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Uma adolescente astronauta

Girls, vamos conversar?! Diz aí qual é o seu maior sonho de vida? Consegue entender o que você precisa fazer para realizá-lo? (Isso já é um mega passo!) E identificar quais são os maiores limitadores? Se você é mulher já deve saber que naturalmente a cultura patriarcal, machista e sexista interfere e molda muitas de nossas vontades, desejos e perspectivas de vida. Ela pode até interferir nos sonhos de meninas e mulheres, a não ser que elas (nós!) se atrevam a ultrapassar essa barreira e lutem pelos seus sonhos mais bravamente que muitos dos meninos por aí. Agarrem a bandeira do feminismo e vamos à luta! Perceba que nem estamos falando aqui de um outro limitador muito agressivo, que é a desigualdade social. Só essa questão traria muitos outros artigos para refletirmos e conversarmos no blog das CsFs.

Vamos falar aqui de uma adolescente e um sonho: ela é Alyssa Carson, uma adolescente norte-americana de 17 anos que nasceu em Hammond, no Louisiana. E seu sonho surgiu aos 3 anos de idade quando assistia um episódio de The Backyardigans onde os personagens faziam uma missão em um planeta que está há 55 milhões de quilômetros de distância da Terra: o planeta Marte!

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Imagem do episódio de The Backyardigans visto por Carson aos 3 anos de idade. Créditos: TV TIME.

Pois é, ela quer ser astronauta e realizar uma missão no planeta vermelho! Agora vem a melhor parte da história: Carson já está sendo treinada pela NASA para, possivelmente, ser a primeira mulher a fazer uma expedição em Marte!!! [1]

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Alyssa Carson, a menina astronauta.Créditos: NASA Blueberry.

Com o apoio de sua família, aos 8 anos Carson foi registrada no United States Space Camp. Ela também foi a primeira pessoa a participar dos treinos da NASA na totalidade dos seus Space Camps, já que participou das formações no Space Camp de Laval (no Quebec) e no Space Camp de Esmirna (na Turquia). Alyssa Carson visitou os 14 Centros de Visitantes da NASA nos EUA e por isso foi a primeira pessoa a completar o Passaporte da NASA. A jovem astronauta frequenta a Baton Rouge International High School, onde aprende as disciplinas escolares em 4 línguas: chinês, inglês, francês e espanhol.  E se tornou embaixadora do projeto de vôos privados Mars One, que pretende estabelecer a primeira colônia de humanos em Marte. Teoricamente a NASA não aceita candidaturas de menores de 18 anos para participarem de seu Programa Espacial, porém Carson já se formou na Advanced Possum Academy, visto que sua missão acontecerá em 2030 e, por isso, há muito o que se fazer para sua preparação.

Em sua missão, será responsável com sua equipe por construir os primeiros módulos habitacionais em Marte e iniciar culturas que sustentem os humanos. Além disso, na missão da NASA para Marte em 2014, foram encontradas pequenas esferas no solo com vestígios orgânicos, podendo ser uma pista de vidas que já passaram por lá. Será que há mais vestígios orgânicos em Marte? Alyssa Carson poderá fazer estudos dentro desse tema. [2]

Com todo esse cenário ainda desigual nos dias atuais, podemos olhar para Alyssa Carson e encher o peito para falar que representatividade importa sim! Ver uma menina sonhar e viver a vida para realizar seu sonho precisa ser enfatizado para incentivarmos outras meninas.

O objetivo do compartilhamento dessa história é você abraçar a sua menina hoje e dizer bem firme a ela:

– Você pode ser astronauta, querida!

 

Referências:

[1]https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/07/menina-de-17-anos-pode-ser-primeira-pessoa-pisar-em-marte.html

[2]https://bit2geek.com/2018/07/09/blueberry-alyssa-carson/

 

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Bell Burnell, uma história para se inspirar

Em tempos de retrocessos políticos é muito importante buscarmos forças para continuar nas lutas diárias, seja lá qual for a luta que você escolheu se dedicar. Hoje contamos aqui a história de uma mulher cientista (uma das principais astrofísicas do Reino Unido), pessoa generosa que dedica a sua vida por uma ciência que é inclusiva e garantimos que sua história é pura inspiração! Estamos falando da astrônoma Dame Susan Jocelyn Bell Burnell (momento dos aplausos!)

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Para começar podemos voltar à 1967, quando Bell Burnell estava na pós-graduação na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Foi nesse período que ela encontrou o primeiro Pulsar, que é uma estrela de nêutrons que transforma energia rotacional em energia eletromagnética. U-a-u! Mas o que é isso mesmo?

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Quando uma estrela morre, ela pode ter alguns tipos de finais diferentes, dependendo de sua massa. Se for uma estrela relativamente leve (como o nosso sol), ela poderá virar uma anã branca. Se for uma estrela com muita massa ela poderá virar um buraco negro ou uma estrela de nêutrons, também chamada de Pulsar, que foi observada no espaço pela primeira vez em 1967 por Bell Burnell.

Os Pulsares ou estrelas de nêutrons possuem um campo magnético muito grande e, ao fazerem rotação, feixes de radiação escapam pelos pólos magnéticos criando uma luminosidade como um farol no universo.

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Créditos: Michael Kramer (University of Manchester)

Quando Burnell trouxe esse grande conhecimento astronômico para o mundo era orientada pelo professor Antony Hewish e tinha em sua equipe o colega astrônomo Martin Ryle, que ganharam o Prêmio Nobel de Física em 1974 por conta da descoberta de Bell Burnell, no lugar dela. A comunidade científica nunca aceitou o fato de Bell Burnell não ser devidamente premiada mas em seus relatos, a astrofísica dizia que era apenas uma estudante de ciências e já ganhar o Prêmio Nobel não seria muito adequado…(WHAT?) [1]

Porém, Bell Burnell continuou sua carreira como pesquisadora em astrofísica e brilhou como um farol de Pulsar! Aos 75 anos, Burnell é professora de Astrofísica na Universidade de Oxford, e Chanceler da Universidade de Dundee. E mais recentemente, recebeu reconhecimento em setembro deste ano ganhando o Prêmio Especial de Inovação em Física Fundamental, do Breakthrough of the Year, levando US$ 3 milhões!

