. A defesa por uma sociedade mais justa é o que foi capaz de unir milhares de pessoas numa única manifestação.

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Outra maneira que as participantes encontraram para se manifestar foi usar uma touca cor de rosa com orelhas de gato. O nome é trocadilho com “pussycat”, que significa “gatinho”. Em inglês a palavra “pussy” também é usada pejorativamente para designar a genitália feminina e foi proferida por Trump em 2005 numa frase em que ele dizia que atualmente é possível pegar as mulheres por sua genitália e fazer o que quiser. O “Pussyhat Project”, além de criar uma identidade visual única para a marcha, permitiu que pessoas em qualquer lugar do mundo demonstrassem seu apoio aos direitos das mulheres. Valorizando as artes manuais, as fundadoras do projeto (Krista Suh e Jayna Zweiman) disponibilizaram em seu site o modelo para a confecção das toucas (tricô, crochê e costura). Estimulando que cada mulher confeccionasse seu próprio “pussyhat”, a iniciativa empodera mulheres artesãs ao mesmo tempo em que fortalece a individualidade criativa de cada uma.

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Mulheres usando seus “pussyhats”. (Foto retirada do twitter de @rmayersinger)

Impacto

Contabilizando a participação de cerca de dois milhões de pessoas nos EUA e o total de cinco milhões de pessoas em todo o mundo em 914 marchas (653 só nos EUA), ela é considerada a maior de toda a história norte-americana a ocorrer num mesmo dia. Além disso, fotos mostram que mais pessoas participaram na marcha do que na inauguração de Trump. Inclusive informes oficiais do metrô na cidade de Washington avisavam sobre a superlotação dos trens, que ocasionaram atrasos nas viagens.

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“Estejam preparados, possíveis atrasos no sistema devido a multidão. Cartões SmartTrip devem ser utilizados para entrada e saída do sistema.”

Uma marcha-irmã ocorreu inclusive em Paradise Bay, na Antártica, onde cerca de 30 mulheres e homens se reuniram num navio com sinais de protesto.

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Manifestantes em navio de pesquisa em Pirate Bay, Antártica. (Foto de Linda Zunas)

A maior marcha registrada ocorreu em Los Angeles na Califórnia com 750 mil participantes, seguida por Washington, D.C. com 500 mil, Nova Iorque (Nova Iorque) com 450 mil, Chicago (Illinois) com 250 mil e Seattle (Washington), Boston (Massachusetts), Oakland e San Francisco (Califórnia) contabilizando entre 100 e 200 mil participantes.

Ciência > Opinião

A veterinária Isabelle Tancioni, moradora de San Diego (Califórnia), participou da marcha que começou no Civic Center. Com a estimativa de 30 a 40 mil participantes, Isabelle conta que estudantes preocupados com as políticas do novo governo com relação à ciência também compareceram.

Um dos primeiros atos de Trump foi apagar todos os dados referentes ao aquecimento global da página da Casa Branca, além de proibir que cientistas da EPA (Agência de Proteção Ambiental) falem publicamente sobre suas pesquisas sem que antes os resultados passem por uma avaliação interna. A preocupação é tanta que já foi criada uma página com o intuito de organizar uma marcha de cientistas, que busca mostrar a importância da ciência baseada em fatos.

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Cartazes durante a Marcha das Mulheres em San Diego: à esquerda “Ciência é real”; à direita “Ciência > Opinião”. (Fotos de Isabelle Tancioni)

É possível que nenhuma das organizadoras da marcha tenha imaginado tamanha repercussão do movimento. O que inicialmente eram páginas de evento agora se tornam grupos públicos e páginas com a finalidade de manter o movimento vivo e forte por todo os EUA. A força que o movimento mostrou ao mobilizar diferentes causas num mesmo protesto pode inspirar uma nova fase do ativismo não só nos EUA, mas em todo o mundo. Entramos numa nova fase de mobilização coletiva. Teremos ainda muitos frutos a colher.

Para saber mais:

Dados sobre o número de participantes nas marchas: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1xa0iLqYKz8x9Yc_rfhtmSOJQ2EGgeUVjvV4A8LsIaxY/htmlview?sle=true#

Marcha para a ciência: https://www.marchforscience.com/

Pussyhat Project: https://www.pussyhatproject.com/

Marcha das Mulheres: https://www.womensmarch.com/ e https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcha_das_Mulheres_em_Washington

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Antarctomyces pellizariae: o futuro da biotecnologia pode estar na Antártica

Já ouviu falar em criosfera? Não? Bem, certamente você já ouviu falar sobre gelo e neve. Criosfera nada mais é do que o conjunto formado por toda a água em estado sólido existente no planeta e inclui icebergs, geleiras, permafrost, calotas de gelo, entre outras formações.

