Batalha contra a Doença de Alzheimer: uma nova esperança na forma de coquetel de moléculas terapêuticas

A Doença de Alzheimer já foi abordada neste blog em diversas ocasiões (https://cientistasfeministas.wordpress.com/?s=alzheimer) e continua a desafiar cientistas na busca por novas opções de diagnóstico e tratamento.

Em janeiro deste ano foi publicado trabalho desenvolvido por cientistas norte americanos que utilizaram um coquetel de moléculas terapêuticas sintéticas para tratar a Doença de Alzheimer (DA), e obtiveram melhora significativa no quadro de animais de experimentação em fases iniciais da doença, com reestabelecimento de memória (https://www.cell.com/action/showPdf?pii=S2211-1247%2818%2931932-6).

A DA foi descrita pelo psiquiatra e neuroanatomista Alois Alzheimer em 1906 durante uma palestra (http://www.ghente.org/ciencia/genetica/alzheimer.htm). Os pacientes apresentam desorientação e perda de memória e de locomoção progressivos, além dos demais sintomas de demência: como estados vegetativos temporários (evoluindo para permanentes) e morte (http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/alzheimer).

Os achados principais no cérebro desses pacientes são depósitos de placas amiloides no meio extracelular e emaranhados neurofibrilares (ricos em proteína Tau fosforilada – http://ggaging.com/export-pdf/191/v6n3a07.pdf) no meio intracelular.  A associação de peptídeos beta-amiloide (Figura 1) a proteínas príon (http://www.revistaseletronicas.fmu.br/index.php/ACIS/article/download/580/702) desencadeia o acumular tóxico destas placas e induz resposta do sistema imune, que em conjunto acabam por causar a morte de neurônios e perda de comunicação entre estes na forma de sinapses (http://abraz.org.br/web/sobre-alzheimer/atualizacoes-cientificas/).

FIGURA 1

Figura 1: Peptídeo beta-amiloide (PDB 2LFM).

Após os cientistas, liderados pelo professor Stephen Strittmatter, testarem um grande número de compostos, um antigo antibiótico se mostrou promissor (leia também o texto sobre antigos fármacos para tratar novas doenças https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/04/03/eu-estava-aqui-o-tempo-todo-e-so-voce-nao-viu-quando-velhos-remedios-tratam-novas-doencas/) após ser decomposto para formar um polímero. Alguns outros polímeros também se mostraram capazes de passar pela barreira hemato-encefálica e exibir o efeito desejado.

Foram analisados 2560 fármacos e mais 10130 moléculas pequenas diversas e a cefalosporina Cefixime se mostrou inibitória. No entanto, no re-teste se percebeu que não era a forma natural do antibiótico que exibia a ação, e sim sua forma decomposta (obtida após incubação em DMSO a 23ºC por 6 dias). A forma degradada de Ceftazidime, outra cefalosporina, também exibiu atividade de inibir a associação de proteínas príon e peptídeos beta-amiloide.  

Os cientistas identificaram ainda polímeros de carga negativa capazes de interação específica com proteínas príon, como o polímero sintético poli [ácido 4-estireno sulfônico-ácido co-maleico] – PSCMA.

O coquetel de compostos poliméricos foi então dissolvido e ofertado a camundongos modelo para a Doença de Alzheimer, provocando reparo das sinapses e recuperação de memória.

Em um dos experimentos, os cientistas analisaram cortes de hipocampo dos animais para verificar a comunicação entre os neurônios (sinapses). A proteína SV2a é um marcador eficiente presente nos neurônios pré-sinápticos e nos animais que não sofrem de DA (WT), os níveis se mostraram antes do tratamento, maiores que o dos animais modelo de Alzheimer (TG) (Figura 2A e Figura 2C – sem polímero), devido a estes últimos sofrerem, como esperado, com perda de sinapses pela doença. No entanto, após tratamento com PSCMA por 30 dias (2 vezes ao dia), os animais modelo para a doença (TG) alcançaram o padrão de presença do marcador equivalente ao dos animais saudáveis (WT) (Figura 2B e Figura 2C – com polímero).

FIGURA 2

Figura 2: Recorte e adaptação da Figura 7 do trabalho de Strittmatter e colaboradores, 2019 (https://www.cell.com/action/showPdf?pii=S2211-1247%2818%2931932-6) evidenciando como o tratamento com PSCMA pode recuperar os níveis de SV2a em neurônios pré-sinápticos de camundongos modelo de DA.

Os resultados são animadores para o desenvolvimento de uma nova estratégia terapêutica para o Alzheimer em fases iniciais. Os pesquisadores se dedicam atualmente aos testes para verificar se a formulação não é tóxica para utilização em humanos nos ensaios clínicos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s