E o melhor está por vir! Pois bem, essa semana, durante a cerimônia de entrega da premiação, Burnell irá investir os US$ 3 milhões em bolsas de estudos para mulheres, refugiados e pessoas de etnias minoritárias, com o intuito de promover a diversidade na ciência. Isso mesmo, minhas caras e meus caros, essa mulher, que teve a vida injustiçada como muitas de nós irá lutar para que mais mulheres tenham espaço na carreira científica, não só mulheres como outras minorias. Acho que essa atitude é um lindo pisar nas costelas da sociedade patriarcal, não é mesmo? Em entrevista Burnell ainda disse: “Não quero e nem preciso do dinheiro sozinha, e me pareceu que essa era a melhor maneira de usá-lo”. Olhem bem para esse rostinho da década de 60, respire fundo e continue a lutar. [2]

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Créditos: ROGER W HAWORTH/WIKIMEDIA COMMONS

Referências

[1] Revista Galileu – 2018 https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/09/excluida-do-nobel-astronoma-ganha-premio-de-fisica-50-anos-depois-da-incrivel-descoberta.html

[2] BBC – 2018 https://www.bbc.com/portuguese/geral-45432286

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Em 1919 a teoria de Einstein foi confirmada no Ceará

Texto escrito em parceria com @ruajosephine.

Há 99 anos, em 29 de maio de 1919, uma equipe de cientistas estava em Sobral, cidade do Ceará, para comprovar a teoria da gravitação de Albert Einstein — a Teoria da Relatividade Geral — a partir de um eclipse solar.  Isso mesmo! Foi em terras brasileiras, marcadas pela seca e muitas histórias contadas em cordéis, que uma equipe bem diversa de físicos e astrônomos brasileiros, ingleses e americanos, enviada pelo astrônomo inglês Sir Eddington comprovou a arretada e soberana Teoria da Relatividade Geral! [1] Além dessa expedição no Ceará, Sir Eddington liderava pessoalmente outra equipe que estava na Ilha do Príncipe, na África, para corroborar com tal comprovação científica. Mas vamos trazer um ponto de vista brasileiro, especificamente cearense para essa história!

Foto 1: A tranquilidade no olhar de Albert Einstein ao comprovar sua teoria da Relatividade Geral.

Antes desse feito o mundo vivia uma ciência fixa, sem muitas contradições desde 1666, com a teoria da Gravitação Universal muito bem estruturada por Isaac Newton, que dizia que a velocidade da luz poderia ser somada à rapidez daquilo que a emitia, num universo onde o tempo era constante e o espaço absoluto. Tudo começou a mudar na virada do século XIX para o XX, quando as equações do escocês James Maxwell passaram a demonstrar que a velocidade da luz é que é constante e não poderia ser somada à nada.

Nesse contexto Einstein criou a teoria da Relatividade Restrita, que descreve a física do movimento na ausência de campos gravitacionais. Essa teoria era incompatível com a teoria da gravitação de Newton. Uma nova teoria da gravitação seria necessária para explicar fenômenos gravitacionais em alta velocidade (comparáveis à velocidade da luz) ou com altas energias. Vale lembrar que a teoria de Newton e a teoria de Einstein coincidem em baixas energias/velocidades. Foi chutando o balde, abandonando a solidez da teoria de Newton e considerando as equações de Maxwell, Einstein chegou a Teoria da Relatividade Geral, base da ciência moderna, que prever que a matéria (planetas, estrelas, etc) é responsável por mudar a geometria espaço-tempo do universo, que passa a ser relativa. Mas como comprovar essa teoria?

Para verificar a Relatividade Geral era preciso fotografar o céu durante um eclipse solar: se a teoria de Newton estivesse correta, não veríamos a imagem de uma estrela atrás do Sol porque a luz da estrela seria interrompida pelo próprio Sol. Já se a teoria de Einstein estivesse correta, seríamos capazes de ver a imagem da estrela porque a luz emitida seria distorcida de tal forma que a estrela aparentaria estar ao lado do Sol ao invés de atrás. Para concluir qual teoria estava correta, os cientistas precisaram comparar essa fotografia com outra, daquele mesmo grupo de estrelas, numa noite normal, quando o Sol já houvesse mudado para outra posição.

Para entender melhor, imagina que você está vendo TV e alguém coloca um balde de pipoca exatamente entre você e a tela, atrapalhando a sua visão. A luz da tela não consegue chegar até você porque ela não atravessa o balde de pipoca, certo? Agora troca a imagem da TV pela imagem da estrela e o balde de pipoca que estava te atrapalhando pelo Sol. A teoria de Newton diz que você não virá a luz da estrela pelo mesmo motivo que você não vê a tela da TV quando tem um balde de pipoca na sua frente. Já a teoria de Einstein diz que se massa intrometida (do Sol durante o eclipse ou do balde de pipoca) é o grande o suficientemente, ela distorce o espaço ao seu redor. Einstein previu que o Sol causaria esse efeito no espaço e curvaria a luz que passasse por ele, como acontece no caso da luz de estrelas posicionadas atrás do Sol durante o eclipse solar. Foi para fotografar essa curva que a luz faz ao passar pelo Sol que os astrônomos foram à Ilha do Príncipe e à Sobral, no Ceará. [2]

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Foto 2: Eclipse solar de Sobral, em 1919.

A comprovação da Teoria da Relatividade Geral de Einstein, a partir do que se viu na escuridão do eclipse solar em Sobral, foi apresentada em novembro de 1919, durante a reunião da Sociedade Real Astronômica  (Royal Astronomical Society), em Londres, modificando a forma como a humanidade entende a física.

