Nova estratégia para tratar hipertensão portal a caminho?

Já foi abordado neste blog a utilização de antigos fármacos para tratar novas doenças (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/04/03/eu-estava-aqui-o-tempo-todo-e-so-voce-nao-viu-quando-velhos-remedios-tratam-novas-doencas/) ou para tratar doenças que já existem há algum tempo mas são diferentes daquelas para qual o medicamento foi originalmente desenvolvido (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/ 05/01/batalha-contra-a-doenca-de-alzheimer-uma-nova-esperanca-na-forma-de-coquetel-de-moleculas-terapeuticas/). Este texto tem o objetivo de destacar a possibilidade de utilização do fármaco Sivelestat, um inibidor da enzima elastase de neutrófilos e mais comumente usado para tratar insuficiência respiratória aguda, para tratamento de hipertensão portal.

 

A hipertensão portal consiste na elevação de pressão na veia porta hepática (ou mais comumente chamada veia porta – Figura 1), responsável por drenar o sangue das glândulas associadas ao sistema digestivo e do sistema digestivo para o fígado (http://www.sobrice.org.br/paciente/condicoes-clinicas/hipertensao-porta).

 

Figura 1 blog

Figura 1: Fígado e vasos importantes envolvidos em sua circulação. A veia porta pode ser visualizada na imagem.

As causas mais comuns de hipertensão portal são doenças crônicas do fígado, formação de coágulos ou outras alterações vasculares em veias circundantes, ou ainda em regiões endêmicas de esquistossomíases ou esquistossomoses. Para os pacientes, as consequências são severas e há grande ameaça à vida destes com possibilidade de evolução para hemorragia, inchaço da cavidade abdominal por acumulação de fluidos, comprometimento de função cerebral, etc (https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-hep%C3%A1ticos-e-biliares/abordagem-ao-paciente-com-doen%C3%A7a-hep%C3%A1tica/hipertens%C3%A3o-portal). Apenas em 2015 ocorreram no Brasil 28337 mortes devido a cirrose, câncer hepático e transtornos por uso de álcool (http://www.scielo.br/pdf/rbepid/v20s1/1980-5497-rbepid-20-s1-00061.pdf).

Os tratamentos para o problema envolvem opções limitadas que contemplam técnicas invasivas como endoscopias seriadas, associadas ou não, ao uso de medicamentos que ajudem no controle de pressão.

Uma pesquisa desenvolvida recentemente nos EUA por pesquisadores da Mayo Clinic liderados por Vijay Shah, no entanto, tem o potencial de mudar esta situação no futuro. O medicamento Sivelestat foi capaz de diminuir a hipertensão portal em modelos de camundongos usados no estudo, e os resultados obtidos pelos pesquisadores também se mostraram promissores em amostras de fígados humanos.

Os pesquisadores perceberam que um importante fator para a hipertensão portal ocorrer é a formação de coágulos e que as células do sangue conhecidas como neutrófilos têm importante papel no desenvolver do quadro.

O fármaco, ao inibir a função de uma enzima do neutrófilo (elastase) relacionada à formação dos coágulos, contribuiu para que a hipertensão portal fosse diminuída nos animais.

Camundongos nos quais foi induzida a hipertensão portal congestiva foram tratados com injeções de Sivelestat três vezes na semana durante seis semanas, e ao final do tratamento apresentaram não só menos formação de fibrina e outros componentes associados a coágulos, mas também redução de pressão portal (Figura 2).

Figura 2 blog

Figura 2: O tratamento de animais de experimentação com Sivelestat reduziu não apenas a produção de fibrina (a e b), mas também como consequência a pressão portal. Adaptada de (https://doi.org/10.1053/j.gastro.2019.03.013).

A partir dos resultados encontrados no trabalho, incluindo a compreensão do envolvimento de trombos no quadro de hipertensão portal e a possibilidade de se atenuar os sintomas com Sinvelestat, abrem-se novas possibilidades para o desenvolvimento de novos medicamentos para tratar esta enfermidade que pode levar a óbito.

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