Tecnologia em tempos de Pandemia: o que está sendo usado na área tecnológica para combater o COVID 19.

Não é preciso lembrar a todos que o momento que estamos é bastante singular na história da humanidade, porém não é o único. Em 1918 tivemos a famosa Gripe Espanhola que recomendava ao povo medidas como bons hábitos de higiene, toque de recolher, evitar aglomerações e cuidados maiores com pessoas idosas entre outros conselhos como mostrado na figura 1.

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Figura 1: Conselhos na gripe espanhola. Fonte: O Globo (2020)

Apesar das semelhanças nas medidas, a luta no combate é muito diferente. Falamos de 102 anos de diferença e de muita tecnologia desenvolvida nesse período. Incluindo, por exemplo, o desenvolvimento dos computadores, controle, automação, materiais e muita aplicação na área hospitalar. E é sobre essas tecnologias que falaremos a seguir.

Temos ouvido falar muito nos últimos dias que temos que usar máscaras para nossa proteção, que é preciso saber higienizá-las ou descartá-las de forma adequada. Além disso, sabemos que muitas pessoas estão usando respiradores pulmonares em casos graves e que novas invenções brasileiras estão amenizando o tempo de internamento. Mas muitas dúvidas ficam no ar: qual a melhor máscara? Onde o respirador realmente atua? O que temos feito para amenizar os riscos? Então agora vamos explicar!

Segundo os Médicos Sem Fronteiras (2020) o vírus COVID 19 (SARS-CoV2, coronavirus desease 2019) – mais conhecido como coronavírus – é da mesma família da Síndrome Aguda do Oriente Médio (MERS-CoV) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV), e apresenta desde característica comuns de uma gripe até crise respiratórias graves levando à óbito por insuficiência respiratória.

 Não há vacina nem cura  até o momento, então o que pode ser feito é o tratamento para amenizar os sintomas.

A transmissão ocorre por meio físico, não pelo ar. Para isso é necessário que haja contato com quem tem a doença ou com algo que essa pessoa tocou. No entanto é necessário que o vírus tenha contato com as mucosas da pessoa: olhos, nariz, boca. Por isso nossas mãos são o agente transmissor mais provável. E para isso destaca-se a necessidade de higienizá-la sempre, seja com água e sabão ou álcool em gel,  já que levamos muito as mãos ao rosto. Para evitar esse processo o Ministério da Saúde tem recomendado que as pessoas usem máscaras quando saem de casa.

O uso de máscaras se faz necessário para evitar que gotículas da saliva de alguém contaminado possam  atingir outra pessoa seja em um espirro ou mesmo em uma conversa. A máscara também evita que as pessoas contaminadas transmitam o vírus. Por isso é essencial que saibamos qual máscara devemos usar.

O ideal seria que todos pudessem usar as máscaras cirúrgicas, feitas de TNT (Tecido Não Tecido), PFF (Peça Semifacial Filtrante), N95, N99 ou N100 (o número indica a Eficiência de Filtragem de Partículas).

A TNT seria melhor para uso comum em ambientes hospitalares, além de ser descartável (figura 2).

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Figura 2: Máscara de TNT. Fonte: Pixabay.

Ela seria a ideal para o uso pelas pessoas nas ruas, no entanto como o coronavírus é uma pandemia mundial, e a maioria das máscaras deste material eram exportadas pela China (primeiro epicentro de contágio), há uma escassez nesse produto. No Brasil elas estão sendo direcionadas principalmente para os locais de atendimento às pessoas com suspeita de contaminação.

Desta maneira o Ministério da Saúde tem recomendado que as pessoas usem máscaras caseiras (figura 3), feitas de pano, que têm um grau de eficiência de filtragem baixa, mas que protegem de forma razoável, brandamente. 

As máscaras de panos são fáceis de fazer, mas alguns cuidados são necessários como: usar no máximo por 2 horas se o usuário falar durante o uso, e por 4 horas em caso contrário, além da higienização assim que deixar de usá-la que pode ser 20 minutos em água sanitária e depois lavar com água e sabão esfregando bem. Também jamais colocar as mãos na parte externa da máscara e evitar ficar ajustando-a ao rosto. Especialistas da UFSC mostram aqui como é possível fazer a máscara com as medidas e tecidos certos.

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Figura 3: Máscara caseira. Fonte: Pixabay.

Para população em geral as duas máscaras citadas acima já são o suficiente, no entanto, os profissionais da saúde necessitam de mais proteção que o normal, pois estão em contato direto com as pessoas contaminadas. Nesses casos eles usam as máscaras PFF2 ou N95 (figura 4) mais comumente, estas máscaras podem ser reutilizadas se forem usadas somente como máscara normal, mas em qualquer contato com gotículas elas devem  ser descartadas.

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Figura 4: Máscara N95. Fonte: Bisturi Material Hospitalar (2020).