Hoje a cidade de Sobral muito se orgulha de ter sido palco do triunfo desse cientista universal. Criou o Museu do Eclipse em 1999, que guarda a luneta utilizada pela expedição de Einstein e muitas fotografias originais das pesquisas realizadas na cidade. O Museu encontra-se fechado para manutenção e reabrirá para o centenário em 2019.

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Foto 3: Museu do Eclipse, Sobral, Ceará.

A prefeitura de Sobral organiza uma comemoração para o centenário do fenômeno junto à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), quando irão realizar palestras, exposições, congressos, simpósios, além da construção de um monumento em alusão à comprovação da teoria. Sobral mostrou ao mundo a comprovação da Teoria da Relatividade, a física moderna é também cearense, minha gente! [1]

Referências:

[1] http://plus.diariodonordeste.com.br/sobral-sediou-prova-da-teoria-da-relatividade/#intro – 2018.

[2] https://super.abril.com.br/ciencia/einstein-no-ceara-as-aventuras-e-desventuras-de-uma-teoria-arretada-nos-confins-do-sertao/ – 2012.

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Cientista brasileira lidera projeto em busca da energia escura

Texto escrito em parceria com @ruajosephine.

Até o final da década de 1990 a expansão do universo ainda era uma incógnita. Não sabíamos ao certo se o universo era estático, se estava em expansão desacelerada ou acelerada.  A teoria da gravidade de Albert Einstein predizia que o universo teria energia suficiente para estar em expansão, mas que a gravidade faria esse fenômeno diminuir gradativamente. Em 1998, com as observações de supernovas através do telescópio espacial Hubble (HST) foi compreendido que o universo está realmente se expandindo, e a cada momento mais rápido! Ninguém sabia explicar o que tornaria sua expansão acelerada com o passar do tempo. E, por isso, imaginou-se uma energia capaz de contrapor a força gravitacional e, ao mesmo tempo, de difícil (talvez impossível?) detecção, chamada de energia escura.

E afinal, o que é energia escura?

Desconhecemos mais do que conhecemos. Sabemos a quantidade da energia escura pelo quanto que ela interfere na expansão do universo. Calcula-se que o espaço-tempo seja constituído de aproximadamente 68% de energia escura, 27% de matéria escura (outra força que ainda é um mistério) e menos de 5% de matéria “normal”, a matéria que conhecemos que forma planetas, estrelas e nós, conhecida como matéria bariônica. [1]

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O diagrama acima representa as possíveis mudanças na taxa de expansão desde o surgimento do universo há quase 14 bilhões de anos. Crédito: NASA / STSci / Ann Feild.

As ciências físicas e astronômicas vêm investindo em pesquisas no campo da cosmologia para compreendermos melhor os fenômenos que acontecem no universo, desde a sua formação, sua expansão acelerada até as origens de elementos químicos. E uma das observações mais incríveis aconteceu no dia 17 de agosto de 2017: duas estrelas de nêutrons colidiram em uma galáxia há 130 milhões de anos-luz de distância da Terra e pela primeira vez detectamos esse tipo de evento [2]. A colisão, conhecida como kilonova, emitiu um pulso de ondas gravitacionais forte o suficiente para ser detectado pelos instrumentos do Observatório Interferométrico de Ondas Gravitacionais (LIGO), nos Estados Unidos, e do Observatório Interferométrico Europeu VIRGO, na Itália. O fenômeno permitiu calcular a atual taxa de expansão local do Universo, a constante de Hubble. O valor encontrado coincide com medidas da constante de Hubble obtidas por diversos outros métodos em pesquisas realizadas no mundo todo [3]. Foi a primeira vez que um evento de proporções astronômicas foi simultaneamente visto (em diferentes comprimentos de ondas) e ouvido (através da reconstrução do sinal das ondas gravitacionais), dando início a uma nova era da astronomia.

Uma das cientistas importantes envolvidas com a detecção é a astrofísica capixaba Marcelle Soares-Santos. Marcelle é coordenadora do projeto Dark Energy Survey (DES) que descobriu e analisou a contrapartida óptica do evento de onda gravitacional de agosto de 2017, GW170817. Lembra que falamos de “ver” e “ouvir” a colisão? A equipe que a Marcelle lidera é responsável pela parte do “ver” que de fato nossos olhos poderiam ver (luz visível).

Quem é Marcelle Soares-Santos

Marcelle é graduada em física pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), mestra e doutora em astronomia pela Universidade de São Paulo (USP). Foi pós-doutoranda e, posteriormente, pesquisadora principal do Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab/EUA), um dos mais importantes centros de investigação sobre física de partículas. Ela era a única brasileira presente entre os 16 líderes de grupos de pesquisa ao anunciarem a detecção da colisão das estrelas de nêutrons na sede da National Science Foundation (EUA). Imagina: umas das 16 pessoas a chefiar os 3.500 cientistas por trás de uma das mais importantes descobertas da Ciência.

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A líder do DES, Marcelle Soares-Santos, na sede da National Science Foundation (EUA) divulgando os resultados da observação GW170817 no espectro óptico. Crédito: Dark Energy Survey.

Ela atua no Fermilab desde 2010, participando da construção de um dos maiores detectores de luz já construídos: uma câmera de 570 megapixels (aquelas câmeras profissionais que você acha incríveis têm em média 20 megapixels!!!), a DECam, instalada no telescópio Blanco no Cerro Tololo Inter-American Observatory (Chile). A DECam mapeia 300 milhões de galáxias para o projeto Dark Energy Survey. Foi com essa câmera que a equipe da Marcelle entrou para a História ao capturar e analisar a parte visível da colisão entre estrelas de nêutron de 2017, a primeira detecção de colisão desse tipo. Hoje Marcelle compartilha seus saberes sendo professora pesquisadora na Universidade Brandeis, em Massachusetts, também nos EUA.

