Analogia entre chocolates e ciência é pura leviandade

Já não era novidade para ninguém que o governo brasileiro pretendia efectuar mudanças controversas no sector da educação. Já tinham sido anunciados cortes de verbas no ensino universitário e a intenção de acabar com cursos como sociologia e filosofia porque, no seu entender não geram “renda para a pessoa e bem-estar para a família”, nem melhoram “a sociedade em sua volta” [1]. Mas, no dia 9 de Maio, em directo na Bolsonaro TV, o Ministro da Educação e o Presidente tiveram uma conversa perfeitamente surreal, ao que parece fazendo uma analogia entre chocolate e ensino superior em que este último afirma que gosta de comer chocolates, “ainda mais de graça”[2]. Pois é, não restam dúvidas que o presidente do Brasil possa gostar de chocolates, até porque como Dave Barry referiu há algum tempo “sua mão e sua boca concordaram há muitos anos que, no que diz respeito ao chocolate, não há necessidade de envolver seu cérebro.” Aquilo que o presidente não sabe é que, para fazer um curso superior em ciências sociais, o cérebro é indispensável. Ou talvez saiba, porque afinal, ele tem um acesso fácil ao chocolate e fica bem longe das ciências sociais…

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Foto: Helena Ferreira

Na verdade, todos os holofotes se viraram agora para o Brasil, porque foi daqui que vieram as últimas ameaças às ciências sociais, apesar de não ser caso único. Como refere Irene Pimentel “qualquer nacional-populista de extrema-direita actual considera supérfluos os livros, a arte e a cultura” e salienta que “a história mostra que qualquer candidato a ditador procura também eliminar a voz de intelectuais, das elites, de profissionais e cientistas” [3]. E é por este motivo que, neste momento, todas e todos sentimos uma absoluta necessidade e responsabilidade, direi até, de defender as Universidades e as Ciências, sobretudo as Sociais e Humanas que são o principal alvo dos que detêm o poder, porque as acusam de estar a ser usadas com motivações ideológicas.

Judith Butler, filósofa, escritora e professora da Universidade de Berkeley, foi uma das primeiras a refutar este despautério, criando um manifesto contra a redução de recursos para as faculdades de ciências sociais, através da Gender International, à semelhança do que já tinha feito no ano passado, quando o presidente da Hungria, Viktor Orbán, proibiu os Estudos de Género nas universidades do país. Assinado por mais de mil académicos de Universidades de todo o mundo, este documento defende que “as ciências sociais e as humanidades não são um luxo” e que “pensar sobre o mundo e compreender as nossas sociedades não deve ser privilégio dos mais ricos” [4]. Os sociólogos de Harvard que também se expressaram através de um manifesto que já foi assinado por mais de 15 000 intelectuais nesta área, de todo o mundo, rejeitam a premissa de que “uma educação universitária é valiosa apenas na medida em que é imediatamente lucrativa” e defendem que o principal “objectivo do ensino superior não é produzir ‘retornos imediatos’ a partir de investimentos”, mas sim “produzir uma sociedade que se beneficie do esforço colectivo para criar o conhecimento humano” [5].

O movimento de solidariedade português surge através de uma carta aberta proposta por académicos de diversas áreas, subscrita pelas principais associações nacionais de investigadores em ciências sociais e humanas: a Sociedade Portuguesa de Filosofia (SPF), a Associação Portuguesa de Sociologia (APS) e a Associação de Portuguesa de Antropologia (APA) e disponível para subscrição pública. Esta carta frisa que “não há sociedades livres sem pensamento livre e não há pensamento livre limitando, condicionando ou vigiando a actividade científica das Ciências Sociais e Humanas” e apelam às autoridades responsáveis no Brasil para que interrompam o processo de “asfixia moral, política e financeira em curso das actividades docentes, de investigação e de transferência de conhecimento nas áreas científicas das Ciências Sociais e Humanas” [6].

