Pequeno conto sobre Ciências Humanas no Brasil

No Brasil, um a cada quatro pós-graduados está desempregado [1] e menos de dois por cento da população possui doutorado [2], boa parte dos quais reside nas capitais federais.

Embora cortes na pasta da educação não sejam novidade, o discurso do governo atual é de desprezo para com a Ciência [4], algo sem precedentes na nossa História [3]. A sua alta taxa de reprovação [5], porém, indica instabilidade política para os próximos anos.

Nesse cenário, trago um pequeno conto para ilustrar a diferença entre o valor de alguém que pesquisa na área das Ciências Humanas e essa constante desvalorização social e no mercado de trabalho sofrida por tantos pesquisadores. Espero, com isso, que possamos refletir mais sobre a importância desses profissionais nos dias atuais.

 

Vitória, Espírito Santo, maio de dois mil e dezenove.

Estava, como de costume, colocando leitura em dia no meio da tarde, o calor amenizado pelo ar condicionado recém-consertado no laboratório de pesquisa no prédio da pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal onde estudo. Eis que se aproxima de mim uma professora do Departamento, e pergunta se sou “aquela aluna que pesquisa refugiados”. Sabendo que sou uma das poucas pesquisadoras sobre o tema naquele ano, então, respondo que sim. Ela sorri com certo alívio e, pedindo desculpas pelo incômodo, pede uma ajuda em um ‘caso de imigração’. Em seguida, narra como lhe foi contado o que se passa com uma pessoa imigrante que seria ‘conhecida de uma amiga’. Ocorria que a imigrante em questão não conseguia receber algo pelo que já havia pago, mas desejava obter com urgência. Tratava-se do comprovante da conclusão de um curso em uma escola particular, que aceitara sua matrícula no meio do ano letivo. A referida instituição de ensino alegava não poder emitir o certificado enquanto a regularização migratória da aluna estivesse pendente, mesmo que cumprido e quitado o curso dentro da normalidade. A aluna dependia desse, entre outros papéis, a fim de regularizar a sua situação migratória no território nacional. Sem mais detalhes, a professora pergunta se eu saberia “resolver o caso”. Embora totalmente fora de meu alcance, estudar o tema fez com que eu soubesse que a assistência jurídica aos estrangeiros constitui prerrogativa da Defensoria Pública da União, órgão presente em todos os Estados da federação. Assim, eu recomendei que as pessoas interessadas buscassem a unidade mais próxima ao seu local de residência habitual para pleitear a defesa do seu direito líquido e certo. A professora agradeceu afinal a esta aluna, transmitindo o comunicado à sua amiga, prometendo que me manteria a par do desenrolar desse caso.

 

Até o momento, não tive notícia deste, como de tantos outros casos para os quais apenas indiquei um possível caminho de uma eventual solução, sempre recebendo em retorno alguma demonstração de gratidão pela ‘ajuda’. Esta ausência de retorno, todavia, não importa tanto para uma relação interpessoal, como deveria importar se o caso referido fosse com relação a uma instituição pública. No Brasil, todavia, poucos são os órgãos aos quais as pessoas imigrantes podem recorrer em busca de informação ou ajuda, e quase todos estão revestidos de um caráter securitário, como é o caso da Polícia Federal.

Esse episódio, em suma, apenas ilustrar o quanto estudar um tema em particular pode vir a tornar a pessoa, cedo ou tarde, uma “referência” para quem a conhece e deseja informações específicas sobre o assunto. Poderia ser a consequência inevitável de todos os dados reunidos no começo desse texto, ou seja: fruto de que outras instituições, além das universidades, raramente empregam em seus quadros pessoas com alto grau de titulação, mas não possuo dados mais conclusivos nesse sentido.

Nesse pequeno texto, quero apenas convidar à reflexão aquelas pessoas que desprezam tanto os pesquisadores da área, quanto ao mesmo tempo lhes buscam em situações que os afligem no cotidiano, para uma “opinião sobre um assunto” ou uma “ajuda rápida”. Sei que a situação da pesquisa científica no Brasil está cada dia mais grave, mas não quero pensar que seja algo definitivo, ou que seu rumo seja algo impossível de mudar.

 

aula

Aula ministrada em ONG (São Paulo, 2015). Acervo pessoal da autora.

 

Sobre a autora:

Sou Doutoranda em Psicologia, tenho trinta e um anos e sou fruto de todos os esforços, privilégios e acasos que me levaram a ocupar uma vaga de doutorado numa universidade federal. Apesar de estar entre as primeiras da família a buscar esse título, não desejo ser as última com chances reais de obtê-lo com nada além de impostos do povo brasileiro. Toda a minha produção está disponível para consulta [6] e, enquanto puder, lutarei pela educação pública universal, de qualidade e gratuita.

Referências:

[1] Correio Braziliense [10/03/2019]

[2] Nexo Jornal [23/10/2017]

[3] Jornal O Tempo [14/05/2019]

[4] Correio Braziliense [10/06/2019]

[5] Jornal O Globo [07/04/2019]

[6] Plataforma Lattes (Beatriz de Barros Souza)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s