Estas máscaras têm elementos filtrantes bastante eficientes e por isso oferecem mais proteção ao profissional da saúde que realmente necessita devido ao contato com pacientes com Covid-19. Algumas também possuem respiradores que facilitam o uso contínuo e dão mais conforto ao usuário. Pessoas infectadas também devem usar este tipo de máscara, assim evitam contagiar outras pessoas (lembrando que o isolamento integral também é indicado para os pacientes que não estão em casos graves).

Estas máscaras podem ser desinfectadas e reutilizadas, mas é necessário que sejam usados métodos confiáveis, uma vez que o vírus não pode ser visto. Pensando nisso a USP – Universidade de São Paulo, através do Instituto de Física de São Carlos,  fez uma Câmara de Ozônio (figura 5) que desinfecta 1000 máscaras em 2 horas. Inicialmente as máscaras são colocadas em sacos de poliéster e submetidas a um ambiente de vácuo e depois é injetado ozônio (O3), este ciclo é repetido várias vezes, pois o ozônio deve penetrar nas tramas das máscaras. A ação do ozônio é microbiocida, ele consegue destruir a cápsula proteica (envelope do vírus) e destruí-lo.

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Figura 5: Câmara de Ozônio. Fonte: Jornal da USP (2020)

Outro tipo de proteção muito usado que evita ainda mais o contágio nos profissionais de saúde são as máscaras tipo Face Shield, que protegem todo o rosto do usuário (figura 6).

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Figura 6: Máscara tipo Face Shield. Fonte: Governo de São Paulo (2020).

Essas máscaras estavam em falta no mercado, “estavam” pois, várias pessoas que possuem impressoras 3D estão se unindo em prol da saúde do país e estão produzindo milhares de máscaras e doando para os hospital e postos de atendimento. Alguns grupos disponibilizaram o projeto (figura 7) na Internet de forma gratuita. Para quem tem interesse o grupo de Pernambuco Hardware PE abriu aqui no seu site. É necessário filamento para impressão 3D usado no fixador e base de acrilato transparente para proteção.

 

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Figura 7: Projeto Face Shield. Fonte: Pernambuco Hardware (2020).

Além destes equipamentos, outros fundamentais para recuperação dos pacientes são os respiradores, ou Ventiladores Pulmonares (figura 8), como são mais conhecidos.

 

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Figura 8: Ventilador Pulmonar. Fonte: Emitec (2020) 

Um dos sintomas mais graves do Covid-19 é a falta de ar, isso significa que o paciente não consegue realizar atividades simples como levantar-se ou tomar banho. Nesses casos é necessário que a pessoa procure imediatamente o sistema de saúde. Desta forma, observando a gravidade da situação o paciente será necessário o uso desse equipamento. Em alguns casos mais brandos a ventilação externa, com inalador pode ser o suficiente. Em outros somente a ventilação mecânica ajudará o paciente a respirar. Segundo Button (2002), na maioria dos ventiladores uma fonte de pressão positiva entrega ar para os pulmões do paciente que faz a troca gasosa, e então retira a pressão para que ocorra a expiração. A ventilação artificial pode ainda ser feita pela via nasal, oral ou por tubo de traqueostomia. O processo que o equipamento trabalho é explicado na figura 9.

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Figura 9: Ventilador mecânico. Fonte: Button (2002)

O processo consiste em controlar três parâmetros importantes: pressão, volume e ciclo (tempo). Assim será controlado o fluxo de entrada do ar nos pulmões, na quantidade certa e respeitando o ciclo respiratório do paciente. São fatores que devem trabalhar em sincronia perfeita. A diferença entre a respiração pulmonar comum e a com o ventilador está representada nos gráficos da figura 10 a seguir.

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Figura 10: (a) Ventilação espontânea; (b) Ventilação mecânica. Fonte: Button (2002).

Normalmente nesta situação o paciente ficará sedado para não sentir qualquer incômodo ao processo, no entanto, mesmo com esse procedimento muitas pessoas estão vindo a óbito. Portanto a melhor indicação ainda é prevenir, manter os grupos de risco longe de contágio, e ficar em casa o máximo possível, seguindo todas as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde.

Nem todo leito de UTI possui ventilador mecânico, o Ministério da Saúde recomenda que haja um ventilador para cada dois leitos. No entanto, nesse momento, o uso deste equipamento será de grande demanda, assim muitas pessoas querem inventar equipamentos de baixo custo para auxiliar nessa necessidade urgente. Devemos ficar alertas ao seguinte: a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é que aprova se esses equipamentos poderão ser utilizados, e os parâmetros sobre a segurança do paciente são super rigorosos. Então mesmo que alguns pareçam bastante eficientes, só serão aprovados após muitos testes de validação que duram meses, até anos. Por isso é bom ficarmos alertas a soluções milagrosas.

Outras soluções estão sendo propostas e uma que tem dado resultados positivos é a manutenção dos ventiladores que estão em desuso em todo país. Universidades, Senai’s e o Exército Brasileiro formaram grupos para colocarem esses equipamentos em funcionamento, já que se estima que haja no país aproximadamente 3500 respiradores parados por falta de manutenção. Um desses grupos é o Médico de Máquinas formado na UFPR (Universidade Federal do Paraná) que começou com alunos do curso de Especialização em Manutenção 4.0 e agora já conta com mais de 180 profissionais em sua maioria da área de engenharia. Em alguns casos o ventilador consertado é o único disponível na cidade e que estava parado. A iniciativa começou na cidade de Curitiba, agora é vista por todo o estado do Paraná e outros estados têm entrado em contato para poderem replicar essa experiência em suas regiões.

