A ciência enviesada na Nature ou quem tem saudade da Amélia?

No dia 17 de novembro de 2020 foi publicado na Nature Communications um artigo intitulado The association between early career informal mentorship in academic collaborations and junior author performance [1] (que em português seria algo como A associação entre o mentor informal no início da carreira em colaborações acadêmicas e o desempenho de jovens autores). Tal artigo gerou uma grande movimentação no meio acadêmico, especialmente dentre as mulheres. E não é pra menos!

Basicamente o artigo diz que ser orientado por uma mulher é prejudicial para o avanço da carreira de um jovem cientista. É isso: em pleno 2020, preciso ocupar um espaço nessa coluna, que poderia estar sendo preenchido por palavras inspiradoras e ideias sagazes, para re-explicar o óbvio.

Descrição da imagem: mulher muçulmana de costas, escrito ‘treinadora’ em inglês nas costas de sua camisa, segurando uma bola de futebol, com um campo de futebol ao fundo. Criador: Lorado | Crédito: Getty Images


A ciência moderna é feita seguindo o rigor do método científico, mas esse pode ser um caminho com muitas possibilidades a serem percorridas. O que é comum a todos os caminhos é que todo o processo deve ser publicado em um periódico científico no formato de um artigo e esse será revisado por outros cientistas da mesma área de conhecimento, a quem chamamos de pares. Os revisores e revisoras escrevem seus pareceres e recomendam a publicação ou não. Não é incomum que a publicação seja referendada, porém somente após correções no manuscrito original. E isso foi o que aconteceu com esse artigo. Quatro revisores apontaram dúvidas e sugestões no texto original e o artigo foi publicado a despeito de nenhuma mudança ter sido feita (o que não é totalmente impossível de acontecer, mas bastante raro).

Outra observação importante é que os autores (duas dos três são mulheres) assumiram que co-autoria e mentoria são a mesma coisa e não são. A ordem dos autores e autoras de um artigo varia dependendo de cada área do conhecimento, mas não é incomum que pessoas sejam elencadas nesse grupo por serem chefes de laboratório, líderes do grupo de pesquisa, empregadores, criadores de códigos de programação sem sequer terem participado de nenhum processo de orientação ou mentoria.

Sendo um artigo que chega a conclusões atreladas a questões de gênero, é insuficiente que haja apenas um parágrafo falando sobre efeitos de gênero e as teorias envolvidas, que são muitas e nem todas concordam entre si. Sendo assim, não se consegue nem traçar uma linha teórica supostamente eleita pelos autores, deixando a análise com a profundidade de um pires. Ainda nesta linha, percebe-se uma adesão a binariedade de gênero (já altamente contestada na academia e sociedade) tornando a discussão, além de equivocada, excludente para pessoas trans e não binárias.

É inequívoca a inequidade de gênero na academia, já está documentado que mulheres têm menos probabilidade de serem reconhecidas em publicações [2,3], são menos citadas [4-7] e são somadas a isso todas as responsabilidades de cuidadoria familiar que lhes são atribuídas [8,9]. Então, mesmo que não hovessem falhas metodológicas, não causaria estranhamento se os resultados apontassem para esse desigualdade. O que causa preocupação é que eles sugerem a redução de ações institucionais de promoção de mulheres na ciência criadas justamente para reduzir as desigualdades. Não faz muito sentido, faz?

Quando li o artigo, senti-me ouvindo Ataulfo Alves tocando no disco velho da minha avó. Parece que tem gente com muita saudade da Amélia por aí, gente que acha que fazemos exigências demais e que não sabemos o que é consciência [10] só porque não chamamos mais os companheiros de ‘filho’ (como na música) ou porque sabemos exatamente como se faz uma pesquisa científica e não aceitaremos conclusões enviesadas como verdades pétreas.

