Em trabalho inédito, pesquisador brasileiro aborda a audiodescrição de histórias em quadrinhos

Na última quinta-feira, 20 de junho, o blog Cientistas Feministas entrevistou o pesquisador Victor Hugo Cruz Caparica, que recentemente defendeu sua tese de doutorado. Nela, Victor discutiu como audiodescrever histórias em quadrinhos a partir da semiótica e ofereceu inclusive um roteiro experimental da graphic novel Turma da Mônica Laços. A pesquisa inédita e de grande importância social foi o tema da entrevista:

Imagem: capa da graphic novel Turma da Mônica Laços

– Muito obrigada por conversar com a gente, Victor. Você poderia falar um pouco sobre sua pesquisa?

Em 2013 eu descobri que os parâmetros de audiodescrição, as diretrizes de boas práticas, os principais manuais de audiodescrição, tanto no Brasil quanto lá fora, não cobriam as histórias em quadrinhos – na verdade não falavam nada sobre histórias em quadrinhos. Os poucos que tocavam no assunto colocavam dentro de audiodescrição de imagens estáticas, o que simplesmente não funciona. Eu percebi isso notando nenhuma oferta de audiodescrição de quadrinhos, por mais que a oferta em outras áreas seja pequena ela existe. E aí conversando com pesquisadores e audiodescritores eu descobri que nenhum nunca havia tentado trabalhar com isso porque não sabia como. Eu comecei o doutorado em educação especial e, após um semestre, percebi que o meu problema de pesquisa – que era desenvolver parâmetros, diretrizes, uma espécie de protomanual de audiodescrição de quadrinhos – que isso não era um problema de educação especial especificamente, era muito mais um problema de linguagem, de linguística, de tradução. E que eu poderia depois aplicar essas diretrizes em pesquisas na área de educação especial. Então eu fui pro doutorado em linguística na UNESP, em Araquara.

– Sua metodologia incluiu a semiótica, é isso mesmo? Como que foi?

Eu tive a ideia de tentar resolver esse problema usando a semiótica discursiva, de matriz francesa, e a partir dessa ideia eu soube quem procurar e fui atrás do Arnaldo [orientador]. Então a gente passou a trabalhar com autores franceses e brasileiros em cima de semiótica geral do discurso, quanto de autores específicos da semiótica de quadrinhos. Então a gente usou principalmente autores da semiótica para trabalhar análise do texto das histórias em quadrinhos. E, a partir dessa análise, tentar estabelecer um entendimento de como traduzir essa estrutura em palavras.

– Foi um trabalho totalmente inédito, não havia nada parecido.

Não. Embora existam tentativas anteriores pontuais de tentar audiodescrever quadrinhos para pessoas cegas, eram sempre de historinhas curtas, normalmente tirinhas. Nada parecido com tentar descrever uma graphic novel, por exemplo.

– E você conseguiu elaborar um método de tradução?

Com bastante dificuldade, mas consegui. Eu falo na tese que a gente mais conseguiu oferecer um ponto de partida. Eu apresento um conjunto de parâmetros, de diretrizes de audiodescrição semioticamente embasada de histórias em quadrinhos e com um roteiro experimental de uma graphic novel demonstrado a viabilidade, a aplicação experimental dessas diretrizes. No caso, a gente escolheu a graphic novel Turma da Mônica Laços, que agora virou filme inclusive.

– Quais as diferenças da história em quadrinhos para outras mídias?