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Imagem no espectro visível da colisão entre estrelas de nêutrons GW170817. À esquerda temos a imagem da kilonova até 1,5 dias depois da explosão. À direita percebemos que a explosão já não é tão visível após 14 dias. Créditos: Dark Energy Survey.

Convidada pelas Cientistas Feministas, Marcelle nos contou mais sobre sua carreira como astrofísica e sobre o projeto Dark Energy Survey.

Cientistas Feministas: A energia escura é um dos grandes mistérios da física. Mas o que lhe motivou, em particular, a estudar energia escura e a expansão do universo?

Marcelle: Minha curiosidade a respeito do mundo físico ao meu redor começou quando eu era criança. À medida que fui crescendo e avançando nos estudos, descobri que a Física era a disciplina certa para satisfazer essa curiosidade. O tópico da energia escura e expansão do universo, em particular, cativou meu interesse no último ano do ensino médio, quando li um artigo sobre cosmologia falando que mais de 2/3 do universo atual é composto de uma forma de energia cuja natureza física ainda é desconhecida. Entender a energia escura passou a ser um foco dos meus estudos a partir dali.

CsFs: Entender os processos de expansão do universo tem muitas barreiras principalmente por conta dos nossos limites tecnológicos. Se você pudesse obter qualquer observável no Universo, o que você imaginaria que seria o mais fantástico para avançar no entendimento sobre a energia escura?

M: O problema da energia escura é um desafio tão grande que a comunidade científica vai precisar de um conjunto grande e coerente de dados para resolvê-lo. Infelizmente não existe uma “bala de prata” que consiga esclarecer essa questão. É por isso que, por exemplo, meu grupo de pesquisa envolve desde estudos de aglomerados de galáxias e lentes gravitacionais (com a pesquisadora brasileira Dra. Maria Elidaiana Pereira, que veio para Brandeis em Outubro de 2017 depois de concluir o doutorado no CBPF, Rio de Janeiro) até o desenvolvimento de novas técnicas, como por exemplo, ondas gravitacionais.

CsFs: A captação da colisão de estrelas de nêutrons do dia 17 de agosto de 2017 repercutiu o mundo inteiro e pode revolucionar os estudos de física. Como você enxerga esse fenômeno e as possibilidades de mudanças para a ciência a partir dessas novas descobertas? E do ponto de vista do avanço no entendimento da energia escura?

M: O evento observado no dia 17 de agosto, conhecido pela sigla GW170817, foi importante para mim pessoalmente porque é a primeira vez que temos prova empírica de que podemos utilizar esses eventos para estudar a energia escura. Essa nova técnica que vinha sendo desenvolvida há anos pela comunidade realmente funciona! Foi importante para a comunidade científica no mundo inteiro porque abre uma nova janela observacional, que permite estudar vários fenômenos astrofísicos de uma nova perspectiva. A partir desse evento podemos agora estudar a origem de elementos pesados (como ouro, platina) no universo, podemos entender a evolução de estrelas de nêutrons, história de formação de sistemas estelares binários, física de partículas fundamentais como os neutrinos… Há uma variedade enorme de tópicos a serem estudados!

CsFs: Uma grande parte da sua pesquisa é identificar ondas gravitacionais no espaço a partir da DECam. Como o registro de ondas gravitacionais pode contribuir com seus estudos?

M: O papel da DECam é busca rápida a partir da detecção do evento de ondas gravitacionais pela rede de detectores LIGO/Virgo. Nossa câmera não é capaz de ver ondas gravitacionais, mas é capaz de identificar a fonte luminosa correspondente. Isso nos permite então combinar o sinal de ondas gravitacionais e as imagens do evento, para determinar suas propriedades.

CsFs: A câmera que vocês desenvolveram tem uma capacidade excepcional de registrar o universo. O que você espera da DECam com esses cinco anos de pesquisa e registros de imagens do universo?

M: Esperamos observar aproximadamente 10 eventos nos próximos anos!

CsFs: Trabalhar com grandes fenômenos da natureza certamente proporciona grandes emoções. Até agora qual foi o momento mais emocionante em sua carreira como cientista? Conte-nos detalhes dessa história!

M: O momento mais emocionante foi definitivamente 17 de agosto as 07h41min da manhã (Chicago time), quando GW170817 ocorreu. É muito raro a gente estar envolvido em uma descoberta dessa magnitude!

CsFs: O Fermilab é um dos maiores Institutos de física do mundo. Como foi trabalhar lá?

M: Tenho lembranças maravilhosas do tempo que passei no Fermilab. Trabalhar num centro de pesquisa grande pode ser muito estimulante e o grupo de Cosmologia e Astrofísica, em que eu trabalhei, é excepcional nesse sentido.

CsFs: Atualmente você é professora universitária na Brandeis University, em Massachusetts. Como está sendo essa transição de compartilhar o laboratório com a sala de aula?

M: Aqui em Brandeis, além de ensinar para formação da próxima geração de físicos, minha pesquisa está tomando novas dimensões. Eu agora tenho meu próprio grupo de pesquisa e planos de engajar estudantes e pós-doutores em projetos de grande impacto, em colaboração com uma comunidade acadêmica vibrante e inspiradora.

CsFs: Como a colisão de estrelas de nêutrons registrada em agosto desse ano repercutiu para seus alunos na faculdade?

M: A universidade toda, desde estudantes até o topo da administração, ficou muito entusiasmada. É maravilhoso ver um membro da nossa comunidade fazer uma descoberta de impacto!

É maravilhoso para nós vermos a Dra. Marcelle Soares-Santos desvendando os mistérios do universo! Estamos muito felizes em trazer uma cientista com a sua trajetória e sucesso para nos explicar questões cosmológicas. Ela nos inspirar a olhar para o céu e tentarmos entender quem somos (terráqueos viajantes do Cosmos).