Felizmente, para além de Ataulfo Alves e Mário Lago, temos a Pitty que desconstrói Amélia quando se pergunta “a despeito de tanto mestrado, ganha menos que o namorado e não entende o por quê” [11]. Encerro com um trecho desta mesma música, em que Pitty diz que não queremos mais ser um outro, queremos ser também. Vida longa às mulheres cientistas, sigamos na luta!

Referências

  1. ALSHEBLI, B.; MAKOVI, K.; RAHWAN, T. The association between early career informal mentorship in academic collaborations and junior author performance. Nature Communications, v. 11, n. 5855, 17 nov. 2020. DOI https://doi.org/10.1038/s41467-020-19723-8. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-020-19723-8#MOESM1. Acesso em: 24 nov. 2020.
  2. BRODERICK, N. A.; CASADEVALL, A. Gender inequalities among authors who contributed equally. eLife, v. 8, 2019. DOI 10.7554/eLife.36399. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6353592/. Acesso em: 25 nov. 2020.
  3. BUDRIKIS, Z. Growing citation gender gap. Nature Reviews Physics, v. 2, n. 7, p. 346–346, jul. 2020. DOI 10.1038/s42254-020-0207-3. Disponível em: http://www.nature.com/articles/s42254-020-0207-3. Acesso em: 25 nov. 2020.
  4. EAGLY, A. H. Do the social roles that women and men occupy in science allow equal access to publication? Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 117, n. 11, seç. Commentary, p. 5553–5555, 17 mar. 2020. DOI 10.1073/pnas.2001684117. Disponível em: https://www.pnas.org/content/117/11/5553. Acesso em: 25 nov. 2020.
  5. HUANG, J.; GATES, A. J.; SINATRA, R.; BARABÁSI, A.-L. Historical comparison of gender inequality in scientific careers across countries and disciplines. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 117, n. 9, p. 4609–4616, 3 mar. 2020. DOI 10.1073/pnas.1914221117. Disponível em: http://www.pnas.org/lookup/doi/10.1073/pnas.1914221117. Acesso em: 25 nov. 2020.
  6. KUO, M. Women miss out on authorship opportunities early on. 16 fev. 2017. Science. Disponível em: https://www.sciencemag.org/careers/2017/02/women-miss-out-authorship-opportunities-early. Acesso em: 25 nov. 2020.
  7. PELLS, R. Understanding the Extent of Gender Gap in Citations. 16 ago. 2018. Inside Higher Ed. Disponível em: https://www.insidehighered.com/news/2018/08/16/new-research-shows-extent-gender-gap-citations. Acesso em: 25 nov. 2020.
  8. SCIENCES (US), N. A. of; ENGINEERING (US), N. A. of; ENGINEERING, and I. of M. (US) C. on M. the P. of W. in A. S. and. Fulfilling the Potential of Women in Academic Science and Engineering. [S. l.]: National Academies Press (US), 2007. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK9815/. Acesso em: 25 nov. 2020.
  9. STANISCUASKI, F.; KMETZSCH, L.; ZANDONÀ, E.; REICHERT, F.; SOLETTI, R. C.; LUDWIG, Z. M. C.; LIMA, E. F.; NEUMANN, A.; SCHWARTZ, I. V. D.; MELLO-CARPES, P. B.; TAMAJUSUKU, A. S. K.; WERNECK, F. P.; RICACHENEVSKY, F. K.; INFANGER, C.; SEIXAS, A.; STAATS, C. C.; DE OLIVEIRA, L. Gender, race and parenthood impact academic productivity during the COVID-19 pandemic: from survey to action. 4 jul. 2020. DOI 10.1101/2020.07.04.187583. Disponível em: http://biorxiv.org/lookup/doi/10.1101/2020.07.04.187583. Acesso em: 25 nov. 2020.
  10. ALVES, A.; LAGO, M.. Ai que saudade da Amélia. 1942
  11. PITTY; MARTIN. Desconstruindo Amélia. 2009

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