O que foi a gripe espanhola e o que a covid-19 tem em comum com ela?

Desde a chegada do Covid-19 ao Brasil, além das notícias sobre a doença, tem se falado bastante sobre um outro vírus que já passou por aqui cerca de cem anos atrás e que ficou conhecido como ‘gripe espanhola’. Há matérias jornalísticas que buscam apontar semelhanças entre as pandemias, que analisam o papel da imprensa brasileira durante a epidemia de gripe espanhola e que desmentem boatos, como a de que o presidente eleito em 1918, Rodrigues Alves, teria morrido em decorrência “da espanhola”.

Afinal, o que foi a gripe espanhola, quais as consequências dela no Brasil e no mundo à época, e quais os paralelos com a Covid-19?

A gripe espanhola

Ainda que seja conhecida como gripe espanhola, a provável origem do vírus é norte-americana. De acordo com o historiador Alfred W. Crosby em seu livro “America’s Forgotten Pandemic: The Influenza of 1918”, os Estados Unidos teriam passado por uma primeira onda do vírus no começo de 1918, mas sem atrair atenção pelo número pequeno de casos, confundidos com gripe comum e pneumonia. A hipótese é de que os soldados americanos teriam levado o vírus para a Europa, onde os casos explodiram. Vale lembrar que, naquele momento, a Europa estava mergulhada na Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914 e terminou apenas no final de 1918. A guerra, aliás, foi um dos motivos do vírus ter se espalhado rapidamente e de forma tão letal, conforme o professor Henrique Carneiro (2020):

A pandemia de 1918 é um resultado direto da Primeira Guerra Mundial. Não simplesmente porque as condições de miséria e destruição causadas pelo conflito tivessem ajudado a sua disseminação, mas porque foram as condições das inéditas concentrações humanas provocadas pela guerra que criaram o meio de contágio ideal para a doença.

Assim, ainda que os primeiros casos da gripe tenham começado nos Estados Unidos, ela se transformou em pandemia a partir da Europa, da onde se espalhou para o resto do mundo.

Por conta da guerra, a imprensa dos países envolvidos no conflito sofria censuras e não passava a real dimensão do que estava acontecendo para não alarmar a população. A Espanha, por outro lado, manteve-se neutra em relação à guerra, e seus jornais traziam a gravidade da situação. Assim, parecia que a Espanha estava sofrendo muito mais com a nova gripe do que os outros países, que quase não reportavam a doença. Não demorou para que a gripe passasse a ser conhecida como “espanhola” (BARRY, 2004).

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (em inglês Centers for Disease Control and Prevention – CDC), a gripe espanhola foi a pandemia mais mortal do século XX: estima-se que 50 milhões de pessoas morreram em consequência dela. Para se ter uma ideia, a estimativa de mortos em decorrência da Primeira Guerra Mundial é de 20 milhões.

No Brasil, estima-se que entre 30 e 50 mil pessoas morreram devido à gripe espanhola. Só no Rio de Janeiro, capital federal à época, 15 mil pessoas perderam as vidas em derorrência da pandemia de gripe espanhola. A situação no Rio foi extremamente complicada, como lembra alguém que viveu o drama:

O pior de tudo é que estava morrendo gente aos borbotões, e o governo dizia nas ruas e nas folhas, que a gripe era benigna. Certo dia, as folhas noticiaram mais de quinhentos óbitos, e mesmo assim a gripe era benigna, benigna, benigna. (…) As mortes eram tantas que não se dava conta do sepultamento dos corpos (FREIRE apud GOULART, 2005 s/p).

Imagem: capa do jornal Gazeta de Notícidas de 15 de outubro de 1918

Apenas no final da década de 1990 cientistas conseguiram estudar melhor o vírus da gripe espanhola e descobriram se tratar de uma variante do H1N1. Essas pesquisas só foram possíveis porque pedaços de tecidos de pulmões contaminados foram guardados para estudo posterior. Além disso, cientistas também desenterraram corpos congelados e perfeitamente preservados de uma pequena ilha no Alaska, que teve 72 mortos entre seus 80 habitantes à época.