Uma das coisas que a gente trabalhou foi o que aproveitar de outras diretrizes de audiodescrição, e foi pouca coisa, na verdade. As histórias em quadrinhos são uma linguagem, uma forma de expressão muito peculiar nas suas características. Por exemplo: as histórias em quadrinhos utilizam muito conhecimento técnico e principalmente estético do cinema. Então é muito comum usar técnicas de enquadramento, de angulação do cinema. Mesmo estéticas de cor. Há muito do cinema que as histórias em quadrinhos absorveram. Então dá pra entender um pouco disso a partir das diretrizes de audiodescrição pro cinema? Não, não dá. Porque no cinema você não tem o grande problema das histórias em quadrinhos que é o tempo. Na audiodescrição de um filme, o filme está passando, o tempo de decorrência de um filme é impositivo, o filme não vai pausar para ser audiodescrito, porque a ideia é que pessoas que enxergam assistam junto com as que não enxergam. Então um filme audiodescrito corre no tempo normal do filme e encaixa as descrições nos espaços entre os diálogos. Não há isso nas histórias em quadrinhos. Então em tese não há nada que me diga quanto tempo eu devo ficar descrevendo um mesmo quadro. E a gente sabe que se eu quiser me aprofundar em minúcias, dependendo do autor, eu posso passar uma hora olhando para uma página só. Qual é o tempo? Quando é o momento de virar a página e continuar? Qual é o limite de detalhe? É uma decisão que gastou algumas páginas de reflexão na tese. Ao mesmo tempo, se for comparar os quadrinhos com uma linguagem de imagem estática. Não é cinema, então eu vou descrever um quadro por vez. Isso também é uma discussão que a gente faz na tese. Não é conveniente para o leitor, para a tradução, descrever um quadro por vez, como se fosse só uma sucessão de imagens estáticas. Como dizem praticamente todos os pesquisadores da área e artistas, a história em quadrinhos não acontece nos quadros. A imensa maioria da história em quadrinhos acontece entre os quadros, no que não foi desenhado, no que é pressuposto entre dois estados de ação. Os quadros, em si, são instantes congelados muito pequenos. O ponto é: grande parte da história em quadrinhos ocorre na imaginação. Ocorre no preenchimento mental das lacunas entre um quadro e outro, entre uma página e outra. E isso você não captura descrevendo cada página. Isso requer subjetividade, requer leitura por parte do tradutor. Requer muita reflexão, muita discussão teórica sobre qual a melhor maneira de fazer isso sem incorrer em arbitrariedades do tipo “tem que ser dessa maneira porque eu gosto mais assim”, porque aí você não está fazendo ciência.

– O que te motivou a pensar em audiodescrição para as histórias em quadrinhos? É uma linguagem que você gosta?

Demais. Foi principalmente pela falta que eu sentia e ainda sinto da oferta de material audiodescrito em quadrinhos. Há uma oferta, ainda que pequena, para cinema, séries de televisão, mesmo para teatro, artes plásticas, fotografias. Mas para quadrinho simplesmente não tinha. Eu sou deficiente visual há dezesseis anos, e até então eu consumia muito esse tipo de literatura e passei a sentir muita falta. Então também é uma forma de preencher uma lacuna que me causa muito desconforto.

– Você foi bolsista durante o doutorado?

Fui bolsista da CAPES.

– E você tem planos de continuar com a pesquisa?

Eu adoraria. Gostaria muito de começar um núcleo de audiodescrição no estado de São Paulo, que não tem nenhum. A UFMG, a UFBA, a UFPA e a UECE são algumas universidades que tem núcleos muito legais de pesquisa em audiodescrição e em São Paulo não tem. Seria muito legal iniciar um aqui e produzir mais pesquisa.

– E como você está falando, ainda tem muita coisa a ser estudada…

Muita mesmo.

– Você acha que a academia é um ambiente capacitista?

A sociedade é um ambiente capacitista e a academia faz parte dela. No meu círculo acadêmico há uma preocupação progressista maior. Eu fiz minha parte, ajudei eles [UNESP] a conhecer melhor os déficits de acessibilidade do campus. Não posso reclamar de maneira alguma da questão da boa vontade. Sempre que eu levei qualquer problema foi prontamente atendido, prontamente resolvido na medida do possível. O problema, como sempre, é: qual é a medida do possível? Sobretudo dentro das limitações materiais. Da mesma maneira como é barato projetar um lugar, uma instituição, um conteúdo, vai custar proporcionalmente mais caro depois de feito, de pronto, adequá-lo. É sempre muito mais eficiente projetar para ser acessível do que adaptar. Adaptar custa dinheiro e estamos vivendo um dos períodos mais sombrios de investimento público na ciência brasileira, então isso afeta inclusive a capacidade das instituições serem acessíveis e inclusivas.

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