O laboratório e o dia-a-dia – Parte II: O que um cientista faz com aquilo que ainda não conseguiu explicar?

Na parte 1 do artigo, conversamos um pouco sobre variáveis dependentes e independentes, falseabilidade e sobre alguns dos objetos de estudo da ciência, e sobre como evitar uso de explicações não consistentes ou não verificáveis dentro do aparato teórico que já temos, evitando extrapolações de afirmações sobre as causas dos fenômenos que estamos estudando. 

Em resumo, queremos evitar misturar afirmações que são verificáveis na prática com conceitos abertos e subjetivos que não temos como verificar, já que esta mistura pode tanto atribuir uma falsa credibilidade científica a pensamentos que estão fora do escopo da ciência (como a existência do sobrenatural) quanto limitar a investigação de um fenômeno complexo através do uso de hipóteses que buscam unicamente cobrir buracos que a teoria ainda não explicou, o que chamamos de hipóteses ad hoc.

Não é só fora do léxico científico que acontecem falhas lógicas para explicar fenômenos. É muito comum, especialmente em manchetes de revistas não especializadas que falam sobre a área de saúde, que se divulguem pesquisas que relacionam, por exemplo, determinados hábitos a doenças. Muitas destas relações possuem de fato fundamentação e uma teoria coerente que as suporta, mas muitas vezes o fenômeno ainda não foi completamente desvendado, ou mesmo está sendo estudado através da observação de padrões que não necessariamente possuem relevância estatística ou relação de causa-consequência, como já foi ilustrado neste artigo.

Muitas vezes também, a chamada da revista que menciona a pesquisa faz um recorte muito reduzido do que a pesquisa realizou de fato, ou menciona números de casos de determinada doença sem mencionar a proporção na população. Daí a importância de não se ater aos títulos e de procurar outras fontes antes de, por exemplo, começar aquela nova dieta que vai te ajudar a evitar rugas, emagrecer e prevenir o câncer.

Alguns fenômenos são bastante complexos e envolvem situações impossíveis de serem reproduzidas em laboratório, até porque nem todas as variáveis são conhecidas. Alguns envolvem uma complexidade que é controlável mas cujas relações estabelecidas não são necessariamente diretas.

Suponha que eu queira, por exemplo, estudar a relação entre o tamanho de uma sala onde uma festa está acontecendo e a probabilidade de alguém quebrar um copo de cerveja. Talvez a chance de algum premiado espatifar um copo esteja relacionada com outros fatores, como a faixa etária dos convidados, a proporção entre homens e mulheres e até mesmo os tipos de cerveja que estão sendo servidas. Mas se queremos descobrir se pode existir um modelo que relacione apenas a probabilidade com a área livre da sala, ignorando todas as demais variáveis (conhecidas e desconhecidas), estamos analisando a probabilidade como variável dependente e a área livre da sala como única variável independente.

Qual a relação entre o tamanho da sala e a chance de alguém quebrar um dos copos? Crédito: Daniel Valverde/pixabay.

Pode ser que, após estudar muitas festas e muitas salas, eu chegue a um padrão que pareça relacionar de forma consistente as duas variáveis. Tudo deve passar por testes estatísticos criteriosos e, mesmo que a relação passe por todos estes testes, dificilmente teremos uma explicação de fato para as causas da relação entre quebra de copos e o tamanho da sala. Além disso, pode haver ligação entre vários fatores que foram ignorados (por exemplo, o tamanho da sala pode interferir a quantidade de pessoas que serão convidadas para a festa, que vai interferir no número de copos que serão quebrados, ou ainda pode ser que os dados que foram disponibilizados não tenham levado em conta a faixa etária e o poder aquisitivo dos anfitriões, ou mesmo se foram utilizados copos de plástico no lugar de copos de vidro). 

Para que se desenvolva de fato um estudo, tese ou teoria sobre como o tamanho da sala influencia na quantidade de copos quebrados, não basta achar correlações entre números.  O papel do cientista aqui é apresentar um olhar crítico sobre a relação encontrada e, se for o caso, propor abordagens do problema que tenham embasamento teórico a partir do trabalho já realizado por outros cientistas, levando em consideração todas as variáveis conhecidas e propondo, quando for o caso, a influência de variáveis que não foram levadas em conta, que poderão ser então verificados por outros cientistas.

Enquanto não houver nenhum resultado baseado em evidências e verificável por outros cientistas, ainda não se está fazendo ciência. Ou seja, se eu encontrar uma relação mágica entre os tamanhos das salas e o número de copos quebrados na festa, esta relação só passa a ser cientifica se ela puder ser posta à prova por outras pessoas em condições rigorosas e reprodutíveis. Isto não quer dizer que teorias científicas constituem a verdade absoluta, ou que elas proporcionem respostas sobre todas as causas dos fenômenos estudados, mas sim que aquele é o ponto máximo a que se pôde chegar, neste momento, a conclusões com o máximo de rigor possível utilizando-se o pensamento racional.

Trata-se de um trabalho cumulativo, lento, colaborativo e que exige tempo e muita verificação e senso crítico para se consolidar e gerar aplicações para a sociedade e para outras áreas da ciência.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s