Agradecimentos:

À Dra. Maria Elidaiana da Silva Pereira por ter intermediado essa entrevista. As CsFs desejam muito sucesso em Brandeis.

Referências:

[1] https://science.nasa.gov/astrophysics/focus-areas/what-is-dark-energy;

[2] https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/11/23/todo-o-ouro-do-universo-colisao-de-estrelas-de-neutrons/

[3] http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/10/17/detectada-pela-primeira-vez-colisao-de-estrelas-de-neutrons-inaugura-nova-era-na-astronomia/.

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Sputnik: o primeiro satélite artificial da história completa 60 anos. Motivo para comemorar?

 

“Amigo viajante” ou “satélite” é a tradução do nome em russo do primeiro satélite que tivemos em órbita na história da humanidade, o Sputnik 1 (Imagem 1).

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Imagem 1: Satélite Sputnik 1.
Créditos: National Geografic.

Mas em que momento o satélite foi para o espaço? Com qual objetivo? Quem foram os responsáveis por esse avanço tecnológico? O calendário marcava a data em 4 de outubro de 1957 quando se espalhou a notícia pelo mundo que a União Soviética (URSS) tinha lançado seu primeiro satélite para o espaço, não só dela mas o primeiro satélite artificial de toda a humanidade! Estamos falando de um momento da história em que a Guerra Fria entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS) era vivida e, com o surgimento do Sputnik iniciava-se a primeira corrida espacial com o objetivo de determinar o país vencedor, a maior potência sócio-econômica a nível global naquele momento. A charge abaixo foi feita durante esse período e demonstra bem essa disputa entre os líderes da época, entre Harry Thruman, presidente dos EUA, e Josef Stalin, o líder soviético. [7]

Guerra Fria

Imagem 2: Charge sobre Guerra Fria retirada do História por imagem.

Sputnik era uma esfera de metal que pesava em torno de 84 quilos e tinha 58 centímetros de diâmetro, um pouco maior que uma bola de basquete (45 cm) mas assustava os americanos como se fosse uma bomba prestes a cair em seu solo. O satélite emitia ondas de rádio mas não chegava a levar instrumentos científicos para pesquisa, no entanto, um dos principais motivos de ser medonho para os norte-americanos é que Sputnik foi levado  ao espaço por mísseis super potentes. [3]Em meio à Guerra Fria esse feito tirava o sono de qualquer pessoa. A crise emocional dos norte-americanos fez com eles se mexessem e buscassem reforçar o seu poder econômico e social construindo assim a NASA (National Aeronautics and Space Administration), Agência Espacial Norte Americana de pesquisa e programas de exploração espacial. À partir daí, não faltou motivação e incentivo financeiro para que novas pesquisas fossem colocadas em prática. Essas, sempre com um viés tecnológico e relacionadas à exploração espacial. Porém, hoje vemos no nosso dia-a-dia diversas inovações que surgiram dessas pesquisas, por exemplo, o microondas, que usa a energia eletromagnética para agitar as moléculas de água nos alimentos, produzindo o calor necessário para cozinhar. Essa energia é produzida por um tubo eletrônico chamado de magnetron. O magnetron era utilizado para a produção de radares e o seu uso em alimentos foi desenvolvido pelo engenheiro norte-americano Percy Spencer, após descobrir que seu chocolate que estava no bolso derreteu com o manuseio do magnetron. [1] Outra tecnologia que surgiu à partir de pesquisas da NASA é o Google Earth, plataforma de mapeamento e imagens do planeta Terra. Graças aos satélites desenvolvidos depois do Sputnik é possível acessarmos imagens de qualquer lugar do mundo e à qualquer hora. [2]

Sabe-se que há outras inovações para o bem que surgiram durante a corrida armamentista entre EUA e URSS mas é importante frisar que esse momento gerou um clima de medo e pânico em escala global por conta da possibilidade de um conflito nuclear entre as duas potências.

O Sputnik 1 foi só o primeiro satélite da URSS em órbita. Foram enviados para o espaço um total de dez satélites soviéticos com a designação Sputnik, alguns dos quais serviram de base de  lançamento de sondas que viajaram até o planeta Vénus. [7]

Além de Sputnik, durante a corrida espacial, os soviéticos foram responsáveis pela ida da cadela Laika ao espaço em 1957 [5],  do primeiro homem em órbita, o astronauta Yuri Gagarin em 1961 [4], e da primeira também da primeira mulher, a astronauta Valentina Tereshkova, em 1963 (imagem 3), entre outras conquistas cosmológicas.

Valentina Tereshkova

Imagem 3: Ilustração feita por @meninaconfusa no blog Cientistas feministas.

No entanto, com a chegada de uma tripulação à lua, em 1969, os EUA deram um fim à corrida espacial iniciada pelo Sputnik.

O legado do Sputnik continua: o cosmódromo de Baikonur, de onde foi lançado, ainda serve os astronautas que partem para a Estação Espacial Internacional. [7]

Hoje, no século XXI,  estamos diante de mais uma corrida espacial do mundo. Dessa vez concentrada na Àsia entre a Índia, China, Japão e Coreia do Sul (você pode se informar melhor no artigo “A corrida espacial do século 21“, escrito por uma mina cientista aqui no Blog).[6]

O fato é que após 60 anos do lançamento do primeiro satélite em nossa órbita estamos em um mundo com mais tecnologias criadas, com novas agências de explorações espaciais, novas disputas entre países e ainda com os EUA liderando socio-economicamente o mundo, e dessa vez, com Trump à frente! 60 anos de mudanças e agora o medo não está concentrado nos norte-americanos e sim em escala global! Refletindo aqui sobre o legado tecnológico que um momento de crise (Guerra Fria, né?) nos trouxe à 60 anos atrás, é possível ter esperança sobre o quanto que a humanidade é engenhosa e que podemos encontrar novas soluções aos problemas atuais. Talvez essa esperança seja a melhor herança desse período nebuloso da humanidade. Sigamos…