A Antártica, sendo o principal regulador térmico do planeta, é estudada por pesquisadores de todo o mundo. Aqui no Brasil, temos o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT da Criosfera), que abriga pesquisadores de diversas instituições brasileiras, formando uma rede multidisciplinar de estudos. Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) integra a equipe e trabalha com a bioprospecção de fungos em ecossistemas antárticos. O trabalho de bioprospecção realizado pela equipe tem como finalidade conhecer a diversidade microbiana antártica e buscar metabólitos de interesse biotecnológico. Foi durante uma visita à Antártica ao final de 2015, que Luiz Henrique Rosa e sua equipe isolaram um fungo filamentoso que apresentou uma coloração azul bastante intensa. Essa coloração chamou a atenção dos pesquisadores, que decidiram por estudar melhor esse fungo a fim de determinar suas características e descobrir a qual espécie pertencia.

Neste estudo, foram coletadas amostras de neve da camada superior do solo na península Coppermine (62°37’941”S; 59°70’400”W), localizada na ilha Robert, no arquipélago de Shetlands do Sul (figura 1). A neve coletada foi derretida e então filtrada, passo necessário para a retenção dos micro-organismos de interesse. Feito isso, as amostras foram colocadas em meio de cultura e incubadas para que os micro-organismos presentes pudessem crescer. Foi assim que os pesquisadores perceberam o fungo de coloração azul, que foi então isolado para ser estudado em detalhes.

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Figura 1 – Mapa da localização da Península Coppermine, Ilha Robert, Arquipélago Ilhas Shetland do Sul (Fonte: Australian Antarctic Data Centre).

Para a identificação de um fungo, uma série de procedimentos deve ser realizada. Tanto suas características físicas como o seu DNA foram analisados e estudados. Com os resultados em mãos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a espécie que haviam isolado fazia parte do gênero Antarctomyces sp., e que se tratava de uma nova espécie, batizada de A. pellizariae (figura 2). O gênero só é encontrado na Antártica e por isso recebeu o nome “Antarctomyces”. Já “pellizariae” é uma homenagem à Dra. Vivian Helena Pellizari, pesquisadora e professora do Instituto Oceanográfico da USP. Ela foi a responsável, na década de 1990, por estabelecer a microbiologia polar no Brasil, tornando-se inspiração para outros microbiologistas seguirem seu caminho.

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Figura 2 – Antarctomyces pellizariae em placa de Petri com meio Sabouraud, após 14 dias de crescimento a 10 ± 2°C (Fonte: Material suplementar do artigo publicado).

Além da coloração bastante distinta, A. pellizariae cresce melhor a temperaturas mais baixas (de 4 a 15 ± 2°C), o que o classifica como um fungo psicrófilo. Micro-organismos psicrófilos são aqueles capazes de crescer e se reproduzir em baixas temperaturas. A temperatura ótima de crescimento é de 15°C ou menos e a temperatura mínima de -20°C. Estes seres possuem biomoléculas capazes de manter sua forma e função a baixas temperaturas, além de produzir substâncias anticongelantes capazes de protegê-los do frio excessivo, permitindo o funcionamento normal de suas células. Acredita-se que o pigmento azulado também confira proteção contra radiação, característica importante quando seu hábitat é a Antártica.

 As pesquisas de bioprospecção são de extrema importância, pois conhecemos muito pouco sobre a biodiversidade microbiana existente no planeta. Os estudos na Antártica se tornam ainda mais importantes pelas condições extremas de seu ecossistema, que atua selecionando organismos capazes de suportar tais condições. São essas características que tornam o continente um local ideal para o isolamento e descrição de novas espécies fúngicas. Ele é também um dos locais onde os efeitos da mudança climática são sentidos com maior intensidade. Conhecer melhor suas espécies endêmicas pode ajudar a compreender melhor o impacto dessas mudanças na biota antártica.

Além de A. pellizariae, os demais fungos isolados também serão descritos e analisados quanto a seu genoma e presença de compostos de interesse biotecnológico de baixo custo. Dentre as possibilidades, estão substâncias que atuam como anticongelantes e que podem ser utilizadas para a conservação de alimentos e órgãos para transplante, proteção de equipamentos eletrônicos, sensores, inibição de corrosão e conservação de combustíveis. O pigmento azul, bem como outros tipos de pigmentos, pode ter função na indústria alimentícia, atuando como corante. Caso tenha a função de proteção contra radiação, pode ser utilizado na indústria farmacêutica, em produtos de fotoproteção.

Essa descoberta faz parte do trabalho de doutorado da pesquisadora Graciéle Menezes, aluna do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia da UFMG, sob orientação do pesquisador Luiz Henrique Rosa.

Para saber mais:

Sobre as pesquisas brasileiras na Antártica

INCT da Criosfera http://www.ufrgs.br/inctcriosfera/index.html

PROANTAR https://www.mar.mil.br/secirm/portugues/proantar.html

Sobre o grupo de pesquisa da UFMG

http://labs.icb.ufmg.br/leblev/index.html

Sobre análise de genoma na micologia

http://www.biotecnologia.com.br/revista/bio14/pcrnamicologia.pdf

Sobre pesquisas e dados históricos da Antártica

https://data.aad.gov.au/

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Regra dos cinco segundos: mito ou realidade?