E assim é o brasileiro, não desiste de lutar. E foi observando a situação dos pacientes nos leitos e nas condições de tratamento que a Samel Health Tech através do Instituto Transire de Tecnologia e Biotecnologia do Amazonas criaram a Cápsula Vanessa (figura 11).

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Figura 11: Cápsula Vanessa. Fonte: Folha (2020).

Ela é composta de uma proteção revestida de vinil transparente, armação de pvc e um exaustor para troca de ar que cobre a cabeça e a região torácica do paciente. Desta maneira, evita mais contaminação externa, além de proteger melhor os profissionais da saúde. Os resultados foram apresentados pela Rede Samel que afirmam que com 80 pacientes em internamento nenhum precisou de ventilação mecânica, além de reduzir o tempo de internamento em unidade intensiva para 6 ou 7 dias. Essa alternativa foi desenvolvida em Manaus, onde o Covid 19 está em grau elevado de contaminação, mas já está sendo estendida para outros estados. Entendendo a gravidade da situação, eles mantiveram a patente aberta e disponibilizam aqui o manual de construção. O custo fica em torno de R$ 200,00. Ainda não há estudos mais aprofundados que atestem a eficiência, mas não possui nenhuma contra indicação, só cuidados na montagem e desinfecção.

O brasileiro mostra, nesse momento, que além de muito solidário é bastante criativo. Várias pessoas ajudando como podem: confeccionando máscaras caseiras e distribuindo, face Shields para hospitais, câmaras de ozônio, câmara Vanessa como foi descrito. Ainda estão fazendo álcool gel, distribuindo comida para os mais necessitados, ajudando o vizinho que faz parte do  grupo de risco a fazer suas compras sem se expor, e tantas outras ações. Se você quer ajudar e não sabe como têm vários grupos que precisam de voluntários, rapidamente você conseguirá achar algo onde pode ser útil. E não vamos esquecer que em algum momento todas as áreas serão necessárias. Senão agora, depois da pandemia certamente. O melhor que podemos fazer sem dúvida é ficar em casa, não somente para não nos contaminarmos, mas também para não transmitirmos o vírus caso sejamos assintomáticos. Fiquem em casa!

A tecnologia hoje nos mostra um cenário muito diferente da época da gripe espanhola, temos acesso à informação em casa pela televisão e pelos celulares. Sabemos quase em tempo real a situação atual, mas também podemos nos estressar com excesso de informação. Então vamos usar os recursos de forma útil, e desconectar também é importante. Para que a saúde mental se mantenha bem.

Tecnologia e proteção temos, é só usar com responsabilidade.

 

Referências

ttps://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/coronavirus-resgata-recomendacoes-e-medidas-restritivas-da-epidemia-de-gripe-espanhola.html

Batista, F. Você conhece um ventilador pulmonar? Saiba o seu funcionamento e as principais falhas. https://blog.arkmeds.com/2018/02/23/saiba-o-funcionamento-e-as-principais-falhas-de-um-ventilador-pulmonar/ Acesso em 15 de abril de 2020

Button, V. L. S. N. Equipamentos médico hospitalares e gerenciamento da manutenção. Ministério da Saúde, Brasília, 2002.

https://www.myminifactory.com/object/3d-print-faceshield-hardware-pe-flat-protetor-facial-116206

https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/covid-19-orientacoes-sobre-o-uso-de-mascaras-de-protecao/

https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-04-08/como-fazer-sua-mascara-de-protecao-em-casa.html

https://ciclovivo.com.br/covid19/aprenda-a-fazer-uma-mascara-caseira-segura/

https://www.folhadelondrina.com.br/tags/coronavirus

https://www.segurancadopaciente.com.br/protocolo-diretrizes/mascaras-n95-recomendacoes-para-uso-prolongado-e-reutilizacao/

https://jornal.usp.br/ciencias/camara-de-ozonio-criada-na-usp-descontamina-ate-mil-mascaras-em-duas-horas/

https://www.samel.com.br/wp-content/uploads/2020/04/samel-cabine-de-protecao-passo-a-passo.pdf

https://bncamazonas.com.br/municipios/samel-esclarece-capsula-vanessa/

https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/coronavirus?utm_source=adwords_msf&utm_medium=&utm_campaign=covid-19_comunicacao&utm_content=_epidemias_brasil_39923&gclid=CjwKCAjwhOD0BRAQEiwAK7JHmDjMZqxn3qUvtD2bbBXqkDJmv4THPTlI_xTQ-OY_DL04ST3ebcxB6RoCn8sQAvD_BwE

https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/engenheiros-da-ufpr-criam-grupo-para-consertar-e-fazer-a-manutencao-em-respiradores-hospitalares/

 

 

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