Referências:

[1] http://www.ebc.com.br/

[2] https://www.tecmundo.com.br/ciencia/

[3] http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/lancado-em-1957-sputnik-deixou-urss-na-lideranca-da-corrida-espacial-10648824

[4] http://pt.euronews.com/2017/02/16/lendas-do-espaco-yuri-gagarin

[5] http://www.bbc.com/portuguese/ciencia/021028_caomtc.shtml

[6] https://cientistasfeministas.wordpress.com/category/astronomia/

[7] http://www.esa.int/por/ESA_in_your_country/Portugal/A_lenda_do_Sputnik_60_anos_depois/(print)’

 

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Exploração Espacial: Perdidos no sonho de ir para Marte

O que você precisa para viver?  O que é essencial na sua vida? Ar? Água? Uma terra que dê alimentos? A luz do sol que contribui para esse alimento ser produzido? E outras pessoas, casas, ruas, cidades, movimentos, produções, consumo, arte, músicas, amor, sexo, prazeres, culturas, histórias, memórias, tecnologias, internet…E se tivéssemos mais uma chance de nos adaptarmos a um planeta e pudéssemos construir tudo de novo? Quais seriam as suas escolhas?

Em meio ao caos terrestre algumas pessoas olham para o céu e imaginam uma nova civilização num planeta que traz o nome do Deus grego da guerra, o planeta Marte.

marte e terra

créditos: NASA

Entender que existe um espírito explorador e curioso em nós, seres humanos, não é muito difícil, não é mesmo? Mas o difícil é compreender o porquê dessa busca por um planeta, que, por mais que traga algumas semelhanças químicas e físicas em relação à Terra e por mais próximo que seja,  ainda é um lugar inóspito. Os gastos necessários para essa exploração espacial seriam altíssimos, e isso deve ser questionado. A distância média entre a Terra e Marte é de 78 milhões e 300 mil km. Pode-se observar que sua maior proximidade em relação ao nosso planeta foi cerca de 55 milhões de km de distância em 2003, o que não acontecia a 60.000 anos. E teremos um novo período de proximidade que será em 2018, o que facilitaria, no presente, nosso deslocamento para lá [1].

Importante para essa reflexão é pensar que estamos falando sobre exploração, que por mais que seja espacial (e para Marte) não deixa de ser  uma exploração, que tem como base uma lógica de mercado estabelecida pelo modelo econômico atual, cuja existência move a economia, as políticas e questões sociais. É essencial para o entendimento de pesquisas saber sobre o financiamento dessas e, no caso da exploração espacial, não são apenas as empresas privadas e os impostos dos governos que financiam as pesquisas para esse tipo de exploração (e todas as outras) mas também as pessoas, a sociedade que consome produtos dessas “empresas financiadoras” e paga esses impostos. O que não faz muito sentido é que essas pessoas costumam não saber no que estão investindo, existe uma falsa liberdade enraizada ao modelo econômico que criamos, pois por mais que achemos que temos o poder de decisão sobre as nossas escolhas, elas estão fadadas aos investimentos impostos pelo capitalismo e todas as suas consequências [2].  As dificuldades de se divulgar e popularizar as ciências também colaboram para essa realidade, pois se a comunicação científica fosse mais acessível a todas às pessoas, essas poderiam se tornar mais engajadas e, como consequência, lutariam pelo seu poder nas tomadas de decisões políticas, determinando as pesquisas que seriam financiadas, por exemplo. De certo que estudos científicos são financiados para ajudar a alcançar objetivos políticos, econômicos e sociais diversos, mas ainda sim trazem consigo um distanciamento de uma grande camada da sociedade. A consequência disso é que a ciência é incapaz de estabelecer suas próprias prioridades e a exploração espacial vem de escolhas estabelecidas historicamente e é um exemplo dessa relação entre os cidadãos comuns e a comunidade científica [3].

Mas quando essa curiosidade por Marte começou? Ok, podemos ir bem distante com essa pergunta! Coloca aí na máquina do tempo: Voltar 4.000 anos!

máquina do tempo

Créditos: Scibreak

No ano 2.000 a.c. o planeta Marte demonstrava ser um lugar especial para alguns sonhadores. Os egípcios desenhavam a imagem de Marte em tumbas, como por exemplo, na tumba do Faraó Setil I. Também os babilônios, os chineses e até os gregos faziam registros do planeta vermelho nesse período. É interessante perceber que esse planeta com cor de sangue já teve até outros nomes, mas todos representavam Deuses de guerras, por conta de sua cor [4].

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Representação do Deus Egípcio da Guerra.
Créditos: Kalyzatf

Com o passar do tempo, Marte não era somente contemplado e observado no céu. A vontade de conhecer outros planetas e saber sobre a possibilidade de vida extraterrestre fez com que imaginássemos e criássemos histórias vividas nesse planeta. a partir do século XIX o mercado cinematográfico começou a produzir diversos filmes sobre o planeta vermelho que tanto nos instiga [5].
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Imagens dos primeiros filmes sobre Marte.
Crédtios: Flash Gordon Wiki 

 

Essa vontade (insana, até então) de conhecer e explorar Marte foi se materializando durante a primeira corrida espacial no período da guerra Fria (1947 – 1991), logo depois do astronauta norte-americano Neil Armstrong pisar na lua, em 1969. Ir para o espaço e pisar no nosso satélite natural não era mais suficiente. Precisávamos de mais: ir para outro planeta, e um dos nossos vizinhos mais próximos foi o indicado: Marte! [6]

As primeiras pesquisas desenvolvidas para conhecer esse planeta tinham como questão inspiradora a possibilidade de vida extraterrestre, ainda mais depois de ter encontrado metano na composição de sua atmosfera (isso porque a concentração de metano na atmosfera do nosso planeta vem das vidas aqui presentes), além de oxigênio e gás carbônico. Mas percebemos que essa taxa de metano na atmosfera de Marte pode ser produzida por um processo geoquímico, vulcânico ou até por atividade hidrotérmica. Depois veio a tona o entendimento de que Marte poderia ser o futuro da Terra, que seria a sua imagem depois de um colapso e a possibilidade de vida neste lugar se tornou inviável. Por conta disso a ideia de explorar Marte passou a ser justificada pela necessidade de  entender melhor os processos que levaram Marte a tornar-se um grande deserto, e assim, talvez prevenir que eventos similares acontecessem na Terra. O desejo de fazer uma viagem espacial mais distante e colonizar Marte foi surgindo e tornou-se um dos objetivos nessa exploração espacial (como se fosse super simples, né?).