Que atire a primeira pedra quem nunca pegou rapidinho aquele pedaço de comida que caiu no chão para não desperdiçar nadinha. Com certeza você estava pensando naquela famosa regra dos cinco segundos que diz que se o alimento for recuperado em até cinco segundos, não há risco de contaminação. Para os recuperadores de plantão, uma má notícia: não existe tal coisa como a não contaminação quando um alimento cai no piso. A não-tão-má notícia é que o nível de contaminação está diretamente relacionado ao tempo em que o alimento fica em contato com a superfície.

No estudo realizado por Robyn Miranda e Donald Schaffner, da Universidade de Rutgers em New Jersey, nem mesmo o tempo mínimo de um segundo garantiu que as amostras estivessem livres de contaminações. Para avaliar a aplicabilidade da regra, os pesquisadores utilizaram quatro tipos de alimentos (pão, pão com manteiga, bala de goma e melancia), quatro superfícies diferentes (azulejo, carpete, madeira e aço inoxidável) com quatro tempos de exposição (1, 5, 30 e 300 segundos). A bactéria escolhida para o estudo foi Enterobacter aerogenes, pois além de não ser patogênica, apresenta características de adesão semelhantes às de Salmonella, uma das espécies causadoras de intoxicações alimentares.

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“- Não toquem nesta batatinha! 1…2…3…4…, – Tarde demais.”

Uma quantidade conhecida de E. aerogenes foi espalhada sobre cada uma das superfícies. Depois de seca, os alimentos foram jogados e coletados após cada um dos tempos estabelecidos. Foi então feita a contagem de unidades formadoras de colônia (UFC), que é a medida de quantas bactérias estão presentes na amostra. Dessa maneira, os pesquisadores puderam avaliar a transferência das bactérias não apenas de acordo com o tempo, mas também de acordo com o tipo de superfície e de alimento.

Os resultados mostram que a tendência é que o número de UFC aumente conforme aumenta o tempo de contato entre o alimento e a superfície, ou seja, quanto mais tempo em contato, mais contaminado ele fica. A melancia é o alimento que se contaminou mais facilmente, o que pode ser explicado tanto pelo seu alto teor de água como pela maior regularidade de sua superfície, que aumenta o contato, aumentando a transferência. O carpete, no geral, apresentou a menor taxa de transferência quando comparado a outras superfícies. De acordo com os pesquisadores, é possível que as fibras absorvam boa parte do material, impedindo a transferência da superfície para o alimento.

Além de desbancar um mito, o estudo também joga uma luz na discussão sobre alergias alimentares e intoxicação por alimentos. A partir do momento em que os pesquisadores conseguiram comprovar que mesmo um pequeno tempo de contato é suficiente para a transferência de bactérias da superfície para os alimentos, foi possível estabelecer que a contaminação cruzada acontece de maneira quase instantânea. Ou seja, quer sejam micro-organismos, toxinas ou alérgenos, o risco de contaminação existe e deve ser levado em consideração durante a manipulação dos alimentos. Essa contaminação cruzada pode se originar a partir de alimentos que não são higienizados apropriadamente, manutenção e uso inadequados de utensílios de cozinha e falta de higiene na manipulação dos alimentos. As doenças transmitidas por alimentos (DTA) são classificadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um problema de saúde pública. Em todo o mundo são responsáveis por 420 mil mortes anuais e estima-se que deixem 600 milhões de pessoas doentes. No Brasil, entre os anos de 2007 e 2016 o Ministério da Saúde registrou 6.632 surtos de DTA no país, com 469.482 pessoas expostas a DTA, 118.104 doentes, 17.186 hospitalizações e 109 óbitos.

Um estudo como esse, apesar de bastante simples na sua ideia original e execução, mostra como é importante sabermos mais sobre os alimentos e as superfícies com as quais entram em contato durante seu manuseio e preparo. Pequenos detalhes como umidade do alimento e tipo do material com o qual entra em contato, podem ser cruciais para evitar a sobrevivência e proliferação de micro-organismos patogênicos, impactando de maneira direta na conservação dos alimentos e na saúde da população.

A pergunta que fica agora é: E aí, vai ter coragem de pegar aquela comida do chão de novo?

Referências:

Artigo original: http://aem.asm.org/content/early/2016/08/15/AEM.01838-16.full.pdf+html?ijkey=vPUByS6UWtmUQ&keytype=ref&siteid=asmjournals

Dados da OMS (em inglês): http://who.int/mediacentre/factsheets/fs399/en/

http://www.paho.org/world-health-day/?page_id=7875

Dados do Ministério da Saúde (Brasil): http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/junho/08/Apresenta—-o-Surtos-DTA-2016.pdf

Créditos da imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/Five-second_rule#/media/File:Five_second.png