Gripe espanhola x Covid-19

Embora ainda seja cedo para escrever um texto definitivo sobre as semelhanças entre as pandemias, alguns paralelos já podem ser traçados:

– “É só uma gripezinha”

Assim como Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro tentaram, em um primeiro momento, diminuir a gravidade do novo corona vírus, em 1918 diversos líderes e autoridades afirmaram que “a espanhola é só uma gripe”. Não era em 1918 e não é agora apenas uma gripezinha. As duas doenças tem uma taxa de letalidade muito maior se comparadas com a gripe comum, que gira em torno de 0,1%. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a gripe espanhola teve uma taxa de letalidade de 2 a 3%, enquanto até o momento a taxa de letalidade da Covid-19 está entre 3 e 4%.

– Necessidade de um sistema forte de de saúde no país

A gripe espanhola mostrou a necessidade de um sistema nacional de saúde, e, em 1920, foi criado o “Departamento Nacional de Saúde Pública”, considerado como uma espécie de “semente” do SUS, o Sistema Único de Saúde, previsto na Constituição Federal de 1988.

Hoje, é graças ao SUS que temos uma saúde universalizada, ou seja, toda a população brasileira tem direito ao serviço de saúde. Infelizmente temos assistido a um desmonte desse sistema, com o repasse cada vez menor de verbas necessárias para que as pessoas possam de fato ter esse direito cumprido.

– Tratamentos milagrosos não existem

Aqui no Brasil, muitos (inclusive o Presidente da República) tem defendido o uso da cloroquina em pacientes do novo corona vírus. O medicamento atualmente é utilizado no combate à malária e também no tratamento de algumas doenças auto-imunes, como lúpus.

Em Manaus, uma pesquisa sobre a cloroquina precisou ser interrompida depois que 11 pacientes morreram. Segundo um dos pesquisadores “a alta dosagem que os chineses estavam usando é muito tóxica e mata mais pacientes”.

Todo mundo deseja que uma cura (ou uma vacina) para o novo corona vírus seja descoberta o quanto antes, mas isso precisa ser feito de forma segura, caso contrário o próprio medicamento se torna uma fonte de perigo para os pacientes, como foi o caso da aspirina em 1918. Durante a epidemia de gripe espanhola, médicos do mundo todo receitaram aspirina como uma possível “cura” para a gripe. Altas dosagens eram recomendadas, chegando até a 30g por dia! Na década de 1970, a recomendação passou a ser de que a dose diária máxima de aspirina deveria ser de 4g.
Um estudo de 2019 sugere que muitas das complicações atribuídas à gripe espanhola podem ter sido em decorrência do uso indiscriminado de aspirina.

Por fim, uma curiosidade inusitada. Em São Paulo, uma outra “cura” para a gripe espanhola vinha de uma receita saborosa: cachaça, mel e limão. Daí a afirmação de que a invenção da caipirinha aconteceu em 1918. Ocorre que há registros anteriores da mistura de cachaça e limão feita pelos escravizados no Brasil. Em Paraty, um historiador encontrou um registro de que, em 1856, em meio à epidemia de cólera, se bebia cachaça, limão e açúcar.

Referências:

BARRY, John M. The Great Influenza: The Epic Story of the Deadlist Plague in History. New York: Viking, 2004.

CROSBY, Alfred W. America’s Forgotten Pandemic: The Influenza of 1918. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

GOULART, Adriana da Costa. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. História, Ciência, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro, v. 12, n.1, disponível em: < https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702005000100006&script=sci_arttext&tlng=pt#top5 >. Acesso em 01 abr. 2020.

2 comentários sobre “O que foi a gripe espanhola e o que a covid-19 tem em comum com ela?

  1. A quem se interessar, o Labelle (Laboratório de Estudos de Literatura e Cultura da Belle Époque – UERJ) vem fazendo uma série de artigos chamada “Labelle em Tempos de Pandemia”, na qual traz comparações entre o impacto da gripe espanhola e da covid-19 no Brasil, atentando para problemáticas estruturais que infelizmente permanecem na gestão do nosso país. Os textos podem ser acessados pela página do Facebook do laboratório ou diretamente pelo site. Links abaixo:

    https://www.facebook.com/pg/labellexx/posts/?ref=page_internal

    http://labelleuerj.com.br/#

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  2. Pingback: O sangue de pessoas curadas do COVID-19 pode ser a chave para o tratamento da doença? | cientistasfeministas

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