No início da exploração de Marte, mais da metade das missões foram mal-sucedidas. Neste século, isso tem mudado, atualmente há 5 satélites orbitando Marte e transmitindo dados para a Terra: Mars Odyssey (EUA), Mars Reconnaissance Orbiter (EUA), Maven (EUA), Mars Express (ESA\Europa) e Mars Orbiter Mission (Índia). Além disso, há 3 anos existem robôs circulando pela paisagem marciana: O Spirit e o Opportunity, lançados em 2003 e o Curiosity, que pousou no planeta vermelho em 2012. Seus estudos têm ajudado a conhecer melhor a composição do solo marciano e a história evolutiva do planeta.

As missões tripuladas para o espaço deixaram de ser uma prioridade nas últimas décadas e foram substituídas pelo envio de sondas e robôs. Enviamos nossas máquinas exploradoras para estudar a Lua, Marte e praticamente todos os nossos planetas vizinhos, além de cometas e asteroides.

Hoje a maioria das agências espaciais trabalham em parceria, contribuindo para o caráter internacional do campo. As maiores potências da Terra, no entanto, demonstram interesse e sonham com a primeira viagem tripulada para Marte. Porém é sabido que os custos para essa viagem seriam altíssimos e precisaríamos evoluir nas pesquisas para construir tecnologias essenciais para habitar o planeta vermelho.

Mas vamos lá, que chegue um dia que tenhamos capital e tecnologia suficientes para ir à Marte. O que já sabemos desse planeta? Como poderíamos nos estabelecer?

 

Características físicas de Marte

Com as informações captadas pelas sondas em órbita e os robôs de Marte sabemos que sua atmosfera é relativamente fina e composta principalmente por gás carbônico, sendo 95,32% de sua porcentagem, mais 3% de nitrogênio, 1,6% de argônio, contendo traços de oxigênio, água e metano. Diferente da Terra com sua atmosfera com cerca de 0,03% do gás carbônico, com 78,08% de nitrogênio, 20,95% de oxigênio e 0,93% de argônio, além de moléculas de água. A atmosfera marciana é um tanto quanto empoeirada, dando aos céus de Marte um colorido marrom claro ou laranja quando visto de sua superfície; os dados dos veículos exploradores de Marte indicam que as partículas de poeira suspensas na atmosfera são de cerca de 1,5 micrômetros. A pressão atmosférica sobre a superfície de Marte varia entre 30 pascals, no pico de Monte Olimpus (você já vai saber o que é esse monte!), e acima de 1.155 pascals nas profundidades de Hellas Planitia. Com isso, sua pressão média superficial é de 600 pascals, que podemos comparar ao nível médio do mar terrestre de 101,3 quilopascals e uma massa total de 25 teratoneladas, comparada à da Terra, de 5.148 teratoneladas.

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Foto de Marte.
Créditos: NASA


Já ouviram falar sobre o Monte Olimpus da Mitologia Grega? Esse lugar da morada de doze deuses tem endereço e está em solo marciano. O Monte Olimpus é a maior montanha vulcânica do Sistema Solar e está presente no planeta Marte. Com uma altura de mais de 25 km, ele é quase três vezes maior que o Monte Everest. O Monte Olimpus é o mais novo dentre os grandes vulcões de Marte e tornou-se conhecido pelos astrônomos no fim do século XIX.

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Imagem geográfica do Monte Olimpus.
Crédito: NASA


Em Marte há um sistema de cânions chamado Valles Marineris, que é o maior cânion conhecido, ultrapassando todos os cânions da Terra, com exceção do vale profundo submarino nos 16.000 km de extensão da Dorsal meso-atlântica.

Valles Marineris situa-se no equador de Marte, a leste de um planalto chamado Tharsis, e se estende por quase um quarto da circunferência do planeta. A maior parte dos pesquisadores concorda que Valles Marineris é uma grande rachadura tectônica na crosta marciana que se formou quando a crosta se elevou a oeste na região de Tharsis, tendo sido subsequentemente alargada por forças eólicas erosivas. Parece haver alguns canais que podem ter sido formados por água ou dióxido de carbono.

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Foto de Valles Marineris.
Créditos: NASA

Há a presença de redemoinhos constantes na superfície de Marte e cientistas encontraram pistas de que eles poderiam ter campos elétricos de alta tensão. Esta e outras pesquisas incentivadas por diversas agências espaciais obtiveram dados da superfície de Marte que contribuem para o nosso conhecimento, ajudando na compreensão dos desafios apresentados pelo ambiente Marciano aos exploradores, tanto robóticos quanto possíveis humanos.

 

Desafios de civilizar Marte

A partir  dessas informações sobre o ambiente de Marte, podemos listar nossas futuras e principais dificuldades de civilizar esse planeta:

Radiação – a atmosfera de marte é mais fina que a da terra e não protege contra a radiação do espaço, portanto, será preciso desenvolver um isolamento capaz de proteger a vida humana no interior da base avançada por longos períodos. Cobrir a colônia humana na superfície com camadas do próprio solo marciano pode ajudar. Isso quer dizer que precisaríamos viver enclausurados durante muito tempo. Isso seria possível pra você?

