Erdafitinib: novo medicamento para tratamento do câncer de bexiga

No mês de abril deste ano de 2019 a agência norte-americana FDA aprovou em tramitação classificada como “Aprovação Acelerada” a utilização da substância Erdafitinib como medicamento para tratar o câncer de bexiga avançado ou metastático (https://www.drugs.com/history/balversa.html). 

O câncer de bexiga

O câncer de bexiga (Figura 1) é o 6º mais frequente entre homens e o 19º entre as mulheres em países desenvolvidos e em 2018 foi estimado no Brasil o aumento de 6.690 novos casos entre os homens e 2.790 entre as mulheres (https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-bexiga).

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Figura 1: Tomografia computadorizada de paciente com câncer de bexiga. A seta indica parede da bexiga espessada como consequência da doença. Reproduzida de: cancer.gov/news-events/cancer-currents-blog/2017/approvals-fda-checkpoint-bladder com créditos a: Wikimedia Commons, CC-BY-SA-4.0

Além do avançar da idade, se destacam como fatores que potencializam o risco de desenvolvimento da doença: o hábito do tabagismo (principal fator) e exposição prolongada a substâncias nocivas como agrotóxicos, petróleo, tintas, dentre outras (https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-bexiga).

Radioterapia, quimioterapia e intervenções cirúrgicas estão entre as opções de tratamento que são escolhidas a depender do grau de evolução do quadro do paciente. No entanto, mesmo após terapia existem pacientes que voltam a apresentar o câncer, e 1 a cada 5 destes possui alterações na sequência de DNA que é responsável por codificar diferentes formas de uma proteína receptora conhecida como FGFR: receptor do fator de crescimento de fibroblastos (http://medicsupply.net/cancer-de-bexiga-metastatico/).

FGFRs participam da sinalização de processos muitos importantes para as células como divisão celular, diferenciação celular e formação de vasos sanguíneos (https://ghr.nlm.nih.gov/gene/FGFR2 e https://ghr.nlm.nih.gov/gene/FGFR3) (Figura 2). Logo, com alterações nestas proteínas é possível o desencadear de grandes prejuízos ao organismo como: divisão celular descontrolada, prejuízos à diferenciação de células e formação disseminada de vasos sanguíneos – todas importantes etapas para o desenvolvimento e progressão de tumores.

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Figura 2: Estrutura de receptor FGFR (destacado com asterisco vermelho assim como seu ligante FGF) e diversas proteínas e vias de sinalização desencadeada a partir do mesmo. A desregulação dessas vias de receptores das formas 2 e 3 ocorre em pacientes com câncer de bexiga que são susceptíveis ao tratamento com o novo medicamento.  Traduzida de: https://clincancerres.aacrjournals.org/content/21/12/2684

As formas 2 e 3 de FGFR (FGFR2 e FGFR3, respectivamente) contendo alterações capazes de levarem a efeitos prejudiciais no organismo estão intimamente envolvidas com o câncer de bexiga avançado ou metastático (com alta probabilidade de levar à formação de tumores secundários em outras regiões do organismo) e com a reincidência deste após terapias convencionais (https://www.jnj.com/balversa-erdafitinib-receives-u-s-fda-approval-for-the-treatment-of-patients-with-locally-advanced-or-metastatic-urothelial-carcinoma-with-certain-fgfr-genetic-alterations). 

 

O Erdafitinib 

O fármaco, que é comercializado nos Estados Unidos sob o nome Balversa (Figura 3),  foi desenvolvido para utilização especialmente em pacientes com câncer de bexiga apresentando alterações genéticas em FGFR2 e/ou FGFR3. Trata-se de um medicamento alvo-específico e o primeiro inibidor de FGFRs aprovado pela FDA para uso em seres humanos (https://www.centerwatch.com/drug-information/fda-approved-drugs/drug/100375/balversa-erdafitinib).

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Figura 3: Erdafitinib.

A aprovação foi realizada de modo acelerado pela agência norte-americana visto que a ela é permitido aprovar medicamentos rapidamente visando tratar doenças graves para as quais ainda não há terapia eficaz, como é o caso do câncer de bexiga avançado ou metastático.

O medicamento, da farmacêutica Janssen, ofereceu ação satisfatória em ensaio realizado junto a 87 pacientes que manifestavam a doença. Alguns destes pacientes que não haviam respondido a tratamento anterior (conhecido como terapia anti PD-L1/PD-1) responderam ao novo fármaco. Dos 87 pacientes 2,3% apresentaram resposta completa ao Erdafitinib e 30% apresentaram resposta parcial como, por exemplo, redução de tamanho do tumor (https://www.drugs.com/newdrugs/fda-approves-balversa-erdafitinib-metastatic-bladder-cancer-4948.html).

A estratégia terapêutica adotada consistiu na ingestão por via oral de um comprimido diário do medicamento e os efeitos colaterais mais preocupantes foram desordens oculares, hiperfosfatemia e toxicidade embrio-fetal. Especial atenção deve ser dada a estes aspectos pelo médico que acompanha o tratamento.

Em um novo estudo realizado nos EUA e publicado este ano, 99 pacientes com tratamentos anteriores que falharam ao deter a progressão do câncer foram tratados com o novo fármaco. Destes, 3% responderam de forma completa ao medicamento e 37% de forma parcial. Entre o grupo de pacientes previamente tratados por imunoterapia os resultados foram otimizados, com resposta de 59%. Os efeitos colaterais mencionados previamente se fizeram presentes em 46% dos pacientes, mas apenas 13% abandonaram o estudo por esta razão (https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1817323).

Os médicos oncologistas brasileiros ainda não podem contar com a utilização deste medicamento em estratégias terapêuticas de seus pacientes visto que a aprovação pela ANVISA ainda não ocorreu, mas a inserção deste na prática clínica nos EUA é um importante passo para que isso venha a ser possível também em território nacional num futuro próximo (https://www.oncologiabrasil.com.br/biomarcadores-e-sua-importancia-para-o-diagnostico-e-tratamento-de-tumores-genitourinarios/).

 

Referências

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