Tive a tentação de expor aqui alguns dos contributos das Ciências Sociais para o conhecimento das nossas sociedades sobre elas próprias, mas isso já foi feito, e bem, por muitos antes de mim, como o comprova uma rápida e simples busca no google [7], [8], [9], [10]. Por outro lado, considero triste e desgastante que, em pleno século XXI, sociedades democratas, livres e pensantes não tenham como absolutamente prioritário o ensino das ciências sociais e das humanidades e não tenham percebido o quão importante é o seu contributo para o desenvolvimento, qualificação e valorização das populações e para a sua economia. De facto, já em 2010, Boaventura Sousa Santos [11] tinha afirmado que a dicotomia entre ciências naturais e ciências sociais e os seus retornos já não faz sentido nenhum, porque existe um novo paradigma que, entre outras coisas, adianta que “todo o conhecimento científico-natural é científico-social.”

Foram os próprios avanços das ciências ditas naturais ou puras, como a física e a biologia, que rechaçaram tal dualismo quando introduziram “os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de autodeterminação e até de consciência” nas ciências naturais. Desta forma, as ciências sociais e as humanidades assumiram total protagonismo. Para além disso, o conhecimento não se guia por um único método científico, utiliza todos os meios metodológicos que tem ao seu alcance e é total. E se é total, é também local, porque é útil àquela pequena população daquela pequena comunidade. Por outro lado, se é local é, de certa forma, total porque os projectos de conhecimento locais podem ser reconstituídos em outros espaços cognitivos. Este novo paradigma terá que agregar sempre o social ao científico, porque na era pós-moderna o diálogo entre a ciência e a sociedade é necessário para construir sociedades mais justas, mais equitativas, mais livres e mais democráticas. O mundo será, concomitantemente, natural e social e será observado como um texto, um jogo, um palco, ou uma autobiografia, ou seja, de forma clara e com sentido, apesar de, por vezes, surpreendente e enigmático.

Para terminar, servimo-nos das palavras de Judith Butler, porque nunca poderíamos dizer melhor:

“É impossível entender nosso mundo sem entender as histórias e as imagens, a interpretação e a argumentação. Precisamos das Ciências Humanas e Sociais para desenvolver uma compreensão bem informada da história, da sociedade e da imaginação. Negar essas disciplinas é negar tanto a memória quanto a esperança, e nos deixa à deriva em um mundo impulsionado apenas por forças económicas. Como poderíamos responder à questão sobre o que vivemos e em que tipo de mundo queremos viver se negarmos a filosofia? Como entenderíamos como o mundo é organizado se erradicarmos a sociologia? Pode-se ter qualquer posicionamento político e ainda valorizar esses campos de estudo” [12]

Aqui, pedimos licença à autora para acrescentar que se existe alguém que, devido ao seu posicionamento político, não consegue valorizar estas áreas de investigação e estes conceitos, por favor, que se limite a comer chocolates. O mundo agradece!

 

[1] https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/04/26/bolsonaro-diz-que-mec-estuda-descentralizar-investimento-em-cursos-de-filosofia-e-sociologia.ghtml

[2] https://www.youtube.com/watch?time_continue=9&v=5KOPjSV81J4

[3] https://www.publico.pt/2019/05/11/culturaipsilon/opiniao/elogio-historia-historiadores-esquecer-filosofia-arte-cultura-1871274?fbclid=IwAR1RrAmuBqh9Fq8AKCe6VP1fVoRnNw4S2hHyO00sUuICmZ5LmyNAQsgCMaM

[4] https://www.lemonde.fr/idees/article/2019/05/06/bresil-les-sciences-sociales-et-les-humanites-ne-sont-pas-un-luxe_5458932_3232.html

[5] https://sites.google.com/g.harvard.edu/brazil-solidarity

[6] https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT92978

[7]http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5273/3/Artigo%5b1%5d.Infert.AISO.final.pdf

[8] http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/20393/1/Artigo%20-%20An%C3%A1lise%20Social%20%28Jo%C3%A3o%20Areosa%29.pdf

[9]https://www.academia.edu/38311905/O_contributo_das_ci%C3%AAncias_sociais_para_a_exegese_contempor%C3%A2nea

[10] http://www.redalyc.org/pdf/4815/481547173029.pdf

[11] http://www.scielo.br/pdf/ea/v2n2/v2n2a07.pdf

[12] https://oglobo.globo.com/sociedade/negar-as-ciencias-humanas-nos-deixa-deriva-num-mundo-movido-por-forcas-economicas-diz-judith-butler-23647897?fbclid=IwAR0-y6EmS16NruTq9P5CPZEwtSBBK8KFU8F94Nlhq-cYbQX2_3pxlVJ1Ino

 

 

 

 

 

 

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