Gravidade – Além de proteger os astronautas contra a radiação para trabalhos em áreas abertas, os trajes espaciais dos colonos marcianos provavelmente serão desenhados para compensar o longo período de viagem sem gravidade no espaço e também a gravidade reduzida do planeta. Seus efeitos podem causar graves problemas de saúde ao organismo humano.  Você se arriscaria?

Comida – No início da exploração a comida precisará ser produzida em marte e será basicamente vegetariana. Os astronautas ou os colonos cultivarão seus alimentos de forma hidropônica, ou seja, sem o uso do solo marciano. A água utilizada para hidroponia precisará ser retirada do solo e será dividida entre outros processos que necessitam dela.  Será que a água será suficiente para uma grande produção hidropônica além de suas outras funções (como consumo, produções tecnológicas, cozinhar, tomar banho, entre outras)?

Oxigênio – O oxigênio necessário à vida humana é escasso na atmosfera de Marte. Este poderá ser obtido a partir do próprio gás carbônico abundante na atmosfera do planeta ou das moléculas de água do solo. O desafio em relação a quantidade de oxigênio é saber se a produção deste será suficiente para manter a vida.

Água – a água encontrada no planeta está congelada. Esta poderá ser obtida a partir do solo marciano, com equipamentos especiais que terão que ser levados ao planeta nas primeiras expedições. O desafio é saber se há água suficiente para manter a base espacial em solo marciano.

Viagem de volta – a logística para escapar da gravidade do planeta e permitir uma viagem de volta é, por enquanto, impossível. Sem falar da velocidade da viagem de volta que irá tornar a passagem superaquecida pela atmosfera da Terra. A tecnologia para a volta à Terra terá que ser produzida em base marciana. Será possível a produção de novos equipamentos que poderão permitir a passagem por diferentes gravidades e uma viagem de retorno?

 

E Marte pode ficar verde? Poderíamos fazer uma “terraformação” de marte transformando a superfície congelada em algo mais parecido com a Terra? É provável que sim. Sondas espaciais que exploram marte encontraram evidências que o planeta já foi quente eras atrás, com rios que drenavam para mares vastos. E aqui na Terra, nós aprendemos como aquecer um planeta: basta adicionar gases de efeito estufa em sua atmosfera. Grande parte do dióxido de carbono que uma vez aqueceu marte provavelmente ainda está lá, nas terras congeladas e calotas polares, assim como a água. Mas tudo isso precisaria de um grande orçamento e de muito tempo, cerca de 1000 anos de adaptação.

A partir dessas e de outras informações sobre as características de Marte e as tendências de desafios que teremos que passar, iniciou um estudo sobre como seria a base marciana para tripulantes humanos que chegassem ao solo do planeta vermelho.

Primeiro será enviado um módulo de habitação com proteção contra a radiação à base marciana. Haverá aumento da temperatura com a implantação de grandes fábricas liberando gases de efeito estufa, o que trará como consequência o descongelamento das calotas, proporcionando temperaturas mais altas e uma fluidez ao ciclo de água. As chuvas cairiam anos depois e os primeiros micróbios poderiam surgir, preparando os solos para as flores e plantas se adaptarem. A produção de energia nas bases seria a partir da energia eólica e nuclear. Com tudo isso, a taxa de oxigênio irá aumentar mas continuará baixa comparada ao planeta Terra mesmo depois de 1000 anos. Ao longo do tempo geológico, antes que a própria Terra se torne inabitável, Marte perderia sua nova atmosfera e congelaria de novo [7].

 

A humanidade, Gaia e Marte

Diante dessa breve história sobre o desejo de explorar e ocupar Marte, podemos imaginar as possíveis futuras histórias dessa temática. A partir do contexto em que vivemos e a consciência sobre o sistema capitalista é necessário nos questionarmos até que ponto a humanidade é capaz de ir. A teoria de Gaia, desenvolvida pelo cientista James Lovelock na década de 1970 afirma que o planeta Terra é um ser vivo. O cientista chegou a essa conclusão diante da observação de sua atmosfera, de seus movimentos naturais e dos ciclos de compostos (ciclo de O2 e ciclo de H20, por exemplo), que mais parecem um metabolismo vivo. Segundo essa teoria o planeta Terra é Gaia, em homenagem a deusa da Mitologia grega que dá a vida. Analogamente, se a Terra fosse um ser vivo, nós, seres humanos, seríamos os vírus exploradores que infectam esse corpo, trazendo como uma das consequências o aquecimento global ou a febre do corpo doente. Imaginando o que o cientista James Lovelock diria sobre a temática da exploração espacial para Marte, acredito que ele diria que nós, os vírus, queremos infectar mais um corpo (planeta Marte) e por onde passamos afetamos. No entanto parece ser inviável ir para Marte…mas para nós, viver sem sonhar? Não dá! [8]

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Filme “Perdido em Marte”.
Créditos: Portal do Holanda

 

Referências

[1] Revista Veja – Abril. Marte atinge ponto mais perto da Terra em 11 anos nesta segunda, 2016.

[2] Flusser, Vilém [1920-1991] O mundo codificado: por uma filosofia de design e da comunicação: Vilém, Flusser, organizado por Rafael cardoso. Tradução: Raquel Abi-Sâmara. 224p. São Paulo: Ubu Editora, 2017.

[3] Harari, Yuval Noah, 1976 – Sapiens – Uma breve história da humanidade | Yuval Noah Harari; tradução Janaína Marcoantonio. 464p.- 12. Ed. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.

[4] http://historiadomundo.uol.com.br/egipcia/arte-e-arquitetura-do-egito.htm

[5] http://wwwkalyzatf2009.blogspot.com.br/

[6] http://flashgordon.wikia.com/wiki/Flash_Gordon%27s_Trip_to_Mars

[7] Menezes, Leonardo. Amanhãs – Exploração Espacial, Museu do Amanhã, 2015.

[8] Lovelock, James. Gaia, uma teoria do conhecimento. Editora Saraiva, 2014.